*
Conta o Columbano que a seu pae Manuel
Bordallo Pinheiro, pediu um dia um companheiro
de repartição:
—Tenho lá em casa na cocheira (do conde
de Lumiares), um quadro muito negro que queria
que você visse.
Manuel Bordallo foi buscar a tela, limpou-a
da bosta dos cavalos, lavou-a da camada de negro...
Era, nem mais nem menos, o retrato de
Carlos I d'Inglaterra, por Van Dyck, que o
D. Luiz depois comprou e está hoje na galeria
do Paço d'Ajuda.
Dezembro—1909.
O Avelino d'Almeida:
—A verdadeira razão por que o
Seculo se fez
republicano?... É que no Paço, das ultimas vezes
que o Silva Graça lá foi, receberam-no mal,
trataram-no d'alto.
*
—Um homem muito honesto o Hintze—diz
o Carneiro de Moura—um homem muito
honesto que fazia assim:—Ó Val-Flôr,
empreste-me
vinte contos.—E o Val-Flôr
emprestava-lhos—e
recebia do Estado compensações que valiam
o dôbro. Um homem muito honesto, o Hintze;
que nunca tirou dos cofres do Estado o valor de
cincoenta mil reis.
Dezembro—1909.
Ministerio novo. O bloco foi comido. O Alpoim
furioso, exclama, em pleno Chiado:—O
rei mentiu-nos! o rei é um imbecil! o rei tinha-nos
prometido o poder!
E o Vilaça conta:
—O José Luciano reuniu-nos hontem á
noite,
a mim, ao Beirão, ao Dias Costa, ao Moreirinha
e disse-nos:—Se os senhores estão no partido
apenas para serem pares do reino e para
que os encha de favores, isto acabou, hoje mesmo
se liquida o partido progressista. Não podem
recusar as pastas que eu lhes indicar.—Todos
se curvaram, o Vilaça, que perde dez contos por
anno, e o proprio Dias Costa, que de forma alguma
queria ser outra vez ministro.
23 de Dezembro—1909.
O Julio de Vilhena deixou hoje de ser chefe
do partido regenerador. Conta o João Pinto
dos Santos, que o Vilhena falou ao rei de cabeça
alta, e por tal forma, que D. Manuel sahiu
afogueado d'essa ultima entrevista, dizendo a
alguem:—Só
lhe faltou bater-me...
Dezembro—1909.
O Mardel é um homemzinho pitoresco e anecdotico
que conhece Lisboa como as suas mãos.
Ninguem como elle desenha um tipo ou vae ao
passado buscar uma figura. Sabe tudo e inventa
o resto. É um prazer ouvil-o. Constroe genealogias,
negoceia em
bric-à-brac e
escreve satyras.
D'uma vez, a um figurão que se dizia filho natural
de D. Pedro IV e que mostrava desvanecido
a toda a gente o retrato do rei que tinha
na sala, perguntando:—Hein, com quem se
parece?...—escreveu
elle a seguinte quadra:
Do Imperador, de quem
diz que é filho,
Tem o retrato na sala,
Mas da p... que o pariu
Não tem retrato nem fala...
*
Encontro em casa do Mardel o marquez da
Foz, de barbas brancas e aspecto venerando, que
desata a narrar conversas extraordinarias, surprehendidas
a meninas do
Sacre
Coeur sobre a
masculinidade dos creados... Depois fala d'arte,
de mobilia, quadros e maravilhas que comprou
e vendeu. Vive hoje arredado em Torres Novas.
—D'uma vez, quando se vendeu a mobilia
do palacio de Oeiras, dos Pombaes, os que fizeram
a liquidação, pediram-me para lhes ceder
um andar d'uma casa que eu tinha com escriptos
na rua do Ferragial, para se fazer o leilão.
Cedi e antes da praça fui lá, agradaram-me
diferentes
coisas e comprei-as. Custaram-me oito
contos. Entre varias trapalhadas iam cinco vasos
da China, cinco maravilhas, como nunca tinha
visto. Eram precisas duas pessoas para lhes pegarem.
Ao centro de cada vaso viam-se as armas
de Pombal. Quatro coloquei-os á entrada da minha
casa, o outro levei-o para a sala de jantar e
pul-o defronte d'uma estufa... Um dia reparei:
por causa do calor o verniz estalára.
Levantei-me,
olhei: sob a casca aparecia outro desenho. Tirei
com uma faca o
craquelé—e debaixo das
armas,
do Pombal apareceram as armas dos Tavoras!
Tão certo é que até os grandes homens
estão
sujeitos a estas miserias...
Depois trata da baixela do Paço, que no tempo
de D. Luiz estudou a fundo, e que então andava
a trouxe-mouxe pelos armarios. São peças
magnificas,
signé
Germain, e que valem um milhar
de contos.—D'uma vez disse a D. Luiz:—Deixe-me
V. Magestade arranjar-lhe uma sala de
jantar com a
boiserie de Queluz e a
sua baixela,
que nenhuma côrte da Europa apresenta uma
sala assim.—Ainda hoje não ha côrte
nenhuma,
nem a da Russia, que tenha uma baixela tão
rica. São mil e tantas peças admiraveis.
É falso
que lá esteja tambem a baixela do duque de
Aveiro. Vi as contas todas, photographei tudo...
*
—Um dia fui ao Leitão ourives, a esse
artista...—e
sorri com ironia—comprar qualquer
joia. Ia a sahir quando dei com uma prata antiga
a um canto.—Que é
aquillo?—Está alli
para derreter.—Deixem-me vêr.—Eram
três
peças
esplendidas, com as armas do duque d'Aveiro—uma
salva enorme, a que faltava um bocado
da aza, com desenhos magnificamente gravados,
e duas enormes compoteiras de prata com festões
d'ervilhas, tudo marcado, assignado,
admiravel.—São
para derreter? Então venda-m'as. Quanto
pezam?—Quinhentos mil reis.—Dou
seiscentos.—Venderam-mas,
levei-as para casa. Tinham feito
uma tentativa para lhe apagar as armas. Quando
depois as vendi deram-me alguns contos de reis.
Por fim fala de ninharias, d'isto, d'aquillo—e
d'algumas peças
que tinham pertencido
ao D. Fernando e «nas quaes alguem fez
mão
baixa»...
*
Uma anecdota que elle tem como absolutamente
autentica e que andou sempre na tradição
da sua familia:
—O D. João VI estava para morrer. O patriarcha
procurou a D. Carlota Joaquina para
a reconciliar com o rei. Recebido na sala do
throno, em Queluz, diz-lhe as palavras banaes
do costume—mas ella não cede. Pede,
suplica—perde
o seu tempo. A rainha está renitente.
Então retira-se depois das contumelias da
pragmatica—e,
ao sahir, volta-se de repente e dá
com ella a fazer-lhe um grande, um imponente,
um magestoso manguito...
*
Ha dias comprou por cento e cincoenta mil
reis um quadro de Alberto Durer, absolutamente
autentico e com a assignatura perfeita.—É o
pendant do que está no
Museu. E estou em vesperas
de comprar mais quatro, entre os quaes
um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que
todos estes do que está no
Museu. E estou em vesperas
de comprar mais quatro, entre os quaes
um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que
todos estes quadros pertenceram á galeria do
duque d'Aveiro.
Janeiro—1910.
Contam-me hoje a morte tragica do Marianno
de Carvalho. Estava doente, de cama, e a familia
sahiu, deixando-lhe uma campainha á cabeceira.
Os creados aproveitaram a oportunidade e safaram-se
tambem. Quando voltaram foram dar
com elle morto, agarrado á campainha, n'um ultimo
desespero...
Janeiro—1910.
O juiz d'instrucção criminal, dr. Antonio
Emilio, a um amigo meu:
—No dia vinte e oito de Janeiro os soldados
apanharam junto a qualquer quartel da municipal
um homem com um caixote de bombas e
duas pistolas automaticas. Meteram-no no
calabouço—e
confessa, não confessa... o homem
nada! Então o oficial chamou um soldado e
disse-lhe:—Nós
vamos alli para a porta do calabouço
e tu diz-me a tudo que sim. Vamos lá.—E
começou:—Carrega lá essa pistola para
darmos
cabo d'esse diabo, que vinha aqui para nos
atirar bombas!—Quando o oficial abriu a porta
do calabouço o preso atirou-se-lhe aos
pés:—Não
me matem que eu confesso tudo.—Então
quem te entregou o caixote?—Foi o Alfredo
Costa.—Veio a participação para o
governo
civil—mas
só chegou ás mãos do juiz depois da
morte do rei...
José Maria de Alpoim.
José Maria de Alpoim.
*
O juiz:
—Estamos sobre um vulcão. Prendi varios
homens das associações secretas, podia prender
mil. Já ninguem salva isto a não ser uma forte
dictadura militar. E eu vou-me embora porque
não quero incorrer nas iras populares.
*
O dr. Antonio Emilio ao Beirão:
—Ou vamos para a frente, ou os senhores
metam-se em casa á espera que os chacinem.
E garante que a explosão de outro dia na
Baixa, atribuida a gaz extravasado, foi devida a
uma bomba de dinamite.
Janeiro—1910.
Os brincos de brilhantes que o Pedro d'Araujo
deu á mulher do José Luciano quando o
fizeram par, custaram cem mil francos. Diz-se,
diz-se...
Fevereiro—1910.
O Paço está rodeado de piquetes.
Forças vigiam
a Tapada. Garante-se por ahi que, emquanto
os regicidas não forem presos, o rei
não casa. O Maximiliano d'Azevedo, oficial do
campo entrincheirado, conta-me que as forças
do campo foram ante-hontem (1 de Fevereiro)
postas sob as ordens do general de divisão e
com ordem de marcharem sobre Lisboa ao primeiro
aviso.
*
O que se diz por ahi baixinho, de ouvido
para ouvido, é tremendo. Diz-se o que
O
Povo
d'Aveiro, que está tendo tiragens enormes,
publicou
nos ultimos numeros
[9].
*
O T..., d'
O Mundo, disse-me que
janta duas
vezes por semana com o Alpoim, e já se tem gabado
que é elle um dos auctores do
Diz-se...
*
O Colen, n'um jantar intimo, onde esteve
alguem que m'o conta:
—No dia vinte e oito de Janeiro estava tudo
preparado e seriamente preparado para a deposição
de D. Carlos—marinha, tropa,
organisações,
tudo. E tudo falhou porque o Afonso Costa
não quiz dar o signal sem que o João
Franco
estivesse morto.
Março—1910.
Á reunião celebre do Castello, onde se decidiu
a morte do rei, assistiram trinta pessoas.
*
Paçô Vieira:
—A carta que o rei escreveu ao Hintze e
que fez com que o ministerio cahisse, foi conhecida,
antes de lhe ser enviada, pelos republicanos.
Eu lhe conto: um dia estava em Paçô,
quando o Hintze me chamou. Parti logo, corri
logo a casa d'elle. Encontrei-o na sala de bilhar:
tinha um papel na mão.—Desculpe e obrigado.
Já não é necessario. Recebi hoje esta
carta do
rei que me levou a pedir a
demissão.—Repliquei-lhe:—Sei
perfeitamente o que diz essa carta.
Posso repetir-lha quasi phrase por phrase.—E
diante do espanto do Hintze:—Vim no comboio
com o Afonso Costa que me disse, palavra
por palavra, o que continha essa carta...—Assombro
do Hintze. A copia da carta fôra mandada
pelo rei aos republicanos—naturalmente
ao Bernardino—antes de ser enviada ao Hintze.
Março—1910.
Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido
pela vida fóra! Este, de ventre e barbicha
de bode, esta figura de que os mortos
se conseguiram apoderar, agarrado á terra, conservador,
discutindo com o padre da freguezia
os melhoramentos da sua egreja, este é—emfim!
emfim!—o descendente autentico dos
cavadores alemtejanos. Custou... As suas melhores
obras—as que sonhou e nunca se resolveu
a escrever—leva-as elle para a cova...
De quando em quando ainda tem uma revolta:
—É horrivel a minha vida na aldeia. Se
não
fossem os livros já me tinha suicidado. Cada vez
preciso mais de ver gente e d'esta vida artificial
de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, não falo com
ninguem, não tenho ninguem com quem comunicar.
São de bronze aquelles filhos da p...! E nem
a mais pequena sombra de sensibilidade. E se
imaginam que a gente não tem dinheiro, estamos
perdidos!...
—Fuja.
—Não posso. Quem me ha-de tratar d'aquillo?
E depois criei interesse ás oliveiras que plantei,
á vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites
em que pego n'um livro e saio. Ha uma estrada
em volta de Cuba—e eu alli ando á roda toda
a noite a falar sósinho como um condenado!
Março—1910.
Centenario d'Herculano. Missa nos Jeronymos
pelo padre Matos. O S. Boaventura diz-me
que, pela avó materna, é ainda parente de
Herculano.—Que
eram seus avós?—Pedreiros.—Efectivamente
no retrato Herculano parece um
pedreiro da minha aldeia; efectivamente Herculano
descende de pedreiros e toda a sua obra é,
na realidade, a d'um homem que moe e lavra
com solemnidade a pedra, a d'um d'esses extraordinarios
montantes que metem o ferro até á
raiz da fraga, racham o penedo, afeiçoam a
lage, e acabam, emfim, por construir a cathedral.
Herculano edificou em granito—e no granito
abriu pacientes e admiraveis lavores... A seriedade,
a obstinação, e até o amôr
á terra, ao
azeite e ao pão, seu ultimo ideal e refugio, são
caracteristicos e o ideal tambem d'essa legião
de trabalho imensa e obscura, cuja alma, á força
de lidar com a pedra, adquire dureza e grandeza
tambem. Essas figuras, só osso e pelle, descarnadas,
que partem de manhã com o saquitel
e a borôa, que só pronunciam palavras graves, e
ao dar do meio dia se descobrem e mastigam o
pedaço sêco de pão com um ar
solemne,—acabaram,
emfim, por encontrar um descendente
como elles austero e grave, capaz de exprimir o
universo—o que sentiram, o que sofreram e o
que sonharam—e capaz de edificar com alicerces
para seculos. Tudo, até a falta de phantasia
e imaginação, até o miudo lavor
pacientemente
trabalhado, até a casa simples, vulgar e
mal repartida, até a companheira, até a
austeridade,
veio a Herculano d'essa grande geração
de pedreiros portuguezes, que antes d'elle fizeram
obra digna de homens e desapareceram para
sempre no pó—mas poderam transmitir, filho
atraz de pae, a solemnidade e a grandeza, a
quem um dia erguesse uma cathedral mais vasta
e com raizes mais fundas do que elles todos
juntos. Mas todos trabalharam tambem, sabe
Deus durante quantos seculos, com tenacidade
e firmeza, para a obra do pedreiro maximo de
toda a sua geração.
Março—1910.
José d'Azevedo:
—Anno passado o rei chamou-me e pediu-me
para votar o projecto da União Vinicola. Disse-lhe
logo:—Não, meu senhor, não voto. E V.
Magestade pede-me isso porque não sabe de que
se trata. O projecto é ruinoso.
Abril—1910.
O Fernando de Serpa, agora em foco por
causa das cartas que o Afonso Costa leu no
Parlamento
[10]
e se teem publicado n'
O
Mundo—esteve
estes dias para se suicidar. A mulher
não dorme e o irmão d'ella entrou hoje
n'
O Imparcial e disse ao
José d'Azevedo:—Se
isto assim continua minha irmã endoidece, e
se minha irmã endoidece eu mato o Afonso
Costa.—Segundo elle, esse Fernando de Serpa
que se metia em tantos negocios, deve afinal
quinze contos de reis e tem agora os seus vencimentos
suspensos...
*
Porque o José d'Azevedo não foi ministro
com o Hintze:
—O Hintze tinha por mim uma grande
admiração, mas nunca me fez ministro, porque
a sua vida economica andava muito atrapalhada
e um dia em que me mostraram uma lista de
pares que elle ia fazer, entre os quaes estava o
meu nome, eu disse:—Mas isso não é uma
lista de pares—é uma lista de
credores.—Soube-o
logo e nunca me perdoou.
*
Quem roubou ao Paçô as celebres cartas de
que o Afonso Costa se serviu no parlamento, foi
o creado. Soube-o hoje por acaso. O Urbano
Rodrigues vendo um rapaz de dezeseis annos na
redacção d'
O
Imparcial, disse:—Este é o creado
do Paçô, que vae muito ao
Mundo e pertence ás
associações secretas.
*
—O José Luciano foi sempre um homem
pernicioso—diz o José d'Azevedo.
—Emquanto fôr uma sombra ha-de
mandar—conclue
o Fuschini. E acrescenta:—Quem
manda é o seu
salão onde se fazem os
negocios
mais escuros e mais porcos d'este paiz.
*
—Esse ministro italiano que ahi
está—conta
o José d'Azevedo—foi um dos que mais concorreu
para salvar Dreyfus. Paulucci, então secretario
de legação em Paris, viu os documentos
da embaixada e convenceu-se da inocencia
de Dreyfus. Falou ao embaixador, seu tio,
que lhe disse:—Prohibo-te que te metas
n'isso.—Não
se importou. Procurou Bernard Lazare,
que o recambiou para o José Reinach.—Isso
é
extraordinario. Vamos ter com Max Nordau e
com Zola.—Reuniram-se e examinaram os documentos
da legação italiana. Dos papeis não
só
se deprehendia que era outro o traidor, mas resaltava
nitida e clara esta preciosa informação: o
adido encarregado da espionagem alemã possuia
a esse respeito vinte e nove cartas absolutamente
decisivas. Max Nordau partiu para Berlim
e pediu ao imperador da Alemanha a publicação
das cartas. O imperador opoz-se. Paulucci não
desanimou: foi a Roma, bateu á porta d'um cardeal,
pediu-lhe que o partido catholico tomasse
a defeza de Dreyfus inocente, o que assegurava
ao catholicismo um papel triumphante no mundo;
falou emfim a Leão XIII, a quem só arrancou
boas palavras. (E d'ahi veio o combate da
França republicana contra o clericalismo. Que
outro não seria o papel da Egreja se Leão XIII
se manifesta!) Nem assim Paulucci desanima. Insiste
com o tio:—Pois meu tio tem nas suas
mãos documentos que provam a inocencia de
Dreyfus e pode dormir descançado! Apresento-me
como testemunha.—O embaixador conseguiu
que todos os secretarios fossem testemunhas
no processo. Paulucci tinha doze mil e setecentos
documentos (copias) da questão Dreyfus, que arderam
no ultimo fogo da embaixada italiana no
campo de Santa Clara. Paulucci dizia muitas vezes:—Andei
dois annos com febre!
*
José d'Azevedo:
—Fui eu que machinei e atirei com o ministerio
Ferreira do Amaral a terra. Tinha-me
feito um agravo que, se é directo, m'o pagava
n'um conflicto pessoal. Fui eu que fiz tudo. O
José Luciano não queria. Procurei-o na Anadia.
Obstinava-se. Mas eu fui ao Porto—e venci.
Uma tarde o Campos Henriques recebeu uma
carta do Paçô, que encontrára o Tavares
Festas
no comboio (o Tavares Festas vinha de casa do
José Luciano), carta em que lhe dizia: «Ouvi que
vae formar ministerio com estes nomes...» O
Campos Henriques mostrou a carta á mulher:—Olha
o que me diz o Paçô...—E riu-se. No
dia seguinte era chamado ao Paço e organisava
o ministerio, tal qual o Paçô lhe dizia
na carta. Ordens de José Luciano.
1 de Maio—1910.
José d'Azevedo diz a respeito do escandalo
do Credito Predial:—Não são sessenta
contos
que faltam, são oitocentos! A escripta está toda
viciada. Venderam-se obrigações, deram-se juros
entrando-se pelo capital, emfim um descalabro
medonho, que se não podia fazer sem
auctorisação dos governadores.
*
É um politico reservado e frio? Não sei.
É
um homem audacioso e inteligente, que parece
calmo. Mas ha n'elle uma parte em carne viva.
Sente-se a ferida sob aquella aparencia forte. Escreve
sem uma emenda, linguado atraz de linguado;
nem hesitações nem duvidas e um prazer que
synthetisa n'estas palavras:—Babo-me... Não
escrevo,
babo-me...—Não crê senão em
si mesmo,
e não deve ter um amigo, como todos os que
contam apenas com as suas proprias forças. A
mulher d'um diplomata que viajou com elle, dizia:—As
maneiras encantaram-me, os olhos meteram-me
medo.—São os olhos dos Brocas.
—Sou das raras pessoas que teem assistido
ao suplicio dos chinezes. Fui com o meu creado,
a cavalo—e por signal que elle desmaiou. Cortam-lhes
primeiro a carne dos ante-braços, depois
a das pernas, depois os seios, depois os
braços e as pernas pelas articulações;
dão-lhes
emfim um golpe no coração e acabam por os
decepar. Pois durante todo o suplicio atroz, os
desgraçados não deram um unico grito, um
só
gemido: erguiam a cabeça e bufavam ou mijavam-se.
Mais nada. Um d'elles prestou-se, sorrindo,
a que o photographassem, emquanto o
carrasco levantava a espada para o degolar...
*
Uma phrase camilliana de uma tia, irmã de
Camillo:—Sobrinho, Deus não existe... ou embarcou!
*
E esta de Camillo, que tinha vindo a Lisboa
muito doente, e a quem Souza Martins, para o
sacudir, começou ralhando muito. Camillo, para
o José d'Azevedo, depois do medico sahir:
—Vê, meu sobrinho, vê, não me
perdoam o
Eusebio Macario, estes filhos de
boticario!
*
Camillo para o José d'Azevedo, mostrando-lhe
o filho, que já estava no primeiro periodo de
loucura:—Veja esse desgraçado... Era um rapaz
inteligente...—E depois d'uma pausa dolorosa:—E
tudo isto porquê, sobrinho? Por ter lido as
obras do Theophilo Braga.
Junho—1910.
Nos quarteis continua a fazer-se uma larga
propaganda republicana. Distribuem-se aos soldados
versos e folhetos. Exemplo:
PROPAGANDA
ELEIÇOEIRA
DO BLOCO PREDIAL
(Musica—A MARSELHEZA) |
||
||
||
||
||
||
||
||
||
||
||
||
||
||
||
||
||
|| |
Ide escravos quebrar os grilhões,
As algemas da fome homicida;
Armas promptas contra esses ladrões,
Que nos roubam a bolsa e a vida! (bis)
Nova aurora de Paz, Redempção,
Vá doirar nossos valles e cerros,
Libertando os captivos dos ferros,
Dando aos pobres a luz e o pão.
Avante! Lusitanos!
Largae a servidão!
Unir! Unir! contra os tyramnos,
Salvemos a
Nação!
Avante Lusitanos,
Salvemos a Nação.
Tareco.
|
E o folheto «Os Barbadões»
[11]:
«O rei D. João I
da gloriosa dynastia de Aviz,
enamorou-se
da filha de Pero Esteves, sapateiro alemtejano, conhecido
pela alcunha O Barbadão; d'estes
amores nasceu
um filho que foi conde de Barcellos e primeiro duque de
Bragança; casando este com uma filha do condestavel
Nun'Alvares, deu origem á nobre casa que ha 267 annos
reina em Portugal.
A casa de Bragança foi-se engrandecendo á custa
de
doações regias, bens nacionaes que os reis cediam
em usufructo
apenas, e que o capricho do soberano ou a conveniencia
do Estado, podiam fazer voltar ao seu legitimo
proprietário: A
Nação.
Não foram os serviços relevantes que
engrandeceram
esta casa, mas as intrigas continuas, salientando-se entre
todas a que levou o glorioso infante D. Pedro á chacina
de Alfarrobeira.
Com a revolução de 1640 que libertou Portugal do
jugo da Espanha, o oitavo duque de Bragança foi aclamado
rei com o nome de João IV; beato e poltrão
liga-se aos jesuitas,
e para salvar a pelle e o titulo de rei, não hesita em
negociar por intermedio do padre Antonio Vieira (jesuita)
a entrega do seu paiz á França, ou novamente
á Espanha,
a troco de o reconhecerem como rei do Brazil; a sua pessoa
era tudo, o seu paiz era nada. Os melhores servidores
do Estado foram lançados em prisões ou conduzidos
ao cadafalso
(o ministro Lucena, o marquez de Montalvão, Mathias
d'Albuquerque vencedor de Montijo, etc.). O seu
reinado foi coroado pelo presente que fez á Inglaterra,
como dote de sua irmã, das cidades de Bombaim e Tanger,
ricas flores de laranjeira que a infante portugueza levou
prezas ao seu vestido de noiva!
Seu filho Afonso VI
que no throno
lhe sucedeu, corria
de noite as ruas da cidade, com a sua purria fidalga, assaltando
os cidadãos indefezos; era doido, e d'isso se aproveita
seu irmão Pedro II para
lhe tirar a corôa e... a
mulher, com o consentimento do papa; este (Pedro II) dominado
pelos jesuitas tambem, desterra o conde de Castello
Melhor, glorioso ministro (que por tres vezes salvou
Portugal da dominação espanhola), e celebra com a
Inglaterra
o vergonhoso tratado de Methwen, que nos tira o comercio
do Oriente e nos impossibilita de montar fabricas
e oficinas.
João V que lhe sucede,
gasta o oiro que do Brazil lhe
vem, na construção de conventos, em festas de
egreja e
em presentes ao padre santo; deixa perder sem enviar socorros,
as nossas colonias da India, Ceylão e Oceania, porque
o dinheiro era pouco para presentear as freiras de
quem fez amantes e o papa de quem se fez lacaio.
José I faz morrer no cadafalso toda a
familia Tavora,
por meio de horriveis tormentos, com o pretexto de serem
cumplices na conspiração do duque de Aveiro, o
que se
não provou, sendo a causa verdadeira a
oposição que essa
familia fazia aos seus amores adulteros com a marqueza;
nada escapou ao seu furor sanguinario: nem velhos, nem
mulheres, nem creanças. Para dignamente coroar o seu
reinado,
abandona aos mouros as cidades que possuiamos em
Marrocos, e que tanto sangue portuguez custaram.
Teixeira de Sousa.
Teixeira de Sousa.
Maria I tira o poder
ao Marquez de
Pombal, entrega-o
aos frades e endoidece; seu filho João
VI que em seu nome
governou e lhe sucedeu, foge covardemente para o Brazil
abandonando o povo de que era rei, quando os francezes
invadiram o paiz; Junot entra em Lisboa á frente de 70
soldados!!! Portugal revolta-se contra os francezes, e o rei
entrega-o aos desprezos de Wellington e ás brutalidades
de Beresford; os inglezes protegendo-nos, fazem-nos peor
mal que os invasores: arrazam as nossas provincias, queimam
as nossas fabricas, conquistam a Madeira, e impõem-nos
os vergonhosos tratados de 1810, ainda peores que o
de Methwen. O general Gomes Freire, por tentar libertar
o paiz das garras inglezas, é enforcado em S.
Julião da
Barra; outros 17 martires pagam com a vida, no Campo de
Sant'Anna, a sua dedicação patriotica. A
revolução popular
de 1820 salva Portugal do leopardo britanico, obriga o
rei a voltar ao seu posto e liberta o exercito do oprobrio de
ser comandado por oficiaes inglezes.
D. Miguel foi quem primeiro
estabeleceu em Portugal
um governo de força, á semelhança do
que desejam actualmente
alguns idiotas barriguistas; nada lhe faltava: as alçadas,
as forcas, o cacete, 80.000 homens de tropa e um
povo fanatico e imbecil; contra si, em todo o paiz, apenas
tinha alguns liberaes desarmados; o seu retrato figurava
nos altares, e as mães pediam-lhe a honra de lhes desflorar
as filhas. Prende, enforca ou manda fuzilar toda a gente de
que suspeita, mas com toda a sua força, deixa que uma
esquadra
estrangeira lhe escarre na cara e no Paiz, sem que
um só tiro partisse a repelir a afronta. Este idolo poderoso
cahe do seu pedestal de sangue, é corrido do
throno pela
revolução
triumphante; seu numeroso exercito
pouco a pouco o foi abandonando, vindo para o
lado do povo liberal, e o bronco tigre que ao começar
a guerra civil tinha 80.000 homens ás suas ordens, perde
a batalha de Asseiceira com os 5.000 homens unicos
que até esse momento lhe ficaram fieis.
Pedro IV, o que tem estatua no
Rocio, revolta o Brazil
contra Portugal, faz-se seu imperador e manda fuzilar
no Rio de Janeiro os soldados portuguezes á
traição; corrido
do Brazil, volta a Portugal a tentar fortuna, dirigindo
a guerra civil contra o irmão; emquanto esta se
não decide
a seu favor, não tem vergonha de offerecer á
Inglaterra,
em troca de auxilio desta, o pouco que nos restava do nosso
imperio indiano.
Maria II para se
aguentar no throno
chama marujos
inglezes e 30:000 soldados de Espanha; faz invadir a sua
patria e assassinar o seu povo, para satisfação
do seu orgulho
de rainha liberal.
Pedro V não poude passar
sem irmãs de caridade, e
deixa que mansamente de novo se estabeleçam entre
nós
as congregações religiosas; novamente, um
almirante estrangeiro
(Lavaud) nos faz o mesmo que Roussin fizera em
tempo de D. Miguel.
Luiz I arvora o cynismo em governo e
faz reinar a
bandalheira; deixa que na conferencia de Berlim nos roubem
a maior parte do nosso territorio Africano, e conduz
o paiz á bancarrota que estala pouco tempo depois da subida
ao throno de seu filho Carlos. Este,
esbofeteado pela
Inglaterra, curva-se rasteiramente, chama piolheira á
nação
que lhe paga, e... rouba-a; rouba-lhe o seu dinheiro e
rouba-lhe a liberdade; no seu reinado perdemos vastos
territorios nas nossas colonias de Moçambique, Angola e
Guiné. O seu ultimo ministro João Franco, que
queria pôr
tudo isto no xão atirou
com elle ao chão. Seu filho Manuel
II
que lhe succedeu, com sua bella e radiosa mocidade,
já deu a seu povo uma explendida amostra do muito amor
que lhe tem: a chacina de 5 de abril (14 mortos e 100 feridos!);
em troca o seu primeiro ministerio entendeu que o
povo lhe devia dar mais ordenado; ainda não roubou como
o papá, mas paga-se melhor; passa a sua vida de rozario
na mão, envergando a roupêta de jezuita, seguindo
os conselhos
das fraldas femeninas reaccionario-palatinas.
Até hoje 14 reis da
casa de Bragança teem governado
o Paiz, e como se vê são os legitimos
representantes duma
nação de idiotas, barriguistas e
poltrões; tambem não resta
duvida que esta dynastia é, como tem sido, a mais solida
garantia
da integridade do nosso imperio ultramarino. Grandes
são os beneficios que a Nação lhe
deve: uma divida
colossal de
oitocentos mil contos,
nenhumas industrias,
nenhum commercio, uma agricultura atrazadissima, um
povo tuberculoso e analphabeto, esmagado com impostos
á mercê dos pontapés estrangeiros; nem
exercito nem marinha;
estradas ao abandono e bufos com fartura, taes são
as fontes de riqueza que os Braganças nos deixam, e tudo
isto por pouco dinheiro, baratinho:
365
contos por anno só
para elle, mais
60 contos para a
mamã,
outros 60 para a
vóvó e
16 para
o titi; tem tambem para alfinetes
160
contos
a mais por anno que o generoso Amaral lhe deu, pagamos
tambem á sua guarda real de archeiros, á
orchestra da sua
real Camara, e ao seu yacht, e como isto é pouco, damos-lhe
dinheiro pela honra que nos faz em alojar os seus cavallos e
carros nas nossas casas e pela licença que nos deu de
utilisarmos
em serviço do Estado os nossos palacios; tudo isto, bem
entendido, nada tem com os rendimentos da casa de Bragança
que disfructa. Quando casar, se S. M. nos der essa felicidade,
dar-lhe-hemos mais
60 contos para os
alfinetes de sua
esposa; e se tiver meninos? então morreremos de alegria
e daremos
20 contos annuaes por cada
pimpolho.
Como veem, não é pagar cara a certeza que temos
de
ganhar o reino do ceu pela mão do nosso radioso soberano,
com a benção de Pio X, as indulgencias de Merry
del Val
e as preces solemnes do sr. patriarcha e do reverendo bispo
de Beja.
*
Oliveira Martins, que foi ministro de D. Carlos, diz na
sua historia de Portugal: Força é reconhecer que
na familia
dos Braganças não vingou a semente da nobre
raça dos
Nun'Alvares; viu-se em todos elles a descendencia do
crasso sangue alemtejano da filha do
Barbadão.
*
Portuguezes! façamos votos pela
conservação
d'esta
gloriosa
dynastia—
Oremos—
Padre
Nosso—
Ave-Maria.
Junho—1910.
Fui hoje a casa do Fernando
Martins de
Carvalho consultal-o. Não sae ainda com medo
aos republicanos. É
pequeno, inteligente, arguto.
Está livido.
—A rainha D. Amelia é que quiz
forçosamente
que o ministerio João Franco fôsse abaixo
e até se opunha a que se lavrassem os decretos
como habitualmente.
—E o rei?
—O rei, como dizia o Totenbach, não é
um
homem... Oh, vivemos dias horriveis! Olhe, tenho
provas moraes absolutas de que os republicanos
quizeram assassinar o João Franco, quando
elle viesse de Carnide no automovel. Ha na estrada
uma azinhaga: de repente uma carroça
surgia, fazia parar o automovel e os assassinos
cahiam-lhe em cima...
Julho—1910.
Do João de Menezes:
—Possuo documentos (que hão-de aparecer
a seu tempo) e que provam que foi a rainha
D. Amelia, d'acordo com a condessa de Paris e
a duqueza de Monpensier, quem introduziu as ordens
religiosas no paiz. Foram ellas que deram
dinheiro para jornaes e o resto.
*
A dissidencia, o assassinato do rei, o caso do
Credito Predial, foram golpes profundos e certeiros
vibrados na monarchia. Está efectivamente
tudo minado... E os ataques dos republicanos ao
juiz de instrução criminal demonstram que elle
lhes tocou na ferida... Mas quem ha ahi que se
queira comprometer a serio pela monarchia,
sobretudo depois do exemplo de João Franco?—A
um ministro foi preciso escrever-lhe uma
ordem necessaria «porque a mão lhe
tremia...»
O que resta de pé não passa de
ficção. Quem
manda, quem governa, mesmo na oposição,
são
os republicanos, que o Alpoim leva pela mão
até ás questões
importantes.—O
exercito é nosso.—E
o João Chagas, para convencer um oficial incredulo,
manda desfilar certa noite no Rocio os soldados
d'um regimento, que, por senha, um a um
lhe fazem todos a continencia. Sucedem-se os
governos, mas a força é outra, que se sente por
traz do scenario... O José d'Azevedo
desafia-os:—Venham
para a rua!—Fiado em quê?
O pacto de Vila Viçosa efectivamente existe?
[12]
Já o João Franco dizia tambem com
arrogancia:—Se
podem fazer a republica façam-na depressa,
porque d'aqui a dois annos garanto-lhes que a
não fazem.—Mas será este rei um
chefe?—pergunta
necessaria e decisiva, a que os proprios monarchicos
respondem d'esta forma n'
O Liberal: