*
O Mello Barreto garante como absolutamente
autentico o boato que por ahi correu, de que o
rei se confessa todas as semanas.
*
Larga distribuição d'estes papelinhos:
[nota de editor]
Janeiro—1909.
Fala-se hoje d'um Munhoz, oficial do exercito,
tipo acabado de lisboeta—café, conversa e parodia,
cheio de graça popular e literaria. Já reformado,
vae aos domingos aos touros para a Outra
Banda, com um cabaz no braço e um chalemanta
ás costas... Esteve amigado com uma
mulher já
fannée, mas ainda com
linha e um
grande nariz imperial, que ahi andou por Lisboa
e se fazia passar como aparentada com as mais
ilustres familias de Hespanha. A mulher não tinha
dinheiro, mas alguem presenteara-a, quando
a deixou, com uma rica mobilia. E Munhoz e ella
iam vivendo dos trastes, hoje um tremó vendido,
amanhã uma comoda, depois um sofá...
—E que tal, Munhoz?
—Vae-se vivendo, filho. Vamos vendendo os
trastes. Olha, menino, hoje almoçamos
nós um
bidet—e por signal que
não estava nada mau!...
*
Lá no alto, no friorento Paço d'Ajuda, entre
gente caduca e algumas damas do passado, a
rainha Maria Pia passa os dias e as noites, como
uma figura de tragedia, a regar as flores d'um
tapete. Mataram-lhe o pae, o filho e o neto.
Peor: envelheceu. Se pára de regar conta:—Um...
dois... três...—A quem se refere? Ao
pae, ao rei, ao principe, todos assassinados?
Senta-se á meza e diz a figuras imaginarias ou
aos phantasmas que se sentam a seu lado:—Come,
Luiz? Não queres d'este prato, Carlos?—E
lá torna a regar um dia, outro dia, sempre,
as flores que não reverdecem do mesmo tapete
do seu quarto... E esta mulher elegante, que
despertou paixões e inspirou poetas, parece uma
velha actriz, cheia de rugas, sem contracto, fóra
do seu meio e da sua época. Ao vel-a passar,
baixando a cabeça para aqui e para acolá, no
mesmo gesto machinal, a gente supõe que o passado
sahiu do sepulchro e teima em sorrir-nos,
com os dentes postiços e o cabelo pintado a escorrer
amarelo...
*
O D. Afonso adora o sobrinho. Afiança:—Se
m'o matarem quero ser rei uma hora, mas
n'essa hora hei-de mandar...
*
—E o rei?
—O rei...—diz alguem que foi duas ou tres
vezes ao Paço—O rei é um fidalguinho
muito
religioso e temente a Deus, e cheio de vontade e
de orgulho.—E acrescenta:—Não trata,
como
o pae, a gente por tu, mas por você.
Janeiro—1909.
Fala-se com o Antonio José de Freitas,
do
D. Pedro V e um do lado diz:
—Era um pedante.
—Se era! O que vocês não sabem
é que
deixou vinte e tantos calhamaços sobre coisas
militares com o titulo em latim. E de todos esses
livros não se apura uma pagina...
Do D. Luiz e da D. Maria Pia narra anecdotas,
ditos...
—O D. Luiz mandava-me chamar muitas
vezes ao Paço—e algumas por causa do Shakespeare.
Uma vez quiz discutir o
Hamlet
commigo—elle
que me roubou duzentas e tantas
phrases!—e eu disse-lhe:—Pois sim, vamos
lá
discutir, mas V. Magestade não ha-de extranhar
que eu me defenda com quantos argumentos tenha,
nem que fale mais alto, porque fui professor
de meninos e tenho esse mau habito. Alem
de tudo isso sou um homem nervoso...—E discuti,
discuti com unhas e dentes. Por fim elle
disse-me:—Pois sim, Freitas, mas você o que
não pôde é conceber o
Hamlet como eu, sob o
ponto de vista de dissimulador, porque não tem
a minha categoria. Só um principe sabe o que
é dissimular...
E eu respondi logo:
—Se V. Magestade dissimula por causa da
sua categoria, é porque é um diplomata; se
é
por organisação é porque é
um histerico...
E elle mandou-me embora.
*
Quem os põe assim aos reis, ao D. Carlos,
ao D. Luiz, ao imperador do Brazil, são os grandes
homens, o Victor Hugo, o Rossini, os que
os incensam a torto e a direito. O D. Luiz era
inteligente e conhecia os classicos musicaes, mas,
como não estudava, tocava mal. Pois um dia o
Rossini, em Paris, depois de o ouvir, disse-lhe:—Vou
organisar um concerto em minha casa,
para que V. Magestade, que é um dos melhores
musicos que conheço, seja ouvido e apreciado.
*
O D. Luiz, como todos os fidalgos portuguezes,
gostava de conviver com gente baixa. Quando
se iam embora os ajudantes e a côrte, ficava
com os particulares, com a gente que lhe chamava
doutor Tavares, e então
regalava-se de escandalo,
de ditos, de má lingua ordinaria.
*
Não me admira que elle gostasse da Rosa
Damasceno. Era uma mulher
caline,
muito meiga.
Na intimidade devia ser adoravel. E boa. Desde
que foi amante de D. Luiz, dava todo o dinheiro
que ganhava no theatro.
*
A Maria Pia é uma mulher inteligente, apezar
de pessimamente educada, sem mãe. Detestavam-se,
mas que diplomatas, ella e o rei!
Quando se anunciou o casamento do D. Carlos,
D. Luiz disse-me:
—Casa por amôr. Fez a côrte á
mulher,
escreveram-se,
elle mandou-lhe flôres e ia para a
plateia d'um theatro em Paris namoral-a para o
camarote.
*
Não sei quem fala do Saldanha...
—Foi o diabo para o mandarem para Londres,
quando se quizeram vêr livres d'elle. O governo
perguntou para a Inglaterra e de lá responderam
que não era
persona
grata. Foi preciso
que o D. Fernando escrevesse á rainha Victoria,
que acabou por ceder, dizendo:—Mandem
lá
esse velho pecador.
Fevereiro—1909.
O Judice Bicker, oficial da armada e antigo
governador da Guiné no tempo do Hintze:
—Não, não me falem em dictaduras nem em
governos de repressão! Quando fui governador
da Guiné apareceram-me lá um dia cem homens
mandados pelo governo. E com elles uma simples
lista de nomes, sem a minima indicação de crimes.
Nada. Era gente que o governo me mandava
e de que se queria desfazer. Que lhes havia
de fazer na Guiné? Sentei-lhes praça, e d'esses
criminosos, aos quaes nunca tive
ocasião de aplicar
um castigo, seis mezes depois tinham morrido
cincoenta de febres!...
*
No outro dia—diz o Freitas—estive com a
rainha D. Amelia. Está uma mulher amarella e
feia, enorme, com as mãos do tamanho do Maximiliano
d'Azevedo. E, como lhe notasse os dedos
cheios de joias, estranhei, perguntei e
explicaram-me:—São
os aneis de brilhantes, que
ella arrancou aos cadaveres do marido e do filho—e
que traz sempre comsigo.
*
Um empregado da fazenda:
—Em cada um dos grandes bairros de Lisboa
ha milhares de processos de dividas á fazenda
parados. Companhia que tenha votos paga
quando quer e como quer. Só os desgraçados
são penhorados. Isto representa muitas centenas
de contos, que se perdem por empenho, por politica,
por desleixo.
Fevereiro—1909.
O Pad'Zé contado pelo Vicente da Camara:
—O extravagante Pad'Zé era no fundo um
homem methodico. Quando chegava a Coimbra
ia sempre com grandes ideias de aprumo e
arranjo: uma cama para dormir, uma meza para
escrever, etc.. Excusado será dizer que, meia duzia
de dias depois, dormia no chão. Mas á cabeceira
lá estavam sempre muito arranjadinhos os
seus livros e os seus papeis. Se no dia em que
se matou, na propria hora em que deitou a mão
ao rewolver, alguem o convidasse para uma ceia,—adeus
suicidio! adeus morte! trocava-a por
uma guitarrada.
*
No dia em que fugiu para Badajoz o D. João
da Camara encontrou-o: levava para o exilio um
livro de Garrett, um par de meias e cinco mil
reis emprestados.
*
Trazia sempre nas algibeiras envolucros de
bombas e mostrava-os ás vezes aos amigos, no
Suisso. Na algibeira do medico que morreu na
explosão foi encontrada uma carta sua, pedindo-lhe
que lhe mandasse pelo portador «seis peras
do Fundão». Trazia-as ás vezes pela rua
n'uma
malinha de mão, e, quando ia ao urinol, pedia ao
Anibal Soares, de quem era amigo intimo, para
lha segurar:—Mas tem cuidado que são
ovos!...—observava
sempre.
*
Dizem por ahi que se matou, para não matar...
Tinha-lhe cahido em sorte, n'uma
loja, executar
um alto personagem...
25 de Fevereiro—1909.
Visita ao Coelho de Carvalho, que está
doente, e mora n'um velho palacio, na rua do
Arco do Cego. Moveis Imperio, uma cama imponente
com golphinhos doirados e espelhos,
falsos quadros de mestre nas paredes d'estuque,
onde todos os caiadores de Lisboa pintam sempre
o mesmo friso azul ferrete, e salas que se
sucedem com alguns moveis antigos isolados.
São restos de grandeza d'uma existencia d'artista...
Como sempre, fala-se em politica. Não
se fala n'outra coisa...—A policia tem o processo
do atentado concluido, mas fica-se por ahi.
Sabe-se que no dia 21, n'uma
loja
maçonica, foi
proposto o assassinato do rei. O Alpoim esperava
na rua, dentro d'um carro, os seus amigos.
Mal foi que o acordo com os franquistas gorasse.
Sabe que o Alpoim teve uma combinação politica
com o João Franco? Disse-mo elle a
mim:—«O
acordo esteve feito para uma dictadura liberal,
mas o rei opoz-se. Foi quando eu e Sicrano e
Beltrano decidimos perdel-o»...—Posso garantir-lhe
isto: ouvi-o a elle proprio... Quem os
aproximou, ao Alpoim e ao Franco, foi o Silva
Graça. Tinham até ajustado uma serie de comicios
de propaganda contra os adiantamentos.
E foi por isso que o João Franco pôde responder
como respondeu ao Centeno, dizendo-lhe
que tinha nas mãos provas d'essa
combinação.
Um tipo fino. Literato e homem de negocios,
tendo ganho fortunas e dissipado fortunas. Tem
um castello em Arade sobre rocha e mar e uma
existencia um pouco dispersa. E com isto curioso
e alegre, phantasista acima de tudo, paradoxal
acima de tudo. O seu escriptorio de advogado
que foi muito tempo no ministerio da
justiça, é hoje alli n'uma meza do Martinho.
Desconfio que mistifica os clientes—para se
divertir... As dificuldades da sua vida são talvez
invenciveis, mas a desgraça encontra-o sempre
de pé, com o mesmo riso nas mesmas lindas
barbas todas brancas enquadrando uma face
moça, e oculos redondos de tartaruga, que lhe
dão uma aparencia de retrato de Holbein.—Os
oculos de Spinoza...—como elle lhes chama.
Março—1909.
O Armando Navarro:
—D'aqui por cincoenta annos estamos absorvidos
pela Hespanha, sob a forma federativa. A
autonomia municipal, a mais rasgada de todas
as que conheço, e que o conservador e reaccionario
Maura acaba de dar á Hespanha, é o primeiro
passo...
6 de Março—1909.
Foi hoje o enterro do Taborda. Aqui ha tempos
cahiu de cama e disse a alguem a chorar:
—D'esta vez é certo! Sinto que vou morrer...
E a vida é tão linda!
Tinha oitenta e cinco annos. Os jornaes contaram
d'elle esta coisa enternecedora: D'uma vez
foi recitar um monologo a um asylo de raparigas
da sua terra. O monologo começava assim:
«Boas noites, meus senhores...». Entrou no
palco e disse a phrase:
Boas noites, meus senhores...
E as meninas do asylo, que o conheciam todas,
levantaram-se e responderam á uma:
—Muito boas noites, senhor Taborda!
A morte engrandece sempre, mas acho horrivel
acabar na rua dos Calafates, entre a convenção
e a mentira, andar por cima, andar por
baixo, corôas secas, photographias e
recordações
de bastidores. Um velho tem direito a morrer
entre arvores, em plena natureza. Os bichos,
quando sentem aproximar-se o fim, procuram
um buraco para se esconder... São mais felizes.
Março—1909.
As declarações do Ferreira do Amaral na
Camara dos Pares vieram autenticar o que se
dizia do rei. O Ferreira do Amaral afirmou:—«A
reacção envolve o
rei».—Acrescenta-se
cá fóra
que é um jesuita hespanhol quem dirige o rei e
o Paço, e parece certo que o Ferreira do Amaral
o impedia por vezes de ir de livro e contas á
missa—fazendo-o visitar no Porto tres fabricas
por cada missa que ouvia...
*
Espalha-se que foi a rainha quem pôz fóra o
Ferreira do Amaral, e que elle quer lá voltar para
lhe dar uma lição.
Março—1909.
Apresentam-me hoje um velho janota, o visconde
da Torre da Murta. É um velho magro e
esticado, de luvas e chapeu alto. Cheio de pretensões
e os cabelos todos brancos. Parece ligado
por arames. Vive na miseria. A mulher enganou-o,
deixou-o. Pagou-lhe as dividas—e ficou
pobre: são as Thomares que o sustentam. O
velho conserva uma grande dignidade e só sae
de luvas e chapeu alto. Mas quem sobretudo lhe
vale é a creada, uma destas extraordinarias mulheres
do povo, que nascem para os outros e que
já disse que quando morrer lhe ha-de deixar as
suas economias «para o senhor visconde não
passar necessidades». O senhor visconde vive
n'um cubiculo, e da sua passada grandeza restam-lhe
meia duzia de livros com magnificas
encadernações.
Março—1909.
Fuschini, que fui hoje visitar,
está velho e
tem uma doença de coração muito
adiantada.
—Porque não escreve as suas memorias?
—Não sei, custa-me. Tenho pensado em escrever
a minha autobiographia... Depois deixo-me
d'isso.
E conta-me:
—Quando foi da conversão da divida externa
fui eu e poucos mais que obstamos a que
viessem tres estrangeiros para Portugal mandar
n'isto. Creia... Chegaram a dizer-me:—Não
faça
questão, que será um dos membros da junta.
E diz:
—Ao tempo da dictadura do João Franco
lembrei-me de reunir em Lisboa um congresso
de todos os homens publicos. Procurei os republicanos,
o Afonso Costa, que me prometeram o
seu apoio. Estava de relações cortadas com o
Hintze, mas mandei-lhe falar e elle fez-me ir ao
Estoril. Disse-me o peor que é possivel do rei e
acrescentou:—Aceito a sua idéa... E tem
casa?—Tenho.—E
se a policia intervier?—Resistimos
e apelamos para o povo.—Bem, vá falar
ao José Luciano.—Procurei essa
vil
alforreca,
que exclamou:—Mas isso é a
revolução!... Preciso
de falar primeiro com o Hintze. Tenho uma
idéa melhor...—Dias depois o Hintze
dizia-me:—O
José Luciano não quer fazer nada,
disse-me que era melhor esperarmos para Outubro,
quando o rei regressar a Lisboa.—Tambem
me lembrei de escrever um manifesto
dirigido ao estrangeiro e assignado pelos estadistas
portuguezes.—Ex,
que exclamou:—Mas isso é a
revolução!... Preciso
de falar primeiro com o Hintze. Tenho uma
idéa melhor...—Dias depois o Hintze
dizia-me:—O
José Luciano não quer fazer nada,
disse-me que era melhor esperarmos para Outubro,
quando o rei regressar a Lisboa.—Tambem
me lembrei de escrever um manifesto
dirigido ao estrangeiro e assignado pelos estadistas
portuguezes.—Excelente, disse-me logo o
Hintze, venha cá amanhã... Olhe,
amanhã não,
que é o enterro do Casal Ribeiro. Depois de
amanhã.—No dia seguinte estava morto.
Março—1909.
Eis a impressão geral: Foi a rainha quem tramou
a queda do Ferreira do Amaral. O Julio de
Vilhena queria que saissem apenas dois ministros
regeneradores, substituindo-os por outros. Foi
uma tramoia do Paço. Toda a gente diz que a
rainha está feita com os reaccionarios. O D. Carlos,
emquanto vivo, opunha-se-lhe, e, logo ás primeiras
investidas—festas de Santo Antonio, etc.—poz-se
do lado dos que combatiam a reacção.
Agora manda. E conta-se que o Ferreira do
Amaral entrou um dia d'estes no Paço e perguntou
pelo rei.—Está com o seu director
espiritual.—Então
preciso de falar á rainha.—Está
tambem com o seu director espiritual.
*
A rainha—dizem-no todos—arrisca-se um
dia a ser desfeiteada. Acusam-na de deitar a
perder o rei.
Março—1909.
Barreira conta-me que
varios republicanos
teem insistido junto do general Baracho para
se pôr á frente d'um movimento.
—Bem sei, vocês querem que eu tire as castanhas
do lume, para que os outros as comam!
Março—1909.
O Cunha e Costa:
—O Ferreira do Amaral desarmava pela
bonhomia. Um dia constou ao Bernardino que
para os lados do Campo Grande havia tumultos.
Telefonou ao Amaral:—São os reaccionarios que
querem repetir as scenas de cinco de Abril...—Vou
indagar.—Meia hora depois:—Está? Sou o
Amaral.—E muito placidamente:—Ó
Bernardino,
olhe que aquelles homens que os senhores
mandaram para o Campo Grande ainda
lá não chegaram...—!!!—Os
republicanos do
Mundo, quando lhes constou que iam
ser atacados:—Senhor
presidente do conselho, consta-nos
isto...—A casa do cidadão é inviolavel
e
todos teem o direito de se defender.—Ao Pimentel
Pinto, cheio de dividas e que não paga a
ninguem, respondendo á acusação de
jantar com
os makavenkos:—Janto, janto, mas pago, meus
senhores, pago sempre.—Ao Arroyo, quando
lhe dizia:—Enganaram-no, almirante.—É
que
eu sou um ingenuo.
Abril—1909.
Fazem correr por ahi esta infamia: que o Wenceslau
de Lima é amante da rainha D. Amelia.
*
O Eduardo Pimenta, que serviu com o Mousinho
em Africa:
—Um orgulho desmedido, uma decisão rapida,
e uma insensibilidade, como nunca vi, ao
frio, á fome, ao trabalho... D'uma vez, por qualquer
questiuncula, fomos obrigados a dar uma
satisfação á Alemanha. Que scena! O
Mousinho
arrancou do peito constelado todas as medalhas,
todas as condecorações—todas.
Só
lá deixou a
Aguia Vermelha que obriga o alemão a conservar-se
de pé diante dos que a teem. Poz o
bonnet
às tres pancadas e entrou por a casa do consul
dentro. Ergueram-se todos—e elle, á porta,
sacudido,
impertinente, enorme, disse a phrase protocolar:—O
governo de Sua Magestade Fidelissima
encarrega-me, etc.—E sem esperar pela
resposta, outra vez levou dois dedos ao
bonnet e
rodou sobre os calcanhares, deixando-os estupefactos.
*
Jayme de Seguier encontra o João Franco
no estrangeiro. São amigos. E João Franco
que não queria, que jurára não tornar
a falar
em politica, durante duas longas horas não conversou,
não falou n'outra coisa.
—Tinha previsto tudo. Tinha previsto a minha
morte: o que eu não previra foi o assassinato
do rei. Isso nunca me passou pela cabeça...
—Mas o que eu não
comprehendo é que
dissolvesse as
côrtes estando
aliado com os
progressistas...
—Tinha-lhes pedido
ministros, recusaram-mos.
Ficava enfraquecido. Isso é que não.
Não
podendo tel-os como amigos, então antes como
inimigos declarados.
Quem me fornece estas notas (Jaime Victor)
fala d'um João Franco cheio, de sensibilidade e
de coração, capaz de ir até ao
fim...—P'ra
diante! p'ra diante contra tudo e contra todos!—Era
um convencido. Diz-se que os outros o
empurravam. A verdade é que ninguem o podia
deter: nem palavras nem acções o faziam recuar;
ia como uma bala na sua trajectoria. Contam-me
que n'um dos ultimos conselhos de ministros
João Franco expoz a situação: o
movimento revolucionario,
as medidas que tomára, etc.. Vasconcellos
Porto, placido e enorme, expoz a sua
opinião e concluiu:
—Deixe-os vir para a rua, que eu conto com o
exercito. E depois de vencermos, governaremos...
Ao que João Franco respondera:
—Não, podendo evitar-se o
sangue—evitamol-o.
E Jaime Victor conclue:
—A morte de D. Carlos trouxe-nos extraordinarias
complicações. Elle, por exemplo, tinha
seguro o tratado de comercio com o Brazil, que
nunca mais se fará. No Brazil fizeram-se despezas
extraordinarias para o receber.
Novembro—1909.
Guerra Junqueiro desalentado:
—Isto está liquidado, a ocasião passou.
Agora
o rei casa com uma ingleza e vem para ahi um
caixeiro qualquer da
Inglaterra, que manobra
por traz da cortina. Não reparou n'isto?... Nas
camaras passou uma lei que os auctorisa a vender
inscripções. É a bancarrota adiada por
muito
tempo. D'aqui a annos o juro da divida interna
é reduzido, mas vae-se vivendo e paga-se ao estrangeiro,
que é o principal.
*
Do João Franco diz:
—Mentia com o coração nas
mãos...
Então
é que era ocasião. O Franco e o rei
eram dois
cães damnados... A ocasião passou, a republica
passou.
*
O Carneiro de Moura:
—Os bispos e as beatas deram para a imprensa
reaccionaria, para
O Portugal, vinte
contos.
Já lá vão em pagodes!
Dantas Baracho.—Caricatura inedita de Celso Herminio.
Dantas Baracho.—Caricatura inedita de
Celso
Herminio.
Novembro—1909.
Conta hoje o Fuschini—sempre com a Alice
Lawrence atraz, sempre a caminho da Sé, com o
chapeu sobre os olhos e um rôlo de papeis debaixo
do braço, sempre sufocado quando sobe
as escadas, porque o coração cada vez lhe
trabalha
peor, sempre irrequieto e interessante, apesar
da edade e dos cabelos todos brancos:
—O Soveral é um homem de negocios
[8].
O que elle quer é dinheiro. Já tive todos os fios
d'essa meada nas mãos... Obrigou agora o rei a
ir á Inglaterra fazer uma figura triste. Pois posso
garantir-lhe que ha dois mezes esteve em Lisboa
um correspondente do
Dail Maily, que
contou
á Alice que o proprio duque de Fife mandára
ao jornal o seu secretario desmentir a noticia do
casamento.
*
O Avelino de Almeida, jornalista com a especialidade
de padres e beatas:
—Quem deu o dinheiro para
O
Portugal foram
as beatas. Um padre lazarista é que andou
metido n'isso. Arranjaram dezoito contos. Só a
viscondessa de Sarmento deu seis.
*
Um artigo curioso do
Corriere de la
Sera, assignado
pelo Gomes dos Santos:
«Um caso singularissimo poz recentemente a policia na
pista d'uma conspiração de aventureiros que
punham o seu
braço ao serviço do radicalismo, promptos para
tudo
quanto lhes fosse ordenado em nome... da utopia. Uma
longa serie de crimes politicos que datam do regicidio e
cujos auctores até agora tinham ficado envoltos no mysterio,
coloca em evidencia os factos preteritos e abre um caminho
seguro para a liquidação das responsabilidades.
Hoje ninguem duvida da existencia d'uma sociedade secreta
que, sob a aparencia de loja maçonica, é o
verdadeiro
poder executivo do partido revolucionario, o braço sempre
prompto a ferir, a espada que cae traiçoeiramente sobre
as victimas designadas pelos dirigentes da politica radical?
Ninguem ignora em Portugal as
circumstancias em que
se desenrolou o regicidio. Na confusão da tarde tragica, a
policia cae sobre dois dos regicidas e mata-os em legitima
defeza. Mas permanece sempre firme a convicção de
que
os regicidas não eram sómente Buiça e
Costa, que pagaram
com a vida o seu delicto! Esta convicção
fundava-se
em factos de ordem material e moral, sobre os quaes não
havia duvida de especie alguma. A prova moral da existencia
d'outros cumplices reside na impossibilidade do atentado
haver sido organisado e levado a efeito apenas por
dois homens. A prova material forneceram-na numerosissimas
testemunhas que viram a carruagem real ser alvejada,
simultaneamente, de varios pontos e observaram a fuga
de alguns dos cumplices do regicidio, um dos quaes,
perseguido pela policia quando fugia, com o rewolver fumegante
em punho, conseguiu perder-se de vista ao voltar
uma rua, confundindo-se depois com a multidão espavorida
que fugia do logar do crime.
É um vulgar principio de investigação
judiciaria que
os deliquentes se devem procurar entre aquelles a quem o
delicto aproveita. Ora quem podia aproveitar com a carnificina
da familia real? Se houvesse produzido uma mudança
politica, aproveitavam evidentemente os republicanos cujo
triumpho teria sido d'esta arte facilitado. Se tivesse originado
apenas (como realmente produziu) uma substituição
de governo resultaria proveitosa para os mesmos republicanos
aos quaes João Franco havia fechado todos os caminhos.
Vendo presos os seus principaes chefes e ameaçada
toda a sua organisação, os republicanos esperavam
reconquistar,
com um golpe de mão, as posições
primitivas. Não
ha outras hypotheses a considerar, visto que o crime não
podia ter sido perpetrado por uma conspiração de
monarchicos
nem representa um caso individual de terrorismo
porque os regicidas não eram anarchistas.
O Buiça e o Gosta eram
republicados militantes: trabalhavam
nas ultimas filas dos revolucionarios. Livres pensadores,
pertenciam á sociedade de propaganda d'onde, de
resto, teem sahido todos os criminosos politicos. Homens
de acção, pertenciam a uma loja secreta, a
«Montanha»,
mixto de instituição maçonica e de
comité revolucionario,
sem local fixo e sem estatutos, que se reune a um simples
convite dos jornaes da seita, ninguem sabe onde e que se
compõe de homens capazes de
tudo. Tudo deixa crer que o
regicidio foi ahi deliberado e que, como é costume, os
executores
foram tirados á sorte, visto que apenas o sorteio
explicava a escolha d'um dos regicidas, cujo passado se não
ilustra com actos de grande coragem individual.
Mas sobre o regicidio, que inaugura a conhecida série
de delictos politicos, não mais se tratou de fazer luz.
Não
se chegou a apurar quem foram os cumplices da emboscada
e, se porventura se tentou esclarecer o caso, acabaram
por concluir que era melhor guardar silencio sobre
elle. No entretanto, occorriam novos factos que vieram documentar
melhor a existencia d'uma organisação que
liquidava
pelo assassinio as dificuldades susceptiveis de embaraçar
o movimento revolucionario. Poucos mezes depois do
regicidio, um humilde engraxador apresentava-se á policia
perfeitamente apavorado e narrava que dois republicanos
lhe tinham proposto lançar uma bomba no coche que devia
conduzir D. Manuel ao Parlamento. A declaração
era
verdadeira? Ignoro-o. Mas a policia prende os dois mencionados
instigadores, um dos quaes é fulminado por uma
congestão cerebral no gabinete do juiz. Este, quando se
prepara para colher do denunciante novos esclarecimentos,
vê o engraxador morrer envenenado n'um hospital no meio
de horriveis aflicções. O desventurado declarava
que morria
por haver dito a verdade. Por falta de provas o processo
foi archivado, o que poz de bom humor a imprensa
revolucionaria, que já se dispunha a desviar a
opinião
publica com um diversivo.
Poucos mezes depois outro crime vem
afirmar a existencia
da seita. Alguns militares acusados de terem tomado
parte no movimento revolucionario de 28 de janeiro, foram
condenados a penas graves pelo tribunal, graças ao
depoimento
d'um sargento chamado Lima, que se insurgiu e referiu
o facto aos seus superiores. O sargento passeava um
dia em Setubal, para onde fôra transferido, quando um
revolucionario se lançou contra elle e lhe cravou um punhal
no coração. O assassino, preso quando fugia,
allega uma
historia inverosimil de rivalidade que as
investigações policiaes
desmentiram. Quanto á opinião da auctoridade e
dos
que conhecem de perto as scenas, referidas anteriormente,
da quadrilha revolucionaria, é clara e expressa: o sargento
foi condemnado á morte por ter denunciado a existencia
da conspiração.
Dois suicidios mysteriosos—um sob o comboio de
Cascaes, outro na redacção d'um jornal
revolucionario—parecem
ter intimas relações com a existencia da
Mão
Negra local.
Diz-se que os suicidas, designados para certos cometimentos,
preferiram escapar pela morte ás
intimações d'uma
implacavel organisação secreta. Não
faço aqui menção do
caso das bombas explosivas com que ultimamente pretenderam
alvejar algumas egrejas, depois da execução de
Ferrer.
Não ha provas da intervenção da
Mão Negra, mas
simples indicios de presumpção. Mas o que acabou
de
esclarecer o paiz sobre a existencia d'uma formidavel e
perigosa associação secreta foi o recente crime
de Cascaes,
a que os jornaes independentes dedicaram longas
columnas.
Vão decorridos alguns mezes depois que na
administração
das alfandegas se descobriu um importante furto de
armas, que estavam para chegar ao seu destino. A ausencia
d'um operario da fabrica de armas provou a sua responsabilidade
no furto, logo confirmada pela captura d'um cumplice—um
dos implicados na revolução republicana de 28
de janeiro—que era o receptador das armas roubadas.
Já
a policia averiguou o destino das armas, que se reservavam,
com a complacencia de empregados aduaneiros, ao
movimento revolucionario, quando no meio dos rochedos
das arribas de Cascaes, a oito kilometros de Lisboa, se encontra
assassinado mysteriosamente o empregado da alfandega,
auctor do furto.
Com os documentos que lhe encontraram
nas algibeiras
e com as indicações fornecidas pela familia do
assassinado,
a policia reconstituiu facilmente o crime. O pobre
empregado, vendo descoberto o furto das armas, dirigiu-se
aos que o tinham impelido e suplica-lhes que o salvem. Deram-lhe
dinheiro para transpôr a fronteira com promessa
de o sustentarem no estrangeiro e o homem refugiou-se
em Badajoz, territorio hespanhol. Mas o dinheiro falta; as
promessas não são mantidas e o refugiado escreve
aos que
o haviam levado ao crime, suplicando socorro. Como não
obtivesse resposta, ameaça-os com
declarações. A Mão Negra
destaca para Badajoz um dos seus agentes, que o conduz
a Lisboa enganado com promessas de continuar a viagem
para Africa; na primeira ocasião levam-no a Cascaes
a fim de seguir ocultamente para o seu novo destino e
matam-no, arrastando-o para o mar e precipitando-o do
alto das ribas.
O assassino foi preso na fronteira, quando tentava refugiar-se
em Hespanha, e conduzido a Lisboa, sob rigorosa
escolta. Aqui, depois de alguns dias de apertados interrogatorios,
apanhado em contradição, não sabendo
explicar
as manchas de sangue que tinha no fato, confessa finalmente
que cometera o crime,—e que, além de ser antigo
empregado n'um centro republicano, é membro da
associação
secreta a «Montanha», como os regicidas, como os
auctores dos outros crimes politicos. É a existencia da
Mão
Negra averiguada e confessada.
Os jornaes da seita, republicanos e
revolucionarios,
perante esta sensacional descoberta, mantiveram a principio
o maior silencio; jornaes que costumavam ocupar columnas
com o mais insignificante acontecimento, evitaram,
por todos os modos, referir-se a elle. Depois, desesperados
por não poderem conservar-se calados, começaram a
agredir
violentamente e, por ultimo, a ameaçar a imprensa
independente
que, mostrando-se bem informada, se ocupou
dos factos com uma certa largueza. E, emquanto a imprensa
vermelha assim procedia, a policia vinha a saber que
os revolucionarios tinham projectado fazer evadir o preso
e teve a finura de o transferir do deposito de segurança
para uma caserna militar, onde está de sentinella
á vista.
Por outro lado, diz-se que as declarações
relativas ao
crime de Cascaes revelaram uma nova pista para a descoberta
dos regicidas e a policia afadiga-se no intuito de descobrir
e prender os membros da Mão Negra. Alguns jornaes
lembram, a proposito d'este facto, a fuga precipitada
de certa personagem para o estrangeiro. A Mão Negra
é
uma especie de comité executivo, dentro do qual se encontra
todo o elemento revolucionario. Disporá o Estado de
força para resistir a esta formidavel
organisação que
nem sequer hesita ante o crime?
A experiencia da fraqueza dos governos, que se sucederam
no poder após o regicidio, não auctorisa a
responder
tranquilamente a esta interrogação...»
Dezembro—1909.
Segundo varias pessoas, ha efectivamente em
Lisboa muitas agremiações carbonarias.
Dezembro—1909.
O A... que se suicidou hontem tinha-se alcançado
em não O A... que se suicidou hontem tinha-se
alcançado
em não sei quanto—outros, passeiam por
essa Lisboa. Um, o M., alcançou-se em dezoito
contos. Castigaram-no reformando-o com o ordenado
por inteiro.