*
O João Franco teimou até á ultima,
agarrou-se
a tudo, para meter um ministro no governo—o
Penha Garcia. Disseram-lhe:
—Mas não pode ser, bem vê que o governo
tem de revogar a maior parte das suas medidas.
—Mas eu concordo com isso. Eu escrevo até
uma carta concordando com isso.
*
A ultima piada do ministro dos estrangeiros,
Luciano Monteiro:
—Então V. Ex.
a
não faz
testamento?
—Não, o rei tambem o não fez...
*
O rei e os principes traziam rewolveres comsigo.
Afirma-se que o principe real e o infante
D. Manuel ainda chegaram a dar dois tiros n'um
dos assassinos.
*
Hoje correram boatos de revolta no Porto,
de ter chegado a Cascaes uma esquadra ingleza,
etc.. Tudo falso.
*
No Paço, na camarilha, havia dois partidos,
o do rei e o da rainha. O da rainha está agora
de cima.
*
Insiste-se em que se o rei escapasse ao atentado
havia uma hecatombe. Diz-se que o Fontes,
que tinha a qualidade intuitiva de conhecer os
homens, dizia de D. Carlos:—«Nunca o pude
perceber».
*
Agora voltam-se as atenções para o novo rei.
Dizem:—É Saboia.—No conselho d'estado
foi
simpatico. Chorou, entregou-se nas mãos dos que
o ouviam:—Não estou preparado para reinar.
Os irmãos adoravam-se. O que foi assassinado
zangava-se quando este lhe chamava
prior
do Crato. D. Luiz Fillipe era mais reflectido. Este
é mais impetuoso—mas tem melhor
coração.
Fevereiro—1908.
Nos ultimos tempos o rei tinha scenas violentissimas
com a D. Amelia.
*
A impressão no Porto foi curiosa: Quem ás
onze horas da noite passava na praça de D. Pedro
via muita gente aos grupos de dez a onze
pessoas cada um. Ninguem discutia, não se falava
alto. Era um borborinho de quem conversa
em segredo, a medo—ch... ch... ch...—ao ouvido.
A noticia soube-se pelo telephone do Borges
& Irmão.
*
Foi no automovel do Baltar do
Janeiro que o
Alpoim se safou para a Hespanha.
*
As Anjos contaram á D. Maria Augusta que
o electricista de S. Carlos tinha tudo preparado
para o D. Carlos morrer quando se encostasse
ao rebordo do camarote no theatro.
O homem suicidou-se quando se viu descoberto.
*
O novo rei não gosta de
sport. Sofre de reumatismo.
Adora a musica. Em pequeno dizia:
—Reger uma orchestra n'uma grande sala e
ouvir no fim os aplausos do publico, isso sim,
é que é gloria!...
As meninas da alta roda, falando d'elle, diziam
desdenhosas:
—Isso são
mariquices do
senhor infante.
*
Uma velha, a tia Julia, da familia Bordallo:
—Coitadinho do principe! Parecia mesmo
uma menina!... E não estava estragado como
estes rapazes d'agora. Tinha uma carinha de menina.
E não era porque elle não
tivesse vontade,
era porque
o não
deixavam!...
*
Muita gente que tinha bombas em casa tem-nas
deitado ao rio.
*
Da camarilha contam-se coisas como esta.
Alguem me diz:
—Conheço uma senhora muito de bem, a
quem este e aquelle (e cita os nomes) foram fallar
da parte do rei, para ir a bordo do
yacht.
Ella deu-lhes uma desanda tremenda.
*
O João Franco já tinha organisado listas de
proscripções. A alguns administradores de
concelho
foram enviadas circulares, pedindo o nome
dos individuos que na localidade entravavam a
marcha do governo.
*
O pae do João Franco e os redactores do
Jornal da Noite foram corridos do
Suisso.
*
Trindade Coelho conta que João Franco, nas
vesperas dos acontecimentos, foi consultar a
bruxa—M.
me Brouillard, uma
transmontana esperta
que ahi está em Lisboa.
*
Já ha seis contos para a familia do Buiça.
Muita gente lhe arrancou botões, cabellos, bocados
de vestido. João de Deus Guimarães foi
vel-o á
morgue. Era
prohibido tocar no cadaver.
Entrou em conversa com o guarda:
—Ah! O Buiça tem ainda o braço rigido!
—Qual!
—Parece...
—Já teve, já, mas agora está
lasso.
—Mas olhe que...
E aproximando-se do cadaver correu-lhe a
mão pelo braço, como quem apalpa, e deu-lhe
um formidavel aperto de
mão.
O
frigorifico é um
buraco, e os tres cadaveres
foram atirados uns por cima dos outros a trouxe
mouxe, de mistura com pedaços de gelo. Toda
a gente tira o chapéu e fala baixinho. O regicid
é um
buraco, e os tres cadaveres
foram atirados uns por cima dos outros a trouxe
mouxe, de mistura com pedaços de gelo. Toda
a gente tira o chapéu e fala baixinho. O regicida
está amarfanhado, com lama na barba e nos
cabellos. Seus olhos não são olhos de
morto—exprimem
espanto e colera, e a figura é séria,
é
tremenda. Tem rasgões, feridas na cara, e mãos
nervosas, mãos delicadas de mulher.
*
Diz hoje um professor que conheceu o Buiça:
—Era um homem profundamente serio e
que protestava sempre com colera, quando se
lhe falavam em politica:—Não me falem em
politiquices!
não me falem em politiquices!
*
O João Pinto dos Santos:
—Emquanto estive preso alimentei-me de vegetaes
e de odio. Nos primeiros dias aquillo impressionou-me;
mas logo que tive livros serenei...
Queriam fechar as janellas, mas eu disse ao
Malaquias de Lemos:—O ar não! o ar não
m'o
tirem, prefiro morrer! E tambem lhe peço que
quando bater á porta m'a abram logo, senão
não
aguento. Antes duas balas!—Deixaram-me a janella
aberta... Mandei vir uns poucos de fatos,
calças de verão, d'inverno, etc.—para
ter a
sensação
de que estava livre. Depois emprestaram-me
livros. Entre outros um volume de viagens
na China, onde ha algumas paginas sobre a vida
da mulher chineza. E aquillo fez-me chorar, tão
certo é que a desgraça nos aproxima dos
desgraçados.
Afinal chegaram os livros que tinha
pedido, um compendio francez de philosophia,
sete calhamaços de economia politica—e fui
quasi feliz. O juiz interrogou-me:—Porque está
preso?—Não sei.—Há uma
testemunha que o
viu no elevador da bibliotheca.—É falso. Estava
n'uma casa perto da bibliotheca, para combinar
com o Alpoim e alguns amigos a nossa atitude
perante as prisões que estavam sendo
feitas.—Chamou-se
um policia a quem o juiz perguntou:
—Conhece o snr. João Pinto dos
Santos?—Não
senhor.—Diante d'isto é claro que o juiz
tinha de me mandar embora. Que imagina que
fez o João Franco?
O João Franco
avocou o
processo a conselho de ministros e condemnou-me!
Era odio pessoal. Na municipal fui sempre
bem tratado.
—E souberam?
—Alguma coisa presentimos na noite em
que foi atacado o regimento de Campo d'Ourique.
Supozemos uma revolução gorada. Se
atiram bombas ao quartel eramos indubitavelmente
fuzilados. Uma noite ouvimos formar
as tropas, carregaram com precipitação as armas,
um oficial passou a correr e diante do
meu quarto bradou á sentinella:—Cuidado com
esse sujeito!—O Chagas disse-me hontem que,
quando chegou á janella, um soldado lhe fez um
manguito. Os oficiaes é
que continham a soldadesca—mas
até onde?
—E disse no seu depoimento que havia de
matar o João Franco?
—É falso; o comandante da guarda falou-me
n'isso e eu respondi-lhe:—Bem vê V. Ex.
a
que
não quero que meus filhos possam dizer:—Meu
pae foi um assassino.—Isso não! Mas se um dia,
depois de o insultar bem insultado, n'uma discussão
em plena camara, elle avançar para mim,
deito-lhe as mãos ás guellas, e nem V. Ex.
a
nem
toda a guarda municipal m'o arrancam das
unhas!
*
Ha quem diga do João Franco:—Foi sempre
um cobarde. Em Coimbra a valentia vinha-lhe
do José Lobo e dos irmãos, uns tipos d'aquelle
feitio, e agora da municipal e da policia. O pae
era a mesma coisa, e o tio, o
Mil diabos da
capinha,
dava tiros e fazia disturbios sempre que
tinha as costas quentes.
*
João Franco fazia cincoenta e quatro annos
este mez de Fevereiro.
8 de Fevereiro—1908.
É hoje o dia do enterro. Essa gente que veio
de fóra para assistir ao funeral, principes, duques,
generaes, diplomatas, está cheia de medo.
E por ahi diz-se á bocca cheia:
—Ainda bem que foram portuguezes os que
executaram o rei. É a primeira vez que um rei
portuguez morre ás mãos do seu povo.
Até
agora acabavam ás mãos das camarilhas.
*
Não me sae dos olhos este quadro do enterro.
Esperam-se bombas... Os sinos tocam, todos os
sinos das egrejas; rufam os tambores cobertos de
luto. Desfilam coches com principes e carros
com fardas. Um homem apregoa:—
O ultimo
granadeiro!
quem quer
O ultimo granadeiro?—Mais
carros, mais coches, o filho do imperador da
Allemanha, guardado por uma escolta de prussianos,
que o pae mandou com elle com medo
que lh'o matem. Tropas em fila, carroças de gala,
generaes, diplomatas glabros, com o olho desconfiado
e vontade que aquillo termine depressa...
Agora a carroça com o sceptro e a corôa, e outra
com crepes a rasto como se levasse o luto da
monarchia.—
O
ultimo granadeiro!...—Mais coches,
e aqui e alli o desfile cortado pela multidão irrespeitosa.
Um laivo de grotesco na tragedia, riscos
exagerados de carvão que fazem medo... Phisionomias
lividas nas fardas pomposas, decorações,
gente que mal se atreve a olhar a plebe temerosa—silencio
e um largo ah! a que se segue
uma gritaria d'inferno. Bicha de carros interminavel,
mortos por largarem n'uma abalada de
pavor—carros funerarios passando entre a
indiferença
gelada—farrapos de multidão que atravessam
o prestito propositalmente, tropas esbandalhadas,
corôas que parecem velhas... E por fim
mais tropas e o mesmo grito insistente:—
O ultimo
granadeiro! quem quer
O ultimo
granadeiro?...
Dias mais tarde havia sujeitos que se chegavam
á beira das pessoas que deitavam luto e perguntavam-lhe
com ar de troça:—Então morreu-lhe
alguem da familia?...
*
O Correia d'Oliveira:
—Se visse!... Quasi ninguem tirava o chapeu
quando o enterro passou... A sombra do
rei comeu, sumiu a do principe.
*
Tem-se distribuido muitos papeis com estes
dizeres:
Morte aos Sanguinarios
Afonso Costa, Alpoim, Ribeira Brava,
os Verdadeiros Assassinos
DE EL-REI E DO PRINCIPE REAL.
E outros, escriptos á machina, atribuindo o
crime a este e áquelle...
*
A preocupação do rei é esta:
—N'este caso que faria D. Pedro V?
*
O João Franco possue cartas do rei, em que
elle lhe apontava escandalos em diferentes secretarias.
*
O dr. Curry Cabral, que é um homem ponderado,
disse em casa das Thomares:
—Ha cinco annos que o João Franco está
doido.
E o Silva Bastos, que foi da sua intimidade:
—Ás vezes avançava para a gente de
punhos
fechados, n'um phrenesi. Depois dava-lhe a nevralgia
e deitava as mãos á cara ou desatava
aos berros—e, n'um instante, como n'uma roda
que gira vertiginosamente e vae passando por
dois buracos, lia-se-lhe nos olhos, sucessivamente
e sem interrupção, colera, despreso,
ambição, serenidade,
medo, orgulho, riso, ferocidade, paz,
vertigem...
*
E outro:
—Era a obra de Martins posta em pratica
por um doido. Sómente o Martins dissera, arrependido,
a Junqueiro:
—Nas penitenciarias está gente muito melhor
que o rei.
11 de Fevereiro—1908.
Espalha-se que, se isto não socegar, o rei e a
rainha se vão embora e o estrangeiro toma conta
das colonias. Pede-se repressão. Diz-se que há
oficiaes de artilharia e cavalaria que querem fazer
uma
intentona—e os politicos
já se não entendem
por causa das nomeações dos governadores
civis!
*
O João Chagas surge na livraria, mais gordo,
com um esplendido casacão alvadio:
—Tenho estado preso diferentes vezes, mas
nunca senti tanto a falta de liberdade como d'esta.
Das outras falava, tinha ar e luz á minha
disposição.
Agora foi a incomunicabilidade absoluta.
E, se atirassem bombas ao quartel, eramos despedaçados.
E eu, que sabia que alguns grupos tinham
combinado tudo como quem resolve um
problema—dizia comigo:—Se esses diabos
não
têm a caridade de se lembrarem de nós, estamos
perdidos!—Um dia á noite tive a
impressão nitida
de que iamos ser fusilados. Ouvi reboliço, as
tropas carregaram as armas, e até senti que, com
a precipitação, deixavam cahir alguns cartuxos.
Tentei espreitar por um postigo. Um oficial que
passou correndo disse á
sentinela:—Cuidado!—O
frio era mortal. O soldado encostou-se á
porta—não
pude espreitar. Ignorava tudo. Estendi-me
em cima da cama e só ás quatro horas da
manhã
sucumbi de cansaço... Que horas! É horrivel
morrer assim sem lucta. Cheguei a fazer um pequeno
testamento...
Oliveira Martins.—Desenho de Antonio Carneiro.
Oliveira
Martins.—Desenho de Antonio Carneiro.
E o João Pinto dos Santos:
—Pude ver d'uma vez o
Diario
Illustrado, nas
mãos d'um soldado, com o retrato do rei, mas
calculei:—chegaram de Vila Viçosa.
—Mas nem sequer reparou na tarja de luto?
—Eu não. O Antonio José d'Almeida diz
que
reparou e que desconfiou que o rei tinha sido
morto.
—Os oficiaes—continua o
Chagas—trataram-me
muito bem, mas á despedida
disse-lhes:—Agradeço-lhes
muito a amabilidade com que
me trataram, mas para outra vez prefiro ir para
a Penitenciaria. Lá talvez chegue algum rumor.
E conclue:
—Acalmação sim,
acalmação,
se assim o entenderem,
durante alguns mezes. Ah
não foi em
vão que trabalhamos vinte annos!...
*
Fui hoje ao café do Gelo ver o sitio onde o
Buiça se reunia com os amigos. O café
é já de
si curioso, com duas salas d'aspecto completamente
diverso, uma para o Rocio, d'aparato;
outra, nas trazeiras, baixa, para os freguezes envergonhados,
com portas para a rua do Principe.
Era ali, n'aquella meza, do canto, á direita quem
entra pelas trazeiras, que o professor se juntava
com os outros e passavam horas a conversar baixinho.
—Eram muitos?
—Ás vezes doze ou quinze—diz o
creado.—E
ficavam até tarde em grandes discussões...
*
Todos os politicos são concordes n'isto: o D.
Carlos gastara nos ultimos annos, alem da
dotação,
dez ou doze mil contos.
*
E toda a gente diz que era um mentiroso e
que difamava a mulher. Ainda hoje alguem contou
que um dia apareceram uns papeis inventando
infamias da rainha com a Sandoval. Investigou-se.
E o José Luciano disse logo:—Escusam de procurar,
isso é d'El-Rei.
*
O
Seculo, disse-me o Avelino
d'Almeida, tem
tido tiragens de 160:000 exemplares.
Fevereiro—1908.
Depois da morte do rei o Arnoso foi ao Malaquias
de Lemos propor-lhe a contra revolução.
—Nem me fale n'isso. Se veem para a rua
corro-os a bala raza e vou já d'aqui contar tudo
ao Ferreira do Amaral.
20 de Fevereiro—1908.
Era hoje que devia rebentar a contra revolução,
para impôr ao Paço uma dictadura militar.
*
Hoje fui a casa do Schvalbach, ao Conservatorio.
Coisas antigas e louça das Caldas, velhos
quadros do Liborio e tectos pintados em caramanchão
pelo Augusto Pina. O homem está
aqui: é uma revista de anno—dificuldades de
que sae com um sorriso, enredo, e um fio de oiro
e de ternura a envolver tudo isto...
Conheceu o rei e explica-o:
—Quando queria era um
charmeur.
Ás vezes
ninguem o podia aturar e mentia como uma cesta
rôta. Ultimamente déra nesta: quando se falava
d'alguma rapariga bonita, ahi dos seus quinze
annos, dizia com um sorriso:—É minha filha.
E conclue:
—Era um grande pantomimeiro!
Fevereiro—1908.
O Antonio José de Freitas, amigo do Paço,
do Arnoso e do Sabugosa:
—O rei era d'estes homens que gostam de
esconder as boas qualidades e de salientar os
seus defeitos. Inteligente, de bom coração,
artista,
não soube ou não quiz tratar com os homens.
Podia ter com elle todos os que pensam ou
escrevem em Portugal—afastou-os. Ha annos
para cá o caso explica-se: garanto-lhe que, depois
que teve o tipho, ficou impotente e sentia-se
humilhado e inferior ao primeiro gallego que
passa na rua... Ha cartas d'elle adoraveis de simplicidade,
ha casos da sua vida e da vida palaciana
que se não comprehendem.
—E como artista?
—Era elle, sem duvida, que fazia com talento
os esboços. Mas, como não tinha
tempo—outros
lhe acabavam os quadros... Como rei só teve um
mal—começou a sel-o apenas ha um anno.
Fevereiro—1908.
Todos os dias no Paço se recebem cartas
anonimas com ameaças de morte. O medo é
enorme. A rainha tem sempre deante dos olhos
o quadro horroroso, e, se acorda de noite, quer
por força vêr o filho.
*
O Manuel Ramos:
Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice
do rei, para lhe arrancarem medidas de repressão.
Se o viam hesitar:—Mas se Vossa Magestade
receia...—E elle logo decidido:—Eu
não!—E assignava tudo. E fique você
sabendo:
não foi elle só que comeu: a maior parte do
dinheiro,
dos dez ou doze mil co
Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice
do rei, para lhe arrancarem medidas de repressão.
Se o viam hesitar:—Mas se Vossa Magestade
receia...—E elle logo decidido:—Eu
não!—E assignava tudo. E fique você
sabendo:
não foi elle só que comeu: a maior parte do
dinheiro,
dos dez ou doze mil contos gastos a
mais, ficou no bolso dos politicos.
Fevereiro—1908.
A guarda-fiscal de Cascaes tem ordens apertadas.
Teme-se um desembarque de armas e munições.
*
Foi prohibido o desfile do publico diante dos
cadaveres regios, porque a urna do rei era coberta
de escarros!
Fevereiro—1908.
O João Chagas:
—Tem visto a atitude palaciana do
Dia?
Eu, de mim, tenho um caderno com este titulo
Alpoim e todos os dias collo
pedaços do
Janeiro
e do
Dia. Tome logares porque vai
assistir a um
espectaculo estraordinario... Nunca o estrangeiro
fez tanta pressão sobre nós como agora...
Impõe-nos
um governo—e esse governo, não podendo
ser rotativo, ha-de sahir da praça publica.
Ora não sendo republicano, á maneira do que
se fez na Italia ou no Brasil, vae ser do Alpoim.
E verá! verá!... Eu já disse: escrevo
logo
um artigo com este titulo
O
Regicida, se elle e
os seus amigos nos atraiçoarem—os seus amigos,
que, diante de mim e de Afonso Costa, se
declaravam todos republicanos. D'antes procuravam-nos
todas as noites, agora fogem-nos. Vae
ver, vae-os ver servirem-se da policia contra nós.
Oh, mas eu hei-de declarar que elles é que nos
forneciam as bombas! O Alpoim ha-de morrer
ás nossas mãos!
Março—1908.
O Brazão conta que na
première do
Othelo,
o irmão de Augusto Machado foi cumprimental-o
ao camarim:
—Vaes admiravelmente no papel, mas deixa-me
dizer-te (aqui para nós) a peça é uma
grande
borracheira...
9 de Março—1908.
Na recepção de ante-hontem a raínha
tinha
os olhos cheios de lagrimas sufocadas e disse:
—Não tenho medo por mim, é por elle...
—Os politicos, agora vão ter
juizo...—disse
alguem. E ella respondeu:
—Os politicos não teem
coração.
E o rei dizia a um e a outro:
—Seja bom portuguez e meu amigo.
Março—1908.
—Vou a Lisboa—diz o Columbano ao conde
d'Arnoso.
—Tambem eu vou a essa Penitenciaria onde
andam os assassinos á solta.
Março—1908.
Antonio José de Freitas:
—O Marianno de Carvalho tinha ido a Paris
negociar um emprestimo e, conversando com
Rouvier, perguntou-lhe:
—Se se fizer a republica em Portugal?...
—Que me importa! Que me importa mesmo
que se faça a republica em Hespanha. Mas se se
fizer a federação iberica, então alto
lá! fazemos a
federação latina.
Rodrigo da Fonseca dizia dos Castilhos:
—Que familia! O melhor de todos é o
cego—mas
esse mesmo, se tivesse olhos, era preciso
furar-lhos!
Março—1908.
O João Chagas:
—O Alpoim foi quem nos forneceu as armas
para a revolução. Foi o que elle fez.
Nós tinhamos
homens, elles deram-nos as armas e uns contos
de reis. Todos elles se declaravam republicanos,
menos o Moreira d'Almeida, que disse:—Eu
não só não sou republicano, mas sou
anti-republicano.—Quando
sahiamos das reuniões, eu e
o Afonso Costa riamos ás gargalhadas.
Este João Chagas tão facil, tão
insinuante,
com o riso prompto nos labios grossos e sua
pôpa branca no alto da cabeça, nunca conversa,
nunca o vi conversar: se encontra alguem, seja
onde fôr, conspira logo. Tem passado a vida,
sempre simpathico e facil, sempre bem vestido e
correcto como um actor que desempenha o seu
papel. Mas no fundo d'esta alma, sob este riso e
esta pôpa que parece pintada, só existe uma
vontade
que nunca esmorece, uma ambição tenaz e
um egoismo feroz.
—Isto ha-de resolver-se em 1909. Ah, não
passa d'ahi! É um conflicto inevitavel. Que me
importa o Porto?
E como eu duvide:
—Temos o exercito comnosco. Até na municipal.
Na provincia ha terras em que os regimentos
são completamente nossos.
Abril—1908.
Hontem no Porto encontrei o Junqueiro, mais
velho, mais magro, e a proposito da atitude palaciana
de Eduardo Burnay no
Jornal do
Commercio,
conta que elle em tempos, quando atacava
o rei, o fôra procurar ao Porto e lhe disséra
do D. Carlos:
—D'uma vez, n'uma d'aquellas ceias que dava
no Alemtejo aos esturdios seus amigos, ofereceu
a cada conviva uma navalha de ponta e mola,
com as armas reaes.
Novembro—1908.
A rainha não disse que conhecia o assassino
do rei. Phrase textual ouvida pelo Batalha Reis:
—Os outros não os conheço, mas aquella
cara do homem das barbas nunca mais me sae
dos olhos
[7].
Dezembro—1908.
O caso do dia é este:—Um alferes da
guarnição
no Paço, quando assistia ao jantar levantou-se,
e, contra todas as regras e todas as conveniencias,
falou ao rei pouco mais ou menos
n'estes termos:—Vossa Magestade anda iludido.
Esta gente que o cerca engana-o. A situação do
paiz é deploravel, etc.
Imaginem, se podem, as atitudes, o espanto,
o espectaculo d'esta gente, interrompida pela
primeira vez naquella representação em que o
formulario é respeitado como um culto. Mas na
verdade o alferes disse o que cada um sente no
fundo da sua consciencia. Foi inconveniente,
mas poz o dedo na ferida. O rei está rodeado
de ficções e de mentiras. Não soube
assumir
as responsabilidades do pae, com decisão e coragem,
nem totalmente repelil-as.
Enredam-no. Os politicos dão-se o ar de o
proteger e é elle quem os protege. Hesita, tem
medo... Sente-se que tudo isto vacila...
Janeiro—1909.
—Esta vida artificial como lhe sinto a
falta!—exclama
o Fialho ali ao pé do Suisso.
—E porque não vive em Lisboa?
—Não posso! não posso! Se soubesse!...
Tenho
um irmão epileptico, que meu pae me legou
á hora da morte. Não devo abandonal-o,
nem
entregal-o a mãos mercenarias... Depois as arvores,
depois as vides, a que a gente cria amor...—Uma
pausa triste, uma hesitação, uma duvida
e acrescenta isto:—Não tenho tido quinze dias
de felicidade em toda a minha vida!
Falamos de politica:
—Isto está a pedir sangue... E olhe: no
Alemtejo não ha republicanos—ha odios. O pobre
não pode vêr o rico. É uma gente
roída de
invejas e rancores, que passa annos e annos da
vida a cubiçar um campo...
*
O João Barreira, pequenino, inalteravel, de
capinha:
—A revolução abortou em onze de
Fevereiro
porque os chefes foram todos presos. O Chagas
tinha nas mãos as chaves do movimento.
*
Quem são os regicidas?... O Ferreira do Amaral,
ao sahir do ministerio, declarou que não tinha
apurado nada de definitivo. Diz:—Eu bem sabia,
por cartas anonimas, que se preparavam
para me alijar, mas deixei-os fazer...—Porquê,
almirante?—A situação não me
era
agradavel.
*
Novos boatos de intentonas, de massacres,
novos boatos de reacção. Agora é
certo!... Os regicidas
vão ser presos. Conta-se que o Heitor Ferreira
dissera:—Vendi a carabina a Fulano.—O
ministerio Amaral cahiu, porque, dispondo de
todos os elementos, não quiz prender os assassinos.
Um dos regicidas está em França, mas Clemenceau
recusa-se a extradital-o.