CAPITULO
TERCEIRO
AS INVASÕES DOS BARBAROS
O mestre de Socrates, Anaxagoras, que professou
a philosophia em Athenas cinco seculos antes de
Christo, ensinava aos seus discipulos este principio:
o Espirito começou pacientemente a
revolução, que deve
realisar-se; os seus progressos são rapidos,
sel-o-ão cada
vez mais.
Este espirito, sem duvida, era a lei da perfectibilidade
humana, bem evidente nos seus resultados, embora
enygmatica nas proprias origens.
O periodo historico da Edade-Media resulta da
acção
reciproca das tres manifestações do espirito,
representadas
pelo paganismo, pelo christianismo e pelos barbaros.
É a longa phase das suas luctas, das suas
concessões
mutuas, das suas combinações, verdadeira
endosmose e
exosmose de idéas, que
termina pela constituição
homogenea das sociedades modernas.
A Edade-Media começou no seculo V, definida pela
primeira invasão dos barbaros, germanos, hunos e
alanos, e dura até á tomada de Constantinopla, em
1453, pelos turcos de Mahomet II. Estes dez seculos,
sombrios e tristes, infundem ainda hoje, apesar da distancia
do tempo, um sentimento vago de pavor e de
melancholia, taes são os flagellos, as guerras, as miserias,
como eguaes não houve n'outra quadra historica,
que n'este espaço immenso, principalmente até
ao seculo X, assolaram a humanidade.
A acção reciproca do paganismo e do Christianismo
já procurámos esboçal-a nos anteriores
capitulos. Vamos
referir-nos, agora, aos
barbaros,
elemento novo
e activo, causa de poderosa transformação social
e moral
sem duvida, que vem entrar directa e profundamente
na scena da historia. De entre os tres, como é de
justiça, reconheçamos a hegemonia ao
Christianismo.
Já no tempo de Constantino hordas numerosas de
barbaros, mais ou menos organisadas
em nações, se
distribuiam pelas vastas fronteiras do Imperio, desde
a cordilheira do Caucaso até á embocadura do
Rheno.
Os hunos e os germanos constituiam a primeira zona
d'estes povos, apertados entre os limites do Imperio e
outras zonas de barbaros, escalonadas para o norte da
Europa. Os hunos de raça mongolica occupavam as
vertentes septentrionaes do Caucaso e estendiam-se
para o nordeste. Os godos guarneciam a costa norte do
Mar Negro e mais além, para o occidente, a margem
esquerda do Danubio; os vandalos, os allemanos, os
francos e frisões, depois, até á
embocadura do Rheno,
fechavam o circuito, cheio de perigos previstos e tremendos.
De quando em quando, esta massa de innumeraveis
guerreiros trasbordava em alguns pontos e passava
as fronteiras romanas; comtudo, até ao seculo V o
Imperio resistira. Derrotava-os, dominava-os e concedia-lhes
até vastas provincias, confiando-lhes a guarda
d'essas fronteiras, ameaçadas por outras hordas. A
acção da diplomacia imperial completava a dos
exercitos,
semeando intrigas e dissensões entre as
nações
barbaras e os mais poderosos chefes, assoldadando
generaes e guerreiros; empregando, emfim, todos os
meios de intriga e de veniaga que dividem as forças
do inimigo.
Assim, correram os factos até ao fim do seculo IV,
quando um movimento geral dos hunos, promovido
por causas particulares internas, arremessou estas
grandes massas nomadas e os alanos, sobre os ostrogodos
e os visigodos. Os primeiros submetteram-se ao
jugo dos hunos. Os visigodos vencidos entraram no
Imperio do Oriente, obtendo terras a pedido de Ulphilas,
bispo godo ariano. Revoltados em breve, bateram
o Imperador Valente e mataram-n'o em Andrinopla.
A habilidade do Imperador Theodosio dominou-os
e deteve-lhes a expansão conquistadora; mas
esta primeira investida deve ser considerada o facto
primordial da invasão dos barbaros.
Theodosio organisou o Imperio, que, durante os dezeseis
annos do seu reinado, gosou tranquillidade relativa;
todavia, o movimento dos hunos e dos alanos
para o occidente communicou-se a todas as nações
barbaras, repercutindo-se até ao Rheno.
Logo no principio do seculo V os visigodos de Alarico
assolaram a Italia e pozeram cêrco a Roma.
Quasi a seguir, os suevos de Radagués precipitaram-se
como nova onda sobre a peninsula, sendo vencidos
por Stilicon, da raça vandala, ao serviço do
Imperador
Honorio. Os visigodos, seis annos depois, apparecem
novamente e assediam Roma. O grande chefe
Alarico morre, quando preparava a conquista da Sicilia.
Entretanto, Attila, o famoso chefe dos hunos, marchava
sobre a França. Romanos, francos e godos
vencem-n'o em Arles. Attila retira sobre a Italia, devasta
as regiões do Pó, desce sobre a cidade de Roma,
que foi salva pelo Papa Leão o Grande. A morte de
Attila dissolveu a invasão dos hunos, cuja crueldade
e selvageria ficaram historicas.
Outra horda de barbaros vem devastar a Italia: os
vandalos de Genserico tomam e saqueiam a cidade de
Roma. A esta onda segue-se outra, os herulos de
Odoacro. Novo saque de Roma, novas devastações
precedem a coroação do chefe herulo, como Rei da
Italia. A queda do Imperio do Oriente, pela
desmembração
das respectivas provincias, tornou-se emfim
um facto consummado.
Quasi no fim do seculo V, os ostrogodos de Theodorico
fecharam o primeiro periodo das invasões barbaras.
Odoacro é vencido e morto. A
restauração do
Imperio do Occidente já não era possivel; mas
Theodorico
consegue reconstituir, nos antigos moldes imperiaes,
um vasto dominio, comprehendendo a Italia,
limitado ao oriente pelo Drina, para além o Imperio
Byzantino, ao norte pelo Danubio, para além os lombardos
e os gepides, e a oeste definido pelas nações
dos francos, dos borguinhões e dos visigodos.
Tal é em succinto o quadro, a pintura do estado
de guerras e de miserias, que atravessaram os paizes
e os povos do antigo Imperio Romano, reduzido no fim
do seculo V ao Imperio Byzantino, no extremo oriente
da Europa. A estes movimentos dos barbaros nos referiremos
apenas, porque os outros, na Bretanha, na
Gallia e na Hespanha, tiveram n'esse periodo pequena
importancia sobre a arte christã, que na realidade
nasceu em Italia e no Imperio Byzantino.
Todos estes barbaros, que em ondas successivas se
precipitaram sobre o Imperio do Occidente, exceptuando
os hunos e os alanos, constituiam ramos da
mesma raça aryana, de que os gregos e os romanos
provinham tambem, descendentes mais ou menos puros
e directos de emigrações remotissimas. Se as
linguas
d'estas nações barbaras eram, pois, entre si
incomprehensiveis, embora da mesma familia, os caracteres
individuaes e ethnicos apresentavam intimas
analogias.
Mais ou menos nomadas, as nações barbaras
possuiam
energico espirito bellicoso. Rudes e destemidas,
embora não selvagens ou crueis, essas vastas
confederações
nacionaes procuravam em luctas aventurosas
satisfazer o espirito guerreiro, que mais tarde singularmente
manifestaram duas instituições suas: o feudalismo
e a cavallaria.
O polytheismo, entre ellas, tivera o mesmo caracter,
antes de se converterem á heresia do arianismo. A
religião
manifestava entre os barbaros um espirito poetico
e nebuloso, que lhe davam os
bardos,
como entre
os celtas cantando hymnos, em que eram glorificados
os deuses e os grandes actos dos heroes nacionaes.
Foram estes bardos, que na Edade-Media deram origem
aos famosos menestreis.
Homens robustos, de caracter franco e aberto, leaes
como companheiros, fieis aos seus chefes, estes
barbaros,
como lhes chamavam os romanos, nutriam enraizados
no espirito o amor da liberdade e o respeito da
propria dignidade, professando, como se diria hoje,
um energico individualismo. A este amor da liberdade
individual se devem attribuir em grande parte alguns
factos importantes da historia, como, por exemplo, a
constituição das communas e principalmente o
movimento
da
reforma religiosa, a bella e
grande lucta da
theocracia e da democracia christãs, em que esta ficou
vencedora, a final, no seculo XVI.
Assim, o caracter disciplinado, a dedicação pelos
chefes,
em geral escolhidos pelo valor e por altos feitos,
não excluiam uma organisação social
democratica, que
se manifestava em reuniões periodicas de guerreiros,
onde se discutiam e resolviam as questões de interesse
commum da tribu. Estas qualidades singulares
dos barbaros, bem oppostas ás dos romanos da decadencia,
caracterisam ainda hoje as nações do norte da
Europa, suas legitimas descendentes.
O amor da liberdade fraccionava as nacionalidades
barbaras, constituidas pela federação de pequenos
estados
ou tribus, onde era possivel a vida local. Communicava-lhes
um certo espirito nomada, inimigo dos
grandes centros; exigia-lhes uma vida separada e independente
de pequenos senhores, avessos ao trabalho,
ignorantes por indolencia não por desprezo das
artes e das sciencias, só ardentes e activos na guerra,
na caça e no exercicio da soberania. Sentem-se n'estes
traços os futuros barões feudaes. Entregando o
trabalho
penoso aos escravos e ás mulheres, pelas quaes
aliás professavam certo respeito, considerando-as investidas
de dons propheticos, estes
barbaros
traziam
em si o germen, que, ao calor do Christianismo, devia
produzir a consideração, singular e antinomica
com
outros costumes, e o amor mystico e respeitoso pela
mulher no tempo da cavallaria.
Estas virtudes, sem duvida, tinham reverso; os
barbaros
eram irasciveis, ebrios, jogadores e libertinos;
ainda n'isto se manifestavam os futuros barões feudaes.
Tal era o caracter dos povos, que assolaram o
Imperio do Occidente no seculo V, não falando nos
hunos e nos alanos, povos de outra raça que foram
um episodio na historia da Europa. Ora, estas qualidades,
no exercicio da intelligencia e nas diversas
manifestações
sociaes, tiveram grande influencia no organismo
da Edade-Media, e logicamente sobre a arte;
influencia mais accentuada nos periodos romanico e
ogival.
Quando os barbaros tocavam a antiga civilisação
romana, eram fascinados por ella. É um facto incontestavel
na historia. A primeira demonstração
deu-se
na constituição do reino godo de Italia por
Theodorico,
um precursor de Carlos Magno e como elle um
barbaro de genio. Educado na
côrte imperial de Constantinopla,
apreciára o immenso valor da
organisação
social e do direito romanos, offuscados e desprestigiados
pela pequenez dos homens. A grandeza do espirito
de Theodorico avalia-se bem por um só facto, extraordinario
e caracteristico. Legislando a justiça no seu
vasto imperio, decretou que as questões suscitadas
entre dois godos, seriam resolvidas por um godo, entre
um romano e um godo por um romano, entre
romanos por outro romano; assim, conclue o
barbaro:
cada um terá o seu direito garantido e, apesar
da differença dos juizes, uma só
justiça reinará para
todo o mundo. E, todavia, os godos eram os
conquistadores
e os romanos os vencidos!
Este espirito de justiça nascia do amor pela liberdade
e do respeito pela dignidade humana, que é a
sua consequencia logica. Era a manifestação
esplendida
do caracter fundamental da sua raça, que os
barbaros
traziam para a caduca civilisação romana,
recebendo
em troca tradições de gloria, sabias
instituições
e um direito escripto, que ainda hoje causa a
admiração
do mundo moderno. Na religião, Theodorico, um
sectario das doutrinas de Ario, idéa perseguida nos
seus adeptos e fulminada nos concilios, mostra se tolerante.
A Italia era orthodoxa e continua a professar
as suas doutrinas. Os christãos elevam templos
por toda a parte, gosam de inteira liberdade de culto.
O
barbaro só vacilla um
momento no fim da sua vida,
como represalia ao Imperador do Oriente, que perseguia
o arianismo com violencia e crueldade.
O seu governo pacifico e justo restabelece a ordem,
desenvolve a riqueza, fomenta o commercio interno e
externo. As antigas instituições romanas
são respeitadas,
consultadas até. Os cargos civis são para os
romanos,
os militares para os godos, que assim se conservam
separados como casta guerreira. O direito romano
serve de base ao novo direito gothico. Emfim, a
combinação
das tres manifestações do Espirito, segundo a
expressão de Anaxagoras, começa a dar
homogeneidade
a uma nova civilisação.
O reinado de Theodorico é, pois, uma tentativa da
fusão de principios, um relampago de luz serena e
clara que irrompe do seio tenebroso dos primeiros
tempos da Edade-Media. Dentro de dois seculos constituir-se-ha
o Santo Imperio de Carlos Magno.
PARTE SEGUNDA
OS ESTYLOS CHRISTÃOS PRIMITIVOS
V SECULO AO X
SECULO
CAPITULO
PRIMEIRO
ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO LATINO
O Christianismo saíra das catacumbas nos meiados
do seculo IV. Quasi todo o seculo seguinte passara-se
em invasões successivas. Hordas de barbaros precipitaram-se
sobre a Italia, talando, destruindo e roubando
o que umas ás outras deixavam. As
perseguições religiosas
haviam cessado; mas a heresia de Ario perturbava
os espiritos, e as invasões accumulavam morticinios
e flagellos. O trabalho não tinha socego, a
agricultura abandonada decaíra, a propriedade estava
ameaçada e a industria e o commercio esmoreciam,
asphixiados por pesada atmosphera de fogo, de
sangue e de incerteza. Não é n'estas
condições da sociedade
e do espirito humano que as artes se desenvolvem
e florescem. O Estylo Latino, que principiára
a formar-se nos meiados do seculo IV, constitui-se lentamente
no seculo seguinte.
A derrota do paganismo inutilisára os templos e
mutilára as estatuas dos antigos deuses. Ora, parece-nos
haver comprehendido na historia das religiões,
que a vencedora esmaga a doutrina vencida, persegue-lhe
ferozmente os adeptos e, como os antigos
exercitos definiam a victoria dormindo sobre o campo
da batalha, as religiões triumphantes occupam e
apropriam ao seu culto os antigos templos profanados
e desertos.
Este principio deriva de rasões logicas e de qualidades
ou defeitos da propria alma humana. O vencedor
expolia o vencido; vê-se isto ainda nos tempos
modernos. O espirito da nova religião sente a necessidade
orgulhosa de fazer adorar o seu Deus nos mesmos
recintos e altares, onde os
idolatras adoravam
os deuses vencidos. Além d'isso, os templos inuteis
offerecem, em regra, condições de
construcção adequadas
ás praticas religiosas; ora, em todas as
religiões
mais perfeitas existem usos e praticas similhantes. O
vencedor não tem tempo para construir logo a principio,
encontra sanctuarios em sitios escolhidos e
convenientes, aproveita-os. É uma rasão. Assim,
nós
vemos os arabes de Hespanha aproveitarem as egrejas
godas, transformando-as em mesquitas, onde o
Alcorão occupa o logar da Biblia; mesquitas que, depois,
se tornam templos christãos. Assim, os turcos
de Mahomet II, tomando Constantinopla, fizeram de
Santa Sophia e dos templos byzantinos do Oriente
conquistado as suas primeiras mesquitas.
O Christianismo não procedeu por esta fórma,
salvo
raras excepções. Em primeiro logar, porque o
espirito
e os ritos da nova religião eram assás
differentes dos do
paganismo. A expressão da arte classica não dizia
bem
com a essencia do culto christão. Além d'isso, os
templos
classicos eram pouco espaçosos. O
naos, a cella
ou sanctuario dos deuses, era pequeno; o que dava
amplidão ao tempo classico, o
pro-naos, o portico que
mais ou menos envolvia o
naos,
correspondia ao
culto e aos ritos pagãos; não se amoldava,
porém,
aos do Christianismo, cujas multidões, sempre crescentes,
precisavam reunir-se amiudadas vezes para os
exercicios divinos.
As circumstancias desgraçadas da sociedade romana,
esboçadas anteriormente, proporcionaram aos
christãos os grandes edificios das
basilicas, logares de
reuniões publicas, tribunaes, mercados e bolsas de
commercio e bancarias, se em referencia a esses tempos
se podem empregar as ultimas expressões tão
modernas.
O amortecimento da actividade social e a
extincção
da vida politica dos cidadãos, que os chamavam aos
foros junto dos quaes existiam as
basilicas, o abatimento
do commercio e das industrias, emfim, as
condições
adversas dos seculos IV e V tornaram quasi inuteis
estes enormes edificios, outr'ora correspondendo a necessidades
publicas e regorgitando de cidadãos, na
plena actividade de trabalho em variadas
operações
commerciaes. Os christãos preponderantes em Roma,
logo no principio do imperio de Constantino, começaram
a apropriar-se d'estes edificios do Estado, adequando-os
ao culto e aos ritos da nova religião.
As basilicas romanas produziram, pois, a fórma e o
estylo das primeiras egrejas christãs. Sobre as respectivas
disposições existiam duvidas, que a critica e a
inducção procuraram resolver; assim, a
reconstituição
d'estes edificios parece ser hoje questão resolvida.
A importancia que tiveram sobre a arte christã, a
grandeza e a magnificencia dos que existem hoje,
principalmente em Roma, obrigam-nos a mais desenvolvida
descripção.
Vitruvio deu-nos as regras principaes da
construcção
d'estes monumentos e esclareceu-nos sobre os
seus empregos. O architecto aconselha que as basilicas
sejam levantadas em sitios quentes e amenos, para facilitar
a reunião dos commerciantes. Os seus fins estão,
pois, definidos, pelo menos no ultimo seculo antes de
Christo em que viveu o celebre architecto romano.
As regras são incompletas, sem deixarem de ser tambem
interessantes, porque traduzem o espirito methodico
e as proporções prefixadas e tradicionaes da arte
classica.
A largura das basilicas, diz Vitruvio, deve ser pelo
menos, o terço do seu comprimento. Adequadas ao
terreno, que, se for longo, obrigará a construir
chalcidicos
nos extremos da basilica. As columnas do pavimento
terreo terão altura egual á largura dos
porticos, como o architecto chama ás naves lateraes,
que a seu turno devem offerecer approximadamente
um terço da largura do corpo ou nave central. As columnas
superiores, as das galerias sobrepostas aos
porticos, serão um quarto mais baixas do que as do
pavimento terreo. O parapeito, lançado entre as columnas
d'estas galerias, offerecerá altura sufficiente
para que as pessoas de cima não sejam vistas pelas
de baixo. Por muito incompletos que pareçam, estes
pormenores seriam sufficientes para dar approximada
idéa dos fins e das disposições
d'estes edificios classicos.
Schema de uma basica romana
Schema de uma basilica romana
O nome de basilicas parece indicar-lhes origem na
Grecia, onde provavelmente existiram construcções
com fins equivalentes; comtudo, pode tambem definir-lhes
a grandeza e a magnificencia, visto que a palavra
grega expressa o poder real.
A basilica apparece nos ultimos tempos da republica.
Construida nas proximidades dos
foros, grandes
praças onde existia a tribuna dos oradores e se
discutiam e resolviam os negocios publicos, a basilica
parece ter sido um annexo indispensavel d'estes
foros, recinto abrigado e coberto
para occasiões de intemperie.
A mais antiga em Roma, a Basilica Porcia,
suppõe-se ter sido construida cêrca de duzentos
annos
antes de Christo. Depois, como mais importantes, contavam-se
a Basilica Emilia, construida por Fulvio, a
Basilica Simpronia, elevada por Tito Sempronio,
censor
no ultimo seculo antes de Christo. Estas
construcções
faziam parte das dadivas, com que os politicos e
os ambiciosos do tempo procuravam conquistar as
boas graças do povo.
Os imperadores, depois, elevaram muitas. Cesar,
Trajano, e por ultimo Constantino construiram-nas em
Roma. Cidades de importancia secundaria possuiam
basilicas. Assim, pudémos ver ainda os restos da que
existiu em Pompeia, junto do pequeno
forum. Ora,
esta cidade era, como outras, semeadas nas margens
do golpho de Napoles, uma verdadeira estação de
verão,
provavelmente do caracter que hoje têem Nice e
as povoações da Côte-d'Azur, sobre o
Mediterraneo.
A basilica de Pompeia constitue um excellente
exemplar, porque demonstra que nas primitivas não
existia ábside. No fim da nave principal, uma tribuna
quadrada, avançando sobre o transepto e de altura
superior á de um homem de regular estatura, constituia,
decerto, o espaço reservado para o tribunal. Nas
ultimas basilicas posteriormente construidas, por exemplo
a de Constantino, já apparece a ábside saliente,
abobadada em meia cupula, para installação dos
juizes.
A descripção d'esta ultima basilica
dar-nos-á idéa
clara da disposição interior e grandeza d'esta
natureza
de construcções. Media cêrca de 90
metros de comprido,
por 75 metros de largo. Em geral, as basilicas
offereciam consideravel superficie. Segundo o maior
comprimento, eram divididas em tres naves, cortadas
perpendicularmente por tres transeptos. Na extremidade
dos eixos da nave e do transepto centraes existia
uma ábside; no outro extremo, em face das
ábsides,
abriam-se as entradas, das quaes a principal dava
sobre a Via-Sacra.
Reunindo estes elementos, podemos figurar com
grande exactidão as disposições
internas das basilicas.
Em geral, Reunindo estes elementos, podemos figurar com
grande exactidão as disposições
internas das basilicas.
Em geral, eram vastos edificios, constituidos por uma
nave central terminada em ábside e ladeada de porticos
sobrepostos em dois pavimentos, que attingiam a
altura do corpo central. Este conjunto, exceptuando
a ábside abobadada em meia cupula, tinha cobertura
de madeira com as traves a descoberto.
Nos tempos primitivos, pelo menos, o edificio cercado
de porticos era accessivel por todos os pontos.
Depois, as columnas periphericas foram substituidas
por paredes, onde havia portas symetricas nos extremos
das naves em face das ábsides.
No pavimento terreo reunia-se o tribunal, occupando
a ábside e o transepto annexo; os negocios commerciaes
e bancarios d'aquelle tempo tratavam-se na
grande nave central; nos porticos inferiores lateraes
estavam os logares dos vendedores, á similhança
dos
bazares orientaes. Os porticos
superiores constituiam
logar de reunião para ociosos e para os que procuravam
as diversões da sociedade e da
conversação.
Para bem fixar os caracteres das basilicas, apresentamos
um claro schema, onde todos os respectivos
elementos estão expressamente desenhados. N'este
schema faremos notar as disposições relativas do
tribunal,
constituido pela ábside, onde estacionava o juiz
e o pessoal annexo, pelas cadeiras ou tribunas dos
advogados, ladeando esta ábside, e finalmente pelo
recinto fechado, que sem duvida devia existir para
separar os negocios do tribunal dos restantes, que se
tratavam tambem nas basilicas. Estes elementos são
a origem de disposições especiaes nas egrejas do
Estylo
Latino, como adeante diremos.
Emfim, diz-se que as basilicas eram de architectura
simples e de modesta ornamentação. É
um erro; taes
edificios, dados os seus fins e a mira dos doadores e
constructores, principalmente quando foram os Cesares,
não podiam deixar de manifestar grandeza architectonica,
embora a severa e solemne grandeza classica. A
ornamentação era rica e profusa em estatuas e
objectos
de arte, como o foi sempre a grega e a romana. Este
ultimo facto, pelo menos, é attestado pelas
descripções
dos historiadores. É claro que n'este ponto nos referimos
ás antigas basilicas romanas e não ás
que, seguindo
o estylo, edificaram depois os christãos.
As basilicas romanas deram, pois, origem ás primeiras
egrejas do Christianismo no occidente. Parece-nos,
todavia, conveniente, n'esta formação do estylo
latino, distinguir dois periodos, sem lhes poder fixar
datas, como aliás é sempre difficilimo nas
transições
artisticas: o primitivo, desde Constantino até Theodorico,
em que o estylo devia ser, em regra, relativamente
simples e pobre, e o segundo, sob a influencia
da riquissima arte byzantina, que ia successivamente
attingindo a perfeição manifestada no seculo VI,
pela
construcção de Santa Sophia de Constantinopla. As
relações entre o occidente e oriente eram muito
frequentes
e activas n'aquella epoca, para que se não
desse esta influencia de uma arte grandiosa e de
ornamentação
riquissima, sobre o Estylo Latino nascente.
Nos primeiros tempos houve, sem duvida,
vacillações.
A consolidação da egreja deve ter influido muito
na constituição do estylo. As basilicas
christãs dos
melhores tempos tinham fórmas definidas; obedeciam,
por assim dizer, ás regras de alguns typos apurados
e preferidos; por isso, é até certo ponto
possivel descrever-lhes
os caracteres geraes.
A disposição interior das egrejas do Estylo
Latino
apresentava figuras differentes; a circular e a rectangular
foram as mais empregadas, principalmente a ultima.
Exemplos ha, tambem, do emprego combinado
do circulo e do rectangulo, como se vê na egreja basilica
de S. Martinho de Tours. A architectura era simples
e sobria, seguindo o espirito e a fórma do estylo
classico romano. A diversidade manifesta-se mais accentuada
nas disposições internas, accommodadas
ás
necessidades do novo culto, e na ornamentação
mais
ou menos rica, onde exerceu decidida influencia o
Estylo Byzantino, em plena florescencia no seculo VI.
Figuremos, agora, uma visita a estas basilicas do
Estylo Latino, fazendo um ligeiro schema dos seus
caracteres principaes; observaremos, comtudo, que
esta descripção
theorica soffre as
modificações impostas
pelas circumstancias, pelas disposições dos
edificios
apropriados e, emfim, pela imaginação e
concepção
artisticas, que, embora dentro das regras dos estylos,
teem sempre maior ou menor liberdade de acção.
Um espaçoso
atrio,
fechado por muros, ás vezes revestidos
de porticos internos, dava ingresso á egreja.
No fundo d'este
atrio quadrado, que
foi origem dos
adros das nossas egrejas, em frente da respectiva entrada,
elevava-se o edificio do templo. A fachada era
formada por tres portas e tres janellas, correspondendo
aos eixos das tres naves internas. A porta central servia
para os grandes ceremoniaes. Sobrepujando as portas
e as janelas, um frontão pouco alto encobria o
madeiramento
dos telhados. N'esta disposição vê-se a
ordenança classica.
Em frente da egreja e encostado á fachada, um
portico de columnas formava alpendre sobre as portas,
logar protegido onde se abrigavam os fieis. Algumas
vezes, não havia saliencia para fóra da
superficie
vertical da fachada, que então repousava sobre o
intercolumnio
externo do portico. As portas da egreja
ficavam, n'este caso, precedidas de uma especie de
vestibulo. Nos lados d'este portico duas fontes serviam
para as abluções.
N'estas fontes teem origem os baptisterios, edificios
sumptuosos que mais tarde foram elevados junto das
egrejas, nos atrios ou fóra d'elles, onde se praticava
em grandes bacias de marmore o baptismo por immersão,
usado n'aquelles tempos. Depois, a transformação
dos ritos, dando caracter symbolico ao baptismo, introduziu
os baptisterios no corpo das egrejas proximo
da entrada.
As fachadas lateraes da egreja, em regra, não tinham
janelas. A parede lisa era coroada por uma cornija,
repousando sobre modilhões. As janelas da fachada
eram fechadas por grandes laminas de marmore,
rendilhadas de pequenas aberturas circulares ou em lozangos,
dando a impressão das rotulas orientaes.
No interior, a egreja offerecia as caracteristicas
disposições
da basilica romana: tres naves, a do centro
mais larga e alta, as lateraes com dois pavimentos sobrepostos,
abrindo na principal, compunham a superficie
coberta do edificio. Segundo o preceito primitivo
da divisão dos sexos nas ceremonias religiosas, os homens
occupavam a nave lateral da esquerda, as mulheres
casadas a da direita e as virgens e as viuvas os
pavimentos superiores d'estas naves.
ROMA. BASILICA DE S. PAULO—Fachada principal
ROMA. BASILICA DE S. PAULO—Fachada principal
Nos extremos das naves, em frente das portas, rasgavam-se
tres ábsides; a da nave central, a mais importante,
constituía o
presbyterio
ou a
tribuna. Nas lateraes
guardavam-se os livros santos e os objectos do
culto. Estas ultimas foram a origem dos
thesouros e
das
sacristias das nossas egrejas.
Na ábside central, a
tribuna, em degraus de marmore
dispostos em amphitheatro, sentavam-se os presbyteros;
ao fundo, n'uma cadeira tambem de marmore
o bispo, ou o officiante, presidia ás cerimonias religiosas.
Nas basilicas romanas, como vimos, era este o logar
dos juizes.
Em face da tribuna, isolado, levantava-se o altar,
coberto pelo
ciborio, o
baldachino das basilicas modernas
de Roma, vasto e alto docel sustentado por columnas,
formando uma especie de pallio de marmore.
O altar, em geral, era o sarcophago de um santo, o
da invocação da egreja. Sobre a mesa do altar
viam-se
baixos relevos, o
alpha e o
ómega, o
labaro, a
palma
do martyrio e outros symbolismos religiosos.
No solo, por baixo do altar, existia um pequeno subterraneo,
o
martyrio ou a
confissão, contendo
reliquias
de santos; quando este subterraneo era vasto tomava
o nome de
crypta. Todos estes
elementos nasceram
das tradições do Christianismo das catacumbas.
Este conjunto do altar, o
santuario,
ficava entre a
tribuna e o côro, constituido por um vasto espaço
quadrado,
limitado por muros baixos, no extremo da nave
central. Nos tres lados do côro, excepto o mais proximo
do altar, bancadas de marmore em amphitheatro davam
logar aos chantres e cantores. Dois
ambons symetricos,
nos extremos do côro, ladeavam quasi o altar.
Correspondiam proximamente ás tribunas dos advogados
romanos e são a origem dos pulpitos. Estas
disposições
caracteristicas pódem observar-se ainda hoje
nas antigas cathedraes hespanholas, cujos coros cortam
as naves principaes.
A conveniencia de extremar o publico da tribuna e
do altar, fez mais tarde construir um muro, ou balaustrada
perpendicular aos eixos das naves, entre o côro
e o altar. Assim, ficou definido o transepto e desenhada
a cruz latina das egrejas dos futuros estylos occidentaes.
Os tectos eram de madeira, em geral de vigas descobertas,
ás vezes de grandes caixões. A abobada
não
foi, nem podia ser empregada em edificios d'esta
construcção.
A riqueza e o luxo das egrejas do Estylo Latino
manifestavam-se principalmente no interior. Os tectos
eram de essencias raras, esculpidos e recamados de
metaes, entre os quaes figurava o ouro. As columnas
das naves, ligadas por architraves, ou por arcos de
volta inteira, as paredes das naves, divididas em compartimentos
por pilastras, eram construidas e revestidas
de finos marmores e de porphyros. O altar e o
côro principalmente offereciam
ornamentação riquissima,
revestidos de esculpturas onde e quando era
possivel; assim como a tribuna, cuja semi-cupula representava
grandes quadros biblicos em mosaico de
fundo de ouro, que ás vezes se estendia a outros pontos
da egreja. É evidente que esta pujante
ornamentação
se desenvolveu nos melhores tempos do estylo, sob
a influencia do Estylo Byzantino. Sabe-se, com effeito,
que os romanos empregavam com raridade o mosaico
nas paredes.
ROMA, BASILICA DE S. PAULO—Fachada lateral (norte)
ROMA, BASILICA DE S. PAULO—Fachada lateral (norte)
O pavimento das egrejas nos tempos primitivos fôra
de grandes lages; depois, vieram os mosaicos de desenho
fino e variado, formados de pequenos cubos de
marmore branco, de esmalte e de porphyro verde e
amarello, chamado
opus alexandrinus,
nome que lhe
caracterisa a origem oriental.
Se accrescentarmos, por simples curiosidade, por exceder
a esphera da Historia da Arte, que os primitivos
templos eram construidos pelo systema romano na
qualidade e disposição dos materiaes, teremos
dado
uma succinta idéa da formação e dos
caracteres do
Estylo Latino, isto é, do primitivo estylo
christão no
occidente.
Não temos, infelizmente, em Portugal um só
exemplo
do Estylo Latino. O nome de
basilica, applicado a
algumas das nossas egrejas, taes como a da Estrella e
a de Mafra, corresponde simplesmente á expressão
de
grandeza e sumptuosidade, mais ou menos merecida,
sem se referir a qualidades architectonicas, porque estas
egrejas são de caracteristico Estylo da
Renascença.
Os maiores e mais bellos exemplares existentes do Estylo
Latino é necessario procural-os entre as trezentas
e oitenta e nove egrejas e capellas, que ornam a artistica
e historica cidade de Roma!
Entre as basilicas do Estylo Latino avultam as de
S. João de Latrão, Santa Maria Maior, S. Paulo e
S. Lourenço, as duas ultimas construidas fóra dos
muros
da antiga cidade. Ora, são exactamente estas ultimas
que nos parecem mais caracteristicas, quer nos
elementos externos, quer nas disposições
internas.
A Egreja de S. Paulo, fóra dos muros, constitue de
facto um formoso e rico exemplar do Estylo Latino.
As suas disposições geraes traduzem, com a
possivel
exactidão, os caracteres das basilicas romanas,
anteriormente
descriptas. Esta grandiosa construcção conserva
ainda uma pequena parte antiga, se não primitiva,
mas o restante é de epoca moderna.
Diz a tradição que no local de um cemiterio, onde
repousavam os restos de S. Paulo, o grande Apostolo
das Gentes, o imperador Constantino mandou edificar
uma primeira basilica, que depois foi restaurada e engrandecida
por successivos imperadores, sendo terminada
por Honorio no anno 423 da nossa era. Um
grande incendio destruiu em 1827 grande parte d'esta
primitiva basilica.
Então, o Papa Leão XII, pedindo donativos
á fé
dos christãos de todo o mundo, começou a
reedificação
da antiga basilica; fazendo, porém, engrandecer e enriquecer
os novos planos. Em 1854, o Papa Pio IX
sagrou o novo e magnifico templo, do qual apresentamos
os principaes elementos, como excellente
definição
das feições especiaes do Estylo Latino.
ROMA—Interior de S Paulo
ROMA—Interior de S Paulo
A fachada principal é formada por um vasto portico
da Ordem Corynthia, para o qual se abrem as
sete portas da egreja; por detrás d'este portico eleva-se
o corpo da nave central do templo. Devemos observar
que nas egrejas do Estylo Latino, em regra,
desappareceram as galerias superiores das basilicas
romanas. Abolido o uso da separação dos sexos nas
ceremonias religiosas, a conveniencia de bem illuminar
as egrejas aconselhou a suppressão d'estas galerias.
Assim, o corpo da nave central eleva-se sobre os corpos
lateraes, recebendo luz directa e profusa de grandes
janelas. A fachada principal de S. Paulo é ricamente
decorada por mosaicos modernos. As portas,
que abrem no bello portico, são antigas, de bronze
e de excellente Estylo Byzantino.
O interior da egreja offerece cinco grandes naves,
formadas por quatro ordens parallelas de columnas,
vinte em cada ordem. São, pois, oitenta columnas,
tendo as bases e os pedestaes de marmore branco e os
fustes de granito rosa polido. Sobre a cornija da nave
central corre uma serie de medalhões circulares em
mosaico, que representam retratos de antigos Papas.
Esta grande nave é directamente illuminada por dez
janelas lateraes, sendo os respectivos intervallos preenchidos
por frescos, que representam scenas da vida de
S. Paulo. O tecto riquissimo é feito de caixões
de madeira
esculpidos e dourados. O arco da capella-mór
constitue, talvez, um dos elementos da primitiva basilica
de Constantino. Este arco, ladeado por duas estatuas
colossaes de S. Pedro e de S. Paulo, é guarnecido
na parte superior por antigo mosaico, que se
suppõe ser do anno 440 da nossa era.
A ábside, para onde se sobe por tres degraus, tem
na semi-cupula um mosaico, que se presume ser do
seculo XIII. O altar, do mesmo seculo, é coberto por um
ciborio, formado por quatro columnas de porphiro,
que sustentam um docel de Estylo Ogival.
No lado norte do transepto abrem-se, tambem, tres
portas precedidas de um portico corynthio de menor
importancia. A torre dos sinos, coroada de um mirante,
está collocada por detrás da ábside.
A Egreja de S. Lourenço, segundo a
tradição tambem
construida por Constantino no anno 330 da nossa
era, foi modernamente restaurada por Pio IX, cujos
restos mortaes n'ella repousam, e constitue egualmente
um exemplar muito bom do Estylo Latino, mais modesto
e severo.
Na fachada, o portico é da Ordem Jonica, coberto
por telhados muito inclinados e evidentes. O corpo da
nave central, ornada de pinturas a fresco, não tem
frontão.
No interior, de cada lado, onze fortes columnas jonicas
de granito rosa e de cipolino dividem o templo
em tres naves, dando-lhe um aspecto de severidade e
grandeza que mais realça ainda a cobertura da nave
central, feita de grandes vigas descobertas, douradas e
esculpidas. Esta egreja não tem na realidade um verdadeiro
transepto, o que mais a approxima das fórmas
tradicionaes das basilicas romanas, das quaes se afasta,
por outro lado, porque a ábside termina em parede
plana, guarnecida de janelas.
ROMA. BASILICA DE S. LOURENÇO
ROMA. BASILICA DE S. LOURENÇO
Não sendo possivel nem opportuno desenvolver
descripções
mais completas d'estas grandiosas e riquissimas
basilicas, julgamos haver escripto e apresentado
graphicamente os sufficientes elementos para bem fixar
os caracteres do Estylo Latino, mais puro e rico.
ROMA—Interior da Basilica de S. Lourenço
ROMA—Interior da Basilica de S. Lourenço
CAPITULO
SEGUNDO
ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO BYZANTINO
Roma deixára de ser a capital do Imperio.
Conservára
de direito as suas antigas tradições, o seu
cognome
de
cidade-eterna; de facto, a
capital do Imperio já no
seculo III, sob Maximiano, havia sido deslocada, para o
norte. Era em Milão. Assim, foi n'esta cidade que
Constantino promulgou o edito de tolerancia, de que
data a liberdade do Christianismo. As extensas fronteiras
e as enormes agglomerações de estados e de
povos, que formavam o Imperio, exigiram, talvez, uma
capital mais no centro, com sacrificio de Roma, muito
afastada, quasi no meio da peninsula italica.
Além d'isso, os imperadores, em geral, preferiam habitar
as cidades do oriente, onde por exemplo Diocleciano
residiu quasi sempre. As tendencias luxuosas
e os costumes mais do que faceis dos imperadores
deviam tender a approximal-os do fóco de luxo e de
vida devassa, de que os satrapas médo-persas deram
exemplo imitado e haviam deixado profundas
tradições
respeitadas. São ainda hoje
proverbiaes o luxo
e os costumes do oriente.
Constantino, pelas razões que expozemos,
edificára
em Bysancio a nova capital do Imperio. A permanencia
da côrte do autocrata romano no oriente foi, sem
duvida, um golpe profundo na vida social e na riqueza
da Italia, reduzida a um exarchado. Com o chefe supremo
e a alta administração do Imperio, a pouco e
pouco devem ter emigrado para Constantinopla as
melhores forças vivas e os mais valiosos elementos sociaes,
que tendem sempre a agrupar-se em torno do
poder central.
O Christianismo existia já n'aquellas provincias do
Imperio; mas a acção da nova capital e do proprio
imperador
imprimiu-lhe necessariamente grande expansão.
As mesmas causas e influencias, que no occidente
haviam produzido o Estylo Latino, foram encontrar-se
com outras especiaes, nascidas e desenvolvidas no
oriente. Um outro estylo christão, differente do occidental,
foi tambem o producto da acção reciproca d'estes
elementos. A sua formação é coeva e
parallela.
Póde dizer-se que o espirito classico e o do Christianismo
produziram simultaneamente dois estylos architectonicos:
no occidente, o Latino; no oriente o
Byzantino, de que nos vamos occupar.
O genio romano era o reflexo, um pouco pallido na
verdade, do genio hellenico. Imitou-o na religião, na
sciencia e na arte, seguiu-lhe os passos nem sempre
com grande felicidade. Nas manifestações da
actividade
social os romanos foram superiores aos gregos;
mas em creações do espirito, na sciencia, na
philosophia
e na arte, a Grecia teve apenas em Roma um soffrivel
discipulo. Os romanos, é certo, eram amadores,
grandes amadores da arte, como os inglezes modernos
exactamente, que a adoram, cultivando-a pouco, ou
pelo menos não produzindo creações
novas, comparaveis
com os d'outros povos.
Apenas a Grecia se tornou provincia romana, o
enorme thesouro da arte hellenica foi posto a saque;
Roma enriqueceu-se com tudo quanto podia ser transportado:
estatuas, quadros, vasos, vieram adornar os
templos, os
foros e os edificios
publicos, povoar os palacios
e as galerias dos vencedores, que assim se enriqueceram
com productos artisticos, durante seculos
creados e accumulados pelo trabalho e pelo genio
gregos.
Roma adorava a Grecia. Nero, deante do povo
hellenico, quiz ser athleta e artista. O prestigio imperial
provocou as acclamações; a força
garantiu-lhe
e facilitou-lhe a grande espoliação dos objectos
artisticos.
É provavel que, sujeita a
este
espirito dos amadores
romanos, a Grecia ficasse quasi desprovida de
estatuas, algumas das quaes poderemos ver ainda hoje
nos grandes museus da Italia.
Apesar de tudo, o genio artistico grego era tão vivo
e energico que se manteve sempre, durante os flagellos
da conquista e das depredações romanas. Foi este
genio de grandes qualidades estheticas, formado n'uma
escola de excepcional grandeza, que a modesta arte
latina do occidente, formada pelo classico romano e
pelo Christianismo, encontrou ainda pujante e activa
no imperio byzantino. Ora, esta substituição da
esthetica
romana pela grega constituia já uma grande vantagem
para a nova evolução da Arte.
Além d'isso, Constantinopla estava perto da Asia
Menor e d'essas grandes provincias romanas, que comprehendiam
a Mesopotamia e parte do grande imperio
dos Sassanides. Esta vasta região, onde floresceram
tantas civilisações antigas, confinava com a
mysteriosa
Fars, a Persia, que em guerras
successivas fôra vencida
pelos heroes da Grecia. Todas estas nações, a
Phrygia,
a Lycia, a Caria, a Lydia e sobretudo a Assyria e a
Persia haviam tido uma arte mais ou menos adiantada.
Esta parte da historia da arte antiga é assás
obscura nas origens e nas relações reciprocas;
mas estudos
modernos vão demonstrando a importancia das
manifestações estheticas entre estes povos
orientaes.
A influencia de ornamentações riquissimas e de
estylos
cheios de originalidade, adequados aos costumes,
ás necessidades e ao clima do oriente, estendia-se
principalmente
para os lados do Bosphoro, o caminho que
tinham seguido as invasões médo-persas. Foi a
acção
reciproca d'estes elementos, o classico hellenico e os
estylos orientaes, que, substituindo o romano e sob o
influxo do Christianismo, produziu o Estylo Byzantino.
A basilica, levada do occidente por Constantino e
pelos christãos do seu tempo, chegára a elevar-se
na
capital e nas provincias orientaes do Imperio; mas as
suas fórmas especiaes, pobres e severas, não
poderam
por longo tempo resistir á atmosphera ardente da arte
oriental. O seculo V foi, pois, o periodo da
evolução
rapida d'esse novo estylo christão, que o imperador
Justiniano teve a gloria e o orgulho de caracterisar
n'um só edificio, dos mais bellos do mundo.
Os planos e a construcção de Santa Sophia de
Constantinopla
foram dirigidos por Anithemius, nascido em
Tralles, e por Isidoro, de Mileto. Estes architectos,
cuja fama ficou immorredoura como a de Ictino e
Callisthenes, os constructores do Parthenon o mais
bello templo do classico hellenico, eram ambos naturaes
da Asia Menor, onde haviam florescido adeantadas
colonias jonicas. Mileto, uma das mais famosas,
pertencia á Caria, Tralles á Lycia, provincias
limitrophes,
das quaes a ultima tocava a Assyria e a Mesopotamia,
approximando-se do Imperio dos Sassanides, a
Persia. Estes dois homens de incontestavel genio
foram, pois, oriundos de raças e
nações, onde o espirito
hellenico e o oriental tinham descoberto
combinações
singulares e bellas na arte da construcção, nos
estylos e na ornamentação dos edificios.
A construcção do templo de Justiniano, iniciada
em
532, correu com tal rapidez, que em 27 de novembro
de 537, dia da sua sagração, o Imperador
pôde soltar
esta soberba e historica expressão:
Gloria
a Deus
que me julgou digno de construir uma tal obra. Venci-te
Salomão!
De facto, nunca a riqueza da ornamentação e do
culto excedeu a magnificencia de Santa Sophia, nos
tempos do Imperio Byzantino. Ainda hoje, decahido e
estragado pelos turcos, que lhe cobriram os marmores
e os mosaicos com estuques rendilhados, onde se lêem
versiculos do Alcorão, o edificio de Santa Sophia constitue
o primeiro e mais admiravel monumento do Estylo
Byzantino, o seu melhor exemplar, o mais perfeito
e mais rico.
O Estylo Byzantino, que se estendeu com enorme
rapidez pelo norte da Italia e pelo sul da França, chegando
até á Allemanha, não penetrou em
Hespanha
e muito menos em Portugal, pelo menos em edificios
importantes que tenham deixado tradições ou
vestigios
materiaes.
Para definirmos, pois, os caracteres d'este estylo,
esbocemos curta descripção de Santa Sophia de
Constantinopla,
o seu principal monumento, que nos esclarecerá
e servirá de guia, como fizemos no Estylo Latino.
O exterior de Santa Sophia é simples e severo.
Uma multidão de cupulas de differentes dimensões,
dominadas pela grande cupula do corpo central da
antiga egreja, dão-lhe um aspecto caracteristico,
perfeitamente
oriental, como o das cidades em climas
onde a neve é desconhecida, a chuva rara e reina
quasi sempre calor ardente. A impressão de solidez
do edificio deprehende-se d'essas cupulas achatadas,
repousando sobre paredes espessas, separadas por botareos
entre os quaes se abrem pequenas janelas de
volta inteira. Estamos já longe das coberturas de madeira
sobre paredes delgadas do Estylo Latino e bem
perto das pesadas abobadas sobre muros espessos, reforçados
por botareos, do Estylo Romanico. Na gravura,
que apresentamos, Santa Sophia é representada
no estado actual, isto é, ladeada de quatro
minaretes
e cercada de construcções, que as necessidades do
culto do Islamismo e a selvageria artistica dos turcos
teem feito encostar ao antigo monumento.