Quando Arací chegou ao terreiro, os anciãos se preparavam para ouvir a maranduba do hospede. Os guerreiros e as mulheres escutavam em silencio.
O estrangeiro começou:
—Jurandir é moço; ainda conta os anos pelos dedos e não viveu bastante para saber o que os anciãos da grande nação tocantim aprenderam nas guerras e nas florestas.
«O moço é o tapir que rompe a mata, e vôa como a seta. O velho é o jabotí prudente que não se apressa.
«O tapir erra o caminho e não vê por onde passa. O jabotí observa tudo, e sempre chega primeiro.
«Jurandir é moço; mas conhece as grandes florestas, e atravessou mais rios do que as veias por onde corre o sangue valente de seu pai.
«A primeira agua em que Jaçanan, sua mãi, o lavou, quando elle lhe rasgou o seio, foi a do grande lago onde Tupan guardou as aguas do diluvio, depois que as retirou da terra.
«Ainda Jurandir não era um caçador, quando elle se banhou no pará sem fim, onde os rios despejam a sua corrente e cujas aguas quando dormem se mudam em sal.
«Duas vezes Jurandir seguiu o pai dos rios desde a grande montanha onde nace, até á varzea sem fim que elle enche com suas aguas.
«Elle viu o grande rio combater com o mar, no tempo da pororoca. Os dois chefes tocam as inubias antes da peleja, para chamar seus guerreiros.
«Vem de um lado as aguas do mar, são os guerreiros azues, com penachos de araruna; vem do outro as aguas do rio, são os guerreiros vermelhos com penachos de nambú.
«Começa a batalha. Os guerreiros se enrolam, como a corrente da cachoeira, batendo no rochedo; a terra estremece com o trovão das aguas.
«Mas o grande rio agarra o mar pela cintura. Arranca do chão o inimigo; carrega-o nos hombros; solta o grito de triunfo.
«Por muito tempo os Tetivas, que habitam sobre as arvores, vêem passar correndo as aguas do mar; são os guerreiros azues que fojem espavoridos e vão esconder-se na sombra das florestas.
«Jurandir tambem viu a terra onde habitam as mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo, que vivem em baixo das aguas do grande rio.
«Só ellas sabem o segredo das pedras verdes, que tornam os guerreiros cativos de seu amor, sem prival-as da liberdade.
«Por isso todas as luas, grande numero de guerreiros as vizitam em sua taba; e ellas guardam para os mais valentes a flôr de sua beleza.
«Quando chega o tempo de vir o fruto do amor, guardam sómente as filhas; e enviam aos guerreiros os filhos, de onde saem os maiores chefes.
«Feliz o guerreiro que acha uma terra valente e fecunda para a flôr de seu sangue. O filho será maior do que elle; e o neto maior do que o filho.
«Sua geração vai assim crecendo de tronco em tronco; e fórma uma floresta de guerreiros, onde o ultimo cedro se ergue mais frondozo e robusto, porque recebe a seiva de seus avós.»
Quando Jurandir proferiu as ultimas palavras, seus olhos que tinham muitas vezes buscado Arací, repouzaram nella.
A virjem tocantim compreendeu que o estranjeiro se referia a si; e não escondeu sua alegria, como não esconde sua flôr a juquerí que o rio beija.
A formoza caçadora cantou. Sua voz era limpida e sonora como o gorjeio do sabiá, quando se deleita com o calor do sol.
—Feliz a terra que recebe a semente do cedro frondozo e robusto; ella se cobrirá de sombra e frescura. Os guerreiros gostarão de reunir-se aí para falar da paz e da guerra.
«Ella é como a virjem que um chefe ilustre escolheu para sua espoza, e que se povôa de uma prole numeroza. As nações a respeitam porque é a mãi de valentes guerreiros; os anciãos escutam seu conselho na paz e na guerra.
«As mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo, são como a palmeira do murití, que rejeita o fruto antes que elle amadureça e o abandona á correnteza do rio.
«A espoza não desprende de si o filho, senão quando elle não chupa mais seu peito. Ella é como a mangabeira; nutre o fruto com seu leite, que é a flôr de seu sangue.
«Não é na terra das mulheres guerreiras que o estranjeiro deve buscar a espoza; mas na taba de sua nação, onde Tupan guarda para seu valor a mais bela das virjens, aquella que tem o sorrizo de mel.»
O hospede respondeu:
—Jurandir sabe onde encontrará a virjem que dezeja para espoza. A luz do céu o guia, e nada reziste á força de seu braço.
Depois de responder ao canto de Arací, o estranjeiro continuou sua maranduba, que todos ouviram silenciozos.
Elle contou o que havia aprendido nas praias do mar habitadas pela valente nação dos Tupinambás, decendentes da mais antiga geração de Tupi.
Os pajés dos Tupinambás lhe disseram que nas aguas do pará sem fim vivia uma nação de guerreiros ferozes, filhos da grande serpente do mar.
Um dia esses guerreiros saíriam das aguas para tomar a terra ás nações que a habitam; por isso os Tupinambás tinham decido ás praias do mar, para defendel-as contra o inimigo.
Os guerreiros do mar tambem tinham suas guerras entre si, como os guerreiros da terra. Então as aguas pulavam mais altas do que os montes; seu estrondo era como o trovão.
Jurandir contou mais que nas praias do mar se encontrava uma rezina amarela, muito cheiroza, a qual a grande serpente creava no bucho.
Os Tupinambás faziam dessa goma contas para seus colares; Jurandir mostrou a pulseira que lhe cinjia o artelho, prezente de um guerreiro daquella nação.
Essas contas tornavam o pé do guerreiro ajil na corrida, e protejiam o viajante contra os caiporas da floresta, que se apartavam de seu caminho.
Muitas outras coizas referiu Jurandir; e os anciãos admiravam-se de ver o juizo prudente de um abaré no corpo joven de tão forte guerreiro.
Os mais velhos dos moacaras acreditaram que o hospede era o filho de Sumê, mandado por seu pai correr as terras que o sabio tinha visto em sua mocidade.
Calaram, porém, seu pensamento, para o comunicarem aos anciãos quando se reunisse o carbeto da nação.
O sol já decia para as montanhas quando terminou a festa da hospitalidade na cabana de Itaquê.
Os moacaras partiram. Itaquê voltando á sua ocupação, deixou o hospede senhor de sua vontade para fazer o que lhe agradasse.
Vieram os jovens pescadores da taba com os anzóes e gequis saber do hospede que peixe elle preferia.
Depois delles chegaram os jovens caçadores que antes de partir para a floresta vinham receber os dezejos do hospede.
Por fim aproximaram-se as mulheres que já tinham rompido o fio da virjindade, mas não eram nem espozas, nem amantes de guerreiros.
Essas eram as mulheres livres, que davam seu amor e o retiravam quando queriam, mas não recebiam a proteção de um guerreiro nem podiam jámais ser mãis da prole.
Os filhos concebidos no proprio seio só tinham por mãi a espoza, que o guerreiro tomou por companheira de sua existencia e raiz de sua geração.
O rito da hospitalidade entre os filhos da floresta manda que se dê ao estranjeiro amigo tudo que deleita ao guerreiro.
Por isso vinham as moças oferecer a Jurandir sua beleza, para que elle escolhesse entre ellas uma companheira, que partilhasse sua rêde na cabana hospedeira.
Todas se tinham enfeitado com seus mais belos ornatos, para agradar aos olhos de Jurandir; pois não havia para ellas maior gloria do que a de merecer o amor do estranjeiro.
Umas traziam as tranças urdidas com penas vistozas dos passaros de sua predileção; outras haviam perfumado da essencia do sassafraz os cabelos soltos, que derramavam sua fragancia ao sopro da briza.
Chegando diante do estranjeiro, começaram uma dansa amoroza para mostrar a graça de seu corpo. Aquellas que tinham a voz doce cantavam em louvor de Jurandir.
Arací fôra buscar seu balaio de palha vermelha, e sentára-se no terreiro, junto á porta da cabana. Seus dedos ajeis enfiavam as sementes de jequerití, de que fazia um ramal para seu colo gentil.
Emquanto compunha o colar, a virjem percebia que os olhos de Jurandir abandonavam os encantos das mulheres, e buscavam seu rosto.
Mas ella voltava-se para a floresta; com o trinado de seus labios chamava o crajuá, que voava no olho da palmeira. O passarinho iludido vinha, cuidando ouvir o canto da companheira.
Jurandir apartou as mulheres e disse:
—As moças tocantins são formozas, qualquer dellas alegraria o sono do estranjeiro. Mas Jurandir não veiu á cabana de Itaquê para gozar do amor de uma noite; elle veiu buscar a espoza que ha de acompanhal-o até á morte, e a virjem que escolheu para mãi de seus filhos.
Quando Arací ouviu estas palavras cobriu-se de sorrizos, como o guajerú se cobre de suas flôres alvas e perfumadas com os orvalhos da manhã.
Jurandir voltou-se então para a virjem caçadora:
—Estrela do dia, Arací, conduze-me á prezença de Itaquê. É tempo que elle saiba o segredo do estranjeiro.
—Os sonhos disseram a Arací duas noites seguidas, que o joven caçador chegaria á cabana de Itaquê; ella te esperou. Quando meus olhos te viram sentado entre os moacaras, logo conheceram que tu vinhas buscar a espoza.
O estranjeiro respondeu:
—Jurandir chegou á taba dos seus, e recebeu um nome de guerra e o grande arco de sua nação. Mas a cabana do chefe estava dezerta; e sua rêde não lhe guardou o sono tranquilo do guerreiro. Elle ouviu tua voz que o chamava, virjem tocantim, e ergueu-se; tua luz o guiou, filha do sol, e o trouxe á tua prezença.
Jurandir, conduzido pela virjem, caminhou ao encontro de Itaquê e disse:
—Grande chefe dos tocantins, Jurandir não veiu á tua cabana para receber a hospitalidade; veiu para servir ao pai de Arací, á formoza virjem, a quem escolheu para espoza. Permite que elle a mereça por sua constancia no trabalho, e que a dispute aos outros guerreiros pela força de seu braço.
Itaquê respondeu:
—Arací é a filha de minha velhice. A velhice é a idade da prudencia e da sabedoria. O guerreiro que conquistar uma espoza como Arací terá a gloria de gerar seu valor no seio da virtude. Itaquê não póde dezejar para seu hospede maior alegria.
Desde esse momento, Jurandir não foi mais estranjeiro na taba dos tocantins. Pertencia á oca de Itaquê, e devia, como servo do amor, trabalhar para o pai de sua noiva.
Os guerreiros, cativos da beleza de Arací, conheceram que tinham de combater um adversario formidavel; mas seu amor creceu com o receio de perder a filha de Itaquê.
Jurandir tomou suas armas e deceu ao rio. Era a hora em que o jacaré boia em cima das aguas como o tronco morto, e a jaçanan se balança no seio do nenufar.
O manatí erguia a tromba para pastar a relva na marjem do rio. Ouvindo o rumor das folhas, mergulhou na corrente; mas já levava o arpéu do pescador cravado no lombo.
Jurandir não esperou que o peixe ferido dezenrolasse toda a linha. Puxou-o para terra; e levou-o ainda vivo á cabana de Itaquê, onde tres guerreiros custaram a deital-o no giráu.
As mulheres cortaram as postas de carne, e os guerreiros cavaram a terra para fazer as grelhas do biaribí.
Jurandir partiu de novo, e entrou na floresta. Ao lonje reboavam os gritos dos caçadores, que perseguiam a féra.
Pelo assobio o guerreiro conheceu que era um tapir. O animal zombára dos caçadores e vinha rompendo a mata como a torrente do Xingú.
As arvores que seu peito encontrava caíam lascadas.
Jurandir estendeu o braço. O velho tapir, agarrado pelo pé, ficou suspenso na carreira, como o passarinho prezo no laço. Nunca até aquelle momento encontrára força maior que a sua.
Uma vez decera á lagôa para beber. A sucurí, que espreitava a caça, mordeu-o na tromba. Elle fujia, esticando a serpente; e a serpente encolhendo-se o arrastava até á beira d'agua.
Assim tornou, uma, duas, tres vezes. Mas o tigre urrou de fome. O velho tapir disparou pela floresta; e a sucurí com a cauda preza á raiz da arvore arrebentou pelo meio.
O velho tapir rompeu a serpente como se rompe uma corda de piassaba; mas não pôde abalar o braço de Jurandir, mais firme do que o tronco do guaribú.
O estranjeiro tornou á cabana com a caça. Nenhum dos guerreiros da taba, nem mesmo o velho Itaquê, pôde aguentar com as duas mãos a féra bravia.
Então Jurandir obrigou o animal a agachar-se aos pés de Arací e disse:
—O braço de Jurandir fará cair assim a teus pés o guerreiro que ouze disputar ao seu amor a tua formozura, estrela do dia.
Nunca a abundancia reinára na cabana sempre farta do chefe dos tocantins, como depois que a ella chegára o estranjeiro.
Jurandir era o maior caçador das florestas, e o primeiro pescador dos rios. Seu olhar seguro penetrava na espessura das brenhas, como na profundeza das aguas.
Nada escapava á destreza de sua mão. Onde ella não chegava, iam as unhas de suas flechas certeiras, que rasgavam o seio da vitima, como as garras do jaguar.
O estranjeiro soubera de Arací qual era a caça que Itaquê preferia, e qual o peixe que elle achava mais saborozo. Desde então nunca o velho chefe sentiu a falta do manjar predileto.
Se não era a lua propria do peixe dezejado, Jurandir sabia onde o podia encontrar. Não tornava á cabana sem a provizão necessaria para a refeição do dia.
Depois da caça e da pesca, Jurandir trabalhava nas roças de Itaquê. Fazia no taboleiro os matumbos, para que Jacamim enterrasse as estacas da maniva e semeasse o feijão, o milho e o fumo.
Entre os filhos das florestas a plantação devia ser feita pela mão da mulher, que era mãi de muitos filhos; porque ella transmitia á terra sua fecundidade.
A semente que a mão da virjem depozitava no seio da terra dava flôr; mas da flôr não saía fruto. E se era um guerreiro que plantava, o aipim endurecia como o páu de arco.
Nas vazantes do rio, Jurandir capinava a terra coberta de relva e outras plantas, e só deixava crecer o arroz, o inhame e as bananeiras.
Quando o estranjeiro partia pela manhã, Arací o acompanhava de lonje pela floresta.
Sua vontade a levava após elle.
O costume da taba não consentia que a virjem dezejada pelos servos de seu amor, preferisse um guerreiro antes de saber se elle a obteria por espoza.
A filha de Itaquê não queria pertencer a outro guerreiro; mas lembrava-se que a virjem deve merecer o espozo por sua paciencia, assim como o guerreiro merece a espoza por sua constancia e fortaleza.
Então voltava ao terreiro: emquanto os outros guerreiros espreitavam sua vontade, ella tecia as franjas para a rêde do cazamento.
Sua mão sutil urdia com o alvo fio do crauatá a fina penujem escarlate. Os noivos cuidavam que era a do peito do tucano; mas ella sabia que era do peito da arára e que tinha as côres de seu guerreiro.
Quando o sol chegava ao cimo dos montes, ouvia-se o canto de Jurandir que voltava da caça. A virjem seguida pelos guerreiros ia ao encontro do estranjeiro.
Então deciam ao rio. Era a hora do banho. Arací cortava as ondas mais linda que a garça côr de roza; e os guerreiros a seguiam de perto, como um bando de galeirões.
Mas nenhum, nem mesmo Jurandir, que nadava como um bôto, podia alcançar a formoza virjem. Ella parecia a flôr do mururê que se desprendeu da haste, e passa levada pela corrente.
Uma vez a filha das aguas soltou um grito, e dezapareceu no seio das ondas. Jacamim cuidou que o jacaré tinha arrebatado a filha de seu seio. Os guerreiros mergulharam para salval-a; mas não a encontraram.
Todos a julgavam perdida, quando apareceu Jurandir que trazia nos braços o corpo da virjem formoza. Pizando em terra, ella correu para a cabana, onde foi esconder sua alegria.
Desde então era no banho que Arací recebia o abraço de Jurandir, sem que os outros guerreiros suspeitassem da preferencia dada ao estranjeiro.
No seio das ondas ninguem a adivinhava, a não ser o ouvido sutil de Jurandir, a quem ella chamava com o doce murmurio do irerê.
Encontravam-se no fundo do rio emquanto durava a respiração. Depois desprendiam-se do abraço e surjiam lonje um do outro.
Á tarde, voltando da caça, Jurandir viu na floresta um rasto, que elle conhecia.
Chegado á cabana, entregou a Jacamim o veado que matára, e saiu para vizitar os arredores. Nada encontrou de suspeito; o rasto, que o inquietava, não chegára até ali.
No outro dia, ao romper da alvorada, logo depois do banho os guerreiros partiram para a caça e para a pesca. Só ficaram na cabana Jacamim e as mulheres de Itaquê.
Arací tomou o arco e entrou na floresta. A imajem do guerreiro amado fujia naquelle instante de seus olhos; elles buscaram entre as folhas o sinal de seus passos e não o descobriram.
Lembrou-se a virjem, que Jurandir gostava da polpa do guaranan adoçada com o mel da abelha, e colheu os frutos encarnados que pendiam dos ramos da trepadeira.
Nesse momento a arára cantou no olho do pirijá. Arací precizava de suas plumas vermelhas para o cocar que ella tecia em segredo.
Era o cocar do amor, com que dezejava ornar a cabeça de seu guerreiro senhor, no dia em que elle a conquistasse por espoza.
A virjem armou o arco e seguiu a arára rompendo a folhajem. Quando ia disparar a seta, ouviu ao lado um rumor dezuzado.
Jurandir estava perto della, e segurava o braço de uma mulher, que ainda tinha na mão a macana afiada.
Arací conheceu a virjem araguaia, pela faxa de algodão entretecida de penas que lhe apertava a curva da perna; e adivinhou que era Jandira, a noiva do guerreiro.
—Filha de Majé, tua mão quiz matar a virjem que Jurandir escolheu para espoza. Tu vais morrer.
—Desde que Ubirajara abandonou Jandira, ella começou a morrer, como a baunilha que o vento arranca da arvore. Acaba de matal-a, para que sua alma te acompanhe de dia na sombra das florestas e te fale de noite na voz dos sonhos.
—A virjem araguaia ameaçou a vida de Arací; ella lhe pertence, disse a filha de Itaquê.
Jurandir cortou na floresta uma comprida rama de imbê, e atou as mãos de Jandira.
—Jandira é tua escrava. Não lhe dês a liberdade. Ella tem a astucia da serpente e seu veneno.
—Eu era a cobra d'agua, amiga do guerreiro, que habita sua cabana e a guarda contra o inimigo. Quem foi que me fez a cascavel venenoza, que traz nos labios o sorrizo da morte?
Jurandir não respondeu. Nesse momento elle teve saudade de sua cabana; e lembrou-se do tempo em que, joven caçador, seguia na floresta a formoza virjem araguaia.
As duas virjens ficaram sós no claro da floresta.
Já o rumor dos passos de Jurandir se apagára ao lonje, e ainda tinham ambas os olhos cativos uma da outra.
Jandira pensou que ella não podia dar a Ubirajara a formozura da filha de Itaquê. Arací receiou que o amor do guerreiro se voltasse outra vez para a linda virjem araguaia.
A filha de Majé preparou-se para morrer á mão de sua rival, mas ella preferia a morte ao suplicio de contemplar sua beleza.
Arací, a estrela do dia, cantou:
—O amor do guerreiro é a alegria da virjem; quando elle foje, a virjem fica triste como a varzea que perdeu sua relva.
«Por isso Jandira está triste; o amor do guerreiro fujiu della; e a deixou solitaria como a nambú, a quem o companheiro abandonou.
«Mas o amor do guerreiro é como o orvalho da noite. Quando o sol queima a varzea, elle dece do céu para cobril-a de verdura e de flôres.
«Arací está alegre, porque o amor do guerreiro voltou-se para ella; e Jurandir vai fazel-a companheira de sua gloria e mãi de seus filhos.
«Quando a espoza de Jurandir não tiver mais beleza para dar a seu guerreiro, ella consentirá que Jandira durma em sua rêde.
«E o orvalho da noite decerá do céu para cobrir a varzea de verdura e de flôres. E Jandira achará outra vez seu sorrizo de mel.»
Assim cantou Arací, a estrela do dia; e a virjem araguaia respondeu:
—A arvore que morreu não sofre quando o fogo a queima. Jandira prefere a morte á vergonha de ser tua serva, e á tristeza de ver a cada instante a formozura da estranjeira que roubou seu amor.
«Arací, a estrela do dia, é mais bela do que Jandira, mas não sabe amar o guerreiro que a escolheu para mãi de seus filhos.
«Nunca Jandira ofereceria sua rêde de espoza a outra mulher; e aquella que recebesse o amor de seu guerreiro, morreria por sua mão.
«Ella amaria seu espozo tanto que sua graça nunca se retirasse della; pois saberia morrer quando não tivesse mais beleza para dar-lhe.
«A nação araguaia nunca levanta a taba do vale onde acampou, senão quando a terra já não póde dar-lhe mais frutos.
«Assim é o guerreiro. Elle não retira seu amor da espoza que habita, senão quando ella já não sabe alegrar sua alma.»
Tornou a virjem tocantim:
—A cajazeira, depois que dá seu fruto, perde a folha; o guerreiro busca a sombra de outra arvore para repouzar.
«Mas vem a lua das aguas e a cajazeira outra vez se cobre de folhas; sua sombra é doce ao guerreiro.
«A espoza é como a cajazeira. Quando o guerreiro não acha alegria em seus braços, ella sofre que busque outra sombra, e espera que lhe volte a flôr para chamal-o de novo ao seio.
«Arací ama seu guerreiro, como Jacamim ama Itaquê. A cabana do grande chefe dos tocantins está cheia de servas; mas seu amor nunca abandonou a espoza.
«As servas deram a Itaquê muitos filhos; mas os filhos da velhice, foi só Jacamim quem os deu ao grande chefe; porque o primeiro amor do guerreiro não morre nunca.
«Elle é como a grama que nunca mais deixa a terra onde naceu: podem arrancal-a que brota sempre.
«Arací quer apagar a tristeza de tua alma; e beber o teu sorrizo de mel, para que o espozo ache mais doces seus labios, quando os provar.
«Tu serás irmã de Arací, e lhe darás um filho de Jurandir, tão valente, como os que seu amor ha de gerar no seio da espoza.»
Jandira afastou os olhos da virjem dos tocantins, para desviar della sua ira.
—Tua palavra dóe como o espinho da jussara, que tem o côco mais doce que o mel.
«As flechas de teu arco não matam mais do que os sorrizos que o amor do guerreiro derrama em teu rosto, estrela do dia.
«Ubirajara deixou-me por ti; mas foi a Jandira que elle primeiro escolheu para espoza, quando ainda era joven caçador.
«Nos campos alegres, onde vão os guerreiros quando morrem, elle me chamará; e o guanumbí virá buscar a minha alma no seio da flôr do manacá para leval-a a seu amor.
«Mata-me, ou deixa que eu morra para não ver mais tua beleza, e não ouvir o canto de tua alegria.»
Arací caminhou para Jandira e dezatou-lhe os pulsos.
—O amor do guerreiro não pertence á mulher que seus olhos primeiro viram; mas áquella que elle escolheu. Apanha teu arco; e morra aquella que não souber defender seu amor, e merecer o espozo.
Arací disse, e tirou da uiraçaba uma seta. Jandira ficou imovel, com os pulsos cruzados, como se ainda estivessem prezos:
—A vontade de Ubirajara atou os braços de Jandira; ella rejeita a liberdade dada por ti. Arací póde ser preferida, porém não será mais generoza do que a filha de Majé.
Chegou o dia em que os noivos de Arací deviam disputar a posse da formoza virjem.
Era a hora em que o sol transpondo a crista da montanha estende pelo vale sua arassoia de ouro.
A grande nação tocantim cerca a vasta campina. No centro estão os anciãos, que formam o grande carbeto.
Em frente aparece Arací, a estrela do dia, que ha de ser o premio da constancia e fortaleza do mais destro guerreiro.
Jacamim acompanha a filha; nesse momento remoça com a lembrança do dia em que Itaquê a conquistou, lutando com os mais feros mancebos tocantins.
De um e outro lado seguem pela ordem da idade os moacaras. Cada um cerca-se da espoza, das servas e das filhas, que vieram para assistir ao combate.
É a unica das festas guerreiras, em que o rito de Tupan consente a prezença das mulheres, porque se trata da sua gloria.
Contemplando o esforço heroico dos mais nobres guerreiros para conquistar a formozura de uma virjem, as outras virjens aprendem a prezar a castidade, e as espozas se ufanam de guardar a fé ao primeiro amor.
Itaquê, o grande chefe dos tocantins, prezide ao combate, orgulhozo pela valente nação que dirije, como pela formoza virjem de que é pai.
Quando seus olhos admiram a multidão de guerreiros, servos do amor de Arací, que se preparam a disputar a espoza, o grande chefe ergue a fronte soberba como o velho ipê da floresta coroado de flôres.
Os noivos distinguem-se dos outros guerreiros pelo bracelete de contas verdes, que o guerreiro cinje ao pulso da espoza, quando rompe a liga da virjindade.
Lá caminha Pirajá, o grande pescador, senhor dos peixes do rio, a quem obedece o manatí e o golfinho.
Junto delle ergue-se Uirassú, que tomou este nome do valente guerreiro dos ares, pelo ímpeto do assalto.
Vem depois Arariboia, a grande serpente das lagôas; Cauatá, o corredor das florestas; Corí, o altivo pinheiro; e tantos outros, ainda mancebos, e já guerreiros de fama.
Entre todos, porém, assoma Jurandir. Sua fronte passa por cima da cabeça dos outros guerreiros, como o sol quando se ergue entre as cristas da serrania.
Os muzicos fizeram retroar os borés, anunciando o começo da festa; e os servos do amor se estenderam em linha pelo meio da campina.
Então os nhengaçáras levantaram o canto nupcial.
«A espoza é a alegria e a força do guerreiro. Ella acende em suas veias um fogo mais generozo que o do cauim, e prepara para seu corpo o repouzo da cabana.
«Por isso o primeiro dezejo do mancebo, quando ganha nome de guerra é conquistar uma espoza.
«Não basta ser valente guerreiro para merecer a virjem formoza, filha de um grande chefe; é precizo a paciencia para sofrer, e a perseverança no trabalho.
«Arací, a estrela do dia, filha de Itaquê, será a alegria e a gloria do mais forte e do mais valente.
«Os filhos que ella gerar em seu seio, onde corre o sangue do grande chefe, serão os maiores guerreiros das nações.»
Itaquê deu sinal; o combate começou.
Pirajá foi o primeiro que saiu a campo, e clamou esgrimindo o tacape:
—Arací, estrela do dia, tu serás espoza do guerreiro Pirajá, que te vai conquistar pela força de seu braço.
Avançou Uirassú, e disse:
—A virjem formoza ama ao guerreiro Uirassú e ha de pertencer-lhe.
A noiva cantou:
«Arací ama o mais forte e mais valente. Ella pertencerá ao vencedor, que vencer a bravura dos outros guerreiros, como venceu a vontade da espoza.»
A voz mavioza da virjem afagou a esperança de todos os campeões; mas seus olhos ternos só viam o nobre semblante de Jurandir, o escolhido de sua alma.
Os dois guerreiros travaram a pugna; os tacapes girando nos ares encontravam-se como dois madeiros arrojados pelo remoinho da cachoeira.
Afinal Pirajá, ameaçado pelo bote do adversario, recuou um passo do logar em que se postára. Pela lei do combate estava vencido, e teve de deixar o campo.
Arariboia tomou seu logar; e o combate proseguiu com varia fortuna até Corí que, expelindo o vencedor, manteve-se firme contra todos que vieram disputal-o.
Faltava Jurandir. O estranjeiro avançou gravemente, como convinha a um grande guerreiro da nação araguaia.
Elle queria dar ao vencedor de tantos combates o tempo precizo para descansar.
A mão do guerreiro arrastava pelo chão o tacape, que desdenhava erguer para um combate sem gloria.
Quando Jurandir se achou em face do vencedor, levantou a voz e disse:
—Para merecer Arací, a estrela do dia, Jurandir queria vencer a cem guerreiros, e não combater um guerreiro fatigado.
«Tu empunhas um tacape; toma outro habituado a vencer; elle restituirá a teu braço a força que perdeu. Basta a Jurandir esta mão, para te arrebatar todas as tuas vitorias.»
Disse e arremessou a arma aos pés do adversario.
Corí, pensando que seu rival o atacava, desfechou-lhe o golpe. Mas Jurandir aparou-o na mão firme e arrebatando o tacape que o ameaçava arrancou o guerreiro do chão.
Assim o pinheiro que o tufão arrebata, antes de partir o tronco, desprende a raiz da terra, onde nada o abalava.
Jurandir ficou só no campo. Mas todos os noivos se haviam mostrado valentes guerreiros; talvez nas outras provas saíssem vencedores.
Os muzicos tocaram os borés; e os jovens caçadores trouxeram para o meio do campo a figura da noiva.
Era um grosso tóro de madeira, no qual a mão destra de um pajé entalhára com o dente da cotia a cabeça de uma mulher.
Tres caçadores vergavam com o pezo da carga; e foram precizos dez para trazel-o desde a cabana do pajé até o campo, onde ficou semelhante á uma mulher sentada.
Na vespera o pajé burnira de novo com a folha da sambaiba o tóro de madeira, e o esfregára com a banha do teú, para que elle escorregasse da mão do caçador.
Depois os mancebos guerreiros espalharam pelo campo troncos de arvores cortadas com as ramas e as folhas, e fincaram cercas de estacas entre os barrancos da varzea que ia morrer á marjem do rio.
Itaquê deu sinal, e os guerreiros começaram a nova prova, mais dificil que a primeira.
Era precizo que o guerreiro á disparada levantasse do chão, sem parar, o tóro de madeira; e se defendesse dos rivais que o assaltavam para tomal-o.
Esse jogo era o emblema da ajilidade e robustez que o marido devia possuir para disputar a espoza e protejel-a contra os que ouzassem dezejal-a.
Na primeira corrida foi Jurandir quem mais rapido chegou. Como o condor que rebatendo o vôo leva nas garras a tartaruga adormecida, assim o veloz guerreiro suspendeu a figura da espoza e com ella arremessou-se pela campina.
Os outros o seguiam ardendo em ímpetos de roubar-lhe a preza. Na planicie aberta seria vão intento, porque nenhum corria como o estranjeiro.
Mas Jurandir achava diante de si, para tolher-lhe o passo, as arvores derrubadas, os barrancos profundos e outros obstaculos de propozito acumulados.
Não hezitou, porém, o destemido mancebo. Salvou as corcovas, galgou as caiçaras, e subiu pelos galhos que estrepavam o chão.
Uma vez os guerreiros se aproximaram tanto, que Jurandir sentiu nos cabelos o sopro da respiração ofegante. Em frente erguia-se a alta estacada.
Se tentasse subir carregado como estava, os guerreiros com certeza o alcançariam a tempo de arrancar-lhe a preza.
Então arremessou pelos ares o tóro de madeira, como se fosse o tacape de um joven caçador; e seguiu após.
Sempre vencedor dos assaltos dos rivais, Jurandir percorreu a vasta campina, e foi colocar a figura da espoza no meio do carbeto dos anciãos.
Ali era o termo da correria. O guerreiro que chegava a esse ponto com a sua carga, saía triunfante da prova.
Elle mostrava como arrebataria a espoza do meio dos inimigos, e a defenderia contra seus ataques até recolhel-a em um azilo seguro.
De todos os guerreiros só Corí e Uirassú conseguiram ganhar a prova; mas nenhum com a galhardia de Jurandir.
Corí por vezes foi alcançado, e só á confuzão dos outros deveu escapar-se. Uirassú recuperou a preza já perdida, porque Pirajá, que a havia empolgado, falseou na corrida e tombou.
Os tres vencedores entraram de novo em campo para decidir entre si. O triunfo não se demorou. Jurandir o arrebatou, como o gavião arrebata a preza que disputam duas serpes.
Soaram os borés; e ao som do canto de triunfo entoado pelos nhengaçáras, os chefes e os guerreiros saudaram o vencedor dos vencedores.
Quando voltou o silencio, Ogib, o grande pajé dos tocantins, estava em pé no meio do campo.
Junto delle uma das velhas mãis dos guerreiros segurava o camucim da constancia, que tinha o bojo pintado de vermelho.
O pajé disse:
—Não basta que o guerreiro seja forte e valente, para merecer a espoza.
«É precizo que tenha a constancia do varão, e não se perturbe com o sofrimento.
«É precizo que elle tenha a paciencia do tatú, e suporte sereno as mortificações das mulheres e as importunações das crianças.
«O guerreiro que não tem constancia e paciencia, depressa gasta suas forças.
«O rio que se derrama pela varzea, nunca verá suas marjens cobertas de grandes florestas.
«Assim é o guerreiro que não sabe sofrer, e derrama sua alma em lamentações.
«Nunca elle será pai de uma geração forte e glorioza, nem verá sua cabana povoar-se dos guerreiros de seu sangue.
«Se queres merecer a filha de Itaquê, mostra, Jurandir, que és varão ainda maior do que o famozo guerreiro que todos admiram.»
O grande pajé levantou o tampo do camucim, e descobriu uma abertura, bastante para caber o punho do mais robusto guerreiro.
Jurandir meteu a mão no vazo. O semblante sempre grave do guerreiro cobriu-se de um sorrizo doce como a luz da alvorada; e seus olhos, mais contentes que dois saís, pouzaram no rosto de Arací.
O camucim da constancia continha um formigueiro de saúvas, que o pajé havia fechado ali na ultima lua.
Açuladas pela fome de tantos dias, as formigas vorazes se prepararam para dilacerar a primeira vitima que lhes caísse nas garras.
A dentada da saúva, que anda solta no campo, dóe como uma braza; quando são muitas e com fome, queimam como a fogueira.
Todas as vistas se fitaram no semblante do guerreiro, para espreitar-lhe o minimo gesto de sofrimento.
Mas Jurandir sorria; e seus labios ternos soltaram o canto do amor. De propozito o guerreiro adoçou a voz, para não parecer que disfarçava o gemido com o rumor do grito guerreiro.
Assim cantou elle:
«A dôr é que fortalece o varão, assim como o fogo é que enrija o tronco da crauba, da qual o guerreiro fabríca o arco e o tacape.
«A jussara tem setas agudas: mas Arací, quando atravessa a floresta, colhe o côco de mel, embora a palmeira lhe espinhe a mão.
«O ferrão da saúva dóe mais do que o espinho da jussara; mas Jurandir acha o mel dos labios de Arací mais doce do que o côco da palmeira.
«Quando Jurandir era joven caçador, gostava de tirar a cotia da toca, embora o seu dente agudo lhe sarjasse a carne.
«O ferrão da saúva não dóe como o dente afiado; e Jurandir sabe que o pelo dourado da cotia, não é tão macio como o colo de Arací.
«Jurandir despreza a dôr. Seus olhos estão bebendo o sorrizo da virjem, mais suave que o leite do sapotí. Sua mão está sentindo o roçar dos cabelos da virjem formoza.»
Os anciãos deram sinal para concluir a prova da constancia; mas o guerreiro continuou seu canto de amor.
«A cumarí arde no labio do guerreiro; mas torna mais gostoza a carne do veado assada no moquem.
«O cauim queima a boca do guerreiro; mas derrama a alegria dentro da alma.
«A saúva arde como a cumarí e queima como o cauim; porém torna os beijos de Arací mais saborozos: e o amor de Jurandir espuma como o vinho generozo.
«Arací ha de sorrir de felicidade, quando o filho de seu guerreiro lhe rasgar o seio.
«Jurandir não tem corpo para sofrer, quando o sorrizo de Arací lhe enche a alma de amor.»
Foi precizo quebrar o camucim para que o guerreiro podesse retirar a mão, de inflamada que ficára.
O grande pajé esfregou na pele vermelha, o suco de uma herva delle conhecida; e logo dezapareceu a inchação.
Faltava a ultima prova, chamada a prova da virjem.
As outras serviam para conhecer o valor, a destreza e robustez do guerreiro, assim como a força de seu amor.
Nesta era que a virjem podia mostrar seu agrado pelo vencedor ou livrar-se de um espozo, que não soubera ganhar-lhe o afeto.
Os cantores disseram:
«Tupan deu azas á nambú para que ella escape ás garras do carcará.
«Tupan deu lijeireza á virjem, para que ella fuja do guerreiro que não quer por espozo.
«Mas a nambú, quando ouve o canto do companheiro, espera que elle chegue para fabricar seu ninho.
«A virjem, quando a segue o guerreiro que ella prefere, pensa na cabana do espozo, e corre de vagar para chegar depressa.»
Arací deixou a mãi, e avançou até o meio do campo.
O grande pajé colocou Jurandir na distancia de uma mussurana, que cinje dez vezes a cintura do guerreiro.
Estrela do dia lançou para as espaduas as longas tranças negras que voaram ao sopro da briza.
Arqueou os braços mimozos, vestidos com franjas de penas, como as azas brilhantes do arirama; e quando soou o sinal, desferiu a corrida.
Jurandir seguiu-a. Elle conhecia a velocidade do pé gentil de Arací, que zombava do salto do jaguar.
Nem que podesse alcançal-a, o guerreiro o tentaria; depois de vencedor, queria dever a espoza ao amor della e não a seu esforço.
Disputaria Arací não só a todos os guerreiros das nações, como a todas as nações das florestas; só á vontade da propria virjem não a disputaria, pois a queria rendida, e não vencida.
Mas sua gloria mandava que elle, o chefe de uma grande nação, se mostrasse digno da formoza virjem, que o aceitasse por espozo.
Arací voava pela campina. Ás vezes trançava a corrida como o colibri que adeja de flôr em flôr, outras vezes fujia mais rapida do que a seta emplumada de seu arco.
Quando mostrou a todos que Jurandir não a alcançaria nunca, se ella quizesse fujir-lhe, reclinou a cabeça para esconder o rubor.
Jurandir abriu os braços e recebeu a espoza que se entregava a seu amor.
O guerreiro suspendeu a virjem formoza ao colo; e levou-a á cabana do amor que elle construira á marjem do rio.
As ramas de jasmineiro e do craviri vestiam a cabana, e matizavam o chão de flôres.
Arací foi buscar a rêde nupcial, que ella tecera de penas de tucano e arara; e Jurandir conduziu os utensilios da cabana.
Então o estranjeiro sentou-se com a virjem no terreiro, e antes de passar a soleira da porta, revelou a Arací quem era o guerreiro que ella aceitára por espozo.
—Arací pertence ao grande chefe da nação araguaia. Ella teve a gloria de vencer ao maior guerreiro das florestas. Ella será mãi dos filhos de Ubirajara; e terá por servas as virjens mais belas, filhas dos chefes poderozos.
«A palmeira é formoza quando se cobre de flôres e o vento ajita as suas folhas verdes, que murmuram; mais formoza, porém, é quando as flôres se mudam em frutos, e ella se enfeita com seus cachos vermelhos.
«Arací tambem ficará mais formoza quando de seu sorrizo saírem os frutos do amor, e quando o leite encher seus peitos mimozos, para que ella suspenda ao colo os filhos de Ubirajara.»
Arací ouviu as palavras do guerreiro, palpitante como a corça; e ornou a fronte do espozo com o cocar de plumas vermelhas, que tecera em segredo.
Depois, sentindo os olhos de Ubirajara que bebiam a sua formozura, ella vestiu o aimará mais alvo do que a pena da garça.
A tunica de algodão entretecida de penas de beija-flôr dece das espaduas até á curva da perna, cinjida pela liga da virjindade.
Quando Arací passava entre os guerreiros que admiravam sua beleza, ella não córava, porque sua castidade a vestia, como a flôr á sapucaia.
Mas agora em prezença do guerreiro a quem ama e para quem guardou a sua virjindade, tem pejo, e esconde sua formozura ás vistas de Ubirajara.
—Os olhos do espozo são como o sol, disse o guerreiro: elles queimam a flôr do corpo de Arací.
—Arací tem medo que os olhos do espozo não a achem digna de seu amor; e vestiu seus enfeites.
«Arací queria ser como a jurití, e ter no corpo uma penugem macia, que só a deixasse ver em sua formozura.
«Foi por isso que tua espoza se cobriu com o seu aimará. Os olhos de Ubirajara não lhe queimarão mais a flôr de seu corpo.
O guerreiro respondeu:
—A flôr do igapê é mais formoza quando abre e se tinje de vermelho aos beijos do sol, do que fechada em botão e coberta de folhas verdes.
Ubirajara tomou nos braços a espoza, e pôz o pé na soleira da porta.
Nesse momento soou um clamor; chegaram os guerreiros que vinham chamar o vencedor á prezença de Itaquê.
O carbeto dos anciãos tinha decidido que o vencedor antes de receber a espoza, devia declarar quem era; pois fôra recebido como estranjeiro, e ninguem na taba o conhecia.
Itaquê esperava sentado na cabana, e cercado do carbeto dos anciãos.
Jurandir entrou; Arací ficou na porta, orgulhoza do espozo que a conquistára e da admiração que elle ia inspirar aos guerreiros da sua nação.
Itaquê falou:
—Quando o estranjeiro chegou á cabana de Itaquê, ninguem lhe perguntou quem era e donde vinha. O hospede é senhor.
«Mas agora o estranjeiro saiu vencedor do combate do cazamento e conquistou uma espoza na taba dos tocantins.
«É precizo que elle se faça conhecer; porque a filha de Itaquê, o pai da nação dos tocantins, jámais entrará como espoza na taba onde habite quem tenha ofendido a um só de seus guerreiros.»
O estranjeiro disse:
—Morubixaba, abarés, moacaras e guerreiros da valente nação tocantim, vós tendes prezente o chefe dos chefes da grande nação araguaia.
«Eu sou Ubirajara, o senhor da lança; e o maior guerreiro depois do grande Camacan, cujo sangue me gerou. Se quereis saber porque tomei este nome, ouvi a minha maranduba de guerra.»
Ubirajara contou o seu encontro com Pojucan; o combate em que o venceu, e a festa do triunfo, até o momento em que deixou a taba dos araguaias.
Terminou dizendo que no seguinte sol partiria, para assistir ao combate da morte, como prometera ao prizioneiro.
Ninguem interrompeu a maranduba de guerra. Ubirajara ouviu um gemido; mas não soube que rompera do seio de Arací.
Itaquê arquejou como o rio ao pezo da borrasca.
—Tu és Ubirajara, senhor da lança. Eu sou Itaquê, pai de Pojucan. Tenho em face o matador de meu filho; mas elle é meu hospede!
«Chefe dos araguaias, tu és um joven guerreiro; pergunta a Camacan que te gerou, qual deve ser a dôr do pai, que não póde vingar a morte do filho.»
O grande chefe vergou a cabeça ao peito, como o cedro altaneiro batido pelo tufão.
Pojucan tinha sua taba mais lonje, na outra marjem do rio. Elle partira na ultima lua para rastejar a marcha dos tapuias; e voltava senhor do caminho da guerra quando encontrou Ubirajara.
Seu pai e os guerreiros de sua taba pensavam que elle buscava na floresta o caminho da guerra. Mal sabiam que a essa hora esperava prizioneiro na taba dos araguaias o combate da morte.
Anciãos e guerreiros emudeceram. Todos respeitavam a dôr do pai, e não ouzavam perturbal-a.
Jacamim, a mãi de Pojucan, aproximára-se. O grande chefe ouviu seu gemido.
—A espoza de Itaquê não chora na prezença do matador de seu filho.
Á voz do espozo, a mãi teve força para esconder no seio sua tristeza, e mostrar-se digna do grande chefe dos tocantins.
Ubirajara falou:
—A vingança é a gloria do guerreiro; Tupan a deu aos valentes. Ubirajara venceu Pojucan em combate leal, e aceita o dezafio de Itaquê e de todos os chefes tocantins.
—Tu és meu hospede; emquanto Itaquê brandir o grande arco da nação tocantim, ninguem ofenderá o amigo de Tupan na taba de seus guerreiros.
Dizendo assim, o grande chefe ergueu-se e trocou com o estranjeiro a fumaça da despedida.
—Parte. O sol que viu o estranjeiro na cabana hospedeira o acompanhará amigo; mas com a sombra da noite, mil guerreiros, mais velozes que o nandú, partirão para levar-te a morte.
Ubirajara tomou suas armas e disse:
—O hospede vai deixar tua cabana, chefe dos tocantins; tu verás chegar o guerreiro inimigo.
Itaquê seguiu o estranjeiro até o terreiro; em torno delle se reuniram os abarés, os moacaras e os guerreiros para assistirem á partida.
Ubirajara caminhou com o passo lento e grave até o fim da taba.
Chegado ali, tornou rapido á entrada da cabana, e retrocedeu apagando no chão o vestijio de seus passos.
A nação tocantim o observava imovel.
Por fim o estranjeiro postou-se no centro da ocara e com o formidavel tacape vibrou no largo escudo um golpe que repercutiu pela taba como o estrondo da montanha.
—O hospede passou o lumiar da cabana que o tinha acolhido, e apagou seu rasto na taba dos tocantins.
«Quem está aqui é um guerreiro armado, que piza senhor a taba de seus inimigos.
«Itaquê, morubixaba dos tocantins, Ubirajara, o senhor da lança, grande chefe dos araguaias, te envia a guerra na ponta de sua seta.»
Quando o guerreiro acabou de proferir estas palavras, Itaquê levantou os olhos e viu cravada na figura do tucano, que era o simbolo da nação, a seta de Ubirajara.
Mil arcos se ergueram, mil tacapes brandiram. A voz possante de Itaquê abateu as armas de seus guerreiros.
Disse o morubixaba:
—A lei de hospitalidade é sagrada. A cólera do estranjeiro não deve perturbar a serenidade do varão tocantim.
Depois voltou-se para o inimigo:
—Ubirajara, grande chefe dos araguaias: Itaquê, o pai da poderoza nação tocantim aceita a guerra que tu lhe enviaste. Recebe em teu escudo o penhor do combate.
A corda do grande arco da nação tocantim brandiu, e a seta de Itaquê mordeu o escudo de Ubirajara.
—Vai buscar teus guerreiros e nós combateremos á frente das nações.
—Ubirajara combaterá até que lhe restituas a espoza; assim como elle a conquistou a seus rivais, saberá conquistal-a a ti e á tua nação.
O chefe araguaia partiu. No seio da floresta encontrou Arací que o esperava.
A formoza virjem fôra á cabana do cazamento buscar a rêde nupcial e preparar-se para acompanhar o espozo.
—Ubirajara parte; mas antes de cinco sóes elle estará aqui para te conquistar á tua nação.
—A espoza te acompanha. Teu braço valente já a conquistou; e ella entregou-se a seu senhor. Arací te pertence; deves leval-a.
A virjem tocantim dezejava seguir Ubirajara á taba dos araguaias. Falava em sua alma a ternura da espoza e da irmã.
Partindo, ella unia-se para sempre a seu guerreiro, e esperava que o amor o moveria a salvar Pojucan.
Ubirajara pensou e disse:
—Se Ubirajara tivesse rompido a liga de Arací, ella era sua espoza, e ninguem a arrebataria de seus braços. Mas a virjem tocantim não póde abandonar a cabana onde naceu sem a vontade de seu pai.
Arací suspirou:
—Ubirajara vai deixar a lembrança de Arací nos campos dos tocantins. Jandira o espera na taba dos araguaias, e lhe guarda o seu sorrizo de mel.
—A luz de teus olhos, Arací, estrela do dia, foi buscar Ubirajara na taba dos seus, onde resoavam os cantos de seu triunfo, e o trouxe á tua cabana.
«Quando elle partiu encontrou Jandira, e para que a filha de Majé não o acompanhasse a deu a Pojucan, como espoza do tumulo.»
—O goaná do lago vôa lonje, para banhar-se nas aguas da chuva que alagaram a varzea; mas logo volta ao seu ninho, e não se lembra mais da moita onde dormiu.
—Ubirajara é um guerreiro; elle não aprende com o goaná do lago, que foje do perigo, mas com o gavião, grande chefe dos guerreiros do ar, que nunca mais abandona o rochedo onde assentou a sua oca.
—Se Ubirajara amasse a espoza, tambem não a abandonaria. Os braços de Arací já cinjiram o colo de seu guerreiro. O tronco não desprende de si a baunilha que se entrelaçou em seus galhos.
Ubirajara calcou a mão sobre a cabeça de Arací:
—Itaquê respeitou a lei de hospitalidade no corpo de Ubirajara, Ubirajara não deixará a traição na terra hospedeira.
«Arací não deve querer para espozo um guerreiro menos generozo do que seu pai.»
A virjem emudeceu. Ella sabia que a honra é a primeira lei do guerreiro.
Antes de partir, o chefe consolou a espoza:
—Ubirajara vai pedir ao gavião suas azas para voltar ao seio de Arací. Elle virá á frente de sua nação, conduzido pela luz de teus olhos.
«As outras mulheres são o premio de um combate entre os servos de seu amor. Arací terá essa gloria, que ella será o premio da maior guerra que já viram as florestas.»
O chefe araguaia pôz as mãos nos hombros de Arací; duas vezes uniu o seu ao rosto della, por uma e outra face, para exprimir que nada os podia separar.
Quando o guerreiro dezapareceu na floresta, Arací caminhou para a cabana do espozo, que ficára triste e solitaria.
A virjem fechou a porta; sentou-se na soleira, e cantou sua tristeza.
Dois sóes tinham passado, e viera a noite.
A ultima estrela se apagava no céu, quando Ubirajara pizou os campos dos araguaias.
Sua mão robusta, vibrando a clava, feriu o trocano. A voz da nação araguaia derramou-se ao lonje pelo vale, como o estrondo da montanha que arrebenta.
Com o primeiro raio do sol que subia o pincaro da serra, chegaram á grande taba os chefes das cem tabas araguaias, com todos seus guerreiros, convocados á ocara da nação.
Ubirajara mandou que Pojucan, o prizioneiro, viesse á sua prezença:
—Vê o mar dos meus guerreiros que enche a terra, como as aguas do grande rio quando alaga a varzea. Elles esperam o aceno de Ubirajara para inundarem teus campos.
«A nação tocantim carece neste momento do braço de seus maiores guerreiros; vai levar-lhe o socorro de teu valor, para que se aumente a gloria de Ubirajara, seu vencedor.
«Tu és livre, Pojucan; parte e vôa, que a guerra dos araguaias te segue os passos.»
O semblante do filho de Itaquê ficou sombrio:
—Pojucan é um chefe ilustre; não merece esta dezhonra. Tu lhe prometeste a morte dos bravos. Elle exije o combate.
O chefe araguaia contou a maranduba da hospitalidade:
—Ubirajara não sabia que Pojucan era filho de Itaquê; pois elle nunca pizaria como hospede a cabana de um guerreiro, a quem tivesse decepado um filho. É precizo que recuperes a liberdade para que não se diga que Ubirajara surpreendeu a hospitalidade do grande chefe dos tocantins.
Pojucan não respondeu. Elle reconhecera que a honra de seu vencedor exijia sua volta á taba dos seus.
—Parte. Nós combateremos á frente das nações. Ubirajara pertence a Itaquê; mas depois delle terás a gloria de ser vencido outra vez por este braço.
—Ubirajara é um grande chefe e maior guerreiro. Se Tupan não consente que Pojucan seja vencedor, elle não quer maior gloria do que a de morrer combatendo Ubirajara.
Pojucan foi á cabana de seu vencedor buscar as armas. Ubirajara arrimou-se ao tacape, como o rochedo que se apoia ao tronco do ipê, e meditou.
Quando passou o chefe tocantim que voltava á sua taba, Ubirajara levantou a cabeça e disse:
—Os olhos de Ubirajara te acompanham; tu és irmão de Arací, e vais para junto della. Dize á estrela do dia, que seu espozo está com ella.
O conselho dos abarés se reunira para meditar sobre a guerra. O velho Majé, a quem irritava o dezaparecimento da filha, reparou que sem o voto do carbeto se convocasse a nação.
Veiu um mensajeiro chamar o grande chefe para o carbeto. Ubirajara chegou. Antes que falasse a voz dos anciãos, o guerreiro levantou o arco e disse:
—O conselho dos anciãos governa a taba, e medita nella coizas da paz. Toda a nação respeita sua prudencia e sabedoria.
«Mas emquanto Ubirajara brandir o grande arco dos araguaias, tem a guerra fechada em sua mão.
«Quando elle soltar o grito de combate, a voz que falar da paz emudecerá para sempre, ainda que venha da cabeça do abaré que a lua já embranqueceu.
«Quem não quizer assim, venha arrancar da mão de Ubirajara este arco que elle conquistou por seu valor.»
Os abarés estremeceram. Mas o carbeto meditou, e decidiu que a maior gloria e sabedoria da nação era ter o seu grande arco de guerra na mão de um chefe como Ubirajara.
Camacan tratou com os anciãos ácerca da defeza das tabas; e o grande chefe abriu o caminho da guerra.
Quando Ubirajara desdobrou sua guerra pela marjem do grande rio, elle viu que uma nação tapuia se preparava para assaltar a taba dos tocantins.
O grande chefe tocou a inubia, cuja voz chamava o joven Murinhem, primeiro dos cantores araguaias.
Correu o nhengaçára á prezença do grande chefe, e delle recebeu a mensajem que devia levar ao campo inimigo.
Os cantores eram respeitados por todas as nações das florestas, como os filhos da alegria; pelo que serviam de mensajeiros entre as nações em guerra.
Elles penetravam no campo inimigo, entoando o seu canto de paz; e nenhum guerreiro ouzava ofender aquelle a quem Tupan concedera a fonte da alegria.
Murinhem atravessou rapido a campina e aprezentou-se em frente de Canicran, chefe dos tapuias.
—Ubirajara, o senhor da lança, que empunha o arco da poderoza nação araguaia, te manda, a ti quem quer que sejas, e a todos quantos te obedecem, a sua vontade.
O tapuia rujiu; mas seus olhos viam o mar dos guerreiros araguaias que o cercava, e na frente o grande vulto de Ubirajara, semelhante ao rochedo sombrio e imovel no meio dos borbotões da cachoeira.
Os guerreiros de Canicran só conhecem a vontade do seu chefe; e Canicran afronta a cólera de Tupan e das nações que elle gerou. Dize, mensajeiro, o que pede Ubirajara, ao grande chefe dos tapuias.
—Ubirajara te manda que encostes o tacape da guerra. A nação tocantim aceitou a sua flecha de dezafio, e elle não consente que ninguem combata seu inimigo, antes de o ter vencido.
—Torna e dize ao grande chefe araguaia, que Canicran veiu trazido pela vingança. Pojucan, um dos chefes tocantins penetrou em sua taba e incendiou a cabana do pajé, que foi devorado pelas chamas.
«Ubirajara é um grande chefe araguaia; elle que diga se o pai da nação póde sofrer tão dura afronta. Canicran escuta a voz de sua amizade.»
O chefe tapuia tomou uma de suas flechas; arrancou o farpão e deu ao mensajeiro a haste emplumada com azas negras do anun, que era o emblema guerreiro de sua nação.
—Toma; entrega ao grande chefe araguaia o penhor da aliança.
Murinhem partiu e foi á taba dos tocantins levar igual mensajem. Itaquê escutou o que lhe mandava Ubirajara e respondeu:
—Antes que Itaquê trocasse com Ubirajara a seta do dezafio, Pojucan tinha levado a guerra á taba dos tapuias.
«Canicran veiu trazido pela vingança; e a nação tocantim não póde recuzar o combate. Mas Itaquê sabe honrar seu nome; se Ubirajara quer, elle combaterá juntamente os dois inimigos.»
O mensajeiro tornou ao campo dos araguaias com as respostas dos dois chefes. Ubirajara ouviu e meditou.
—Escuta a vontade de Ubirajara para leval-a aos inimigos. O grande chefe araguaia não roubará a Canicran a gloria da vingança; elle respeita a honra da nação tapuia, mas rejeita sua aliança. Restitue o penhor que recebeste.
«Itaquê póde aceitar o combate que Pojucan foi buscar; Ubirajara não ofende o nome de um guerreiro, ainda mais de um morubixaba, e do pai de Arací.
«O chefe dos araguaias não carece de auxilio para triunfar de seus inimigos: dezeja que a nação tocantim derrote aos tapuias, para ter elle a gloria de vencer ao vencedor.
«Se Itaquê não póde repelir os tapuias, Ubirajara toma a si castigar os barbaros; e depois de varrel-os das florestas, combaterão as duas nações.
«Se os tocantins necessitam de aliados para rezistir ao ímpeto dos araguaias, Ubirajara espera que Itaquê os chame e que elles venham.
«Murinhem falará assim a um e outro chefe; a ambos dirá que a cabana onde estiver Arací fica sob a guarda de Ubirajara; quem nella penetrar como inimigo, sofrerá a morte vil do cobarde.»
O guerreiro deixou a voz do chefe e falou com a voz de espozo:
—A Arací levarás o canto de amor de Ubirajara. Tu lhe dirás que arme a rêde nupcial, e não deixe nossa cabana, emquanto Ubirajara não a fôr buscar.
«Conta-lhe tambem que o canitar que ella teceu, ainda não deixou a cabeça de seu guerreiro e ha de acompanhal-o sempre.»