*
O Alpoim:
—O Mousinho d'Albuquerque antes de morrer
disse-me:—O unico homem com quem eu
poderia ser ministro era com o José
Luciano.—Dantes
dizia muito mal d'elle. D'uma vez estava
no Paço, no vão d'uma janella, a dizer cobras e
lagartos de José Luciano; o rei, um pouco afastado,
ouviu-o:
—Ó Mousinho cala-te.
—Se incomodo V. Majestade saio d'aqui.
—Não, podes estar, mas acaba lá com a
conversa.
*
—E porque é que o rei não gostava do
Mousinho?
—Se lhe parece! Vêr sempre o Mousinho a
seu lado, carrancudo, sem palavra, mas severo
como um censor... Irritou-se. Quem lhe valeu
mais d'uma vez foi a rainha.
Abril—1903.
O Adrião de Seixas, secretario do Banco de
Portugal:
—Já por diferentes ocasiões o Estado
tem
corrido
o risco de ir a pique. Houve mezes em que
quasi faltou o dinheiro para pagar á tropa, e
mais que uma vez o Banco de Portugal se viu
em transes para arranjar trezentos contos de reis.
*
Um architecto do Paço conta que a rainha
D. Maria Pia fuma constantemente charuto como
um homem, e atira as pontas para onde calha,
sobre os sofás e os tapetes. Atraz d'ella anda
sempre um creado de farda, com medo que
pegue o fogo, a apanhar as pontas. Anno passado,
antes de ir para o extrangeiro, mandou fazer
umas obras no Paço.
—E não volto sem estar tudo prompto.
Quando voltou nem foi vel-as, mas, dias antes
de ir outra vez para fóra, lembrou-se das obras—e
mandou deitar tudo abaixo.
—Não volto sem estarem concluidas.
As provas dos vestidos são um martirio para
as pobres costureiras, que mantém de joelhos
duas horas seguidas, pregando-lhe alfinetes.
Quando as vê cahir exhaustas, arranca tudo,
despedaça tudo...
*
O Alpoim conta:
O rei é muitissimo bem educado, mas não
gosta nada que ponham a rainha em primeiro
logar. Não se importa com o paiz e julga-se um
grande rei constitucional. Os ministros para elle
não existem: só ouve e atende o presidente do
conselho. É tão governamental que trata
delicadamente
os politicos quando estam na oposição,
mas não conversa com elles. Não é como
o
D. Luiz, que ás vezes fazia-se com os ministros
contra o presidente do conselho. Chegava a conspirar
contra o José Luciano, partidario da aliança
ingleza, com o Barros Gomes, que era pela
Alemanha. Ás vezes andava uma hora de braço
dado com o Mariano e Emydio Navarro, sem fazer
caso do presidente do conselho. E depois
d'elles sahirem, perguntava-lhe:
—Olha lá, quando é que tu
pões
fóra estes
gatunos?
O D. Carlos não é assim: para elle os ministros
não existem. Trata-os sempre por tu, menos
quando é da assignatura. Não conserva odios. E
fica contentissimo se os ministros descompõem
a oposição. Quando foi da
exhoneração do Mousinho
pelo Dias Costa, este quiz demitir-se e
queixou-se ao José Luciano:
—No Paço todos me fazem má cara.
O José Luciano disse-o ao rei, que protestou:
—Não, por mim não é verdade.
Quanto
á
rainha que a trate com todas as atenções, mas
que não faça caso.
E para reforço traz o caso Oliveira Martins:
O José Dias Ferreira nunca chegava a presidente
de conselho se o Martins tem cathegoria. Imaginou
que manejava facilmente o velho rabula—e
escolheu-o para taboleta. Enganou-se... O Valbom
ainda tentou organisar ministerio, mas o
Martins, sem manha politica, teimou no José Dias.
Pois ao fim de dois mezes era elle quem mandava
e que o queria alijar... No Paço, nem este
rei nem o D. Luiz, gostavam do José Dias;
apezar d'isso, quando o Martins, aborrecido, se
fingiu doente, e o José Dias se queixou, o D.
Carlos disse ao Arnoso:
—Olha lá, diz ao Joaquim Pedro—era assim
que elle o tratava—que se levante ou que se demita.
Isto não é vida.
*
Diz-se para ahi que o D. Carlos tem o habito
de mentir, e que pensa em restaurar a monarchia
no Brazil.
Maio—1903.
Os jornaes d'hontem contam que a Rainha D.
Amelia não quiz receber o presidente Loubet, por
escrupulos de consciencia. Como é muito religiosa
respondeu, quando lhe foram anunciar a visita:
—Viajo incognita.
—Peor fez ella na Italia. Estava em Napoles,
e o rei mandou-a convidar para ir a Roma.
Acceitou, e no dia seguinte safou-se para Livorno.
O governo italiano deu immediatamente ordem
aos navios que estavam em Livorno—para
sahirem uma hora antes da entrada do
yacht...
*
Silva Pinto contado por D. Maria Augusta:
O Silva Pinto escrevia de quando em quando
cartas á condessa d'Edla, pedindo-lhe dinheiro.
A condessa architectou um romance: nunca o
vira e imaginou um poeta pobre, n'umas aguas-furtadas,
morrendo por ella. E mandava-lhe ás
vinte e trinta libras. Um dia viu-lhe o retrato no
atelier de Columbano...
—Então este velho é que
é?!...
E não lhe deu mais vintem.
Maio—1903.
Hoje 11 o Arroyo discutiu nos pares a viagem
da rainha. Acusou-a de não ter querido
receber Loubet. O Wenceslau de Lima levantou-se
e negou.
Comentario do Alpoim:
—Que havia elle de responder? Mentiu
como um cão!
De resto o discurso foi cheio de alusões.
Chegou a isto: a lançar suspeitas sobre as
relações
do Soveral com a rainha. «Que está fazendo
o snr. Soveral em Paris? Façam-no recolher
imediatamente a Londres
[3]!»
—Triste simptoma—afirma o D. João de
Alarcão—n'um paiz monarchico ninguem se levantou
para defender o rei. Alguns como o Ayres
de Gouveia foram cumprimentar o Arroyo;
outros, como o José Luciano, sahiram dos seus
logares e chegaram-se mais para perto, para não
perderem pitada.
*
—O que nós fazemos não é
discursos,
é historia—diz
o Arroyo.
*
Diz-se:
O rei chama nomes ao Arroyo, o Arroyo
chama-lhe corno...
*
O Alpoim:
O Arroyo chama corno ao rei, o rei chama
aos outros ladrões. Eu sempre queria que me
dissessem o que elle é...
*
A quinta da Bacalhôa—continua o
Alpoim—foi
comprada pela casa de Bragança. Quem
faz as obras é a Casa Real, isto é o Estado.
Maio—1903.
O rei—diz hoje D. João d'Alarcão em
conversa
com o Alpoim—não se importa nada com
isto. Tomára elle ser kkediva d'este cantinho,
defendido pelas baionetas inglezas.
*
O rei tem uma lista celebre a que chama
a lista dos ladrões.
*
O Arroyo volta á discussão e, a proposito,
conta-se de novo a historia dos tapetes:
«—Havia em Mafra um grande tapete persa,
o mesmo que está hoje em Vila-Viçosa, por signal
muito mal tratado. Ninguem fazia caso d'elle,
até que um dia disse ao almoxarife que o guardasse.
Mas fiquei sempre com a impressão de
que era magnifico. Duma vez que D. Carlos apareceu
extasiado por ter comprado qualquer tapete
insignificante, lembrei-lhe:
—V. Magestade tem em Mafra um muito melhor
do que esse...
—Ora adeus!
Teimo, chama-se o almoxarife, reclama-se o
almoxarife e o tapete, e o homem instado apresenta,
em logar do tapete, dois papelinhos... A
saber: a ordem de Pedro Victor para entregar o
tapete e o respectivo recibo. Não vi o telegrama
do rei, mas vi a resposta do administrador da
casa real: «Vossa Magestade manda,
obedeço».
Dahi a dias aparecia o tapete. O Arroyo
tinha-o lobrigado em Mafra e comprado por
75$000 ao Pedro Victor. Entregou-o, e está hoje
n'uma parede do palacio de Vila-Viçosa».
*
Conversa entre o Soveral e o Alarcão:
—Ninguem diga d'este Soveral não beberei.
Ainda has-de ser presidente do conselho.
—Para quê? Então tu imaginas que deixo
a minha situação lá fóra
por isto? Que mais
quero eu? Sou par, sou do conselho d'estado
marquez...
E o Alarcão conclue:
—Acredito que elle não queira. Só se
fôr
para arranjar algum negocio, que elle anda muito
precisado de dinheiro...
Maio—1903.
É certo que o rei falou ao José Luciano na
dissolução da camara dos pares, substituindo-a
por outra em bases diferentes. A noticia foi para
os jornaes para assustar o Arroyo—que quer
fazer outro discurso sensacional contra o rei.
*
O José Luciano procurou o Arroyo em casa:—Venho
pedir-lhe que não faça o discurso contra
o rei. É um homem na minha edade, perto da
cova, que lhe pede isto em nome d'interesses superiores.—Sim
senhor... se V. Ex.
a me assevera
que por traz d'isto não está o sr. Hintze
Ribeiro...
E chorou.
*
—O rei—diz o Alpoim—está
contentissimo.
O discurso era tremendo. O Arroyo afirmava
que o rei pedia dinheiro aos ministros. D'uma
vez pediu mil e seiscentos contos. Elle proprio,
quando ministro, lhe deu muitas vezes dinheiro.—Aqui
estam as provas!—E apresentava-as.—O
primeiro a ser castigado devo ser eu, porque delinqui.
Junho—1903.
Os jornaes trazem a noticia de que o rei
partiu para o mar no
yacht D. Amelia
e de
que o duque d'Orleans chega na segunda-feira
a Lisboa.
O rei safou-se de proposito para o mar, para
o não receber. Do Paço mandaram ordem para
se antecipar a festa ao Barbosa du Bocage, na
Sociedade de Geographia. Tudo porque o rei
supoz que os acontecimentos de Paris com a
rainha se relacionavam com imposições da familia
Orleans.
...Afinal o rei sempre veio do mar e recebeu
o duque.—Mas houve o diabo!...—diz o
Alpoim.
*
—O Navarro defende-o, senhor Alpoim...
—O Navarro diz hoje bem de mim, como
amanhã diz mal—por doze vintens.
Junho—1903.
O
Diario de Noticias publica hoje
esta curiosissima
informação:
As recepções em casa do sr. conselheiro
João Arroyo,
constituem sempre um acontecimento na nossa sociedade
elegante. O talento multiforme do illustre parlamentar, que
é um artista de raça, converteu o antigo palacete
da rua
do Telhal em uma das residencias mais notaveis de Lisboa,
tanto sob o ponto de vista da decoração dos
salões, como
pelas preciosidades do mobiliario e valiosas
collecções de
arte ornamental que elles encerram.
Não se encontra ali um “bibelot„ que
não seja um
objecto de arte ou não faça parte de uma
collecção, paciente
e sabiamente reunida e disposta com perfeito gosto
e conhecimento. De todos aquelles raros objectos que se
agrupam pelos tampos dos buffetes, das commodas e dos
contadores seculares ou nas prateleiras dos armarios e
«vitrines»,
resalta sempre uma vibrante nota de arte, que
define o criterio do colleccionador e marca fundamente o
seu temperamento esthetico. A sala dos xarões e dos cobres
e bronzes esmaltados e «cloisonnés»
é por certo a mais
bella que existe no nosso paiz, e só por si basta para
aferir
o elevado grau que occupa o colleccionador no nosso meio
artistico. Ha, porem, muito mais, tão bom ou melhor que
admirar nas salas do sr. João Arroyo, as quaes
dão aos
«gourmets do bric-a-brac» a impressão de
verdadeiros escrinios
de arte. Nestes casos estão a graciosa
collecção de
figuras e mascaras chinezas, a preciosa exposição
de leques,
cujos pannos ostentam as mais lindas illuminuras dos pintores
francezes do seculo XVIII ou são apenas formados de
finissimas rendas a ponto, de Allençon ou de Bruxellas;
os limpidos cristaes da Bohemia e os finissimos vidros de
Veneza; as raras faianças da China, e de Saxe; as soberbas
«boiseries» da casa de jantar, bello trabalho
decorativo no
estylo Renascença, do architecto Bigaglia, com o seu
fogão
monumental, o seu grande lustre de ferro forjado e as prateleiras
dos «lambris» repletas de exquisitas pratas,
faianças
e cristaes.
Por toda a parte, emfim, desde o
vestibulo e da galeria
da escada até ás salas do jogo, quadros a oleo
das escolas
italiana, flamenga, hollandeza e franceza, tapeçarias de
Gobelins
e do Oriente, colchas da India e da Persia, tudo
quanto o persistente e criterioso esforço de um artista e o
bom gosto de um homem elegante poude colleccionar, tudo
chama a nossa attenção, que só
encontra ali maior attractivo
no bondosissimo tracto da illustre dona de casa, a
sr.a D. Maria Thereza Pinto de
Magalhães (Arriaga) e na
conversa scintillante de seu marido, um dos mais espirituosos
e interessantes cavaqueadores da nossa sociedade, e
que tem tido naquella senhora uma valiosa
collaboração
artistica, assignalada em mais de uma das preciosidades
que se contem na sua bella residencia.
Por tudo isto, o
«raout» de hontem esteve
concorridissimo
e encantou todos os convidados dos illustres amphitriões,
entre os quaes estavam:
Conselheiro Hintze Ribeiro e esposa,
ministros da justiça,
obras publicas, guerra, fazenda, marinha e esposas,
nuncio de S. S. e secretarios, Rouvier, ministro da França
e esposa, ministro de Hespanha e esposa, conde e condessa
de Azevedo, Miguel da Motta e esposa, monsieur e madame
Bruno, marquez da Foz e filha D. Marianna, duqueza
d'Avila, condes d'Avila, marquezes de Guell, marqueza de
Bellas, conselheiro Schroeter e esposa, Costa Pinto e esposa,
conselheiro José Vianna, Pedro Diniz e filha, Carlos Ribeiro
Ferreira e esposa, viscondessa de View e filhas, José
Sassetti
e esposa, viscondes de Santo Thyrso, conselheiro Germano
Sequeira e esposa, condes de Paçô Vieira,
almirante
conde de Paço d'Arcos, Sarrea Prado, conselheiro
Achilles
Machado e esposa, conselheiro José de Azevedo e
esposa,
conselheiros José e Antonio Arroyo, conselheiro Matheus
dos Santos e esposa e filha, condes de Sabroso, conselheiro
José Ribeiro da Cunha e esposa, José E. de Barros
e esposa,
Joaquim Lima, Alberto Braga, João de Freitas Rego, F.
Baerlein e esposa, Albino Freire d'Andrade, viscondes de
Mangualde, conselheiro Ferreira Lobo Francisco d'Aguiar,
conselheiro Souza Monteiro, Barbosa Colen, conselheiro
Deslandes e esposa, Terra Viana, esposa e cunhado, Carlos
Blanch e esposa, D. Elisa Pinto de Magalhães e D.
Luiza
Pinto de Magalhães, Alberto Monteiro, conde de
Mesquitella,
Dr. Furtado e esposa, Virgilio Teixeira, marquezes de
Funchal, monsenhor Santos Viegas, conselheiro Moraes de
Carvalho, Henrique Burnay, conselheiro Francisco Mattoso,
Henrique Anjos e esposa, Carlos Soares Cardoso e esposa,
conde de Verride, D. Juan de Castro e filha, Condes de
Tattenbach, Alvaro Rego, conselheiro Poças Falcão
e esposa,
José Fernando de Sousa, barão de S. Pedro,
conselheiro
Thomaz Rosa, condessa d'Almedina e filha D. Luiza, Antonio
Caria e esposa, M. Emygdio da Silva, etc., etc.
*
O que faltou a esta sociedade foi um Balzac,
que os trouxesse desde a obscuridade e da pobreza,
que nos contasse o esforço, as transigencias,
o talento gasto e o fel gasto, até chegarem
ao poder—Navarro, filho d'um mestre de musica
de Bragança, Mariano pobre, Arroyo pobre.
Alguem que nos desse a vida occulta, a audacia
e o descalabro, a chaga politica que os engrandece
e corroe, que corroeu o proprio Chagas, o
romantico da
Morgadinha,
até ao ponto de acabar
por estas palavras amargas, com o ultimo suspiro:—A
vida é uma comedia!—Alguem que
nos mostrasse Arroyo e os seus phantasmas, Mariano
e os seus phantasmas, Navarro e os seus
phantasmas.
Como a vida efectivamente transtorna, enxovalha
e envilece—se lhe falta ideal, paixão, ou
um forte sentimento que caldeie as figuras e
as eleve! Não, a vida não é uma
comedia. A
vida é profunda. Elles é que lidaram apenas com
inferioridades e interesses mesquinhos. Mariano
acabou quasi desprezado. O talento não lhe serviu
de nada. Talvez o prejudicasse... Ha um
momento tragico na sua vida, aquelle em que
João Chrisostomo d'Abreu e Souza lê em plena
camara a declaração, em seu nome e no dos seus
colegas, de que lhes haviam sido desconhecidos
os actos irregulares praticados pelo ministro da
fazenda Mariano de Carvalho. Vejo-o mudo, livido—com
um olhar atono, como nunca vi em mais
ninguem. O sceptico! o sceptico amarfanhado,
reduzido a trapo, com um golphão de desprezo,
por si e pelos outros, na bocca, com um golphão
de negrume!... Jamais me esquece esta figura,
que vi morta entre os vivos, sentado n'um
canto da camara, sem ninguem fazer caso d'elle,
vendo sem vêr, ouvindo sem ouvir, e não tendo
podido realisar nenhuma das suas
ambições:—Deixem-me!
deixem-me!—Deixem-no com os seus
phantasmas! Arroyo talvez encontrasse na musica
um refugio... Navarro, porém, acabou no
mesmo abatimento. Temiam-no—mas só o temiam.
Arredaram-no. No fim da vida ficava
horas e horas absorto ou ia para o fundo d'um
camarote do Gimnasio ouvir musica. Apegara-se—mau
simptoma—aos netos. Desconfio que o
celebre estadulho não passava d'um espantalho,
e que era grande a sua sensibilidade:—Sinto-me
ferido em pleno coração—Do
coração morreu,
sem nunca o deixarem realisar as suas ambições.
Guerra Junqueiro
Guerra Junqueiro.
Metidos n'aquella roda de navalhas foram até
ao fim do combate, luctando sempre. Os que tinham
de escrever, escrevendo sempre, espremendo
o cerebro, os que tinham de intrigar, intrigando
sempre, com a mascara livida e sorrindo
sempre, ferindo sempre, e cahindo de pé. Oh
quem me dera um momento, só um momento
para vêr a série de phantasmas em que se desdobrou
cada um destes sêres, para os lêr até ao
amago, para lhes descobrir o instante de cansaço
e o ponto vulneravel—rodeados de invejas, de
odios, de inimigos, que esperavam na sombra e
não perdoavam um desfalecimento—uns fingindo-se
cinicos, sorrindo aos insultos, e cravando
as unhas na carne até ao sangue, como Rodrigo
da Fonseca Magalhães, outros respon
Metidos n'aquella roda de navalhas foram até
ao fim do combate, luctando sempre. Os que tinham
de escrever, escrevendo sempre, espremendo
o cerebro, os que tinham de intrigar, intrigando
sempre, com a mascara livida e sorrindo
sempre, ferindo sempre, e cahindo de pé. Oh
quem me dera um momento, só um momento
para vêr a série de phantasmas em que se desdobrou
cada um destes sêres, para os lêr até ao
amago, para lhes descobrir o instante de cansaço
e o ponto vulneravel—rodeados de invejas, de
odios, de inimigos, que esperavam na sombra e
não perdoavam um desfalecimento—uns fingindo-se
cinicos, sorrindo aos insultos, e cravando
as unhas na carne até ao sangue, como Rodrigo
da Fonseca Magalhães, outros respondendo á
audacia
com audacia, outros sucumbindo ao nojo,
com estas palavras que já surprehendi a alguem
n'um momento supremo:—Não,
não valia a
pena!
*
O mundo politico é tão curioso! O que
está
á vista não tem importancia, o que se mostra
não
passa de scenario. Para viver aqui dentro é preciso
habituar a pelle a todas as alfinetadas e
afivelar na cara uma mascara perpetua. Este homem
elogia outro e combate-o a occultas. O que
se diz nas camaras precisa de ser explicado nos
corredores, para ser comprehendido. O Cypriano
Jardim atacou ha dias o governo. Porquê? Estava
nas colonias a ganhar seis libras em oiro por
dia e chamaram-no á metropole. O artigo
D.
Folião
do Colen fez successo... Já se diz:—Escreveu-o
porque o Mattoso dos Santos lhe não despachou
uma pessoa de familia. Foi preciso um
ataque rude, para o ministro lhe dar, antes de cahir,
um logar não sei onde. Ha politicos que se
servem de todos os meios: ha-os—sei eu—que
se escrevem cartas anonimas. Parece até que
os ha mais completos... Um franquista barafusta
hoje nos corredores das camaras, ácerca
dum deputado da maioria:—O que eu admiro
é o descaramento de Fulano, que se atreve a
fazer discursos alli na minha frente, quando
sabe perfeitamente que trago na algibeira uma
acta em que elle se confessa ladrão!—Este
mundo tem as suas leis, as suas convenções,
os seus preconceitos, e a sua honra especial. O
principal é o que se diz ao ouvido. Aquillo alli nas
côrtes é apenas aparato: o José Luciano
combina
tudo com o Hintze, o Alpoim com o Teixeira de
Souza. Mas surge ás vezes o inesperado e deita
a frandulagem de pernas ao ar... A atitude violenta
do Arroyo explica-se assim: O Arroyo queria
ser do conselho do Estado, o Hintze prometeu
nomeal-o, o rei opoz-se. O Hintze teimou—o
rei teimou:—Vae para casa e pensa...—A
atitude do Navarro explica-se porque o rei
nunca o deixou ser par...
[4]
D'ahi o odio—d'ahi
barafunda... O José Luciano procurou o Arroyo
para lhe pedir que não fizesse o discurso contra
o rei:—Sou eu, chefe dum grande partido, que
lhe afirmo que não está inutilisado.—E
publica
no
Correio da Noite o discurso com
alusões á rainha—que
o Alpoim manda retirar do
Dia, por
causa
do Paço... Os chefes ainda conservam certa linha,
mas cá em baixo vêm-se referver os interesses,
as ambições, os despeitos. O D. Carlos mantem-se
n'uma atitude que faltou ao D. Luiz—e é talvez
por isso mesmo que o atacam e o acusam. Não
intriga. O D. Luiz mais de uma vez propoz ao
José Luciano, no tempo de Braamcamp, que organizasse
ministerio:—Isso não, meu senhor! E
vou já d'aqui dizel-o ao Braamcamp.—Tudo
parece confusão, todos os dias a teia se emaranha.
Ainda ha quem defenda este e aquelle, que
pertence ao seu partido, por interesse, por camaradagem,
seja pelo que fôr, mas já não ha
ninguem
que defenda o rei. Alto ou baixo, ao ouvido
ou em plena rua, só se fala no rei... O rei!
o rei! o rei!...
Junho—1903.
—Os Braganças, dizia o Latino Coelho, ou
são pedantes ou fadistas.
A este proposito o D. João da Camara conta,
que um dia D. Pedro V leu um discurso á mãe,
dizendo-lhe ella no fim:
—O menino ha-de sahir um bom pedante.
Se tarda em morrer acabava odiado.
E acabava. As grandes figuras moraes são sempre
uma calamidade para si e para os outros. O
universo é amoral, e não ha como os
acomodaticios,
com alguma hipocrisia ao seu dispôr... Os
outros só fazem a sua desgraça e a
desgraça dos
que os rodeiam.
Junho—1903.
Pateo de Martel. Um cantinho com uma figueira
e malvaiscos. Uma fiada de casas e no
extremo o atelier do Columbano. Por traz a
quinta... E outra luz diferente, outra atmosphera...
O mestre, pobre e obstinado, fez alli os
seus melhores retratos; a senhora D. Maria Augusta,
n'uma sala de trez metros quadrados, creou
as suas mais bellas rendas. Lá no fundo morou
Eugenio de Castro, pobre, morou depois o Justino
e outros diplomatas ilustres... Alli o mestre,
como os artistas da Renascença, experimentou o
fresco, as tapeçarias, os
trabalhos em cêra e prata.
A senhora D. Maria Augusta sorria-nos com a
maior bondade e carinho e dizia:
—Quando meu pae morreu ficamos sete irmãos.
Criei-os a todos.
—E o Columbano?
—Esse é meu irmão, meu filho e meu
mestre.
Por alli passaram tambem os maiores homens
de Portugal, de quem o Columbano ás vezes fala:
—O Oliveira Martins contou-me, quando
veio ao meu
atelier pousar para o
retrato, que
um dia a rainha o mandou chamar e lhe apareceu
transtornada:
—Salve-nos! salve-nos!
Era depois dos acontecimentos do
ultimatum.
O Martins procurou ou escreveu—não me
lembro—ao
Anthero do Quental e elle afastou-se e
abandonou tudo.
São curiosos os grandes homens contados
pelo Columbano, que os retratou. Um levava
um pente na algibeira para compor o cabelo, outro
pedia para se lhe não ver a careca. O Junqueiro
era mephistophelico. Aparecia, desaparecia
logo: não pousava cinco minutos a fio.
Um dia o Columbano ouviu bater a porta, e
entrou-lhe no atelier um homem já cansado, de
grossos sapatões, apegado a uma bengala, que
parecia um bordão de pedinte:
—Disseram-me que gostava de fazer o meu
retrato e aqui estou...
Era o Anthero. Parecia um cavador, de meias
grossas de lã azul—mas quando falava!... Nunca
olhou para o retrato.
—Está prompto?
Foi-se embora como viera...
Junho—1903.
O José de Figueiredo diz-me:
—Copiei por minhas mãos, para o Antonio
Candido, a carta em que o Soveral é durissimo
para os partidos, fala d'alto ao rei e lhe diz que,
se não tivermos juizo, a Inglaterra tutela-nos.
Junho—1903.
—Ninguem me mete na cabeça que esta rainha
é boa pessoa—diz o Alpoim ao vel-a descer
o Chiado.
Mas, quando passa, toda a redacção do
Dia
corre á janella, para a cumprimentar, e o Moreira
d'Almeida, que tem por ella culto e paixão, põe
á
pressa o chapeu na cabeça, para se ir desbarretar
n'uma grande cortezia.
*
Fala-se hoje do Soveral na redacção do
Dia,
e da amizade que o liga ao rei d'Inglaterra.
—São tão amigos que por
occasião do
ultimatum,
ainda Eduardo VII era Principe de Gales,
este pode prevenil-o da atitude da Alemanha.
Iam ambos n'um cortejo: o principe, de
passagem, chegou-se-lhe ao ouvido e só lhe disse
estas palavras:—A Alemanha está comnosco...
O Soveral correu ao telegrapho.
Junho—1903.
O Adrião de Seixas, que, nos seus tempos
aureos, entrou em muitas combinações de
finança,
negociou emprestimos, esteve ligado aos Mosers,
etc.:
—Quasi todos os homens publicos recebiam
luvas, posso garantir-lh'o. Todos estendiam a mão.
Duma vez trouxe para um, um aparelho de chá,
magnifico, de prata, comprado em Paris. Elle recebeu-o
e, destapando o assucareiro, afirmou
com desplante, sorrindo:—É magnifico...
só lhe
falta o assucar.—Eu, que já ia prevenido, tirei
das algibeiras alguns rolos de libras, despejei-os
dentro e perguntei:—E agora?—Agora está
optimo.—E concluiu:—Você é uma
mercearia
ambulante!
Junho—1903.
O marquez de Soveral em conversa com o
Alberto Braga:
—É que eu vivo em Londres longe de tudo
isto... Se me visse forçado a viver em Portugal,
fazia-me revolucionario.
*
Tambem o Alpoim diz hoje:
—Quem me dera uma revolução!
E, deante do nosso espanto, explica:
—Para pôr o rei no seu logar... Eu não
tenho
nada a perder, meus filhos estão colocados,
o que tenho chega-me para viver na Regoa como
um fidalgo... Era preciso que o rei tivesse medo.
Mas quê! Agora com a aliança ingleza é
muito
peor. Ainda outro dia dizia o José Luciano:—Podem
vir os republicanos todos juntos, os de cá
e os de Hespanha, que não fazem nada. É da
aliança que, se houver qualquer movimento, desembarcam
tropas e defendem o rei.
E acrescenta:
—Eu vi tudo, vi as perguntas e as respostas,
posso assegurar-lho.
*
—Elle é mau, é—diz o Alpoim
do rei—mas
a gente não tem outro.
Junho—1903.
O Abel d'Andrade:
—Conheço muito bem o Hintze. Tem duas
qualidades magnificas n'um homem, pessimas
n'um chefe. É delicadissimo. Sorri sempre, mesmo
quando sabe que o enganam—e nunca resolve
nada, o que lhe acarreta dificuldades, que vão
crescendo á medida que elle as adia. Tem outro
defeito enorme; não é capaz de dizer
não
peremptoriamente a ninguem.
Junho—1903.
O Emygdio Navarro está furioso com o rei.
Sentiu immenso que o não convidassem para nenhuma
das festas dadas ao rei d'Inglaterra—quando
foi elle que iniciou, defendeu e preparou
a aliança anglo-portugueza.
Junho—1903.
Estive hoje em casa do juiz Veiga, lá para o
Rato, por causa d'uma querela do
Dia. É um homem
atarracado e forte, com um ar de falsa bonhomia.
Ha n'elle não sei quê de inquisidor e
de satiro, e é tão desconfiado, que, logo que eu
entro, pousa sobre os papeis da secretaria uma
larga folha azul, com medo que lh'os leia. Na sala,
de cadeiras doiradas de palhinha e
consoles com
gatos de vidro, ha varios mostrengos em
exposição:
o retrato delle e retratos de familia, temerosos,
o busto do rei D. Carlos em marmore e outro
não sei de quem, ambos de arripiar. E, entre
a papelada que trasborda e estas coisas de mau
gosto, o juiz Veiga fuma n'um cachimbo d'espuma
com uma mulher em pêlo...
É este o homem que sabe tudo e pode tudo,
que conhece os segredos das familias e os segredos
da politica. N'outro dia obrigou um janota a
entregar-lhe as cartas, que comprometiam uma
mulher casada. Contam-se mais casos curiosos.
É omnipotente e omnisciente. Comanda, diz-se,
bufos ilustres de quem ninguem suspeita. Tem
um cofre sem fundo á sua disposição
para distribuir
dinheiro a rodos. Acode a desgraçados.
Tortura—verdade ou mentira?—no fundo das
celulas alguns presos politicos para lhes arrancar
segredos. Ainda ha tempos me contaram que ao
José do Valle não o deixaram dormir sem elle
confessar tudo...—É uma especie de Pina Manique,
que pouco abusa do seu lugar e da sua
autoridade. Afirmam-no bondoso. Ha até quem
o diga uma especie de Providencia. É incontestavelmente
um homem esperto, que protesta:—Quero-me
ir embora antes que tudo isto desabe.
Esta gente não sabe ou não quer defender-se...
Fala baixinho, sem me olhar nos olhos e resolve
n'um prompto, como quem não encontra
nunca obstaculos. Quando saio, no patamar da escada,
surprehendo duas creadas de avental sujo
e chinelos esbeiçados, que dão de comer,
ás escondidas,
a um policia. Enganam-no na sua propria
casa e deitam a fugir quando me vêem.
Junho—1903.
O artigo de hontem, das
Novidades,
sobre a
mortandade da Servia, cheio d'alusões ao rei,
fez sensação. E dizia-se por ahi:
—Quando se faz cá o mesmo?
—Foi uma limpeza!—phrase do Alpoim.
*
O Beirão:
—O Alpoim não quer vêr que o partido do
João Franco, apezar de pequeno, é um partido
de protesto. Qualquer dia o rei chama-o e dá-lhe
os mesmos poderes que tem dado ao Hintze ou
ao José Luciano.
Junho—1903.
Judice Bicker, casado com uma filha do Andrade
Corvo, conta, a proposito do rei e do poder
pessoal:
—Possuo diferentes cartas do D. Luiz, e entre
ellas uma ao Corvo, pedindo-lhe que apresente
certa proposta, mas de maneira que não
pareça
poder pessoal...
Os homens desse tempo
impunham-se. Um dia ao D. Augusto meteu-se-lhe
em cabeça casar com uma infanta d'Hespanha.
Era no tempo em que se falava muito na
união iberica. O Corvo opoz-se, apesar da insistencia
desesperada do infante. Por ultimo procurou-o
e disse-lhe:
—Escusa de insistir, que não casa. É
pelo
bem do paiz.