K

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{149}

K

KALEIDOSCOPO—Instrumento, onde cada escola politica vê as suas theorias.

KALIUM ou POTASSIUM—Bebe-o com salsa-parrilha, desgraçado! Talvez assim te doam menos os espinhos das rosas colhidas.

KALMIA—Arbusto, em cuja flor as abelhas colhem mel venenoso. É a Traviata das plantas. Só as cabras e os veados a comem impunemente.{150}

KANTISMO—Systema de philosophia de Kant, ou arte de mostrar aos crentes um cabello de Nossa Senhora, tão delgado, que nem mesmo quem o mostra o viu nunca!

KERATINA—Materia prima do chavelho. Tambem os ha sem ella.

KERMES—Um filho do antimonio vermelho, que rebenta gente como a polvora rebenta bombas de foguetes. Se lhe carrego a mão é para lhe retribuir o que elle me tem feito.

KEROSENE ou PETROLEO—Genero que quanto mais abunda no mercado de Lisboa, mais encarece. Ó senhor Governo; acuda aos monopolistas com mais leis protectoras, e com mais commendas. V. ex.ª e elles... lá se entendem.

KILO ou KILOGRAMMA—A nossa{151} jurisprudencia sempre tem cousas! Ha de a gente receber novecentas grammas de carne, quando paga um kilo, e se chamar ladrão ao açougueiro, vae o roubado para a cadeia e não o roubador! Não se póde chamar ladrão a ninguem sem que os tribunaes sentenceiem; mas póde-se ser roubado por todos, sem que ninguem se importe! A lei protege unicamente os que roubam o povo!

Ó nações do mundo? Quem dá uma medalha de honra a este paiz originalissimo?! E se não ha medalhas, dêem-lhe, ao menos, mais alguns pontapés, alem dos que todos os dias leva. Mas, voltando ao kilo, convem saber que o mais que elle dá em Portugal, sobre tudo nos açougues, são novecentas grammas, e já é bem bom.

KISTO—Membrana em fórma de bexiga, contendo humores perniciosos, que nasce nos costumes e tem o nome vulgar de alcouce.{152}

KLOPEMANIA—Doença caracterisada por uma inclinação irresistível para o roubo. É endemica de certo paiz que nós sabemos. Deu-se-lhe o nome grego para fingir que a cousa não é com elles.

KNOUT—Moda russa, que conviria introduzir nos nossos costumes, para lhes dar côr local.

KYRIE-ELEYSON—Senhor, tende piedade de nós, que estamos sendo comidos em vida pelos traficantes de generos alimenticios, e pela administração que os tolera e a policia que os protege!{153}

L

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L

LABÉO—Doença que roe muitas excellencias.

LABIA—Sciencia de pescar incautos.

LACAIO—Imitador servil de certos amos.

LACONISMO—Um sôcco, em resposta a uma insolencia.{156}

LADRÃO—Amador de curiosidades alheias.

—Artista modesto e discreto, que encobre as inclinações.

(EM PONTO GRANDE) Predestinado á consideração dos governos.

LADRAR—Dizer mal de alguem, por inveja. Zurrar é synonymo.

LAGRIMAS—Ultima rasão da mulher.

—Secreção da glandula do olho, que muitas pessoas abrem, como torneira, a proposito de tudo.

—Ha quem séque as da mulher com as da ostra.

LANGUIDEZ—Estado da bolsa do empregado publico passado o dia 15 de cada mez.{157}

LARAPIO—Homem que busca aventuras.

—Synonymo de cavalheiro... de industria.

LAVAR-SE—Ruim manha, na opinião de muita gente.

LEILÃO—Quem dá mais pela minha belleza?!

(Uma mulher moça.)

—Quem compra o meu voto?!

(Um eleitor.)

—Quem quer a minha honra?!

(Um sujeito que deseja enriquecer depressa.)

—Quem quer pretos, e brancos, e moeda falsa?!

(Aspirante a barão.)

—Quem compra empregos e honras?!

(Pessoa influente.)

—Quem quer enriquecer sem trabalhar?!

(Um cauteleiro.)

—Quem quer moralidade, progresso e economias?!{158}

(Aspirantes a ministros.)

Nota.—O povo, não sabendo para que lado se ha de voltar, nem tendo dinheiro para taes mercadorias, grita por sua vez:

—Quem quer o diabo que os leve a todos?!

E o leilão continúa.

LEITE—Liquido suspeito, que se vende publicamente em Lisboa.

LEITURA, DE PEÇA (OUVIR)—Pesadello, depois de se ter ceiado carneiro com batatas.

LEMBRANÇA—A mais duradoura é a que nos recorda as belliscaduras feitas ao nosso amor proprio.{159}

LIBERALISMO—O pesadello de Roma e dos que gostam do arroxo.

LIBERDADE—Um horror, segundo a opinião dos jornaes que mais usam e abusam d'ella.

—Faculdade que cada um tem de fazer com que o mettam na cadeia.

LIGA—Juncção de metaes, formando um todo impuro.

LIMOEIRO (CADEIA)—Arvore de má sombra. Os que a apanham são quasi todos obrigados a mudar de ares, e raros se restabelecem.

LIMPEZA—Ha mais nas ruas do que nas mãos.

LINGUA—A arma de maior alcance.{160}

—Instrumento sem cordas, que muitas vezes faz encordoar.

(CLASSICA) É a guizada.

(CORRUPTA) Quando se chama de vacca, sendo de boi. Outros dizem ser synonymo idioma de vacca.

LINGUADO—Discurso chato.

LISBOA—Vasto cemiterio de podridão e lentejoulas, como chamou ao reinado de el-rei D. Manuel o senhor A. Herculano.

—Cousa immunda e pestifera.

—Tapem os narizes e fujam!

LITTERATO (DE BOTEQUIM)—Sujeito sem vintem, sem instrucção e sem officio.

LIVRARIA—Unico logar em que é permittido confundirem-se os mortos com os vivos.{161}

—Exercitos de mudos, que exprimem idéas de todos os diabos.

—Instrumento, cujas cordas vibram no coração de todos os seculos.

—A Babel das idéas.

—Gazometro do espirito.

LIVRO—Soporifero dos parvos.

LOBISHOMEM—Cantor que vae perdendo a voz.

LOBO—Parlapatão imprudente, que imagina poder tratar com o homem de mano a mano.

LORPA—Homem em projecto.

LOTADOR (DE VINHO)—Envenenador que faz concorrencia ao medico.

LOUREIRO—Emblema de gloria, com{162} que se coroavam antigamente os poetas. Hoje é emblema de escabeche.

LUA—Confidente discreta. Mas nem a ella digas que és pobre, se não queres que até os cães te evitem, com medo de que tu os mordas a elles.

LUGUBRE—Homem que pede dinheiro emprestado.

—Orçamento do estado.

LUNATICO—O que acredita nos outros e duvida de si.

LUPANAR—Casa onde os filhos familias recebem a ultima demão de moral.

LUVA—A mais alta expressão social. Ás vezes é mais limpa do que a mão que a calça.{163}

LUXO—Cancro da sociedade e da familia.

—Perdição de muitas mulheres.

—Sanguesuga de todos os maridos.

LUZEIRO—Qualquer jornal pifio, no conceito dos que o escrevem.

LYCEU—Accumulação de absurdos. Pobres rapazes! Por que insolitos meios fazem de vós os homens do futuro! E queixam-se depois se algumas vezes desatinaes nas academias e nos parlamentos!... Quando chegaes a ser deputados, pares, ministros, sabios de qualquer tamanho, lembraes-vos naturalmente do lyceu, onde a ignorancia e a maldade, o pedantismo e a presumpção estupida vos atrophiaram a intelligencia e perverteram o senso moral, e daes-lhe para baixo com as vossas reformas, que os põem cada vez peior! Mancebos de hoje, tomae o conselho de um amigo prudente, que ama do{164} fundo d'alma a mocidade com todas as suas loucuras e tolices: Quando chegardes um dia a fazer leis, não copieis dos estrangeiros as reformas para a instrucção de vossos filhos. Deitae abaixo o lyceu, e restabelecei o antigo curso de humanidades, que nos deu os grandes homens que sabiam bem das suas especialidades, em vez dos que hoje fazemos, obrigando-os a aprender tudo para ficarem sem saber nada.

Zacharias, toca o bumbo! As tiradas graves afugentam o publico. Deixa brilhar os lyceus, e a rapaziada que os reforma.{165}

M

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M

—Para mim, é toda a occasião em que me pedem dinheiro.

MACACO—O nosso parente mais chegado. Copiâmol-o em tudo, excepto em andarmos tambem com as mãos no chão. Será para lhe fazermos suppor que não somos da sua especie? Por sua parte, anda elle muitas vezes só com os pés, para nos mostrar que não lhe somos superiores, e que podia imitar-nos,{168} se quizesse, mas que é quadrumano por commodidade. Seria de grande interesse para a sciencia nomear-se uma commissão academico-politica, para dar parecer sobre se convirá mais que nós ponhamos as mãos no chão, ou que os macacos levantem as suas.

MACARRONEO—Estylo de alguns contemporaneos celebres.

MÁCULA—Pingo de azeite no panno da reputação.

MADRASTA—Livro mal traduzido.

—Parodia da mãe.

MÃE—Fonte de agua pura, onde ás vezes se criam sapos e sanguesugas.

(QUE ENGEITA OS FILHOS) Pataco falso.{169}

MAIORIA—Rebanho que, em lhe cheirando a defuncto, roe a corda do redil.

—Babylonia de crimes, segundo a minoria.

MALANDRO—Besta manhosa.

MALCREADO—Bruto que nunca aprendeu a ser homem.

MALDADE—Sciencia que mais se aprende, cursando a escola do mundo.

MALDIZENTE—O gracioso moderno.

—Cloaca mal fechada.

MALEDICENCIA—Prazer dos deuses em férias.

MALFEITOR—Comparsa incumbido de legalisar a existencia da policia.{170}

MÁ-LINGUA—Escova de arame, com que se alisa a pelle dos ausentes.

MANCHA—Verruga da probidade.

MANDRIÃO—Um larapio como qualquer outro.

MANEQUIM—Boneco politico. Serve para modelo de pintar situações.

MARCA (DE FAZENDA)—Signal falso, na maioria dos casos.

MARÉ—Occasião que devemos aproveitar, arranjando os nossos negocios, ou desarranjando... os dos outros.

MARIOLA—Homem carregado de cousas feias.

MAROMBA—Distinctivo das maiorias{171} parlamentares, no dizer dos que lhes são adversos.

MASCARADO—Bacalhau sem sal.

—Desamparado de Deus, porque lhe falta a graça.

—Esplendor da semsaboria.

MASSADOR—Moinho de moer gente.

MATERIAL—Homem que trabalha mais de queixo do que de cabeça. Para navegar precisa leme... á prôa.

MEETING—Vocabulo inglez, que, traduzido para portuguez, quer dizer farça.

—Rede com que se pescam empregos.

MEETINGUEIRO—Cão que ladra á lua, e que se faz calar com pão ou com pau.{172}

MEDICINA—Monte pio do coveiro. Soccorre-o com defunctos.

MEDICO—Oh, céus! Como hei de eu ter animo de os beliscar, lembrando-me de quanto elles me teem feito?! Ha trinta annos que lhes caí nas unhas, e ainda estou vivo! Parece incrivel, porque tenho tido muitos. Mas a verdade é que apenas me tiraram a pelle e me estragaram o sangue e os ossos!

Queridos e piérios amigos, nenias de casaca, esfolladores amaveis, permitti que eu, por minha vez, derrame sobre os vossos couros este pingo de vinagre produzido no meu espirito pelas panelladas horrendas com que estoiraes os pobres diabos da minha especie. E adeus, até ao primeiro caustico.

MEIOS—A escola mais perfeita acha todos bons, quando ajudam a viver.{173}

MELODIA—O tenir do oiro com que nos pagam uma divida julgada perdida. É como se ouvissemos a alma de Bellini cantar-nos a Norma.

MENTIRA—Nossa Senhora da Actualidade.

MERCURIO—Filho dilecto da medicina.

—Idéa mãe das doenças de pelle.

—Creador de padecimentos que fazem damnar os medicos... que os teem.

MERITO—Qualidade de que quasi sempre dizem mal os que não a teem.

METAMORPHOSE—Evolução politica, por meio da qual uma borboleta se torna em lagarta que roe todos os ministerios.

METHODOS—Especie de muletas,{174} que seus auctores gabam muito, apesar de cairem frequentemente com ellas, e acabarem de quebrar as pernas.

METRALHADORAS—Ultima palavra, até agora, do direito moderno.

MÉZINHA—A consolação dada ao ministro que perdeu o poder, com as palavras do chavão—«Serviu muito a meu contento»—e com a conservação das honras.

MILAGRE—Viver de empregados publicos, com ordenados de 600$000 réis para baixo.

—Agua de Lourdes.

MINEIRO—Homem com vocação de minhoca.

MINHOCA—Sugador modesto.{175}

MINISTERIO—Capitolio, Rocha Tarpeia, Calvario, Pelourinho, Olympo, ou simples tribuneca. É conforme a qualidade dos, que o compõem.

—Zodiaco constitucional.

MINISTRO—Jupiter em exercicio.

—Homem que muda de amigos.

—Artista que despreza o publico que mais o applaude.

MINORIAVox clamantis in deserto.

—A virtude opprimida e a sciencia menosprezada, na opinião dos que a compõem.

MISERICORDIA—Virtude sublime de mais para homens politicos. Não ha exemplo de a terem tido com os adversarios.

MISSÃO (RELIGIOSA)—Loteria em que se jogava a pelle contra almas de sujeitos que adoravam a carne dos missionarios.{176}

MOCHO—Apagador parlamentar.

MODA—Unica paixão séria da mulher.

MODESTIA—Qualidade distincta, que, em geral, só se vê nos que não teem motivo de a manifestar.

—Qualidade negativa para se triumphar.

MODESTO—O mais temivel dos orgulhosos, no conceito dos que o não imitam.

MODISTA—A pythonissa moderna.

MOEDA—Sangue dos estados.

MOEDEIRO (FALSO)—Viajante que se esqueceu do proverbio «Nunca deixes caminho por atalho», e é por isso punido pelos jurados, naturaes zeladores de proloquios.

—Perito que duvída de si, e faz experiencias{177} para ver se o trabalho da casa da moeda é igual ao seu.

—Pessoa que explora o meio de chegar depressa... á Costa de Africa.

—Algebrista que resolve o problema de fazer cinco mil réis com dois mil e quinhentos.

—Curioso que procura a grilheta com o buril.

MONOPOLIO—Menino bonito que todos os governos respeitam, mais ou menos.

MONUMENTO—Um aleijão.

MORATORIA—Anemia commercial.

MORDACIDADE—Zurrapa litteraria.

MORIBUNDO—Luz que bruxuleia com o vento do outro mundo.{178}

MORTE—Uma caricatura.

—Fim da representação.

MULHER—Quando ama, sereia; quando tem ciumes, gata assanhada; quando cessa de amar, vinagreira.

—Instrumento impossivel de afinar.

MULHERENGO (HOMEM)—Cão fraldiqueiro.

MUNICIPAL (SOLDADO)—Achilles dos Briseis de Lisboa. Policía e moralisa a cidade por meio das creadas.

MUNIFICENCIA—Patacoada de certos soberanos, que davam terras... a quem as conquistava aos infieis.

MYSTERIOCherchez la femme.

MYSTERIOS—Cabellos muito pretos{179} e dentes muito brancos. Convem desconfiar de tudo, passados os trinta annos. As illusões deixaram de ser exclusivo da mocidade.{180}
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N

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N

NABABO—É a posição que mais me sorri, com dez mil elephantes, carregados de oiro. Se eu a apanhasse, veriam o que era ter graça para fazer diccionarios!

NAÇÃO—Não se conhece nenhuma tão feliz como a nossa. Acorda um momento para se gabar da sua historia gloriosa, e logo torna a adormecer! Deus te abençoe, mãe de heroes... passados!{184}

NACAR—Oh, menina, se ao menos eu tivesse as perolas! deitava as conchas fóra.

NACIONALISAR—Em linguagem de varios litteratos, é abastardar peças francezas com portuguez mascavado.

NADAR—É bom saber, mas convem mais não precisar d'isso. Por mim, preferia nadar em dinheiro. E tu, leitor?

NAMORADA (RICA)—Prodigio de belleza, ainda que seja feia como o grande diabo.

(POBRE) Carapau, do que se dá aos gatos.

NAMORADEIRA—Especie de mosca. Tanto pousa na flor como no estrume.

NAMORAR—Fazer de urso.{185}

NAMORO—Primeira expressão da parvoice humana, assim como o casamento é a ultima, segundo affirmam os descontentes.

NARCOTICO—Um livro do senhor V.

NAVALHA—Lyra dos poetas do fado.

NAVIO—Viajante, a quem as viagens estragam e não illustram.

NAYADES—Em Lisboa são fingidas por aguadeiros.

NUDEZ—Uso economico e primitivo, ao qual a policia declarou guerra, para proteger os alfaiates e as modistas.

NULLIDADE—Genero que sempre tem saida, apesar da sua abundancia.

—Varão conspicuo.

—Nunca se deprecia, porque serve de marca nas contradanças politicas.{186}
{187}

O

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O

OBRAS (DE CASAS)—Pinhal da Azambuja, no conceito dos proprietarios.

OBRIGADO—Ah! tu infliges-me a humiliação de um serviço! Pois deixa estar, patife, que m'o has de pagar!

OCIO—Deleite que os pobres compram caro.

—O antipoda do trabalho.{190}

OCIOSO—Membro da liquidação social, quando não tem duzentos contos de renda.

OLEIRO—Escaravelho aperfeiçoado.

OLHOS—Interpretes que tornam diabolicamente verdadeiro o proverbio italiano: Traduttore, traditore.

—Portas da traição.

OPINIÃO—Julga-se que fosse uma especie de ventoinha, que o vento levou ha muitos annos. Passa-se bem sem ella.

OPPOSIÇÃO—Moinho de moer senso commum, no conceito dos ministeriaes.

ORAÇÃO—Traço de união entre a creatura e o creador.

ORÇAMENTO—Mysterio.

Monstrum horrendum, informe, ingens, cui lumen ademptum.{191} O que traduzido em vulgar quer dizer: «Polyphemo, a quem varios Ullysses teem tirado os olhos da cara, substituindo-lh'os por uma trapalhada».

ORGULHO—Paixão digna de quem não póde ter outras.

—A lombriga dos immortaes.

ORTHOGRAPHIA (PORTUGUEZA)—Reminiscencia da torre de Babel.

OSTRA—Pessoa que não se mostra por dentro senão quando acha maré.{192}
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P

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P

—Instrumento que estava a calhar nas costas dos amigos da união iberica, se ainda houvesse Brites de Almeida. Infelizmente as padeiras de hoje, incluindo as de Aljubarrota, preferem a pá de vitella, desossada.

PAÇAL ou PASSAL—O ultimo osso nacional que se está roendo. Desperdiçaram a farinha e comem agora o farélo!{196}

PACHORRAAlma mater da minha terra. Faz gosto ver como ella engorda a estudar todas as questões!

PACIENCIA—Virtude que ninguem se esquece de aconselhar áquelles a quem pisa os callos.

PACIENTE—Um, que se sentiu incommodado, momentos antes de ir para o patibulo, exclamou, ao ver entrar no seu carcere um homem vestido de preto:

—«Não é preciso; não é preciso! Prefiro que me enforquem já.»

—«Sou o executor da lei...»—respondeu como desculpando-se o carrasco.

—«Ah!—tornou o padecente muito consolado—Cuidei que era um medico!»

PADRE—Bilheteiro do céu. Escusam de o procurar sem dinheiro, que elle não abre a porta.{197}

PADROADO—Direito que podia ser uma das glorias portuguezas no oriente, e é uma das nossas vergonhas.

PAES (DA PATRIA)—Parricidas e anthropophagos inconscientes. Matam e comem a mãe aos pedaços.

PAGINA—Desculpem, se lhes impinjo esta!

PAIO—Ideal dos que amam... os do Alemtejo.

PAIXÃO—Bebedeira do sangue.

PALAVRA—A faca do pensamento.

PALAVRIADO—Flores do charlatanismo.{198}

PALCO—Parodia do paraizo de Mafoma: tem as houris pintadas.

PALHA—Artigo que devia ter muito maior consumo, attendendo ao grande numero dos que precisam d'ella.

PALHADA—Litteratura contemporanea, exceptuado o meu diccionario.

PALPITANTE—Coração de mulher, quando joga a primeira carta na banca do matrimonio.

PANACEA—A minha idéa de governo. A dos meus adversarios dá cabo do paiz em vez de o curar.

PANDIGA—Termo chulo, que tem dado em pantana com muita gente séria.{199}

PANTANA—Paiz para onde se vae pelo caminho da pandiga.

PAPAGAIO—Deputado da maioria, no dizer dos seus inimigos. Alguns nunca aprendem a fallar bem.

PAPÃO—O deficit do orçamento do estado em Portugal.

PARAIZO—Logar onde não ha livros, nem jornaes, nem prodigios de talento de nenhuma especie.

PARASITA—Verme intestinal das pessoas, generosas.

—Orchidéa que vive nas mesas ricas.

—Collega do piolho.

PARASITISMO—Doença que devora ministerios.{200}

PARENTES—Inimigos dados pela natureza.

PARLAMENTO—Boceta de Pandora.

—Casa onde não ha pão, todos ralham ninguem tem rasão.

—Casa onde todos querem entrar, e de onde poucos sabem sair.

PARLAPATICE—Mana da patacuada.

PARTIDO (POLITICO)—Quando opposição, grupo de seis homens e um cabo. Quando governo, exercito numeroso.

PARVALHEIRA—Região occidental da peninsula hispanica, onde os parvos grelam e florescem como os nabos.

PARVOICE—Uma divindade muito estimada.{201}

PASQUIM—Bofetada escripta.

PASSADO—Abysmo sem fundo, para onde olhamos sempre.

PASTA—Alma dos ministros... e do boticario Régnauld. A do ultimo é comtudo, menos peitoral, apesar de ser mais balsamica.

PASTEL—Visita querida para estomagos gulosos.

PASTELLEIRO—Concorrente de certos politicos, sobretudo se abusa do mesmo molho para tudo.

PASTOR—Lobo disfarçado.

PASTORA—Já não ha. Florian deu cabo d'ellas.{202}

PATEADA—Avesso de um bom panno. O direito são as palmas do applauso.

PATIFE—Homem de bem que se descuida.

PATINHAR—Cousa novamente introduzida, na qual a gente se diverte fazendo de urso e quebrando as pernas. É uma especie de natação, á maneira de pato, nos lagos, digo, nos salões dos theatros.

PATRIOTA—Homem que quer mamar.

PATRIOTISMO—Faro de emprego graúdo.

—Bordão a que se encosta a barriga.

PATRONATO—Cousa que eu nunca apanhei, mas que me consta ser muito boa, e por isso a recommendo.{203}

PAULADA—Prazer dos deuses... que a dão.

PAVÃO—Especie de passaro, depennado pelo senso commum, que não serve senão para dar gloria... aos alfaiates.

PAZ—Somnolencia da diplomacia.

—Hemistichio humano.

PÊA (PARA SELVAGENS)—Presilhas, gravata, botas e suspensorios.

(PARA CIVILISADOS) Respeitar-se a si e aos outros. A liberdade (como hoje a entendem) vae dando cabo d'esta ultima.

PEÃO—Os pequenos jogam com os de pau, os grandes com, os de carne e osso. O segundo methodo é mais bonito, salvo para os que apanham.{204}

PECHINCHA—Uma boa moça com trezentos contos de réis. Não se ponham com escrupulos, que ha muito quem queira.

PEÇONHENTO—Sapo litterario. Arrasta-se pelos escriptorios dos jornaes, e como não póde subir, lança a baba para o ar com o intuito de salpicar tudo que está acima d'elle.

PECULATO—Descuido dos que mettem na sua algibeira o dinheiro do estado. Em certo paiz que eu sei, ha muitas propriedades, que bem podiam chamar-se, à romana, peculatorius.

PEDIR—Systema de escurraçar amigos.

PEITA—Uma cousa que acabou desde que todos queriam antes ser peitados do que peitar.{205}

PEIXEIRO—Repuxo de palavradas.

PELLE—Campo que quanto mais se cobre de flores mais repugnante parece. Nascem n'elle as bexigas, o sarampo e a escarlatina, sem fallar nas dez mil variedades de herpes, desde a sarna e o dartro até o cancro e a lepra. Felizes d'aquelles a quem tiram a pelle!

PELOURINHO—Diminutivo de pelouro. Os vereadores podem estar n'um e n'outro, conforme seus merecimentos.

PENEIRA—Em phrase popular são os vidros dos oculos com que vemos o proximo quando o escovâmos. (Veja o artigo: MÁ LINGUA.)

PENHOR—Garantia que por vezes se exige aos roubados no acto da expoliação.{206}

PENITENCIARIA—Renascimento da inquisição e da Bastilha, que zomba das revoluções e progressos do espirito humano.

PENNA—O buril que mais profundamente grava a idéa no coração dos seculos.

—Stylete, cuja ponta é mais rija que o diamante.

—Arma que honra o homem quando elle a emprega em defeza dos opprimidos; e que o deshonra quando serve a injustiça e a tyrannia.

PENSAMENTO—... O maior bem que Deus nos fez foi dar-nol-o de modo que ninguem o possa ver. Do contrario, comiamos-nos vivos uns aos outros.

PENSAR—Viver, asnear.

PENSIONARIOS—Vermes intestinaes.{207}

PEQUENO—Homem que se julga muito grande.

PEQUICE—Signal por onde os deuses que nós fazemos revelam a sua origem mortal.

PERDÃO—Applauso que pede bis aos patifes.

PERDER (A CABEÇA)—É gallicismo duplamente censuravel, porque, na maioria dos casos, as pessoas que o empregam já não teem pés nem cabeça.

PERDULARIO—Cavallo que deita a maior parte da palha fóra da manjadoura.

PÉRFIDO—Rato que roe o queijo da amisade.{208}

PERNA—Silencio!... Não profanemos os mysterios do algodão em rama.

PERNAS—Eu prefiro as do porco.

PERRARIA (PERRICE)—Um prazer feminino.

PERSEVEJO—O calumniador: morde e esconde-se, apenas sente que o procuram. É o mais covarde dos insectos nojentos.

—Companheiro de cama que nos roe a pelle.

PERU—Sujeito que attrahe peruas, das que trata o artigo immediato.

PERUA—Phantasia da linguistica popular, de sentido obscuro. Muitas pessoas respeitaveis a teem tomado, no intuito de ver se decifram o enigma, porém adormecem antes de tel-o adivinhado.{209}

PESCADA—Uma filha de Amphytrite, que eu amo, cozida, com azeite e vinagre, e até frita, com salada.

—A rosa do mar.

PESCADINHA—Imitadora das creanças que chucham no dedo, quando os cozinheiros lhe mettem o rabo na bôca. Peço perdão aos srs. grammaticos d'esta amphibologia. Não é ás creanças que o cozinheiro mette o rabo na bôca, é ás pescadinhas. O diacho da grammatica está a mangar commigo! Entenda-se que é o rabo das ditas pescadinhas que elle mette na sua bôca d'ellas, e não outro rabo qualquer.

PESTE—A doutrina dos nossos adversarios.

PETROLEO—Intelligencia dos candeeiros.{210}

PHAROL—Amigo que nos adverte.

—Olho das praias.

PHENOMENO—Ha de mostrar-se no dia em que um amigo me der cincoenta contos de réis.

PHILANTHROPO—Aquelle que não te desanca nem te rouba.

PHILOSOPHIA—Sciencia de confundir tudo.

—Arte de não crer em cousa nenhuma.

PHOTOGRAPHIA—Calamidade que propaga as caras feias.

PIANO—Maravilha do engenho, antes de vulgarisado. Agora, machina infernal de machucar paciencias e ouvidos. Oh! jovens prodigios, que os papás e as mamãs, repletas{211} de parvoice e de jubilo odioso, impingem ás visitas infelizes, eu vos arrenego!

PIMENTA—Artigo que, se não fosse a minha modestia, eu affirmaria existir n'este diccionario em grande abundancia e para fazer arder todos os paladares.

PINOTE—Expansão por mimica.

PINTAR-SE—Arte de não verificar as datas.

PINTURA—Depois que se usa a da cara e a dos cabellos, já ninguem presta attenção ás outras.

—Arte de engraixar cabeças.

PIPA (DE VINHO)—Gaiola do jubilo.

PIRATA—Caçador de noivas ricas.{212}

PITEIRA—Planta-se nos vallados, e deita gente nas vallas[5].

PLASTICA—A arte de modelar... com pasta de algodão.

PLEBEU—Cidadão que tem noventa probabilidades por cento para subir, emquanto que o nobre tem o mesmo numero d'ellas para descer.

POBRE—Bedelho de cães e gatos.

POÇO—Furo por onde quasi sempre sae o dinheiro e não entra agua.

POEMA—Caldeirada de versos. Eu prefiro as de enguia.

POESIA—É como cada um a sente e{213} entende. Para uns resume-se n'um bom pichel de vinho novo, diante de um lombo assado; para outros é a lua reflectindo-se nas aguas serenas dos lagos; para a mãe, o riso do filhinho no berço; para o pae, o não ouvir chorar a creança quando quer trabalhar; para o soldado, não ter de ir á guerra; para o empregado, um feriado; para a donzella, um noivo; para o agiota, noventa e nove por cento; para o ministro, a pasta indisputada e os applausos da maioria; para o marinheiro, o bom vento; para o medico, um caso de doença bem horrivel e bem desconhecida; para o fumador, optimos charutos; para o viajante, mundos desconhecidos; para a mulher, um vestido como não tenha nenhuma das suas amigas; para o marido, uma familia que não lhe peça dinheiro; para o janota, objectos que pôr no prego e botequim que fie cognac; para as actrizes, palmas e admiradores ricos; para os escrevinhadores, quem lisonjeie as suas inepcias e semsaborias;{214} para os maus auctores, quem lhes louve a estupidez e a ignorancia; para os emprezarios, auctores famintos; para os inuteis, um fato bem feito... para mim a poesia é o silencio, a solidão e o somno.

POETA—Simplorio.

—Esculptor que desenha no ar.

—Pyrilampo que segrega pieguices luminosas.

—Ente que se diz incomprehendido, e que o é realmente quando pretende conquistar o mundo em verso. Desgraçado! Se queres que te entendam, falla na boa e classica prosa do peru trufado e do vinho da Madeira, que tu não detestas... nem eu.

POLEIRO—Pomo de discordia. E cada vez ha mais gallos!

POLICIA (DE LISBOA)—Um mytho.{215}

POLIDEZ—Fazenda de bonita apparencia.

POLITICA—Machina de moer consciencias.

—Bailarina pervertida pelas contradicções e caprichos dos compositores de dansa.

PONTO—Nó dado na barriga dos empregados, quando se suspendem os pagamentos.

PONTUAÇÃO—Os alfinetes de pregar a palavra escripta.

PORCO—Sonho das mulheres pallidas e nervosas.

—Um curso de philosophia ambulante. Meditem e digam se não é verdade. Comido pelos que mais o amam! Em quem se ha de fiar a pobre gente suina?!{216}

PORTEIRO (DE SECRETARIA)—Cerbero ministerial.

PORTUGUEZ—Lingua que todos fallam e ninguem sabe.

POSSIDONIO—Cousa feia, parvoíce.

POSTIÇO—Oh, minhas senhoras... mil perdões! É o meu triste officio de escriptor quem me obriga, sem eu querer, contra todos os meus sentimentos e desejos, a traçar aqui estas linhas, que até fazem córar o lapis de oiro com que as escrevo! Acaso vv. ex.as já reflectiram bem na situação em que se collocam, quando entram n'uma casa de modas e pedem (a um homem, santo Deus! E ás vezes a que homem!) certo objecto, que ali se vê ostentosamente pendurado nas armações pelas fitas com que ha de ser preso ás cinturas de vv. ex.as?! Essa cousa, cujo aspecto me faz baixar os olhos, e me dá{217} ao rosto a côr de lagosta cozida, chamava-se um... francez. A casta linguagem da elegancia dá-lhe hoje o nome de tournure. Mas nem por isso o traste deixa de ser para vv. ex.as porem sobre os quadris, com o fim de fingirem (oh! moda!) que teem um... muito grande. Mas, minhas senhoras, para que serve a vv. ex.as um... muito grande, que (de mais a mais!) é postiço?! O impudor (desculpem a dureza da phrase) o impudor não está no tamanho artificial do trazeiro. A natureza poderia, sem sacrificio, ter-lhes feito a vontade, dotando-as com um... verdadeiro, de mais vastas proporções ainda do que o fingido. Onde o caso se me afigura espinhoso para as pessoas medianamente graves, é quando o caixeiro (no uso pleno dos seus direitos de fazer valer a mercadoria) se permitte a familiaridade de passar complacentemente a mão sobre a rotondidade do objecto, e medindo com a vista o posterior de vv. ex.as, lhes diz sorrindo:{218}

—«Este deve ficar-lhe bem!»

A primeira vez que presenceei uma scena d'estas caí para traz, sobre uma cadeira, fulminado de vergonha, pelas palavras do vendedor. Na minha candida ingenuidade pensei que a compradora do traste em questão ia esmagar o homem com um d'esses olhares olympicos, que as grandes actrizes usam uma vez na vida, quando representam de Lucrecias, em noite de beneficio. Mas a senhora volveu, visivelmente lisonjeada, e rindo tambem:

—«Acha?...»

Era uma pessoa de alta sociedade, como se diz em calão aristocratico, mãe de familia, e trajada como uma rainha. Comprou o sobresalente, que, depois de embrulhado, um lacaio levou para a carruagem, e despediu-se, com uma cortezia e um riso amavel do logista e dos seus empregados. Abysmado por tamanho rebaixamento moral, fiquei com ar de ingenuo de theatro particular, ruminando{219} commigo os seguintes pontos, que respeitosamente submetto á critica de vv. ex.as:

—Se uma senhora, mãe de familia, se preoccupa com artificios e modas ridiculas, enchumaçando-se, pintando-se, contrafazendo-se, e mentindo a si e aos outros, persuadida de que alguem acredita na côr dos seus cabellos e na altura dos seus seios e trazeiro, n'um tempo em que raros são os que se não pintam e enchumaçam, que educação dará a seus filhos com esses exemplos?! Começa desde o berço a leval-os por um caminho, do qual nunca mais poderão sair—o da impostura; costuma-os ao fingimento, porque lhes serve de modelo do modo mais funesto e contagioso. E quando elles chegarem á idade de pensar, será sua propria mãe a primeira pessoa a quem percam o respeito, que ella não soube arreigar-lhes n'alma com um procedimento sério, modesto, franco e simples. Em vez de boas e sãs lições de religião, de moral, de probidade e honra, deu-lhes{220} noções falsas de tudo, conhecimentos superficiaes e idéas incompletas; enchumaçou-lhes a rasão com crenças postiças, envernizou-os com uma educação viciosa e lançou-os na circulação, pervertidos antes de tempo, como moveis novos feitos de madeira já carunchosa. São estes productos que compõem a maioria da sociedade actual, em todas as nações que se dizem cultas. D'elles saem os professores, os medicos, os padres, os juizes, os deputados e os ministros!...

Minhas senhoras, rogo a v. ex.as que se dignem reflectir um instante n'este problema:—Que póde esperar-se para o progresso e aperfeiçoamento da especie humana, de homens que vêem suas mães a comprar... francezes?—O que póde sair de um trazeiro postiço, a não ser o rabo (cauda) de seis metros, que principia a substituil-o?

Se vv. ex.as entenderem que vale a pena, meditem um pouco este assumpto, sem se prenderem com a circumstancia de ter sido{221} o meu diccionario, e não qualquer outra moda que chamou para elle a sua attenção.

POSTURA—Devaneio municipal para recreio dos policias.

POVO—Pau para toda a obra. Se, como o boi, elle não desconhecesse a sua força, outro gallo lhe cantaria. Em todo o caso, tomem cuidado não lhes caia em cima, porque pesa muito.

PRATICO (HOMEM)—Não se fiem n'elle. D'antes pediam-se homens praticos a proposito de tudo. Agora já todos se julgam experimentados, e não fazem senão dar com as cangalhas em terra. Cautela! Sobretudo com mau tempo duvidem da sua sciencia. Eu, em me cheirando a especialista, pés para que te quero! Se teem amor á pelle, façam outro tanto.{222}

PRÉGADOR (MAU)—Machina de moer senso commum.

PRESENTE—Indifferença de que ámanhã teremos remorsos e saudades.

—Cousa que se dava antigamente. Hoje é apenas tempo dos verbos.

—Leitor benevolo, se acaso estás costumado a mandar-me alguns, que o teu zelo se não esfrie com esta generalidade. Não era a ti que eu me dirigia, mas sim aos sovinas que nunca me deram nada.

—Chave com que ás vezes se abre a porta do futuro.

PRESILHAS—Escotas das calças.

PRIMAVERA—Uma prova da immortalidade. Nada morre: tudo se renova e transforma. Se duvidam, reparem nos abusos que se reproduzem incessantemente na nossa terra.{223}

PRIMITIVO—Sujeito que não corresponde a um comprimento.

PRINCIPIOS—Fins de muita gente.

PROBIDADE—Tolice que hoje só se tem por esquecimento.

PROCESSO (JUDICIAL)—Duello em que ambos os contendores ficam feridos.

PROSA—Pão da idéa, da qual a poesia é o bolo.

PROSTITUIÇÃO—Fleimão ardente, que nasce nos costumes.

PROTECTOR—Estaca que se põe ás plantas para se apoiarem. Ás vezes cae sobre ellas e quebra-as.

PROTECTORES (DIREITOS)—Testemunho{224} irrecusavel da capacidade dos economistas, que por amor de quatro compadres fazem gemer quatro milhões de almas.

—Um gosto caracteristico da nação portugueza: á obrigar os seus subditos a gastar tudo mau pelo dobro do que custa o bom, persuadida de que assim faz acreditar aos estranhos que nós temos industria e artes. Já é... simplicidade!

PROXIMO—O que está mais perto. Cuidado com elle!

PRUDENCIA—A melhor arma que nós estragâmos convertendo-a em pachorra.

PRUDENTE—Aquelle que mata outro em vez de se matar a si.

PUDOR—Vestuario da alma.

PULHA—Mulher que pinta o cabello e usa dentes postiços.{225}

PURGANTE—Insurgente dos intestinos.

PURGATORIO—Um dia de eleições para os candidatos.

—Calabouço da policia.

—Sedlitz das almas.{226}
{227}