«O rei de Portugal
está exautorado,
está reduzido a
uma chancella de quem lhe bate os pés.
«Podia ser um rei, e é um simulacro da realeza.
«Em tempo algum se curvaram
os reis perante
ameaças
de qualquer natureza e ainda menos, quando tendentes a
esquecer os nossos protestos e juramentos a que está ligada
a propria dignidade e a honra de uma nação.
«Póde asseverar-se que o snr. D. Manuel
não chegou a
ser rei. No momento em que se
esqueceu
do
que devia á
sua dignidade de nós todos,
que lhe
confiamos um cargo,
que é incapaz de conservar sem o deixar cair, o snr.
D. Manuel deixou de ser rei».
A excitação politica não tem
diminuido, e o
Teixeira de Souza, no poder, ignora tudo que o
juiz d'instrucção repete a quem o quer
ouvir:—Estamos
sobre um vulcão!—A audacia dos
republicanos todos os dias augmenta:—Lisboa
é nossa!—exclama o Chagas.—Se os
republicanos
fizessem um comicio ao alto da Avenida
e viessem por ali abaixo, a republica estava
feita!—afirma o Silva Graça—E o Porto e
a
provincia?—pergunto
eu ao Chagas.—Que me
importa a provincia! Que importa mesmo o
Porto! A republica fazemol-a depois pelo telegrapho.—Outro
diz-me:—A marinha está toda
comnosco. Tem havido ocasiões em que a esquadrilha
do Algarve nos pertence desde o oficial
mais graduado até ao ultimo fogueiro. O dificil
tem sido contel-os...—Todos os dias corre um
boato e a agitação popular augmenta pela carestia
da vida
[13].
Que vae sahir d'aqui? Uma
grande revolução, o terror,
mortes?...—Não,
soceguem, quando se fizer a republica—já o
anunciou ha annos o pontifice maximo Guerra
Junqueiro—o que se ha-de ouvir não é um
grande ruido de espadas, é um grande ruido de
talheres...
A
SOCIEDADE ELEGANTE
Rodeiam a rainha o Figueiró e a Figueiró, e
algumas relações intimas da Figueiró e
Sabugosa;
e o rei o Ficalho, alguns velhos em oficio
na côrte, como o marquez d'Alvito, o conde de
Villa Nova de Cerveira, que, ao que se disse,
morreu por ser preterido pelo conde de Sabugosa,
por influencia da rainha—o que é redondamente
falso: D. Pedro de Noronha, vulgo o Paço
d'Arcos, morreu de velho. Era um homem sem
cultura, e tinha oitenta e seis annos quando foi
preciso nomear novo mordomo mór por morte
do Ficalho. Acompanham o rei no yacht o Fernando
de Serpa, o Manuel Figueira, o Pinto
Basto (Nico), o Malaquias de Lemos, o Queiroz,
que passou por ser a alma danada do paço;
e que na realidade tinha um certo geito para
disciplinar soldados, montar a cavallo, dirigir esperas
de touros—e mais nada; algumas vezes o
major Santos, feitor da Bacalhôa, e o
Soveral
que, quando estava em Lisboa, era o menino bonito
da corte, onde tinham influencia o Bernardo
Pindella, o Caldeira, comandante do yacht, e poucos
mais.
A seguir ao paço podem citar-se os Palmellas,
em casa de quem se dava beijamão aos creados
e ás creadas, se isto não é uma lenda
como muitas
outras... Era uma pequena corte. Ella, a duqueza,
viveu sempre entre coisas bellas; elle, o
duque, era um apagado guarda livros
[14].
Só recebiam
raros parentes, e a duqueza toda a vida
detestou os Sousa Holstein. No tempo de D.
Luiz ainda muita gente nobre mantinha uma
grande linha, que se foi pouco a pouco apagando:
os Penafieis que então fizeram uma vida
brilhante; o marquez de Vianna cujo palacio se
vendeu ao marquez da Praia.—Aquella gente
nem sabe acender um lustre, dizia o velho marquez
ao falar d'«esses morgadotes da ilha...»
Os condes de Lumiares davam bellas festas no
palacio quasi pegado, onde é hoje o do Marquez
da Fóz. Abriam-se as janellas, apagavam-se os
milhares de lustres e continuava-se a conversa
ate á missa das almas na capella proxima.
Chamavam-se essas festas «rosas divinas».
Debutou ahi, nas salas de Lisboa, o snr. Luiz de
Soveral. No rez do chão do mesmo palacio
davam pequenas partidas os Castellos Melhor.
Tocava o seu amigo Bomtempo e juntavam-se
alguns politicos, entre os quaes o Manuel Vaz
Preto. No fim do reinado de D. Luiz já a maior
parte dos palacios de Lisboa ou tinham sido
alugados ou mudado de dono. No palacio de
Tancos estava o colegio do dr. Sicuro; nos
dos viscondes de Asseca instalou-se o visconde
de Ouguella e depois uma fabrica; o dos condes
de Murça transformou-se n'uma escola; o
do marquez de Abrantes—que ocupava apenas
um recanto—foi alugado pela legação da
França; o dos condes Barão, no largo do mesmo
nome, passou a uma familia de judeus, barão de
Villa de Foscôa; o dos Almadas Carvalhaes, senhores
d'Ilhavo, á Empreza Editora; no do conde
da Ribeira, de quem o rei dizia que era o homem
mais honesto do seu tempo, e que morava
na casa dos Mordomos, instalou-se o colegio Arriaga.
Já os Angejas, representados pelo conde
de Peniche, tinham deixado o palacio de S. Lazaro,
que depois ardeu, e o visconde de Sampaio
mudára para a rua de S. Vicente. Os
condes Valladares e Povolide haviam vendido
ao snr. Burnay o palacio das Portas de Santo
Antão e retirado para a provincia. O palacio
dos condes de Paraty é hoje escola municipal,
no dos condes da Ponte, á Boa Morte,
habitou o general Palmeirim, e no dos condes
de Farrobo móra o snr. Monteiro Milhões, que
tambem comprou as Laranjeiras, vendidas depois
successivamente até cahirem nas mãos do
snr. conde de Burnay. O palacio dos Castellos
Melhor passou ás mãos do marquez da
Fóz, que
alli deu algumas festas sumptuosas. Mas a mais
brilhante, a que deixou grande impressão na
gente da epoca, foi o celebre baile das Chagas,
na antiga residencia, antes de mudar para o
palacio da Avenida. N'esse baile se exhibiram
todas as preciosidades que o marquez adquirira—quadros,
baixelas Germain, etc. Romperam-se
os tectos da sala de baile, para se construir uma
galeria onde tocaram os musicos, acompanhados
pelo côro de S. Carlos. Ahi começou tambem o
marquez a arruinar-se. Gastou, gastou... Só as
grades de ferro do corrimão do palacio da Avenida
custaram noventa e cinco contos. O marquez
chegou a ter cem contos de renda.
Muitas outras familias ilustres ocupavam, retiradas
da vida mundana, os seus palacios: o
conde de Alcaçovas, na rua da Cruz dos Poiaes,
o marquez de Pombal na rua Formosa, os marquezes
de Penalva, etc. Os condes de Sabugosa,
n'uma residencia que o conde tornou encantadora,
recebiam ainda com brilho. Na rua Formosa
existia tambem o salão da snr.
a D.
Maria Kruz
Brito, que no seu genero foi o unico comparavel
aos salões da Restauração e
2.º
Imperio, de
Paris. Sua filha, a senhora condessa de Ficalho, no
solarengo palacio dos Mellos de Serpa, aos Caetanos,
reunia a fina flor da elegancia em certos
dias da semana (segundas-feiras). É o palacio
ainda hoje ocupado pela senhora D. Maria de Mello,
condessa de Ficalho. O destruido e inhabitavel
palacio da Rosa, solar dos viscondes de Villa
Nova de Cerveira, marquezes de Ponte de Lima,
resurgiu pelos esforços do actual marquez de
Castello Melhor, visconde da Varzea pelo seu
casamento com a herdeira das casas Castello
Melhor e Ponte de Lima, e alli se deram e dão
esplendidas festas.
Citam-se como as mulheres mais lindas d'essa
epoca—fim do reinado de D. Luiz e principio de
D. Carlos—a duqueza de Palmella, a condessa
de Penamacôr, a condessa de Ficalho, a condessa
de Villa Real e Mello, e a formosissima D.
Anna de Sousa Coutinho, filha do Conde de
Linhares, portanto neta da Senhora Infanta D.
Anna de Jesus Maria, dama da rainha, e pelo
espirito, pelo talento, a condessa de Rio Maior
(mãe), a marqueza sua nora, filha dos marquezes
de Bemposta Sub-Serra (Saint Leger) e tantas
outras sumidas ou desaparecidas no turbilhão
da vida.
Uns pobres, outros mortos, outros arredados,
deram logar a esta sociedade mais mesclada,
a gente de dinheiro, a gente que enriquece,
alguns nobres de mistura, alguns fidalgotes
feitos á ultima hora, e a uma certa roda que se
diverte, citada nos jornaes, e que constitue em
toda a parte o que se chama a sociedade elegante.
Uma senhora de espirito dividia a sociedade
portugueza em aristocracia,
smart
set, alto
pirismo (pirismo, é claro, vem de Pires), baixo
pirismo e povo. «Esta ideia veio-me—diz
ella—d'uma
visita que recebemos um dia e que muito
nos impressionou: num grupo d'automobilistas
do Monte Estoril nossos conhecidos, tinha vindo a
F..., aquelle sitio apartado á beira-mar,
onde já o nosso pae costumava passar o verão,
uma menina da boa sociedade de Cascaes. Essa
menina, dizia minha irmã cheia de extranhêza,
que nunca tinha vindo áquella casa, esteve durante
toda a tarde exclusivamente a namorar um
dos taes automobilistas, e nem antes nem depois
nem nunca, esboçou para com os donos
da casa um leve sorriso de agradecimento! Porquê
n'uma menina tão fina tanto «falta de
chá!...»? Porquê, entre ellas, e as
meninas finas
nossas conhecidas com mais intimidade, tamanha
diferença?... Foi assim por
comparações
estabelecidas e deduções tiradas, que concluimos
em dividir as classes da sociedade actual
em aristocracia,
smart set,
alto pirismo,
baixo
pirismo
e povo.
É inutil explicar o que se entende por aristocracia
e povo. Cada uma dessas classes, no
seu extremo oposto, está suficientemente definida
por sua propria natureza.
Baixo
pirismo
é nome novo para a baixa burguezia, classe de
que tanto, com tanta graça, e tanta verdade, se
ocupou Gervasio Lobato.
Alto
pirismo... alto
pirismo, somos nós, por exemplo, as manas da
descoberta, muito bem acompanhadas por todas
as nossas amigas e por quasi todos os nossos
conhecimentos, mais ou menos endinheirados (ha
de tudo!) de maior ou menor bom gosto e cultura.
Classe numerosissima, em que está incluida
toda a boa gente que cuida de ser bem educadinha
e agradavel e que trata de sustentar, por
um alevantado valor civico—que muitas vezes
é inconsciente...!—as regras, os preconceitos, as
convenções, de que uma sociedade bem organisada
não pode prescindir.
Ha alguns grupos no alto pirismo, muitissimo
agradaveis—se n'elle incluimos tanta gente!...—em
que se cultiva ainda a boa conversa,
em que, sem sombra de pedantismo, se discutem
livros, ideias, arte, e em que ninguem sente saudades
de jogar o bridge. Mas ha outros grupos,
em que nas festas os homens não estão na
mesma sala em que estão as senhoras, festas
em que só dança, e pouco, a gente muito nova,
e em que as meninas, nada interessantes, mas
com aquelle ar de timidez e de recato, que tanto
agrada aos portuguezes á volta d'uma viagem
pelo extrangeiro, namoram pelos processos archaicos,
sob os olhares mais ou menos adormecidos
da mamã. Festas essas em que, a alturas tantas,
nós, com a certeza absoluta de que o relogio
está parado, começamos a sentir verdadeiro odio
pelas begonias artificiaes—ainda se encontram!—que
ornamentam a étagère, e que cresceram em leque
de dentro d'uma especie de musgo sêco, muito
mal imitado; festas em que só pela muita
fôrça
da boa educação recebida nos obrigamos a trocar
umas palavras vazias de interesse por uma
contorsão dificil e dolorosa do corpo, com a senhora
gorda que está sentada no
borne atraz
de nós! (Tambem ainda se encontram muitos
bornes!!)
São estes grupos do alto pirismo, é preciso
dizer a verdade toda, que nos enchem precocemente
a cabeça de cabelos brancos.
A
smart set (cá
está a tal menina que apareceu
na F...) foi certamente organizada em Cascaes.
Deve ter nascido na Parada...—e foi fundada provavelmente
por um pequeno grupo de aristocratas
neurasthenicos e comodistas, aos quaes logo,
muito contentes, se agregaram por facilidades
de convivencia e porque os souberam imitar,
alguns membros do alto pirismo. Hoje é uma
classe bastante numerosa e certamente a mais
chic. Distingue-se das outras por
varias coisas;
por exemplo: desprezo absoluto pela prudente
instituição do «chaperon»
(esses entreteem-se
com o bluff)—desprezo absoluto pelas boas
maneiras, pela cortezia corrente (só se cumprimentam
as pessoas que passem perto e essas
mesmas com marcada indiferença)—ignorancia
completa das regras da gramatica (isso seria
«falar dificil»!) e da orthographia. Cultivam
só o corpo diplomatico e a religião; vestem
bem, jogam muito, dançam muito e bem, e
flirtam na perfeição. Votaram ao ostracismo
algumas palavras que nós dizemos e que são
pessidonias como: chavena, trem,
pharmacia, carnaval
etc. etc. etc. Tratam-se todos por
«você»;
alguns teem muita
piada e usam todos
um ar
muito
chateado. (É da
praxe, o calão.) A
smart
diverte-se... mas não sabe sorrir».
Esta sociedade, que anda todos os dias nos
jornaes, vem do alto até baixo, da aristocracia ao
povo, forma uma lista infindavel, tem um chronista
celebre, o snr. Luiz Trigueiros, e pode ser vista ás
tardes no
Dia e de manhã
no
Diario Nacional.
Dessa lista destaca outro informador algumas
senhoras: Branca de Gonta Colaço, poetisa
distincta, voz de ouro, herdada do pae, bonita
a valer e sempre apaixonada pelo marido,
o artista Jorge Colaço; Magdalena Trigueiros
de Martel Patricio, pequenina, vivissima
compleição d'artista, gostos aristocraticos,
fazendo
versos em francês e d'uma alegria comunicativa;
Elisa Baptista de Sousa Pedroso, pianista
eximia, sempre em concertos, em recitas de caridade,
em festas que dá em sua casa e onde
reune uma sociedade mesclada de artistas, diplomatas,
aristocratas e politicos; Sarah da Motta
Vieira Marques, voz rica e sciencia no cantar,
só rivalisando com a sciencia de receber: o seu
salão pode considerar-se um dos poucos refugios
dos ultimos dez annos, no dizer dos seus amigos;
Adelaide Coelho da Cunha, esposa do
director
do
Diario de Noticias, grande
organisadora
de festas, no seu palacio a S. Vicente de Fora,
festas dramaticas d'uma grande riqueza de
apresentação
e mise-en-scêne; a malograda Ada
Weinstin, a esposa do conhecido banqueiro, recitando
maravilhosamente, vestindo com suprema
distincção, bonita, elegante, cheia de
charme;
Candida da Nova Kendall, formosura triumphante,
que passou pela sociedade lisboeta como um
meteoro louro, cantou
como um rouxinol, e
voou para terras da Santa Cruz, sua patria: ella
a bem dizer tinha duas patrias: Bahia-Paris; Alda
Decken Lino, figurinha de madona, de bandós
negros e olhos transparentes, mulher do architecto
Raul Lino; Maria
Emilia Macieira Lino,
cantora e organisadora de soirées artisticas com
representações de autos de Gil Vicente; Alice
Munró dos Anjos, dando festas na sua casa da
Praça dos Restauradores, onde
se dança alegremente,
presididas pelas suas filhas, a linda
condessa de Arnoso e a simpathica condessa de
S. Lourenço; Luzia Patricio de Balsemão, grande
linha de elegancia, certa em todas as premiéres;
Irene Gilman, filha de Thomaz Ribeiro, loura,
inteligente, maliciosa e dançando maravilhosamente;
Christina Rezende da Silva, d'uma belleza
e elegancia patricias; Elisa Baerlein; Conceição
de Carvalho, filha de Mariano, organisadora de
festas artisticas, para que escrevia peças, em
casa de seus sogros os Viscondes de Carnaxide,
bonita e intelligente; Zulmira Franco Teixeira,
pequenina, d'uma requintada elegancia, fazendo
versos, como sua irmã a condessa de Almeida
Araujo, etc. etc.
*
A sociedade lisboeta tinha dois pontos principaes
de contacto—Cascaes e o theatro de S.
Carlos. Era ahi que os ricos, ou os que aparentavam,
procuravam impor-se a certa roda, que dificilmente
os recebia.
De 1880 para cá as emprezas succedem-se em
S. Carlos como os ministerios progressistas e regenerador
e Valdez disputa com Freitas Brito a
vinda a Lisboa das grandes celebridades. Se Valdez
traz Masini, Patti, Devriés, Vidal, Castel Mary,
Devoyod, Cotogni, a tragica Ristori, a Regina
Pacini, Novelli, de Bassini, que passou por amante
d'uma rainha (vêr Fialho), os irmãos Andrades,
etc.; Freitas Brito apresenta Varesi, Gayarre, Rapp,
irmãos De Reskée, Navarrini, Tetrazzini,
Theodorini,
Gabrielesco, Nevada, Kaschmann, Sarah
Bernhard, Marini, Ristori, Salvini, Rossi, Desreins,
Sherie, Belincioni, Ferrani Darclée, Tamagno,
Borghi Mamo (Herminia), baritono Aldighieri,
Pandolfini, Saloni, Arkel, maestro Gula,
Delman, tenor De Marchi, Morconi, Sarasate, e
tantos outros. Os partidarios de Freitas Brito
pateavam sempre na epoca de Valdez, os de
Valdez na epoca de Freitas Brito—o que não
os impedia de se juntarem em jantares semanaes,
a que assistiam os dois emprezarios... A estas
duas emprezas segue Paccini, que faz fortuna.
Foi n'essa epoca que S. Carlos se transformou
n'um grande salão. Vem a Lisboa os reis e presidentes
de republicas. O numero de recitas
augmenta, a assignatura augmenta. Paccini dá
cincoenta recitas de assignatura, vinte e quatro
extraordinarias e doze extraordinarissimas, a que
o publico chama dos
Sebastiões, e no palco
desfilam
Belincioni, Krucinisky, De Lerma, Renaud,
Tita Ruffo, Lassalle, etc., etc. Segue-se Anahory,
com a carruagem, o charuto, Wagner—e o
desastre.
Ahi está todo o mundo literario e elegante,
nos camarotes ou na plateia, toda a Lisboa
como se diz nos jornaes: Carlos de Freitas Jacome,
antigo diletanti, e que se julgava pae da
Patti, Freitas Rego, o Principe Negro, conquistador
irresistivel, D. Luiz da Camara, o conde
de Mesquitella e Antonio de Brito, que formavam
um grupo, de que Bordallo fez tres
medalhões para distribuir pelos assignantes de
S. Carlos; Joaquim Pessoa, do
Diario de
Noticias,
apaixonado da Baresi; José Saragga, critico
do
Jornal do Commercio; o
phantastico Eduardo
Cheira; Mr. Garaty e mulher, assignantes chronicos
de S. Carlos, elle muito baixo, ella muito
alta; dr. Patrocinio, professor de mathematica,
com uma paixão assolapada pela cantora Pasqua;
Antonio da Costa e Silva, um dos mais elegantes
rapazes de Lisboa; Alfredo Anjos, enamorado
da Devriés, e que na noite do seu
beneficio lhe mandou compor um deslumbrante
jardim natural para o 3.º acto do Fausto; Francisco
da Fonseca Benevides e esposa, o auctor
da «Historia do Theatro de S.Carlos» (recitas
impares n'uma frisa, recitas pares n'uma torrinha),
Freitas Branco, Silva Canellas, Jayme Arthur
da Costa Pinto, que foi director da sociedade
lyrica que se fundou em S. Carlos com o
Paccini pae; Motta Marques, que casou com
a cantora Meccoci; May Figueira, o exotico
marquez de Franco e Silva Carvalho, todos tres
adoradores do corpo de baile; Custodio Borja,
José Bacellar e Ottolini da Veiga, com mania
de canto e voz de
basso—e que,
d'uma
vez, corrido pelo publico, a quem fizera um
manguito, fugiu no comboio para o Porto,
ainda vestido de frade, com o fraque enfiado
por cima—Eduardo Cordeiro e Augusto Ribeiro,
enorme e sempre com muitos calos; Dantas Baracho;
Eduardo Tavares; Espregueira e mulher
n'uma frisa; José Martinho da Silva Guimarães;
o Guerra, pae das meninas Guerras; o barão da
Regaleira, Antonio Duarte da Cruz Pinto, Agostinho
Franco, José d'Alpoim, Rufino d'Almeida,
o padeiro gordissimo de S. Carlos, etc., etc.
e n'uma torrinha, que ficou na tradição, a 115, o
Antonio Manuel Teixeira, depois secretario de
S. Luiz de Braga, o Luiz Campeão e o Oliveira,
chamado das
cautelas de
25: era d'ahi que partiam
sempre os aplausos ou as pateadas monumentaes.
Nos camarotes e nas frizas as lindas sobrinhas
do marquês de Franco, Falcarreras; a lindissima
baroneza da Regaleira; e a mais bella mulher
de todos os tempos, já velha e sempre decotada,
a duqueza de Avila e Boiama; Espregueira, que foi
a primeira que se apresentou com vestidos sem
hombros, ostentando magnificos collares de brilhantes;
Moreira Marques; a condessa de Figueiró;
a condessa de Taveira, acompanhada pelo
marido, sempre de casaca com botões amarellos;
a condessa d'Edla, o gentilissimo pagem do
Baile
de Mascaras,—da cantora a rainha—;
Poitier,
loira ideal, que casou com o filho de Monteiro
Milhões; a duqueza de Palmella; a condessa de
Alferrarede; a condessa de Alverca; a viscondessa
de Idanha, e a de S. Luiz de Braga etc. etc.
e no camarote de bocca de 3.ª ordem n.º
70—esta
Lisboa foi sempre monumental!—a Antonia
Moreno com as suas espanholas, pilar do
estado, necessario e decerto muito mais util que
a Junta de Credito Publico. Essa mulher acabou
deixando por testamenteiro Frederico Arouca, que
repudiou a fortuna que ella lhe legou, e depois de
passar para alguns camarotes brazonados de fresco
uma ou outra das suas mais lindas pupilas...
«Cascaes, com a adjacencia dos Estoris,—diz-me
um frequentador—era a côrte na intimidade,
em robe-de-chambre, mais faceis as
relações, mais accessiveis e amaveis, tu
cá, tu
lá. Quasi tudo gente do rei, que ia para lá
cedo, por meiados de setembro, cansados de
Cintra onde D. Carlos raro pernoitava, fugindo,
a pretexto de tudo e de nada, á convivencia
da rainha e da Figueiró. A separação
do rei
e da rainha, segundo me informaram, porviera
de certa dama, que lançou entre elles a sizania.
Conheci-a ainda linda e elegante, um pouco roliça,
de olhos aveludados e labios vermelhos: nos
ultimos annos engordára, e banalisara-se. Tinha
a furia do dominio, e rodeava-a uma côrte de
gente em que ella mandava e da qual fazia parte
um diplomata mais tarde em evidencia. Passava
por ter relações anormaes com a rainha...
O marido pouco esperto, só tinha como ideal
ser ministro plenipotenciario e par do reino.
Em Cascaes, a rainha não se vulagrizava.
Saía a cavalo emquanto poude montar. Tinha
varizes nas pernas,—informou um dia o D.
Afonso. No meu tempo não passeava de barco,
passeava de carruagem, descendo ás vezes para
andar a pé. Dava as suas recepções
á tarde,
principalmente em vespera de festa, para serem
apresentadas pessoas que desejavam ir aos bailes,
e que em Cascaes mais facilmente obtinham
o convite e a apresentação preliminar
indispensavel,
que o conde da Ribeira, quando estava
de serviço, facilitava extraordinariamente. A
Figueiró
voltava para Cintra logo que acabava
serviço.
O D. Carlos fazia vida hygienica de madrugador,
tirava photographias, pintava ligeiramente
algumas marinhas,
sentindo o mar.
Logo de manhã,
saía de carro ou a cavalo, com chuva ou
com sol (demorava-se até meiados de novembro
em Cascaes), ou ia á procura de senhoras que elle
perseguia. Tivera, pelo menos um anno, n'uma
vila do Mont'Estoril, uma amante, mas isso não
o dispensava de querer que o julgassem homem
de boas fortunas. Escrevia a miudo a outras damas,
em caligraphia disfarçada, cartas em prosa e
verso á mistura, quasi sempre em francez. Eram
muito tolas. Vi algumas e podia ter guardado uma,
que rasguei. Serviam-no dois alcoviteiros ilustres,
que o faziam encontrado com as mulheres que lhe
agradavam. Outro chegou a dar um baile, para que
o rei conhecesse uma senhora da burguezia media
atraz de quem andou annos.
Iam ao Sporting Club, mais conhecido pela
Parada, jogar o tennis. Não havia escolha nos
pareceiros. O almirante Capelo, o explorador, ficava
com o sobretudo do rei no braço, emquanto
elle jogava. D. Carlos era um timido, falava pouco,
nunca olhava de frente: seus pequenos olhos claros
evitavam sempre os dos outros.
A Parada era a capital do reino de Cascaes.
Ahi se reunia a flor da aristocracia e o ingresso
não era facil, como socio. Só nos ultimos tempos
é que o Tompson, a quem chamavam moço fidalgo,
facilitou a entrada. Aos domingos davam-se
salsifrés á noite, e todos os annos um grande
baile, a que assistia o rei, que distribuia os parceiros
e dançava uma contradança. A rainha, se
ia, não se demorava. Nos dias de semana, poucas
pessoas lá estavam, preferindo os casinos á
beira-mar, principalmente o Estoril.
O rei, todas as tardes, ia para a Boca do
Inferno e quedava-se ali, se encontrava algumas
senhoras que o interessassem. Por isso chegaram
a chamar ao D. Carlos o
balão
cativo...
O rei mal recebia os ministros, de que se desfazia
logo que lhe era poss
O rei mal recebia os ministros, de que se desfazia
logo que lhe era possivel. Não se demoravam
em Cascaes, não os convidava para assistir,
sequer, ás partidas. Teve d'uma vez, como hospede,
o Soveral. Não lhe conheci nenhum outro.
O D. Afonso ia cedo para o Monte Estoril,
para a vila sobre o mar, que ali possuia a mãe.
Descia a praia, com uma grande simplicidade de
maneiras. Falava pouco, era bom rapaz, e a maior
manifestação intelectual que lhe conheci foi
anti-clerical*.
Vestia-se sumariamente: uma camisola
azul, casaco e calça da mesma côr e bonet. Assim
andava, de manhã até á noite.
Ás vezes ia ao
mar, e os barqueiros gostavam d'elle. Nunca tinha
vintem. Os ajudantes ou oficiaes ás ordens não
lhe emprestavam dinheiro, porque sabiam que
elle não lhes pagava.
Não era dado a senhoras—preferia as outras...
Certa condessa é que conseguiu ser amante d'elle,
porque conhecia todas as maneiras de conquistar
um homem. Deu um baile para que convidou o
infante e a fina flôr. O marido estava encantado.
Nenhuma moral em nenhum d'elles. Elle era
muito cioso da sua nobreza e gostava de parecer.
Ella queria gozar a vida. O A... que foi seu
amante, contou-me que em Madrid ella dissera
d'uma vez ao marido, que não tinha um ceitil
quando casou: «Tu, para chulo, és caro de
mais!»
Em Cascaes era dificil chegar a vias de facto
com uma mulher. Meio pequeno, coscovilheiro,
maldoso, maldizente. Não se falava senão nesta
ou naquella, em escandalos, repetindo-se os ditos
de ouvido para ouvido ou acentuando-se as infamias.
A M... foi apanhada no pinhal dos Olivaes
n'uma atitude equivoca... A S... faz namoro
descarado ao rei... Mas as coisas arranjavam-se
para Lisboa. Vinham ao dentista, ás
compras, etc. A forçada e grande intimidade estabelecida,
de manhã na praia, á tarde na Boca
do Inferno, onde toda a gente ia, apezar do
vento e da poeira, na Parada ou á boquinha da
noite no passeio Maria Pia, junto á cidadela,
onde ás vezes fazia uma ventania infernal, á
noite nos casinos, ou nalguma partida de bridge,
a vida quasi em comum e os namoros travados,
o ar do mar que desiquilibra os nervos e torna
os amores exigentes, fizeram tecer muitas aventuras
escandalosas. Um ainda fugiu a tempo com a
mulher, que já madura, esteve em vesperas de
cair... Nunca mais voltou a Cascaes.
As ceias nos bailes eram pugnas. Vi isso até
no Paço. Uma descendente de D. João IV, vi-a
eu agarrar-se a um bufete, com unhas e dentes.
Em certas casas, as ceias nunca chegavam. Uma
madrugada, num baile do M..., chegou a iniciar-se
a lucta... A alta sociedade era, em regra,
pelintra. As grandes familias tinham gasto
as fortunas, e muitas não queriam, ou não podiam,
dar bailes. Só tinham dividas. Não era possivel
deixar d'ir a S. Carlos e de satisfazer outras
exigencias. Havia-os com actrizes com dezasseis
annos de assignatura... As ceias nos bailes eram pugnas. Vi isso
até
no Paço. Uma descendente de D. João IV, vi-a
eu agarrar-se a um bufete, com unhas e dentes.
Em certas casas, as ceias nunca chegavam. Uma
madrugada, num baile do M..., chegou a iniciar-se
a lucta... A alta sociedade era, em regra,
pelintra. As grandes familias tinham gasto
as fortunas, e muitas não queriam, ou não podiam,
dar bailes. Só tinham dividas. Não era possivel
deixar d'ir a S. Carlos e de satisfazer outras
exigencias. Havia-os com actrizes com dezasseis
annos de assignatura... Fóra o Palmella e poucos
mais, não recebiam porque de todo não podiam.
E, se o faziam, era sem-cerimonia. Não havia
dinheiro! não havia dinheiro!
Descaiam muito os fidalgos, mas obstinavam-se
sempre em
parecer. Um oficial
jogador e pae
de uma serie de filhos, mandava a miudo incomodar
D. Carlos... Todos os seus famulos lhe
extorquiam dinheiro, quanto podiam. Choravam,
punham-se de joelhos, contavam-lhe miserias reaes
ou falsas. Tive, em Cascaes, semanas uma arca
com prata para fugir a uma penhora iminente...
Um grande fidalgo, no fim de algum tempo, despediu
os creados—mas nunca pagou a nenhum.
Outro chegou a não ter que jantar, porque o mercieiro
não lhe fiava, ninguem lhe fiava, mas bebia
todos os dias garrafas de champagne.
Havia mancebias antigas e tão respeitaveis,
como o casamento, assim, por exemplo, F... e F...
Já ninguem convidava uma sem o outro.
Quer que lhe fale tambem da gente que fingia
de nobre, da burguezia vaidosa e que fazia mexerico
para ser convidada? A mulher d'um grande
industrial conseguiu entrar na casa d'um fidalgo,
onde ia toda a gente, da grande e da baixa.
Convidou-a para jantar, para o theatro e andava
contente como um cuco. Um dia não a convidou
mais. Chorou. Isto foi-me afirmado por uma amiga
que o viu. Era uma dama, muito linda, com
um soberbo colo, mas com o cerebro d'uma
arara...»
Ahi fica o quadro levemente esboçado por
um frequentador de Cascaes. Tudo isto é frivolo
e tragico. Lembremo-nos que d'esta maledicencia,
dos ditos d'estas boccas que sorriem, da ninharia
e do encanto, se gerou parte da athmosphera
donde devia sahir o descredito da rainha
e o assassinato do rei.
O MUNDO POLITICO
Novembro—1918.
Os acontecimentos dos ultimos reinados afiguraram-se-me
sempre faltos de logica e
de nexo. Estão talvez muito perto de nós ainda:
precisam de perspectiva que os coloque nos seus
devidos logares. Só o historiador poderá crear
mais tarde, com documentos e memorias, e certa
aparencia de verdade, o romance da nossa vida.
Nós, por ora não sabemos nada, nem mesmo dar
resposta plausivel ás perguntas que nos obsidiam...
Porque foi, por exemplo, morto D. Carlos?
É fora de duvida que até os monarchicos
receberam com alegria a sua morte. «Não vi
lagrimas»—diz
Julio de Vilhena. Eu avanço mais:
só vi aplausos. E no entanto já hoje se pode
afirmar sem erro que D. Carlos não foi morto
pelos seus defeitos, mas pelas suas qualidades.
Respirou-se! respirou-se!—o que não impede
que, a cada anno que passa, esta figura cresça, a
ponto de me parecer um dos maiores reis da sua
dinastia. Já redobra de proporções e
não se
tira do horizonte da nossa consciencia. O rei
tinha na verdade defeitos, mas—diga-se!
diga-se!—não
foram os seus defeitos que o mataram, foram
as suas qualidades. Só o assassinaram quando
elle tomou a serio o seu papel de reinar, e quando,
com João Franco, quiz realisar dentro da monarchia
o sonho de Portugal Maior. Foi esse o
momento em que, talvez pela primeira vez na historia,
os monarchicos aplaudiram um crime que
os deixava sem chefe, e se abriram de par em par
as portas das prisões, congraçando-se todos os
politicos sobre os corpos ainda mornos dos dois
desventurados.
O D. Luiz pôde ir até ao fim do seu
reinado,
porque elle proprio o disse—«um principe
é
um dissimulador». Mas D. Carlos é que
não foi
nunca um dissimulador. D. Carlos desprezava os
politicos. Dizia:—Tu ouvel-os falar? Se lesses as
cartas que me escrevem enchias-te de nojo.—Essas
cartas existem... Na verdade toda a gente dizia
mal da politica e desprezava os politicos: só elle
os não podia desprezar. É authentico tambem
que no seu desdem chegou a envolver o paiz.
Toda a gente, desde o literato ao homem rude,
dizia mal do paiz. Tempo houve em que foi moda
dizel-o. Só elle não devia dizer mal do paiz.
Realmente pediu muito dinheiro aos politicos,
mas os politicos pediram muito mais dinheiro á
nação, dando cabo d'elle com as suas clientelas.
E ninguem lhes tomou nunca contas: todos
morreram honrados. Hintze passou por ser
um homem integro. José Luciano tambem. Pessoalmente
decerto, mas com o que ambos
elles esbanjaram reconstruia-se o paiz de alto
a baixo. O partido regenerador tinha tal fama
que se dizia em Lisboa: «quem não é
regenerador
é ladrão de si mesmo». Na realidade
não
havia a esse tempo—porque hoje tudo mudou
de figura—senão um partido em Portugal capaz
de sacrificios, o partido republicano: os outros,
para me servir da phrase tão justa de Homem
Christo, eram apenas «quadrilhas politicas». Ser
politico em Portugal foi a mais rendosa de todas
as industrias. «Logo que chega ao poder um
chefe de partido não pensa senão em explorar o
paiz em proveito das suas clientellas. O Estado é
a preza dos politicos... Se eu podesse encontrar
um homem integro que podesse modificar tudo
isto dar-lhe-hia todo o meu apoio».
Parecia que o proprio paiz na verdade só
queria
comer:—Pedem
tudo! pedem
as maiores
poucas vergonhas!—exclamava o Alpoim; e o
dr. Antonio Cabral escrevia:
«No tempo da monarquia essa
mesma maioria acomodaticia
e pedinchona, só conhecia o caminho dos
ministérios
para ir importunar os secretarios de Estado com
solicitações
de empregos, de benesses, de estradas, de favores,
até de escandalos. Não ia levar aos ministros uma
ideia, um
plano, a lembrança de um beneficio para o país.
Ia procurar
interesses, buscar comodidades, exigir condescendencias,
sem se lembrar de que tudo isso custava, muitas vezes,
dinheiro ao Tesouro Publico e só causava prejuizos
á
nação.
Depois, quando a tempestade bramia e as moscas varejeiras
zumbiam em tôrno da montureira politica, essa
mesma maioria, de larga guela e incomensuravel ventre,
era a primeira a gritar contra as imoralidades que provocara,
contra os atropelos da lei que impuzera, contra os
êrros de administração que
imperiosamente reclamara! Para
essa maioria prudente... e de muito comer, os culpados de
tudo—criminosos execrandos!—eram o Rei, os
ministros,
os deputados, todos, emfim, que tinham na mão as
rédeas
da governação publica. Ella, a maioria exigente e
dificil de
contentar, era inocente e de tudo lavava as mãos.
Ella, a maioria composta dos influentes, dos caciques,
dos compadres, dos despoticos senhores do país, que hoje
se encolhem, transidos de pavor, e então barafustavam do
alto do seu pedestal de mandões; ella, a maioria que
ordenava,
que dispunha de votos, que sabia impôr-se com
arrogancia—ella,
de nada era culpada e escondia o rosto púdico
na alva clamide de vitima dos maus politicos!...
Veiu, por fim, a queda no abismo, em que se evidenciou
a traição de muitos e a incompetencia de tantos.
A
maioria dos portugueses, se
não delirou de contentamento,
remeteu-se ao cómodo e discreto silencio em que se comprazem
os covardes e os maus cidadãos, para só os
interromper
com murmurios de reprovação, soprados nos
centros de conversa contra os politicos... que ella
empurrára
para o mau caminho e ajudara a despenhar no precipicio.
Oh! a maioria dos bons cidadãos de larga
pança!...»
Hintze e José Luciano tinham-se congraçado
no reinado de D. Carlos, e só elles podiam tudo,
só d'elles dependiam lugares, favores, vaidades e
interesses. Antonio Cabral está certo que foi
pelos seus meritos—que não são
poucos—que
chegou a ministro?... Ai de quem lhes desagradasse.
Ao irrequieto Fuschini entretiveram-no com
as obras da Sé para o arredarem da politica; ao
José Dias Ferreira, que foi dos raros homens de
governo comezinho do seu tempo, nem sequer
o ouviam nas camaras. Toda a gente lhe voltava
as costas quando falava. Sabia-se que o Paço o
detestava. O José Luciano e o Hintze sucederam-se,
d'acordo, no governo do paiz e no governo
do Credito Predial, com identico sucesso!
Ambos elles eram pessoalmente muito boas
pessoas, ambos elles tiveram um fraco extraordinario
pelos tratantes. O Hintze, o
homem que
não ri, o
casaca de
ferro, era um homem um
pouco cansado e com um lindo sorriso para
toda a gente:—Pois sim, pois sim...—Trato
encantador. Nas camaras era vel-o! Ninguem
apresentava assim as questões: tinha tudo catalogado,
arrumado, disposto, e os papeis saltavam-lhe
da carteira por arte magica. O José
Luciano, mais bonacheirão e ao mesmo tempo
mais caustico, conhecia como poucos os homens
que lhe tinham passado em fita pelo salão da
sua casa, com as suas vaidades, as suas miserias,
os seus rancores e os seus vicios, e tocava-lhes
sempre no ponto fraco. Pessoalmente honesto,—quem
o duvida?—mas tendo cada vez mais imperiosa
a necessidade de satisfazer clientelas
cada vez mais sofregas—ambos acabaram de
corromper o paiz, já meio corrompido, até
á medula.
Importa pouco que o snr. D. Luiz de Castro
diga: «Hintze vendeu todo o seu patrimonio e
o de sua mulher para servir o reino e o rei»
(
Dia, fevereiro, 1917). Sim, mas
Hintze distribuiu
a rodos o dinheiro da nação, principalmente
depois da scisão João Franco, e colocou toda a
gente a começar pelos seus
[15].
Não resistiu. Delapidou, principalmente depois
da scisão João Franco, sem conta nem pezo
nem medida. Anselmo Vieira diz: «José Maria
dos Santos entregou á viuva do Hintze, no dia
do enterro, 21 contos de lettras vencidas. Ora a
questão do alcool entre o norte e o sul foi sempre
adiada pelo Hintze, o que fez ganhar 300
contos ao José Maria dos Santos.» Na sua phrase
pitoresca a politica portugueza estava condemnada
porque era um regimen de validos e
badamecos.
E cita este e aquelle e aquelloutro, que, na
sua opinião, e todos juntos, não valiam um
estadista.
O Hintze não resolvia um problema, arredava-o,
e as complicações augmentavam sempre;
se tinha a escolher entre dez homens, escolhia
sempre o peor... O honradissimo capitão Machado,
duro como o silex, chegou a par, porque,
quando atacavam o José Luciano na camara alta,
dizia sempre:—Viessem elles cá para os deputados
e quem os ensinava era eu.—O pobre monsenhor
inutil, que se chamou Santos Viegas, achou outro
truc para o Hintze o elevar
á mesma cathegoria:
quando o chefe do partido regenerador falava,
cahia n'um assombro, de que não havia
arrancal-o!...—«Chegaram
a ministros seres destituidos
de todo o miolo. O honradissimo Pequito,
santissima creatura, foi um dia para uma comissão,
a que o José Dias presidia, com o Contracto
dos Tabacos, que elle só tinha assignado e mais
nada. Havia um artigo redigido de forma que
cincoenta milhões de francos ficavam encobertos,
para se poderem pagar as dividas da Casa
Real. José Dias pediu explicações, o
outro embrulhou-se,
José Dias insistiu, o outro ficou de bocca
aberta, com cara de pasmo—até que o velho
rabula lhe disse com soberano desprezo:—Comprehendo,
comprehendo... o snr. ministro da fazenda
precisa de ouvir os seus colegas para
depois responder...—Se o José Dias tem deixado
passar aquella trapalhada talvez D. Carlos não
tivesse sido assassinado.»
A politica portugueza chegára a estar apenas
nas mãos e dependente da vontade dos chefes.
O José Luciano dizia:—O meu partido não
é que
me leva ao poder—sou eu que levo o meu partido
ao poder. Dois homens e clientelas. Alguem
se filiou jamais n'um destes partidos por principio,
por ideal? ou foi por interesses, e, mais simplesmente,
por simpathias pessoaes?
E assim a força desses dois homens chegára
tambem a ser ficticia:—não provinha do
paiz—provinha
do rei... As camaras mero scenario; os
discursos, as atitudes, theatraes: o que havia a
decidir não se decidia alli. Tudo estava resolvido,
preparado de antemão, nos salões, nas
ante camaras, nos gabinetes ou nos corredores,
entre os chefes. O resto era um espectaculo com
as suas regras e os seus figurantes, absolutamente
inutil—absolutamente falso—absolutamente
fóra de toda a realidade...
*
As camaras... Por lá passou Junqueiro, que
de lá sahiu um dia dizendo:—Vão
áquella
parte—; por lá passou o grande, o pobre
João de
Deus, que nunca poude abrir a bocca, e outros
homens ilustres. De lá sahiu Fuschini, que se
foi embora fazendo-lhes um manguito, quando
Arroyo n'uma sessão celebre lhe disse:—Ajoelhe
a meus pés!—Oliveira Martins, exhausto de
trabalho;
o romantico Chagas, cujas ultimas palavras
foram estas:—A vida é uma
comedia.—Já
não
os ouvi, mas vi e ouvi ainda o pachydermico
Antonio d'Azevedo Castello Branco, o esguio e
taciturno Beirão, sempre alheado, o grande orador
Antonio Candido, o canarim Elvino de Brito,
que manejava a palavra como quem maneja um
florete, e que o Hintze tratava d'alto, o anecdotico
Baracho, cujos discursos não tinham fim, o
Campos Henriques,
lyrio pendente, o
theatral
Arroyo, o José d'Azevedo, o Eduardo Villaça
tão amavel para todos, tão afavel que ficou
para sempre o Villacinha, o Chanceleiros, com
a sua grande gaforina branca, o severo e taciturno
Dias Costa, que morreu de desgosto, tendo
cumprido o seu dever como um soldado, a nobilissima
figura do conde de Arnoso, que vejo
sempre diante de mim, bradando por justiça, e
que acabou envolto em treva, jungido á sua dor,
o Jacintho Candido, um pouco apagado, mas
resistente e teimoso, o João Franco, o decorativo
Wenceslau de Lima, o Pimentel Pinto, do alto
dos seus tacões, o Albano de Mello, tão admirador
do José Luciano que chegou a ponto de se
parecer com elle na atitude, na voz e até no
rosto, e, na outra camara, a um lado o pitoresco
conego José Dias, apopletico e jovial,
lá das bandas de Monsão, o torrencial Oliveira
Mattos, que, a primeira vez que falou, fez rebentar
os cós das calças ao Chagas, que perguntava
entre spasmos de riso:—Mas quem é este
homem? onde foram buscar este homem?—e
a quem ouço ainda invectivando o ministro da
guerra:—Heroe de Trajouce! heroe de Trajouce!—os
Cabraes, um polido e soturno, que o
Hintze estimava, o outro, Antonio, de bigodes
assanhados, como um galo de combate; o José
d'Alpoim, impulsivo, terrivel na replica; o João
Pinto dos Santos, um sistema de philosophia para
cada caso futil do dia, já branco, de punhos solidos,
e sempre o mesmo aprumo, a mesma linha,
a mesma conducta; o Moreirinha, o Centeno, e
o juiz Francisco Medeiros que pouco antes de morrer
(estou a ouvil-o) me disse assim:—Tenho
pena de não ter roubado como os outros...—E,
diante do meu espanto, concluiu:—Quando
morrer deixo a minha filha pobre e os outros
estão ricos.—E a outro lado, o elegante, o frivolo
conde de Paçô Vieira, o lustroso conde de
Castro Solla, o Anselmo Vieira, sempre a debater
finanças, sempre á espera das grandes
ocasiões,
sempre esquecido á ultima hora na lista do ministerio,
o estrabico Dias Ferreira, falando baixinho
para dois fieis que lhe restavam; o Matoso
dos Santos, sempre enfronhado em algarismos, o
Sergio de Castro, o D. Alberto Bramão e outros
jornalistas da
Tarde, o Schwalbach
aparecendo,
desaparecendo, atarefado, e tantos outros sumidos
lá para o fundo na obscuridade e no silencio.
Juntem a este mundo o mundo dos jornaes,
os meios politicos onde tudo se comenta e desfigura,
e o mundo financeiro, com alguns tipos que
é necessario anotar rapidamente: primeiro os Mosers
e o Foz, predominando com o Mariano, a
casa Torlades e outros grupos; a casa Burnay e
o impenetravel Jonh, e, nos ultimos tempos da
monarchia, a casa Wernestein, Alfredo da Silva
e a casa alemã Ernest George. Entre essas figuras
conheci uma d'um alto pitoresco: Gomes
Netto, sem instrucção, mas d'um grande senso
pratico. Não raro o encontravam em mangas de
camisa no seu escriptorio. Escrevia em largos
quartos de papel e depois dizia:—Ponham-lhe
lá a gramatica!—Acabou já velho e
amoroso,
fazendo
todos os dias compras de legumes e peixe,
na Praça da Figueira, que depois ia distribuir
de
coupé por casa das
amantes, pescada aqui,
pescada alli... Juntem a isto as redacções dos
jornaes, em forja rubra a certas horas da tarde
ou da noite, os ditos, as noticias espalhadas, a
côrte ao senhor conselheiro... Era peor o que se
dizia do que o que se fazia... Era o descredito
lançado sobre tudo e todos, a tal ponto que
um dia, mais tarde, quando um juiz monarchico
(Paçô Vieira) foi despachado para a provincia, o
delegado disse-lhe muito a serio:—Mas como
queria V. Ex.
a que se sustentasse um regimen
em que as filhas do José Luciano eram apalpadeiras
da alfandega com cem mil reis por mez?—Nos
comicios asseverava-se que a rainha D.
Amelia comprava no estrangeiro vestidos por
vinte e quatro contos. Peor, peor... Depois da
republica o Eduardo Villaça encontrou-se com
João Chagas em Paris e perguntou-lhe com
ironia:—Então esses famosos inqueritos da
republica,
com que fizeram tanto espalhafato, não
deram nada?—Ao que o outro, lépido,
respondeu:—Vocês
que querem? Tanto se acusaram
de ladrões uns aos outros, que a gente acreditou...