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Rita
Farinha (Outubro 2011)
BIBLIOTHECA UNIVERSAL
ANTIGA E MODERNA
CORTE NA ALDEIA
E
NOITES DE INVERNO
POR
FRANCISCO RODRIGUES LOBO
VOLUME I
16.ª SERIE—NUMERO 62
LISBOA
COMPANHIA NACIONAL EDITORA
Successora de DAVID CORAZZI e JUSTINO GUEDES
40—Rua da Atalaya—52
FILIAES: Praça de D. Pedro, 127, 1.º andar, PORTO
38, rua da Quitanda. Rio de Janeiro
1890
LISBOA
typographia da companhia nacional editora
309, Rua da Rosa, 309
1890
Em quanto está o avaro em seu thesouro
Cevando os olhos, dando ao pensamento
Materia a vã cobiça de mais ouro.
Primavera, Floresta, 5.
ADVERTENCIA
A
Noticia biographica de Francisco Rodrigues
Lobo encontram-a os leitores á frente
do volume 23.º da
Bibliotheca Universal Antiga
e Moderna.
CÔRTE NA ALDEIA
E
NOITES DE INVERNO
DIALOGO I
ARGUMENTO DE TODA A OBRA
Perto da cidade principal da Luzitania está uma graciosa
aldeia, que com egual distancia fica situada á
vista do mar oceano, fresca no verão, com muitos favores
da natureza, e rica no estio e inverno com os
fructos e commodidades, que ajudam a passar a vida
saborosamente; porque com a vizinhança dos portos
do mar por uma parte, e da outra com a communicação
de uma ribeira, que enche os seus valles e outeiros
de arvoredos e verdura, tem em todos os tempos
do anno o que em differentes logares costuma buscar
a necessidade dos homens: e por este respeito foi sempre
o sitio escolhido para desvio da côrte, e voluntario
desterro do trafego d'ella: dos cortezãos, que alli tinham
quintas, amigos ou heranças, que costumam ser
valhacouto dos excessivos gastos da cidade.
Um inverno em que a aldeia estava feita côrte com
homens de tanto preço, que a podiam fazer em qualquer
parte, se juntava a maior d'elles em casa d'um antigo
morador d'aquelle logar, que tambem o fôra em outra
edade da casa dos reis, d'onde com a mudança e experiencia
dos annos, fez eleição dos montes para passar
n'elles os que lhe ficavam da vida, grande acerto de
quem colhe este fructo maduro entre desenganos. Alli
ora em conversação aprazivel, ora em moderado e quieto
jogo se passava o tempo, se gosavam as noites, se
sentiam menos as importunas chuvas e ventos de novembro,
e se amparavam contra os frios rigorosos de
janeiro.
Entre outros homens, que n'aquella companhia se
achavam, eram n'ella mais costumados, em anoitecendo,
um letrado que alli tinha um casal, e que já
tivera honrados cargos do governo da justiça na cidade,
homem prudente, concertado na vida, douto na sua
profissão, e lido nas historias da humanidade: um fidalgo
mancebo, inclinado ao exercicio da caça, e muito
affeiçoado ás cousas da patria, em cujas historias estava
bem visto: um estudante de bom engenho, que
entre os seus estudos se empregava algumas vezes nos
da poesia: um velho não muito rico, que tinha servido
a um dos grandes da côrte, com cujo galardão se reparara
n'aquelle logar, homem de boa creação, e, além
de bem entendido, notavelmente engraçado no que dizia,
e muito natural de uma murmuração que ficasse
entre o couro e a carne, sem dar ferida penetrante. Ao
senhor da casa chamavam Leonardo, e ao doutor Livio,
ao fidalgo D. Julio, ao estudante Pindaro, ao velho
Solino. Fóra estes havia outros de quem em seus logares
se fará menção, que assim como os mais, não eram
para engeitar em uma conversação de poucas porfias.
Uma noite do novembro, em a qual já o frio não dava
logar a que a frescura do tempo convidasse ao sereno,
estando ainda Leonardo á mesa, porém no fim das
iguarias, bateram á porta Pindaro e Solino, aos quaes
o velho mandou abrir com grande alvoroço e festa;
porque a de o buscarem era a que mais estimava por
sua. Subiram, agasalhou-os com contentamento e cortezia.
Sentaram-se perto da mesa, e disse o senhor da
casa:—Peza-me que não viesseis mais cedo, que me poderieis
acompanhar n'este trabalho tão necessario da
velhice. Mas se ainda virdes na mesa alguma cousa de
vosso gosto, lançae mão d'ella, que de mistura achareis
a minha boa vontade.—Eu sei (disse Pindaro) a
que tendes de me fazer mercê; mas venho ceiado e tambem
Solino, a quem tive por hospede, e já a conversação
me dobrou o gosto das iguarias.—Eram ellas tão
boas (respondeu Solino) que a mim me davam graça.
Porém o serdes vós tào miudo nas cortezias, me deu
muita pena: e já que sois tão discreto, e tanto meu
amigo, d'aqui adeante emendae-vos nas ceremonias da
mesa; e adverti ao vosso moço que não acompanhe
com os olhos os bôccados dos hospedes, até o estomago:
porque apostarei que me contou todos os da ceia,
e anda tão destro no apartar das brigas, que ainda
bem não desvio um prato do outro, quando me dá xaque
em ambos, e me deixa em casa branca. E não vos
pareça que é isto dizer que venho faminto; que, se assim
fôra, póde ser que o cumprimento do sr. Leonardo
não ficára solto e livre; antes é fazer-vos lembrança
que, pois daes tambem de comer, não tenhaes um moço
Harpya, que descomponha o sabor dos manjares.—Bem
sei (respondeu Pindaro) que ainda farto não haveis
de deixar de roer. O meu moço é de uma d'estas aldeias
vizinhas, ha pouco que me serve; por isso, e por ser
creado de estudante, lhe devieis perdoar o erro, e a
mim o remoque; porém a vossa condição não se sujeita
a respeito nem a desculpas.—É tão saborosa a murmuração
de Solino (disse Leonardo) que tambem na mesa
se póde estimar como boa iguaria: e se a eu tivera
muitas vezes, déra vida ao appetite que para as outras
me falta.—Se o ella fôra (tornou Solino) em mais
occasiões me valêra das em que a vós podeis desejar.
Mas, não tratando de vol-a offerecer, nem de a desculpar
com meu amigo; como ceiastes hoje tão tarde, e não
vieram mais cedo o doutor e D. Julio?—Antes (disse o
velho) me mandaram já recado, e não devem tardar.
Eu o fiz com a ceia, porque os homens de serviço me
não deram logar senão a esta hora: mas ouço que batem
á porta e devem ser elles.
A este tempo mandou juntamente alçar a mesa, e
levar a luz á escada. Subiram o doutor e D. Julio;
saudaram-se com muita alegria; e sentados perto do
fogo, disse o velho: Muito deveis ambos a Solino;
porque vindo a esta casa com Pindaro, de quem foi
convidado na ceia, e tendo a minha em estado de que
se podia aproveitar de alguma cousa d'ella, vos
achou menos, e perguntou a causa da tardança; signal
é este de amor e da pouca razão com que o temos
por desobrigado de toda a affeição dos amigos.—Não
é Solino tão descuidado do que lhe eu mereço
(tornou D. Julio) que se esqueça de mim, e de
quanto sentirei perder horas suas: e pelo interesse
das da conversação do doutor o tivera em menos conta
se as não desejára: e além d'isto posso affirmar que
está pago da lembrança que teve, com a diligencia que
fizemos pol-o trazer comnosco, que voltamos pela sua
porta, e eu tirei uma pedra á janella, d'onde me disseram
que ceiava com Pindaro; e cada um dos dois me
fez inveja.—Ah! sr. D. Julio (respondeu elle) tão grande
trovoada de cumprimentos seccos não podia deixar de
lançar pedra. Eu tenho feita a conta, e sei que não
posso pagar o que vos devo além d'essa honra e mercê,
senão com a humildade com que a todas reconheço
por vossas. Dae-vos por satisfeito de meus desejos, e
de pôr aqui ponto nos cumprimentos; porque não tenho
polvora mais que para a primeira salva.—Já eu me
quizera metter em meio (disse o doutor) porque se vós
a terdes em cortezias, não haverá quem as pague, se
não fôr Pindaro, que tem uma corrente tão arrebatada,
que não dá vau a nenhuma rethorica do mundo.—Agora
(arguiu Leonardo) levastes tres de um tiro; não
me dou por seguro n'este logar, inda que é de minha
casa: porém não tendes razão contra Pindaro, que,
cada vez que o ouço, me parece um livro de cavallarias.
Se elle tivera encantamentos escuros, castellos
roqueiros, cavalleiros namoradores, gigantes suberbos,
escudeiros discretos, e donzellas vagabundas, como
tem palavras sonoras, razões concertadas, trocados
galantes, e periodos que levam todo o fôlego, pudéra
pôr a um canto o Amadis, Palmeirim, Clarimundo, e
ainda o mais pintado de todos os que n'esta materia
escrevêram: e já estive em o persuadir que se mettesse
em uma empreza semelhante: porém receio que se me
ensoberbeça com a altiveza de seu estylo, e despreze
aos amigos.—Não merecia eu, sr. Leonardo, a vós, nem
ao doutor (disse Pindaro) que tomasseis meus defeitos
por materia de vossa galantaria: falo como sei, e cada
um se extende conforme a roupa com que se cobre.
Não sou tão philosopho como o doutor, tão cortezão
como vós, nem tão engraçado como Solino, nem tenho
maiores penas que a gaiola; porém se abrisse as azas
para compôr livros, não houveram de ser de patranhas.
Por isso fiae mais de meus pensamentos.—Nunca o
tive de vos offender (respondeu o velho) nem me parece
com razão a vossa desconfiança; nem podeis fazer
tão pouca conta dos livros de cavallarias, e dos
famosos auctores que os escreveram, e que mostraram
n'elles a sua boa linguagem com toda a perfeição: a
graça de tecer e historiar as aventuras, o decoro de
tratar as pessoas, a agudeza, a galantaria das tenções,
o pintar as armas, o betar as côres, o encaminhar e
desencontrar os successos, o encarecer a pureza de
uns amores, a pena de uns ciumes, a firmeza em uma
ausencia, e outras muitas cousas que recreiam o animo,
affeiçoam e apuram o entendimento. Se vós tendes
por despreso compôr livros de cavallarias, eu vos desengano
que pertencem mais cousas ao bom auctor
d'elles, que a um dos lettrados philosophos ou juristas,
com que desejaes do vos parecer; porque lhe importa
saber a geographia dos reinos e provincias do mundo,
para encaminhar por ellas a sua historia; ter noticia
dos nomes e cousas que usam n'aquellas partes, d'onde
faz naturaes os cavalleiros, saber estylo de côrte para as
mesuras, gasalhados e cortezias, conforme as pessoas
introduzidas, conhecer da justiça, do torneio e do sarau.
a ordem, as leis e as gentilezas, entender da bastarda e
da gineta, o que convém para pintar o encontro, a quéda,
o acerto, o dezar, o brio ou descuido de um cavalleiro,
debuxar o cavallo nas côres, concertal-o nas redeas,
no pizar, no arremesso, na furia, na destreza,
nas carreiras, chaças e rodeios, e sobre o conhecimento
de todas as sciencias e disciplinas, tambem ha de ter
alguma noticia dos nigromantes antigos para os encantamentos
que servem de bordão e valhacouto aos historiadores.—Tenho
por mal empregado (disse então o
doutor) tanto cabedal em cousa de tão pouco interesse,
e não sou de voto qee o auctor, que tiver
as partes
que vós dizeis que são necessarias para essa composição
se occupe n'ella. De que servem livros de cavallarias
fingidas? E se ha ociosos que os leiam, porque
ha de haver algum que os escreva? Ou que espere algum
fructo de trabalho tão vão?—Mas que certeza tão
grande (tornou Leonardo) que cada um approva o que
segue, sendo assim que ninguem se contenta do que
tem. Desejaveis agora que todos os livros, e todos os
homens tratassem sómente da vossa profissão e fossem
juristas e philosophos. Pois ainda que eu sou bacharel
em linguagem, me atrevo a contradizer essa
opinião adquirida em latim: porque para recreação,
politica e bom estylo se não deve menor logar a estes,
que aos vossos de trapaças e opiniões, e outros a que
chamaes conselhos, que o dão ás vezes bem ruim a quem
se fia de sua leitura.
—Eu era de parecer (disse D. Julio) que poupassemos
esta materia para gastar a noite, pondo-a em maneira
de disputa. E se a todos parece assim, cada um diga
sua opinião nos livros que mais lhe contentam, e das
razões que tem para os approvar; e d'este modo, ou
affeiçoados, ou convencidos, saberemos os que são de
maior gosto, e utilidade.—A isto (respondeu Solino) até
agora estive calado contra minha natureza; porque
me houve por incapaz de fazer terço ao doutor e Leonardo:
mas pois o voto é que se jogue com toda a baralha,
digo que é esta a melhor materia que se podia
escolher para passar o tempo. E já pode ser que algum
dos que aqui estão, que deseja deixar no mundo
memoria de seu engenho, saiba n'esta occasião o em
que o pode empregar melhor.—Pelo que a mim toca
(disse o doutor) comecemos logo; e a vós, sr. D. Julio,
é bem que demos a mão a troco do alvitre: e não tratando
dos livros divinos, nem dos necessarios, dos de
recreação nos podeis dizer quaes, e por que razões vos
contentam.—A minha inclinação em materia de livros
(disse elle), de todos os que estão presentes é bem conhecida:
sómente poderei dar agora de novo a razão
d'ella. Sou particularmente affeiçoado a livros de historia
verdadeira, e mais, que ás outras, ás do Reino
em que vivo, e da terra onde nasci: dos reis, e principes
que teve, das mudanças que n'elle fez o tempo e
a fortuna, das guerras, batalhas, e occasiões, que n'elle
houve, dos homens insignes, que pelo discurso dos annos
florecerão: das nobrezas e brazões que por armas,
lettras, ou privança se adquiriram. O que me inclinou
á escolha d'esta lição, foi que tive alguma de um homem
muito douto, em o que o deve desejar de ser, e
parecer o que é bem nascido; ao qual elle dizia, que o
que mais convinha que soubesse era, o appellido, que
tinha, d'onde lhe veio; quem fôram seus passados, que
armas lhe deixaram, a significação, e fundamento da
figura d'ellas, como se adquiriram, ou accrescentaram.
Logo os reis que reinaram na sua patria, as chronicas
d'elles, os principios, as conquistas, as emprezas, e o
esforço de seus naturaes; porque falando d'elles nas
terras extranhas, ou na sua com extrangeiros, saiba
dar verdadeira informação de suas cousas. E alcançadas
estas, lhe estará bem tudo o que mais puder saber
das alheias. E na verdade, nenhuma lição pode haver
que mais recreie, e aproveite, que a que sei que é verdadeira,
e por natural ao desejo dos homens deleitosa.—Não
é essa a minha opinião (disse Solino) porque contra
o gosto me assombram muito cousas passadas, e
andar abrindo sepulturas de gente morta. E no que
toca á verdade, certo que á conta dos enterrados se
escrevem algumas vezes tão grandes mentiras, que lhes
não levam vantagem os fingimentos de historias imaginadas.
E havendo um homem de ler o que não é, ou
o que sabe, é tão caldeado, e tão batido da forja dos
auctores, que mudado traz o metal, a côr, e a natureza:
estou melhor com os livros de cavallarias, e historias
fingidas, que, se não são verdadeiros, não os
vendem por esses: e são tão bem inventados, que levam
após si os olhos, e os desejos dos que os lêem. E
não estima um auctor matar mais dois mil homens
com a penna, para fazer valente o seu cavalleiro, com
a espada, sem estar receando os ditos das testemunhas
que ficaram da batalha; que por eguaes respeitos pende
cada uma para seu cabo. Pois se é caso, em que um
historiador queira passar adeante como Ariosto, não
matou mais gente a peste grande em Lisboa, que Rodamonte
nos muros de Paris.—Essa é uma das razões,
porque eu os reprovo (tornou o doutor) porque a fabula
é uma cousa falsa, que podia comtudo ser verdadeira,
e acontecer assim como se fingio. Porém a isto
não dão logar os livros de cavallarias, com esses excessos,
e outros encantamentos, fazendo casas, e torres
de crystal, edificios, lagos, e columnas impossiveis,
pyramides de alabastro, e casas de pedraria, cuja riqueza
podia empobrecer a fortuna. E em nossos tempos,
na India Oriental, sabemos que o rei Mogor andou
muitos annos fabricando uma casa de esmeraldas, por
cujo respeito se passavam d'este Reino á nossa India
as da Occidental. E emfim morreu sem a acabar; e não
ha livro de cavallarias em que qualquer cavalleiro de
um castello não acabe cousas maiores. E deixando isto,
é graça, e galantaria, comparar historias verdadeiras
com patranhas desproporcionadas, que gastam o tempo
mal a quem n'ellas se occupa, quando as outras servem
de exemplo para imitar, de lembrança para engrandecer,
e de recreação para divertir. A quem não anima
ler as historias de seus passados? A quem não move
o desejo de egualar a fama que lê de suas obras? O governo
da paz? A ordem da guerra? O trato dos homens?
O commercio das provincias? D'onde se conserva,
alcança, e sabe senão pelas historias verdadeiras?
Porque n'ellas sabe cada um felizmente pelos
successos alheios o que deve seguir. D'onde Marco Tullio
chamou á historia mestra da vida.—Vós, sr. doutor
(disse Solino) achareis isso nos vossos cartapacios:
mas eu ainda estou contumaz. Primeiramente, nas historias,
a que chamam verdadeiras, cada um mente segundo
lhe convém, ou a quem o informou, ou favoreceu
para mentir; porque se não fôrem estas tintas, é
tudo tão misturado, que não ha panno sem nodoa, nem
légua sem máu caminho. No livro fingido contam-se as
cousas como era bem que fôssem, e não como succederam,
e assim são mais aperfeiçoadas. Descreve o cavalleiro
como era bem que os houvesse, as damas quão
castas, os reis quão justos, os amores quão verdadeiros,
os extremos quão grandes, as leis, as cortezias, o
trato tão conforme com a razão. E assim não lereis livro,
em o qual se não destruam soberbos, favoreçam
humildes, amparem fracos, sirvam donzellas, se cumpram
palavras, guardem juramentos, e satisfaçam boas
obras. Vereis que as damas andam pelas estradas, sem
haver quem as offenda, seguras na sua virtude propria,
e há cortezia dos cavalleiros andantes. E quanto ao retrato
e exemplo da vida, melhor se colhe no que um
bom entendimento traçou, e seguiu com muito tempo
de estudo, que no successo, que ás vezes se alcançou
por mão da ventura, sem a diligencia e engenho metterem
nenhum cabedal. Não digo que os livros tenham
excessos desatinados, que não sejam semelhantes á
verdade, nem os encantamentos tão escuros e desconformes,
que não tenham alguma maneira de enganar o
juizo; porém os livros bem fingidos, como verdadeiros
obrigam. Um curioso em Italia (segundo um auctor de
credito conta) estando com sua mulher ao fogo lendo
o Ariosto, prantearam a morte de Zerbino com tanto
sentimento, que lhe accudiu a visinhança a saber o
que era. E no que toca ao exemplo; um capitão valoroso
houve em Portugal, que o não teve melhor o Imperio
Romano, que com a imitação do um cavalleiro
fingido, foi o maior de seus tempos, imitando as virtudes
que d'elle se escreveram. Muitas donzellas guardaram
extremos de firmeza, e fidelidade, costumadas
a lêr outros semelhantes nos livros de cavallarias. Na
malicia da India tendo um capitão nosso cercado uma
cidade de inimigos, certos soldados camaradas, que
albergavam juntos, traziam entre as armas um livro
de cavallarias, com que passavam o tempo. Um d'elles,
que sabia menos que os mais d'aquella leitura, tinha
tudo o que ouvia lêr por verdadeiro (e assim ha alguns
innocentes, que cuidam que se não pode mentir em
lettra redonda) os outros ajudando a sua simpleza lhe
diziam que assim era. Veio occasião de um assalto, em
que o bom soldado invejoso, e animado do que ouvia
lêr, lhe pareceu ensaio de mostrar seu valor, e fazer
uma cavallaria, de que ficasse memoria; e assim se
metteu entre os contrarios com tanta furia, e os começou
a ferir tão rijamente com a espada, que em
pouco espaço se empenhou de sorte, que com muito
trabalho, e perigo dos companheiros, e de outros muitos
soldados, lhe ampararam a vida recolhendo-o com
muita honra, e não poucas feridas. E reprehendendo-o
os amigos d'aquella temeridade, respondeu: Ah! deixae-me,
que não fiz a metade do que cada noite lêdes
de qualquer cavalleiro do nosso livro. E elle d'alli
adeante o foi muito valoroso.—Muito festejaram todos
o conto, e logo proseguiu o doutor: Tão bem fingidas
podem ser as historias, que mereçam mais louvor, que
as verdadeiras; mas ha poucas que o sejam; que a fabula
bem escripta (como diz Santo Ambrozio) ainda
que não tenha força de verdade, tem uma ordem de
razão, em que se podem manifestar as cousas verdadeiras.
Xenofonte querendo pintar uma republica perfeita,
e regimento politico, por modo de historia, fingiu
o governo de Cyro, rei dos Persas. D. Antonio de
Guevara, em nome de um imperador romano escreveu
o que elle queria dizer em Hespanha; e outros que
ainda em modo mais extranho ensinaram aos homens,
como Esopo nas suas fabulas, e Lucio Apuleio no seu
Asno d'ouro; e todos os livros que em seu genero são
bons, se podem chamar perfeitos. Resta agora que
o que escreve historia seja verdadeiro; e não terá
Solino de que o reprehender n'ella. O que compõe
fabulas seja verosimil, e não terei eu razão de o reprovar.
O que trata de sciencia, alegue razões. O que fala
de artes, experiencia. E o que quer ensinar principios,
mostre auctoridade. E posto que eu tenha muitas que
allegar em favor da vossa opinião, sr. D. Julio, vós estaes
no caso, e todos os mais, que a historia verdadeira
apascenta os doutos, adelgaça os grosseiros, encaminha
os moços, ensina os mancebos, recreia os velhos,
anima aos baixos, sustenta aos bons, castiga aos maus,
resuscita aos mortos, e a todos dá fructo a sua lição.
E porque esta não seja mais comprida, diga Pindaro
agora a sua opinião.
—Apostarei eu (disse Solino) que, se a Pindaro lhe armarem
com poesia levantada sobre os bons conceitos,
e versos, que com serem amorosos, sejam arrogantes,
que o tomaram como passaro em visco.—Para isso (disse
o doutor) arredar-lhe as occasiões, e vá com declaração,
que não tratamos de poesia.—Essa condição (accudiu
Pindaro) logo ao principio ficou declarada; que como
exceptuastes livros divinos, n'esse numero devem estar
os dos poetas, que mereceram este nome; e o que
elles antigamente tiveram, e ainda agora lhe dão os
Latinos, assim o deixa entender. E Platão quando d'elles
escreve, lhes chama divinos interpretes dos deuzes,
possuidos de espiritos celestes: d'onde Marco Tullio
tirou os louvores, com que os trata. Origenes affirma
que a poesia é uma virtude espiritual, que inspira
em os poetas, e lhes enche o animo e o entendimento
de uma divina força. Santo Agostinho lhes chama theologos
para cantarem os louvores divinos. Diziam os
philosophos antigos que, se os deuses falassem, seria
em verso: trazendo exemplo do oraculo de Apollo, e
das Sibyllas. Cassiodoro diz que a poesia tomou principio
da divina escriptura. De maneira que por auctoridade
de tão grandes varões, nunca os livros de poesia
podem vir em competencia com os de que até agora
tratastes; que d'outro modo já estivera concluida a differença.—O
que eu vejo (tornou D. Julio) que, ainda que
o doutor vos cerrara a porta, que mettido de ilharga
dissestes tudo o que cumpria a vosso intento por junto,
o quanto para mim estaes declarado; o com o desejo
de ouvir a opinião do doutor, não digo o mais que me,
parece.—Ora (respondeu elle) não quero que a essa conta
fique o meu voto ás escuras; e digo, não falando em
poesia, que não escolho lição de historiadores verdadeiros,
nem tenho por melhor a dos fingidos; porque
uns servem de conservar a memoria, os outros de enganar
o entendimento: e serão melhores os livros que
deleitem a memoria, e a vontade, e apurem, e levantem
o entendimento, como os de recreação, que com
alguma enganosa novidade tratam de materias politicas,
e engraçadas: de côrte, de aldeia, e de qualquer
sujeito aprazivel: e ha d'estes muito bem recebidos,
approvados, e proveitosos na republica, cuja variedade,
e doutrina é para mim lição muito saborosa.—Não estou
mal com essa opinião (disse o doutor) o quasi que vós,
e eu estamos em um mesmo pensamento; senão que
deixastes de declarar o que agora me fica para dizer;
porque até aqui falámos do modo de compor, e escrever
livros; e não das materias, que escriptas serão
agradaveis. E deixando em duvida o vosso parecer para
se conferir com a tenção; o meu é, que o melhor modo
de escrever são os dialogos escriptos em prosa, com
figuras introduzidas, que disputem, e tratem materias
proveitosas, politicas, engraçadas, e cheias de galanteria:
sendo a primeira figura da obra o autor d'ella; e
isso que vá guiando, e introduzindo as mais, que sejam
apropriadas áquellas materias, de que hão de tratar
entre si. E além de ser este estilo mais claro, mais
vulgar, mais excellente, inclue em si a lição de todos
os outros modos de escrever, como o são os da historia
verdadeira, e fingida, das artes liberaes, e mecanicas;
das sciencias, e disciplinas necessarias; das profissões
particulares; da razão do governo; da vida politica
ou privada. E quando este modo de escrever não
tivera por si mais que a auctoridade dos que n'elle escreveram,
como foi Platão, Xenofonte, Tullio, e outros
infinitos: essa bastara para acreditar os dialogos. Além
d'isto, eu tenho para mim que aquella é melhor escriptura,
que com mais perfeição, e viveza imita a pratica,
e conversação dos homens; porque assim como a
melhor pintura é a que mais se parece com a obra da
natureza, a que quer contrafazer; assim a melhor escriptura
é a que retrata com mais semelhança o falar,
e conversação d'entre os amigos. Nos poemas tinham
os poetas antigos que o mais levantado era a tragedia
pela imitação natural da pratica, com introducção de
figuras, junto com a gravidade, peso, e tristeza dos
successos tragicos. E porque tambem a variedade é a
que mais costuma enterter, e deleitar o animo dos homens,
e esta é mais certa, e mais propria nos dialogos,
me parece que no gosto d'elles serão melhor recebidos.
—Pois assim é (disse D. Julio) que a principal razão
porque approvaes os dialogos, é porque mais familiarmente
se parecem com a pratica. Desejo saber qual é
mais nobre cousa, se a pratica, se a escriptura: porque
a mim me parece que á escriptura se deve o melhor
logar, e que antes merecia a pratica por se parecer
com ella; o que agora encontra a vossa opinião.—Nenhuma
duvida ha (respondeu o doutor) que a pratica
seja mais nobre, mais antiga o mais excellente; porque,
além de o falar ser operação natural dos homens,
e acto em que elles fazem vantagem, e differença a todos
os animaes, a escriptura não é mais que uma escrava
e servente das palavras, e o escrever não é outra
cousa mais que supprir com um instrumento por meio
da arte, e das mãos o que com a voz se não póde exprimir
e alcançar com os ouvidos, ou por distancia de logar,
como quem escreve aos ausentes, ou por discurso
de tempo, como quem escreve para os vindouros. E
porque nunca a escrava é tão nobre como a senhora
a quem serve, em quanto escrava, nem o que substitue
em logar d'outrem se lhe póde preferir no mesmo
logar; assim nunca a escriptura póde egualar a nobreza
e perfeição da pratica.—O contrario me parece a
mim (replicou o fidalgo) porque nem por a pratica ser
mais antiga, e primeira que a escriptura é mais perfeita;
antes ella foi a perfeição da pratica: e posto que
seja própria operação do homem o falar, não é n'elle
menos nobre accidente o de escrever; antes me parece
mais digno o que elle alcançou por arte, que o que adquiriu
por uso: e quasi que ousaria a dizer que é operação
sua o falar, dada a respeito de haver de escrever,
pois esse é o meio de se perpetuar, sustentando
no entendimento dos presentes, e na lembrança dos
futuros a memoria das cousas passadas. Assim que nem
por a primeira razão merece a pratica melhor logar,
nem a escriptura, por servente e ministra sua, é menos
nobre. Porque o sol serve de mostrar as cousas creadas,
que lhe são muito inferiores, e de dar luz e nutrimento
a outras de menor qualidade, e nem por isso
ellas se lhe podem antepôr. E quanto a substituir a
escriptura em logar da voz, ella o faz por tão excellente
maneira, que lhe tem muita vantagem; pois o
que a voz não póde exprimir juntamente em differentes
logares, e a diversas pessoas em um mesmo tempo,
o faz a escriptura com grande perfeição, podendo muitas
pessoas, em differentes logares, lêr em um mesmo
tempo a propria cousa: pelo que me parece que, ainda
que a vossa escolha fosse boa, não fundastes bem a
razão d'ella.—Certo (disse Leonardo) que de ambas as
partes déstes tão boas razões, que fica duvidosa a melhoria.
Porém concedendo á pratica a excellencia, a
acção, o modo e a graça de falar, que é uma viveza a
que se não eguala outra nenhuma lembrança; a escriptura
tem tantas grandezas que parece egualmente necessaria
para a vida, pois ficava o mundo ás escuras
sem a luz da dilação escripta; e só na tradicção dos
homens se salvaria a memoria das cousas; e nas principaes
dominaria a ignorancia com mero imperio. Porém,
deixando isto por averiguar, pois com tanta galantaria
e agudeza está tocado o que baste, quero que
passemos adeante, e, por me fazerdes mercê, que me
ensineis se na pratica, em voz, e na escriptura considerada
tem bom logar a nossa lingua portugueza; porque
ouço de má vontade a alguns naturaes que tratam
mal d'ella e a condemnam por grosseira e limitada.
—Uma cousa vos confessarei eu, sr. Leonardo (disse a
isto D. Julio) que os portuguezes são homens de ruim
lingua, e que tambem o mostram em dizerem mal da
sua, que assim na suavidade da pronunciação, como
na gravidade e composição das palavras é lingua excellente.
Mas ha alguns nescios, que não basta que a
falem mal, senão que se querem mostrar discretos, dizendo
mal d'ella: e o que me vinga de sua ignorancia,
é que elles acreditam a sua opinião; e os que falam
bem desacreditam a ella e elles.—Bravamente é apaixonado
o sr. D. Julio (acudiu o doutor) pelas cousas da
nossa patria: e tem razão, que é divida que os nobres
devem pagar com maior pontualidade á terra que os
creou. E verdadeiramente que não tenho a nossa lingua
por grosseira, nem por bons os argumentos com
que alguns querem provar que é essa; antes é branda
para deleitar, grave para engrandecer, efficaz para mover,
dôce para pronunciar, breve para resolver, e accommodada
ás materias mais importantes da pratica
e escriptura. Para falar é engraçada com um modo senhoril:
para cantar é suave com um certo sentimento
que favorece a musica: para prégar é substanciosa,
com uma gravidade que auctorisa as razões, e as sentenças:
para escrever cartas nem tem infinita copia
que damne, nem brevidade esteril que a limite: para
historias nem é tão florida que se derrame, nem tão
secca que busque o favor das alheias. A pronunciação
não obriga a ferir o céo da bôcca com aspereza, nem
arrancar as palavras com vehemencia do gargalo. Escreve-se
da maneira que se lê, e assim se fala. Tem de
todas as linguas o melhor: a pronunciação da latina;
a origem da grega; a familiaridade da castelhana; a
brandura da franceza; a elegancia da italiana. Tem
mais adagios e sentenças que todas as vulgares, em fé
de sua antiguidade. E se á lingua hebrea pela honestidade
das palavras chamaram santa, certo que não
sei eu outra que tanto fuja de palavras claras em materia
descomposta quanto a nossa. E para que diga
tudo, só um mal tem, e é que pelo pouco que lhe querem
seus naturaes, a trazem mais remendada, que capa
de pedinte.—Folguei extranhamente de vos ouvir
(disse Solino) por não ficar tão covarde, como até agora
estava, em ouvindo murmurar da lingua portugueza;
e não ousava, ou não sabia dizer a minha opinião, a
qual cuidava que me nascia do amor que lhe tenho, e
que cada um tem ás suas cousas como o corvo aos filhos,
e Pindaro ás suas trovas. Porém quando um
homem tão bem fundado na razão como o doutor, e tão
auctorisado em seu parecer sustenta esta parte, nenhuma
haverá já tão rija, que me tire o atrevimento.—Nem
a lingua (disse Pindaro) pois não ha amizade que vos
faça perder o costume.—Perdoae-me (tornou elle) que
vos feri por não perder o golpe. E tornando ao que aqui
se tratou para recordar o que começamos, averiguou
o doutor que a melhor maneira de escrever eram os
dialogos (ficando meu direito reservado nos livros de
cavallarias), tocaram-se louvores da pratica e escriptura
com muito engenho; declarou-se como a lingua
portugueza não desmerece logar entre as melhores,
para n'ella se escreverem materias levantadas, apraziveis,
proveitosas e necessarias. Que falta entre vós
para que d'estas noites bem gastadas, d'estas duvidas
bem movidas, e d'estas razões melhor praticadas se
faça um ou muitos dialogos, que sem vergonha do mundo
possam apparecer nas praças d'elle á vista dos curiosos,
e ainda dos murmuradores?—Tem Solino muita
razão (disse D. Julio) e se assim forem os dialogos como
se podem formar com a pratica de alguns que estão
presentes, bem se auctorisará a opinião do doutor,
posto que a minha fique de vencida com a vantagem
que aqui tem a pratica das escripturas alheias. E pois
se aproveitam tão bem as noites n'este logar, razão é
que por meio d'elles se communiquem a quem se aproveite
da doutrina e interesse d'ellas.—Se eu não dormira
tão poucas horas da passada (disse o doutor)
ainda houvera de proseguir adeante e responder a
isso; mas com vossa licença me vou recolher e amanhã
accudirei mais cedo.—Acompanhemos o doutor
(disse o fidalgo), e levantando-se elle, se despediram
todos com muita cortezia, deixando ao senhor da casa
magoado de se acabar tão depressa a conversação;
que quem sabe estimar a que é tão boa, tem sentimento
das horas que d'ella perde.
DIALOGO II
DA POLICIA E ESTYLO DAS CARTAS MISSIVAS
Ficaram os amigos tão affeiçoados á conversação
d'aquella noite, que, por fazerem a do outro dia mais
comprida, acudiram a ajuntar-se logo depois de se pôr
o sol; porém cada um com pejo de ser o primeiro, passeavam
em dois postos, o doutor com D. Julio, e Pindaro
com Solino á vista da casa de Leonardo, até que
elle chegou á janella; e mostrando o mesmo desejo que
os quatro traziam, facilitou o receio e approvou as horas.
Subiram todos, e disse o doutor:—Pareceu-me este
dia tão comprido, na esperança da noite, como aos trabalhadores
que devem o jornal.—E a mim (tornou Leonardo)
a noite, depois que me deixastes, tão importuna
como quem espera a manhã para cousa de seu gosto:
e assim não é muito que vós viesseis tão cedo, e que
a mim me pareça que já era tarde.—Todas as cousas
que se desejam muito (tornou D. Julio) por pouco que
se dilatem, tardam mais.—E as que se temem (proseguiu
Solino) por muito que tardem, parece que se anticipam.
D'onde um disse maravilhosamente que o que
queria que a quaresma lhe parecesse breve, devesse
pagamentos para a Paschoa. Emfim chegou mais cedo
este prazo que todos desejamos: e se o senhor da casa
dormiu pouco, eu apostarei que ha algum na companhia
que se desvelou mais.—Não era occasião para descuidos,
(disse o doutor) e nos mancebos era demasiada
desconfiança entrar n'esta batalha desapercebidos.—Os
apercebimentos (tornou o fidalgo) podem fundir muito
pouco: porque como até agora é incerta a materia de
que se deve tratar, serão sem fructo as diligencias.—É
engano (replicou Solino) que nunca falta uma carta em
que prender; como um homem tem as suas apuradas
e ha cousas que se levam a rasto como corpo morto, e
quando sejam bem cuidadas, nunca são mal ouvidas. E
se não, digam-n'a as olheiras com que esta manhã vi a
meu amigo Pindaro.—Já sei (disse Pindaro) que vêdes
mal: mas contra mim ainda é peior a vossa tenção que
a vista; não me pagaes bem o que vos mereço, mas é
na moeda que tendes.—E na que corre (tornou elle) que
o rifão de agora diz que fazer e dizer mal, nunca se
perde. Não vos escandaliseis; que tudo ha nos homens
e nas cartas. Essa (disse então D. Julio) hei eu de partir:
porque desejava muito alçar por ellas; e pois o
doutor falou hontem em cartas missivas, e approvou
para ellas a lingua portugueza, nos ha de declarar o
que ha de ter uma carta para ser cortezã e bem escripta.—Esse
cargo (tornou o doutor) convem mais ao
senhor da casa: porque ainda que a carta consta de
lettras, não é profissão de lettrado fazel-as cortezãs:
e quem sabe tanto do estylo da côrte como Leonardo,
póde dar lei para ellas.—Vós (respondeu elle) sois doutor
em tudo, e meu superior em todas as materias, e
como tal me podeis dar o grau de cortezão. Eu o quizera
parecer na confiança, e em obedecer ao gosto d'estes
amigos. Mas para eu proseguir com auctoridade é
bem que vós comeceis a principiar a materia: dizendo,
que nome é
carta, e o seu principio, pois me daes
o cargo antes de estar apercebido para elle.—Bem sei
(lhe respondeu o doutor) que por me honrardes a mim
tomaes tudo á vossa conta; folgarei de a dar boa do
que me encommendaes.
Este nome
carta é generico, e teve origem de uma
cidade
do mesmo nome, d'onde foi natural a rainha Dido,
que, por o amor que tinha á sua patria, pôz á que edificou
por nome
Cartago. E porque em carta se inventou
primeiramente a maneira em que se escrevia (ou
fosse papel, ou outra cousa semelhante a elle) tomou
d'ella o nome como de
Pergamo o
pergaminho. É para saber
que nos primeiros tempos, quando se inventaram
as lettras, escreviam os homens nas folhas das arvores:
como ainda hoje nas da palmeira escrevem os gentios
de algumas partes do oriente: as Sybillas n'ellas
escreveram suas prophecias; e assim se chamaram a
seus escriptos
folhas sybillinas; e ainda na
linguagem
portugueza se conserva alguma cousa d'esta antiguidade,
pois dizemos
folhas de papel sem o papel ter folhas,
mas é em lembrança das primeiras que se usaram
na escriptura. Depois se escreveu em uma casca
tenra de arvores, que é o entreforro da cortiça. E porque
a esta chamavam
livro, conservam ainda agora elles
o nome, e a divisão que agora fazem os escriptores
de
livro primeiro,
segundo, e
d'ahi adeante é o numero,
porque então deviam contar aquellas cascas. Tambem
se escreveu em o miolo de uma maneira de juncos, a
que chamaram
papiros: d'onde aos latinos ficou o
nome
para o papel. Depois se escreveu em taboas nas quaes
sobre cêra, com um instrumento de ferro ou de latão,
a que chamavam
estylo, se assignavam as lettras; e
do
ferro com que se escreveram, se veiu a derivar o que
agora dizemos
bom ou
máu,
humilde ou
altivo estylo de
escrever, passando-se por translação a perfeição do
instrumento ao concerto e policia das palavras. D'este
proprio modo se usa no nome de carta, que alcança
em genero a todo genero de papel escripto e ainda
pintado. Os portuguezes fazemos este nome particular
tomando
carta missiva por a principal de todas; e
assim
basta dizermos
carta, sem mais declaração, para
se entender que é esta; porém nas especiaes d'ellas usam
o nome com seus attributos. E nos instrumentos
judiciaes, que testemunham antiguidade, se diz
carta
precatoria, dimissoria, citatoria, de liberdade e de venda, e
outras muitas: e ainda as de jogar, sem terem lettras,
se chamam commummente cartas. E a gente aldeã,
conservando alguma cousa da antiguidade, a qualquer
estampa ou pintura em papel chamam
carta. Os latinos
puzeram nome ás cartas missivas
Epistola, do
verbo grego, que quer dizer
mandar: e
letras, porque a
carta consta d'ellas. Os italianos deram singular e
plural a este nome segundo. E na nossa lingua a que
chamam limitada, não faltou nenhuma d'estas differenças,
antes houve maior perfeição: porque a umas
chamaram
cartas mandadeiras; ás que tinham menos
de papel,
escriptos; e ás cartas de Italia
lettras, que
são as de Roma, e as de cambio; porque deviam ter
o mesmo principio; porque logo nos de Portugal mandavam
os reis d'elle por lettras copiosas doações á
sé apostolica, do que conquistavam. De maneira que
o nome de carta, quanto á sua origem, é geral e commum;
e entre nós particular das cartas missivas; e
pois lhe descobri o nome, é necessario, sr. Leonardo,
que lhe deis agora o ser.
—Parece-me (respondeu elle) que estou já no meio da
minha obrigação (conforme ao dito do poeta) que quem
começou, tambem tem feita a maior parte. E passando
do nome da carta aos exteriores d'ella, digo que ha de
ter: Cortezia commum, regras direitas, lettras juntas,
razões apartadas, papel limpo, dobras eguaes, chancella
sutil, e sêllo claro; e com estas condições será
carta de homem da côrte. E falando da cortezia (disse
Solino) que entendeis n'ella?—A cortezia (lhe respondeu
elle) não falando na leitura da carta, é o sobrescripto,
o apartado da cruz, até á primeira regra; e do
principio do papel até o começo de todas: e o final, o
nome de quem escreve, abaixo da data da carta. E
porque n'isto ha differentes costumes, e erros, me parece
bem fazer de tudo lembrança.—Nos sobrescriptos
temos pouco que tratar (tornou Solino) que depois que
com a pragmatica os cercearam, não ha já
prezados,
magnificos,
honrados, e
illustrissimos, nem
os
senhores. Ainda
(tornou Solino) ficaram alguns de rodeio que são muito
para vêr, e assim o dizem elles: a cujo proposito vos
hei de contar uma historia. Eu (como todos sabeis) vejo
com oculos, e (conforme a opinião de alguns) com elles
muito menos. Os dias atraz, sendo eu ainda innocente
d'este costume, me deram uma carta de um amigo,
que dizia:
Para vêr o senhor Solino: aberta ella, a
lettra tal, tão miuda, e embaraçada, que desmentia o
sobrescripto, e por nenhuma via pude vêr o que dizia.
Mas respondi n'outra lettra muito peior, e puz no sobrescripto:
Para cegar o senhor Fuão; ao que elle depois
me respondeu, que estava pelo costume dos presentes.—Nem
todos se hão de seguir (disse o doutor) que, como
escreve o philosopho Favorino, cada um deve usar de
palavras presentes, e costumes antigos; e mais quando
é uso é abuzão, que no primeiro, por ser tal, offenderam
as leis; e no segundo o reprehendem os mesmos
que o usam. Comtudo Leonardo dirá o que lhe parece.—A
mim respondeu elle que a lei é boa, e a cautella
escusada. Porém o sobrescripto tem mais partes de
cortezia, que essa que dissestes, ainda que á primeira
vista pareça cousa tão limitada. E para que comecemos
em ordem;
sobrescripto é uma noticia vulgar da
pessoa a quem se escreve, e do logar aonde lhe mandam
a carta, exprimindo-se n'elle o nome, e a dignidade,
por onde é mais conhecida, e o do logar onde
n'aquelle tempo assiste. N'esta regra geral ha uma limitação,
e é: Que ás pessoas do grande titulo, e cargo
se pode calar, ou usar de outro modo differente esta
segunda noticia; porque, além dos cargos declararem
muitas vezes a assistencia das pessoas, parece cortezia
que as que são mui conhecidas por seu titulo, e dignidade,
basta essa, e o nome para serem buscadas. O
primeiro modo é, como se escrevessemos a N. Vice-Rei
da India, A. N. General de Portugal. O segundo como
a N. Embaixador d'el-rei de Hespanha em a Côrte de
Roma. E posto que estes assistam a tal tempo em villas,
ou cidades particulares, não é necessaria outra
leitura no sobrescripto. Não trato aqui das cartas enviadas
aos reis, de seus vassalos, porque não entram
n'esta regra as que vem dirigidas a seus conselhos
particulares.—Bem podereis (disse o doutor) metter
n'esse logar a historia de um letrado da minha profissão,
que mandando uma informação á Meza do Paço,
poz no sobrescripto:
A El-Rei nosso Senhor nos seus Paços da
Ribeira, junto de Luiz Cesar.—D'outro soldado ouvi
eu contar (disse Solino) que escreveu á India:
A. N.
Vice-Rei da India, nos Paços de Goa, defronte de um Lanceiro
torto.—Para gente tão nescia (disse Leonardo) não
servem preceitos: mas em outra vejo muitas vezes sobrescriptos
tão miudos, e sobejos, que pessoas muito
particulares se podiam dar por afrontadas d'elles, como
é: A fuão, em tal terra, em tal rua, detraz de tal parte,
defronte de tal casa, e junto a N. E ás vezes é a pessoa
tal, que deve ser mais conhecida por si, que pelas
confrontações.—Dos sobejos (atalhou Solino) não posso
eu calar um, que vi ha poucos dias, de um frade que
escreveu ao seu provincial, que tinha cinco padres
nossos, como conta benta, e dizia:
Ao muito Reverendo
Padre nosso, o nosso Padre N. nosso Padre Provincial, no
Convento de nosso Padre S. N. Padre nosso.—Por isso digo
(proseguiu Leonardo) que a noticia deve ser vulgar
que nem afronte, nem lisongeie, nem sobeje, nem falte.—Mais
provavel é (disse D. Julio) que se peque nos sobrescriptos
por demazia, que por falta; porque todos
dizem o nome da pessoa, e a terra para que escrevem.—Não
já um (respondeu Pindaro) que escreveu:
A meu
filho o Licenciado em Salamanca, que Deus guarde,
parecendo-lhe
que bastava o grau em logar do nome. Mas que
logar dareis vós aos titulos dos sobrescriptos? Que ha
alguns mais compridos que as cartas que resam o nome,
o titulo, o senhorio, o cargo, a commenda, e ainda as
pretenções da pessoa a quem se escreve.—A mim me
parece (tornou Leonardo) que os titulos é cousa conveniente,
e necessaria; usados porém com moderação
conforme ao que tenho dito: que noticia vulgar é ser
um homem conhecido por o senhorio, e cargo que tem;
e assim se ha de escrever de cada um o cargo que tem.
e por onde é mais conhecido. Do senhorio como:
A. N.
senhor de tal Villa. E estando em ella:
A. N. na sua
Villa N. O que tambem se usa nos logares, e quintas, em
que cada um assiste. Do cargo:
A fuão, do Conselho d'el-Rei,
e seu Presidente da Fazenda, da Consciencia, etc.
A
fuão Desembargador d'el-Rei nosso senhor, e seu Ouvidor dos Aggravos,
etc. Tudo isto com a brevidade necessaria: por
que o sobrescripto, como disse, serve de noticia, e não
já de adulação. E na carta, não se permitte no sobrescripto
o que se não consente no interior; como se algum
escrevesse a este Fidalgo, e lhe quizesse pôr os
títulos, que elle merece, no sobrescripto; convém a saber:
A D. Julio, Columna da nobreza de seus passados, e gloria
das esperanças de sua patria. Ou:
Ao Doutor Livio,
honra e luz do Direito Civil, exemplo da philosophia, e thesouro
da humildade: cousas eram estas, que d'elles se podiam
dizer: porém não são no logar do sobrescripto. E passando
d'elles adeante.
A segunda cortezia é no papel, da cruz até á primeira
regra; que ha alguns, que lhe põem os olhos
muito junto com as sobrancelhas: outros, que lhe deixam
pelo meio uma estrada de coches; e pela desconformidade,
que ha entre uns, e outros, veio a ser a regra
entre os eguaes, que fique em branco a quarta
parte do papel, que vem a ser no alto a primeira dobra;
e na ilharga um espaço razoado, que dá logar á
mão para ter a carta sem cobrir as lettras, e para se
cortar, ou passar chancella sem as offender.—E de que
nasce (perguntou Pindaro) que muitos deixam mais
de meio papel em branco da ilharga, e vão a cerzir a
lettra com a cortadura da tesoura?—Esse erro, e outros
muitos (respondeu elle) nascem de mudarem alguns
os serviços ás cousas: porque a invenção não estava
mal no seu logar, se a não fizeram servir nos
alheios. Em cartas de negocio, feitas a pessoas occupadas,
que se fazem por capitulos, e apartadas, ou perguntas
sobre materias dos mesmos negocios, se deixa
egual parte do papel para responder á margem em ordem
a cada uma das cousas; e assim fica servindo para
duas, uma mesma carta; mas estas não guardam a regra,
nem a cortezia das missivas. O mesmo erro ha no
que Solino primeiro apontou dos sobrescriptos:
Para
vêr o senhor Fuão, que nasceu de alguns papeis emmaçados,
que se passavam de ministro a ministro com
sómente aquelle sobrescripto sem outra carta, e sem
terem mais de carta, que o irem cerrados, e sellados,
deram occasião aos que usam o mesmo termo nos sobrescriptos
d'ellas.
—Muitos erros ha (disse D. Julio), nascidos da mesma
occasião. E posto que seja sahir um pouco fora do proposito,
é tão grande bugia da virtude e da honra a vaidade,
que, sómente por a seguir em as apparencias,
tropeça a cada passo em desatinos. Este escreveu,
Para vêr; porque N. Ministro, ou privado escreveu
assim; e veste de tal panno, porque N. de maior qualidade
o trazia; e o que este fez (pode ser por remediar
o seu frio) faz outro á imitação, e se abraza de quentura.
A Hespanha se passou o uso de vestir dos soldados
de Flandres, por bizarria; e razão tinham de imitar
em outras cousas aos praticos que militam em uma
praça tão ennobrecida das nações da Europa; mas o
que elles faziam obrigados do clima, e o sitio da terra,
usavam os cortezãos por gala, levados do engano da
verdade, os chapéos de aba grande contra a neve, os
ferragoulos abotoados, e com descanços para o frio, as
meias de escarlata debaixo de botas altas contra a humidade,
as solas levantadas por detraz, para não resvalarem
nos caramelos, as roupetas abertas sobre as
armas; tudo isto, e outras muitas cousas, sendo inventadas
pela necessidade, se passaram á galanteria. Deixo
as côres de Rei, e da Infante, e a historia do Mercador
com el-rei D. João o III, que lhe pediu que se quizesse
vestir de um panno que tinha muito rico, o qual lhe
daria de graça; que com este ardil, em el-rei o vestindo,
vendeu elle a mór valia uma quantidade de peças
d'aquella côr que lhe haviam entrado n'uma partida.—Não
é isso sómente nas cartas, e nos arrojos, disse o
doutor; que ainda passa adeante o engano. Em a côrte
do imperador Carlos V, andando elle indisposto, lhe
mandaram os medicos comer borragens, por ser herva
medicinal para a sua enfermidade; e porque os fidalgos
e titulares a viam de ordinario na meza imperial
sem advertirem a occasião porque se fazia, veio a valer
entre elles muito, e a fazerem mil iguarias d'aquella
herva, de sorte que se semeavam tantas nas terras
onde a côrte assistia, que não havia agros d'outro fructo.
Vão-se emfim as cousas mal, e ás vezes são nascidas
de bom costume.—Assim é (disse Solino) que até oculos,
que se inventaram para remediar defeitos da natureza,
vi eu já trazer a alguns por galantaria.—D'essa maneira
seguiu D. Julio se devia mudar para as cartas o estillo
dos papeis, que o não estão por imitarem aos validos.
E tornando á cortezia, que cousas tem mais de
que tratar?
—A terceira, tornou elle, é o nome, e signal do que escreveu
a carta, que nem ha de estar tão junto das lettras,
que pareça soffrego d'ellas, nem no meio do papel
como quem escolheu melhor logar, nem tão apertado,
que fique ausente das regras, nem tanto na ponta
do fim, que pareça que se amuou áquelle canto; mas
com um meio ordinario, como é assignar-se um pouco
abaixo das regras, mais inclinado á parte direita que
á esquerda, que é uma certa modestia, e humildade de
quem escreve.—E que dizeis, (perguntou o doutor) do
acompanhamento do signal? Porque ha uns que se nomeiam
servidor de vossa mercê N., outros
vassallo; outros
captivo, outros
seu N. e ha
n'isto muita variedade, e
ignorancia.—Primeiramente (continuou Leonardo)
servidor
já se passou das cartas para os retretes:
servo
para os matos, e
captivo para os comprimentos
refinados
em a pratica;
creado, era termo bem creado, e
seu
é descortezia: e por fugir d'esta, e de alguns extremos,
o mais seguro é escrever cada um o seu nome sem
mais leitura.—Não sejaes tão estreito nas licenças(disse
Solino) que deitaes a perder cartas que só pelos comprimentos
do signal merecem fama. Um homem escrevendo
a sua propria mulher, se assignou
vosso servo N.,
e ella o fazia tal na mesma ausencia. O outro, de que
contam vulgarmente, porque corria nos signaes o
menor
creado de vossa mercê N., escrevendo a sua mulher se
assignou
o menor marido vosso N., e a senhora devia
de
ter mais varões que a Samaritana. De uma gentil dama
sei eu (disse Pindaro) que escrevendo a um seu galante
se assignou
sua N., e elle lendo a carta, voltou
para um amigo com que estava, e disse
sempre temi esta
nova; e perguntando-lhe o outro que era? Respondeu
sua N., e é principio de verão: Outro em Coimbra,
querendo-se
humilhar muito aos pés de um amigo, a que
escrevia, se assignou
Antipoda de vossa mercê
N.—Quanto
mais galantes são essas historias (tornou Leonardo)
tanto mais de estimar é a moderação, e bom termo de
não se sahir d'aquelle limite da cortezia commum; e
passando d'ella ha de ter a carta regras direitas, que
ha alguns que escrevem em escadas como figuras de
solfa: lettras juntas, e razões apartadas, com a distincção
dos pontos, virgulas, e accentos necessarios, para
fazerem perfeito sentido das razões; porque ha cortezãos,
que por aformosearem a lettra, e facilitarem melhor
os rasgos da penna, vão encadeando as lettras
pelas cabeças, como sardinhas de Galliza; e de maneira
confundem a escriptura, que não ha tirar d'ella o sentido
verdadeiro de seu dono; e ha cartas bem notadas,
que por mal escriptas perdem reputação; o papel seja
limpo para n'elle empregar sem fastio a vista o que
ha de lêr, e porque pareçam melhor as lettras bem ordenadas;
a chancella sutil, porque ao abrir da carta a
não offenda, que alguns a fazem parecer carta rota
antes de lida: dobras eguaes, porque o concerto auctorisa
as cousas, e as faz parecer melhor: o sêllo claro,
assim para lustro da carta, como para guarda d'ella,
pois é o cadeado que a defende dos curiosos de saber
segredos alheios.—Não corrais com tanta pressa (disse
D. Julio) por essas particularidades, e miudezas, que
em algumas d'ellas tinha perguntas que fazer; mas
contentar-me-hei com as que se me offerecerem de novo
sobre a materia das armas, e tenções com que se costumam
sellar as cartas; e assim estimarei que nos digaes
d'isto alguma cousa.
—As armas (respondeu elle) é a insignia que cada um
tem de sua nobreza, conforme ao appellido com que
se nomeia, e com o sinete d'ellas sella as cartas de importancia,
ou com elmo, e folhagens sobre o paquife do
escudo, ou com elle em tarja, como tenção; que estas
como são pensamento, e desenho particular, se abrem
ás vezes em redondo, ovado, ou quadrangulo, e outras
figuras, sem respeitar a do escudo. Em Portugal é cousa
muito antiga aos principes trazerem tenções, e emprezas
com lettras, e ainda as usavam misturadas nas Armas
Reaes, que posto que n'aquelle tempo não estavam
tão apuradas como agora, nem eram sujeitas á
arte, que d'ellas e para ellas fizeram os modernos, não
lhes faltava entendimento, e galanteria. El-rei D. João
o I trazia na orla das Armas uma lettra, que dizia:
Por bem. E a rainha D. Filippa de Alancastre sua
mulher,
outra que respondia a esta em Inglez que dizia:
Me contenta. O infante D. Fernando seu filho, o
Santo,
trazia uma capella de hera com seus cachinhos, e no
meio d'ella a Cruz de Aviz, de cuja cavallaria era Mestre.
O infante D. Pedro uma capella do carvalho com
suas bolotas, e no meio umas balanças, e nas Armas
Reaes, no banco de pinchar, em cada pé d'alto abaixo
mãos, e por cima umas lettras escriptas muitas vezes,
que diziam:
Dizer, e entre cada palavra d'estas um
ramo de carvalho com bolotas. O infante D. João, que
foi mestre de S. Thiago, casado com a neta do condestavel
D. Nuno Alvares Pereira, trazia uma capella de
ramos de silva com cachos de amoras, com as bolsas
de S. Thiago no meio, e tres conchellas em cada uma
com uma lettra em Inglez, que dizia:
Com muita
razão.
O infante D. Henrique, Mestre na Ordem de Christo,
trazia as armas do Mestrado, e de antigas de Portugal,
e ao redor um cinto largo de correia, que abroxava
no cabo de baixo, e uma fivella que fazia volta com a
correia, e em Inglez a lettra dos cavalleiros de Garrotea,
que elle tambem era, e dizia:
Contra si faz quem
mal cuida. E uma capella de carrasco, e no banco de
pinchar tres flôres de lirio em cada pé. El-rei D. Affonso
o V trazia pintado um mundo com esta lettra:
Conheço
que não te conheci. El-rei D. João II seu filho, trazia um
rodizio, com esta lettra:
Setere: e na outra trazia
um
Pelicano ferindo o peito, e dizia a lettra:
Pela lei e pela
grei. A rainha D. Leonor sua mulher, trazia uma rede
de pescar, a que chamam rastro. El-rei D. Manoel, uma
esphera com uma Cruz. A excellente senhora, uns alforges,
e nas cevadeiras pintadas as Armas de Castella
com esta lettra:
Memoria de mi derecho. O marquez de
Valença, neto do conde D. Nuno Alvares, trazia dois
guindastes, que levantavam um titulo de pedra, com
quatro lettras, cada uma por parte. E além d'estas ha
memoria d'outras muitas, que dão testemunho do uso
que d'ellas havia n'este reino.—Por certo, disse D. Julio,
que estou assás contente do fructo que colhi da minha
pergunta, por saber curiosidade tão notavel dos nossos
principes antigos, que para a minha natural inclinação
é a cousa de maior gosto, e interesse: e não fôra menor;
pois falamos de Armas, e Tenções, e vós sois visto
n'ella fazer que saibamos mais alguma cousa atraz
d'esta materia, principalmente d'onde nasceu, e teve
principio o uso dos Escudos de Armas, e das Tenções.
—Quanto á minha opinião (respondeu Leonardo) é que
armas, e emprezas, ou tenções não tiveram no seu principio
a differença, que agora lhes assignam os que d'ellas
escrevem de lettras, e corpos sem lettras, com limitações,
e regras mui apertadas. Antes me parece,
que as armas eram as insignias que os reis, e imperadores
davam aos seus para ser conhecida sua nobreza,
conformando-se na figura d'ellas com a qualidade dos
successos por onde as mereceram, ou com a antiguidade
do sangue d'onde descendiam a quem as davam,
e as que os mesmos reis tomavam para si em memoria
de semelhantes feitos, ou derivadas por seus antecessores.
Emprezas, ou tenções são as que os mesmos
reis, principes, ou particulares tomam, conformando
as figuras, e lettras com o desenho, e pensamento que
cada um tem, para emprehender cousas altas. E d'aqui
adeante entram as regras, que depois lhe aconteceram;
que, por ser um discurso mui comprido, não tem logar
em noite tão breve. Além d'estas ha, outras armas dos
reinos, provincias, republicas, e cidades, que se devem
chamar
diviza, que tiveram principio ou das cousas
de que são mais abundantes, ou da maneira em que fôram
povoadas, ou adquiridas. E no que toca ao principio
das armas, Hercules foi o primeiro que trouxe por armas
a pelle do leão que matou na relva Nemea, depois
da victoria que d'elle teve, e antes d'esta victoria trazia
a mesma ínsignia do porco de Erimanto, que matou
em Arcadia. Jazon trouxe por armas o Velocino de
ouro, que conquistou. Thezeu o Minotauro. Ulysses, o Paladion,
e Eneas o escudo que ganhou de Ulysses na guerra
de Troia: estas eram verdadeiras armas, em memoria
de valorosos feitos. E quanto ao principio das emprezas,
escreve Pauzanias, que Agamemnon trazia no escudo
a cabeça de um leão de ouro, com uma lettra que
dizia:
Este é terror dos homens, e o que o traz é
Agamemnon.
Antioco trazia por armas outro leão. Heitor, dois
leões de ouro em campo vermelho. Seleuco um touro.
Alexandre, um rei de ouro em seu throno em campo
azul. Alcibiades um Cupido. Lucio Papirio o Pégazo.
Cezar uma aguia preta. Pompeio um leão com uma espada
empunhada. Judas Macabeu um dragão vermelho
em campo de prata. Attila um açor coroado. E cada
um d'estes, posto que poderam tomar a figura das armas
em significação de feitos celebrados, e victorias
adquiridas, só quizeram dar-lhe as figuras conforme ao
seu pensamento; e Cesar, ao agouro que da aguia teve.
E descendo ás armas particulares dos reis, que sabemos:
As do imperador é uma aguia preta de duas cabeças
em campo de ouro, em memoria da de Julio Cesar,
e da união do Imperio Oriental, e Occidental. Armas
d'el-rei de França são tres flôres de lirio de ouro
em campo azul, que fôram milagrosamente dadas a el-rei
Clodoveu. Armas d'el-rei de Portugal, os cinco escudos
de azul em cruz, em signal do vencimento que o
primeiro rei D. Affonso teve dos cinco reis mouros no
campo de Ourique, e n'elles, e com elles, os trinta dinheiros
de prata, por que nosso Senhor foi vendido, em
memoria da sua Paixão, e do apparecimento que o
mesmo rei vio antes da batalha: por orla das armas
sete castellos de ouro em campo vermelho, e por timbre,
um Drago coroado. Armas d'el-rei de Inglaterra,
tres Leopardos de ouro em campo vermelho: posto que
d'antes tinha el-rei Arthur por armas tres corôas de
ouro em campo azul. Armas d'el-rei de Hespanha, os
castellos, e leões, tão conhecidos no mundo. Armas d'el-rei
de Frizia, um escudo de prata, riscado de linhas
vermelhas, e atravessado com uma banda azul. Armas
d'el-rei de Jerusalem, uma cruz de ouro nos extremos,
com cruzetas do mesmo metal, e outras pelos vãos dos
angulos. Armas d'el-rei de Polonia, duas aguias de prata
e um homem em cima de um cavallo, do mesmo metal.
Armas d'el-rei de Irlanda, uma harpa, e uma mão
que a está tocando. Armas do Preste João da India, um
crucifixo negro, com dois azorragues, em campo de ouro.
Deixo outros muitos, como os bastões de Aragão, as
cadeias de Navarra, a romã de Granada, as bandas de
ouro, e vermelho de Malhorca, e outras que querer contar
fôra infinito. Tem do mesmo modo as provincias
suas armas. Primeiramente, as quatro partes, em que
o mundo se divide: Azia, tres serpentes: Africa, um
elephante: Europa, um cavallo: A America, um crocodilo:
Italia tinha por armas antigamente o cavallo:
Thracia, um Marte: Persia, um arco: Scythia, um raio:
Armenia, um bode: Fenicia, um Hercules: Sicilia, uma
cabeça armada: Albania, um cágado: Frizia, uma porca:
Hespanha, um castello: Luzitania, uma cidade. As Republicas
tem tambem suas armas particulares: A de
Veneza, um leão com um livro nas unhas: A de Sena,
uma loba: A de Genova, um S. Jorge: A de Florença,
um leão com um livro de ouro. As Cidades, da mesma
maneira: Athenas, a Coruja: Roma, a aguia: Lisboa,
uma nau com os corvos, em memoria do corpo do glorioso
Martyr S. Vicente, seu padroeiro: Coimbra, o
drago, e a donzella coroada: Evora, as cabeças das vigias:
O Porto, a imagem de Nossa Senhora entre duas
torres: Leiria, uma torre entre dois pinheiros, e n'elles
dois corvos. E assim todas as outras. Porém isto é já
muito tarde, e gastámos n'esta materia mais tempo do
que convinha á das cartas, em que começamos; e porque
nas armas, e tenções nos não fique por saber algumas
significações, e figuras de armas dos particulares
senhores, e fidalgos de Portugal, que todas fôram
merecidas com louvores de gloriosos feitos: deixando
os animaes, significadores de fôrça, braveza, e velocidade:
e os planetas de poder, antiguidade, e clareza,
e outras figuras semelhantes: Banda significa postura
de taboa: Escada, o engenho por onde se cometteu
alguma obra de valor, ou difficultosa entrada, com risco
da vida: faxa, ou barra, representa victoria da batalha
singular de cavalleiro a cavalleiro, e quantas fôrem,
tantos diremos que são os vencimentos com que se
ganharam as armas. Parte de muro, torre, ou castello,
significa ser ganhado, entrado, ou soccorrido, com esforço,
e perigo da vida. Escadas, asteas, ou pedaços de
lanças, denotam subida trabalhosa, ou defensão arriscada
na mesma subida. Assim que a variedade dos corpos,
ou forma que vêdes nas armas, todas nasceram de
illustres façanhas, e valorosos feitos. E todas as das
empresas, e tenções, dão signal claro do animo, e pensamento
de seus donos: e com umas, e outras se devem
sellar as cartas, de maneira que se divizem as figuras,
e lettras d'ellas, como tenho dito.—Vejo (disse Solino)
que temos a carta cerrada, sellada, e com sobrescripto,
sem ainda sabermos nada do principal d'ella. Não vos
enfadeis (respondeu elle) que na noite de ámanhã a
abriremos, e leremos muito de vagar a estes senhores,
se não ficarem de agora cansados do sobrescripto.—Antes
(disseram elles) que só o dia seguinte lhes parecia
comprido, e vagaroso. E dando fim á conversação
d'aquella noite, deram o que d'ella ficava ao repouso,
que com a moderada recreação de horas bem gastadas
é mais aprazivel.