Dezembro—1907.
O velho major Fumega, em conversa com outro
militar reformado:
—Em 66 o Saldanha d'acordo com o Prim,
tinham resolvido proclamar o D. Luiz imperador
da Iberia. Chegaram a distribuir dinheiro aos
sargentos. A mim, que era então sargento, deram-me
seis contos, para distribuir dezoito tostões
por soldado. Tornei a entregal-os intactos.
Se fosse hoje gastava-os no brodio.
—Eu apanhei trezentos mil reis e dei cabo
d'eles.
—O movimento abortou, porque foi denunciado
pelo Graça, mais tarde celebre como major
Graça, no 31 de Janeiro, que, depois de assignar
as actas, como quartel-mestre, descobriu tudo.
Era um denunciante, foi-o sempre—conclue o
Fumega, fumando placidamente o seu cigarro.
Dezembro—1907.
O D. Carlos a um oficial do exercito, depois
da lucta com o João Franco, das descomposturas
ao rei, etc.,—e referindo-se aos politicos:
—Tu ouvel-os falar, não é verdade? Pois
se
lesses as cartas que todos os dias me escrevem,
e que estão alli n'aquella gaveta, enchias-te de
nojo!
Dezembro—1907.
Conta-me o D. João da Camara:
—A rainha era amicissima do meu irmão, o
conde da Ribeira Grande. Visitou-o seis vezes
durante a sua doença. N'uma das ultimas noites
elle puxou-a a si, beijou-a, e explicou:
—É como se fosse minha filha.
Já na agonia, ella entrou-lhe no quarto e elle
pode ainda dizer-lhe, n'um ultimo arranco, estas
palavras proheticas:
—Os politicos! Cautela com os politicos!
E ella respondeu-lhe:
—Descanse, não ha-de ter duvida, se Deus
quizer.
*
Era um pouco apagado, mas bondosissimo.
D'uma vez uma senhora foi dar-lhe os pezames
pela morte do filho. Tinha-lhe tambem morrido
um filho fazia um mez e desatou a chorar, a falar
n'elle, cheia de saudade e de lagrimas. E o
conde da Ribeira, esquecendo a propria dôr,
passou a consolal-a...
Janeiro—1908.
O Fialho conta, indignado, que a viuva do
Eça de Queiroz, a quem o Estado dá uma
pensão,
vae vender uma propriedade no Alemtejo,
por cento e tantos contos.
—Veja você que pouca vergonha! São uns
poucos de kilometros de terra de semeadura e
montado de azinho e bolota, que sustenta um
cento de cevados! Bem sei que metade da propriedade
é da irmã, da mulher do Luiz Osorio...
Ainda assim são cincoenta contos. Mas n'este paiz
faz-se tudo o que o senhor Arnoso quer!...
Janeiro—1908.
Um oficial d'armada, ao José de Figueiredo:
—Todos os oficiaes d'armada, á
excepção
de meia duzia, não podem vêr o rei, a quem chamam
o pulha. Se houvesse em terra um
movimento
republicano, secundavam-no logo.
*
Diz-se por ahi:
—Venha tudo, venha o peor, venha o diabo
do inferno, que nos livre d'isto!
Janeiro—1908.
No
Turf e no
Club
Tauromachico joga-se sempre
escandalosamente. O conde de... lá vae outra
vez para a Africa, arruinado pelo jogo no
Club
Tauromachico, o visconde de... tambem lá
perdeu
uma fortuna.
Janeiro—1908.
Grosso escandalo com o livro do Albuquerque,
O Marquez da Bacalhôa.
Este Albuquerque,
conhecido pelo
Lendea, é
o ultimo descendente,
pelo pae, do grande Afonso d'Albuquerque, e,
pela mãe, do grave, do douto João de Barros.
Ainda aqui ha annos, quando o rei visitou uma
terra de provincia e se hospedou na casa delle,
sahiram das lojas caixotes de louça da India, que
nunca tinham sido abertos. Elle tem tido uma
vida de aventuras: bateu-se em duello em Madrid,
caçou no Cabo com lords, tocou guitarra
em Ourville e teve uma loja d'instalações
electricas
na Italia. Agora é jornalista, escriptor, poeta
e publica este livro d'escandalo, em que a rainha,
Senhora na mais alta acepção da palavra,
é
posta de rasto... Mas faça-se-lhe justiça: tudo
aquillo—e peor—anda por ahi de bocca em
bocca ha muito tempo. E não vem de baixo—vem
de cima...
*
Do Paço mandaram buscar um exemplar á
livraria Ferreira.
Janeiro—1908.
O rei em Villa Viçosa caça; o João
Franco
em Carnide dorme com a casa cercada de policia.
Fala-se em conspirações, na tropa, em
transferencias
d'oficiaes e sargentos. O Maximiliano
d'Azevedo disse hoje na livraria ao Bernardino
Machado:
—Isto cheira a cadaver...
—Cheira a polvora, é que
é—respondeu
lhe elle.
Espera-se tudo: a falencia, tiros, a revolta.
Ha prisões—fala-se em mais prisões
ainda e os
jornaes estão garrotados.
*
O Maximiliano d'Azevedo:
—É falso que fosse o Correia de Barros quem
matou a Manuela Rey. Disse-me muitas vezes a
Emilia Adelaide como o caso se passou: Um irmão
do Tanas (Pereira das Neves) fez a corte á
Manuela. Ella aceitou-lha, e uma noite o Correia
de Barros surprehendeu-os. O Tanas, ao vel-o
brandindo a bengala, saltou por uma janella. A
Manuela fugiu e foi para a rua das Galinheiras,
para uma casa onde morava a cabeleireira do theatro,
e deitou-se vestida sobre a cama, a chorar.
Debalde o Correia de Barros lhe perdoou:
—Não! Não!
Chorou—e morreu. Já estava tisica ha muito
tempo.
*
E conta-me tambem:
—A Emilia das Neves estava n'uma casa de
mulheres. Deram com ella por acaso. Quem primeiro
a ensaiou foi o Garrett. Tinha genio: mal
sabia lêr e toda a vida deu sylabadas.
Janeiro—1908.
O governo retira as munições a alguns regimentos
e á marinha: só tem confiança na
guarda.
Diz-me o Schwalbach:—«Ouvi-o da bocca do
oficial encarregado d'esse serviço. A noite passada
retiraram as munições a um regimento da
capital». Corre com insistencia que o coronel Albano
da Fonseca morreu envenenado... Os navios
de guerra foram desarmados, sob pretexto
de estudo de renovação e
adaptação das munições,
que se removeram para o serviço de torpedos.
O Maximiliano diz-me tambem que varias
peças do campo entrincheirado ficaram assestadas
sobre os navios de guerra.
Gomes Leal.—Desenho de Antonio Carneiro.
Gomes Leal.—Desenho
de Antonio Carneiro.
*
O Fialho está um franquista ferrenho:
—O João Franco já me mandou chamar
tres vezes.
E, como eu me espante de o vêr conservador,
elle diz:
—Fui-o sempre. Já esse maroto do Arnaldo
Fonseca dizia a meu respeito:—É um bohemio
que trata a roupa com nephetalina!
*
A Angela Pinto está com um preto que lhe
poz automovel.
—Ó Angela, então tu agora?!
—Vocês que querem? Não andam todos os
dias ahi a prégar que o futuro de Portugal está
nas nossas colonias?
Janeiro—1908.
Prenderam hontem o Antonio José de Almeida.
O João Barreira conta-me que a policia
apanhou sessenta rewolveres aos republicanos,
mas não descobriu os depositos d'armamento.
O João Pinto dos Santos diz:
—A prisão de Antonio José d'Almeida
é
um
ensaio. Se virem que as massas populares não
protestam, desatam a prender a torto e a direito.
Eu estou aqui estou preso: o João Franco
odeia-me.
*
Um livreiro:
Fizeram mal em prohibir
O Marquez da
Bacalhôa.
Já ha quem tenha dado por um exemplar
tres mil reis, e o preço corrente é agora de dez
a quinze tostões... Se o queriam inutilizar
aprehendessem-no,
tanto mais que toda a gente sabia
onde era impresso.
28 de Janeiro—1908.
A atmosphera é electrica.—Isto não pode
ser! isto não pode ser!—ouve-se a cada passo.
Toda a gente espera acontecimentos. O boato
corre de ouvido para ouvido: o comandante
da municipal afirmou ao rei que não podia contar
com a guarda para combater a tropa; ha tumultos
no Porto e Villa Real; está assignado um
decreto expulsando do paiz republicanos e dissidentes;
e—sabem? sabem?—o movimento é
preparado pelo João Franco para tomar medidas
d'excepção... O Coelho de Carvalho, de grandes
barbas brancas, sempre ironico, pontifica na
livraria Ferreira:—Tudo isto obedece a um plano
para estabelecer o protectorado inglez, com o
rei gordo e replecto, e a dotação augmentada
em cento e sessenta contos, pagos em oiro.
Ás sete da noite encontro o Alpoim que me
pergunta ancioso:—Que ha? que ha?...—Eu
sei... diz-se por ahi que varios oficiaes se reunem
no Arco da Bandeira....—Só?—E arranca-me
das mãos o
Correio da
Noite:—Vem feroz! vem
optimo!...—No comercio não se desconta uma
letra. A rua do Oiro não tem metade do movimento
habitual. Consta que o João Franco disse
hontem:—Dá-se-lhes
uma sangria...—O que eu
lhe posso garantir, e sei-o por uma senhora de
relações intimas do João
Franco—diz o
Fialho,—é
que elle passa as noites sem dormir.—Medo—ou
revolução? As mulheres vão buscar os
maridos
ás repartições e aos bancos, outras,
na previsão
de acontecimentos, fornecem-se á pressa
nas lojas. Ha nervos na atmosphera. A questão
dos adeantamentos levantou todo o paiz contra
o rei. Ha muito que o D. Carlos é visado,
discutido e injuriado. Atribuem-se-lhe todos os
males. O Hintze morreu: foi elle quem matou o
Hintze com desgostos. Os Braganças são todos
ingratos. Que quer o rei? O rei só quer dinheiro,
o rei chama ao paiz, que despreza, a
piolheira,
o rei é um ladrão. Dizem-no até os
cavadores
d'enxada da provincia:—O rei é um
ladrão!
o rei é um ladrão!—Gera-se
não sei
que excitação
que se apega e propaga. Todos estamos debaixo
da mesma pressão a que não ha fugir. Nas
esquinas ainda se vêem farrapos de cartazes,
anunciando o folhetim
Soror Amelia,
com o retrato
da rainha vestida de freira...
O que os jornaes de grande circulação
não
se atrevem a dizer, o
Seculo, o
Mundo, o
Noticias,
propala-se de ouvido para ouvido, ou publica-o
o
Correio da Noite, do velho
José Luciano, que
ataca com violencia o rei e o governo.—Que
há? Que há?—Um policia aliciado pelo
João
Chagas denunciou a revolução; o juiz ao
lêr o
depoimento do Antonio José d'Almeida,
exclamou:—Ora
até que emfim encontro um homem!—O
Cunha e Costa pequenino, d'oculos e olho
esperto atravez dos vidros:—Vocês que
querem?
Está tudo minado. Hoje, ao entrar na
Boa Hora, deparei com este quadro: d'um lado
da porta um municipal lia
O Mundo,
do outro,
outro municipal lia
A Lucta.
E no entanto a vida segue o seu curso habitual:
todas as noites enchentes nas revistas,
Ou
vae... ou racha, Pr'a frente! Todas
as noites o
mesmo falatorio no Rocio, o mesmo formigueiro
humano seguindo as suas manias, as suas ambições,
os seus interesses...
*
Os populares atacaram as esquadras. No
largo do Rato um bando, que queria matar o
João Franco, entrou n'um café. A policia tentou
apalpal-os—defenderam-se a tiro. Um cahiu varado:
e retiraram em ordem, fazendo fogo. Na
esquadra dos Terramotos trocaram ainda balas
com os guardas. Havia um plano de revolução?
É fóra de duvida. Lançaram-se bombas
que não
explodiram a varias esquadras—á do Campo de
Sant'Anna, por exemplo. A policia estava, prevenida,
e prendeu-os, quando um grupo de dissidentes,
Alpoim, João Pinto, Ameal, etc., se dirigia
para o elevador da Bibliotheca, no intuito de
lançar um foguetão, que desse o signal
á esquadra
e a varios grupos que, ao mesmo tempo e
em diferentes pontos, deviam assaltar os quarteis.
Só o Alpoim e o Ameal conseguiram fugir.
No elevador havia armas, destinadas ao ataque
dos correios e telegraphos. No forte de Caxias
estão presas 93 pessoas, e presos estão tambem
o Afonso Costa, o João Pinto dos Santos, o Ribeira
Brava, etc. A policia desandou então a prender
a tôrto e a direito. O José de Figueiredo que
mora no Campo de Sant'Anna, por cima da esquadra,
ouviu isto: Ao telefone, o chefe da esquadra
para o governo civil:—Já prendemos
quatro.—Prendam mais.—Era preso quem passava
na rua.
Á revolução adheriam varios oficiaes e
toda
a armada. Havia fanaticos decididos a correr a
municipal á bomba, e todo o trabalho do directorio
parece que foi sustel-os á ultima hora.
Varios bandos foram prevenidos logo que o
signal falhou. Os que esperavam no
café do
Rato, a hora do assalto á casa do João Franco,
foram presos. Um creado do Moura Cabral,
que m'o contou, foi aliciado para atacar a esquadra
da Graça—e deram-lhe um rewolver e bebidas.
Em diversas partes tem sido encontradas
bombas, e diz-se que quem denunciou um deposito
d'armas, escondido em casa d'um negociante,
foi uma irmã dum actor de D. Maria.
*
—Isto—toda a gente o afirma—acaba
logicamente
no atentado pessoal.
30 de Janeiro—1908.
Corre com insistencia que o João Chagas
morreu d'uma pleurizia no hospital.
*
Os
bufos são aos centos.
Pára-se a conversar—tem-se
logo um
bufo á perna. O
Baracho procurou
hoje o ministro da guerra e declarou-lhe:
—Eu não conspiro; portanto não me
mandem
espionar, senão corro os
bufos a tiro. Se
desconfiam de mim, julguem-me, que eu me defenderei.
E deixe-me tambem dizer-lhe uma coisa:
Os senhores não hão-de ser sempre ministros.
Se me incomodam ou me infamam, quando deixarem
de o ser, eu lhes tomarei as responsabilidades.—Ao
que o ministro respondeu:—Se soubesse,
general, as saudades que eu tenho do meu
caminho de ferro!...
*
Tem sido tambem presos alguns oficiaes do
exercito. E o Fialho faz
blague:
—Desde que a policia entrou no caminho
das descobertas, foi dar com a escripturação
completa da revolta. Tudo por ordem e por partidas
dobradas. Uma revolução burocrata!
31 de Janeiro—1908.
Sabem qual é a impressão geral? Pena de
que o movimento gorasse.
*
Até as mulheres estão furiosas com o Franco.
Ha-as que dizem:—Eu vou matal-o!—Mas ha
tambem quem o defenda e aplauda como nenhum
ministro foi defendido e aplaudido. Um padre
franquista barafusta em plena rua do Ouro:
—Eu até agora dizia que o João Franco
tinha
uns c... que não cabiam em Lisboa. Agora
não, agora digo bem alto: o João Franco tem
uns c... que não cabem em Portugal!
*
O Bernardino Machado:
—Sabe o que isto parece? Parece que o rei
disse ao João Franco, entregando-lhe uma
carabina:—«João
arranja-me dinheiro».—O João
Franco executa.—«João torna a levar a
carabina
e traz mais dinheiro».—E a atitude vergonhosa
das nações estrangeiras que assistem com
aplauso a este espectaculo! Porquê? Pelo que eu
disse um dia d'estes a um negociante francez:—Ha
um dictado em Portugal que explica tudo:—Ladrões
não se encobrem de graça!
1 de Fevereiro—1908.
O João Franco responde aos clamores e á
revolta com o decreto d'hoje:
Senhor—São bem
conhecidas
de Vossa Magestade as
occorrencias dos ultimos mezes, em que uma pequena minoria
d'elementos revolucionarios criminosos tem ultimamente
procurado impedir a vida politica e representativa
do Paiz, alterar a ordem publica e pôr em perigo a
segurança
das pessoas e das propriedades.
Imperturbavelmente tem o governo obedecido ao proposito
de limitar a acção das medidas de circumstancia
á
esphera restricta de legitima defeza social, reduzindo-as ao
que de momento se tem afigurado absolutamente indispensavel,
sempre na esperança de que essa
publicação fosse
um meio preventivo sufficiente e constituisse aviso efficaz
aos agitadores.
D'essa ordem d'ideias derivaram o decreto de 21 de
Junho sobre publicações attentatorias da ordem
publica e
o de 21 de Novembro sobre crimes contra a segurança do
Estado, das pessoas e das propriedades.
Factos dos ultimos dias vieram, porém, demonstrar
que as tentativas e propositos criminosos, longe de afrouxarem,
se teem mantido obstinadamente e aggravado a
ponto de ser urgente e indispensavel o rapido afastamento
do nosso meio social dos principaes dirigentes e instigadores
d'esta pertinaz conspiração contra a paz publica
e segurança
do Estado antes que perdas lamentaveis de vidas
venham accrescentar se ás desgraças já
occasionadas e, porventura,
originar prejuizos irremediaveis ao credito publico
e á fortuna nacional.
Ha poucos dias ainda, o governo da Nação vizinha
apresentou ás côrtes um projecto de lei que
auctoriza a fazer
sair do reino por deliberação do conselho de
ministros, sob
prévia informação das auctoridades
locaes, as pessoas que
pertençam a associações hostis
á ordem social e que de
semelhantes principios façam propaganda, e como sejam
estes factos muito graves e perigosos, seguramente não o
são mais nem podem ter mais larga, mais profunda
repercussão
em toda a vida nacional que os tramas e attentados
para mudar violenta e criminosamente a forma de governo
de Estado.
N'essa ordem d'ideias, procuramos com o
presente diploma,
habilitar tambem o governo com a faculdade d'expulsar
do Reino ou fazer transportar para uma provincia
ultramarina aquelles que, uma vez reconhecidos culpados
pela auctoridade judicial competente, importe á
segurança
do Estado e tranquillidade publica e interesses geraes da
Nação afastar, sem mais delongas, do meio em que
se mostrarem
e tornarem perigosa e contumazmente incompativeis.
Não podem, por egual, gosar immunidades parlamentares
aquelles que contra a segurança do proprio Estado
se manifestam ou que como inimigos da sociedade se
apresentam.
Taes são, Senhor, as principaes
disposições do diploma
que tenho a honra de submeter á
apreciação de Vossa
Magestade.
Paço, em 31 de Janeiro de 1908.
João Ferreira Franco
Pinto Castello Branco—Antonio
José
Teixeira
d'Abreu—Fernando
Augusto Miranda Martins de Carvalho—Antonio
Carlos Coelho Vasconcellos Porto—Ayres
d'Ornellas
de
Vasconcellos—Luciano Afonso da Silva
Monteiro—José
Molheira Reymão.
*
O Alpoim fugiu para a Hespanha.
*
O Cunha e Costa:
—Ha mais de duzentas pessoas apostadas em
matar o João Franco. Isto acaba por um atentado
pessoal.
1 de Fevereiro—1908.
Está uma tarde linda, azul, morna, diaphana.
Converso na livraria Ferreira com o Fialho,
quando entra esbaforido e palido, o pintor Arthur
de Mello, que conheço do Porto, e diz n'um
espanto, ainda transtornado:—Acabam de matar
agora o rei!—O quê?!—Eu vi, ouvi os
tiros,
deitei a fugir...
Fecham-se á pressa os taipaes das lojas. Uma
mulher do povo exclama:—Mataram agora o rei.
Vi os que o mataram. Eram tres. Dois lá estam
estendidos. Passou um agora por mim, a rasto,
com a cabeça despedaçada!...—Ha palmas
para
o lado da praça da Figueira. Anoitece. Um
esquadrão
desemboca da rua da Mouraria... Mais
tarde no comboio, um empregado do Jorge
O'Neill confirma:—Vi do escriptorio um policia
correr atraz d'um dos assassinos. A certa altura
cahiu-lhe o chapeu: era calvo. O policia varou-o
com um tiro.
E pela narração do Mello, do Armando Navarro
e d'outros, que assistiram, reconstituo
assim a tragedia:
O comboio descarrilara. Seguia atrazado. Durante
o trajecto o rei não fumou nem jogou,
como costumava. Vinha aprehensivo e a autopsia
demonstrou mais tarde que não tinha comido
n'esse dia.
O Malaquias de Lemos contou que na vespera,
em Villa Viçosa, o rei jogara com o principe.
Era ao entardecer. Na chaminé um grande
brazeiro. Trouxeram-lhe uma carta. Para a lêr
melhor, levantou-se, chegando-se á janella. Duas
vezes a percorreu com a vista, e depois rasgou-a
em bocadinhos que atirou ao lume. Petrificou-se
um momento envolto na sombra...—El-Rei não
joga?—perguntou o principe.—Jogo,
jogo...—Sentou-se,
jogou, mas tão preocupado que quasi
não jantou n'esse dia nem almoçou no seguinte.
Nem uma nuvem. «Tarde sem par»—escreveu
Ramalho.—Linda tarde para uma bomba—exclama
uma menina da alta, na ponte da estação.
Havia, é natural, um certo receio, e a duqueza
de Palmella, ao ouvido de João
Franco:—Não
haverá perigo?—V. Ex.
a vae
ver que
ovação!—Tinha-lha
preparada para a recita da noite, em
S. Carlos. O rei e a rainha detiveram-se uns minutos,
com o João Franco e o Vasconcellos Porto,
que queria mandar vir um esquadrão de cavalaria
para acompanhar o rei. D. Carlos opoz-se.
O carro descoberto partiu a chouto, com toda a
familia real junta. Ao pé da estatua um grupo...
Dissiminados pela Arcada alguns policias, e, sentado
n'um banco da praça um homem de varino,
que veio, sem precipitação, colocar-se
á porta do
ministerio do reino
[6].
Os empregados da fazenda tinham-no notado.
Seria um bufo? Os bufos eram tantos, que se não
conheciam uns aos outros.—«Eu assisti—diz
o Navarro.—Fui
para lá uma hora antes fumar o meu
charuto. Tres descargas cerradas partiram da Arcada
do ministerio da fazenda. Ficou tudo desorientado.
Os policias deitaram a fugir»... Um negociante
da rua de S. Julião teve de os sacudir
da escada. «Eu estava a quatro passos—confirma
o pintor Mello. Um homem subiu ás trazeiras do
carro, olhou o rei cara a cara e deu-lhe um tiro
de rewolver. Vi um fumosinho branco sahir-lhe
do pescoço. O rei voltou-se, e, cem annos que eu
viva, nunca mais me esquece a expressão de espanto
d'aquella mascara. Disse uma palavra que
não percebi bem»...—«Ao
primeiro
tiro—continua
o Navarro—a cabeça do rei descahiu para
a frente, ao segundo tombou para o lado». O
Buiça, que tirára a carabina debaixo do
gabão,
apontava e descarregava. O principe real ergueu-se—cahiu
varado. A rainha, louca de dôr,
sacudia o Alfredo Costa com um ramo de
flores.—Então
não acodem?! Não ha quem me
acuda?!—Ninguem.
Um cartuxo falhara ao Buiça:
sacou-o, e ia apontar outra vez, quando o Francisco
Figueira o estendeu á cutilada. Ouvi que,
logo aos primeiros tiros, alguem procurara intervir—mas
uma roda de gente desconhecida protegeu-o.
Succederam-se então os tiros sem
interrupção.
Muita gente falou em descargas... A policia
disparava os rewolveres a torto e a direito.
O Correia de Oliveira esteve para ser morto:—Vinha
de chapeu alto e foi o que me valeu!...
Um policia avançou direito a mim com o rewolver
apontado, exclamando como um doido:—Matei
agora um! matei agora um!
*
Correu hoje que o João Franco se suicidára
e que o tinham acabado a tiro quando sahia do
Paço.
*
O infante D. Afonso seguia desvairado atraz
do carro, com o rewolver em punho, dizendo:
—O mano nunca quiz ouvir os conselhos
da mãe!
Depois, no Arsenal, para onde foram conduzidos
o rei e principe, teve este movimento colerico:
bater no João Franco.
*
Acusam á boca cheia o João Franco—que
não tomou precauções para o
rei—de se
meter
por um corredor quando foi ao Arsenal, e de, mais
tarde, endireitar por uma cavalariça, para se enfiar
na carruagem. De alguns ministros diz-se
que, aos primeiros tiros, se esconderam no sotão
dos ministerios entre a papelada e as cadeiras
sem fundo.
*
A rainha no Arsenal disse ao João Franco:
—Veja a sua obra...
*
O rei chegou ao Arsenal já sem vida; ao
principe custou-lhe muito a morrer. Foram ungidos
depois de mortos. O padre não teve escrupulos,
porque os medicos garantiram-lhe que
a vida podia prolongar-se por meios artificiaes.
*
Do Arsenal seguiu a marcha tragica para as
Necessidades; n'um carro a rainha e o D. Manuel,
n'outro carro o cadaver do rei, que a custo
conseguiram meter lá dentro, e que o oficial de
serviço amparava, e, no ultimo, o duque de
Bragança.
Que se iria seguir? A revolução? Um negrume,
o terror do inesperado, afasta do Paço
todos os que lá deviam estar áquella hora. Vem
a noite... Se seis tambores fossem rufar para
deante do Paço a monarchia acabava hoje mesmo.
Espera-se tudo, espera-se o peor. E cada
um trata de não se comprometer, ou de se comprometer
o menos possivel...
*
Phrase cruel d'um popular:
—Foi caçado como elle caçava os
javardos—e
em tempo defezo.
*
No dia dois, depois da morte do rei, foram
assaltados alguns quarteis, evidentemente chamando
as tropas á revolução. Em artilharia
os
soldados sahiram das casernas e fizeram fogo:
os oficiaes não os puderam conter. Em Campo
d'Ourique houve tiroteio. No alto da Avenida
ficaram estendidas vinte e tantas pessoas.
*
A caminho do Paço, depois do atentado, o
pequeno dizia:
—Vamo-nos embora! vamo-nos embora!...
E a rainha:
—Has-de cumprir o teu dever até ao fim.
D. Carlos I de Portugal.
D. Carlos I de Portugal.
O organisador da revolta militar era Candido
dos Reis, oficial superior da armada. Muitos oficiaes
se reuniam no Arco da Bandeira.
*
Na tarde do regicidio estavam na Arcada
homens com faixas á espanhola e as faixas
cheias de bombas. Diz-se tambem que havia varios
grupos postados nas esquinas até ás Necessidades.
*
A rainha, quando o João Franco chegou
ao Paço:
—Foram portuguezes?
—Foram.
—Ahi tem o que o senhor fez dos portuguezes.
E a Maria Pia, que há muito o não pode ver:
—Diziam por ahi que o senhor era o coveiro
da monarchia, mas o senhor foi peor, foi o assassino
do meu filho e do meu neto!
Isto cheira a phrase feita, mas como esta repetem-se,
insiste-se, inventam-se outras mais.
*
O João Franco tinha perdido a cabeça.
Só
elle mandava: não queria ouvir ninguem. Quando
fugiu d'uma esquadra um homem que estava
preso pelo fabrico de bombas, o juiz d'instrucção
criminal foi-lhe dar parte do caso. Ficou
furioso:
—Vá beber da merda!
—Digo a V. Ex.
a que a policia
não
teve culpa...
—Vá beber da merda o senhor e a policia!
—Mas...
—Vá beber da merda! vá beber da merda!
vá beber da merda!
*
Diz-se que o Alpoim estava escondido em
casa do Teixeira de Souza e que fugiu emquanto
a policia lhe cercava a casa.
*
Paçô Vieira:
—Na noite do regicidio fui ao Paço, com o
Campos Henriques. O Julio de Vilhena, a quem
procurei em casa, não foi porque lhe faltava um
botão na braguilha. Assisti a tudo: tiraram o rei e
o principe de dentro do carro. O rei estava disforme.
A rainha, se tinha dito alguma coisa desagradavel
ao João Franco no Arsenal, no Paço
não lhe disse palavra. A Maria Pia perguntava
de quando em quando:—A mo
—Na noite do regicidio fui ao Paço, com o
Campos Henriques. O Julio de Vilhena, a quem
procurei em casa, não foi porque lhe faltava um
botão na braguilha. Assisti a tudo: tiraram o rei e
o principe de dentro do carro. O rei estava disforme.
A rainha, se tinha dito alguma coisa desagradavel
ao João Franco no Arsenal, no Paço
não lhe disse palavra. A Maria Pia perguntava
de quando em quando:—A morte do rei será
muito sentida?—Estava tudo preparado para
uma revolução. O Afonso Costa não deu
o signal
porque esperava a morte do Franco. Pormenor
absolutamente authentico: o João Franco ainda
se ofereceu para governador civil de Lisboa.
—Na noite tragica o Antonio Candido foi
dos raros que apareceram no Paço. Estavam lá
tambem o Campos Henriques e o Teixeira de
Souza. Mais ninguem—nem sequer o corpo diplomatico.
Esperava-se a cada momento a revolução.
Os creados carregaram em padiolas pelas
escadas acima os corpos do rei e do principe.
A D. Amelia passeava na sala de cá para lá,
infatigavelmente. Passou, perguntou-lhe:—Que
diz o Antonio Candido?—Elle não respondeu e
ella continuou a passear de cá para lá como um
automato. A rainha velha estava sentada n'uma
cadeira, sem uma palavra, sem uma lagrima,
d'olhos vitreos fixos na parede. E assim ficou
horas, muda e de pedra, emquanto a D. Amelia
passeava na sala, de cá para lá,
infatigavelmente...
3 de Fevereiro—1908.
Venho agora de Lisboa e—caso curioso—a
impressão geral é d'alivio. Respira-se. Estava
muita gente n'um grupo: o João Barreira, o Armando
Navarro, o Rangel de Lima, o Antonio
Arroyo, o Columbano, o Maximiliano d'Azevedo,
e todos concordaram em que o rei era mau e
quasi glorificaram os homens que o assassinaram.
—Era um pulha, um pulha e um doido. Vejam
o retrato que vem estampado no
Je sais
tout... Era elle quem escrevia cartas anonimas
á
propria mulher—afirma o João Barreira.
—Foi um grande exemplo e uma tremenda
lição.
—Se escapa tinhamos ahi uma dictadura feroz.
Era capaz de tudo!
Só o Manuel Ramos, obstinado e cego, teima:
—A memoria do rei há-de ser rehabilitada.
*
No conselho d'estado o João Franco foi absolutamente
inconsciente. Por proposta do Julio de
Vilhena não se leram as actas da sessão anterior,
como é costume, para lhe não ser completamente
desagradavel.