*


O João Franco teimou até á ultima, agarrou-se a tudo, para meter um ministro no governo—o Penha Garcia. Disseram-lhe:

—Mas não pode ser, bem vê que o governo tem de revogar a maior parte das suas medidas.

—Mas eu concordo com isso. Eu escrevo até uma carta concordando com isso.


*


A ultima piada do ministro dos estrangeiros, Luciano Monteiro:

—Então V. Ex.a não faz testamento?

—Não, o rei tambem o não fez...


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O rei e os principes traziam rewolveres comsigo. Afirma-se que o principe real e o infante D. Manuel ainda chegaram a dar dois tiros n'um dos assassinos.


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Hoje correram boatos de revolta no Porto, de ter chegado a Cascaes uma esquadra ingleza, etc.. Tudo falso.


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No Paço, na camarilha, havia dois partidos, o do rei e o da rainha. O da rainha está agora de cima.


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Insiste-se em que se o rei escapasse ao atentado havia uma hecatombe. Diz-se que o Fontes, que tinha a qualidade intuitiva de conhecer os homens, dizia de D. Carlos:—«Nunca o pude perceber».


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Agora voltam-se as atenções para o novo rei. Dizem:—É Saboia.—No conselho d'estado foi simpatico. Chorou, entregou-se nas mãos dos que o ouviam:—Não estou preparado para reinar.

Os irmãos adoravam-se. O que foi assassinado zangava-se quando este lhe chamava prior do Crato. D. Luiz Fillipe era mais reflectido. Este é mais impetuoso—mas tem melhor coração.


Fevereiro—1908.


Nos ultimos tempos o rei tinha scenas violentissimas com a D. Amelia.


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A impressão no Porto foi curiosa: Quem ás onze horas da noite passava na praça de D. Pedro via muita gente aos grupos de dez a onze pessoas cada um. Ninguem discutia, não se falava alto. Era um borborinho de quem conversa em segredo, a medo—ch... ch... ch...—ao ouvido. A noticia soube-se pelo telephone do Borges & Irmão.


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Foi no automovel do Baltar do Janeiro que o Alpoim se safou para a Hespanha.


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As Anjos contaram á D. Maria Augusta que o electricista de S. Carlos tinha tudo preparado para o D. Carlos morrer quando se encostasse ao rebordo do camarote no theatro.

O homem suicidou-se quando se viu descoberto.


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O novo rei não gosta de sport. Sofre de reumatismo. Adora a musica. Em pequeno dizia:

—Reger uma orchestra n'uma grande sala e ouvir no fim os aplausos do publico, isso sim, é que é gloria!...

As meninas da alta roda, falando d'elle, diziam desdenhosas:

—Isso são mariquices do senhor infante.


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Uma velha, a tia Julia, da familia Bordallo:

—Coitadinho do principe! Parecia mesmo uma menina!... E não estava estragado como estes rapazes d'agora. Tinha uma carinha de menina. E não era porque elle não tivesse vontade, era porque o não deixavam!...


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Muita gente que tinha bombas em casa tem-nas deitado ao rio.


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Da camarilha contam-se coisas como esta. Alguem me diz:

—Conheço uma senhora muito de bem, a quem este e aquelle (e cita os nomes) foram fallar da parte do rei, para ir a bordo do yacht. Ella deu-lhes uma desanda tremenda.


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O João Franco já tinha organisado listas de proscripções. A alguns administradores de concelho foram enviadas circulares, pedindo o nome dos individuos que na localidade entravavam a marcha do governo.


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O pae do João Franco e os redactores do Jornal da Noite foram corridos do Suisso.


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Trindade Coelho conta que João Franco, nas vesperas dos acontecimentos, foi consultar a bruxa—M.me Brouillard, uma transmontana esperta que ahi está em Lisboa.


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Já ha seis contos para a familia do Buiça. Muita gente lhe arrancou botões, cabellos, bocados de vestido. João de Deus Guimarães foi vel-o á morgue. Era prohibido tocar no cadaver. Entrou em conversa com o guarda:

—Ah! O Buiça tem ainda o braço rigido!

—Qual!

—Parece...

—Já teve, já, mas agora está lasso.

—Mas olhe que...

E aproximando-se do cadaver correu-lhe a mão pelo braço, como quem apalpa, e deu-lhe um formidavel aperto de mão.

O frigorifico é um buraco, e os tres cadaveres foram atirados uns por cima dos outros a trouxe mouxe, de mistura com pedaços de gelo. Toda a gente tira o chapéu e fala baixinho. O regicid é um buraco, e os tres cadaveres foram atirados uns por cima dos outros a trouxe mouxe, de mistura com pedaços de gelo. Toda a gente tira o chapéu e fala baixinho. O regicida está amarfanhado, com lama na barba e nos cabellos. Seus olhos não são olhos de morto—exprimem espanto e colera, e a figura é séria, é tremenda. Tem rasgões, feridas na cara, e mãos nervosas, mãos delicadas de mulher.


*


Diz hoje um professor que conheceu o Buiça:

—Era um homem profundamente serio e que protestava sempre com colera, quando se lhe falavam em politica:—Não me falem em politiquices! não me falem em politiquices!


*


O João Pinto dos Santos:

—Emquanto estive preso alimentei-me de vegetaes e de odio. Nos primeiros dias aquillo impressionou-me; mas logo que tive livros serenei... Queriam fechar as janellas, mas eu disse ao Malaquias de Lemos:—O ar não! o ar não m'o tirem, prefiro morrer! E tambem lhe peço que quando bater á porta m'a abram logo, senão não aguento. Antes duas balas!—Deixaram-me a janella aberta... Mandei vir uns poucos de fatos, calças de verão, d'inverno, etc.—para ter a sensação de que estava livre. Depois emprestaram-me livros. Entre outros um volume de viagens na China, onde ha algumas paginas sobre a vida da mulher chineza. E aquillo fez-me chorar, tão certo é que a desgraça nos aproxima dos desgraçados. Afinal chegaram os livros que tinha pedido, um compendio francez de philosophia, sete calhamaços de economia politica—e fui quasi feliz. O juiz interrogou-me:—Porque está preso?—Não sei.—Há uma testemunha que o viu no elevador da bibliotheca.—É falso. Estava n'uma casa perto da bibliotheca, para combinar com o Alpoim e alguns amigos a nossa atitude perante as prisões que estavam sendo feitas.—Chamou-se um policia a quem o juiz perguntou: —Conhece o snr. João Pinto dos Santos?—Não senhor.—Diante d'isto é claro que o juiz tinha de me mandar embora. Que imagina que fez o João Franco? O João Franco avocou o processo a conselho de ministros e condemnou-me! Era odio pessoal. Na municipal fui sempre bem tratado.

—E souberam?

—Alguma coisa presentimos na noite em que foi atacado o regimento de Campo d'Ourique. Supozemos uma revolução gorada. Se atiram bombas ao quartel eramos indubitavelmente fuzilados. Uma noite ouvimos formar as tropas, carregaram com precipitação as armas, um oficial passou a correr e diante do meu quarto bradou á sentinella:—Cuidado com esse sujeito!—O Chagas disse-me hontem que, quando chegou á janella, um soldado lhe fez um manguito. Os oficiaes é que continham a soldadesca—mas até onde?

—E disse no seu depoimento que havia de matar o João Franco?

—É falso; o comandante da guarda falou-me n'isso e eu respondi-lhe:—Bem vê V. Ex.a que não quero que meus filhos possam dizer:—Meu pae foi um assassino.—Isso não! Mas se um dia, depois de o insultar bem insultado, n'uma discussão em plena camara, elle avançar para mim, deito-lhe as mãos ás guellas, e nem V. Ex.a nem toda a guarda municipal m'o arrancam das unhas!


*


Ha quem diga do João Franco:—Foi sempre um cobarde. Em Coimbra a valentia vinha-lhe do José Lobo e dos irmãos, uns tipos d'aquelle feitio, e agora da municipal e da policia. O pae era a mesma coisa, e o tio, o Mil diabos da capinha, dava tiros e fazia disturbios sempre que tinha as costas quentes.


*


João Franco fazia cincoenta e quatro annos este mez de Fevereiro.


8 de Fevereiro—1908.


É hoje o dia do enterro. Essa gente que veio de fóra para assistir ao funeral, principes, duques, generaes, diplomatas, está cheia de medo. E por ahi diz-se á bocca cheia:

—Ainda bem que foram portuguezes os que executaram o rei. É a primeira vez que um rei portuguez morre ás mãos do seu povo. Até agora acabavam ás mãos das camarilhas.


*


Não me sae dos olhos este quadro do enterro. Esperam-se bombas... Os sinos tocam, todos os sinos das egrejas; rufam os tambores cobertos de luto. Desfilam coches com principes e carros com fardas. Um homem apregoa:—O ultimo granadeiro! quem quer O ultimo granadeiro?—Mais carros, mais coches, o filho do imperador da Allemanha, guardado por uma escolta de prussianos, que o pae mandou com elle com medo que lh'o matem. Tropas em fila, carroças de gala, generaes, diplomatas glabros, com o olho desconfiado e vontade que aquillo termine depressa... Agora a carroça com o sceptro e a corôa, e outra com crepes a rasto como se levasse o luto da monarchia.—O ultimo granadeiro!...—Mais coches, e aqui e alli o desfile cortado pela multidão irrespeitosa. Um laivo de grotesco na tragedia, riscos exagerados de carvão que fazem medo... Phisionomias lividas nas fardas pomposas, decorações, gente que mal se atreve a olhar a plebe temerosa—silencio e um largo ah! a que se segue uma gritaria d'inferno. Bicha de carros interminavel, mortos por largarem n'uma abalada de pavor—carros funerarios passando entre a indiferença gelada—farrapos de multidão que atravessam o prestito propositalmente, tropas esbandalhadas, corôas que parecem velhas... E por fim mais tropas e o mesmo grito insistente:—O ultimo granadeiro! quem quer O ultimo granadeiro?...

Dias mais tarde havia sujeitos que se chegavam á beira das pessoas que deitavam luto e perguntavam-lhe com ar de troça:—Então morreu-lhe alguem da familia?...


*


O Correia d'Oliveira:

—Se visse!... Quasi ninguem tirava o chapeu quando o enterro passou... A sombra do rei comeu, sumiu a do principe.


*


Tem-se distribuido muitos papeis com estes dizeres:


Morte aos Sanguinarios
Afonso Costa, Alpoim, Ribeira Brava,
os Verdadeiros Assassinos

DE EL-REI E DO PRINCIPE REAL.


E outros, escriptos á machina, atribuindo o crime a este e áquelle...


*


A preocupação do rei é esta:

—N'este caso que faria D. Pedro V?


*


O João Franco possue cartas do rei, em que elle lhe apontava escandalos em diferentes secretarias.


*


O dr. Curry Cabral, que é um homem ponderado, disse em casa das Thomares:

—Ha cinco annos que o João Franco está doido.

E o Silva Bastos, que foi da sua intimidade:

—Ás vezes avançava para a gente de punhos fechados, n'um phrenesi. Depois dava-lhe a nevralgia e deitava as mãos á cara ou desatava aos berros—e, n'um instante, como n'uma roda que gira vertiginosamente e vae passando por dois buracos, lia-se-lhe nos olhos, sucessivamente e sem interrupção, colera, despreso, ambição, serenidade, medo, orgulho, riso, ferocidade, paz, vertigem...


*


E outro:

—Era a obra de Martins posta em pratica por um doido. Sómente o Martins dissera, arrependido, a Junqueiro:

—Nas penitenciarias está gente muito melhor que o rei.


11 de Fevereiro—1908.


Espalha-se que, se isto não socegar, o rei e a rainha se vão embora e o estrangeiro toma conta das colonias. Pede-se repressão. Diz-se que há oficiaes de artilharia e cavalaria que querem fazer uma intentona—e os politicos já se não entendem por causa das nomeações dos governadores civis!


*


O João Chagas surge na livraria, mais gordo, com um esplendido casacão alvadio:

—Tenho estado preso diferentes vezes, mas nunca senti tanto a falta de liberdade como d'esta. Das outras falava, tinha ar e luz á minha disposição. Agora foi a incomunicabilidade absoluta. E, se atirassem bombas ao quartel, eramos despedaçados. E eu, que sabia que alguns grupos tinham combinado tudo como quem resolve um problema—dizia comigo:—Se esses diabos não têm a caridade de se lembrarem de nós, estamos perdidos!—Um dia á noite tive a impressão nitida de que iamos ser fusilados. Ouvi reboliço, as tropas carregaram as armas, e até senti que, com a precipitação, deixavam cahir alguns cartuxos. Tentei espreitar por um postigo. Um oficial que passou correndo disse á sentinela:—Cuidado!—O frio era mortal. O soldado encostou-se á porta—não pude espreitar. Ignorava tudo. Estendi-me em cima da cama e só ás quatro horas da manhã sucumbi de cansaço... Que horas! É horrivel morrer assim sem lucta. Cheguei a fazer um pequeno testamento...


Oliveira Martins.—Desenho de Antonio Carneiro.
Oliveira Martins.—Desenho de Antonio Carneiro.


E o João Pinto dos Santos:

—Pude ver d'uma vez o Diario Illustrado, nas mãos d'um soldado, com o retrato do rei, mas calculei:—chegaram de Vila Viçosa.

—Mas nem sequer reparou na tarja de luto?

—Eu não. O Antonio José d'Almeida diz que reparou e que desconfiou que o rei tinha sido morto.

—Os oficiaes—continua o Chagas—trataram-me muito bem, mas á despedida disse-lhes:—Agradeço-lhes muito a amabilidade com que me trataram, mas para outra vez prefiro ir para a Penitenciaria. Lá talvez chegue algum rumor.

E conclue:

—Acalmação sim, acalmação, se assim o entenderem, durante alguns mezes. Ah não foi em vão que trabalhamos vinte annos!...


*


Fui hoje ao café do Gelo ver o sitio onde o Buiça se reunia com os amigos. O café é já de si curioso, com duas salas d'aspecto completamente diverso, uma para o Rocio, d'aparato; outra, nas trazeiras, baixa, para os freguezes envergonhados, com portas para a rua do Principe. Era ali, n'aquella meza, do canto, á direita quem entra pelas trazeiras, que o professor se juntava com os outros e passavam horas a conversar baixinho.

—Eram muitos?

—Ás vezes doze ou quinze—diz o creado.—E ficavam até tarde em grandes discussões...


*


Todos os politicos são concordes n'isto: o D. Carlos gastara nos ultimos annos, alem da dotação, dez ou doze mil contos.


*


E toda a gente diz que era um mentiroso e que difamava a mulher. Ainda hoje alguem contou que um dia apareceram uns papeis inventando infamias da rainha com a Sandoval. Investigou-se. E o José Luciano disse logo:—Escusam de procurar, isso é d'El-Rei.


*


O Seculo, disse-me o Avelino d'Almeida, tem tido tiragens de 160:000 exemplares.


Fevereiro—1908.


Depois da morte do rei o Arnoso foi ao Malaquias de Lemos propor-lhe a contra revolução.

—Nem me fale n'isso. Se veem para a rua corro-os a bala raza e vou já d'aqui contar tudo ao Ferreira do Amaral.


20 de Fevereiro—1908.


Era hoje que devia rebentar a contra revolução, para impôr ao Paço uma dictadura militar.


*


Hoje fui a casa do Schvalbach, ao Conservatorio. Coisas antigas e louça das Caldas, velhos quadros do Liborio e tectos pintados em caramanchão pelo Augusto Pina. O homem está aqui: é uma revista de anno—dificuldades de que sae com um sorriso, enredo, e um fio de oiro e de ternura a envolver tudo isto...

Conheceu o rei e explica-o:

—Quando queria era um charmeur. Ás vezes ninguem o podia aturar e mentia como uma cesta rôta. Ultimamente déra nesta: quando se falava d'alguma rapariga bonita, ahi dos seus quinze annos, dizia com um sorriso:—É minha filha.

E conclue:

—Era um grande pantomimeiro!


Fevereiro—1908.


O Antonio José de Freitas, amigo do Paço, do Arnoso e do Sabugosa:

—O rei era d'estes homens que gostam de esconder as boas qualidades e de salientar os seus defeitos. Inteligente, de bom coração, artista, não soube ou não quiz tratar com os homens. Podia ter com elle todos os que pensam ou escrevem em Portugal—afastou-os. Ha annos para cá o caso explica-se: garanto-lhe que, depois que teve o tipho, ficou impotente e sentia-se humilhado e inferior ao primeiro gallego que passa na rua... Ha cartas d'elle adoraveis de simplicidade, ha casos da sua vida e da vida palaciana que se não comprehendem.

—E como artista?

—Era elle, sem duvida, que fazia com talento os esboços. Mas, como não tinha tempo—outros lhe acabavam os quadros... Como rei só teve um mal—começou a sel-o apenas ha um anno.


Fevereiro—1908.


Todos os dias no Paço se recebem cartas anonimas com ameaças de morte. O medo é enorme. A rainha tem sempre deante dos olhos o quadro horroroso, e, se acorda de noite, quer por força vêr o filho.


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O Manuel Ramos:

Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice do rei, para lhe arrancarem medidas de repressão. Se o viam hesitar:—Mas se Vossa Magestade receia...—E elle logo decidido:—Eu não!—E assignava tudo. E fique você sabendo: não foi elle só que comeu: a maior parte do dinheiro, dos dez ou doze mil co Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice do rei, para lhe arrancarem medidas de repressão. Se o viam hesitar:—Mas se Vossa Magestade receia...—E elle logo decidido:—Eu não!—E assignava tudo. E fique você sabendo: não foi elle só que comeu: a maior parte do dinheiro, dos dez ou doze mil contos gastos a mais, ficou no bolso dos politicos.


Fevereiro—1908.


A guarda-fiscal de Cascaes tem ordens apertadas. Teme-se um desembarque de armas e munições.


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Foi prohibido o desfile do publico diante dos cadaveres regios, porque a urna do rei era coberta de escarros!


Fevereiro—1908.


O João Chagas:

—Tem visto a atitude palaciana do Dia? Eu, de mim, tenho um caderno com este titulo Alpoim e todos os dias collo pedaços do Janeiro e do Dia. Tome logares porque vai assistir a um espectaculo estraordinario... Nunca o estrangeiro fez tanta pressão sobre nós como agora... Impõe-nos um governo—e esse governo, não podendo ser rotativo, ha-de sahir da praça publica. Ora não sendo republicano, á maneira do que se fez na Italia ou no Brasil, vae ser do Alpoim. E verá! verá!... Eu já disse: escrevo logo um artigo com este titulo O Regicida, se elle e os seus amigos nos atraiçoarem—os seus amigos, que, diante de mim e de Afonso Costa, se declaravam todos republicanos. D'antes procuravam-nos todas as noites, agora fogem-nos. Vae ver, vae-os ver servirem-se da policia contra nós. Oh, mas eu hei-de declarar que elles é que nos forneciam as bombas! O Alpoim ha-de morrer ás nossas mãos!


Março—1908.


O Brazão conta que na première do Othelo, o irmão de Augusto Machado foi cumprimental-o ao camarim:

—Vaes admiravelmente no papel, mas deixa-me dizer-te (aqui para nós) a peça é uma grande borracheira...


9 de Março—1908.


Na recepção de ante-hontem a raínha tinha os olhos cheios de lagrimas sufocadas e disse:

—Não tenho medo por mim, é por elle...

—Os politicos, agora vão ter juizo...—disse alguem. E ella respondeu:

—Os politicos não teem coração.

E o rei dizia a um e a outro:

—Seja bom portuguez e meu amigo.


Março—1908.


—Vou a Lisboa—diz o Columbano ao conde d'Arnoso.

—Tambem eu vou a essa Penitenciaria onde andam os assassinos á solta.


Março—1908.


Antonio José de Freitas:

—O Marianno de Carvalho tinha ido a Paris negociar um emprestimo e, conversando com Rouvier, perguntou-lhe:

—Se se fizer a republica em Portugal?...

—Que me importa! Que me importa mesmo que se faça a republica em Hespanha. Mas se se fizer a federação iberica, então alto lá! fazemos a federação latina.


Rodrigo da Fonseca dizia dos Castilhos:

—Que familia! O melhor de todos é o cego—mas esse mesmo, se tivesse olhos, era preciso furar-lhos!


Março—1908.


O João Chagas:

—O Alpoim foi quem nos forneceu as armas para a revolução. Foi o que elle fez. Nós tinhamos homens, elles deram-nos as armas e uns contos de reis. Todos elles se declaravam republicanos, menos o Moreira d'Almeida, que disse:—Eu não só não sou republicano, mas sou anti-republicano.—Quando sahiamos das reuniões, eu e o Afonso Costa riamos ás gargalhadas.

Este João Chagas tão facil, tão insinuante, com o riso prompto nos labios grossos e sua pôpa branca no alto da cabeça, nunca conversa, nunca o vi conversar: se encontra alguem, seja onde fôr, conspira logo. Tem passado a vida, sempre simpathico e facil, sempre bem vestido e correcto como um actor que desempenha o seu papel. Mas no fundo d'esta alma, sob este riso e esta pôpa que parece pintada, só existe uma vontade que nunca esmorece, uma ambição tenaz e um egoismo feroz.

—Isto ha-de resolver-se em 1909. Ah, não passa d'ahi! É um conflicto inevitavel. Que me importa o Porto?

E como eu duvide:

—Temos o exercito comnosco. Até na municipal. Na provincia ha terras em que os regimentos são completamente nossos.


Abril—1908.


Hontem no Porto encontrei o Junqueiro, mais velho, mais magro, e a proposito da atitude palaciana de Eduardo Burnay no Jornal do Commercio, conta que elle em tempos, quando atacava o rei, o fôra procurar ao Porto e lhe disséra do D. Carlos:

—D'uma vez, n'uma d'aquellas ceias que dava no Alemtejo aos esturdios seus amigos, ofereceu a cada conviva uma navalha de ponta e mola, com as armas reaes.


Novembro—1908.


A rainha não disse que conhecia o assassino do rei. Phrase textual ouvida pelo Batalha Reis:

—Os outros não os conheço, mas aquella cara do homem das barbas nunca mais me sae dos olhos
[7].


Dezembro—1908.


O caso do dia é este:—Um alferes da guarnição no Paço, quando assistia ao jantar levantou-se, e, contra todas as regras e todas as conveniencias, falou ao rei pouco mais ou menos n'estes termos:—Vossa Magestade anda iludido.

Esta gente que o cerca engana-o. A situação do paiz é deploravel, etc.

Imaginem, se podem, as atitudes, o espanto, o espectaculo d'esta gente, interrompida pela primeira vez naquella representação em que o formulario é respeitado como um culto. Mas na verdade o alferes disse o que cada um sente no fundo da sua consciencia. Foi inconveniente, mas poz o dedo na ferida. O rei está rodeado de ficções e de mentiras. Não soube assumir as responsabilidades do pae, com decisão e coragem, nem totalmente repelil-as.

Enredam-no. Os politicos dão-se o ar de o proteger e é elle quem os protege. Hesita, tem medo... Sente-se que tudo isto vacila...


Janeiro—1909.


—Esta vida artificial como lhe sinto a falta!—exclama o Fialho ali ao pé do Suisso.

—E porque não vive em Lisboa?

—Não posso! não posso! Se soubesse!... Tenho um irmão epileptico, que meu pae me legou á hora da morte. Não devo abandonal-o, nem entregal-o a mãos mercenarias... Depois as arvores, depois as vides, a que a gente cria amor...—Uma pausa triste, uma hesitação, uma duvida e acrescenta isto:—Não tenho tido quinze dias de felicidade em toda a minha vida!

Falamos de politica:

—Isto está a pedir sangue... E olhe: no Alemtejo não ha republicanos—ha odios. O pobre não pode vêr o rico. É uma gente roída de invejas e rancores, que passa annos e annos da vida a cubiçar um campo...


*


O João Barreira, pequenino, inalteravel, de capinha:

—A revolução abortou em onze de Fevereiro porque os chefes foram todos presos. O Chagas tinha nas mãos as chaves do movimento.


*


Quem são os regicidas?... O Ferreira do Amaral, ao sahir do ministerio, declarou que não tinha apurado nada de definitivo. Diz:—Eu bem sabia, por cartas anonimas, que se preparavam para me alijar, mas deixei-os fazer...—Porquê, almirante?—A situação não me era agradavel.


*


Novos boatos de intentonas, de massacres, novos boatos de reacção. Agora é certo!... Os regicidas vão ser presos. Conta-se que o Heitor Ferreira dissera:—Vendi a carabina a Fulano.—O ministerio Amaral cahiu, porque, dispondo de todos os elementos, não quiz prender os assassinos. Um dos regicidas está em França, mas Clemenceau recusa-se a extradital-o.