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Rita
Farinha (Agosto 2010)
A ARCHITECTURA RELIGIOSA
NA
EDADE-MÉDIA
ENSAIOS DE HISTORIA DA ARTE
A ARCHITECTURA RELIGIOSA
NA
EDADE-MÉDIA
POR
AUGUSTO FUSCHINI
LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1904
A Minha Filha
Octavia Fuschini de Lima Mayer
INTRODUCÇÃO
As noções fundamentaes do nosso espirito
são absolutamente indefiniveis. Sentem-se; nada
mais. Se lhe procurarmos a definição, cahiremos
em simples labyrintos de palavras, consistindo,
quasi sempre, em verdadeiros circulos viciosos.
Tomemos, para exemplo, o espaço e o tempo,
noções bem fundamentaes.
O que é o espaço? É o
meio, sem limites,
onde existem em continuo movimento todos os
corpos; o que equivale a dizer que o
espaço é
o
espaço.
O que é o tempo? É a serie indefinida de
momentos, durante os quaes se realisa a successão
dos factos physicos e moraes; o que
equivale a dizer que o
tempo
é o
tempo.
Assim, parece que as idéas ou noções
fundamentaes
teem o singular caracter de ser facilmente
comprehensiveis pela intelligencia humana,
sem que ella tenha palavras rigorosas
ou phrases perfeitas, para as definir com sufficiente
clareza.
Dados o espaço e o tempo, a materia e o
espirito em perpetuo movimento produzem a
totalidade dos factos e phenomenos physicos
e moraes, constituindo o Universo, que sem as
primeiras noções seria absolutamente impossivel
e incomprehensivel.
Pouco nos importa saber, n'este momento, se
a materia e o espirito coexistem, ou se o espirito
é apenas um attributo da materia, organisada
segundo leis desconhecidas. Os phenomenos passam-se
como se fossem distinctos; deixemos,
pois, a investigação d'este problema, que
aliás
parece insoluvel, aos metaphysicos e aos theologos.
O que podemos considerar quasi certo é que
a materia em movimento nos dá as
noções exactas
do espaço e do tempo; e o espirito em
actividade nos dá, tambem, as noções
claras
do bem, do bello e do justo, que são como as
primeiras completamente indefiniveis na sua natureza
absoluta.
Quem aprecia o tempo e o espaço? Os sentidos
physicos.
Quem aprecia o bem, o bello e o justo? Esse
sentido especial e perfeitissimo,
denominado consciencia,
a faculdade de
julgar que
possue a intelligencia
humana.
As similhanças mostram-se ainda mais intimas.
As noções do espaço e do tempo
são
inseparaveis. A nossa intelligencia não pode conceber
uma sem a outra. O bello, o bem e o justo
manifestam a mesma qualidade. São
noções correlativas.
É certo que a complexidade dos phenomenos
animicos torna esta correlação menos evidente
do que a primeira, mais simples e clara pela
sua origem physica; mas, discutindo bem e com
profundidade qualquer facto de ordem animica,
chega-se a descobrir que uma d'estas noções do
nosso espirito envolve, sempre, as outras duas
em maior ou menor grau.
Assim, pois, poderemos, sem grande receio
de errar, estabelecer tres definições:
A Arte é a expressão do bello;
A Moral é a expressão do bem;
O Direito é a expressão da justiça.
Ora, como as noções do nosso espirito se
manifestam
subordinadas a leis geraes, temos tres
sciencias, que estudam as manifestações externas
e visiveis da propria essencia do espirito
humano.
Eis-nos entrados no campo positivo e experimental.
Um longo periodo historico prova já
que o nosso espirito é successivamente perfectivel
e evolutivo; não o sendo, de certo, nos principios
fundamentaes, mas sim na applicação
d'esses principios e na variedade infinita de
combinações, que se podem fazer com as
idéas,
como se obtem com as notações musicaes.
Se nos fosse permittido, empregariamos a seguinte
expressão: a perfectibilidade é a lei fundamental
do espirito humano, a evolução o seu
methodo.
Convém, todavia, observar, como um facto
historico e psychologico, que a alma humana—digamos
a palavra—não é perfeitamente livre
no pensamento e na acção. Deixemos a theoria
do
Livre Arbitio para ser definida
em Concilio.
Os astros, esses até, que estão sujeitos a
leis immutaveis e mathematicas, soffrem
perturbações
nas respectivas orbitas, por influencias
ainda mysteriosas algumas, outras descobertas
em certos casos. Ora, sobre as leis moraes
as influencias são variadissimas; por isso,
o
astro espiritual, a
Idéa, caminha sempre em
determinado sentido, ás vezes, com enormes
desvios.
O raciocinio prevê as causas d'essas grandes
irregularidades e a experiencia demonstra a
verdade d'essas previsões.
Em relação á Arte, estas causas podem
grupar-se
em tres grandes categorias:
1.ª A influencia do
meio natural,
da atmosphera
physica e cosmica;
2.ª A influencia do
meio historico,
isto é, do
conjuncto de circumstancias que em dado momento
constituem a atmosphera social;
3.ª A influencia do
meio particular
de cada
individuo, formado pelo proprio caracter e talento,
pelas suas condições dentro da sociedade
e da familia, ou pelo menos, dentro do pequeno
grupo social, em que se executa o seu trabalho
e se exerce a sua actividade.
Teremos occasião de explicar mais tarde algumas
applicações d'estes principios; mas seja-nos
permittido concretisal-os um pouco mais,
principalmente o primeiro.
Nas leis historicas—e a Arte tem historia
e leis—entre as influencias, actuando obscura
e vigorosamente sobre o caracter dos povos e
sobre os destinos das nações, a sciencia
não
conseguiu ainda definir bem a acção profunda
dos elementos climatericos e geographicos sobre
o espirito humano; todavia, essa influencia presente-se,
ou melhor prova-se e deduz-se da diversidade
das raças e dos caracteres moraes
dos habitantes da terra.
A forma humana, como é incontestavel, soffre
a influencia d'este
meio externo e
ás modificações
d'essa forma correspondem modos de ser
e intensidades differentes de intelligencia. Ora,
se nas linhas geraes do nosso espirito se observa
a acção dos agentes climatericos e geographicos,
como a vida dos povos depende das
proprias funcções intellectuaes e, pelo menos,
em forte proporção o bem e o mal proveem do
exercicio da intelligencia humana, não é vago
presentimento mas verdade scientifica a existencia
de leis, embora ainda não formuladas, que
expliquem a correlação das idéas e das
instituições
dos povos com a climatologia e a geographia
da zona habitada.
Na constituição de certas
noções, esta influencia
deve ser profunda. A noção de Deus, o melhor
manancial da Arte, e o grupo de idéas
e de sentimentos, que em volta d'ella, como
centro, constituem por assim dizer uma categoria
do espirito humano, estão, sem duvida,
n'estas condições. O exemplo é
excellente.
Seja qual fôr a origem da crença no sobrenatural,
derive esta crença da intima essencia
da alma, provenha da revelação divina,
nasça
da generalisação espiritual ou material das
forças
naturaes, funde-se na grandeza dos factos
cosmicos, ou no receio dos phenomenos physicos,
é indiscutivel que a essencia e a
evolução
da idéa de Deus e das formulas do culto externo
offerecem caracteres mais ou menos harmonicos
com as condições geographicas e climatericas,
que lhes serviram de ambiente.
O polytheismo guerreiro, honesto e nebuloso,
dos povos septentrionaes da Europa e o polytheismo
grego, livre e artistico, foram concebidos
em
meios differentes. As
regiões asperas e
rudes do norte, onde os gelos e as tempestades,
durante longo periodo do anno, difficultam
a lucta pela existencia, não podiam ser habitadas
pelas divindades do Olympo.
O ceu puro da Grecia, a limpidez da atmosphera
jámais escurecida por tempestades terriveis,
a amenidade do clima, os contornos suaves
dos montes, o murmurio poetico dos pequenos
rios, as frescas florestas de platanos em valles
abertos, o perfume de flores variadas, o sabor
delicado dos fructos, em summa, as excellentes
condições climatericas e geographicas da Grecia
permittiram ao genio popular a creação de uma
familia de divindades, em quem o amor sensual,
o gôso physico e a belleza das formas traduziram
admiravelmente a doçura das forças naturaes.
As vagas enormes, revoltas e furiosas dos
mares arcticos não podiam gerar a belleza do
Eterno Feminino. Das ondas serenas do mar
Egeu, coroadas de espuma branca e transparente
como finissima renda, que vinham quebrar-se
com suavidade sobre a areia dourada
das costas do Peloponeso, nasceu o formoso
corpo de Venus, a expressão ideal da belleza
da forma.
E, todavia, germanos e gregos eram da mesma
raça, d'esses aryas brancos e louros que dos
confins da Bactriana, talvez por caminhos differentes,
haviam emigrado, seguindo a trajectoria
do Sol, que lhes indicava propheticamente a
sua grande obra, a futura civilisação da Europa.
Se fizermos tambem estudos sobre raças differentes,
chegaremos aos mesmos resultados.
A
anthropomorphose da
idéa de Deus é lei fundamental
do espirito humano e até hoje o manancial
mais rico de productos artisticos de todas
as ordens. A representação physica e a
definição
moral da divindade derivam, sem a menor duvida,
da idealisação e da
generalisação das qualidades
physicas e psychicas do homem. Pode
haver duvida se, conforme o
Genesis,
o homem
foi creado á imagem e similhança de Deus;
é,
porém, indiscutivel que na
constituição d'este
symbolo lhe demos muito da nossa forma e
ainda mais do nosso espirito.
Eram polytheistas as raças aryanas, segundo
parece. A duvida pode nascer de que na Grecia
o polytheismo pertencia ás classes populares,
emquanto os sabios criam na Unidade do Espirito.
Assim, Anaxagoras, Socrates e a sua escola,
em que floresceram os maiores sabios, philosophos,
estadistas e artistas do grande seculo
de Pericles, acreditavam na unidade de Deus;
eram monotheistas.
Seja como fôr, é facil de comparar a forma
e o espirito de Jupiter, do Monte Olympo, com
os de Jehovah, do Monte Sinai, isto é, a
concepção
da divindade entre aryas polytheistas, os
gregos, e semitas monotheistas, os hebreus.
A figura sombria e magestosa de Jehovah não
só era feita á imagem e similhança do
caracter
hebreu; mas reflectia, tambem, a grandeza melancholica
da cordilheira do Libano e das montanhas
da Palestina.
Esse Espirito, vivendo fóra do cahos e creando
a ordem entre os elementos, eternos como elle,
pelo esforço da propria vontade omnisciente, ora
energico e duro, ora manso e amoroso, pedindo
a Abrahão o cruel sacrificio do filho e contentando-se
com a offerta no templo de algumas
pombas brancas, era o reflexo d'esse clima da
Palestina, onde, umas vezes, furiosas tempestades
electricas rasgam as calliginosas nuvens
e os raios fazem explodir os rochedos, ou o
simoun, soprando dos areiaes
ardentes da Arabia,
secca as plantas e prostra os homens; onde,
outras vezes, os ventos frescos do Mediterraneo,
fazendo voar no ceu azul bandos de nuvens
brancas, levam a frescura e a vida á flora
tropical riquissima das campinas da antiga
Judéa.
Se apreciarmos bem a natureza essencial dos
factos mythologicos, que formam a biographia
lendaria de Jupiter, encontraremos não o espirito
ardente, sombrio e puro da divindidade
hebraica, mas esse caracter leviano e sensual,
que define a raça hellenica, pelo menos no ramo
jonico. Foi ainda a acção do clima, que facetou
os caracteres da raça; foram ainda estes caracteres,
que se crystallisaram n'uma forma especial
da idéa de Deus.
Emquanto á influencia do
meio social, que
poderiamos escrever que não fossem paraphrases
das idéas e copias das leis positivas, que
Taine expoz, com a maior lucidez de espirito
e brilhantismo de estylo, na
Philosophia da
arte, depois applicada á Grecia,
á Italia e aos
Paizes Baixos?
De facto, se o
meio climaterico e
geographico
envolve e faceta o espirito humano, o
meio social ou historico tem ainda
mais profunda
e directa influencia sobre o individuo.
Assim, pode dizer-se, em rigor, que o homem
existe mergulhado n'uma atmosphera moral e
intellectual, da qual recebe, se nos é consentida
a phrase, a alimentação animica.
Ora, a acção d'esta atmosphera exerce-se
tanto mais energica e activamente, quanto as
manifestações intellectuaes mais dependem do
mundo exterior. A sciencia pode até certo ponto
dispensar o applauso das multidões; a arte, pelo
contrario, exige-a, porque o seu principal fim
consiste em corresponder a essa necessidade do
bello, que parece ser qualidade fundamental da
alma humana.
Diz-se que Wronski descobriu leis mathematicas,
que só poderão ser bem comprehendidas
em seculos futuros. Admittamos a hypothese.
Affirmaremos pela nossa parte que artista algum
terá a pretensão de crear primores para
as gerações futuras, sob pena de não
ter admiradores
actuaes, o que lhe pede o proprio espirito,
e compradores, o que em regra lhe exigirão
as conveniencias particulares.
A regra de boa philosophia que nos aconselha
a sermos
homens do nosso tempo,
é uma
lei suprema para os artistas, imposta pela propria
essencia da arte e pelas necessidades animicas
e sociaes dos seus cultores.
Assim, a influencia do
meio social,
que se
exerce sobre todas as manifestações do espirito
humano, actua com maior intensidade nos de
ordem esthetica.
Convem, egualmente, attender á influencia do
caracter individual do artista, ao seu pequeno
meio familiar, ao ambiente das
amizades e dos
odios que se forma em volta de nós sempre e
mais actua sobre os grandes artistas, em regra,
neurasthenicos e possessos da nevrose do genio
e do talento. Taine tambem se refere a este
ponto, um pouco ao de leve talvez. Sem a ousadia
de o completar, citemos um exemplo curioso
e caracteristico, um só para não avolumar
esta modesta exposição.
É sabido que no seculo XVII Sevilha foi um
riquissimo centro de Arte. Na
casa de
ouro
reuniam-se, dia a dia, poetas, prosadores, pintores
e esculptores, entre elles Cervantes, Quevedo,
Murillo, Valdez Leal, Montañez, Herrera
e muitos outros. N'esse seculo a escola hespanhola
de pintura attingira o maior esplendor.
Os chefes da escola sevilhana eram Murillo e
Valdez Leal, que aliás é pouco conhecido
fóra
da peninsula a não ser pelos eruditos.
Murillo era um santo homem, modesto e simples
no viver, um mystico absorto no amor de
Deus e da familia, artista colossal, creado e feito
pelo unico esforço do seu genio e pelo amigavel
auxilio de Velasquez. Valdez Leal, pelo contrario,
era um genio atrabiliario, cheio de
emulação
ardente a roçar quasi pela inveja, ambicioso e
energico, bom catholico de certo porque era
perigoso não o ser no seculo XVII, principalmente
em Hespanha. Genio tinha-o, não tanto
como Murillo; mas o genio transparece nos seus
quadros, a nosso ver principalmente no formoso
quadro do
Bispo morto roido pelos vermes da
morte, uma maravilha de perspectiva, de desenho,
de côr e de effeitos de luz.
O caracter d'estes grandes pintores traduz-se
nas suas obras. O estylo vaporoso de Murillo,
o seu estylo definitivo, offerece as qualidades
do seu espirito. Colorido suavissimo, contornos
um pouco vagos, expressões bondosas em assumptos
mysticos, dão uma impressão ideal aos
seus quadros, dos quaes, se o nome se perdesse,
se poderiam deduzir as qualidades do espirito
do auctor.
Valdez Leal tem qualidades extraordinarias,
não é duro como João de Castilho,
mestre commum
d'elle e de Murillo, nem violento como
Herrera; mas sente-se na sua pintura a influencia
da vontade e o azedume do caracter.
Este exemplo parece-nos ser frisante e podia
ser completado com outros, até entre nós e nos
tempos modernos...
Expostas estas doutrinas sobre a influencia
do ambiente, que envolve a evolução da Arte
e actua sobre os artistas, convem observar que
a acção do mundo exterior tende a diminuir
com o desenrolar do progresso. É, talvez, esta
uma das causas da especie de
anarchia, que
hoje se observa na producção da Arte e nos
estylos dos artistas. O excesso de individualismo
dá, sem duvida, liberdade e expansão aos
genios; mas o genio é a excepção e a
regra o
talento.
Podemos, pois, acceitar como demonstrado,
que a Arte é evolutiva e as suas phases especiaes,
os estylos, correspondem a estados do espirito
humano, sob a influencia das condições
particulares da natureza, da sociedade e até do
proprio individuo.
Appliquemos esta doutrina á Architectura,
porque os seus productos, pela propria grandeza
e quantidade, se conservam melhor e se
perdem menos, manifestando, assim, menores
soluções de continuidade. Limitaremos, por
obvias razões, esta applicação
á Architectura
religiosa nos tempos christãos, o assumpto exclusivo
d'este livro, fazendo, apenas, um breve
schema.
O Estylo Classico grego, modificando algumas
qualidades e ganhando outras, produziu o Classico
Romano.
O espirito do Christianismo, no Imperio do
Occidente, obtendo a liberdade e a acção social,
apoderou-se do classico romano, modificou-o, segundo
as necessidades religiosas e do culto, gerando
o Estylo Latino. Ao mesmo tempo quasi
parallelamente, o Christianismo no Imperio do
Oriente, fundando-se em outros elementos, creava
o Estylo Byzantino. Sob a acção do elemento
barbaro, os dois estylos, caminhando para o
centro da Europa, se nos é permittida a
expressão,
encontraram-se, harmonisaram-se, produzindo
o Estylo Romanico.
As modificações profundas, occorridas nas
sociedades
dos seculos XI, XII e XIII, transformaram
o Estylo Romanico, nascendo o Estylo Ogival,
que atravessou tres seculos, para a seu turno
se transformar, sob a acção poderosa da
Renascença.
Os estylos são, pois, élos d'essa cadeia de
phases architectonicas, que se estende atravez
dos seculos, ligando a inspiração e o trabalho
da Humanidade.
Assim, a Arte é a expressão do bello, e o
Estylo a forma particular d'essa expressão, em
determinado periodo historico.
PARTE PRIMEIRA
ORIGENS DA ARCHITECTURA CHRISTÃ
CAPITULO PRIMEIRO
A LUCTA ENTRE O PAGANISMO E O CHRISTIANISMO
O antigo espirito classico, que produzira as magnificas
civilisações da Grecia e de Roma, esmorecia,
como esmagado sob o peso da sua propria e grandiosa
obra, quando dois elementos novos, talvez regulados
pela lei suprema da conservação e do perpetuo
rejuvenescimento
da Humanidade, se manifestaram com profundo
vigor e intensidade no seio das velhas sociedades
decadentes: o Christianismo e a invasão dos
barbaros.
Assim, os factos historicos, as idéas e os sentimentos
humanos, as instituições sociaes, a moral, a
politica
e a arte, se explicam pela acção reciproca e
poderosa
dos tres principios, o classico, o christão e o
barbaro, que são as causas efficientes da edade-media
e da civilisação moderna.
Já no tempo de Cesar e de Augusto, os primeiros
Imperadores, cuja grandeza de genio é incontestavel,
a sociedade romana entrára em plena decadencia. Os
vicios da antiga Republica, que os bons cidadãos e os
philosophos contemporaneos não haviam podido expungir,
cavaram-lhe a ruina.
O Imperio correspondia, sem duvida, ás necessidades
de corrigir ardentes ambições em continuas
luctas,
que produzem sempre a anarchia politica, e de imprimir
acção energica e centralisadora á
enorme expansão
das conquistas; mas o Imperio trazia na propria essencia
dois vicios terriveis e inevitaveis: o despotismo, a
extincção completa das ultimas liberdades
publicas,
e a constituição militar, como poder especial
independente
dos cidadãos, o
militarismo segundo a
expressão
moderna.
Na agonia da Republica, Catão de Utica previra o
desastre. Luctara para o evitar, chegando até a apontar
o homem, Julio Cesar, que devia destruir o quasi
phantasma da antiga liberdade romana. O futuro
Dictador, ainda muito novo, espreitava e preparava,
entre os prazeres dos ricos e dos poderosos da Roma
republicana, pelo amor das mulheres, pela elegancia,
pelos costumes faceis e até pela lisonja, a origem da
grandeza, que mais tarde encontrou no proconsulado
das Gallias.
Assim tambem, Napoleão, frequentando os salões
politicos e litterarios do Directorio republicano, conseguiu
ser nomeado general em chefe dos exercitos da
Italia. Singular coincidencia entre dois homens de
caracter tão parecido, dois genios innegavelmente; um
procura nas Gallias, a França, outro na Italia, a Republica
Romana, as origens de futuros imperios!
Durante o Imperio, pelo menos nos primeiros tempos,
as ambições foram enfreadas pela existencia do
poder perpetuo da dictadura; mas, se algumas das
antigas instituições conservaram os nomes,
foram-lhes
tiradas a pouco e pouco as ultimas funcções. Os
fracos
lampejos da liberdade republicana em breve se
extinguiram na escuridão profunda do mais feroz despotismo,
até hoje conhecido. O Cesar era dictador
e pontifice-maximo, o soberano absoluto dos povos e
o chefe espiritual das consciencias.
Tambem é certo que a energia da
centralisação
politica e administrativa do Imperio facilitou o espirito
conquistador e a conservação das conquistas, mais
do que o podia fazer a esphacelada Republica; mas,
como consequencia logica, estas mesmas condições
favoraveis prepararam o militarismo. Os exercitos nacionaes
da Republica tornaram-se as legiões cesarianas
do Imperio, que lhes pagava e as dirigia, transformando-se
a pouco e pouco em guardas do Imperador.
Era natural e logica esta confusão entre o homem e o
principio. A nação, o povo, a liberdade, os
direitos
dos cidadãos, tudo desapparecera encarnado na pessoa
de um Cesar deificado.
Os resultados eram fataes. Tiberio creou as
guardas
pretorianas para defeza da pessoa do Imperador.
Sentindo a sua força, os
pretores imperiaes completaram
depois logicamente a doutrina e as guardas pretorianas
começaram a escolher os Cesares.
O despotismo e a centralisação do Imperio
accentuaram,
assim, as causas da decadencia da sociedade
romana, dando-lhe, apenas, por algum tempo um falso
aspecto de força e de grandeza.
Nos ultimos annos da Republica era já, na realidade,
profunda a desmoralisação das classes superiores.
O ouro das depredações, feitas nas provincias
conquistadas,
os costumes luxuosos e dissolutos, importados
com o ouro dos povos orientaes, os grandes latifundios,
em que se dividia a Italia, possuidos por
familias poderosas, haviam amollecido a antiga rigidez
do caracter romano. São ainda hoje citadas e celebres
as prodigalidades da magnificencia e do luxo de Lucullo,
questor da Asia.
As despezas excessivas de um estado de guerra
constante em regiões differentes e afastadas, a defeza
de vastissimas fronteiras, já então
ameaçadas em mais
de um ponto, as estradas e as respectivas obras, pontes,
castellos, campos entrincheirados, que constituiam a
admiravel rede de communicações militares romanas
dentro e fóra da Italia, as
espoliações dos grandes e
pequenos funccionarios, exigiam o ardor do fisco, motivavam-lhe
as violencias, exercendo-se, como sempre,
sobre as classes populares.
Estas pessimas sementes, lançadas no campo da democracia,
ainda haviam sido contrariadas durante a
Republica por instituições e franquias populares.
O
Imperio, nivelando a sociedade abaixo de um Cesar
deificado de quem tudo e todos dependiam, extinguindo
as ultimas liberdades, creando uma especie de côrte de
grandioso fausto, que no tempo de Elagabalo attingiu
as loucuras orientaes nos costumes e no luxo, desenvolvendo
por necessidade o espirito e as forças militares,
accentuou estas causas de decadencia. Nos começos
do Imperio, um philosopho epicurista, Petronio,
deixou-nos uma face viva d'esse estado moral e social,
n'uma satyra celebre e cheia de vigorosa ironia, o
Satyricon.
A religião polytheista perdera o prestigio e a
força.
As classes superiores professavam um epicurismo devasso,
elegante e atheu. O povo, sem crenças, debatia-se
na miseria politica e economica. Os mythos do
polytheismo podiam interessar imaginações
ardentes
e poeticas; mas não consolavam desgraçados, que
sobre
a terra sentiam apenas, sem uma esperança, a
rudeza do trabalho, as crueldades da dôr e o receio
da morte.
Os deuses tinham perdido o seu prestigio, porque
não faziam milagres; esses deuses alegres e devassos,
que acceitavam os Cesares por collegas e o deixavam,
a elle, pobre povo, soffrer e morrer de fome, mais miseravel
e esquecido do que as bestas das cavallariças
imperiaes...
A religião precisa de milagres, como a politica de
grandes e espectaculosos factos, para se engrandecerem
aos olhos dos simples. Esta necessidade do espirito
humano mais vulgar comprehendeu-a Jesus Christo,
o honesto e bom, o illuminado pela Justiça Divina,
elle, que tanto lhe repugnava fazel-os.
A philosophia oppunha ainda impotentes esforços
ao desabar da sociedade romana; mas bem na essencia
era tambem epicurista. Além d'isso, prégar a
moral
pelo valor da propria moral, dizer aos simples de
espirito que a virtude tem em si o proprio premio,
exaltar a humildade e a pobreza aos pequenos, quando
os soberbos e os ricos avassalam os bens e os prazeres
do mundo, é doutrina assás abstracta que
só comprehendem
os philosophos, embora ás vezes não a
pratiquem. Seneca, no principio do Imperio, ensinava
esta doutrina ao povo romano, escrevia livros elogiando
a pobreza; mas o philosopho esquecia-se, apenas,
de que era feliz e riquissimo. A philosophia só é
uma grande força, quando o exemplo acompanha a
palavra.
Por esse tempo, principio do Imperio, na provincia
romana da Judea, manifestou-se o Christianismo. As
causas efficientes d'este esplendido e profundo movimento
do espirito humano não podem ser desenvolvidas
e estudadas em trabalho d'esta natureza.
A egualdade entre os homens de todas as raças e
condições, o amor e a fraternidade humanas
enunciadas
como leis supremas, a fé profunda na existencia
de um Deus justo, feito á imagem e similhança da
bondade e da doçura de Christo, a esperança n'uma
vida eterna de felicidade e de goso, merecido premio
das virtudes e boas obras sobre a terra, doce
compensação
dos soffrimentos d'este mundo, emfim, a essencia
delicada do Christianismo desceu sobre os desgraçados,
os pobres, os enfermos, os escravos, essa
enorme legião de miseraveis, affagou-os, levantou-lhes
as almas, como a chuva fresca e crystallina levanta
as cearas resequidas por longo sol ardente.
Falar aos escravos em liberdade, egualal-os aos senhores,
reconhecer-lhes alma e direitos sobre a terra,
embalal-os com a visão mystica de uma vida eterna,
nunca o polytheismo tivera esta linguagem eloquente,
nem os philosophos e os moralistas classicos haviam
professado taes doutrinas.
Devemos observar que a escravidão no mundo classico
era um facto legitimo, consequencia logica das
organisações sociaes. O cidadão livre
dirigia o Estado,
o escravo trabalhava e produzia. As democracias gregas
e a romana, como no Oriente, professavam a divisão
das castas, embora mais adoçadas. A cabeça, os
braços e os pés tinham
funcções hierarchicas differentes.
A grandiosa estatua social repousava sobre o
plintho da escravidão: se o destruissem, o colosso
ruiria em pedaços.
Alem d'isso, o numero de escravos em Italia, principalmente
na grande e populosa Roma dos Cesares,
era enorme; prisioneiros de guerra uns, outros reduzidos
á escravidão hereditaria ou por varias causas,
mas em grande parte da mesma raça dos senhores, ou
de raças equivalentes. A escravidão moderna
defendeu-se,
por longo tempo, recrutando as victimas entre
as raças negras ou indias da America, consideradas
inferiores. O escravo do mundo antigo, recordando-se
da passada liberdade, ou sentindo-se do
mesmo sangue dos senhores, devia experimentar bem
no fundo da alma o sentimento de revolta, que nenhuma
miseria humana consegue suffocar. As grandes
sublevações servis, principalmente a ultima de
Spartaco,
um seculo antes de Christo, confirmam estas
observações.
A doutrina de Christo, cheia de amor, de esperança
e de bondade, era tambem de molde para suggestionar
a alma da mulher, incutindo-lhe a fé e o ardor do
proselytismo. O espirito feminino é um instrumento
perfeito e delicado. A natureza creou as mulheres para
nossas amantes e mães, as duas expressões mais
finas
e elevadas dos sentimentos humanos; por isso, se não
lhes concedeu outros em larga escala, as notas da
alma feminina são n'estes de deliciosa finura, ás
vezes
incomprehensivel para os homens vulgares.
A mulher classica estava bem longe de ter subido
ao logar elevado, que depois lhe deu o Christianismo
no seio da familia. A grega vivia isolada no
gyneceo,
leve sombra do serralho dos povos orientaes. A romana
subira um pouco; sendo, porem, ainda considerada
sujeita ao marido, como os filhos ao patrio poder.
O divorcio entre os antigos era um facto corrente
e facil; ora, a mulher sente que o seu logar é na familia.
O adulterio, crime horrendo para as mulheres,
soffria em geral penas infamantes ou a morte. A mulher
classica era, em summa, uma serva, uma filha,
uma forma de propriedade do marido.
O Christianismo tornava-a companheira e egual ao
homem. Christo dissera que o casamento na terra
se mantinha no Ceu. Jesus defendera a adultera e, um
dia, glorificou a loura mulher de Magdala, envolvendo
a prostituta no doce manto do seu amor, glorificando-a
perante os homens e salvando-a perante Deus.
O Christianismo tinha a linguagem, eloquente e expressiva,
que entendem logo os simples e as mulheres.
Assim, nos primeiros tempos, o florilegio christão
é
riquissimo em martyres femininos. A mulher morre
pela religião de Christo com a fé e a
resignação, diremos
mais, com a vontade e a energia do homem.
É um facto singular d'este bello e grandioso movimento
do espirito humano.
O polytheismo era a religião da forma e da belleza,
cheia de mythos absurdos e incomprehensiveis, religião
de culto externo, secca philosophia encarnada em
symbolos obscuros. O Christianismo era a religião do
espirito, replecto de doces verdades e de sentimentos
adoraveis, religião de culto interno, moral clara e divina
que Jesus Christo expozera com phrases singelas
no bello sermão da montanha.
Os prophetas hebraicos haviam dito que seria espiritual
a religião do futuro e constituiria o patrimonio
da humanidade; que a piedade valia mais do que o
sacrificio e o conhecimento de Deus mais do que os
holocaustos. Nós vemos hoje realisada a grande obra
de Christo. Os prophetas viram o futuro a quarenta
seculos de distancia!
Assim, se explica como o Christianismo teve uma
expansão enorme, apenas começou a ser
evangelisado
entre os povos classicos, sujeitos ao jugo do Imperio.
O
meio estava preparado, a doutrina
era excellente.
Os que soffriam os males de espirito, os Os que soffriam os males de
espirito, os que padeciam
as doenças da carne, os pobres, os enfermos, as
victimas da sociedade classica, affluiam ás catecheses,
bebendo com soffrega delicia o filtro espiritual do
Verbo Eterno.
A diffusão da religião christã em
Roma, logo nos
primeiros annos, constitue um facto assombroso na
historia do proselytismo. Já no anno 64 de Christo, o
grande incendio, que devorou parte importante de
Roma, pôde ser attribuido á malevolencia dos
adeptos
das novas idéas, considerados conspiradores contra
o Imperio e gente de costumes suspeitos e mysteriosos.
Nero iniciou as perseguições, o que demonstra
o espirito que reinava em Roma e o numero avultado
de christãos, que impelliam os poderes constituidos a
extinguil-os pela força e pela violencia.
Os melhores imperadores romanos, assim considerados
ainda hoje pelo genio politico e pelo caracter
pessoal, foram os maiores perseguidores dos christãos.
Trajano, Marco Aurelio, Deocleciano alargaram
as perseguições pelas vastas provincias do
Imperio. O
sangue correu em jorros, sem distincção de edade
e
sexo. A lucta foi terrivel e desegual entre as idéas
classicas, que então representavam a ordem, e as
idéas christãs, innovações
perigosas e immoraes, segundo
a critica do tempo. Os primeiros tres seculos
do Christianismo constituem o periodo brilhante dos
martyres, cujo sangue cimentou a
pedra, sobre a qual
Jesus Christo fundára a sua Egreja.
As perseguições não foram simples
actos de crueldade,
como o suppozeram os christãos, que depois imfamaram
os imperadores, fazendo a historia a seu
modo. Eram actos politicos; ora, a politica de força e
de violencia confunde-se com facilidade com a violencia
de odios e de crimes. Eis o que explica a furia
singular e ardente dos bons imperadores romanos
contra o Christianismo.
O poder em exercicio é sempre conservador por
natureza e essencia; deve sel-o até, entre certos limites,
por deveres de responsabilidade. O Christianismo
apresentava-se como uma revolução nos espiritos,
a
transformação radical da religião
pagã em que se
fundavam as sociedades classicas. A consciencia da
egualdade e da liberdade humanas atacava a intima
essencia do paganismo, substituia-lhe a moral, modificava-lhe
a politica e feria de morte os principios da
sua organisação economica.
O despotismo repousa sobre a passividade dos cidadãos,
precisa d'elles inertes de vontade, movendo-se
como automatos sob rigida disciplina, ás ordens respeitadas
e não discutidas do poder supremo. É a lei
da constituição do despotismo, que seguiu mais
tarde
Santo Ignacio de Loyolla, quando pretendeu oppor a
terrivel machina de guerra, a Companhia de Jesus,
aos progressos da Reforma.
O Christianismo creava homens livres e conscientes;
embora o seu espirito mystico tendesse infelizmente
a destruir as qualidades civicas, o
civismo a virtude
das sociedades classicas. Além d'isso, o Cesar-Imperador
era o
pontifice-maximo, poderiamos
dizer o papa
da religião pagã. O Christianismo atacava-o nas
duas
principaes origens do poder despotico, fazendo sair
do marasmo e da podridão o espirito humano e matando-lhe
a influencia religiosa sobre milhões de
individuos.
É verdade que Jesus Christo dissera:
dae
a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de
Deus;
mas... dissera-o sorrindo...
Estavam, pois, gravemente ameaçadas as grandes
forças do Imperio; a segunda, a
organisação religiosa,
condemnada sem remedio e talvez fosse a principal.
Constantino protegeu o Christianismo desde os primeiros
tempos do seu reinado; mas só se baptisou alguns
dias antes de morrer. O grande estrategico-politico,
usando da força do Christianismo, apoiando-se
n'elle, não abdicou o cargo e a importancia de
pontifice-maximo,
isto é, a influencia sobre o paganismo,
senão nos ultimos momentos da sua vida.
Eis como se explica a lucta tremenda entre as duas
doutrinas, uma representando o mundo antigo, outra
que trazia em si o germen das futuras sociedades. Admiravel
manifestação da força irresistivel da
verdade
e da justiça!
O Imperio Romano, o maior poder que até hoje viu
a terra, e o paganismo, que formára tantas
civilisações
e creara a philosophia, a sciencia e a grande arte classicas,
esses dois colossos, dispondo de tudo que tem
força e valor n'este mundo, levantaram-se com impeto
terrivel para esmagar o verbo simples e verdadeiro
de um judeu desconhecido da Gallilea. E a força e o
poder cairam vencidos pela Idéa!
Jesus Christo, envolvido em pobre tunica, acompanhado
de poucos discipulos, pronunciára a sentença
da destruição do paganismo, quando do alto da
montanha,
com voz doce e suave, annunciou á Humanidade
o bello preceito:
Amae a Deus sobre todas as cousas
e ao proximo como a vós mesmo.
A revolução estava feita. Christo foi a
encarnação
da Idéa, que então correspondia ás
necessidades intellectuaes
e moraes da Humanidade e preparava os
seus futuros destinos.
Admiravel manifestação da força
irresistivel da verdade
e da justiça!
CAPITULO
SEGUNDO
OS TRES PRIMEIROS SECULOS DO CHRISTIANISMO
Pelas razões expostas no precedente capitulo, era
muito difficil e perigosa a situação do
Christianismo,
nos primeiros seculos. As grandes perseguições
repetiam-se,
sempre com maior intensidade e crueza, sob
os successivos imperadores, que, muito naturalmente,
procuravam conquistar a força e a sympathia da
opinião
publica pagã, exigindo d'elles as violencias e as
atrocidades caracteristicas das luctas religiosas. No intervallo
d'estas exacerbações de odios, a
desconfiança e
a vigilancia insupportaveis e constantes opprimiam o
gremio dos christãos, que, aliás, nos primeiros
tempos
devia ser constituido em geral por elementos pobres
e obscuros, sem força alguma na politica e na
administração
do Imperio.
Este estado de cousas prolongou-se desde as primeiras
manifestações visiveis do Christianismo em
Roma, em data impossivel de fixar, até ao reinado de
Constantino, isto é, durante um periodo de mais de tres
seculos. A ultima e mais formidavel perseguição
foi ordenada
por Diocleciano no anno 303 da éra christã.
A tetrarchia, que então governava o Imperio, facilitou
esta colossal e longa perseguição, estendendo-a
por
todas as provincias romanas, com a crueldade e o vigor
que manifestam sempre as medidas extremas de
salvação publica.
Durante estes tres seculos terriveis, a grande maioria
dos pobres e dos ignorantes, que constituia a
associação
christã, não tinha qualidades, nem gosto,
nem tempo, para cultivar as artes, aliás já bem
decadentes
n'essa epoca. Perseguidos pelas auctoridades
romanas, dominados por ardente proselytismo, em
continuas catecheses, vivendo receiosos entre perigos e
miserias, não lhes sobravam, decerto, vontade e tempo
para cultivar as artes, ainda que para isso possuissem
qualidades estheticas.
O Christianismo era doutrina tão espiritual, fazia
depender tanto a felicidade da prece e da virtude, elevando
a alma a Deus e conduzindo-a ao Ceu, que as
formas visiveis do bello, a plastica das artes, deviam
ser consideradas inuteis, se não peccadoras, aos olhos
dos crentes. O mysticismo da edade-media e a seita
dos Iconoclastas estavam latentes no Christianismo
nascente.
Alem d'isso, os christãos perseguidos, considerados
inimigos da sociedade pagã, não podiam construir
templos, nem ter formas publicas de culto, imagens
de Deus e dos martyres, sempre o melhor manancial
da Arte, que nos seculos futuros produzirão phases
artisticas de grande valor. Nem eram ricos, ao menos,
para cultivar as artes, suppondo que o ardor da propaganda
e o espirito da religião lhes consentissem o
culto pagão da forma.
A religião precisa de reunir os seus adeptos, para
mutuamente avigorarem a fé e incitarem a
esperança.
Sem a communidade dos fieis, a religião toma o aspecto
de simples philosophia, mais ou menos completa,
fria, sem vigor de propaganda, porque as multidões,
ligadas pela mesma idéa, teem em si o condão
singular
de excitar o enthusiasmo, essa embriaguez
d'alma que a leva até ao sacrificio.
Os christãos reuniram-se, sem duvida, desde os primeiros
tempos; mas essas reuniões eram clandestinas,
como as dos conspiradores dos tempos modernos. Os
logares mais occultos e afastados deviam ser os preferidos.
Era logico. Quando o gremio religioso cresceu,
e cresceu rapidamente, não devia ser facil problema
encontrar logares amplos e seguros para a
communicação
dos fieis e as necessidades do culto, embora nascente
e simples.
A estas necessidades correspondiam as
catacumbas,
vastos subterraneos que existiam em volta do centro
populoso da Roma dos Cesares. A religião christã
em
Roma desenvolveu-se debaixo da terra, como para
symbolisar a acção da Idéa Nova, que
ia minando e
corroendo as bases das antigas sociedades pagãs.
O auctor d'este livro visitou em Roma uma das
mais famosas
catacumbas, a de S.
Calixto. Percorrendo
os subterraneos, lobregos e humidos labyrintos
de encruzilhadas, guiado pela luz mortiça de uma
lampada, sentiu na alma a poesia do passado, revelaram-se-lhe
a fé e a esperança, doces e profundas,
que os seus
irmãos em
Christo, de ha dois mil annos
quasi, sentiam, quando receiosos mas resolutos vinham
por entradas e caminhos differentes reunir-se no
sanctuario, para a admissão de neophytos e para as
praticas religiosas.
N'aquella atmosphera pesada e humida pareceu-lhe
ouvir ainda os primitivos canticos, a historia poetica
dos martyres mortos que a linguagem eloquente do
espirito religioso dava aos vivos, como exemplo. Enthusiasmou-se
com a fé simples e primitiva, nutriu a
esperança firme e serena na desejada victoria; emfim,
durante algumas horas, sentiu-se possesso, deliciosamente
possesso, da energia de vontade, da pureza de
sentimentos e da firmeza de crenças de um iniciado
d'esses primeiros seculos do Christianismo.
Galerias sinuosas e extensas de secção regular,
um
metro por dois metros, cruzam-se com angulos muito
abertos, formando um complicado tecido de subterraneos,
excavados em tufo escuro, porôso e infiltrado de
agua. Nas duas paredes lateraes d'estas galerias, longas
filas horisontaes de sarchophagos, sobrepostos por
vezes em tres ordens, foram excavadas na rocha
branda. Eram as sepulturas dos primeiros christãos.
Nos tempos primitivos, provavelmente, esses sarcophagos
foram fechados por lapides; mas hoje, abertos
e negros á luz vacillante da lampada, essas filas extensas
de buracos teem um aspecto monstruoso, infundem
um sentimento de pavor e de espanto, terriveis
quando no fundo de alguns se vêem ainda branquejar
os ossos e as caveiras de seres, que soffreram e morreram
ha quasi dois mil annos.
De grandes em grandes espaços, estas galerias alargam-se,
ou convergem umas poucas, formando subterraneos
amplos de maior altura de abobada natural.
São os sanctuarios, ou as cryptas. Nas catacumbas de
S. Calixto, existe n'estas condições uma grande
sala
de forma rectangular, que, sem duvida, constituia o
templo, para onde se descia de fóra por longa escadadaria,
construida depois de Constantino, isto é, da liberdade
do Christianismo. Do lado esquerdo do templo,
passa se para a grande
crypta de Santa Cecilia.
Parece attestar que ahi foi depositado o corpo da nobre
e rica dama de Roma, uma esculptura na parede
representando uma mulher luxuosamente adornada.
Esta crypta communica com a dos Papas, assim chamada
por conter um grande numero de Pontifices do
terceiro seculo da era christã. Sarcophagos de pedra
de esculptura archaica conservam ainda os restos dos
martyres, uns esquecidos, outros beatificados ou santificados
pela Egreja.
Dedalos de corredores, constituindo enormes necropoles,
sobrepõem-se ás vezes em dois e tres andares
e, se é verdadeira a affirmação,
estendem-se nas
catacumbas de S. Calixto por mais de quinze kilometros.
O reconhecimento da liberdade religiosa do Christianismo
tirou ás catacumbas a importancia primitiva.
Transformadas em logares de veneranda tradição,
conservadas, talvez, para cemiterio de alguns christãos
mais afamados, as catacumbas soffreram
modificações
na anterior disposição. Assim, nos sitios mais
importantes
foram rasgados
luminarios, que
deixam passar
luz de fóra, tenue e duvidosa, e
arcocelios que enfeitavam
e cobriam sarcophagos de pedra. Estas obras parecem
de caracter posterior á emancipação do
Christianismo
e a logica leva a crel-o.
Eis, em rapidos traços, os caracteres geraes d'estes
sombrios subterraneos, onde nasceu a luz brilhante do
Christianismo e os grupos cada vez mais numerosos
de homens de boa vontade construiam
os alicerces das
modernas sociedades.
É evidente que até ao seculo IV os
christãos, sob
a acção da vigilancia pagã,
não podiam construir templos.
A architectura christã, pelo menos, nasceu depois
d'este seculo. O mesmo se póde dizer sobre a esculptura
dos arcocelios e dos sarcophagos, grandes
peças difficeis de trabalhar dentro das catacumbas e
impossiveis de transportar de fóra, por longos corredores
estreitos, sob as vistas dos agentes das
perseguições,
que o eram todos os adeptos e defensores do
antigo polytheismo.
A arte d'este tempo é ingenua. Consiste, como é
de crer, em esculpturas grosseiras. A maior parte das
pinturas, se muitas existiram, deve tel-as desfeito o
tempo. Além d'isso, não nos parece facil
distinguir
hoje o que foi feito no tempo das perseguições,
ou
depois da liberdade do Christianismo, em que as catacumbas
deviam ser consideradas logares santos e
concorridos pela veneração dos fieis.
Estas razões, que nos parecem fundadas, circumscreveram
ainda mais a acção dos artistas
christãos dos
seculos primitivos. A arte n'esse tempo limitou-se a
pinturas e esculpturas simples, baixos relevos ligeiros,
verdadeiros traços profundos desenhando figuras informes,
ou ingenuos symbolos, uns adequados do paganismo
ao espirito da nova religião, outros creados,
como linguagem mysteriosa, que só os iniciados podiam
ler e comprehender. Assim, o peixe, symbolo de
Jesus Christo, é um emblema muito espalhado nas
catacumbas. Era necessario, com effeito, ser iniciado
para comprehender que Ichtus, em grego o peixe,
representava aos olhos dos fieis as primeiras lettras
das palavras mysticas:
Jesus Christo, Filho de Deus,
Salvador.
Inutil seria e prolixo, n'este ponto, descrever os symbolismos
religiosos, que envolvem um ligeiro caracter
de arte: a pomba e ás vezes Psyche alada, que representavam
a alma; a ancora a esperança; o ramo de
oliveira a paz; e tantos outros symbolos e allegorias,
que ainda hoje se encontram nos costumes da Egreja
e na tradição dos povos christãos.
Na realidade, tudo isto não constituia verdadeira
arte; muito embora nas primeiras egrejas do Estylo
Latino possamos encontrar elementos trazidos das catacumbas.
As cryptas dos templos lembram as das
catacumbas. Os tumulos de pedra dos martyres e
santos, que nas catacumbas serviam de altares, apparecem
mais tarde no Estylo Latino. São usos respeitados;
a tradição santifica-os, conserva-os e
transforma-os.
Eis ainda um exemplo da evolução da Arte.
Taes eram as condições sociaes e moraes do
Christianismo,
antes do IV seculo. No anno 306, Constantino,
filho de Constancio Chloro tetrarcha das Gallias
e da Bretanha, foi proclamado imperador pelas legiões
gaulezas.
O grande periodo da Edade-Media vae começar em
breve. O poderoso Imperador Constantino, o genial espirito
do primeiro christão coroado, parece presidir a
este periodo historico, em que se accentua a
evolução
e o poder do Christianismo, creando novas sociedades
e novos estylos de Arte.
Constantino era um grande homem e um profundo
politico. Sem falarmos na unidade e na
organisação
do Imperio, que elle creou com admiravel energia e
sagacidade nem sempre clementes e doces, dois actos
seus demonstram-lhe o valor: a protecção
concedida
ao Christianismo e a escolha da situação de
Byzancio,
para capital do Imperio. Estes dois factos, além de
influencia enorme sobre a conservação do Imperio,
tiveram
acção profunda e decisiva na
evolução social da
religião e das artes christãs.
É evidente que esta evolução tinha de
existir, porque,
já antes do reinado de Constantino, o Christianismo,
moralmente vencedor, não podia ser suffocado;
mas o movimento seria diverso, talvez mais lento e de
caracteres secundarios differentes. Os grandes homens
não conseguem crear as opportunidades, nem modificar
as causas profundas que transformam o modo de
ser animico e social da humanidade; comtudo, o genio
aproveita-as, imprime-lhes caracter especial, dirige-as
em determinado caminho, de entre os variados de que
dispõe a natureza e o espirito para se approximar
indefinidamente
do fim supremo, os ideaes do bem, do
bello e da justiça.
Constantino vira nas Gallias o caminhar rapido do
Christianismo. Tinha assistido, provavelmente, aos
actos de perseguição alli praticados por ordem de
Deocleciano. Sentira a fé dos crentes, apreciára
a
energia de alma dos martyres, a valentia das mulheres
que se deixavam suppliciar, sem protestos, sem
choros, olhando o Ceu com esperança e cobrindo apenas
os corpos, animadas d'esse pudôr do espirito que
desconhecia quasi o paganismo. Para elles, martyres,
a morte não era horrivel; por um lado, davam
o exemplo, por outro, obtinham a liberdade da alma,
que em breve ia ser feliz, vivendo para sempre no
seio do doce Christo. Constantino era um genio e os
genios vêem sempre no futuro.
Depois, annos de morticinio não extinguiam os
christãos.
Parecia que a flora do Christianismo rebentava
sempre mais forte e variada. A suggestão do martyrio,
fundando-se na esperança, trazia novos adeptos,
que appareciam por toda a parte, como nos campos
cobertos de relva pullulam as boninas brancas na primavera.
Constantino era politico e os politicos usam das forças
vivas para os seus altos designios. A idéa e a
força
sempre crescente do Christianismo, que haviam levado,
talvez, Diocleciano a abdicar a coroa imperial
não podendo transigir com elle, eram elementos necessarios,
unicos, para o sonho de Constantino, a unificação
e a reorganisação do antigo Imperio Romano.
Alem d'isso, Constantino era um philosopho. A idéa
polytheista estava condemnada. Os verdadeiros sabios
nunca haviam acreditado n'esses mythos monstruosos
uns, ingenuos outros; n'essa religião, emfim, sob cuja
influencia cabiam aos pedaços a politica das sociedades
pagãs e a moral dos cidadãos. A doutrina
christã,
simples e virtuosa, o seu principio deista, a unidade
do Espirito Supremo ideal dos philosophos, deviam
ter um encanto poetico aos olhos do imperador, constituir
uma aspiração da sua alma.
Não é, pois, necessaria a
revelação divina para explicar
a conversão de Constantino. Em nome das
perseguições
feitas aos christãos, o novo imperador marcha
contra seu cunhado Mazencio, o tetrarcha da Italia,
derrota-o nos campos do Pó, aperta-o na retirada e,
ajudado pelos christãos, levando na frente o
labarum,
com a cruz de Christo e o prophetico lemma
in hoc
signo
vinces, vence-o e fal-o morrer junto dos muros de
Roma. No anno seguinte, em 313, o imperador publica
em Milão o Edito de Tolerancia, a aurora da liberdade
para a Egreja triumphante.
Dois annos depois, ataca o tetrarcha do Oriente, Licinio,
sempre a titulo das perseguições exercidas contra
os christãos; derrota-o em Siballis, aprisiona-o,
promette-lhe a vida e manda-o matar passado tempo!
A unidade politica do Imperio estava feita; faltava,
apenas, a organisação administrativa. Os
christãos haviam
sido auxiliares do imperador; tornaram-se, pois,
seus protegidos. Constantino não combatia ainda abertamente
o paganismo; enfraquecia-o a pouco e pouco,
enchendo os christãos de favores, mostrando por elles
viva predilecção. Ora, os favores e a
predilecção dos
poderosos são uma ordem e um incentivo para os pequenos.
O trabalho de propaganda de Constantino foi lento
e efficaz. Não bastava que o Christianismo vivesse de
tolerancia. Antes de ser religião do Estado, precisava
tornar-se pessoa moral, possuir propriedade, o que entre
os romanos era a melhor manifestação de
força e
de soberania. Em 321, outro Edito imperial auctorisa
a Egreja a receber donativos e a possuir bens temporaes.
O imperador concede, depois, privilegios aos
templos da nova religião, entre elles o direito de asylo
dos templos classicos; eguala os dois sacerdocios em
direitos e regalias; começa até a perseguir os
pagãos.
Eram costumes do tempo.
Para dar unidade á nova Egreja e expungir a heresia
de Ario, que no terceiro seculo do Christianismo
ameaçava já a tradição
orthodoxa, Constantino convocou
em 325 o primeiro Concilio Ecumenico, a reunião
dos bispos de todas as dioceses do Imperio, em Nicea.
Este concilio teve subida importancia sobre a unidade
e a disciplina do Christianismo, como mais tarde a
manifestou, tambem, o Concilio de Trento, iniciando
a theocracia dos pontifices romanos. Deu o exemplo
da definição do dogma nas reuniões da
Egreja Universal;
fixou a doutrina da consubstanciação do Pae e
do Filho; divinisou Jesus Christo, enunciando o
Symbolo
dos Apostolos, ainda hoje o
Credo resado pelos
christãos;
finalmente, fulminou o anathema e a excommunhão
sobre Ario e a sua doutrina, que negavam esta
consubstanciação.
O arianismo, porém, não se deu por vencido e,
durante
seculos, manifestou profunda influencia sobre o
Christianismo, principalmente na catechese dos povos
barbaros.
Assim, pode dizer-se que o arianismo, preparando o
espirito dos povos germanicos, é o verdadeiro germen
do movimento da reforma religiosa, que nos seculos
futuros dividiu o Christianismo em dois poderosos ramos,
o catholico e o protestante.
Constantino fizera-se christão de facto, faltava-lhe
apenas o baptismo; comtudo, como esse sacramento lhe
sacrificaria as funcções e a influencia de
pontifice-maximo
do paganismo perseguido, quasi extincto mas
tendo ainda proselytos, o imperador, encarnando-se no
politico, deixa a prova indubitavel e solemne da conversão,
para os ultimos dias da vida. O politico ainda
transparece na escolha de Byzancio, reedificada e engrandecida,
para capital do Imperio. Com effeito, em
torno das suas vastas fronteiras, já no tempo de
Constantino,
uma cinta de ferro de povos barbaros cingia-se
cada vez mais. Eram as ondas das invasões, que
se começavam a formar e entrarão com movimento
irresistivel no seculo seguinte.
O genio de Constantino presentiu a proxima e inevitavel
lucta, o terrivel choque dos povos do norte nas
fronteiras do Imperio. A cidade de Byzancio, defendida
pelo Caucaso, pelo Mar Negro e pelo profundo
fosso do Bosphoro, offerecia-lhe uma posição
relativamente
mais segura do que Roma para capital, o cerebro
e a alma dos seus vastos estados. O imperador
transferiu a séde do governo para Constantinopla, no
anno 330 da nossa era.
Assim, o Christianismo foi reconhecido religião do
Estado, official e professada pelo imperador, segundo
o antigo aphorismo:
cujus regio, ejus
religio.
Um novo periodo historico vae, pois, começar para
a Humanidade. A politica e a moral, expressões geraes
da actividade humana, manifestarão caracteres differentes
do passado. O espirito do Christianismo presidirá
a esta phase longa e brilhante da evolução
historica, que ha de inflorar-se com a
civilisação e o
progresso modernos.
Entre o mundo classico e o christão parece existir
hoje um abysmo; todavia, na evolução do espirito
não occorreu a menor solução de
continuidade.
As sociedades modernas ligam-se ás antigas, como
a arvore se prende ao solo pelas raizes, como a
planta se enxerta n'outra, de que recebe a seiva e o
alimento.
A arte classica e a christã parecem, tambem, distinctas,
quando na realidade nasceram ambas do movimento
evolutivo e ascencional do espirito humano. As
differenças provéem da intima natureza das
religiões,
que imprimiu caracteres especiaes á expressão do
bello, a Arte, nas duas sociedades.
Todas as religiões se dirigem, mais ou menos directamente
conforme a perfeição da doutrina e do culto,
para o ideal do bem, do bello e do justo; mas procuram-n'o
por differentes caminhos. O polytheismo grego
e romano, pelas condições especiaes da sua
formação,
via esse ideal atravez da belleza da forma. O Christianismo,
pelo contrario, contempla-o atravez da belleza
do espirito. Os fins são identicos; apenas os meios
de os attingir se manifestam differentes.
A religião classica exaltava a alma, penetrando-a de
doce sensualismo. O amor e o goso eram bens da vida,
de que os proprios Deuses davam bons exemplos. Diogenes
no seu tonel professava esta doutrina. Desprezando
as vaidades do mundo, aquecia-se aos raios do
sol e contemplava o bello visivel da natureza.
A religião christã exalta a alma, penetrando-a de
elevado espiritualismo. A vida é a estrada rude e aspera,
que a alma vae subindo dolorosamente até entrar,
emfim, pela porta da morte na felicidade eterna.
S. Jeronymo, na sua cella humida e fria, rasgava as
carnes com cilicios e açoutes para calar os sentidos.
Desprezando, tambem, os bens mundanos, absorvia-se
na contemplação da belleza ideal do Eterno
Espirito.
A applicação d'esta doutrina é facil e
concludente.
Na architectura, comparemos duas producções
singulares
em merito e belleza: o Parthenon e a Cathedral
de Strasburgo.
O Parthenon foi o templo mais perfeito da arte classica;
a Cathedral de Strasburgo gosa da fama de ser
exemplar completo do mais rico estylo da arte christã.
No primeiro, todas as proporções e elementos
foram
estudados e combinados para attingir a harmonia e a
belleza da forma; mas a expressão é fria. O
monumento
não diz nada ao nosso espirito. Na segunda,
pelo contrario, a belleza da expressão completa a da
forma. A Cathedral de Strasburgo é um poema de pedra,
um cantico da religião christã.
Na esculptura observa-se o mesmo. O auctor d'este
livro percorreu os museus de Italia, viu nas vastas
galerias do Vaticano accumuladas centenas, milhares
de estatuas classicas. Nunca, nunca, até hoje, a
esculptura moderna attingiu tal belleza de formas!
Mas, n'essa multidão immensa de primores, não
encontrou
a expressão. As physionomias são de uma
serenidade
olympica, as attitudes magestosas, em geral,
não teem movimento. A expressão não
existe, até
quando as condições do acto mais a exigem. A
morte
não tem contracções no rosto. A lucta
não manifesta
a furia do odio. O amor é frio e solemne. Todas as
bellas estatuas teem a impassibilidade de Jupiter ou
de Minerva, conforme os sexos.
As excepções são rarissimas; contam-se
sem difficuldade.
O grupo de Laocoon e dos filhos, envolvidos
pelas serpentes, as lagrimas de Niobe, chorando os filhos,
são exemplares curiosos da expressão dos antigos
estatuarios. Saindo dos museus classicos, encontramos
em Italia por toda a parte a vida, a expressão, o
movimento dos esculptores da Renascença, de que Bernini
nos dá singular exemplo no extasis de Santa Thereza
de Jesus, uma das mais extraordinarias estatuas
produzidas pelos artistas modernos.
A arte classica e a christã traduzem, pois, a essencia
intima das respectivas religiões. Na primeira, predomina
a forma; na segunda sobresae o espirito. Estas
observações parecem-nos fundamentaes na Historia
da Arte.