Eureka!

 {114}
{115}

Eureka!

"—Je vous demande pardon: vous étes bien monsieur Boubouroche?"

COURTELINE.

ACTO I

No escritorio dum advogado.

O CLIENTE

Chamo-me Teodorico da Silva, negociante, com estabelecimento de bebidas...

O ADVOGADO

Sim senhor. Faz o obséquio de sentar-se.

O CLIENTE

O meu caso é simples, conta-se em breves palavras. Sou casado, e minha mulher... minha mulher engana-me, descaradamente, com o primeiro caixeiro da casa.{116}

O ADVOGADO

É então uma acção de divorcio que o senhor deseja intentar?...

O CLIENTE, presuroso:

Perdão... Eu ainda não disse a V. Ex.ª o que desejo. (Pausa). Eu me explico: Sou um homem honrado, nunca roubei nada a ninguêm, mas sou tambêm um temperamento desgraçado, um sentimental, um fraco. Não posso, por exemplo, ver sangue. Para lhe falar com franqueza, nunca na minha vida—e já tenho cincoenta anos—peguei numa arma! Isto tudo vem para lhe explicar o motivo porque não matei minha mulher ontem à noite quando entrei em casa e a vi com êle, em doce colóquio amoroso, mais que amoroso! sôbre um canapé de estimação...

O ADVOGADO, interessado:

Sim senhor.

O CLIENTE

Ora porque sou um homem honrado, respeitador das leis e dos costumes, preciso evidentemente{117} dar uma satisfação ao mundo, que seja, ao mesmo tempo, uma satisfação à minha consciência. Posta de parte, pois, a ideia duma solução violenta, resta-me, claro, essa a que V. Ex.ª se referiu há pouco, isto é—o divorcio.

O ADVOGADO, interessadíssimo:

Sim senhor...

O CLIENTE

Mas o senhor não sabe—porque não é casado—o que são vinte e tantos anos passados com uma mulher...

O ADVOGADO, impressionado:

Faço ideia...

O CLIENTE

Não. V. Ex.ª não póde fazer ideia. É tudo a prender-nos, sabe? É a companhia, as inclinações, o paladar... Emfim, em conclusão, o divorcio por coisa nenhuma deste mundo.

O ADVOGADO, cofia a barba e medita apreensivamente no caso.{118}

O CLIENTE

Pensei então noutra coisa...

O ADVOGADO, ancioso:

Diga!

O CLIENTE

Pensei então em despedir o caixeiro. (Sinal de aprovação do advogado). Mas aqui outro grave obstáculo se levanta! O caixeiro é um antigo empregado da casa, muito conhecedor do assunto; é êle, póde dizer-se, a alma do negócio! Despedi-lo seria ver fugir a freguezia, ver ir tudo por água abaixo... sem apelação!

Ficam os dois calados. Ouve-se a respiração alta do cliente, como um estertor.

O ADVOGADO, erguendo-se:

Pois meu caro amigo, visto isso, não sei; não sei o que deva dizer-lhe... (Estende-lhe a mão pesaroso). O melhor de tudo é ter paciência: a paciência é uma virtude...{119}

O CLIENTE, desalentado:

E o mundo? E então o mundo o que dirá? o que dirá?

O ADVOGADO

O mundo dirá que o meu amigo é uma excelente pessoa, que sua mulher foi uma ingrata em lhe fazer o que lhe fez...

O CLIENTE, com uma lágrima a borbulhar ao canto do ôlho:

E foi. Palavra de honra que foi.

Despede-se abatido.

ACTO II

Numa rua concorrida. Mêses depois. Ao dobrar a esquina encontram-se o cliente e o advogado.

OS DOIS, ao mesmo tempo:

Oh!... oh!... Por aqui?

O CLIENTE

Ora ainda bem que o encontro.{120}

O ADVOGADO

Muito folgo em o encontrar...

O CLIENTE, com o ar alegre, o semblante desanuviado e risonho; sem rodeios:

Sabe que achei uma saída admirável para aquilo?...

O ADVOGADO, surprêso:

Sim?

O CLIENTE

É verdade. Não matei minha mulher, não despedi o caixeiro, não me divorciei, não tive que ter paciência... e dei emfim uma satisfação ao mundo e a mim próprio.

O ADVOGADO, abismado:

Devéras?!

O CLIENTE

Devéras. Lembra-se de eu lhe ter contado como tudo se passou?

O ADVOGADO

Lembro.{121}

O CLIENTE

Que os encontrei em cima dum canapé e tal?

O ADVOGADO

Lembro.

O CLIENTE

Pois bem: vendi o movel...

O ADVOGADO

O...?

O CLIENTE

Vendi o canapé!!

CÁI O PANO... DAS NUVENS{122}
{123}

O crime...

 {124}
{125}

O crime...

"C'est ainsi qu'une faute est irreparable."

J. PAYOT.

Helena fitou-o então nos olhos e inquiriu sem motivo:

—Estás zangado?

—Não. Porquê?

Insensivelmente voltaram ainda a falar do crime. Êle manifestou-se contra aquele processo bárbaro, violento, de fazer justiça. Todo o homem que um dia descobre que sua mulher o atraiçoa, tem um só caminho racional a seguir: abandoná-la.

Helena calou-se.

—Depois, tudo se sabe, tudo, filha!... murmurou êle, à laia de vaticínio.—De que serve andar a encobrir, um dia e outro, semanas{126} e mêses inteiros... se tudo se vem a saber afinal?

Fitou-a demoradamente nos olhos, como a querer avaliar o efeito das suas palavras. E porque a fitava êle assim? Porque começava a sentir êsse desejo forte, essa terrivel necessidade de a observar, sondando os mínimos recantos da sua alma, onde pela primeira vez, desde que a conhecia, notava misteriosos e traiçoeiros abismos?...

Chamou-a brandamente, disse-lhe:

—Helena, que me ocultas tu? Tenho a impressão de que se passou aqui alguma coisa, na minha ausência, que desejas que eu ignore... Ah! não negues... leio-to nos olhos!

Ela baixou instintivamente a cabeça.

—Alguma coisa?!...—disse por fim, em voz pouco firme, esforçando-se por manifestar estranhesa e não conseguindo senão comprometer-se ainda mais, aumentando aquelas desconfianças.

Êle tremia todo como varas verdes. Lançou mão da coragem que lhe restava, para lhe dizer com serenidade:{127}

—Vamos, tu não me tens na conta dum imbecil, não é verdade? Deves ter presumido portanto que os factos aqui ocorridos, desde que cheguei, tenham despertado o meu reparo.

—Os factos?! Quais factos?!—dissimulou.

—Tudo; o que se está passando...

—Mas tu estás louco!... Eu é que devo estranhar-te. Nunca te vi assim desconfiado, acredita.

—Desconfiado! Mas não vês os teus modos, os teus gestos, as tuas palavras... o teu rosto! Anda cá...

Pegou-lhe numa das mãos e diante do espêlho da sala:

—Vê aí o teu rosto!

Ela esquivou-se, revoltada:

—Deixa-me! É de mais!

—Não te deixo, gritou exaltado, já sem se poder conter.—Vais-me dizer tudo, tudo. Nada de rodeios, de frases, apenas e cruamente a verdade: o que houve?

—O que houve!?—exclamou aterrada.

—Sim, o que houve!

—Deixa-me! deixa-me!{128}

Não poude mais. Agarrou-lhe nos pulsos, arrastou-a para defronte da luz, intimou-a em voz alta, imperativa, onde havia inflexões de súplica e latejava ao mesmo tempo uma angústia horrível:

—Fala! anda... diz-me tudo!

Os seus olhos faíscavam, tinham relâmpagos de cólera.

—Larga-me!—implorou Helena.—Não olhes para mim dessa maneira... Tenho medo!

—E porque tens tu medo de mim?!

Aquilo já não era uma altercação, uma scena de ciumes desagradável, uma simples desavença entre casados: era uma luta feroz, encarniçada, em que cada qual porfiava por levar o outro de vencida. Apertou-lhe as mãos com energia, de forma a fazê-la gritar:

—Não, Alberto, não! Tu não estás em ti, deixa-me! Olha que me magôas, deixa-me!

Mal a ouvia já. Os seus protestos, os seus rogos, as suas lágrimas, o desespero em que se debatia, mais o enfureciam: quase lhe davam provas do que se passára!... Mas o que se passára?{129}

E baixinho, ao ouvido, como quem insinúa uma calúnia, disse-lhe tudo o que a sua mórbida fantasia arquitectára a êsse respeito, desde que a suspeita entrára no seu cérebro e aí gerára a mais tremenda acusação que podia pesar sôbre a honra duma mulher.

Ergueu-se alucinada. Tinha no rosto o aspecto apavorado, trágico, de pessoa que se vê agarrada pelas costas numa encrusilhada deserta. Deu um grito, abriu os braços e caiu num sofá a estrebuchar.

Alberto—nessa perfeita lassitude d'ânimo que sucede sempre a uma grande catástrofe,—pôs-se a presenciar tudo, naquele momento, com uma tranquilidade estupenda! Sentia-se por assim dizer mergulhado num grande banho morno de indiferença e de tédio...

Helena, debelada a crise inicial, com a cabeça entre as mãos, chorava, arrepelava-se. E o marido sorria àquela dôr como se estivesse gosando as delícias dum drama de sensação em que sua mulher fôsse uma sublime artista e êle próprio, por desdobramento, um actor de mérito, representando o papel de{130} marido ciumento com a mais pura e meticulosa arte!

No fundo não aplaudia a peça, mas achava que os artistas iam bem...

Deu uns passos ao acaso e, maquinalmente, dirigiu-se para o quarto. Voltou, logo em seguida: tinha envergado à pressa o sobretudo e trazia ainda na mão o chapéu e a bengala. Parecia-lhe ter ouvido gritar: «Bravo! Bravo!»; que uma multidão ruidosa de espectadores se levantava para saír da sala. Ouvia mesmo os comentários da ópera—porque era afinal uma ópera!—pessoas que passavam, suas conhecidas, que êle cumprimentava e lhe diziam:

—«Gostou?

—«Muito!»

Helena atravessou-se-lhe no caminho:

—Onde vais? Perdoa! Agora que te disse tudo porque é que me não perdoas?...

Só então deu acôrdo de si. Um assômo atávico de ferocidade o dominou. Viu tudo negro! Agarrou Helena pelo pescoço e chegou a apertar.{131}

—Mata-me! mata-me!—gritou ela.

Largou-a e fugiu. Desceu as escadas a correr. Helena tombára desmaiada sôbre o soalho. Quando se viu no páteo parou. Abriu a porta devagarinho e uma lufada do ar frio da noite entrou, e fez-lhe bem. Esteve uns instantes a respirar, a arquejar, até que lhe pareceu ouvir passos. Desceu então o último degrau e começou a caminhar ao longo da rua—sob a inclemência do vento e da chuva que caía.{132}
{133}

Casa maldita

(Tragédia rústica)

 {134}

FIGURAS:

TÓNIO....}

MANOEL....} irmãos.

MARIA JOANA....}

FRANCISCO.... noivo de Maria Joana.

O MÉDICO.

Beira-Baixa, época actual.

 {135}

Casa maldita[1]

(Tragédia rústica)

Cozinha com lareira numa casa de quinta. Noite d'inverno. Vento e chuva desabridos.

FRANCISCO, da porta, chamando:

Maria Joana!

MARIA JOANA, que vem de dentro, do interior da casa, com uma candeia acêsa, voltando-se:

Crédo! Meteste-me um susto! (Pendurando a candeia). Entra!{136}

FRANCISCO, entrando:

O pai? está melhor?

MARIA JOANA, abatida:

Na mesma...

FRANCISCO

Na mesma?!

MARIA JOANA

Ou pior... sei lá! A outra noite já o nem julgávamos. Um febrão!

FRANCISCO

Basta que sim.

MARIA JOANA

Sempre a variar... a dizer tolices... (sente-se, dentro, gemer). Ouves? Lá está...

FRANCISCO

É verdade! Diacho, mas ontem parecia melhor...{137}

MARIA JOANA

Sim, tem disso.—«Alembras-te» da minha mãe?

FRANCISCO

«Alembro».

MARIA JOANA

Não me sái da «'maginação» que é o mesmo mal.

FRANCISCO

Ágora!

MARIA JOANA

Um dia melhor, outro pior, té que por fim... (Comovida) É o mesmo mal.

FRANCISCO

Ora!

MARIA JOANA

Verás. Já d'ali se não ergue.

FRANCISCO

Sabes lá bem...{138}

MARIA JOANA

Diz-mo o coração. E olha que para adivinhar...

FRANCISCO, depois dum silêncio:

Porque não mandam vocês à cidade, chamar o médico?

MARIA JOANA

P'ra lá foi o Tónio à bocado. Não tardam aí.—Pois que horas são?

FRANCISCO

Oito. Déram agora...

MARIA JOANA, calculando:

É isso. Foi com de dia. Não tardam.

FRANCISCO, depois dum novo silêncio:

E que diz o mestre Lourenço?

MARIA JOANA

O barbeiro? Olha o que há-de dizer! Que já se não entende com o mal, é claro.{139}

FRANCISCO

Sangrou-o?

MARIA JOANA

Sangrou.

FRANCISCO

E «óspois»?

MARIA JOANA

Cuidávamos que ficava. Fez-se muito branco, muito branco... os olhos a encovarem-se-lhe... (Tápa o rosto com as mãos, horrorisada). Se tu o visses!

FRANCISCO

Devia ter sido há mais tempo, talvez...

MARIA JOANA, desiludida, encolhendo os ombros:

Oh!

FRANCISCO

Há quantos dias adoeceu?

MARIA JOANA

Há treze.—É mau «númaro», não é?{140}

FRANCISCO

Ora adeus! Fias-te nisso?

MARIA JOANA

Fio.

FRANCISCO, levemente trocista:

Esta bom.

MARIA JOANA

Quando a minha mãe morreu, um cão esteve a uivar aqui toda a santíssima noite...

FRANCISCO

Foi o acaso.

MARIA JOANA

A Tereza Bógas casou a filha a uma terça feira e dia treze...

FRANCISCO

Bem haja ela...

MARIA JOANA

Ao cabo dum ano o marido deu-lhe cinco facadas... e matou-a!{141}

FRANCISCO

Milagre fôra se a deixásse com vida...

MARIA JOANA

Que mais queres?

FRANCISCO

Nada, co'os démos: estou «'stifeito». Tira-me essas manias da cabeça; dás em maluca.

MARIA JOANA

Se fôsse só isso!... E os palpites? Olha que tenho palpites tão certos, «Fracisco», tão certos! E sonhos?... Ha dois dias sonhei que antes do nosso casamento havia de se dar nesta casa uma grande fatalidade...

FRANCISCO, nervoso:

Bem; se continúas, vou-me.

MARIA JOANA, rindo:

Oh! «home»! julguei que eras mais forte do que isso!...{142}

FRANCISCO

Não é; não gósto...

MARIA JOANA

Bem, bonda, não te zangues...—És meu amigo?

FRANCISCO, amuado:

Não sei...

MARIA JOANA

És, bem vejo.

FRANCISCO

P'ra que mo «prècúras», nesse caso?...

O vento assobia nas frestas, sacode os troncos das árvores, ululando.

MARIA JOANA, num pressentimento:

E se eu morrêsse?... Casavas com outra?

FRANCISCO

Mau, mau, mau! bem digo eu... Faz favor de te calares, ou então...{143}

MARIA JOANA

Esta dito. Eu hoje estou assim... Não é por mal.—Escuta!

Poem-se os dois a escutar.

FRANCISCO

Parece que vem gente...

MARIA JOANA

Ná. É o vento.

Abre-se a porta de repente, com um empurrão sêco, e MANOEL entra, embuçado; traz uma velha arma caçadeira que coloca a um canto. MARIA JOANA, assustada, expele um grito quando o vê. FRANCISCO ergue-se tambêm assustado.

MANOEL, sorrindo, semblante mal encarado de facinora:

Meti-vos medo, p'los modos!?... Eu não sou o diabo, socegai!...

MARIA JOANA, mal refeita ainda do susto:

D'onde vens tu, «home», assim, a estas horas?{144}

MANOEL

Que te importa? Mete-te lá com a tua vida! Ora o «estapor»! (A Francisco) Um cigarro!

FRANCISCO oferece-lhe um cigarro.

MANOEL

Olá! Êste é dos de cu aberto! Bravo, rapaz, estás um «fedalgo»!

FRANCISCO

Déram-mos.

MANOEL

Só a mim ninguêm me dá raça de nada! Tudo me rouba. Aqui então, nesta casa... é tudo deles,—dessa e do outro...

MARIA JOANA

Intrujão! Não no acredites, Francisco, é um intrujão.

MANOEL, crescendo para ela:

Intrujão? E tu, minha porca? E tu que és?{145}

FRANCISCO, para o serenar:

Olha o pai, que ouve...

MANOEL

Quero cá saber do pai! Julgas que me consultaram agora para vir o médico? Bem te digo eu: isto é deles! Não vem cá por menos d'uma libra! Pois hão de êles pagá-la, se quiserem; nanja eu. (Beija os dedos em cruz). Juro!

MARIA JOANA

Ninguêm to pede...

MANOEL

Uma libra! Nem que ma arrancassem com uma enxó, do peito...

FRANCISCO

Deixa lá! Vão-se os aneis mas fiquem os dedos. P'ra mais, livra-se uma pessoa de remorsos.

MANOEL

Livra!... Livra-se mas é do dinheiro. Eu cá digo: quem tem de morrer, morre. Todos hemos d'ir, paciência... É a obrigação.{146}

MARIA JOANA

Eu dava a camisa do corpo por ver o pai com saúde.

FRANCISCO

Ouves?

MANOEL

O corpo dava ela por menos disso...

FRANCISCO

«Manel»!

MANOEL, refilão:

Que há de novo?

FRANCISCO

É tua irmã, bem vês...

MANOEL

Parabêns. Olha a princesa!

MARIA JOANA

Desalmado! (Ouve-se dentro a voz do pai a gemer). Pai! pai! Aí vou!

Sai correndo.{147}

FRANCISCO segue-a até a porta e fica a escutar. Pausa dalguns instantes. A chuva bate com fôrca nas têlhas.

FRANCISCO

Que noite!

MANOEL, à lareira, põe-se a cantar:

Não sei que quer a «desgrácia»
Que atrás de mim corre tanto...

FRANCISCO, interrompendo-o:

Parece mal, «home»; cala-te!

MANOEL

Pois sim...

... Que atrás de mim corre tanto...
Hei de parar e mostrar-lhe
Que de vê-la não m'espanto...

FRANCISCO

Até é pecado.{148}

MANOEL

Pecado e êles fazerem-me o que me fazem.

FRANCISCO

Estás doido. Que é que te fazem?

MANOEL

Desde muito novo eu tenho sido aqui um engeitado. Minha mãe quase me não criou como filho. Vedou-me antes dos seis meses; nem os peitos me quis dar!...—Já lá está, a pagá-las!

FRANCISCO

Ora! Vá a gente a ouvir-te. Tu és um doido.

MANOEL

Sou?—Porque dizes isso?...

FRANCISCO

Porque tenho rasões.

MANOEL

Talvez. Eu odeio-vos a todos!{149}

FRANCISCO

A mim tambem?

MANOEL

A ti. Queres-me roubar...

FRANCISCO, pálido, recuando:

Eu?!

Ouve-se fóra ruido de passos e vozes de gente que se aproxima.

MARIA JOANA, de dentro, a gritar:

Lá veem! lá veem! Abram a porta... (vê Francisco arquejante, afogueado; pára diante dêle). Que foi?

TÓNIO, de fora, ao mesmo tempo, chamando:

Maria Joana! ó Maria!... Abram lá isso! Abram! (Batem com força).

Francisco corre a abrir a porta. Há confusão, reboliço.—«Santo nome de Deus!» diz Maria Joana. Entram o médico e Tónio.{150}

O MÉDICO

Ora até que emfim!... Boa noite!

VÓZES, a um tempo:

—Bôa noite.

—Viva!

—Passe vossa senhoria bem...

TÓNIO

Chegue-se vossa senhoria ao lume que deve vir gelado. O frio é muito.

O MÉDICO, aquecendo-se:

Aceito. Venho gelado.

Faz-se silêncio. O doente grita.

O MÉDICO

É o doente?

MARIA JOANA

Saberá vossa senhoria que sim. O que aquela alminha tem sofrido, santo nome de{151} Deus! Se vossa senhoria o aliviasse daqueles tormentos, por amor da sua senhora e dos seus filhinhos, se os tem...

MANOEL, do lado, chasqueando:

Êle não e casado, mulher!

O MÉDICO, voltando-se, reparando em Manoel:

Sou, sim senhor... Quem lhe disse a vocemecêe que eu não sou casado?

MANOEL, no mesmo tom:

Digo eu...

O MÉDICO, para Maria Joana:

Quem é êste homem?

MARIA JOANA

É meu irmão (segreda-lhe qualguer coisa ao ouvido).

O MÉDICO

Bem.—Vamos ver o doente. (Indicando uma porta) É por ali?{152}

MARIA JOANA

Por ali; tenha a bondade... Vossa senhoria há de desculpar, é uma casa de «probes»...

Desaparecem os dois falando, no interior da casa. Fora ficam os tres homens: TÓNIO, o irmão e FRANCISCO. Nenhum deles diz palavra. Um cão põe-se a uivar, perto.

FRANCISCO, nervoso:

Olha o diabo do cão! É o vosso?

TÓNIO

É. Chama-o.

FRANCISCO, vai á porta a assobiar-lhe:

Eh! Farrusco! Quieto! Venha cá! Quieto!

O cão cala-se, mas d'aí a pouco põe-se a uivar outra vez.

FRANCISCO

Não há meio! Se fôsse meu dava-o, ou vendia-o... Punha-o com dono. Farrusco! (assobia-lhe de novo).{153}

MANOEL

Deixa lá o animal! que mal te faz o animal? Tambem com êle te metes? Aquilo foi desde que entrou o médico: cheirou-lhe a defunto...

TÓNIO

Bruto!

Os dois irmãos entreolham-se ferozmente. Passa entre êles uma labareda d'ódio. Depois, MANOEL põe-se a cantarolar.

TÓNIO, a meia voz:

Farçola! o que tu merecias...

MANOEL, que ouviu bem:

Tanto sopras no fole, que o fole um dia estoira...

TÓNIO

O quê? que dizes?

MANOEL

É cá comigo...{154}

TÓNIO

Escuta. Quem paga ao médico sou eu, do meu bôlso, ouviste?

MANOEL

Bom proveito.

TÓNIO

As vinte moedas que ali estão (indica um arcaz) são da Maria Joana.

MANOEL, erguendo-se, encandieirado:

De quem?

TÓNIO, enérgico:

Da Maria Joana, já disse! O pai assim o quer. Cumpra-se a sua vontade, mando eu!

FRANCISCO, intervindo:

Tónio, bem vês... A Maria Joana há de vir a ser minha mulher. Eu não queria que por via disso... de dinheiro...

TÓNIO

Tá, tá, tá... não tens que «agarcer»; são dela. Eu é que mando aqui: sou o mais velho.{155}

MANOEL

Juro que te arrependes, Tónio! Cego seja eu de gôta serena.

TÓNIO

Pois cego sejas tu.

FRANCISCO, interpondo-se:

Olhem o médico! Tenham juizo, ó menos...

O MÉDICO, da porta, falando para dentro:

Sim senhor, tudo se há de arranjar, esteja socegadinho... isso pássa (entrando). Pobre homem!

TÓNIO, avançando para o médico:

Está pronto, não é verdade? Já d'ali não «arrinca»... Morre?

O MÉDICO, querendo animar:

Vamos a ver; emquanto há vida...{156}

FRANCISCO

Sim, emquanto há vida, Tónio, há esperança! Tem por dizer...

TÓNIO, desiludido, ao médico, abanando a cabeça:

Na. Póde vossa senhoria desabafar; eu cá sei o que vai haver esta noite... Adivinho!

FRANCISCO

Ó «home», que genio! que fraqueza! Não vês êste senhor a dizer-te que não. Êle é que sabe, que estudou...

TÓNIO

Pois sim. Estâmos sem pai, «Fracisco»!

MARIA JOANA, que vinha entrando e que ouviu o irmão dizer aquilo:

O quê! Morre? (Pausa. Ninguem responde; dirige-se ao médico). Morre? meu pai morre? (o médico cala-se) Não me respondem! não me dizem nada! (levando as mãos á cabeça num desespero){157} Ah, meu pai! Ah, meu pai! Que não tenho outro...

FRANCISCO, confortando-a:

«Atão», Maria Joana, vem cá, vem cá. Olha que êle ouve.

MARIA JOANA

Deixa-me! Deixa-me!... Eu quero morrer tambem. Quero morrer, «Fracisco».

FRANCISCO

Nosso-Senhor ainda pode muito, cachopa!

TÓNIO, ao médico que está preparado para, saír:

Quanto ao trabalhinho de vossa senhoria, há de perdoar, nós lá iremos...

O MÉDICO

Descansem, quando puderem, não tenho pressa; arranjem cá a sua vida. Agora o que é preciso é ir embora... Faz-se tarde.

TÓNIO

Pronto! (a Francisco) Ó «Fracisco», tu agora vais aqui com o sr. «doitor», se te não custa, eu{158} não posso... E trazes os remédios, pelas almas. É um favor.

FRANCISCO

Vou e ponho-me aí num foguete, verás. Dentro de duas horas estou de volta.

MARIA JOANA, num gemido:

Leva a arma!

MANOEL, que tem estado sempre calado até aqui:

Leva-a, se a quiseres... Empresto-ta.

Todos se voltam, admirados da generosidade.

FRANCISCO

Não é preciso; levo antes esta (mostra um marmeleiro ferrado) é mais certeira... Bem hajas!

Dão as boas noites. Sai êle e o médico. Uma lufada d'ar entra, quando se abre a porta, apagando a luz.—«Fechem a porta!» ouve-se dizer no escuro. A porta fecha-se com mão misteriosa... Tinha sido o vento. TÓNIO, dentro, ás apalpadelas, procura a candeia,{159} que acende ao fogo duma acha, no lume da lareira, soprando-lhe para a atiçar. A scena é lugubre. MARIA JOANA é uma rodilha, a um canto, a soluçar.

TÓNIO

Vá, rapariga! Cobra ânimo! Estas um engrimanço, uma dama...

MARIA JOANA parece reanimar-se. Limpa as lágrimas ás pontas do lenço da cabeça. Vai ao vasal, tira uma tijela, e enche-a de água. MANOEL nem palavra: fuma.

TÓNIO

Para onde vai isso?

MARIA JOANA

É para o pai; não leva nada desde ontem... Pediu-me água, que dizes? (Tónio encolhe os ombros) Soube-lhe tão bem a outra... Tinha-me dito: «filha, dá-me de beber; tenho um fogo aqui dentro...». E eu dei-lhe de beber. Parece que aliviou. O médico disse-me que lhe désse o que êle pedisse. Dou?{160}

TÓNIO

Se êle o disse...

MANOEL, de troça:

Dá-lhe vinho, dá-lhe vinho...

TÓNIO, furioso, agarra num banco e avança para o irmão:

Esmago-te como a um sapo, maldito, se te não calas! (Os seus olhos chispam lume).

MANOEL, erguendo-se:

Experimenta e verás o trôco... (Diante dêle): Sim! sim!

MARIA JOANA, suplicante, entre os dois:

Tónio! «Manel»! Nosso-Senhor castiga-vos!... Por Deus! Ai, Jesus!

TÓNIO, cedendo:

O que te vale...{161}

Sentam-se ambos, calados, tacitumos, a distância. MARIA JOANA fita um momento o grupo. Respira profundamente, desolada. Entra depois no quarto do doente, cabisbaixa, cambaliante.

Grande silêncio!

Súbito, um grito, depois outro,—lancinantes, desesperados, dentro do quarto. Os dois irmãos levantam-se apavorados.

MARIA JOANA, à porta, num paroxismo:

O pai! o pai!... Morto! (volta como louca à cabeceira do cadaver).

TÓNIO precipita-se tambem desvairado no quarto do pai, atrás da irmã. Continuam os gritos. MANOEL tem uns segundos de perplexidade, olha em redor, hesita, vai, corre para o arcaz; abre-o, mergulha o braço nervosamente no fundo; tira tudo,—roupas, farrapos, misérias, remeche,—procura, encontra emfim o que ambiciona: a bolsa com as vinte moedas!

TÓNIO, que entra desgrenhado, percebe tudo, exclama:

Ah, tratante! ah, ladrão!... Agora é que tu queres roubar a tua irmã!{162}

Atira-se a êle. Trava-se uma luta entre os dois, encarniçada: qual de baixo, qual de cima, com as garras, com os dentes—como dois liões!

MARIA JOANA, sòzinha, brada, abrindo a porta, para a solidão dos campos ermos, na chuva e na ventania:

Acudam! aqui d'el-rei!... Acudam!

Ninguem! Tudo se passa como num deserto, a milhões de léguas da outra gente, no isolamento daquela casa maldita! MANOEL, rôto, alucinado, escorrendo sangue, consegue erguer-se do chão, aonde por duas veses o prostrára o pulso férreo de TÓNIO; apanha emfim a espingarda e alveja-o.

MARIA JOANA, interpondo-se, num salto ágil:

Ai, que te desgraças! ai que te desgraças, «Manel»!

MANOEL

Larguêza! larguêza senão arrebento-te tambem...

Ela resiste, debate-se, diante da arma. Esta, num repelão, dispára-se, indo a carga alojar-se no peito da rapariga.{163}

TÓNIO, vendo a irmã caída num lago de sangue:

Mataste-a!

MANOEL, poisando a espingarda e com um sorriso cínico:

Matei?... Pois tira-lhe a pele, que é d'estimação...

Recomeçam a luta.

 {164}