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Rita
Farinha (Abril 2011)
Direitos reservados
MEMORIAS
DE RAUL BRANDÃO
A PUBLICAR:
Theatro cinematographico
A historia humilde
RAUL BRANDÃO
Memorias
1.º VOLUME
EDIÇÃO DA
«RENASCENÇA PORTUGUESA»
PORTO
AOS MORTOS
PREFACIO
Janeiro de 1918.
Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a
com os mesmos erros e
paixões. Não me arrependo, nunca me
arrependi. Perdia outras tantas horas
diante do que é eterno, embebido ainda
n'este sonho poído. Não me habituo:
não posso vêr uma arvore sem espanto,
e acabo desconhecendo a vida e titubeando
como comecei a vida. Ignoro
tudo, acho tudo esplendido, até as coisas
vulgares: extraio ternura duma pedra.
Não sei—nem me importo—se creio na
imortalidade da alma, mas do fundo do
meu sêr agradeço a Deus ter-me deixado
assistir um momento a este espectaculo
desabalado da vida. Isso me basta. Isso
me enche: levo-o para a cova, para remoer
durante seculos e seculos, até ao
juizo final. Nunca fui homem de acção e
ainda bem para mim: tive mais horas
perdidas... Fugi sempre dos phantasmas
agitados, que me metem medo. Os
homens que mais me interessaram na
existencia foram outros: foram, por exemplo,
D. João da Camara, poeta e santo,
Correia d'Oliveira, um chapeu alto e nervos,
nascido para cantar, Columbano e
a sua arte exclusiva, e alguns desgraçados
que mal sabiam exprimir-se. Conheci
muitos ignorados e felizes. Meio doidos
e atonitos. O Napoles ainda hoje dorme
sobre a mesma rima de jornaes?... Outro
andava roto e dava tudo aos pobres.
O homem é tanto melhor quanto
maior quinhão de sonho lhe coube em
sorte. De dôr tambem.
A que se reduz afinal a vida? A um
momento de ternura e mais nada... De
tudo o que se passou comigo só conservo
a memoria intacta de dois ou tres
rapidos minutos. Esses sim! Teimam, reluzem
lá no fundo e enebriam-me, como
um pouco d'agua fria embacia o copo.
Só de pequeno retenho impressões
tão nitidas como na primeira hora:
ouço hoje como hontem os passos de
meu pae quando chegava a casa; vejo
sempre diante dos meus olhos a mancha
azul ferrete das hydranjas que enchiam
o canteiro da parede. O resto esvae-se
como fumo. Até as figuras dos mortos,
por mais esforços que eu faça, cada vez
se afastam mais de mim... Algumas sensações,
ternura, côr, e pouco mais. Tinta.
Pequenas coisas frivolas, o calor do ninho,
e sempre dois traços na retina, o
cabedelo d'oiro, a outra banda verde...
Passou depois por mim o tropel da vida
e da morte, assisti a muitos factos historicos,
e essas impressões vão-se desvanecidas.
Ao contrario este facto trivial
ainda hoje o recordo com a mesma vibração:
a morte daquella laranjeira que, de
velha e tonta, deu flôr no inverno em que
seccou. O resto usa-se hora a hora e todos
os dias se apaga. Todos os dias morre.
Lá está a velha casa abandonada, e
as arvores que minha mãe, por sua mão,
dispoz: a bica deita a mesma agua indiferente,
o mesmo barco archaico sobe o
rio, guiado á espadela pelo mesmo homem
do Douro, de pé sobre a gaiola de
pinheiro. Só os mortos não voltam. Dava
tudo no mundo para os tornar a vêr, e
não ha lagrimas no mundo que os façam
resuscitar.
Esta Foz de ha cincoenta annos, adormecida
e doirada, a Cantareira, no alto o
Monte, depois o farol e sempre ao largo
o mar diaphano ou colerico, foi o quadro
da minha vida. Aqui ao lado morreu a
minha avó; no armario, metido na parede
como um beliche, dormiu em pequeno o
meu avô, que desapareceu um dia no
mar com toda a tripulação do seu brigue,
e nunca mais houve noticias d'elle. Lembro-me
da avó e da tia Iria, de saia de
riscas azues, sentadas no estrado da sala
da frente, e possuo ainda o volume desirmanado
do Judeu que ellas liam, com
o
Feliz Independente do mundo e da
fortuna e as
Recreações
philosophicas do
padre Theodoro d'Almeida. Ouço, desde
que me conheço, sahir do negrume, alta
noite, a voz do moço chamando os homens
da companha:—Ó sê Manuel cá
p'ra baixo p'r'o mar!—Vi envelhecer todos
estes pescadores, o Bilé, o Mandum,
o Manuel Arraes, que me levou pela primeira
vez, na nossa lancha, ao largo. Ha
que tempos!—e foi hontem... A quarenta
braças lança-se o ancorote. Na
noite cerrada uma luzinha á prôa; do mar
profundo—chape que chape—só me
separa o cavername. Deito-me com os
homens sob a vela estendida. Primeiro
livor da manhã, e não distingo a luz do
dia do pó verde do mar. Nasce da agua,
mistura-se na agua, com reflexos baços, a
claridade salgada que palpita, o ar vivo
que respiro, o oceano immenso que me
envolve.—Iça! iça!—e as redes
sobem
pela polé, cheias de algas e de peixe, que
se debate no fundo da catraia. Voltamos.
Já avisto, á vela panda, o farolim,
depois Carreiros; um ponto branco, alem
no areal, é o Senhor da Pedra, e a terra
toda, roxa e diaphana, emerge emfim,
como uma aparição, do fundo do mar. A
onda quebra. Eis a barra. Agora o leme
firme!... As mulheres, de perna nua,
acodem á praia para lavar as rêdes, e o
velho piloto mór, de barba branca, sentado
á porta da Pensão, fuma inalteravel
o seu cachimbo de barro. O azul do mar,
desfeito em poalha, mistura-se ao oiro que
o céo derrete. Mais barcos vão aparecendo,
vela a vela: o
Vae com Deus, a
Senhora
da Ajuda, o
Deus te
guarde, e os
homens, de pé, com o barrete na mão, cantam
o
bemdito, tanta foi a
pesca.—Quantas
duzias?—Um cento! dois centos!—Nas
linguetas de pedra salta a pescada
de lista preta no lombo, a raia viscosa, o
ruivo de dorso vermelho, ou, no inverno,
a sardinha que os bateis carreiam do
mar inexgotavel, estivando de prata todo
o caes. Ás vezes o peixe miudo e vivo é
tanto, que não bastam os almocreves com
os seus burros canastreiros, as varinas
com os seus gigos, nem as mulheres de
saia ensacada e perna á mostra, para o
levarem, apregoando-o, por essa terra
dentro. Dá-se a quem o quer, faz-se o
quinhão dos pobres. Em setembro são
as marés vivas. Mais tarde cresce do mar
um negrume. Acastelam-se as nuvens no
poente, e forma-se para o sul uma parede
compacta que tem legoas de espessura.
A voz é outra, clamorosa, e, á primeira
lufada, bandos de gaivotas grasnam pela
costa fóra, anunciando o inverno que
vem proximo. O quadro muda, e os homens
morrem á bocca da barra, na Pedra
do Cão, agarrados aos remos, sacudidos
no torvelinho da resaca, o velho
arraes de pé, as duas mãos crispadas no
leme, cuspindo injurias, para lhes dar animo,
e todo o mulherio da Povoa, de Matosinhos,
da Afurada—vento sul, camaroeiro
içado—com as saias pela cabeça,
salpicadas de espuma e molhadas de
lagrimas:—Ai o meu rico homem! o
meu filho que o não torno a ver!—E chamam
por Deus, ou insultam o mar, que,
inverno a inverno, lh'os leva todos para
o fundo.
O que sei de bello, de grande ou de
util, aprendi-o n'esse tempo: o que sei
das arvores, da ternura, da dôr e do
assombro, tudo me vem desse tempo...
Depois não aprendi coisa que valha. Confusão,
balburdia e mais nada. Vacuidade
e mais nada. Figuras equivocas, ou,
com raras excepções, sentimentos
baços.
Amargor e mais nada. Nunca mais. Nunca
Londres ou a floresta americana me incutiram
misterio que valesse o dos quatro
palmos do meu quintal. Nunca caça ás feras
no canavial indiano foi mais fertil em
emoção e aventura, que a armadilha aos
passaros na poça do Monte, com o Manuel
Barbeiro. Uma nora, dois choupos,
a agua empapada, e, entre as hervas gordas
como bichos, pégadas de bois cheias
de tinta azul, reflectindo o céo implacavel
de agosto. Os passaros com as azas
abertas desconfiam e hesitam: a sêde
aperta-os, o sol escalda-os. Mal pousam
na armadilha agarramol-os com ferocidade.
Chiu!... Uma andorinha descreve lá
no alto um circulo perfeito, e vem, no
vôo desferido, arripiar com o bico a agua
estagnada. Toca n'uma palheira de visco—é
nossa! Já tiveste nas mãos uma andorinha?
É pennas e vida phrenetica. E
essa vida pertence-te!... Só ao fim da
tarde regressava a casa com os bolsos
cheios de rans e os olhos deslumbrados.
Nenhuma figura tôrva, nem o Anti-Christo,
me communicou terror semelhante
ao do inofensivo Manco da esquina,
que escondia de manhã a barba
que lhe chegava ao umbigo, entre o
peito e a camisa, para a sacar de noite,
quando sahia á estrada... Sou capaz de
te dizer qual o tom verde de certos dias,
quando o pecegueiro bravo encostado
ao muro floresce. O murmurio da minha
bica não me sae dos ouvidos até á hora
da morte. Quasi todos os meus amigos—o
Nel, que não tornei a ver...—são
d'essa epocha. D'outras impressões mais
tardias não restarão vestigios, mas tenho
sempre presentes os mesmos pinheiros
mansos—que já não
existem—acenando
para a barra, e alta noite acordo ouvindo
o rebramir do mar longinquo. Nos dias
de desgraça é sempre a mesma voz que
chama por mim... Olha, olha ainda e
extasia-te: o rio parece um lago, e um
bando de gaivotas desfolhadas alastra
sobre a tinta azul, com laivos esquecidos
do poente. Boia espuma na agua
viva que a maré traz da barra... E não
ha cheiro a flores que se compare a este
cheiro do mar.
Agosto de 1910.
Aos 23 do mez passado morreu meu
pae amachucado, exhausto e pobre. Encontrão
de um, repelão de outro, assim
foi até á cova. Tinha 67 annos incompletos.
Não podia mais. Encontraram-lhe
alguns cobres no bolso. Ha muitos annos
que se arrastava, e só tinha de seu uma
alegria e um repouso: os domingos. Aos
domingos metia-se no quarto, calçava
uns chinelos, e toda a tarde chorava lagrimas
sem fim sobre um velho romance
de Camillo. Minha mãe pouco mais durou,
com um olhar de pasmo. Lá ficou a
velha casa abandonada...
Sobe a lua no céo, e a sombra no monte.
Seis arvores, quatro paredes—tudo
aqui me enche de saudades. A bica continua
a correr, mas outras sêdes se apagarão
n'aquella agua. Outros virão tambem
sentar-se no banco de pedra... Só
me resta a tua mão querida, que a meu
lado segura a minha mão. Os mortos
chamam por nós cada vez mais alto...
Olho para ti e os teus primeiros cabellos
brancos fazem-me chorar.
Setembro de 1910.
Hoje acordei com este grito: eu não
soube fazer uso da vida!
O que me pesa é a inutilidade da
vida. Agarro-me a um sonho; desfaz-se-me
nas mãos; agarro-me a uma mentira
e sempre a mesma voz me repete:—É
inutil! é inutil!
A aquiescencia, o sorriso:—pois sim...
pois sim...—a necessidade de transigir,
o preceito, a lei, fizeram de mim este sêr
inutil, que não sabe viver e que já agora
não pode viver. Não grito de desespero
porque nem de desespero sou capaz.
A vida antiga tinha raizes, talvez a
vida futura as venha a ter. A nossa epocha
é horrivel porque já não
cremos—e
não cremos ainda. O passado desapareceu,
de futuro nem alicerces existem. E
aqui estamos nós, sem tecto, entre ruinas,
á espera...
Não entendo nada da vida. Cada
dia que avança entendo menos da vida.
Contudo ha horas, as horas perdidas—e
só essas—que queria tornar a viver
e a perder.
Deus, a vida, os grandes problemas,
não são os philosophos que os resolvem,
são os pobres vivendo. O resto é engenho
e mais nada. As coisas bellas reduzem-se
a meia duzia: o tecto que me
cobre, o lume que me aquece, o pão que
como, a estôpa e a luz.
Detesto a acção. A acção
mete-me
medo. De dia pódo as minhas arvores, á
noite sonho. Sinto Deus—toco-o. Deus é
muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me—não
o sei explicar. Terra, mortos,
uma poeira de mortos que se ergue em
tempestades, e esta mão que me prende
e sustenta e que tanta força tem...
Como em ti, ha em mim varias camadas
de mortos não sei até que profundidade.
Ás vezes convoco-os, outras são
elles, com a voz tão sumida que mal a
distingo, que desatam a falar. Preciso da
noite eterna: só num silencio mais profundo
ainda, conto ouvil-os a todos.
Nunca os meus me chamaram tão
alto. Sentam-se a meu lado. Rodeiam-me,
e pouco a pouco o circulo da minha vida
restringe-se a um ponto—a cova.
Teimo: ha uma acção interior, a dos
mortos, ha uma acção exterior, a da alma.
A inteligencia é exterior e universal e
faz-nos vibrar a todos d'uma maneira diferente.
Destas duas acções resulta o
conflicto tragico da vida. O homem agita-se,
debate-se, declama, imaginando
que constroe e se impõe—mas é impelido
pela alma universal, na meia duzia de
coisas essenciaes á Vida, ou obedece apenas
ao impulso incessante dos mortos.
A minha alegria em velho consistiria
em ter aqui meu pae para falar com elle.
Não é só saudade que sinto:
é uma impressão
physica. Agora é que acharia
encanto até ás lagrimas em termos a
mesma idade, conversarmos ao pé do
lume e morrermos ao mesmo tempo...
Fevereiro de 1918.
Isso que ahi fica não são memorias
alinhadas. Não teem essa pretensão.
São
notas, conversas colhidas a esmo, dois
traços sobre um acontecimento—e mais
nada. Diante da fita que a meus olhos
absortos se desenrolou, interessou-me a
côr, um aspecto, uma linha, um quadro,
uma figura, e fixei-os logo no canhenho
que sempre me acompanha. Sou um mero
espectador da vida, que não tenta explical-a.
Não afirmo nem nego. Ha muito
que fujo de julgar os homens, e, a cada
hora que passa, a vida me parece ou
muito complicada e misteriosa ou muito
simples e profunda. Não aprendo até
morrer—desaprendo até morrer. Não
sei nada, não sei nada, e saio d'este
mundo com a convicção de que não
é
a razão nem a verdade que nos guiam:
só a paixão e a chimera nos levam a
resoluções
definitivas. O papel dos doidos
é de primeira importancia neste triste planeta,
embora depois os outros tentem corrigil-o
e canalisal-o... Tambem entendo
que é tão dificil asseverar a
exactidão de
um facto como julgar um homem com
justiça. Todos os dias mudamos de opinião,
todos os dias somos empurrados
para leguas de distancia por uma coisa
phrenetica, que nos leva não sei para
onde. Succede sempre que, passados
mezes sobre o que escrevo—eu proprio
duvido e hesito. Sinto que não me pertenço...
É por isso que não condemno
nem explico nada, e fujo até de descer
dentro de mim proprio, para não reconhecer
com espanto que sou absurdo—para
não ter de discriminar até que ponto
creio ou não creio, e de verificar o que
me pertence e o que pertence aos mortos.
De resto isto de ter opiniões não é
facil. Sempre que me dei a esse luxo, fui
forçado a reconhecer que eram falsas ou
erroneas. Sou talvez uma arvore que
cresce á sua vontade, pernada para aqui,
pernada para acolá, á chuva e ao vento.
Não admitto poda. Perco horas com inutilidades,
e passo alheado e frio diante
do que os outros contemplam extasiados.
Admiro, por exemplo, muito mais, perdoem-me,
a vida ignorada do meu visinho,
o senhor Crasto, que morreu de oitenta
annos, curvado, a lavrar a terra, do
que a do senhor Hintze Ribeiro, que
considero inutil e destituida de toda a
belleza.
Por isso, repito, muitas folhas destes
canhenhos serão mal interpretadas, talvez
alguns tipos falsos. Só vemos mascaras,
só lidamos com phantasmas, e ninguem,
por mais que queira, se livra de paixões.
No que o leitor deve acreditar é na sinceridade
com que na ocasião as escrevi.
Poderão objectar-me:—Então com que
destino publico tantas paginas desalinhadas,
de que eu proprio sou o primeiro
a duvidar? É que ellas ajudam a reconstituir
a atmosphera d'uma epocha; são,
como dizia um grande espirito, o lixo da
historia. Ensinam e elucidam. Foi sempre
com a legenda que se construiu a vida.
Sei perfeitamente que a historia viva
tanto se faz com a verdade como com a
mentira—se não se faz mais com a
mentira do que com a verdade. Para gerar
um acontecimento é preciso crear-lhe
primeiro a atmosphera propicia. «Algumas
palavras sob caricaturas grosseiras
dispersas pelos campos, formaram uma
lenda na imaginação popular, concernente
ao rei, á rainha, ao conde de Artois,
a madame Lamballe, ao pacto da
fome,
aos vampiros que sugam o sangue
do povo, etc. Dessa lenda, que elle acha
util, sahiu a grande
revolução»—diz um
historiador. A gente nunca sabe ao certo
se da infamia poderão nascer coisas bellas...
A mentira, o boato, o que se diz
ao ouvido, o que se deturpa, e que tanta
força tem, a meada de odio, de ambição
e de interesses, que não cabe na historia
com H grande, tem o seu logar n'um
livro como este de memorias despretenciosas.
Eis uma razão. Tenho outra ainda:
torno a vêr e a ouvir alguns mortos.
Recordo, o que é necessario a quem
cada vez mais se isola com o seu sonho
e as suas arvores. Isto aquece quasi
tanto os primeiros annos da minha velhice,
como o lume que arde até junho
na lareira d'esta casa
[1].
Cantareira, Foz do
Douro—1918.
ALGUMAS
FIGURAS
Janeiro—1900.
Urbano de Castro, com um olho tôrto e
um chapelinho afadistado, na aparencia
reservado e sardonico, sae-se encantador na intimidade.
Os seus amigos adoram-no, o Camara,
o Schwalbach, a antiga roda do
Correio da
Manhã.
Trouxe para o jornalismo uma grande leitura de
classicos—conhece muito a lingua—e uma forma
ironica e precisa: em meia duzia de linhas incisivas
deixa o adversario a sangrar. Os politicos
temem-no tanto, que uma das condições impostas
pelo José Luciano, quando do pacto com o Hintze,
foi que o Urbano terminasse na
Tarde
com o
Espirito de S. Ex.a.
Eis algumas maximas de Urbano de Castro:
—A paciencia é
uma virtude de capote e
lenço.
—Quanto mais leve é a cabeça da mulher,
mais
pesada
é a do marido.
—Os homens publicos são como os papeis de
credito—o que hoje tem uma alta
cotação,
amanhã não vale, e
inversamente.
—Quando tiveres muitos
argumentos,
não empregues
senão os melhores. Quando não tiveres nenhum,
emprega
todos.
—A paternidade é, muitas vezes, um rotulo. A
garrafa
é a mesma, mas o vinho é outro.
—Viuva rica, com um olho dobra, com outro repica.
—No coração mora-me Deus, no figado o
diabo.
—Mortal é o contrario de imortal. Imortal
é o
que é
sempre. Logo, mortal—é o que não
é
nunca.
—Theologia—a arte de fazer comprehender aos outros
aquillo que nós não entendemos.
—De todas as armas, a mais dificil de manejar é o
pau... de dois bicos.
—Jornalista—fabricante da opinião
publica. Cada um
afirma que a unica genuina é a da sua lavra.
—Se os homens de mais juizo pensarem a serio em
muitos dos seus actos hão de reconhecer que não
teem
juizo nenhum.
—O suicida tem para mim um lado
sympathico—não
se julga insubstituivel.
Junho—1903.
Deparo hoje com o Garrido, redondinho, baixo,
de bigode grisalho e um ventre de proprietario.
Nunca se altera nem perde a paciencia. Jovial?
Não, triste e falando sempre baixinho. Tem ganho
fortunas, tem dissipado fortunas com o mesmo
ar inalteravel. Houve ocasiões em que todos os
theatros do Rio representaram peças com o seu
nome. Está cheio de dividas. E o seu ideal, o ideal
d'esta existencia de acaso, com aflições de
morte,
ou dispersa pelo Brazil entre dois numeros de
opereta—pan! pan! pan!—e dinheiro atirado
a rodos, é um casebre no campo, duas arvores
n'um retalho de horta viçosa e uma nora pingue
que pingue no fundo do quintal. Paz. E não escrever
uma linha.
Um agiota não o larga. É este velhinho paternal,
de cabellos brancos, que faz recados, deita
as cartas ao correio e leva coiro e cabelo. Parece
inofensivo. Começou a vida por creado de servir
e esfolou os patrões. Afirma que o Garrido é
capaz de arrancar dinheiro a um morto:
—Este senhor Garrido dá-me cada
aflição!
Até me faz crear caspa!
Fevereiro—1900.
A paixão d'este homem é não ter um
livro
de geito. G... só escreveu trez folhetos, e por
ahi ficou o seu talento. Espremido não deu mais
nada. É no entanto uma figura epigramatica e
nitida de conversador e um typo curioso de
bohemio lisboeta. Dormiu nas escadas dos predios,
pertenceu ao grupo que o Fialho arrastava
pelas ruas até ante manhã, dispersando com elle
o oiro da sua esplendida phantasia. Para essa
meia duzia de bohemios improvisou o grande
escriptor as suas melhores satyras. Uma noite, no
café, G... aludiu á sua obra, e logo do lado o
Fialho acudiu:
—A tua obra, bem sei... Vinte e cinco cartas
a vinte e cinco amigos pedindo vinte e cinco
tostões emprestados.
G... embezerrou. Mas passados minutos aproveitou
uma pausa no dialogo, para perguntar com
indiferença ao Fialho, que tinha ha pouco casado
rico com uma prima, que gastou a vida a esperal-o
no fundo da provincia:
—O Fialho fazes favor de me dizer que horas
são... no relogio do teu sogro?
Fevereiro—1903.
Vejo sempre diante de mim o D. João da
Camara, já cansado e e asmathico, olhando por
cima das lunetas, e falando baixinho com receio,
uma modestia no dizer, e um medo de magoar...
A barba espessa, a grenha espessa e um chapelinho
pôsto ao lado, completam a figura um
pouco molle. É quasi um santo. Joga e jejua. Dá
tudo o que tem. Exploram-no.
—O que me perdeu na vida foi não ter energia.
Nunca me decido.—E mais baixo:—Isto
vem talvez dos jesuitas que me educaram. Tive
alguns condiscipulos que são homens notaveis e
ninguem dá por elles.
Vive de noite, com uns e outros, ao acaso,
nos bastidores dos theatros, ou encantado com
uma ceiasinha na taberna, que descobriu no Arco
da Bandeira. Se encontra o Pinturas está perdido:
não se largam mais. Vae sempre para casa de
manhã, e a sua vida é tão aflictiva
que desejaria,
como o Schwalbach, que o metessem algum tempo
no Limoeiro, para não pensar no dia seguinte.
Hontem contou-me isto que é encantador:
—Não me importava nada de ter quatorze filhos
em vez de sete. São muito meus amigos. O
Vicente nunca sae de casa sem me dar um beijo.
Eu estou sempre a dormir... Esta manhã—estava
acordado, mas fingi que dormia, quando aquelle
rapagão me entrou no quarto, pé ante
pé, para
não me acordar, e beijou-me...
E fica extatico.
Ás vezes fala-me das peças que ha-de fazer,
do
Sermão da Montanha e
de outra com tipos
de sonhadores, que se alimentam de mentira e de
um passado que nunca existiu, forjado ponto por
ponto. Assobia-se, por exemplo, um trecho d'opera,
e logo este atalha:—Bem sei é da
Dinorah!...
Tempos que já lá vão! O que eu vivi
com Fulano
e Sicrano, e as ceias que demos juntos!—Tudo
ilusão! tudo sonho! Vae-se a ver nem sequer
conheceram as pessoas de quem falam...
Outras vezes conta-me a sua vida:
—O que eu tenho sofrido! Tive muitos dias
d'angustia... N'essa noite
O Pantano
cahira.
Toda a gente dizia mal de mim. Nos bastidores
a intriga fervia com a Lucinda á frente. Sahi do
theatro a pensar no que havia de empenhar no
dia seguinte. Fui para casa muito tarde.—Não
haveria que pôr no prégo?—Por fim
descobri
uma casaca, e, ainda muito cedo, sahi com o embrulho
debaixo do braço, n'um papel de jornal. O
papel amolecia, a casaca rompia para fóra, e eu
batia de prégo em prégo. Sete horas da
manhã...
Estavam todos fechados. N'um disseram-me
com seccura:—Não emprestamos sobre
casacas.—Fui
a outro e esperei no portal que abrisse.
Lembro-me como se fosse hoje. Chovia a potes.
Defronte, estava uma carroça, com um cavallo
branco. Era um burro pelle e osso, a cabeça
metida n'uma linhagem, a comer. E eu no portal,
com o embrulho já todo roto debaixo do
braço, invejei aquelle cavalo!...
Já não joga. Mas antigamente ia todos os dias
para casa ás cinco horas, tendo perdido tudo:—Foi
n'essas noites que imaginei as minhas melhores
peças...—Cuidadosamente punha sempre
de lado um tostão para o americano—e quasi
sempre succedia tambem que um velho fidalgo,
das suas relações, lhe pedia o tostão
emprestado
para um calice de vinho do Porto, que se habituara
a beber ahi pelas tres da madrugada. O
D. João dava-lh'o, e lá ia a pé para a
Junqueira,
a sonhar nas peças, sob a lufada, molhado até
aos ossos, de casaco de alpaca.
Columbano.—Auto-retrato.
Columbano.—Auto-retrato.
Junho—1903.
Passei a noite em casa do Columbano, com o
Raphael Bordalo Pinheiro. Durante o jantar falou
sempre. Todo elle mexe, todo elle é caricatura e imprevisto:
os olhos, o nariz, as mãos e até o bigode
que se encrespa, desenham e imitam.—Era um
homem com um ôlho assim...—E logo o ôlho
se
lhe envieza. Em rapaz o seu sonho era o theatro.
Chegou a ter lições do Rosa pae. Está
um pouco
cansado. Queixa-se muito. Amua.—Ninguem faz
caso de mim...—Estranha quando o não
vão esperar
á estação—e está
sempre a
chegar das
Caldas e partir para as Caldas. Depois esquece-se
e põe-se a rir. Depois torna:—Eu não
jogo, mas
lá em casa todas as noites jogam e pedem-me dinheiro
emprestado.—Agora arremeda este e
aquelle de quem fala. Conta que em Paris ouviu o
rei dizer:—Isto aqui é uma terra, lá
é uma piolheira.—E
que o infante, quando lhe perguntaram:—Então
em Londres que tal, com aquelles
principes todos?—Mal, mal... eu sou um principe
aza de mosca...
E acaba—é nas vesperas do jantar que lhe
vão oferecer no theatro D. Maria—por
dizer:—Veja
o senhor que desgraça a minha! Daqui
a pouco não posso fazer a caricatura de ninguem!
Efectivamente lá estavam no banquete todos
os homens imponentes, os conselheiros, os politicos
decorativos, a serie completa das figuras
do
Antonio Maria. Não
faltou ninguem á chamada.
E nos camarotes aplaudiram-no com delirio
as lisboetas palidas de que troçou em tantas
paginas de genio. Confundiram-no e arrazaram-no.
Creio que foi a primeira vez que perdeu
a linha.
Gostou sempre de fazer partidas. É o Schwalbach
que conta:
—O imperador do Brazil logo que chegava
ao theatro metia-se no camarote, descalçava as
botas e calçava com regalo uns chinelos. Uma
noite o Raphael, que estava então no Rio, foi pé
ante pé, meteu a mão pela cortina e roubou-lhe
as botas. O pobre homem não se desconcertou:
sahiu em chinelos, atravessou em chinelos a
multidão, saudando para a direita e para a esquerda,
desceu ao pateo, e meteu-se em chinelos
na carruagem.
Dezembro—1900.
Latino Coelho, contado por Maximiliano
d'Azevedo:
Tinha coisas absurdas: estava sentado a
conversar e levantava-se sem mais nem menos,
compunha a trumpha, e ia espreitar á janella. Era
todo de enguiços. Nunca sahia de dia. E que memoria!
Dizia-se-lhe qualquer banalidade, e elle,
d'ahi a mezes, repetia-a palavra por palavra. Discursos
que revelam o conhecimento inteiro d'uma
epocha, como o de Camões, que leu na Academia,
e que foi escripto das sete ás onze da manhã,
e lido ao meio dia, compunha-os com extrema
facilidade.
D'uma vez estava elle em casa politicando
com alguns amigos reformistas, o Mariano, o Lopo
Vaz e não sei quem mais. Discutia-se a
revolução
de onze de maio. O Latino, dando um geito á
trumpha, chegou á janella e viu o carro, puxado
a mulinhas, do Saldanha:
—Ahi vem o duque... E aposto que vem
para cá.
Efectivamente o carro parou á porta. Era o
Saldanha. O Latino foi recebel-o n'outra sala, e,
depois dos cumprimentos habituaes, o Saldanha
perguntou-lhe:
—Sabe a que venho? Venho saber a sua
opinião sobre o dia de hontem.
—Mas não tenho opinião nenhuma...
—Não se recuse, Latino. Peço-lho como
amigo.
—Então, marechal, deixe-me dizer-lhe que
quem como V. Ex.
a conquistou um nome glorioso
com a espada, não deve servir-se da canalha
para fazer o que fez. A sua situação é
deploravel.
—Não me diga isso! E se eu aproveitasse a
situação para firmar de vez a liberdade em
Portugal
e salvar o paiz?
—Se V. Ex.
a quizesse...
—Mas é que quero, e para isso venho ter
comsigo.
Combinaram que o Latino redigiria os decretos
ampliando as liberdades publicas, tornando-as
efectivas, e convocando constituintes com poderes
amplissimos.
—O maior segredo...—recomendou o Latino.
N'essa noite não dormiu. Acompanhado d'um
amanuense do ministerio, redigiu os decretos,
que no dia seguinte o proprio Saldanha foi buscar,
metendo-os dentro da pasta. Mas fosse que
os amigos que lá estavam em casa tivessem desconfiado;
fosse que o Saldanha désse á lingua,
o que é certo é que o rei foi prevenido a tempo
por alguem que lhe disse:
—O Saldanha vae trazer-lhe uns decretos.
V. Magestade não os assigne ou está perdido.
Quando o Saldanha chegou ao Paço o rei
abraçou-o:
—Pois o duque ajudou a conquistar-me o
throno e não quer que meus filhos reinem?
Nem talvez eu chegue até ao fim da vida no
poder...
Saldanha que era um fraco recuou. D'ahi a
dias encontrou-se com o Latino que lhe disse:
—V. Ex.
a não podia
deixar-me dormir
a minha
noite socegado?
Por trez vezes, conclue Maximiliano, o Latino
me contou isto. Já tenho querido descobrir os
decretos. Devem estar em casa do irmão, n'um
quarto interior, onde a traça vai roendo os papeis
do grande escriptor...
*
Um dia o Saraiva de Carvalho foi propor a
revolução ao Latino:
—Mas ha-de ser tudo assassinado—toda a
familia real.
—Isso não!—protestou logo o Latino.
*
Morreu virgem, como Newton. No dia de
sua morte, estava o cadaver na cama, apenas
coberto com um lençol. Alguem disse para o Maximiliano:
—Bastaria arrancar aquelle lençol para
descobrirmos
o segredo de toda a sua existencia.
*
Junqueiro dizia de Latino:
—Sim, é um homem admiravel, que em logar
de c... tem duas castanhas piladas!
Maio—1903.
Um jornal publica hoje esta noticia:
POVOA DE LANHOSO, 29—Faleceu, sepultando-se
hoje, o sr. dr. Joaquim da Boa Morte Alves de Moura, da
freguezia de Santo Emilião, bacharel formado em philosophia
e mathematica pela Universidade de Coimbra.
O povo apelidava-o de santo, pelas suas sublimes
virtudes christãs. Tinha 92 annos de edade; o falecido
fôra
frade agostinho.
O homem, a quem estas seccas linhas se referem,
era na verdade um santo. Deixou tudo para
viver pobre, perto de S. Martinho do Campo, entre
cavadores e a gente humilde da terra que o adorava.
Vi-o muitas vezes passar na estrada, todo
branco, minguado, com o burel, que nunca quiz
largar, no fio, e os sapatos rotos. Era efectivamente
formado em philosophia e direito, e até
por vezes fôra convidado para lente da Universidade
de Coimbra. Recusou sempre, recusou tudo,
preferindo a convivencia com a gente do povo e
com a natureza que o rodeava. Ha entre as
duas povoações, S. Bento e S. Martinho, que
ficam á beira da estrada da Povoa de Lanhoso,
uma fonte que brota da raiz de uma arvore. Perto
fica a ermida. Alli se costumava o santo homem
sentar, horas e horas embebido nas suas
meditações.
Em que scismava? Decerto no passado
longinquo...
Lembram-se d'uma narrativa de Alexandre
Herculano, que se chama, creio eu, «O ultimo
dia de convento?» Um frade chora ao deixar
para sempre a cella caiada, onde passou a vida
inteira. É só isto, afóra a ternura,
as lagrimas, a
prosa do grande escriptor. Assim D. Joaquim da
Boa Morte contava tambem as ultimas horas
de convento. Velhinho, tremulo, vivendo de esmolas,
recolhido por caridade em casa de duas
mulheres, que o cuidavam, nunca esqueceu o
convento, a cella, o dia de separação. E, ao
pé da
arvore, junto ao fio limpido d'agua, lhe ouvi mais
d'uma vez contar o que sofrera.
—E dos seus companheiros lembra-se? Teve
mais tarde noticias?
E elle, com os olhos razos de lagrimas:
—Viveram ainda dispersos por esse mundo.
Ha annos, ha muitos annos, recebi, dum d'elles
um recado, esta palavra:—«Adeus!» Foi o
ultimo!
Agora acompanhava-o sempre um rapazinho.
Com a vida, ia-se-lhe desfeito o burel, rôtos os
sapatos. Deixára de dizer missa, mas o povo d'aquelles
logares, que é ingenuo e crente, consultava-o
nas suas doenças e nos seus sofrimentos.
É que D. Joaquim fazia milagres. Excusam de
sorrir... O milagre é uma comunicação
entre
pessoas que têm radicada e viva esta força
enorme:—a
fé. D. Joaquim da Boa Morte curava
as creaturas simples, as mulheres, as creanças e
os homens da serra que o iam visitar, com boas
palavras, e, quando muito, com alguns cachos de
uvas, que elle proprio colhera e lhes distribuia,
depois de benzidos.
Antes de morrer pediu que o enterrassem embrulhado
na manta coçada que pertencera a sua
mãe e que alli tinha no fundo da arca. Essa velha
manta como eu lh'a invejo! Era n'um farrapo
assim, com um resto de calor e de ternura, que
eu queria ir aconchegado para a terra. Nem a
eternidade das eternidades, nem o isolamento,
nem o frio dos frios, conseguiriam jamais trespassal-a.
Que descance em paz. Quem escreve estas linhas
deve-lhe uma das maiores, mais elevadas e
puras impressões que tem recebido na vida. A sua
grande figura só desaparece da terra, depois de
ter feito muito bem e estancado muitas lagrimas.
Julho—1903.
O Silva Pinto a respeito do Cardia, que ha
tres dias, em plena mocidade, meteu uma bala no
coração:
—Eu não faço como elle, não
me vou
embora,
porque tenho duas creanças, o Mario e o Raul.
Era de certo a isto que o Manuel se referia ao
escrever: «Não faço falta a
ninguem». Isto atura-se
lá a sangue frio e determinadamente! Matava-me
para me ver livre d'estes bandalhos!
E os olhos enchem-se-lhe de lagrimas, arrasta
a perna apegado á bengala, e sacode a cabelleira
branca. Parece um trapo ameigado, mas resistente
ainda:—Arre bandidos!
De repente, sem transição, põe-se a
rir:
—Sabe de que me rio? Lembrou-me o Camillo,
que tinha uma lingua viperina e dizia mal
de toda a gente. Um dia em Seide falei-lhe n'este
e naquelle, disse mal de todos. Por fim:—Sempre
me refugio em Victor Hugo, para ver se você
tambem diz mal d'elle...
E o mestre:
—Esse velho não era nada tolo!
Ri-se. Depois fica outra vez triste:
—Aquellas paginas de Hugo quando o avô
vê entrar o neto ferido pela porta dentro!