*
O Fialho descrevendo o Cardia, esse rapaz ingenuo,
insinuante e espontaneo, que aos dezanove
annos se lembra de estourar o coração com
uma bala, por causa d'uma reles cantora de quarenta
e dous annos—o Fialho diz:
—...era isto e aquillo e uma mão enorme
atirada p'ra aqui e p'ra acolá a toda a gente,
apertando a nossa.
O que nunca mais me esquece são aquelles
olhos tristes e a bocca moça sempre a sorrir!...
Fevereiro—1904.
Hoje almoço em casa do Schwalbach com o
Bulhão Pato, o Camara, João Chagas, Antonio
Bandeira, etc. O Bulhão Pato é um homensinho
secco e resistente, de cabeleira e pera branca—miniatura
do alentado Pato caçador que todos nós
imaginamos ao ler-lhe algumas paginas. Parte no
dia 20 para S. Miguel, de passeio... Quando morrer
desaparece com elle toda uma epocha:—Meu
rapaz podes ter lido todos os philosophos, que
se não tiveres sentimento... Minha mulher, uma
velhinha lá fica... Não vae comigo, porque
recolhemos
em casa uma pequena pobre, pobrissima,
e queremos-lhe como se fosse nossa filha. Sentamol-a
á nossa meza... Bem sei que ha por ahi
uns moços que dizem mal de mim. Não me importo.
Quando vejo um rapaz de talento abro-lhe
logo os braços.
No fim do almoço, beija a mão ás
senhoras.
Conviveu com o Herculano, ouviu-lhe dizer:—Isto
dá vontade de morrer! «Que
faria—accrescenta—se
vivesse hoje!»—O Conservatorio lembra-lhe
o Palmeirim—«que foi da minha
creação»—É
simpathico, vivo e cheira a outros tempos:
conserva, como o linho guardado no fundo
d'um armario, o perfume da maçã. E que contraste
com os outros, com o Chagas, com o
Schwalbach, sempre aflicto e sempre despreocupado,
com o Antonio Bandeira, que, sob uma
aparencia futil, é pratico como o diabo, e que
conta que foi uma noite em Roma, com alguns
portugueses, mulheres e guitarras, bater o fado
para as ruinas do Colyseo! Depois, por
blague,
sustenta com o Chagas, que ninguem devia ter
mais de duzentas e cincoenta grammas de principios.
Março—1904.
Encontrei hoje o Marcellino Mesquita: ventas
largas, marcas de bexigas, barba com muitas
brancas aparada rente, chapeu desabado, capinha
curta e olho vivo. Tipo crestado do sol, materialista
e secco.
—A gente quando chega a certa edade tem
de se isolar para não viver n'uma perpetua
irritação.
Olhem agora se eu encontrava o Pequito
ministro, o Pequito de quem a gente fazia troça
em rapaz! E muitos outros, que aos quarenta
annos começam a desafinar-nos os nervos...
Vivo no Cartaxo, n'um descampado: a quinta
fica entre duas estradas. Não passa lá ninguem...
Leio, fumo, e trabalho. Tinha um moinho; primeiro
acrescentei-lhe uma cozinha, depois um
quarto: agora tenho lá uma casa. E já
não posso
viver sem o ruido das mós. O meu quarto fica
mesmo por cima. D'aqui a oito dias, com as macieiras
em flôr, aquillo é adoravel...
Abril—1903.
Vi o Marianno nas camaras. É um cadaver,
com uma sobrecasaca riquissima de gola de veludo.
Nunca phisionomia exprimiu maior cansaço,
indiferença ou desprezo, a palpebra cahida,
o olhar vazio de expressão.—Que me importa!
que me importa!...—Parece um morto, farto de
sofrimento e de goso, e, sob aquella apparencia de
sceptico raros se magoam como elle. Toda a vida
tem sido ludibriado. Contam que a mulher passa
horas a descompol-o. Elle, sentado, escreve tiras e
tiras de papel, a tarefa do jornal, sem dizer palavra
nem levantar a cabeça. D'uma vez chamou-lhe
tudo quanto lhe veio á bocca, e elle inalteravel,
curvado sobre os linguados, sem lhe dizer
palavra... Por fim ella, desesperada, berrou-lhe:
—És um estupido!
Elle então parou, ergueu a cabeça, e muito
calmo:
—Teem-me chamado tudo, mas estupido é a
primeira vez!
E continuou a escrever.
Por fóra uma aparencia de sceptico, por
dentro uma sensibilidade enorme. Anda sempre
metido em complicações e negocios, em caminhos
de ferro, em pedaços de Africa, bahia de Lobito,
etc., e afinal não passa d'um sonhador que tem as
propriedades de Azeitão hipothecadas em quatorze
contos de reis.
Setembro—1903.
O Antonio José de Freitas, homem de lettras
mediocre, é um conversador admiravel. Se
conseguisse escrever como fala, e désse á prosa
aquella vida que dá á palavra, seria um grande
escriptor. Pequeno, branco, na ponta dos pés,
sempre a segurar as lunetas, todo elle nervos:
—Dei-me muito com o Castello-Melhor. Um
dia começou a imaginar que estava pobre, porque
no Banco de Portugal lhe não quizeram,
como sempre se fez, descontar uma lettra só com
o nome d'elle. Disse ao Barros Gomes:—Vae
beber da merda!—E sahiu furioso. D'ahi começou
a imaginar que tinha cahido na pobreza e
alugou o jardim para o circo Whytoine. Uma vez
sahi com elle d'um baile pela madrugada e acompanhei-o
a casa.—Sobe.—Tenho ainda que
escrever para o Brazil...—Insistiu, subi—e eil-o
a clamar no quarto:—Que diriam meus avós se
vissem alli o circo e os palhaços!...—Estava
desesperado.
Descompul-o.
Passaram-se annos e morreu de repente. Vestimol-o
n'aquelle mesmo quarto, e, altas horas da
noite, ouvimos, de repente, um clamor: era o circo
Whytoine que ardia. E eu assisti ao espectaculo
do cadaver, iluminado pelo clarão do incendio,
alli onde o ouvira evocar com desespero os seus
mortos. Foi tudo ao enterro. O povo abria alas, e
quando chegamos ao cemiterio e quizemos pegar
no caixão, veio de roldão uma chusma de cocheiros
e vadios, que nol-o arrancaram das mãos, e,
erguendo-o no alto dos braços, levaram-no até
á
cova...
*
—O Eça usou toda a vida bentinhos ao
pescoço.
Vi-lhos eu, que dormi por diferentes vezes
com elle no mesmo quarto...
*
Depois fala no Resende:
—Se vivesse era decerto o chefe do partido
conservador. Que homem encantador, polido e
sceptico! E tinha uma poderosa ascendencia
magnetica sobre nós todos. O medico, já quando
elle estava muito mal, recomendou-lhe ares do
mar. Passeava n'um bote no Tejo. Umas vezes
ia eu com elle, outras o Soveral, e levavamos-lhe
botijas com agua quente, porque sentia sempre
um frio mortal. Estou a ver o Soveral, com
uma botija em cada mão. O
Rabecão, um jornal
de caricaturas do tempo, disse que nós iamos
emborrachar todas as noites para o rio. Muito
nos rimos... Pois o Resende, atheu toda a vida,
morreu como um crente.
Foi elle que se esmurrou com o Eça n'uma
das piramides do Egypto. Nessa viagem ouviram
ambos missa no tumulo de Jesus, em Jerusalem.
O Eça cahiu logo de joelhos; quando levantou a
cabeça para ver o quadro, dois ou trez mil peregrinos
tinham como elle ajoelhado sob o mesmo
impulso irresistivel: só a seu lado, de badine e sobretudo
no braço, se conservava de pé, sem perder
a serenidade nem a linha, um unico homem:
o Resende.
*
Os
vencidos da vida, depois que se
juntaram
diziam mal uns dos outros. Não se podiam ver.
Março—1900.
Ha mezes que Junqueiro não aparecia na
Praça, onde outrora era certo á noite, rodeado
de esbirros, e discutindo politica ou arte com
alguns amigos mais intimos. Eil-o agora de volta,
depois de umas febres palustres apanhadas n'essa
longinqua quinta que replanta de vinha lá para
a Barca d'Alva.
Vem curioso. Teem por acaso os senhores
noticia d'um Junqueiro adunco e janota, mephistophelico,
com ditos em braza explodindo sobre
o ultimo acontecimento, e conhecem talvez a lenda
da casa de hospedes celebre da rua dos Retrozeiros,
d'onde em tempos sahiram gritos subversivos,
pamphletos, versos, theorias philosophicas,
satyras e revistas do anno, e onde—consta
dos archivos da policia—morou o proprio Diabo
em pessoa, na intimidade do poeta?... Lembram-se?
Depois, n'outra phase da vida, viram-no
talvez autoritario e feroz, com o mesmo perfil em
bico d'aguia, sob um chapéo molle e gasto, atacar
o velho Padre Eterno?... Pois ahi o teem agora
philosopho e christão. Parece um prégador
socialista-tolstoiano,
um santo cavador, de barba negra
e inculta: traz ainda terra pegada nas mãos e
uma roupa velha, a que só faltam alguns remendos
cosidos á ultima hora... Usa uma camisola de
lã e diz assim:—Eu não me visto:
cubro-me.
Chega da Barca d'Alva, um terreno enorme
lá para a raia, entre pantanos, que reuniu leira
a leira, depois d'uma scena, que dava um capitulo
á Balzac. É elle mesmo que a evoca em meia
duzia de traços, e a gente vê logo d'um lado os
cavadores tartamudos e hesitantes, do outro o
Senhor Poeta, como elles lhe chamam, com um
livro de cheques na algibeira, encafuando-os a
todos na sala do cartorio:—Se chegam a concertar-se
era uma discussão para seculos. Pediam-me
uma fortuna!—Um a um compareceram diante
do tabelião:—Quanto quer? Assigne!—E
sahiam logo por outra porta.
Já pouco a pouco a lenda se forma, discutindo-se
a nova thebaida, que d'aqui a annos será
visitada como Valle de Lobos e Seide. Que procuram
os nossos grandes escriptores, desde Herculano
a Fialho, na natureza, que pouco nos dá
em troca do muito que lhe damos? Afastar-se
dos outros ou esquecer-se a si proprios?Talvez
as arvores e os montes nos preparem melhor
para o sepulchro e para o verme, ainda que
eu julgue que não ha como um 6.º andar, com
livros e papeis, e um cinematographo no rez do
chão, para acabar com a vida.
Seria um curioso estudo aquelle que comparasse
Valle de Lobos, Seide e a quinta de Junqueiro,
a decoração escolhida por tres homens
superiores—o fundo de tres grandes retratos.
Na Barca tem o poeta uma casota de cão, com
os muros ainda em osso, e uma varanda onde
passeia todo o dia infatigavelmente. De quando
em quando escreve na cal da parede versos ou
contas. Seide, n'um cahir de tarde outomniça,
lembra a alma de Camillo. Ha lá um calvario
d'arvores decepadas que parecem forcas. Ha lá
uma casa tragica, pintada d'amarello. Um ermo,
que, a meia legoa da estrada, fica ao cabo do
mundo, e que parece escolhido de proposito para
esconder uma desgraça ou combinar um crime.
Peor: ficou na casa abandonada, no ambito, nas
pedras, alguma coisa daquella alma dilacerada
de sceptico e de crente, mixto doloroso que só
tinha como solução o infortunio. O que se ouve
são risos ou gritos de dor? Depressa! depressa!...
Parece que elle anda ainda por aqui, sardonico e
immenso, desgraçado e immenso. Valle de Lobos,
se uma vez o avistaram, não emociona de
uma forma toda diferente, e não diz bem com a
alma de Herculano?... Quanto a Junqueiro,
a sua paizagem querida é indubitavelmente a
trasmontana, grave, revolta e grandiosa como
o seu genio.
Camillo não encontrou decerto
resignação nas
arvores, nem nos montes, porque, para o mestre,
em toda a natureza só o homem
existia:—Não ha
na sua obra uma arvore, nota o poeta...—Nem
Guerra Junqueiro por ora se isola. Está na lucta,
com os seus livros, as suas theorias, a sua maneira
suprema de discutir e de encarar os problemas
do universo.
—Para viver na aldeia é preciso, diz elle, ser
João Brandão ou S. Francisco d'Assis.
De forma que a Barca d'Alva não é bem
uma thebaida para o poeta. Os senhores vão
agora conhecel-o sob este aspecto novo—agricultor.
A Barca é-lhe mais que um refugio: é
(palavras que fazem
bater o coração de todos os
homens) o futuro dos seus filhos. E Junqueiro,
agricultor, tem ainda genio: inventa e descobre.
Quatrocentos cavadores desbravam-lhe a terra,
que deve produzir um vinho magnifico. O mosquito
propaga a febre. O jornaleiro macilento
bate o queixo com sezões. Elle ordena, dirige e
resolve as questões agricolas muito melhor que
os lavradores da região, de quem diz:
—Plantam vinhas, como quem joga na batota—ao
acaso!
Ouçam-no! Desfilam os jornaleiros, que adquirem
logo uma vida extraordinaria, as boccas que
não falam, a Maria Colhôna, que tem filhos de
toda a gente, filhos para o Brazil, filhos para soldados,
filhos para a desgraça, os sêres deformados
e enormes, os tipos que se transformam em
simbolos... Descobriu um novo processo para evitar
que a enxertia, essa operação cirurgica, como
elle lhe chama, falhe, e, sob as suas ordens, trabalham
alguns centos de homens, que se encostam ás
enxadas para ouvirem o Senhor Poeta... Não é
raro vel-o subito, tempo humido, perigo para as
vides, abalar para a quinta com saccos de sulphato.
Adivinha, presente melhor a natureza que
os sabios—e cria. Tudo o que toca toma sob as
suas mãos um aspecto novo, tão certo é
que os
homem de genio, como quer Carlyle, são sempre
superiores e ineditos.
E de que maneira paradoxal elle expõe as
suas theorias! Nervoso, pequeno, calcando o lagedo
da Praça, a mordiscar a ponta do charuto,
que giganteas formas de sonho não vae creando
aquella magica palavra!... A sua phantasia é
eminentemente decorativa.
—Sabem—dizia o poeta uma noite—sabem
que scismo na fórma de transformar toda a agricultura?
Acabaram-se os pobres, a fome, os annos
tristes! Para o vinho, d'aqui em deante, não
bastarão
toneis como torres e para o pão arcas como
predios. Uma carrada de bois será apenas suficiente
para carregar uma abobora, e um simples
cacho de uvas dará vinho para duzias de
borrachões.
Como? Aplicando ás arvores, ás vides,
ás
plantas emfim, o methodo de Brown-Séquard.
O sabio dá a um organismo gasto uma vida
assombrosa, injectando-lhe a vitalidade de coelhos.
Calculem o resultado d'esse sistema aplicado
na agricultura...
Um castanheiro dura seculos, tem uma vida
extraordinaria. É mais que uma arvore—é
uma
força. Apodera-se dos montes. As suas raizes alastram,
os seus ramos tocam no céo. Imagine que
injecto polen de castanheiro n'uma vide... Obtenho
logo uvas como as da Terra da Promissão.
D'um pé de melancia tiro um fructo capaz de
carregar um carro. Tres maçãs metem no fundo
uma náu.
E eis, por uma noite de invernia, a natureza
transfigurada, pelo poder da phantasia
e do sonho. Flores são arvores abrindo lá em
cima no céo em parasoes roxos; pinheiros transformam-se
em montanhas; monstros erguem as
suas corolas de veludo, e na verdade não passam
de humildes flores bravias. Uma petala desaba
com o fragor de penedos, e multidões sobre
multidões
sequiosas veem dessedentar-se n'este fructo
colossal:—o morango. Ha que tempos que
eu erro perdido n'esta floresta monstruosa de
papoulas!...
Junqueiro na intimidade é prodigioso de genio,
de imprevisto, de elevação. Vê os
factos mais
simples com um olhar que os engrandece. Assombra
de pitoresco e de inedito. O homem de genio
é, como todos os homens, filho da mesma
lama, mas, por acaso, vão n'esse humus lagrimas,
aguas correntes, detrictos de florestas, restos de
nuvens e a emoção profunda da natureza. Por
isso sabem tudo, sentem tudo... É pena que as
suas conversas, os seus fragmentos, esses pedaços
de sonho e de vida, atirados com febre, perdidos,
e decerto esquecidos, se não possam juntar,
porque dariam um dos aspectos mais extraordinarios
do seu genio. Seria esse talvez o seu
melhor livro. Assim, por exemplo, as cathedraes
de Hespanha, onde Jesus está preso e a ferros,
a explicação prodigiosa dos Christos de
madeira—o
Christo dos soldados, o dos ladrões, o
dos cavadores, da sua sala de jantar, unicas
obras d'arte de que não quer desfazer-se, e a
sua philosophia, a maneira superior como encara
o universo e ilumina o desconhecido...
Pois ahi o teem de novo no Porto, de barba
hisurta, embrulhado n'um casaco coçado, com um
ar iluminado de Santo. Direis que vae prégar ás
multidões. Demais já ha annos que elle escrevia:
Tolstoi
o meu sapateiro...
E um dia, ao saber Camillo sceptico, Camillo
com noites de sombrio desespero, palpando a
coronha do revólver, não foi de proposito
procural-o
para lhe prégar Deus?
Era n'uma dessas tardes tragicas de Seide,
de que o grande escriptor fala nos
Serões. A
natureza chorava revolvida: a acacia de Jorge
batia-lhe devagarinho nos vidros. Quem é que o
chama? Atormentado de dores, ouve vozes, vê
phantasmas, e sae do horror com blasphemias e
sarcasmos. Junqueiro encontra-o mergulhado na
dolorosa tinta do crepusculo, com a pala com que
escrevia sobre os olhos, absorto, calado, desesperado,
o rosto marcado de dedadas, «esboçado
n'uma argila côr de mel», segundo o retrato de
Ricardo Jorge. Eu tinha-lhe medo... O poeta
tenta arrancal-o ao negrume que o envolve: desenrola
theorias, explicações, argumentos; ataca-o
a fundo, persuade-o talvez... Já o julga abalado
e convertido, quando d'essa figura só osso e dor,
saem emfim estas palavras ironicas:
...—Sim, sim, Junqueiro, você convencia-me
se eu não tivesse ainda no estomago, desde o
almoço,
tres bolinhos de bacalhau, que me estão
aqui como tres Voltaires.
Março—1904.
Veiu a Lisboa acompanhar, por solidariedade,
os lavradores do Douro, o poeta Guerra Junqueiro.
É outro homem, que perdeu talvez em
exterioridades mas ganhou em funda emoção.
Tendo-se-lhe um dia deparado universaes
interrogações
no caminho; tendo encontrado
frente a frente, ao meio da vida, idéas abaladoras,
que só o homem de genio pode encarar
sem o pavor e o deslumbramento que o
grande mistério comunica—as raizes do
universo—elle
mudou de rumo, tão simplesmente
como se praticasse o acto mais banal da existencia.
Sendo já um dos maiores poetas da Europa—quiz
ser tambem um santo... Durante annos
procurou como Fausto o segredo da vida no
fundo dos laboratorios. E n'outra phase do seu
espirito decorativo tendo entrevisto, pelo poder
do genio, novas veredas a tentar, seguiu-as, fazendo
experiencias que a sciencia d'hoje plenamente
confirma.
Guerra Junqueiro está na mesma: alguns fios
brancos a mais na grande barba de santo, começo
de calva amarelada no alto da cabeça,
chapéo
baixo, uma simplicidade de trajo que vae bem
com a simplicidade verdadeira ou ficticia da sua
alma. E sobre isto os olhos terriveis que nos
fitam e nos adivinham até ao fundo. A conversa
é prodigio que evoca, ilumina, toca em todos
os problemas da vida, dando-lhes uma grandeza
e novos aspectos que entontecem.
Fala-se a proposito de um livro, e elle diz, não
palidamente, nem decerto com as inexactidões
com que reproduzo, o seguinte:
—É um livro interessante. O autor conseguiu
deixar falar a parte de inconsciente que cada um
de nós traz comsigo... Porque, meu amigo, a
porção de infinito que cabe a cada homem
é
exactamente a mesma. O camiseiro alli defronte
e um homem de genio teem na alma identico
quinhão. Sómente o camiseiro não
consegue encontral-a
nem pode exteriorisal-a. Porque? Porque
só pensa em camisas. O homem é o universo
reduzido... Que cada um pudesse deixar-se narrar—e
teriamos a mais maravilhosa historia do
mundo!...
E como incidentemente se refira á sciencia,
eil-o que se desvia por outro esplendido caminho:
—As ultimas descobertas modificaram completamente
a sciencia. Foi um terremoto. E eu
entrevi isto mesmo: ha annos que chegára ao
seguinte resultado:—radiação universal
e
desassociação
dos atomos. Fiz experiencias, que me
de sciencia que não me quizeram atender. Um
dia vim de proposito a Lisboa falar a Sousa Martins
e expuz-lhe as minhas theorias. Ouviu-me...
Quando me fui embora encolheu decerto os hombros.
E no emtanto, passados annos, vejo confirmado
experimentalmente tudo o que eu previra...
Que quer?... Faltavam-me como comprehende
os meios de verificação. Precisava de factos.
D. João da Camara.
D. João da
Camara.
Cala-se um momento e depois continua:
—Hei-de publicar, depois da
Oração á
luz,
que sae brevemente, uma serie de memorias, com
os resultados dessas experiencias. A vida—é
o Amor e a Dor. Procurar as suas leis eis
tudo. Seguir-se-ha a minha theoria philosophica.
Adivinhei todo este terremoto que se deu ultimamente
na sciencia. Hoje a materia não existe:
já a definem—associação
d'energias. O
que é
feito dos materialistas? A sciencia futura será
portanto o estudo de energias. Por ultimo publicarei
uma introducção á sciencia, visto que
não
posso escrever essa obra: seria a revisão dos trabalhos
de Spencer—a tarefa de toda uma vida.
—E tem muitos documentos?
—Tenho tudo prompto. Necessito apenas de
encontrar a fórma precisa, a fórma mathematica,
para exprimir as minhas idéas.
Incansavel. É de ferro. Pequeno e mirrado
passeia horas e horas, a conversar... Não
conversa—monologa.
*
Da Barca d'Alva diz:
A minha casa de jantar tem uma meza e cadeiras
de pinho. Depois de comer, quando quero
um palito, corto-o na meza.
*
Ramalho definido por Junqueiro:—um pinheiro
com uma melancia em cima.
*
Junqueiro na redacção do
«Mundo»:
—D'aqui a pouco reparto a minha fortuna
com as minhas filhas e o que me restar dou-o
aos pobres.
*
Ha outro Junqueiro de que a caricatura se apoderou,
o Junqueiro do
bric-á-brac. O Junqueiro
que a má lingua do Porto afirma que percorre
disfarçado as ruas de Hespanha, com um burro
pela arreata apregoando:—Ha por ahi quem
tenha louça para vender?—O Junqueiro que
foi procurado um dia no hotel, em Salamanca:—Está
cá o grande poeta Guerra Junqueiro?—Não
conheço,—disse o porteiro.—Mas elle
vem sempre para aqui. É um homem de
barbas...—teimou,
explicou o outro.—Esse es Guerra
el antiquario!...
Mas até no Junqueiro caricatural algumas linhas
são indispensaveis para completar o retrato.
Ha n'este grande homem uma mascara. Sinto
uma parte que se deve ao arranjo—e que é a
inferior e outra em que elle obedece á raça e que
é a mais viva, a que tem raizes nos mortos. Melhor:
o homem é sempre um tablado onde varios
phantasmas se despedaçam. Ha mãos que nos
puxam para o fundo, ha outras que nos procuram
levantar cada vez mais alto. Deus nos livre
de julgar os mortos!
*
Junqueiro, de volta do Bussaco, indignado:
—E não aparecer um doido, com um grande
martelo, que deite tudo aquillo abaixo! Qualquer
dia botam as arvores a terra e põem pedraria
até á Pampilhosa!
Dezembro—1907.
Encontro-o hoje em Lisboa, emagrecido, com
um velho casaco comprado n'um adelo, e muitas
rugas, finas como linhas, ao canto dos olhos. E,
como o José de Figueiredo lhe fale no Rodin:
—É verdade, passei um dia inteiro com o
Rodin, a explicar-lhe a sua obra. Disse-lhe: você
é um grande artista, mas exactamente, como
em todos os grandes artistas, a melhor parte da
sua obra é inconsciente. Porque em todos nós a
razão é nada, o que é grande
é o inconsciente.
Aquella cabeça que você tem no Luxembourg,
emergindo da pedra—é assim, é
aquillo... Mas
falta-lhe não sei quê de simbolico que ligue a
cabeça á pedra. Assim choca, é brutal.
É como
o
Pensador, a estatua que
está no Pantheon.
Toda a critica franceza tem tentado explicar
aquella estatua, e ainda ninguem disse as palavras
necessarias. Eu lh'as digo: Aquillo não é
o
Pensador, nem o
Pensamento: é o primeiro
pensamento em cabeça de homem. Dispa você
um tipo de verdadeiro pensador, Kant, o Dante,
por exemplo, e encontra um corpo deformado.
Porque o pensamento peza mais de que montanhas.
Devora. O que você fez foi uma besta,
um gorilha, um homem capaz de arrastar calháos:
Pois bem: inconscientemente fez uma grande
obra d'arte: o primeiro pensamento na cabeça
d'homem. Esse primeiro homem athletico, ao
deparar com o primeiro pensamento, essa flor
abstracta, fica dominado, subjugado: cae-lhe o
Atlas em cima e esmaga-o... E adeus, são horas
de partir para o comboio.
*
D. Carracida, professor de chimica biologica
na Universidade de Madrid, homem ilustre e que
conhece perfeitamente a literatura portugueza,
diz assim de Junqueiro... (D. Carracida fala
portuguez pausadamente).
—O senhor Junqueiro, grande poeta, é um
mistico... Está agora no misticismo. O senhor
Junqueiro e eu passeavamos juntos no jardim de
Villa do Conde, de cá para lá—e o
senhor
Junqueiro
prégava a piedade e o amor. Uns rapazinhos
acendiam balões para uma festa, e eu e o
senhor Junqueiro passeavamos de cá para lá...
O senhor Junqueiro prégava a piedade e o amor,
e um dos balões cahiu na cabeça do senhor
Junqueiro,
que levantou a bengala e deu com ella
no rapazinho... E nós continuamos a passear
de cá para lá, e o senhor Junqueiro a
prégar a
piedade e o amor...
Março—1903.
Fialho não é este janota de palio rico, com
uma joia tão grande que parece falsa na gravata
de veludo. Fialho era outro estranho tipo, intratavel
e pobre, com o pêlo ralo e a bocca enorme
cheia de sarcasmo. Um principe de gabinardo,
que fazia cahir as peças do alto do galinheiro, a
um gesto seu irrespeitoso. Seguia-o a malta atonita
de matulas suspeitos e jornalistas de ocasião,
que deslumbrou de sonho e atascou em sonho.—Fialho!
Fialho!...—Esses aplaudiram-no e
amaram-no... Esquecidos do frio e da pobreza,
não despregavam os olhos d'aquelle sonho
desconforme.—Fialho!
Fialho!...—Depois sumia-se
n'um terceiro andar, ou procurava os pobres
que não pedem: só a mão sae da noite e
implora.
Havia uma velha—nunca mais me esquece—alli
á porta do Monte Pio, que fazia parte do
muro alto e espesso, e a quem elle, ao dar-lhe
esmola, lhe afagava a cabeça... Depois, amargo,
feroz, insuportavel, eil-o tornava com sarcasmos,
transtornando as figuras decorativas, cheias de
veneras, que á sua voz desatavam ás cambalhotas
como palhaços. Vi-o exasperado, vi-o atordoado
de phrases, como quem quer fugir ao
proprio phantasma. Vi-o mergulhar n'uma absorpção
dolorosa, e desaparecer na noite em correrias
que duravam até de manhã pelos bairros
escusos ou pelas azinhagas de crime, n'um debate
perpetuo de que sahia livido, exhausto, e
com a mascara transtornada. Este que fala do
seu vinho:—Livros?... O que eu trato de editar
é um vinhinho branco lá de
Cuba...—este, que
vem, de quando em quando, a Lisboa deslumbrar-nos
com um novo e horrivel fato, é outro
Fialho, que talvez tenha saudades d'essa vida
absurda de outros tempos...
Fialho! Fialho!... Pronuncio este nome e
diante de mim desfila o assombro, pamphletos, a
obscenidade e o genio—farrapos arrancados a
ferro e tão vivos que mal ouso tocar-lhes—o
estoiro
d'uma bexiga d'entrudo—ironia e esgares.
E logo gritos! e agora gritos!... Ouço a dor, sinto
a dor, sinto-a sempre atravez da forma imprevista,
d'uma audacia e d'um rithmo incomparavel,
escorrendo sonho, aflição, miseria, sinto-a
até nos
impetos de máo gosto, nos pontapés aos leitores
surprehendidos e irritados. Está aqui diante de
mim aquella bocca enorme, aquella figura de gabinardo
e chapeu molle que nas noites de tristeza
e abandono me dizia:—O que eu sofri! o que
eu sofri!...—Vejo-o sempre invejar o barqueiro
louro e sardento, de que fala nos
Gatos, bello
como um ephebo á prôa do seu barco.—Como
eu queria ter saude e ser forte!—Deu-lhe
Deus o mais rico quinhão que imaginar se
pode, a lingua incomparavel para exprimir a chimera
e a dor, e, esse macaco sem fé, esbanjou-a
com o mais absoluto impudor: serviu-lhe para a
chacota. Transtornou tudo, engrandeceu tudo,
riu-se de tudo. As descripções perderam a
proporção,
as figuras a realidade, transformadas em
figuras de dor ou de grotesco; a propria cidade
resurgiu a uma tinta livida de antemanhã, com
a casaria a escorrer vicio e aspectos tetricos...
É isto sim, mas isto creou-o elle de pobreza e
desespero, creou-o de gritos que nunca ninguem
lhe ouviu.—E maior! ficou maior! A sua obra
só tem outra que se lhe compare, a de Camillo.
Exigem-lhe um livro harmonico—
Os
cavadores. Porque é que toda a gente reclama dos
outros
aquillo de que elles são incapazes? A obra de
Fialho não podia ser senão esta, aos arrancos e
enorme. Fialho via os pormenores atravez d'uma
lente, e deturpava tudo, deformava tudo, dando
genio á propria obscenidade. Nunca conheceu
Barjona, nunca viu Barjona, e, com duas ou tres
anecdotas, creou uma figura com um relevo que
falta ao mediocre Barjona da realidade. Precisou
sempre de se exagerar para se encontrar. Sacrificou
o seu melhor amigo a um dito, é certo,
mas começou por se sacrificar a si próprio. Foi
sempre o primeiro a sofrer. Houve tempo em
que alguem o definiu um doente com inveja
das doenças dos outros... Desatou então a
gargalhar
com lagrimas nos olhos. Perdeu o pé.
Arrancou as azas disformes ao Sonho e rojou-as
com maldade no enxurro.—Encharcou-as de
lama e empoou-as de estrellas... O vestido ficou
mas era o d'um espectro... Não nos podemos
medir todos pela mesma craveira. Fialho tem de
tudo na alma: a casa de hospedes, a existencia
reles d'estudante, a pobreza, as mil saburras, os
pequenos nadas que gastam, desgastam e transformam,
e uma alma vibratil, um feixe de nervos
(capaz de tempestades que se domam com uma
palavra) ligado a uma enchente de sonho e a
um orgulho doentio, como os que sentem dentro
de si, e o suportam, um mundo desconhecido e
nunca dantes navegado. Fialho, se o virassem
do avêsso, escorria ternura... É tambem um timido
capaz de todas as audacias, e que sae da
doença e do isolamento com desespero e escarneo.
Esta figura tão conhecida de todos nós,
não
é a exacta expressão da sua alma. Ainda hoje
ninguem se entende...
Eça de Queiroz.—Desenho de Antonio Carneiro.
Eça de Queiroz.—Desenho de Antonio Carneiro.
Silva Telles, por exemplo, conheceu um estudantinho
aplicado e mediocre, que se chamava
José Valentim Fialho d'Almeida; ha ainda talvez
quem se recorde d'um moço de botica reservado
e triste; e, o que é mais extraordinario, de outro
Fialho respeitoso, que não podia suportar o
exagero alheio, e d'outro, noctambulo e feroz,
com risadas estridulas de sarcasmo—e de outro,
de outro maior, de outro espectro, que
vem aqui sentar-se a meu lado na sua tragica
mudez. No fundo talvez tudo aquillo fosse dor.
No fundo, bem no fundo, quando irrompia n'uma
phrase cruel, não era aos outros que dilacerava,
era a si proprio que se dilacerava, e tão a serio
que todos o viamos sangrar. Reparem: pouco a
pouco a figura range de dor. Arfa atravez da sua
obra. É o filho do professor
d'instrucção primaria,
d'aquelle homem severo, de quem dizia baixinho:—O
meu pae foi duro! o meu pae foi tão duro!
Era um homem sem ternura...—É o praticante de
botica alheado e transido, o neto deformado de
cavadores, que inveja a sociedade distante, e que
só aos impetos se atreve a enchel-a de sarcasmos.
Que inveja o grande escriptor, o desgraçado
Fialho, o homem de genio que passou a vida a
fazer chacota das veneras, das academias, das
elegancias, dos grotescos cobertos de patacos—que
lhe faziam falta? Tanta tinta, tanto desespero
calcado e recalcado, tanta contradição e pobreza,
e uma lucta de noites e noites de que sae amarfanhado—e
com paginas soberbas! Mas tu não
vês que no dia em que te roçares por elles
estás
perdido, como no dia em que a cobra perde o
veneno? Vae-se-te o melhor do teu genio...—Não,
eu rio-me, eu sofro...—Tantas paginas bellas!—Se
soubesses como isso se paga!—Então
explica-te...—Não posso, não sei.
Até
dos idolos
postiços que deito abaixo me ficam saudades...
Nem eu proprio sei o que quero.—Pobre
Camillo, que estoirou a cabeça de desespero, pobre
Anthero, exilado e em debate com uma sombra
com que não podia arcar; pobre Fialho, pobre
cavador de genio, em perpetua discussão
com os seus mortos, em lucta comsigo e com os
outros e no fundo um reverente—foi-o sempre—sahindo
em farrapos d'este inferno a que se
chama a vida!...
Da sua existencia oculta faz parte uma figura
de dor calcada e recalcada, sobre a qual
outra se encarniça com desespero. Talvez seja a
verdadeira... Contentemo-nos em fixar duas ou
tres aparencias, apontando n'este canhenho algumas
anecdotas frivolas... Se elle podesse gritar
gritava ainda. D'essa figura contraditoria restam
farrapos—mas que farrapos! d'essa lucta suprema
existem vestigios, que nunca encarei sem
espanto... Vio-o algumas vezes ao amanhecer,
n'um 3.º andar do Arco da Bandeira, quando
elle cahia exhausto sobre a banca de tortura, á
luz d'um candieiro de petroleo, com um frasco
d'alcool ao lado e o cobertor enrodilhado nos
pés. A mascara livida estava de todo mudada.
Era outro! era outro! Surprehendi-o em noites,
nos giros sem destino pela Graça, pela Penha,
pelo Monte—quando o seu dedo apontava
boqueirões de treva, tropeis de casaria, sitios
ermos onde duas ou tres oliveiras torcidas se
ajuntam para concertar um crime, ou, peor ainda,
nas horas de amargo descalabro, em que, dorido
e sem phrases, procurava fugir de si proprio para
muito longe. Não queria então que ninguem o
seguisse nas caminhadas que duravam até ao
dia—elle e a dor, elle e a noite! Amigos, silencio...
*
—O que eu sofri!—dizia elle.—Tiveram-me
preso oito annos n'uma botica alli na Bemposta,
ao pé da Escola do Exercito, na idade em que
queria viver. Estragaram-me a vida, encheram-me
de desespero. Quando me soltaram não imagina
a minha alegria! Podia ter sido outro... Ter
saude, ser forte!... O que eu sofri! D'uma vez,
no
Reporter, o Martins mandou-me
escrever um
artigo sobre uma kermesse de fidalgas. Fui e fiz
uma troça, e elle rasgou-me os linguados na
cara. Para me vingar, tirando um bocado ás noites,
escrevi um artigo formidavel para publicar
em folheto. Era na occasião em que essas peidorreiras
arranjavam um bazar para os pobres, que
rendeu oitocentos mil reis. Ora eu descobri por
acaso um gallego, que se juntava com outros e
tiravam todas as semanas meio dia de ganho,
para irem ao domingo ao hospital dar cigarros
aos doentes, penteal-os, cortar-lhes as unhas,
untar-lhes a cabeça com banha de porco. É um
velho, de barba de passa piolho, que está sempre
no largo de Camões. Homem de poucas falas.
Tratou-me mal. Tive prompto o folheto em que
comparava essas mulheres, cheias de snobismo,
com adulterios e infamias, com esse santo desconhecido...
Imagine... Perdi o artigo.
E depois, falando da mulher Oliveira Martins:—Não
era a mulher que convinha áquelle homem.
E elle subordinava-se-lhe. Foi ella que o
fez confessar á hora da morte. Contou-me o
Sousa Martins que a sacudira de ao pé de si ao
morrer...
*
Fala do livro
A Cloaca, um d'estes
livros que
se sonham e nunca se chegam a escrever:
O primeiro capitulo está feito: é uma festa da
alta sociedade no claustro da Batalha... Aproveito
a epoca do Burnay e do marquez da Foz,
a lucta da finança, quando o Foz tinha palacios
e o Moser carro a duas parelhas. Deram-se festas
esplendidas... Tenho as figuras todas, homens
de negocio e jornalistas, o Mariano e o Navarro...
Um dia alugam um comboio especial e vão dar
uma festa no claustro da Batalha. É uma ceia
formidavel, com mulheres da grande roda, politicos,
literatos, e, dentro do claustro, entre a
grandeza e a severidade d'aquellas pedras, caem
de bebados e mijam pelos cantos, nos tumulos.
O principe tambem lá está, com o conde de
Maricas—fedes:
no fim do banquete, á sahida, a
babar-se, escreve nas paredes monumentaes esta
palavra obscena: p... Os outros riem-se, as mulheres
aplaudem. Fora a multidão apupa. Outro
capitulo ha de ser a noite em que os jornaes
apregoaram em suplemento o escandalo Foz e
a sua prisão:—Foi n'essas horas—dizia a
marqueza—que
os cabellos se me puzeram brancos
da noite para o dia.
*
Nunca terminou outro livro
A Quebra,
que
chegou a trezentas paginas impressas, no editor
Costa Santos. Tinha capitulos admiraveis. Acabou
por o inutilisar:—A minha dificuldade é a falta de
proporções. Perco-me n'um incidente, e quando
mal me percato estou em quatrocentas paginas.—Sei
tambem que escreveu alguns capitulos d'
Os
Cavadores. Talvez d'
Os
Ceifeiros pertencessem a
esse livro, em que elle queria pegar no homem
do campo e leval-o, sempre explorado, desde o
baptismo até á morte...
*
Inventou este nome para o conde de Arnoso,
a
rainha Draga, e diz do retrato a
oleo que o
Columbano lhe pintou:
—O Columbano é tão cortezão
que lhe
poz
um velho olho do Eça de Queiroz.