[1] A ma intelligencia que Faria e Sousa deo a este verso, o fez duvidar se este naufragio foi antes ou depois do desterro, porque diz elle: Deste modo de hablar parece que se infiere que á este naufragio sucedió el destierro; pues dice que á aquella fortuna sucederá el ejecutar-se en él un injusto mandato... Mas los poetas en sus cláusulas suelen mudar los tiempos: y asi aquello de será ejecutado puede estar por fué ejecutado. Y si no es esto, quedaré sin poder averiguarlo. Mas nem he isto por certo, nem de o não ser se segue que ao naufragio succedesse o desterro, antes se confirma que o precedeo; porque ainda os pouco versados na lingua Portugueza não ignorão que o verbo ser tem duas accepções; a de ser e a de estar: e se na significação propria de ser denotaria, neste lugar, o principio da acção, na de estar, em que o tomou o poeta, denota o complemento e termo della. E sendo este uso tão frequente ainda nos melhores prosadores, he para admirar que a um homem tão lido, como Faria e Sousa, podesse causar estranheza ou novidade. Mas nem tudo occorre a todos. E para que não succeda o mesmo a alguns leitores, julgámos conveniente deixar aqui esta advertencia.

[2] Os dous irmãos Jesuitas, Luis e Martim Gonçalves da Camara, aquelle confessor, este escrivão da puridade, ou secretario intimo de ElRei, que tyrannizavão o reino, e de longe ião preparando o jugo, que por sessenta annos depois pesou sobre o collo da infeliz nação: aos quaes o Bispo Ozorio, indignado de taes escandalos, dirigio uma carta, onde se lia o seguinte:

"Somente lembro a V. R. e ao Sñr. Martim Gonçalves seu irmão, hajão de sustentar esta grandeza, em que os pôz a fortuna, como o mundo cuida, ou o bem commum como Vossas Mercês dizem; pois nunca vi maior esquecimento, que tratarem-se as cousas como nunca se tratárão, e fazerem a si e a pessoa de um Rei (que naturalmente he amavel) os mais aborrecidos, os mais odiosos que nunca houve, antes e depois de Dom Pedro o Cru; em tanto que a gente em todolos estados e qualidades falla sem medo, e jurão os Portuguezes que tomárão antes ser governados por dous Turcos, que os tratassem com amor e prudencia, que do modo que agora o são: que nenhum mal tamanho póde vir a este Reino, nem a pessoa propria de ElRei (que o nosso Senhor guarde) que não houvessem por grandissima dita, se com isso se houvessem de ver livres do estado em que se vem."

[3] Esta Canção e a precedente são feitas ao mesmo assumpto; e em sentença e dicção pouco differem. Quer Faria e Sousa que esta fosse a primeira que o poeta escreveo, e que, desgostoso della, passára a escrever segunda. Mas para nós não he líquido qual fosse a elegida pelo autor, porque, sendo ambas admiraveis, em alguns lugares se vencem uma á outra. E não podemos persuadir-nos que ao remate da ultima Estancia desta:

E porque não cabia dentro nella
De bens tamanhos tanto,
Sahe por a boca convertido em canto

preferisse o poeta o daquell'outra:

Se bem a declarei,
Eu não a escrevo, da alma a trasladei.

por ser este um pensamento, inda que delicado e sublime, por elle ja repisado em varios lugares das suas Rimas, e aquelle inteiramente novo e peregrino.

Nota dos editores.

[4] Conjectura Faria e Sousa que este Soneto fosse feito a seu avô Estacio de Faria, amigo de Camões, e como elle poeta e soldado.

[5] Este Soneto anda impresso nas Rimas de Diogo Bernardes, que o deu por seu.

[6] Em resposta ao Soneto: "Quem he este que na harpa Lusitana."

[7] Bernardes imprimio este Soneto como seu e é o 77 nas suas Rimas, aindaque os seus mesmos contemporaneos o julgavão de Camões, imprimindo-o na primeira ed. de suas Rimas.

[8] A D. Rodrigo Pinheiro, que foi Bispo do Porto, segundo conjectura Faria.

[9] A Manuel Barata, famoso professor de Calligraphia no seculo XVI, publicando a sua Arte de escrever em 1572.

[10] Á morte de D. Antonio de Noronha, morto em hum recontro com os Mouros, junto a Ceuta em 1553.

[11] A sepultura de D. Henrique de Menezes, septimo Governador da India, fallecido em Goa no anno de 1526.

[12] Este he tambem hum dos Sonetos que Bernardes publicou por seus, e que Faria achou nos M. S. que continhão obras de Camões.

[13] Diversos forão os cavalleiros deste apellido que servírão com distincção na India no tempo de Camões. Suppomos que o Soneto foi feito a D. Fernando de Menezes Baroche, que passou á India com seu Pae o Viso-Rei D. Affonso de Noronha, na mesma nao em que ia Camões, onde naturalmente contrahírão amizade; pois este fidalgo foi encarregado por seu pae no anno de 1554 de ir curzar com uma armada no Estreito.

[14] Tambem este Soneto anda nas Rimas de Bernardes.

[15] A D. Theodosio de Bragança.

[16] Tambem impresso entre os de Bernardes.

[17] A D. Guiomar de Blasfet, Dama da Rainha D. Catherina, tendo cahido de hum castiçal uma vela accesa que lhe queimou o rosto.

[18] A D. João de Castro.

[19] A D. Theodosio de Bragança.

[20] A D. Luis de Ataïde, voltando pela segunda vez a governar a India, no anno de 1577. Bernardes tambem metteu este Soneto entre os seus.

[21] Em um M. S. foi achado este Soneto com este titulo: De Luis de Camões a uma Dama que lhe enviou uma lagrima entre dous pratos. Thomaz d'Aquino.

[22] Este Soneto, diz Faria e Sousa, em um M. S. se entítula do Conde de Vimioso; e anda tambem impresso entre os de Bernardes e he o 79.

[23] Na morte da Infanta D. Maria filha d'ElRei D. Manuel e de sua terceira Rainha D. Leonor.

[24] Ao Viso-Rei D. Luis d'Ataïde.

[25] A João Lopes Leitão, a quem se attribue o Soneto em louvor de Camões: "Quem he este que na harpa Lusitana."

[26] A D. Leoniz Pereira, defendendo valerosamente a praça de Malaca de que era Capitão, contra o formidavel poder do Achem, em 1568.

[27] A D. Antonio de Noronha.

[28] A D. João de Lencastro, Duque de Aveiro, neto de D. João II.

[29] A D. Antonio de Noronha.

[30] Á morte de D. Antonio de Noronha e do Principe D. João, pae d'ElRei D. Sebastião.

[31] A D. Francisco Coutinho, Conde do Redondo, Viso-Rei da India, por occasião de haver Garcia da Orta, famoso Medico Portuguez, publicado em Goa em 1563 uma obra intitulada: Colloquio dos Simples, e cousas medicinaes da India.