*
O Corvo foi um dos primeiros estadistas a pensar
a serio na Africa e no seu engrandecimento.
Quiz augmentar o territorio de Angola e estabelecer-lhe
os limites, d'acordo com a Inglaterra.
Tudo era possivel n'esse tempo e tinhamo-nos livrado
de dificuldades, do Estado livre do Congo,
etc. Avançavamos um seculo, se elle não cae por
causa do tratado de Lourenço Marques. Deitaram-no
a terra, espalhando que recebera milhões.
Eu que casei com a filha, sei o que elle deixou!...
Nas camaras o governo d'então declarou que
o tratado não tenha ido a conselho de ministros.
O Andrade Corvo possuia o tratado com anotações
do punho de Fontes e Thomaz Ribeiro.
Apesar d'isso calou-se. Se fosse hoje!...
Junho—1903.
—O rei tem pensado. E tanto que o infante
quiz ir agora ao estrangeiro e pediu dinheiro ao
Hintze, que lhe respondeu:—Peço-lhe que
desista.—O
infante rasgou a carta furioso. Com a
Maria Pia sucedeu o mesmo. Essa inventou uma
doença d'olhos e preveniu o D. Carlos de que
precisava de ir ao estrangeiro. Resposta do
rei:—Cá
ha um bom especialista.—Mandou-lho, e elle
disse ao rei que a Maria Pia não tinha nada.
A Maria Pia insistiu, n'um desespero, e o rei mandou-lhe
o Antonio Lencastre. O rei tem pensado...
—Se isso fosse verdade!—exclama o Alpoim.
Junho—1903.
Esta tarde sahiu dos Martires, mesmo em
frente do
Dia, a
procissão do Corpo de Deus.
Todos á janella cahiram de joelhos—quando o
bispo de Trajanopolis passou, a barba loura,
muito cuidada, e um capachinho no alto da cabeça,
apartado ao meio... O Alpoim exclamou:
—Ó que maroto! Foi a este que o Barros
Gomes,
quando ministro, disse um dia: Ajoelhe a
meus pés! Peça perdão!—Tinha
hypothecado lá
fóra os rendimentos do curia por noventa annos!
Junho—1903.
O D. João da Camara conta que no Algarve
encontrou em todas as casas dois retratos—o de
João de Deus e o do Remexido. E a proposito diz
que um tio de Coelho de Carvalho levava já a
galope o comutamento da pena do Remexido,
quando o fuzilaram. E termina:—A Angela
Pinto é neta do Remexido. Aposto que não sabiam!
Julho—1903.
—Vou pedir um logar que está vago no Supremo
Tribunal—disse um patusco ao Marçal
Pacheco.
—De juiz?!
—Isso.
—Mas você endoideceu! Não lh'o
dão!
—Isso sei eu.
—Mas então porque é que o pede?
—Já pedi umas poucas de coisas, vou pedir
mais esta. Recusam-ma, já sei, mas é
capital de
queixa que amontôo.
*
O Alpoim:
—Um dia o cardeal patriarcha convidou-me
para jantar. Estavam muitos bispos. São jantares
que nunca acabam, de quinze pratos, serviço
esplendido—e não calcula a impressão
que eu
senti, no fim, quando elles se levantaram muito
congestionados, cheios de vinhos magnificos, mamando
charutos enormes e com as saias arregaçadas...
Setembro—1903.
O Henrique de Vasconcellos, genro do Navarro,
contou-me hoje que o Paço por trez vezes
mandou insistir com o sogro, para elle não continuar
com os ataques nas
Novidades.
Outubro—1903.
O Alpoim recomenda no
Dia que se
não publique
nada que possa ferir as susceptibilidades
da côrte hespanhola. Afonso XIII está
desconfiadissimo.
Além d'isso o nosso rei e rainha de
Hespanha não se podem ver: têem um pelo outro
odio figadal.
*
Um coronel inglez, que ahi esteve, veio por
ordem do seu governo vêr em que estado
tinhamos as fortificações de Lisboa. Examinou
tudo.
José Luciano encerra o Parlamento.—Caricatura inedita de Celso Herminio.
José Luciano encerra o Parlamento.—Caricatura
inedita de
Celso Herminio.
*
Com as festas de Afonso XIII encheu-se muita
gente. Um regabofe. Da iluminação da Avenida
diz-se:—Dos Restauradores para cima dirige o
Costa Pinto, dos Restauradores para baixo digere
o...
*
Ao ouvido conta-se que o rei de Hespanha e
os que o acompanhavam troçaram tudo isto: o
paiz, a côrte, as festas. De manhã, no quarto,
emquanto
elle tomava café ou chocolate, os particulares
e os intimos maldiziam, n'uma chacota
pegada... Só o rei, fracamente, se opunha.
Outubro—1903.
O D. João da Camara conta o seguinte:
—O D. Luiz deu, até pouco antes de morrer,
trezentas libras por mez á Rosa Damasceno. Todos
os dias 10, 20 e 30, o Nazareth lhe entregava
cem libras em oiro, que elle nem sequer contava:
mandava-as logo á Rosa. Morreu no dia 19 de
Outubro: pois no dia 10 ainda lhe mandou o dinheiro.—E
o Brazão?—Cuido que não são
casados,
apezar do que por ahi se diz. O que é certo
é que antigamente, as coisas arranjavam-se por
forma que a Rosa e o Brazão nunca entravam
na mesma peça, e um d'elles ia sempre passar
a noite ao Paço. O D. Luiz dizia do
Brazão:—É
o meu melhor amigo. A Rosa nunca abusou
da situação: apenas empregou dois ou tres homens
e o D. Luiz sentia por ella verdadeira ternura.
Traduziu-lhe a
Odette e assistia aos
ensaios.
A Maria Pia sabia tudo. Um dia deixou no quarto
do Paço onde a Rosa costumava ficar, um lenço
de rendas a tapar a fechadura. Ás vezes o D. Luiz
apresentava-lhe joias para ella escolher e depois
levava-as á Rosa. E ia com a rainha ao theatro,
para que ella visse o efeito das joias no colo da
actriz.
Outubro—1903.
—Vi eu, vi eu!—exclama o Antonio José de
Freitas—o Oliveira Martins, n'uma sala, deslumbrado,
solicitar a apresentação d'um janota qualquer,
d'um janota banal.
Dezembro—1903.
O Adrião de Seixas, secretario do Banco de
Portugal:
—Não se fazem descontos, porque não ha
dinheiro
e o Banco já recorreu ás reservas de prata.
O governo está sempre a pedir dinheiro. Imagine
o meu amigo que todos os annos ha um
deficit
de 7:000 contos. Ninguem tem a coragem de dizer
as coisas como ellas são e por isso se faz um
orçamento falsificado. Resultado: como o
orçamento
é falso, pode-se roubar á vontade!
*
O José Luciano está a morrer. O que ahi vae
com a chefia do partido progressista! Ao Antonio
Candido não o tragam os progressistas, ao
Beirão não o quer o Paço, nem o
Navarro, nem
o Mariano. Lança-se o nome de Antonio Candido
para encobrir o seguinte proposito: presidente
do conselho o Mathias de Carvalho, com
o Alpoim na pasta do reino.
Mathias de Carvalho é uma figura decorativa,
sempre de palito na bocca e de miolos empedernidos,
que ficará na presidencia e estrangeiros.
Esta solução é preferida pelo Navarro
e pelo
Mariano. De Mathias apenas se sabe que é incapaz:
como diplomata foi quem deu ensejo a
esfriarem-se as relações com a Italia.
—Se o José Luciano morrer é
á
facada!—exclama
o Alpoim.
Morrer era ainda—Deus me perdoe!—uma
solução... Peor será conserval-o na
cadeira de
rodas, obstinado, querendo mandar, e os herdeiros
á espera do testamento. Toda a politica
portugueza vae girar em volta d'este leito de enfermo,
onde o velho continua a dar ordens imperiosas.—Hoje
deitou um litro de pus pela pelle.—Está
salvo!—Morre!—Fica invalido!—Tem
sifilis!—Nesta altura da politica portugueza, é
elle quem manda tudo. Que o diga, o José d'Azevedo,
por exemplo, que o não pode vêr, porque
o José Luciano o não deixou realizar as suas
pretenções.
É na sua casa que se resolvem as questões
maximas. A politica é pelo menos n'uma
grande parte, na melhor parte, representada nos
bastidores... «Vejam a vergonha desta gente!
O Campos Henriques vae a casa do José Luciano
com o Julio de Vilhena, para conseguir que
as emendas do codigo civil passem. Não passam
e elle fica no ministerio! O Teixeira de Souza vae
lá todas as semanas. Não, este Hintze... Eu
palavra
de honra antes queria ser ladrão d'estrada!...»
Outro facto extraordinario da nossa politica:
é sempre no campo adverso que estes homens
tem mais radicadas amizades. E tambem se percebe
nitidamente que no fundo da lucta só ha
uma força, o rei. Por isso mesmo o rei é sempre
o culpado. Quem tudo manda é o
Paço—dizem
todos os politicos—e tanto mais que não ha um
nucleo de resistencia no paiz. Os republicanos
não estão organizados e o Paço nem
sabe o
que póde. Uma revolução no paiz
é, segundo
a opinião geral, impossivel, a não ser que se
succedam trez annos de fome.—Tudo quanto se
faz de mau é o rei quem o faz...—Ainda hoje
ouvi esta conversa:—Foi o Hintze quem disse ao
Arroyo, como disse ao Mariano e ao Navarro.
«É el-rei que não quer».
Nunca lh'o deveria ter
dito.—Os politicos inutilisam-no e inutilizam-se.
Todos os dias inventam novas atoardas. Hoje a
proposito d'uma nota oficiosa que o ministro
da fazenda fez publicar no
Noticias,
no
Seculo e
no
Diario, anunciando um grande
emprestimo
no estrangeiro, conta-se que é um negocio de
acordo com a casa Fonseca, Santos & Viana,
que tinha comprado fundos. Acusa-se o Teixeira
de Souza de conivencia. Mas já a 2 de junho
o Alpoim afirma:—Quem não deixa passar o
emprestimo é o Burnay. N'outro paiz devia ter
a cabeça cortada. No ministerio da fazenda ha
documentos que provam as suas maquinações no
estrangeiro. Elle manda em tudo:—manda no
Credito Predial, no Banco de Portugal, na Companhia
Real. É uma desgraça que o emprestimo
não passe. Temos nós de o fazer e em que
condições!...
E tudo isto com que fim? E o Burnay
a ver se obriga os progressistas ao contracto dos
tabacos.—A esta trapalhada juntem a doença do
José Luciano e as ambições, que
levantam a cabeça,
a guerra de sapa que se encarniça.—Hoje deitou
mais pus!—Morre!—Com quem está o
Paço?—O
Moreirinha com a algalia não lhe sae da
cabeceira.—Quem
vae ao poder? O João Franco?
—Nem elle sabe a guerra oculta que eu lhe
tinha feito. Ha-de pagar-me caro o discurso que
fez contra mim: Viva a folia, dançar! dançar!...
São mil os interesses, mil as
ambições.—Tudo
menos o Beirão, que só tem por si a gente velha,
a gente conhecida pelos
batibarbas.
Mas o velho teimoso e perspicaz, não admite
sequer a idéa de que alguem, que não seja elle,
vá ao poder. Até á
ultima—ambição ou
grandeza?—ha-de
disputar e mandar, como o Alpoim,
até ao ultimo suspiro, ha-de conspirar.
Aqui, á roda d'esta agonia, não se discutem
apenas
os interesses d'uma familia. O drama é maior:
são os interesses dos partidos, com mil e uma
ambições
e enredos que nem sequer se suspeitam.
A confusão augmenta, redobra. O Ressano Garcia
comanda o ataque, á frente dos
batibarbas,
contra o Alpoim, e o Alpoim, que ainda hontem
atacava o João Franco, já hoje (Janeiro 1904)
diz,
depois do conluio feito pelo Silva Graça:—Com
esse me entendo eu!
Fevereiro—1904.
Hontem, terça-feira de entrudo, assisti ao espectaculo
em S. Carlos. Estava tudo, o rei, a rainha,
a côrte... Senhoras decotadas com os vestidos
presos aos hombros por uma fita. A D. Amelia
de vermelho. Andava no ar uma bola enorme de
borracha, e ao janota que quiz saltar dentro d'um
camarote tiraram-lhe as botas dos pés. Mas a risota,
a chalaça, a delicia, era um penico em miniatura,
que passava de mão em mão, por entre
as grosserias, que é do uso antigo as senhoras
dizerem umas ás outras na terça-feira gorda.
O fundo d'estes risos vem sempre da mesma
palavra pegajosa: merda! merda! merda! O rei,
gordo e louro, soprava por um canudo setas de
papel, botando o olho de revez, e houve um momento
em que o infante mostrou do camarote
o quer que era de borracha, um canudo cheio de
vento, immenso e obsceno. Foi um delirio entre
aquellas cabeças empoadas, na gente da alta roda
de que se contam baixinho os escandalos.
Ouçam um destes rapazes que estão na plateia,
e que falam das senhoras, como quem fala
com desprezo das mulheres da Antonia. Muita
desta gente não se sabe aonde vae buscar o
dinheiro. É um misterio. Aquelle louro e correcto,
que está além n'uma atitude romantica,
ainda ha dias quiz extorquir alguns contos de
reis, para o jogo, a uma mulher casada. Outro só
vive da roleta. Mais além, o herdeiro de um nome
ilustre, tem um modesto logar na alfandega, e a
mulher usa brilhantes esplendidos. Aquelle, acolá,
tão decorativo, é conhecido pelo conde de
Monta-a-Velha.
São raros os que não têm alcunhas.
A uma senhora de perfil soberano chamam-lhe a
Vareira. Outra tem um sobriquet infame. Deste
e de aquella diz-se alto a chronica escandalosa.
A mulher do S. deu este anno grande escandalo
em Cintra. Outra foi apanhada aos beijos a um
embaixador. Com aquella, mais além, fina como
uma cobra, e que ostenta um colar magnifico,
puzeram-se os B. de mal, acusando-a de lhes ter
roubado uma carteira com trezentos mil reis,
depois de terem sido todos seus amantes. A mulher
do J... deixa o marido, pé de boi rico que
só lhe serve para puxar á nora, e
gasta-lhe a
rodos o dinheiro que juntou. Eis esta mãe viciosa
com a filha ao lado—de olhos limpidos e
innocentes. Peor, ha peor... E mais esta—e
mais esta—e mais esta condessa, que n'outro
dia foi apanhada no comboio n'uma atitude peor
que equivoca...
Puz-me a ouvir, a ouvir,—verdade? mentira?—e
lembrei-me ao mesmo tempo da côrte
da senhora D. Carlota Joaquina e da
Chartreuse
de Parma.
*
O general Lencastre de Menezes:
—Se o 31 de Janeiro fosse agora as coisas
não se tinham passado assim...
Março—1904.
Morreu um dia d'estes um preto riquissimo,
que quiz por força passar por branco, o que lhe
custou os olhos da cara. Se teima em viver mais
algum tempo acabava a pedir. Rodeara-se d'uma
corte que lhe custava carissima: lisongeavam-no
e rapavam-lhe o cofre até ao fundo. Depois inventavam-lhe
processos, depois demandas... Depois
sopravam-lhe á vaidade incomensuravel. E o
preto sorria, o preto dizia sempre que sim. Tinham-no
casado com uma linda rapariga branca—e
o preto, á farta, pagara tudo, dotara tudo, a
noiva, os paes da noiva, os parentes da noiva...
E cada vez mais brancos lhe faziam a côrte e o
enredavam n'uma vasta teia de interesses, com
muitas zumbaias e papel selado.
Um dia foi a Inglaterra e quiz viajar como um
principe branco: comprou um
yacht de
luxo para
ir a S. Thomé. Cincoenta contos. Na volta não
havia carvão a bordo e deitaram-se a queimar a
madeira entalhada, os doirados do barco, as portas,
os salões, as molduras. E o preto sorria.
Quando chegou a Lisboa vendeu o barco por
uma côdea.
Rodearam-no mais brancos, apareceram-lhe
mais brancos infatigaveis, pressurosos, obsequiadores.
E mais papel selado, mais contractos e
procurações
para assignar—o enredo, a teia subtil
em que o negralhão foi arrastado e envolvido, o
verdadeiro, o authentico drama, emfim, do preto
que quer ser branco... Se elle tinha por acaso
um sobresalto, falavam-lhe logo á vaidade ou davam-lhe
noticia d'uma coisa que se chama o Codigo,
a Lei, a Formula, e o preto, que não comprehendia
e que se sentia feliz, submetia-se sem
contestar, com uma grande satisfação por fazer
parte d'esta raça ilustre e respeitada de brancos,
por ser visconde, por pertencer á côrte e
á alta
sociedade elegante.
...Antes de morrer lá lhe deram o ultimo
golpe—de preto. Os brancos ficaram-lhe com as
roças, e as propriedades de S. Thomé foram
transferidas para uma sociedade por quotas. É
o que consta por ahi, emquanto o negralhão
estoira com uma pneumonia dupla—e lá em casa
se toca desaforadamente piano, com as janellas
abertas de par em par.
Março—1904.
As obras da sala de jantar do Paço das Necessidades
custaram 180 contos.
*
O Abel d'Andrade contou-me que a modista
da mulher lhe dissera que a mulher do
Hintze lhe devia lá uma capa ha mais dum
anno.
Março—1904.
O Celso morreu ha um mez n'um dia de chuva
como este. Mas, quando o caixão chegou ao
pé
da cova, luziu o sol no alto. O ar parecia novo e
no vasto campo dos tumulos agitaram-se as cabeças
amarellas dos malmequeres. Os passaros
começaram a cantar. E viu-se logo o Brito Aranha,
de pera branca, dar um passo em frente e
fazer um discurso:—O amigo... o camarada...
descança em paz.—Depois o Cunha e Costa falou
na nossa decadencia, e por fim o Carneiro
de Moura mastigou tambem uma banalidade...
Sentia-se que tudo aquilo era postiço. Mas os
passaros não cessavam de cantar—e a meu lado o D.
João da Camara suspirou baixinho:
—Quem me dera que quando eu morrer só
o saibam meia duzia de amigos!...
Abril—1904.
O Ovidio d'Alpoim ácerca da D. Maria Emilia
Seabra de Castro:
—Mete-se em tudo. D'uma vez eu e o José
Luciano estavamos a discutir umas alterações
á
Carta Constitucional e ella começou do lado a
dar a sua opinião. O José Luciano mandou-a
embora.
D'outra vez sahia eu de casa do José Luciano
com o Antonio Candido e vinhamos á
porta da sala grande, quando ella do alto da
galeria:
—Ó senhor Antonio Candido então agora
é
que vae para Amarante, quando é cá preciso?
E é para isto que nós os fazemos pares e os
enchemos
de honrarias?...
O Antonio Candido não respondeu. Ficou
tão vexado que, de casa até á baixa,
não trocamos
palavra.
Março—1904.
As filhas de D. Carlota Joaquina, com excepção
de duas, eram tal qual como a mãe. O
Camara conta que a duqueza de Loulé, que foi
casada com o mais lindo homem do seu tempo,
estava um dia, em solteira, á janella, quando o
conde de Vimioso passou a cavallo para os touros,
já vestido de oiro e prata. Ella chamou-o,
trocaram meia duzia de palavras, elle subiu—e
depois desceu e foi tourear...
O marquez de Vallada sabia quem eram os
paes de todos os filhos de D. Carlota Joaquina.
Abril—1904.
A Hespanha concentra tropas na Galliza. Nós
não podemos mobilisar quinze mil homens. Nem
dez mil! Hontem o Pimentel Pinto queixava-se
ao Maximiliano d'Azevedo, de que nem artilharia
de campanha possuimos: a que temos ficava
liquidada no fim de meia hora de combate. A artilharia
do campo entrincheirado de Lisboa, comprehendendo
os obuzes, serve apenas para
navios imperfeitamente protegidos. Peor: o municiamento
mal chega para uma hora de combate!
Abril—1904.
O dr. Antonio Centeno protesta:
—Isto não pode ser! O ministro
deu pela
iluminação electrica do Paço de Belem
quarenta
contos! Havia quem a fizesse por sete. Agora
vae dar a iluminação electrica de todos os
paços
por trezentos contos. Ha quem a faça por
quarenta. Mas d'esta vez oponho-me porque prejudica
a Companhia do Gaz. Vou procural-o e
dizer-lho. Se teimar levo a questão para a camara
e para os jornaes.
Abril—1904.
Quem faz a politica externa é o rei e o Several.
O ministro dos estrangeiros chancela.
Abril—1904.
Isto é um paiz para estrangeiros. Não ha nenhum
que não enriqueça. Hoje afirma-se que o
Chapuy, engenheiro da Companhia Real, vendeu
machinas á Companhia por cento e trinta e tres
mil francos, que valiam setenta mil. O Croneau,
director do Arsenal, tambem está rico.
Abril—1904.
Diz o Alpoim:
—O rei não ouve ninguem. Antigamente ainda
atendia o general Queiroz, que era nosso
amigo. Agora não: só ouve os presidentes do
conselho. Tratava muito bem o Teixeira de Souza;
pois quando o Hintze resolveu pol-o na rua,
passou logo a tratal-o mal.
Maio—1904.
O alferes que no 31 de Janeiro comandava
a guarda municipal, por traz do campo de Santo
Ovidio, nas escadas da Egreja da Lapa, e que
depois comandou o fogo na rua de Santo Antonio,
garante que o Lencastre e Menezes, então
comandante do 18, não sahiu com o regimento
emquanto não viu tudo decidido. E dentro do
quartel havia socego...
—Eu disse-o depois ao rei.
*
A proposito de 31 de Janeiro sei pelo José
de Figueiredo, que o ouviu por diferentes vezes
ao Antonio Candido, que o rei e a gente do
Paço queriam um castigo exemplar. Antonio
Candido opoz-se e ficou mal visto durante muitos
annos.
Junho—1904.
Disse-me hoje o Camara que o Soveral tomou
parte, activa no tratado d'
entente
entre a Inglaterra
e a França. É hoje um dos melhores amigos
de Delcassé.
Julho—1904.
A Maria Pia, que quer ir por força ao estrangeiro,
mandou pedir dinheiro aos agiotas de Paris
sobre hypotheca das suas propriedades—chalet
do Estoril e parte do palacio das Necessidades,
que ella afirma pertencer-lhe... Ao todo
cento e oitenta contos. De intermediarios serviram
um agiota do Porto, uma mulher designada
na correspondencia pelo nome de madame Blanche,
e que recebia dez mil francos, etc.
*
Do Antonio José de Freitas:
O marquez da Fronteira nunca poude levar a
bem o casamento de D. Fernando com a
comica,
como elle lhe chamava. Uma senhora da aristocracia
conversando com o marquez:
—Fui visitar el-rei que me disse:—Não
queres
vêr a condessa?—Falei com ella e
parece-me...—hesitando—muito
interessante...
Celso Herminio.
Celso Herminio.
E o marquez logo:
—A senhora já tinha, é claro,
relações anteriores
com a condessa...
Dezembro—1904.
O João da Camara repartiu com os netos de
Camillo os direitos de auctor do
Amor de
Perdição.
Os filhos de Nuno nem pão tinham no dia
em que receberam inesperadamente esse dinheiro.
O Camara, quando juntou duzentos e tantos mil
reis, escreveu á viuva e mandou-lhe metade.—N'esse
dia—disse ella ao Alberto Pimentel—não
tinha que lhes dar de comer.
*
O rei e a rainha vivem separados. Os seus
aposentos são, uns n'um extremo, outros no outro
extremo do palacio. E por ahi afirma-se que
elle, depois do tifo, ficou como Affonso VI...
Dezembro—1904.
O velho obstinado teima... Não lhe falem na
successão! Ainda n'outro dia fez uma scena, quando
a D. Maria Emilia lhe leu o artigo das
Novidades.
Um amigo disse-lhe:—Deixe lá o
Sebastião
Telles ou o Alpoim ser presidente do conselho.—Essa
hypothese não a admito eu!—protestou logo.
O Hintze está gasto, o João Franco foi acolhido
no norte como um Messias. O Beirão fez um
discurso nas camaras—talvez proposital—dizendo
que cortaria nos empregos publicos e que
não admitia direitos adquiridos senão dentro da
lei.—Elle quer inutilisar-se...—É um
tipo esgalgado,
d'astronomo, com uma grande penca—o
nariz do Beirão—motivo facil de caricatura.
Homem de costumes simples, alheado e indiferente
a corrilhos, agarrado aos seus livros
[5].
Já em Abril, no conselho d'estado, taes coisas
disse que, á sahida, afirmou:—Acabo de dar
uma enxadada na minha reputação!—Quanto
ao Alpoim desconfia que o José Luciano o quer
comer, e o Teixeira de Souza trata de crear forças
dentro do seu proprio partido: comprou
A
Tribuna e parece influenciar no
Diario.—Ao
Hintze custa-lhe a largar o poder, elle bem sabe
porquê...—Os tumultos nas camaras succedem-se
e a situação politica agrava-se.
Do rei diz-se o peor possivel. Diz-se que colocou
muito dinheiro no Banco d'Inglaterra, (11
de Junho) diz-se que deu um colar de brilhantes
á bailarina Imperio, que ahi está na zarzuella...
As questões prendem-se, e agora com o contracto
dos tabacos só se fala em escandalos. Tudo
come! tudo come! Come o Navarro, come o Mariano,
e um amigo meu, literato e jornalista,
afirma-me:—Se a Companhia dos Phosphoros
tem feito o contracto, eu estava rico.—Corre
que os republicanos se organisam e o Bernardino
Machado publicou manifesto, aproveitando
um jornal e um jornalista hespanhol:
...«Ha uma lei que domina
todas as outras na historia
da humanidade: nenhuma instituição vive, se
sustenta e se
radica senão pelo amor á liberdade. A lei, em
virtude da
qual existem instituições liberaes, cumpriu-se
nos nossos
annais contemporaneos. De 1851 a 1885 tivemos um periodo
de liberdade e de paz. Foi um periodo de ascensão liberal.
«Aboliu-se a pena de morte, e só por esse feito
se
proclamou pela lei o direito á Vida. Proclamou-se esse
direito
com toda a sua elevação, dando a todos,
inclusivamente
aos indigenas das nossas colonias, onde se acabou
com a escravatura, a faculdade de existir espiritualmente,
como uma personalidade moral. Alargou-se a liberdade religiosa,
tornando-a efectiva com o registo civil. Alargou-se
a liberdade economica pela extinção dos bens de
mão morta,
pela abolição dos monopolios e pela
criação legal das
associações de socorro mutuo e das cooperativas.
Dilataram-se
as liberdades politicas com a extensão do sufragio
e representação das minorias. Descentralizaram-se
os municipios,
deram-se as maximas franquias aos distritos e até se
exarou na Constituição o principio liberal da
eleição parcial
da Camara dos Pares. Nesse periodo, que começou ouvindo-se
a voz do grande tribuno José Estevão, parece que
resoaram
até ao final os acentos do seu verbo eloquentissimo.
«Essa epoca venturosa termina
com a morte de Sampaio,
Braamcamp e Fontes. E a prova de que todos os partidos colaboravam
nessa grande obra de
pacificação e de
liberdade, está em que foi o conservador Fontes quem
mais contribuiu para ella.
«Os partidos de governo definem-se pela sua
concepção
da constituição nacional:
Constituição liberal, partido
liberal; Constituição arbitral, partido
reaccionario. Porque
o arbitrio póde ser, num dado momento, a liberdade; mas
sempre se converte por fim em absolutismo.
«No periodo de iniciação liberal fez-se
a Constituição
quasi republicana de 1822, e, em troca, os constitucionais
da campanha da Terceira, do Cerco do Porto, de Almoster
e da Asseiceira, tiveram a carta outorgada de 1826, que foi,
consoante o livre alvedrio do imperante, a liberdade com
D. Pedro IV, e a opressão com D. Maria II. Em
oposição á
carta outorgada, Passos Manuel e os setembristas fizeram
a democratica constituição de 1838, decretada
pela
vontade da nação.
«No segundo periodo da nossa vida constitucional, que
abre com José Estevão e se encerra pouco depois
da morte
de Sampaio, periodo que inaugura entre nós o
parlamentarismo,
os regeneradores fizeram os actos adicionaes de
1852 e de 1885, que são verdadeiros pactos constitucionaes,
e não intervalos historicos, mas reformistas, constituintes,
republicanos, que apresentavam os seus projectos, qual
delles mais avançado, da reforma constitucional.
«De 1886 até hoje sopra um vento imperialista. A
inspiração,
em vez de vir da Inglaterra liberal, vem da Alemanha
cesarista. O partido progressista faz a
centralisação
dos serviços materiaes. Segue-se-lhe, no Poder, o partido
regenerador, e faz a centralisação dos
serviços espirituaes
na instrucção, e depois dissolve as
associações, rasga as liberdades
municipaes, acaba com as representações das
minorias,
legisla dictatorialmente... E, por fim, para que
toda esta centralisação não suscite
uma revolução violenta,
promulga a lei sobre o anarquismo, que é uma
ameaça
sempre suspensa sobre todos os liberaes.
«Antes de 86, o partido
republicano, como partido de
tal natureza, não era um perigo. Caminhava-se lentamente,
pacificamente, para a Republica, e não haveria ninguem
tão insensato que sonhasse fazer uma
revolução para conseguir
pela força o que se conseguiria, num prazo fatal,
pela lei e pela liberdade. Além disso, ninguem faz
revoluções
por meras fórmas. Nós, os verdadeiros liberaes,
duvidamos
se não é preferivel uma monarchia, com todas as
liberdades efectivas, com todas as
descentralisações vivas,
ou uma Republica como a francesa, em que o Poder central
é omnimodo, e o regimen autonomo local nulo.
«Depois de 86, fracassadas todas as tentativas para
regressar ao antigo caminho constitucional; fracassada a
grande, generosa e derradeira tentativa de 93 a 94; com a
fazenda publica em bancarrota; com todas as liberdades
suprimidas; com a pena de morte restabelecida para os delictos
militares e até para certos delictos civis; com a politica
do engrandecimento do Poder Real no seu auge,—toda
a gente pensa na Republica, porque ella não é
já uma
questão de mera fórma mas sim um problema
organico de
vida ou de morte para Portugal...
*
«A anarchia da nação demonstra-se: no
interior pelo
desencadeamento das forças dissolventes do caciquismo,
da plutocracia e a agitação do clericalismo e
fóra, pelas
mesmas consequencias dolorosas que se seguem a qualquer
dictadura progressista ou regeneradora. Depois da dictadura
progressista, o ultimatum, a bancarrota, a invasão
congreganista, sobresaltando os animos, como no caso da
irmã Collecta. Depois da dictadura regeneradora, Kionga,
o convenio definitivo da divida, e o fanatismo clerical,
irrompendo no caso Calmon.
«Os partidos estão
em
dissolução. O regenerador, com
dois chefes; o progressista, com a perspectiva tremenda de
uma herança tempestuosa. Mas poder-se-hão
reconstituir
dentro da monarchia? Andam varios nomes de boca em
boca: os dos srs. Dias Ferreira, visconde de Chancelleiros,
Costa Lobo, Augusto Fuschini, Anselmo d'Andrade e Augusto
de Castilho. Viu-se, porém, o caso da monarchia rodear-se
d'esses homens de positivo merito? São convidados
sequer para as suas festas, que são oficiaes e
não particulares?
«Entenderá e quererá a monarchia
apoiar-se nas classes
trabalhadoras, visto a burguezia estar contaminada?
Foi esse o sonho do socialismo do Estado de Oliveira Martins
e talvez o do militarismo democratico de Mousinho de
Albuquerque. Mas a monarchia não soube aproveitar-se
nem de um nem doutro. Oliveira Martins morria politicamente
poucos mezes depois de ser chamado ao governo.
Mousinho de Albuquerque não chegou sequer aos conselhos
da Corôa, e suicidou-se. A monarchia tinha para a
realização desse programma, alem d'esses homens,
a voz
mais eloquente dos nossos dias, a de Antonio Candido,
successor de José Estevão, que teria sabido
conquistar as
massas populares, e para captar as simpathias internacionaes
um diplomata, o marquez de Soveral, que pelas suas
maneiras e espirito, é da raça dos Palmellas.
Aproveitou-os,
porventura? Antonio Candido, desiludido, emudeceu. O
marquez de Soveral nada mais pode fazer do que abrandar
o protectorado inglez.
«Hoje as massas afastam-se cada vez mais da monarchia,
porque, como tudo se concentrou no Poder Real, todas
as responsabilidades se lhe atribuem; o protectorado
inglez serve para salvaguarda da monarchia; a ruina financeira
do paiz vem da confusão dos dois erarios, e até o
jesuitismo, se bem que não se imputa ao rei, é
comtudo
imputado aos que o rodeiam.
«Não é
licito pois esperar a
salvação dentro da monarchia.
Por grande que seja a cultura do chefe do Estado,
por muito que seja o seu valor, a empreza da nossa
regeneração
não é para um
individuo só. Só a nação
é que pode
erguer sobre os seus hombros tão imenso peso.
«E não se diga que a monarchia está
identificada com
a independencia da patria. A nação foi, com
efeito, sempre
monarchica; mas desgraçadamente a monarchia tem-se encarnado
na monarchia usurpadora dos Filippes, no governo
napoleonico de Junot, no governo de Beresford, sob Jorge
IV. A monarchia teve um papel soberano no começo da
nossa Historia, mas foi-se gradualmente divorciando do
povo.
«E as nossas alianças? Essas não
são dos reis, mas
dos povos. A aliança da Inglaterra é com
Portugal, e não
com as suas fórmas de governo.
*
«É indispensavel organisar as forças
vivas da nação
portugueza.
Organisando-se o partido republicano
salvar-se-ha
a nação. É preciso
que o partido republicano se transforme
em partido do governo, e que cesse com a sua obra
de demolição, já feita. Se
não pode alcançar logares no parlamento,
conquiste-os nos municipios; se não pode intervir
no municipio, intervenha na parochia. Não deixe ao abandono
nenhum logar, por minimo que seja. E faça sobretudo
por apoiar todas as justas reivindicações dos
pobres e dos
humildes.
«Deve ser um partido republicano profundamente socialista.
Quando os republicanos, por meio de toda a sua
campanha, se mostrarem homens de governo, podem estar
certos de que a Republica se fará em Portugal como se fez
no Brasil, e á maneira do que succedeu em 1871, em
França,
onde a Assembleia Legislativa, com uma maioria de monarchicos,
elegeu para seu chefe o republicano Grévy e para
chefe do Estado Thiers, que era um monarchico convertido
á Republica.
«A Republica em Portugal
é necessaria para elevar
a
sua cultura, para acabar com o numero incrivel de analfabetos,
para se consagrar á educação do povo.
O estado
actual o demonstra: tanto é certo que
quando sofre a liberdade
sofre tambem com ella a
instrucção.
«A Republica em Portugal é necessaria para que a
religião
seja a união das almas pelo amor, como na economia
social o é pelo trabalho. As ordens religiosas atacam
não
só o Estado como a verdadeira religião, cujos
primeiros vinculos
devem ser o amor da familia, a cooperação
economica
e o progresso politico da sociedade. O primeiro é combatido
e negado pelo voto de celibato; o segundo pelo voto
de pobreza, e o terceiro pelo voto de obediencia servil.
«Torna-se necessario defender a religião como um
principio
immanente de justiça e de bem, e não como uma
superstição
e um instrumento politico. O partido republicano
não pretende destruir a religião; o que
nós pretendemos é
tornal-a sincera e pura, tornando-a voluntaria e livre.
«A aspiração do partido republicano
encerra-se nestes
tres principios: liberdade politica, liberdade
economica e liberdade
religiosa. Em nome de todos que querem saber, e
não podem, oprimidos pela reacção
politica, essa infinidade
de creaturas analfabetas; em nome de todos os que
querem trabalhar e não podem, oprimidos pela
reacção
economica, essa infinidade de proletarios; em nome de
todos os que querem amar e ser bons e em cujo seio a
reacção religiosa lança a semente de
odio; em nome dessa
infinidade de santas e piedosas mulheres que o clericalismo
tenta desvairar e arrastar para fóra dos seus deveres; pelos
pobres, pelos humildes, pelos fracos, saudemos a Liberdade
e com ella o unico partido que hoje a sustenta e defende
em Portugal: o partido republicano.
«Se a Republica que não pede senão o
restabelecimento
e o respeito á lei, não vier bem depressa,
corromper-se-ha
e perder-se-ha o santo fundo deste povo exemplar,
um dos modelos de virtude, de paciencia e de
resignação que existem sobre a face da
terra».
D'outubro para novembro cae o governo,
abalado pela questão dos tabacos: os homens
estão cada vez mais divididos por
ambições e
interesses. D'um lado os Phosphoros, do outro os
Tabacos; dum lado o
Seculo e o
Navarro, que
ainda ha tres dias (Novembro) teve uma conferencia
com o José Luciano, dizendo depois á
familia:—O
José Luciano está cada vez mais
velhaco!—De
outro o Burnay e o seu grupo...
Os homens vão dia a dia diminuindo de estatura
moral! Ainda hontem alguem me contou
esta anecdota que define uma figura:—O Rebello
da Silva era muito amigo do Latino—mas
muito mais amigo ainda da sua ambição:
queria ser ministro depressa. Um dia, de repente,
cessou com as visitas que fazia ao grande escriptor.
Tinha descoberto um prefacio antigo, em
que o Latino advogava a união iberica, e foi para
as camaras atacal-o. A questão durou tres dias, o
governo cahiu, e o Rebello da Silva substituiu o
Latino na pasta da marinha. Nessa mesma noite
procurou-o de novo, e foi encontral-o a lêr serenamente
uma grammatica russa, cujo estudo
interrompera durante o tempo do governo.
—Tu já sabes, se queres alguma coisa é
como
se fosses ministro.
—Eu?!...—e sorriu-se, encolhendo os
hombros. Mas tão triste, tão sereno, que o outro
ficou gelado...