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O Mello Barreto garante como absolutamente autentico o boato que por ahi correu, de que o rei se confessa todas as semanas.


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Larga distribuição d'estes papelinhos:[nota de editor]


Janeiro—1909.


Fala-se hoje d'um Munhoz, oficial do exercito, tipo acabado de lisboeta—café, conversa e parodia, cheio de graça popular e literaria. Já reformado, vae aos domingos aos touros para a Outra Banda, com um cabaz no braço e um chalemanta ás costas... Esteve amigado com uma mulher já fannée, mas ainda com linha e um grande nariz imperial, que ahi andou por Lisboa e se fazia passar como aparentada com as mais ilustres familias de Hespanha. A mulher não tinha dinheiro, mas alguem presenteara-a, quando a deixou, com uma rica mobilia. E Munhoz e ella iam vivendo dos trastes, hoje um tremó vendido, amanhã uma comoda, depois um sofá...

—E que tal, Munhoz?

—Vae-se vivendo, filho. Vamos vendendo os trastes. Olha, menino, hoje almoçamos nós um bidet—e por signal que não estava nada mau!...


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Lá no alto, no friorento Paço d'Ajuda, entre gente caduca e algumas damas do passado, a rainha Maria Pia passa os dias e as noites, como uma figura de tragedia, a regar as flores d'um tapete. Mataram-lhe o pae, o filho e o neto. Peor: envelheceu. Se pára de regar conta:—Um... dois... três...—A quem se refere? Ao pae, ao rei, ao principe, todos assassinados? Senta-se á meza e diz a figuras imaginarias ou aos phantasmas que se sentam a seu lado:—Come, Luiz? Não queres d'este prato, Carlos?—E lá torna a regar um dia, outro dia, sempre, as flores que não reverdecem do mesmo tapete do seu quarto... E esta mulher elegante, que despertou paixões e inspirou poetas, parece uma velha actriz, cheia de rugas, sem contracto, fóra do seu meio e da sua época. Ao vel-a passar, baixando a cabeça para aqui e para acolá, no mesmo gesto machinal, a gente supõe que o passado sahiu do sepulchro e teima em sorrir-nos, com os dentes postiços e o cabelo pintado a escorrer amarelo...


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O D. Afonso adora o sobrinho. Afiança:—Se m'o matarem quero ser rei uma hora, mas n'essa hora hei-de mandar...


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—E o rei?

—O rei...—diz alguem que foi duas ou tres vezes ao Paço—O rei é um fidalguinho muito religioso e temente a Deus, e cheio de vontade e de orgulho.—E acrescenta:—Não trata, como o pae, a gente por tu, mas por você.


Janeiro—1909.


Fala-se com o Antonio José de Freitas, do D. Pedro V e um do lado diz:

—Era um pedante.

—Se era! O que vocês não sabem é que deixou vinte e tantos calhamaços sobre coisas militares com o titulo em latim. E de todos esses livros não se apura uma pagina...

Do D. Luiz e da D. Maria Pia narra anecdotas, ditos...

—O D. Luiz mandava-me chamar muitas vezes ao Paço—e algumas por causa do Shakespeare. Uma vez quiz discutir o Hamlet commigo—elle que me roubou duzentas e tantas phrases!—e eu disse-lhe:—Pois sim, vamos lá discutir, mas V. Magestade não ha-de extranhar que eu me defenda com quantos argumentos tenha, nem que fale mais alto, porque fui professor de meninos e tenho esse mau habito. Alem de tudo isso sou um homem nervoso...—E discuti, discuti com unhas e dentes. Por fim elle disse-me:—Pois sim, Freitas, mas você o que não pôde é conceber o Hamlet como eu, sob o ponto de vista de dissimulador, porque não tem a minha categoria. Só um principe sabe o que é dissimular...

E eu respondi logo:

—Se V. Magestade dissimula por causa da sua categoria, é porque é um diplomata; se é por organisação é porque é um histerico...

E elle mandou-me embora.


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Quem os põe assim aos reis, ao D. Carlos, ao D. Luiz, ao imperador do Brazil, são os grandes homens, o Victor Hugo, o Rossini, os que os incensam a torto e a direito. O D. Luiz era inteligente e conhecia os classicos musicaes, mas, como não estudava, tocava mal. Pois um dia o Rossini, em Paris, depois de o ouvir, disse-lhe:—Vou organisar um concerto em minha casa, para que V. Magestade, que é um dos melhores musicos que conheço, seja ouvido e apreciado.


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O D. Luiz, como todos os fidalgos portuguezes, gostava de conviver com gente baixa. Quando se iam embora os ajudantes e a côrte, ficava com os particulares, com a gente que lhe chamava doutor Tavares, e então regalava-se de escandalo, de ditos, de má lingua ordinaria.


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Não me admira que elle gostasse da Rosa Damasceno. Era uma mulher caline, muito meiga. Na intimidade devia ser adoravel. E boa. Desde que foi amante de D. Luiz, dava todo o dinheiro que ganhava no theatro.


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A Maria Pia é uma mulher inteligente, apezar de pessimamente educada, sem mãe. Detestavam-se, mas que diplomatas, ella e o rei! Quando se anunciou o casamento do D. Carlos, D. Luiz disse-me:

—Casa por amôr. Fez a côrte á mulher, escreveram-se, elle mandou-lhe flôres e ia para a plateia d'um theatro em Paris namoral-a para o camarote.


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Não sei quem fala do Saldanha...

—Foi o diabo para o mandarem para Londres, quando se quizeram vêr livres d'elle. O governo perguntou para a Inglaterra e de lá responderam que não era persona grata. Foi preciso que o D. Fernando escrevesse á rainha Victoria, que acabou por ceder, dizendo:—Mandem lá esse velho pecador.


Fevereiro—1909.


O Judice Bicker, oficial da armada e antigo governador da Guiné no tempo do Hintze:

—Não, não me falem em dictaduras nem em governos de repressão! Quando fui governador da Guiné apareceram-me lá um dia cem homens mandados pelo governo. E com elles uma simples lista de nomes, sem a minima indicação de crimes. Nada. Era gente que o governo me mandava e de que se queria desfazer. Que lhes havia de fazer na Guiné? Sentei-lhes praça, e d'esses criminosos, aos quaes nunca tive ocasião de aplicar um castigo, seis mezes depois tinham morrido cincoenta de febres!...


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No outro dia—diz o Freitas—estive com a rainha D. Amelia. Está uma mulher amarella e feia, enorme, com as mãos do tamanho do Maximiliano d'Azevedo. E, como lhe notasse os dedos cheios de joias, estranhei, perguntei e explicaram-me:—São os aneis de brilhantes, que ella arrancou aos cadaveres do marido e do filho—e que traz sempre comsigo.


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Um empregado da fazenda:

—Em cada um dos grandes bairros de Lisboa ha milhares de processos de dividas á fazenda parados. Companhia que tenha votos paga quando quer e como quer. Só os desgraçados são penhorados. Isto representa muitas centenas de contos, que se perdem por empenho, por politica, por desleixo.

Fevereiro—1909.


O Pad'Zé contado pelo Vicente da Camara:

—O extravagante Pad'Zé era no fundo um homem methodico. Quando chegava a Coimbra ia sempre com grandes ideias de aprumo e arranjo: uma cama para dormir, uma meza para escrever, etc.. Excusado será dizer que, meia duzia de dias depois, dormia no chão. Mas á cabeceira lá estavam sempre muito arranjadinhos os seus livros e os seus papeis. Se no dia em que se matou, na propria hora em que deitou a mão ao rewolver, alguem o convidasse para uma ceia,—adeus suicidio! adeus morte! trocava-a por uma guitarrada.


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No dia em que fugiu para Badajoz o D. João da Camara encontrou-o: levava para o exilio um livro de Garrett, um par de meias e cinco mil reis emprestados.


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Trazia sempre nas algibeiras envolucros de bombas e mostrava-os ás vezes aos amigos, no Suisso. Na algibeira do medico que morreu na explosão foi encontrada uma carta sua, pedindo-lhe que lhe mandasse pelo portador «seis peras do Fundão». Trazia-as ás vezes pela rua n'uma malinha de mão, e, quando ia ao urinol, pedia ao Anibal Soares, de quem era amigo intimo, para lha segurar:—Mas tem cuidado que são ovos!...—observava sempre.


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Dizem por ahi que se matou, para não matar... Tinha-lhe cahido em sorte, n'uma loja, executar um alto personagem...


25 de Fevereiro—1909.


Visita ao Coelho de Carvalho, que está doente, e mora n'um velho palacio, na rua do Arco do Cego. Moveis Imperio, uma cama imponente com golphinhos doirados e espelhos, falsos quadros de mestre nas paredes d'estuque, onde todos os caiadores de Lisboa pintam sempre o mesmo friso azul ferrete, e salas que se sucedem com alguns moveis antigos isolados. São restos de grandeza d'uma existencia d'artista... Como sempre, fala-se em politica. Não se fala n'outra coisa...—A policia tem o processo do atentado concluido, mas fica-se por ahi. Sabe-se que no dia 21, n'uma loja maçonica, foi proposto o assassinato do rei. O Alpoim esperava na rua, dentro d'um carro, os seus amigos. Mal foi que o acordo com os franquistas gorasse. Sabe que o Alpoim teve uma combinação politica com o João Franco? Disse-mo elle a mim:—«O acordo esteve feito para uma dictadura liberal, mas o rei opoz-se. Foi quando eu e Sicrano e Beltrano decidimos perdel-o»...—Posso garantir-lhe isto: ouvi-o a elle proprio... Quem os aproximou, ao Alpoim e ao Franco, foi o Silva Graça. Tinham até ajustado uma serie de comicios de propaganda contra os adiantamentos. E foi por isso que o João Franco pôde responder como respondeu ao Centeno, dizendo-lhe que tinha nas mãos provas d'essa combinação.

Um tipo fino. Literato e homem de negocios, tendo ganho fortunas e dissipado fortunas. Tem um castello em Arade sobre rocha e mar e uma existencia um pouco dispersa. E com isto curioso e alegre, phantasista acima de tudo, paradoxal acima de tudo. O seu escriptorio de advogado que foi muito tempo no ministerio da justiça, é hoje alli n'uma meza do Martinho. Desconfio que mistifica os clientes—para se divertir... As dificuldades da sua vida são talvez invenciveis, mas a desgraça encontra-o sempre de pé, com o mesmo riso nas mesmas lindas barbas todas brancas enquadrando uma face moça, e oculos redondos de tartaruga, que lhe dão uma aparencia de retrato de Holbein.—Os oculos de Spinoza...—como elle lhes chama.


Março—1909.


O Armando Navarro:

—D'aqui por cincoenta annos estamos absorvidos pela Hespanha, sob a forma federativa. A autonomia municipal, a mais rasgada de todas as que conheço, e que o conservador e reaccionario Maura acaba de dar á Hespanha, é o primeiro passo...


6 de Março—1909.


Foi hoje o enterro do Taborda. Aqui ha tempos cahiu de cama e disse a alguem a chorar:

—D'esta vez é certo! Sinto que vou morrer... E a vida é tão linda!

Tinha oitenta e cinco annos. Os jornaes contaram d'elle esta coisa enternecedora: D'uma vez foi recitar um monologo a um asylo de raparigas da sua terra. O monologo começava assim: «Boas noites, meus senhores...». Entrou no palco e disse a phrase:


Boas noites, meus senhores...



E as meninas do asylo, que o conheciam todas, levantaram-se e responderam á uma:

—Muito boas noites, senhor Taborda!

A morte engrandece sempre, mas acho horrivel acabar na rua dos Calafates, entre a convenção e a mentira, andar por cima, andar por baixo, corôas secas, photographias e recordações de bastidores. Um velho tem direito a morrer entre arvores, em plena natureza. Os bichos, quando sentem aproximar-se o fim, procuram um buraco para se esconder... São mais felizes.


Março—1909.


As declarações do Ferreira do Amaral na Camara dos Pares vieram autenticar o que se dizia do rei. O Ferreira do Amaral afirmou:—«A reacção envolve o rei».—Acrescenta-se cá fóra que é um jesuita hespanhol quem dirige o rei e o Paço, e parece certo que o Ferreira do Amaral o impedia por vezes de ir de livro e contas á missa—fazendo-o visitar no Porto tres fabricas por cada missa que ouvia...


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Espalha-se que foi a rainha quem pôz fóra o Ferreira do Amaral, e que elle quer lá voltar para lhe dar uma lição.


Março—1909.


Apresentam-me hoje um velho janota, o visconde da Torre da Murta. É um velho magro e esticado, de luvas e chapeu alto. Cheio de pretensões e os cabelos todos brancos. Parece ligado por arames. Vive na miseria. A mulher enganou-o, deixou-o. Pagou-lhe as dividas—e ficou pobre: são as Thomares que o sustentam. O velho conserva uma grande dignidade e só sae de luvas e chapeu alto. Mas quem sobretudo lhe vale é a creada, uma destas extraordinarias mulheres do povo, que nascem para os outros e que já disse que quando morrer lhe ha-de deixar as suas economias «para o senhor visconde não passar necessidades». O senhor visconde vive n'um cubiculo, e da sua passada grandeza restam-lhe meia duzia de livros com magnificas encadernações.


Março—1909.


Fuschini, que fui hoje visitar, está velho e tem uma doença de coração muito adiantada.

—Porque não escreve as suas memorias?

—Não sei, custa-me. Tenho pensado em escrever a minha autobiographia... Depois deixo-me d'isso.

E conta-me:

—Quando foi da conversão da divida externa fui eu e poucos mais que obstamos a que viessem tres estrangeiros para Portugal mandar n'isto. Creia... Chegaram a dizer-me:—Não faça questão, que será um dos membros da junta.

E diz:

—Ao tempo da dictadura do João Franco lembrei-me de reunir em Lisboa um congresso de todos os homens publicos. Procurei os republicanos, o Afonso Costa, que me prometeram o seu apoio. Estava de relações cortadas com o Hintze, mas mandei-lhe falar e elle fez-me ir ao Estoril. Disse-me o peor que é possivel do rei e acrescentou:—Aceito a sua idéa... E tem casa?—Tenho.—E se a policia intervier?—Resistimos e apelamos para o povo.—Bem, vá falar ao José Luciano.—Procurei essa vil alforreca, que exclamou:—Mas isso é a revolução!... Preciso de falar primeiro com o Hintze. Tenho uma idéa melhor...—Dias depois o Hintze dizia-me:—O José Luciano não quer fazer nada, disse-me que era melhor esperarmos para Outubro, quando o rei regressar a Lisboa.—Tambem me lembrei de escrever um manifesto dirigido ao estrangeiro e assignado pelos estadistas portuguezes.—Ex, que exclamou:—Mas isso é a revolução!... Preciso de falar primeiro com o Hintze. Tenho uma idéa melhor...—Dias depois o Hintze dizia-me:—O José Luciano não quer fazer nada, disse-me que era melhor esperarmos para Outubro, quando o rei regressar a Lisboa.—Tambem me lembrei de escrever um manifesto dirigido ao estrangeiro e assignado pelos estadistas portuguezes.—Excelente, disse-me logo o Hintze, venha cá amanhã... Olhe, amanhã não, que é o enterro do Casal Ribeiro. Depois de amanhã.—No dia seguinte estava morto.


Março—1909.


Eis a impressão geral: Foi a rainha quem tramou a queda do Ferreira do Amaral. O Julio de Vilhena queria que saissem apenas dois ministros regeneradores, substituindo-os por outros. Foi uma tramoia do Paço. Toda a gente diz que a rainha está feita com os reaccionarios. O D. Carlos, emquanto vivo, opunha-se-lhe, e, logo ás primeiras investidas—festas de Santo Antonio, etc.—poz-se do lado dos que combatiam a reacção. Agora manda. E conta-se que o Ferreira do Amaral entrou um dia d'estes no Paço e perguntou pelo rei.—Está com o seu director espiritual.—Então preciso de falar á rainha.—Está tambem com o seu director espiritual.


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A rainha—dizem-no todos—arrisca-se um dia a ser desfeiteada. Acusam-na de deitar a perder o rei.


Março—1909.


Barreira conta-me que varios republicanos teem insistido junto do general Baracho para se pôr á frente d'um movimento.

—Bem sei, vocês querem que eu tire as castanhas do lume, para que os outros as comam!


Março—1909.


O Cunha e Costa:

—O Ferreira do Amaral desarmava pela bonhomia. Um dia constou ao Bernardino que para os lados do Campo Grande havia tumultos. Telefonou ao Amaral:—São os reaccionarios que querem repetir as scenas de cinco de Abril...—Vou indagar.—Meia hora depois:—Está? Sou o Amaral.—E muito placidamente:—Ó Bernardino, olhe que aquelles homens que os senhores mandaram para o Campo Grande ainda lá não chegaram...—!!!—Os republicanos do Mundo, quando lhes constou que iam ser atacados:—Senhor presidente do conselho, consta-nos isto...—A casa do cidadão é inviolavel e todos teem o direito de se defender.—Ao Pimentel Pinto, cheio de dividas e que não paga a ninguem, respondendo á acusação de jantar com os makavenkos:—Janto, janto, mas pago, meus senhores, pago sempre.—Ao Arroyo, quando lhe dizia:—Enganaram-no, almirante.—É que eu sou um ingenuo.


Abril—1909.


Fazem correr por ahi esta infamia: que o Wenceslau de Lima é amante da rainha D. Amelia.


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O Eduardo Pimenta, que serviu com o Mousinho em Africa:

—Um orgulho desmedido, uma decisão rapida, e uma insensibilidade, como nunca vi, ao frio, á fome, ao trabalho... D'uma vez, por qualquer questiuncula, fomos obrigados a dar uma satisfação á Alemanha. Que scena! O Mousinho arrancou do peito constelado todas as medalhas, todas as condecorações—todas. Só lá deixou a Aguia Vermelha que obriga o alemão a conservar-se de pé diante dos que a teem. Poz o bonnet às tres pancadas e entrou por a casa do consul dentro. Ergueram-se todos—e elle, á porta, sacudido, impertinente, enorme, disse a phrase protocolar:—O governo de Sua Magestade Fidelissima encarrega-me, etc.—E sem esperar pela resposta, outra vez levou dois dedos ao bonnet e rodou sobre os calcanhares, deixando-os estupefactos.


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Jayme de Seguier encontra o João Franco no estrangeiro. São amigos. E João Franco que não queria, que jurára não tornar a falar em politica, durante duas longas horas não conversou, não falou n'outra coisa.

—Tinha previsto tudo. Tinha previsto a minha morte: o que eu não previra foi o assassinato do rei. Isso nunca me passou pela cabeça...

—Mas o que eu não comprehendo é que dissolvesse as côrtes estando aliado com os progressistas...

—Tinha-lhes pedido ministros, recusaram-mos. Ficava enfraquecido. Isso é que não. Não podendo tel-os como amigos, então antes como inimigos declarados.

Quem me fornece estas notas (Jaime Victor) fala d'um João Franco cheio, de sensibilidade e de coração, capaz de ir até ao fim...—P'ra diante! p'ra diante contra tudo e contra todos!—Era um convencido. Diz-se que os outros o empurravam. A verdade é que ninguem o podia deter: nem palavras nem acções o faziam recuar; ia como uma bala na sua trajectoria. Contam-me que n'um dos ultimos conselhos de ministros João Franco expoz a situação: o movimento revolucionario, as medidas que tomára, etc.. Vasconcellos Porto, placido e enorme, expoz a sua opinião e concluiu:

—Deixe-os vir para a rua, que eu conto com o exercito. E depois de vencermos, governaremos...

Ao que João Franco respondera:

—Não, podendo evitar-se o sangue—evitamol-o.

E Jaime Victor conclue:

—A morte de D. Carlos trouxe-nos extraordinarias complicações. Elle, por exemplo, tinha seguro o tratado de comercio com o Brazil, que nunca mais se fará. No Brazil fizeram-se despezas extraordinarias para o receber.


Novembro—1909.


Guerra Junqueiro desalentado:

—Isto está liquidado, a ocasião passou. Agora o rei casa com uma ingleza e vem para ahi um caixeiro qualquer da Inglaterra, que manobra por traz da cortina. Não reparou n'isto?... Nas camaras passou uma lei que os auctorisa a vender inscripções. É a bancarrota adiada por muito tempo. D'aqui a annos o juro da divida interna é reduzido, mas vae-se vivendo e paga-se ao estrangeiro, que é o principal.


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Do João Franco diz:

—Mentia com o coração nas mãos... Então é que era ocasião. O Franco e o rei eram dois cães damnados... A ocasião passou, a republica passou.


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O Carneiro de Moura:

—Os bispos e as beatas deram para a imprensa reaccionaria, para O Portugal, vinte contos. Já lá vão em pagodes!


Dantas Baracho.—Caricatura inedita de Celso Herminio.
Dantas Baracho.—Caricatura inedita de Celso Herminio.



Novembro—1909.


Conta hoje o Fuschini—sempre com a Alice Lawrence atraz, sempre a caminho da Sé, com o chapeu sobre os olhos e um rôlo de papeis debaixo do braço, sempre sufocado quando sobe as escadas, porque o coração cada vez lhe trabalha peor, sempre irrequieto e interessante, apesar da edade e dos cabelos todos brancos:

—O Soveral é um homem de negocios
[8]. O que elle quer é dinheiro. Já tive todos os fios d'essa meada nas mãos... Obrigou agora o rei a ir á Inglaterra fazer uma figura triste. Pois posso garantir-lhe que ha dois mezes esteve em Lisboa um correspondente do Dail Maily, que contou á Alice que o proprio duque de Fife mandára ao jornal o seu secretario desmentir a noticia do casamento.


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O Avelino de Almeida, jornalista com a especialidade de padres e beatas:

—Quem deu o dinheiro para O Portugal foram as beatas. Um padre lazarista é que andou metido n'isso. Arranjaram dezoito contos. Só a viscondessa de Sarmento deu seis.


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Um artigo curioso do Corriere de la Sera, assignado pelo Gomes dos Santos:


«Um caso singularissimo poz recentemente a policia na pista d'uma conspiração de aventureiros que punham o seu braço ao serviço do radicalismo, promptos para tudo quanto lhes fosse ordenado em nome... da utopia. Uma longa serie de crimes politicos que datam do regicidio e cujos auctores até agora tinham ficado envoltos no mysterio, coloca em evidencia os factos preteritos e abre um caminho seguro para a liquidação das responsabilidades. Hoje ninguem duvida da existencia d'uma sociedade secreta que, sob a aparencia de loja maçonica, é o verdadeiro poder executivo do partido revolucionario, o braço sempre prompto a ferir, a espada que cae traiçoeiramente sobre as victimas designadas pelos dirigentes da politica radical?

Ninguem ignora em Portugal as circumstancias em que se desenrolou o regicidio. Na confusão da tarde tragica, a policia cae sobre dois dos regicidas e mata-os em legitima defeza. Mas permanece sempre firme a convicção de que os regicidas não eram sómente Buiça e Costa, que pagaram com a vida o seu delicto! Esta convicção fundava-se em factos de ordem material e moral, sobre os quaes não havia duvida de especie alguma. A prova moral da existencia d'outros cumplices reside na impossibilidade do atentado haver sido organisado e levado a efeito apenas por dois homens. A prova material forneceram-na numerosissimas testemunhas que viram a carruagem real ser alvejada, simultaneamente, de varios pontos e observaram a fuga de alguns dos cumplices do regicidio, um dos quaes, perseguido pela policia quando fugia, com o rewolver fumegante em punho, conseguiu perder-se de vista ao voltar uma rua, confundindo-se depois com a multidão espavorida que fugia do logar do crime.

É um vulgar principio de investigação judiciaria que os deliquentes se devem procurar entre aquelles a quem o delicto aproveita. Ora quem podia aproveitar com a carnificina da familia real? Se houvesse produzido uma mudança politica, aproveitavam evidentemente os republicanos cujo triumpho teria sido d'esta arte facilitado. Se tivesse originado apenas (como realmente produziu) uma substituição de governo resultaria proveitosa para os mesmos republicanos aos quaes João Franco havia fechado todos os caminhos. Vendo presos os seus principaes chefes e ameaçada toda a sua organisação, os republicanos esperavam reconquistar, com um golpe de mão, as posições primitivas. Não ha outras hypotheses a considerar, visto que o crime não podia ter sido perpetrado por uma conspiração de monarchicos nem representa um caso individual de terrorismo porque os regicidas não eram anarchistas.

O Buiça e o Gosta eram republicados militantes: trabalhavam nas ultimas filas dos revolucionarios. Livres pensadores, pertenciam á sociedade de propaganda d'onde, de resto, teem sahido todos os criminosos politicos. Homens de acção, pertenciam a uma loja secreta, a «Montanha», mixto de instituição maçonica e de comité revolucionario, sem local fixo e sem estatutos, que se reune a um simples convite dos jornaes da seita, ninguem sabe onde e que se compõe de homens capazes de tudo. Tudo deixa crer que o regicidio foi ahi deliberado e que, como é costume, os executores foram tirados á sorte, visto que apenas o sorteio explicava a escolha d'um dos regicidas, cujo passado se não ilustra com actos de grande coragem individual.

Mas sobre o regicidio, que inaugura a conhecida série de delictos politicos, não mais se tratou de fazer luz. Não se chegou a apurar quem foram os cumplices da emboscada e, se porventura se tentou esclarecer o caso, acabaram por concluir que era melhor guardar silencio sobre elle. No entretanto, occorriam novos factos que vieram documentar melhor a existencia d'uma organisação que liquidava pelo assassinio as dificuldades susceptiveis de embaraçar o movimento revolucionario. Poucos mezes depois do regicidio, um humilde engraxador apresentava-se á policia perfeitamente apavorado e narrava que dois republicanos lhe tinham proposto lançar uma bomba no coche que devia conduzir D. Manuel ao Parlamento. A declaração era verdadeira? Ignoro-o. Mas a policia prende os dois mencionados instigadores, um dos quaes é fulminado por uma congestão cerebral no gabinete do juiz. Este, quando se prepara para colher do denunciante novos esclarecimentos, vê o engraxador morrer envenenado n'um hospital no meio de horriveis aflicções. O desventurado declarava que morria por haver dito a verdade. Por falta de provas o processo foi archivado, o que poz de bom humor a imprensa revolucionaria, que já se dispunha a desviar a opinião publica com um diversivo.

Poucos mezes depois outro crime vem afirmar a existencia da seita. Alguns militares acusados de terem tomado parte no movimento revolucionario de 28 de janeiro, foram condenados a penas graves pelo tribunal, graças ao depoimento d'um sargento chamado Lima, que se insurgiu e referiu o facto aos seus superiores. O sargento passeava um dia em Setubal, para onde fôra transferido, quando um revolucionario se lançou contra elle e lhe cravou um punhal no coração. O assassino, preso quando fugia, allega uma historia inverosimil de rivalidade que as investigações policiaes desmentiram. Quanto á opinião da auctoridade e dos que conhecem de perto as scenas, referidas anteriormente, da quadrilha revolucionaria, é clara e expressa: o sargento foi condemnado á morte por ter denunciado a existencia da conspiração.

Dois suicidios mysteriosos—um sob o comboio de Cascaes, outro na redacção d'um jornal revolucionario—parecem ter intimas relações com a existencia da Mão Negra local.

Diz-se que os suicidas, designados para certos cometimentos, preferiram escapar pela morte ás intimações d'uma implacavel organisação secreta. Não faço aqui menção do caso das bombas explosivas com que ultimamente pretenderam alvejar algumas egrejas, depois da execução de Ferrer. Não ha provas da intervenção da Mão Negra, mas simples indicios de presumpção. Mas o que acabou de esclarecer o paiz sobre a existencia d'uma formidavel e perigosa associação secreta foi o recente crime de Cascaes, a que os jornaes independentes dedicaram longas columnas.

Vão decorridos alguns mezes depois que na administração das alfandegas se descobriu um importante furto de armas, que estavam para chegar ao seu destino. A ausencia d'um operario da fabrica de armas provou a sua responsabilidade no furto, logo confirmada pela captura d'um cumplice—um dos implicados na revolução republicana de 28 de janeiro—que era o receptador das armas roubadas. Já a policia averiguou o destino das armas, que se reservavam, com a complacencia de empregados aduaneiros, ao movimento revolucionario, quando no meio dos rochedos das arribas de Cascaes, a oito kilometros de Lisboa, se encontra assassinado mysteriosamente o empregado da alfandega, auctor do furto.

Com os documentos que lhe encontraram nas algibeiras e com as indicações fornecidas pela familia do assassinado, a policia reconstituiu facilmente o crime. O pobre empregado, vendo descoberto o furto das armas, dirigiu-se aos que o tinham impelido e suplica-lhes que o salvem. Deram-lhe dinheiro para transpôr a fronteira com promessa de o sustentarem no estrangeiro e o homem refugiou-se em Badajoz, territorio hespanhol. Mas o dinheiro falta; as promessas não são mantidas e o refugiado escreve aos que o haviam levado ao crime, suplicando socorro. Como não obtivesse resposta, ameaça-os com declarações. A Mão Negra destaca para Badajoz um dos seus agentes, que o conduz a Lisboa enganado com promessas de continuar a viagem para Africa; na primeira ocasião levam-no a Cascaes a fim de seguir ocultamente para o seu novo destino e matam-no, arrastando-o para o mar e precipitando-o do alto das ribas.

O assassino foi preso na fronteira, quando tentava refugiar-se em Hespanha, e conduzido a Lisboa, sob rigorosa escolta. Aqui, depois de alguns dias de apertados interrogatorios, apanhado em contradição, não sabendo explicar as manchas de sangue que tinha no fato, confessa finalmente que cometera o crime,—e que, além de ser antigo empregado n'um centro republicano, é membro da associação secreta a «Montanha», como os regicidas, como os auctores dos outros crimes politicos. É a existencia da Mão Negra averiguada e confessada.

Os jornaes da seita, republicanos e revolucionarios, perante esta sensacional descoberta, mantiveram a principio o maior silencio; jornaes que costumavam ocupar columnas com o mais insignificante acontecimento, evitaram, por todos os modos, referir-se a elle. Depois, desesperados por não poderem conservar-se calados, começaram a agredir violentamente e, por ultimo, a ameaçar a imprensa independente que, mostrando-se bem informada, se ocupou dos factos com uma certa largueza. E, emquanto a imprensa vermelha assim procedia, a policia vinha a saber que os revolucionarios tinham projectado fazer evadir o preso e teve a finura de o transferir do deposito de segurança para uma caserna militar, onde está de sentinella á vista.

Por outro lado, diz-se que as declarações relativas ao crime de Cascaes revelaram uma nova pista para a descoberta dos regicidas e a policia afadiga-se no intuito de descobrir e prender os membros da Mão Negra. Alguns jornaes lembram, a proposito d'este facto, a fuga precipitada de certa personagem para o estrangeiro. A Mão Negra é uma especie de comité executivo, dentro do qual se encontra todo o elemento revolucionario. Disporá o Estado de força para resistir a esta formidavel organisação que nem sequer hesita ante o crime?

A experiencia da fraqueza dos governos, que se sucederam no poder após o regicidio, não auctorisa a responder tranquilamente a esta interrogação...»



Dezembro—1909.


Segundo varias pessoas, ha efectivamente em Lisboa muitas agremiações carbonarias.


Dezembro—1909.


O A... que se suicidou hontem tinha-se alcançado em não O A... que se suicidou hontem tinha-se alcançado em não sei quanto—outros, passeiam por essa Lisboa. Um, o M., alcançou-se em dezoito contos. Castigaram-no reformando-o com o ordenado por inteiro.