*


O Corvo foi um dos primeiros estadistas a pensar a serio na Africa e no seu engrandecimento. Quiz augmentar o territorio de Angola e estabelecer-lhe os limites, d'acordo com a Inglaterra. Tudo era possivel n'esse tempo e tinhamo-nos livrado de dificuldades, do Estado livre do Congo, etc. Avançavamos um seculo, se elle não cae por causa do tratado de Lourenço Marques. Deitaram-no a terra, espalhando que recebera milhões. Eu que casei com a filha, sei o que elle deixou!...

Nas camaras o governo d'então declarou que o tratado não tenha ido a conselho de ministros. O Andrade Corvo possuia o tratado com anotações do punho de Fontes e Thomaz Ribeiro. Apesar d'isso calou-se. Se fosse hoje!...


Junho—1903.


—O rei tem pensado. E tanto que o infante quiz ir agora ao estrangeiro e pediu dinheiro ao Hintze, que lhe respondeu:—Peço-lhe que desista.—O infante rasgou a carta furioso. Com a Maria Pia sucedeu o mesmo. Essa inventou uma doença d'olhos e preveniu o D. Carlos de que precisava de ir ao estrangeiro. Resposta do rei:—Cá ha um bom especialista.—Mandou-lho, e elle disse ao rei que a Maria Pia não tinha nada. A Maria Pia insistiu, n'um desespero, e o rei mandou-lhe o Antonio Lencastre. O rei tem pensado...

—Se isso fosse verdade!—exclama o Alpoim.


Junho—1903.


Esta tarde sahiu dos Martires, mesmo em frente do Dia, a procissão do Corpo de Deus. Todos á janella cahiram de joelhos—quando o bispo de Trajanopolis passou, a barba loura, muito cuidada, e um capachinho no alto da cabeça, apartado ao meio... O Alpoim exclamou:

—Ó que maroto! Foi a este que o Barros Gomes, quando ministro, disse um dia: Ajoelhe a meus pés! Peça perdão!—Tinha hypothecado lá fóra os rendimentos do curia por noventa annos!


Junho—1903.


O D. João da Camara conta que no Algarve encontrou em todas as casas dois retratos—o de João de Deus e o do Remexido. E a proposito diz que um tio de Coelho de Carvalho levava já a galope o comutamento da pena do Remexido, quando o fuzilaram. E termina:—A Angela Pinto é neta do Remexido. Aposto que não sabiam!


Julho—1903.


—Vou pedir um logar que está vago no Supremo Tribunal—disse um patusco ao Marçal Pacheco.

—De juiz?!

—Isso.

—Mas você endoideceu! Não lh'o dão!

—Isso sei eu.

—Mas então porque é que o pede?

—Já pedi umas poucas de coisas, vou pedir mais esta. Recusam-ma, já sei, mas é capital de queixa que amontôo.


*


O Alpoim:

—Um dia o cardeal patriarcha convidou-me para jantar. Estavam muitos bispos. São jantares que nunca acabam, de quinze pratos, serviço esplendido—e não calcula a impressão que eu senti, no fim, quando elles se levantaram muito congestionados, cheios de vinhos magnificos, mamando charutos enormes e com as saias arregaçadas...


Setembro—1903.


O Henrique de Vasconcellos, genro do Navarro, contou-me hoje que o Paço por trez vezes mandou insistir com o sogro, para elle não continuar com os ataques nas Novidades.


Outubro—1903.


O Alpoim recomenda no Dia que se não publique nada que possa ferir as susceptibilidades da côrte hespanhola. Afonso XIII está desconfiadissimo. Além d'isso o nosso rei e rainha de Hespanha não se podem ver: têem um pelo outro odio figadal.


*


Um coronel inglez, que ahi esteve, veio por ordem do seu governo vêr em que estado tinhamos as fortificações de Lisboa. Examinou tudo.

José Luciano encerra o Parlamento.—Caricatura inedita de Celso Herminio.
José Luciano encerra o Parlamento.—Caricatura inedita de Celso Herminio.



*


Com as festas de Afonso XIII encheu-se muita gente. Um regabofe. Da iluminação da Avenida diz-se:—Dos Restauradores para cima dirige o Costa Pinto, dos Restauradores para baixo digere o...


*


Ao ouvido conta-se que o rei de Hespanha e os que o acompanhavam troçaram tudo isto: o paiz, a côrte, as festas. De manhã, no quarto, emquanto elle tomava café ou chocolate, os particulares e os intimos maldiziam, n'uma chacota pegada... Só o rei, fracamente, se opunha.


Outubro—1903.


O D. João da Camara conta o seguinte:

—O D. Luiz deu, até pouco antes de morrer, trezentas libras por mez á Rosa Damasceno. Todos os dias 10, 20 e 30, o Nazareth lhe entregava cem libras em oiro, que elle nem sequer contava: mandava-as logo á Rosa. Morreu no dia 19 de Outubro: pois no dia 10 ainda lhe mandou o dinheiro.—E o Brazão?—Cuido que não são casados, apezar do que por ahi se diz. O que é certo é que antigamente, as coisas arranjavam-se por forma que a Rosa e o Brazão nunca entravam na mesma peça, e um d'elles ia sempre passar a noite ao Paço. O D. Luiz dizia do Brazão:—É o meu melhor amigo. A Rosa nunca abusou da situação: apenas empregou dois ou tres homens e o D. Luiz sentia por ella verdadeira ternura. Traduziu-lhe a Odette e assistia aos ensaios. A Maria Pia sabia tudo. Um dia deixou no quarto do Paço onde a Rosa costumava ficar, um lenço de rendas a tapar a fechadura. Ás vezes o D. Luiz apresentava-lhe joias para ella escolher e depois levava-as á Rosa. E ia com a rainha ao theatro, para que ella visse o efeito das joias no colo da actriz.


Outubro—1903.


—Vi eu, vi eu!—exclama o Antonio José de Freitas—o Oliveira Martins, n'uma sala, deslumbrado, solicitar a apresentação d'um janota qualquer, d'um janota banal.


Dezembro—1903.


O Adrião de Seixas, secretario do Banco de Portugal:

—Não se fazem descontos, porque não ha dinheiro e o Banco já recorreu ás reservas de prata. O governo está sempre a pedir dinheiro. Imagine o meu amigo que todos os annos ha um deficit de 7:000 contos. Ninguem tem a coragem de dizer as coisas como ellas são e por isso se faz um orçamento falsificado. Resultado: como o orçamento é falso, pode-se roubar á vontade!


*


O José Luciano está a morrer. O que ahi vae com a chefia do partido progressista! Ao Antonio Candido não o tragam os progressistas, ao Beirão não o quer o Paço, nem o Navarro, nem o Mariano. Lança-se o nome de Antonio Candido para encobrir o seguinte proposito: presidente do conselho o Mathias de Carvalho, com o Alpoim na pasta do reino.

Mathias de Carvalho é uma figura decorativa, sempre de palito na bocca e de miolos empedernidos, que ficará na presidencia e estrangeiros. Esta solução é preferida pelo Navarro e pelo Mariano. De Mathias apenas se sabe que é incapaz: como diplomata foi quem deu ensejo a esfriarem-se as relações com a Italia.

—Se o José Luciano morrer é á facada!—exclama o Alpoim.

Morrer era ainda—Deus me perdoe!—uma solução... Peor será conserval-o na cadeira de rodas, obstinado, querendo mandar, e os herdeiros á espera do testamento. Toda a politica portugueza vae girar em volta d'este leito de enfermo, onde o velho continua a dar ordens imperiosas.—Hoje deitou um litro de pus pela pelle.—Está salvo!—Morre!—Fica invalido!—Tem sifilis!—Nesta altura da politica portugueza, é elle quem manda tudo. Que o diga, o José d'Azevedo, por exemplo, que o não pode vêr, porque o José Luciano o não deixou realizar as suas pretenções. É na sua casa que se resolvem as questões maximas. A politica é pelo menos n'uma grande parte, na melhor parte, representada nos bastidores... «Vejam a vergonha desta gente! O Campos Henriques vae a casa do José Luciano com o Julio de Vilhena, para conseguir que as emendas do codigo civil passem. Não passam e elle fica no ministerio! O Teixeira de Souza vae lá todas as semanas. Não, este Hintze... Eu palavra de honra antes queria ser ladrão d'estrada!...»

Outro facto extraordinario da nossa politica: é sempre no campo adverso que estes homens tem mais radicadas amizades. E tambem se percebe nitidamente que no fundo da lucta só ha uma força, o rei. Por isso mesmo o rei é sempre o culpado. Quem tudo manda é o Paço—dizem todos os politicos—e tanto mais que não ha um nucleo de resistencia no paiz. Os republicanos não estão organizados e o Paço nem sabe o que póde. Uma revolução no paiz é, segundo a opinião geral, impossivel, a não ser que se succedam trez annos de fome.—Tudo quanto se faz de mau é o rei quem o faz...—Ainda hoje ouvi esta conversa:—Foi o Hintze quem disse ao Arroyo, como disse ao Mariano e ao Navarro. «É el-rei que não quer». Nunca lh'o deveria ter dito.—Os politicos inutilisam-no e inutilizam-se. Todos os dias inventam novas atoardas. Hoje a proposito d'uma nota oficiosa que o ministro da fazenda fez publicar no Noticias, no Seculo e no Diario, anunciando um grande emprestimo no estrangeiro, conta-se que é um negocio de acordo com a casa Fonseca, Santos & Viana, que tinha comprado fundos. Acusa-se o Teixeira de Souza de conivencia. Mas já a 2 de junho o Alpoim afirma:—Quem não deixa passar o emprestimo é o Burnay. N'outro paiz devia ter a cabeça cortada. No ministerio da fazenda ha documentos que provam as suas maquinações no estrangeiro. Elle manda em tudo:—manda no Credito Predial, no Banco de Portugal, na Companhia Real. É uma desgraça que o emprestimo não passe. Temos nós de o fazer e em que condições!... E tudo isto com que fim? E o Burnay a ver se obriga os progressistas ao contracto dos tabacos.—A esta trapalhada juntem a doença do José Luciano e as ambições, que levantam a cabeça, a guerra de sapa que se encarniça.—Hoje deitou mais pus!—Morre!—Com quem está o Paço?—O Moreirinha com a algalia não lhe sae da cabeceira.—Quem vae ao poder? O João Franco?

—Nem elle sabe a guerra oculta que eu lhe tinha feito. Ha-de pagar-me caro o discurso que fez contra mim: Viva a folia, dançar! dançar!... São mil os interesses, mil as ambições.—Tudo menos o Beirão, que só tem por si a gente velha, a gente conhecida pelos batibarbas.

Mas o velho teimoso e perspicaz, não admite sequer a idéa de que alguem, que não seja elle, vá ao poder. Até á ultima—ambição ou grandeza?—ha-de disputar e mandar, como o Alpoim, até ao ultimo suspiro, ha-de conspirar. Aqui, á roda d'esta agonia, não se discutem apenas os interesses d'uma familia. O drama é maior: são os interesses dos partidos, com mil e uma ambições e enredos que nem sequer se suspeitam. A confusão augmenta, redobra. O Ressano Garcia comanda o ataque, á frente dos batibarbas, contra o Alpoim, e o Alpoim, que ainda hontem atacava o João Franco, já hoje (Janeiro 1904) diz, depois do conluio feito pelo Silva Graça:—Com esse me entendo eu!


Fevereiro—1904.


Hontem, terça-feira de entrudo, assisti ao espectaculo em S. Carlos. Estava tudo, o rei, a rainha, a côrte... Senhoras decotadas com os vestidos presos aos hombros por uma fita. A D. Amelia de vermelho. Andava no ar uma bola enorme de borracha, e ao janota que quiz saltar dentro d'um camarote tiraram-lhe as botas dos pés. Mas a risota, a chalaça, a delicia, era um penico em miniatura, que passava de mão em mão, por entre as grosserias, que é do uso antigo as senhoras dizerem umas ás outras na terça-feira gorda. O fundo d'estes risos vem sempre da mesma palavra pegajosa: merda! merda! merda! O rei, gordo e louro, soprava por um canudo setas de papel, botando o olho de revez, e houve um momento em que o infante mostrou do camarote o quer que era de borracha, um canudo cheio de vento, immenso e obsceno. Foi um delirio entre aquellas cabeças empoadas, na gente da alta roda de que se contam baixinho os escandalos.

Ouçam um destes rapazes que estão na plateia, e que falam das senhoras, como quem fala com desprezo das mulheres da Antonia. Muita desta gente não se sabe aonde vae buscar o dinheiro. É um misterio. Aquelle louro e correcto, que está além n'uma atitude romantica, ainda ha dias quiz extorquir alguns contos de reis, para o jogo, a uma mulher casada. Outro só vive da roleta. Mais além, o herdeiro de um nome ilustre, tem um modesto logar na alfandega, e a mulher usa brilhantes esplendidos. Aquelle, acolá, tão decorativo, é conhecido pelo conde de Monta-a-Velha. São raros os que não têm alcunhas. A uma senhora de perfil soberano chamam-lhe a Vareira. Outra tem um sobriquet infame. Deste e de aquella diz-se alto a chronica escandalosa. A mulher do S. deu este anno grande escandalo em Cintra. Outra foi apanhada aos beijos a um embaixador. Com aquella, mais além, fina como uma cobra, e que ostenta um colar magnifico, puzeram-se os B. de mal, acusando-a de lhes ter roubado uma carteira com trezentos mil reis, depois de terem sido todos seus amantes. A mulher do J... deixa o marido, pé de boi rico que só lhe serve para puxar á nora, e gasta-lhe a rodos o dinheiro que juntou. Eis esta mãe viciosa com a filha ao lado—de olhos limpidos e innocentes. Peor, ha peor... E mais esta—e mais esta—e mais esta condessa, que n'outro dia foi apanhada no comboio n'uma atitude peor que equivoca...

Puz-me a ouvir, a ouvir,—verdade? mentira?—e lembrei-me ao mesmo tempo da côrte da senhora D. Carlota Joaquina e da Chartreuse de Parma.


*


O general Lencastre de Menezes:

—Se o 31 de Janeiro fosse agora as coisas não se tinham passado assim...


Março—1904.


Morreu um dia d'estes um preto riquissimo, que quiz por força passar por branco, o que lhe custou os olhos da cara. Se teima em viver mais algum tempo acabava a pedir. Rodeara-se d'uma corte que lhe custava carissima: lisongeavam-no e rapavam-lhe o cofre até ao fundo. Depois inventavam-lhe processos, depois demandas... Depois sopravam-lhe á vaidade incomensuravel. E o preto sorria, o preto dizia sempre que sim. Tinham-no casado com uma linda rapariga branca—e o preto, á farta, pagara tudo, dotara tudo, a noiva, os paes da noiva, os parentes da noiva... E cada vez mais brancos lhe faziam a côrte e o enredavam n'uma vasta teia de interesses, com muitas zumbaias e papel selado.

Um dia foi a Inglaterra e quiz viajar como um principe branco: comprou um yacht de luxo para ir a S. Thomé. Cincoenta contos. Na volta não havia carvão a bordo e deitaram-se a queimar a madeira entalhada, os doirados do barco, as portas, os salões, as molduras. E o preto sorria. Quando chegou a Lisboa vendeu o barco por uma côdea.

Rodearam-no mais brancos, apareceram-lhe mais brancos infatigaveis, pressurosos, obsequiadores. E mais papel selado, mais contractos e procurações para assignar—o enredo, a teia subtil em que o negralhão foi arrastado e envolvido, o verdadeiro, o authentico drama, emfim, do preto que quer ser branco... Se elle tinha por acaso um sobresalto, falavam-lhe logo á vaidade ou davam-lhe noticia d'uma coisa que se chama o Codigo, a Lei, a Formula, e o preto, que não comprehendia e que se sentia feliz, submetia-se sem contestar, com uma grande satisfação por fazer parte d'esta raça ilustre e respeitada de brancos, por ser visconde, por pertencer á côrte e á alta sociedade elegante.

...Antes de morrer lá lhe deram o ultimo golpe—de preto. Os brancos ficaram-lhe com as roças, e as propriedades de S. Thomé foram transferidas para uma sociedade por quotas. É o que consta por ahi, emquanto o negralhão estoira com uma pneumonia dupla—e lá em casa se toca desaforadamente piano, com as janellas abertas de par em par.


Março—1904.


As obras da sala de jantar do Paço das Necessidades custaram 180 contos.


*


O Abel d'Andrade contou-me que a modista da mulher lhe dissera que a mulher do Hintze lhe devia lá uma capa ha mais dum anno.


Março—1904.


O Celso morreu ha um mez n'um dia de chuva como este. Mas, quando o caixão chegou ao pé da cova, luziu o sol no alto. O ar parecia novo e no vasto campo dos tumulos agitaram-se as cabeças amarellas dos malmequeres. Os passaros começaram a cantar. E viu-se logo o Brito Aranha, de pera branca, dar um passo em frente e fazer um discurso:—O amigo... o camarada... descança em paz.—Depois o Cunha e Costa falou na nossa decadencia, e por fim o Carneiro de Moura mastigou tambem uma banalidade... Sentia-se que tudo aquilo era postiço. Mas os passaros não cessavam de cantar—e a meu lado o D. João da Camara suspirou baixinho:

—Quem me dera que quando eu morrer só o saibam meia duzia de amigos!...


Abril—1904.


O Ovidio d'Alpoim ácerca da D. Maria Emilia Seabra de Castro:

—Mete-se em tudo. D'uma vez eu e o José Luciano estavamos a discutir umas alterações á Carta Constitucional e ella começou do lado a dar a sua opinião. O José Luciano mandou-a embora. D'outra vez sahia eu de casa do José Luciano com o Antonio Candido e vinhamos á porta da sala grande, quando ella do alto da galeria:

—Ó senhor Antonio Candido então agora é que vae para Amarante, quando é cá preciso? E é para isto que nós os fazemos pares e os enchemos de honrarias?...

O Antonio Candido não respondeu. Ficou tão vexado que, de casa até á baixa, não trocamos palavra.


Março—1904.


As filhas de D. Carlota Joaquina, com excepção de duas, eram tal qual como a mãe. O Camara conta que a duqueza de Loulé, que foi casada com o mais lindo homem do seu tempo, estava um dia, em solteira, á janella, quando o conde de Vimioso passou a cavallo para os touros, já vestido de oiro e prata. Ella chamou-o, trocaram meia duzia de palavras, elle subiu—e depois desceu e foi tourear...

O marquez de Vallada sabia quem eram os paes de todos os filhos de D. Carlota Joaquina.


Abril—1904.


A Hespanha concentra tropas na Galliza. Nós não podemos mobilisar quinze mil homens. Nem dez mil! Hontem o Pimentel Pinto queixava-se ao Maximiliano d'Azevedo, de que nem artilharia de campanha possuimos: a que temos ficava liquidada no fim de meia hora de combate. A artilharia do campo entrincheirado de Lisboa, comprehendendo os obuzes, serve apenas para navios imperfeitamente protegidos. Peor: o municiamento mal chega para uma hora de combate!


Abril—1904.


O dr. Antonio Centeno protesta:

—Isto não pode ser! O ministro deu pela iluminação electrica do Paço de Belem quarenta contos! Havia quem a fizesse por sete. Agora vae dar a iluminação electrica de todos os paços por trezentos contos. Ha quem a faça por quarenta. Mas d'esta vez oponho-me porque prejudica a Companhia do Gaz. Vou procural-o e dizer-lho. Se teimar levo a questão para a camara e para os jornaes.


Abril—1904.


Quem faz a politica externa é o rei e o Several. O ministro dos estrangeiros chancela.


Abril—1904.


Isto é um paiz para estrangeiros. Não ha nenhum que não enriqueça. Hoje afirma-se que o Chapuy, engenheiro da Companhia Real, vendeu machinas á Companhia por cento e trinta e tres mil francos, que valiam setenta mil. O Croneau, director do Arsenal, tambem está rico.


Abril—1904.


Diz o Alpoim:

—O rei não ouve ninguem. Antigamente ainda atendia o general Queiroz, que era nosso amigo. Agora não: só ouve os presidentes do conselho. Tratava muito bem o Teixeira de Souza; pois quando o Hintze resolveu pol-o na rua, passou logo a tratal-o mal.


Maio—1904.


O alferes que no 31 de Janeiro comandava a guarda municipal, por traz do campo de Santo Ovidio, nas escadas da Egreja da Lapa, e que depois comandou o fogo na rua de Santo Antonio, garante que o Lencastre e Menezes, então comandante do 18, não sahiu com o regimento emquanto não viu tudo decidido. E dentro do quartel havia socego...

—Eu disse-o depois ao rei.


*


A proposito de 31 de Janeiro sei pelo José de Figueiredo, que o ouviu por diferentes vezes ao Antonio Candido, que o rei e a gente do Paço queriam um castigo exemplar. Antonio Candido opoz-se e ficou mal visto durante muitos annos.


Junho—1904.


Disse-me hoje o Camara que o Soveral tomou parte, activa no tratado d'entente entre a Inglaterra e a França. É hoje um dos melhores amigos de Delcassé.


Julho—1904.


A Maria Pia, que quer ir por força ao estrangeiro, mandou pedir dinheiro aos agiotas de Paris sobre hypotheca das suas propriedades—chalet do Estoril e parte do palacio das Necessidades, que ella afirma pertencer-lhe... Ao todo cento e oitenta contos. De intermediarios serviram um agiota do Porto, uma mulher designada na correspondencia pelo nome de madame Blanche, e que recebia dez mil francos, etc.


*


Do Antonio José de Freitas:

O marquez da Fronteira nunca poude levar a bem o casamento de D. Fernando com a comica, como elle lhe chamava. Uma senhora da aristocracia conversando com o marquez:

—Fui visitar el-rei que me disse:—Não queres vêr a condessa?—Falei com ella e parece-me...—hesitando—muito interessante...


Celso Herminio.
Celso Herminio.

E o marquez logo:

—A senhora já tinha, é claro, relações anteriores com a condessa...


Dezembro—1904.


O João da Camara repartiu com os netos de Camillo os direitos de auctor do Amor de Perdição. Os filhos de Nuno nem pão tinham no dia em que receberam inesperadamente esse dinheiro. O Camara, quando juntou duzentos e tantos mil reis, escreveu á viuva e mandou-lhe metade.—N'esse dia—disse ella ao Alberto Pimentel—não tinha que lhes dar de comer.


*


O rei e a rainha vivem separados. Os seus aposentos são, uns n'um extremo, outros no outro extremo do palacio. E por ahi afirma-se que elle, depois do tifo, ficou como Affonso VI...


Dezembro—1904.


O velho obstinado teima... Não lhe falem na successão! Ainda n'outro dia fez uma scena, quando a D. Maria Emilia lhe leu o artigo das Novidades. Um amigo disse-lhe:—Deixe lá o Sebastião Telles ou o Alpoim ser presidente do conselho.—Essa hypothese não a admito eu!—protestou logo. O Hintze está gasto, o João Franco foi acolhido no norte como um Messias. O Beirão fez um discurso nas camaras—talvez proposital—dizendo que cortaria nos empregos publicos e que não admitia direitos adquiridos senão dentro da lei.—Elle quer inutilisar-se...—É um tipo esgalgado, d'astronomo, com uma grande penca—o nariz do Beirão—motivo facil de caricatura. Homem de costumes simples, alheado e indiferente a corrilhos, agarrado aos seus livros
[5]. Já em Abril, no conselho d'estado, taes coisas disse que, á sahida, afirmou:—Acabo de dar uma enxadada na minha reputação!—Quanto ao Alpoim desconfia que o José Luciano o quer comer, e o Teixeira de Souza trata de crear forças dentro do seu proprio partido: comprou A Tribuna e parece influenciar no Diario.—Ao Hintze custa-lhe a largar o poder, elle bem sabe porquê...—Os tumultos nas camaras succedem-se e a situação politica agrava-se.

Do rei diz-se o peor possivel. Diz-se que colocou muito dinheiro no Banco d'Inglaterra, (11 de Junho) diz-se que deu um colar de brilhantes á bailarina Imperio, que ahi está na zarzuella... As questões prendem-se, e agora com o contracto dos tabacos só se fala em escandalos. Tudo come! tudo come! Come o Navarro, come o Mariano, e um amigo meu, literato e jornalista, afirma-me:—Se a Companhia dos Phosphoros tem feito o contracto, eu estava rico.—Corre que os republicanos se organisam e o Bernardino Machado publicou manifesto, aproveitando um jornal e um jornalista hespanhol:


...«Ha uma lei que domina todas as outras na historia da humanidade: nenhuma instituição vive, se sustenta e se radica senão pelo amor á liberdade. A lei, em virtude da qual existem instituições liberaes, cumpriu-se nos nossos annais contemporaneos. De 1851 a 1885 tivemos um periodo de liberdade e de paz. Foi um periodo de ascensão liberal.

«Aboliu-se a pena de morte, e só por esse feito se proclamou pela lei o direito á Vida. Proclamou-se esse direito com toda a sua elevação, dando a todos, inclusivamente aos indigenas das nossas colonias, onde se acabou com a escravatura, a faculdade de existir espiritualmente, como uma personalidade moral. Alargou-se a liberdade religiosa, tornando-a efectiva com o registo civil. Alargou-se a liberdade economica pela extinção dos bens de mão morta, pela abolição dos monopolios e pela criação legal das associações de socorro mutuo e das cooperativas. Dilataram-se as liberdades politicas com a extensão do sufragio e representação das minorias. Descentralizaram-se os municipios, deram-se as maximas franquias aos distritos e até se exarou na Constituição o principio liberal da eleição parcial da Camara dos Pares. Nesse periodo, que começou ouvindo-se a voz do grande tribuno José Estevão, parece que resoaram até ao final os acentos do seu verbo eloquentissimo.

«Essa epoca venturosa termina com a morte de Sampaio, Braamcamp e Fontes. E a prova de que todos os partidos colaboravam nessa grande obra de pacificação e de liberdade, está em que foi o conservador Fontes quem mais contribuiu para ella.

«Os partidos de governo definem-se pela sua concepção da constituição nacional: Constituição liberal, partido liberal; Constituição arbitral, partido reaccionario. Porque o arbitrio póde ser, num dado momento, a liberdade; mas sempre se converte por fim em absolutismo.

«No periodo de iniciação liberal fez-se a Constituição quasi republicana de 1822, e, em troca, os constitucionais da campanha da Terceira, do Cerco do Porto, de Almoster e da Asseiceira, tiveram a carta outorgada de 1826, que foi, consoante o livre alvedrio do imperante, a liberdade com D. Pedro IV, e a opressão com D. Maria II. Em oposição á carta outorgada, Passos Manuel e os setembristas fizeram a democratica constituição de 1838, decretada pela vontade da nação.

«No segundo periodo da nossa vida constitucional, que abre com José Estevão e se encerra pouco depois da morte de Sampaio, periodo que inaugura entre nós o parlamentarismo, os regeneradores fizeram os actos adicionaes de 1852 e de 1885, que são verdadeiros pactos constitucionaes, e não intervalos historicos, mas reformistas, constituintes, republicanos, que apresentavam os seus projectos, qual delles mais avançado, da reforma constitucional.

«De 1886 até hoje sopra um vento imperialista. A inspiração, em vez de vir da Inglaterra liberal, vem da Alemanha cesarista. O partido progressista faz a centralisação dos serviços materiaes. Segue-se-lhe, no Poder, o partido regenerador, e faz a centralisação dos serviços espirituaes na instrucção, e depois dissolve as associações, rasga as liberdades municipaes, acaba com as representações das minorias, legisla dictatorialmente... E, por fim, para que toda esta centralisação não suscite uma revolução violenta, promulga a lei sobre o anarquismo, que é uma ameaça sempre suspensa sobre todos os liberaes.

«Antes de 86, o partido republicano, como partido de tal natureza, não era um perigo. Caminhava-se lentamente, pacificamente, para a Republica, e não haveria ninguem tão insensato que sonhasse fazer uma revolução para conseguir pela força o que se conseguiria, num prazo fatal, pela lei e pela liberdade. Além disso, ninguem faz revoluções por meras fórmas. Nós, os verdadeiros liberaes, duvidamos se não é preferivel uma monarchia, com todas as liberdades efectivas, com todas as descentralisações vivas, ou uma Republica como a francesa, em que o Poder central é omnimodo, e o regimen autonomo local nulo.

«Depois de 86, fracassadas todas as tentativas para regressar ao antigo caminho constitucional; fracassada a grande, generosa e derradeira tentativa de 93 a 94; com a fazenda publica em bancarrota; com todas as liberdades suprimidas; com a pena de morte restabelecida para os delictos militares e até para certos delictos civis; com a politica do engrandecimento do Poder Real no seu auge,—toda a gente pensa na Republica, porque ella não é já uma questão de mera fórma mas sim um problema organico de vida ou de morte para Portugal...


*


«A anarchia da nação demonstra-se: no interior pelo desencadeamento das forças dissolventes do caciquismo, da plutocracia e a agitação do clericalismo e fóra, pelas mesmas consequencias dolorosas que se seguem a qualquer dictadura progressista ou regeneradora. Depois da dictadura progressista, o ultimatum, a bancarrota, a invasão congreganista, sobresaltando os animos, como no caso da irmã Collecta. Depois da dictadura regeneradora, Kionga, o convenio definitivo da divida, e o fanatismo clerical, irrompendo no caso Calmon.

«Os partidos estão em dissolução. O regenerador, com dois chefes; o progressista, com a perspectiva tremenda de uma herança tempestuosa. Mas poder-se-hão reconstituir dentro da monarchia? Andam varios nomes de boca em boca: os dos srs. Dias Ferreira, visconde de Chancelleiros, Costa Lobo, Augusto Fuschini, Anselmo d'Andrade e Augusto de Castilho. Viu-se, porém, o caso da monarchia rodear-se d'esses homens de positivo merito? São convidados sequer para as suas festas, que são oficiaes e não particulares?

«Entenderá e quererá a monarchia apoiar-se nas classes trabalhadoras, visto a burguezia estar contaminada? Foi esse o sonho do socialismo do Estado de Oliveira Martins e talvez o do militarismo democratico de Mousinho de Albuquerque. Mas a monarchia não soube aproveitar-se nem de um nem doutro. Oliveira Martins morria politicamente poucos mezes depois de ser chamado ao governo. Mousinho de Albuquerque não chegou sequer aos conselhos da Corôa, e suicidou-se. A monarchia tinha para a realização desse programma, alem d'esses homens, a voz mais eloquente dos nossos dias, a de Antonio Candido, successor de José Estevão, que teria sabido conquistar as massas populares, e para captar as simpathias internacionaes um diplomata, o marquez de Soveral, que pelas suas maneiras e espirito, é da raça dos Palmellas. Aproveitou-os, porventura? Antonio Candido, desiludido, emudeceu. O marquez de Soveral nada mais pode fazer do que abrandar o protectorado inglez.

«Hoje as massas afastam-se cada vez mais da monarchia, porque, como tudo se concentrou no Poder Real, todas as responsabilidades se lhe atribuem; o protectorado inglez serve para salvaguarda da monarchia; a ruina financeira do paiz vem da confusão dos dois erarios, e até o jesuitismo, se bem que não se imputa ao rei, é comtudo imputado aos que o rodeiam.

«Não é licito pois esperar a salvação dentro da monarchia. Por grande que seja a cultura do chefe do Estado, por muito que seja o seu valor, a empreza da nossa regeneração não é para um individuo só. Só a nação é que pode erguer sobre os seus hombros tão imenso peso.

«E não se diga que a monarchia está identificada com a independencia da patria. A nação foi, com efeito, sempre monarchica; mas desgraçadamente a monarchia tem-se encarnado na monarchia usurpadora dos Filippes, no governo napoleonico de Junot, no governo de Beresford, sob Jorge IV. A monarchia teve um papel soberano no começo da nossa Historia, mas foi-se gradualmente divorciando do povo.

«E as nossas alianças? Essas não são dos reis, mas dos povos. A aliança da Inglaterra é com Portugal, e não com as suas fórmas de governo.


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«É indispensavel organisar as forças vivas da nação portugueza. Organisando-se o partido republicano salvar-se-ha a nação. É preciso que o partido republicano se transforme em partido do governo, e que cesse com a sua obra de demolição, já feita. Se não pode alcançar logares no parlamento, conquiste-os nos municipios; se não pode intervir no municipio, intervenha na parochia. Não deixe ao abandono nenhum logar, por minimo que seja. E faça sobretudo por apoiar todas as justas reivindicações dos pobres e dos humildes.

«Deve ser um partido republicano profundamente socialista. Quando os republicanos, por meio de toda a sua campanha, se mostrarem homens de governo, podem estar certos de que a Republica se fará em Portugal como se fez no Brasil, e á maneira do que succedeu em 1871, em França, onde a Assembleia Legislativa, com uma maioria de monarchicos, elegeu para seu chefe o republicano Grévy e para chefe do Estado Thiers, que era um monarchico convertido á Republica.

«A Republica em Portugal é necessaria para elevar a sua cultura, para acabar com o numero incrivel de analfabetos, para se consagrar á educação do povo. O estado actual o demonstra: tanto é certo que quando sofre a liberdade sofre tambem com ella a instrucção.

«A Republica em Portugal é necessaria para que a religião seja a união das almas pelo amor, como na economia social o é pelo trabalho. As ordens religiosas atacam não só o Estado como a verdadeira religião, cujos primeiros vinculos devem ser o amor da familia, a cooperação economica e o progresso politico da sociedade. O primeiro é combatido e negado pelo voto de celibato; o segundo pelo voto de pobreza, e o terceiro pelo voto de obediencia servil.

«Torna-se necessario defender a religião como um principio immanente de justiça e de bem, e não como uma superstição e um instrumento politico. O partido republicano não pretende destruir a religião; o que nós pretendemos é tornal-a sincera e pura, tornando-a voluntaria e livre.

«A aspiração do partido republicano encerra-se nestes tres principios: liberdade politica, liberdade economica e liberdade religiosa. Em nome de todos que querem saber, e não podem, oprimidos pela reacção politica, essa infinidade de creaturas analfabetas; em nome de todos os que querem trabalhar e não podem, oprimidos pela reacção economica, essa infinidade de proletarios; em nome de todos os que querem amar e ser bons e em cujo seio a reacção religiosa lança a semente de odio; em nome dessa infinidade de santas e piedosas mulheres que o clericalismo tenta desvairar e arrastar para fóra dos seus deveres; pelos pobres, pelos humildes, pelos fracos, saudemos a Liberdade e com ella o unico partido que hoje a sustenta e defende em Portugal: o partido republicano.

«Se a Republica que não pede senão o restabelecimento e o respeito á lei, não vier bem depressa, corromper-se-ha e perder-se-ha o santo fundo deste povo exemplar, um dos modelos de virtude, de paciencia e de resignação que existem sobre a face da terra».


D'outubro para novembro cae o governo, abalado pela questão dos tabacos: os homens estão cada vez mais divididos por ambições e interesses. D'um lado os Phosphoros, do outro os Tabacos; dum lado o Seculo e o Navarro, que ainda ha tres dias (Novembro) teve uma conferencia com o José Luciano, dizendo depois á familia:—O José Luciano está cada vez mais velhaco!—De outro o Burnay e o seu grupo... Os homens vão dia a dia diminuindo de estatura moral! Ainda hontem alguem me contou esta anecdota que define uma figura:—O Rebello da Silva era muito amigo do Latino—mas muito mais amigo ainda da sua ambição: queria ser ministro depressa. Um dia, de repente, cessou com as visitas que fazia ao grande escriptor. Tinha descoberto um prefacio antigo, em que o Latino advogava a união iberica, e foi para as camaras atacal-o. A questão durou tres dias, o governo cahiu, e o Rebello da Silva substituiu o Latino na pasta da marinha. Nessa mesma noite procurou-o de novo, e foi encontral-o a lêr serenamente uma grammatica russa, cujo estudo interrompera durante o tempo do governo.

—Tu já sabes, se queres alguma coisa é como se fosses ministro.

—Eu?!...—e sorriu-se, encolhendo os hombros. Mas tão triste, tão sereno, que o outro ficou gelado...