A um lado da imensa campina move-se a multidão dos guerreiros tocantins, do outro lado a multidão dos guerreiros tapuias.
As duas nações se estendem como dois lagos formados pelas grandes chuvas, que se transformam em rios e atravessam o vale.
De um e outro campo levantou-se a pocema guerreira; e os dois povos arremetendo travaram a batalha.
Itaquê achou-se em frente de Canicran. Ambos se buscavam; dez vezes tinham combatido; vencedores ambos, nenhum fôra vencido.
Emquanto viverem os formidaveis guerreiros, não é possivel quebrar a flecha da paz entre as duas nações.
Era precizo que um delles morresse, para que o vencedor encostasse o tacape do combate, e désse repouzo á sua nação para reparar os estragos da guerra.
Quando os dois chefes se encontraram, os guerreiros de um e outro campo ficaram imoveis, contemplando o pavorozo combate.
Ubirajara, de lonje, apoiado em seu grande arco, admirava os dois guerreiros, e pensava qual não seria o seu orgulho em vencel-os a ambos.
Durára a peleja o espaço de uma sombra. Em torno dos chefes lastravam o chão os tacapes e escudos que se tinham espedaçado aos golpes de cada um.
Imoveis no mesmo logar, só ajitavam a cabeça e os braços, semelhantes a dois condores que, de garras prezas aos pincaros do rochedo, se dilaceram com o bico adunco.
Um rujido espantoso atroou pela campina, que estremeceu a batalha e rolou pelas profundezas da floresta.
Paan, a seta, era o ultimo filho de Canicran. Ainda corumim, pelejava ao lado do irmão, o guerreiro Creban, cujo hombro mal alcançava com o braço.
Elle tinha nos olhos a vista da gaivota, e nas setas de seu arco, feitas de espinhos de ouriço, a velocidade e a certeza do vôo do guanumbí.
Quando caçava na floresta, divertia-se em matar as motuças traspassando-as com suas flechas, que voavam mais rapidas e certeiras que as vespas venenozas.
Paan saltára sobre os hombros do guerreiro Creban para assistir ao combate. Admirando o valor de Canicran, teve orgulho e inveja do pai.
Itaquê desfechára tão formidavel golpe, que o tacape e escudo de Canicran se espedaçaram em suas mãos, deixando-o á mercê do inimigo.
O chefe tocantim arrojou-se, e já sua mão decia sobre a espadua do tapuia para fazel-o prizioneiro.
O arco de Paan sibilou duas vezes. Os olhos de Itaquê, os olhos do varão forte que nunca humedecera uma lagrima, choraram sangue.
As setas do corumim tinham vazado as pupilas do fero guerreiro cuja vista era raio. Assim a jandaia rôe o grelo do procero coqueiro.
Foi então que Itaquê soltou o rujido pavorozo que fez tremer a terra. Mas o grito de espanto sossobrou no peito dos guerreiros, e rompeu em um grito de horror.
Itaquê estendera os braços, hirtos como duas garras de condor.
A mão direita abarcou o penacho e a cabeleira de Canicran, a esquerda entrou pela boca do tapuia e travou-lhe o queixo.
Separaram-se os braços do guerreiro cégo, e a cabeça de Canicran abriu-se como um côco que se fende pelo meio.
Ajitando no ar o craneo sangrento como um maracá de guerra, Itaquê arrojou-se contra os inimigos, buscando a morte que lhe fujia.
Quando o sol entrou, não havia na campina a sombra de um tapuia.
O velho heróe voltou á cabana conduzido por Pojucan:
—Tupan viu que Itaquê não podia ser vencido pela mão dos homens, e quiz vencel-o elle mesmo pela mão de um menino.
Quando Ubirajara viu o exito do combate, lamentou que dos dois grandes guerreiros não restasse nenhum, para que elle o vencesse.
Seus olhos descobriram Paan que fujia no meio dos destroços de sua nação. Ergueu a mão, mas não chegou a retezar a seta.
A aguia não persegue a andorinha. Era indigno de um guerreiro, quanto mais de um chefe, empregar seu valor contra um menino.
O chefe chamou á sua prezença Tubim, um dos jovens caçadores que tinham acompanhado a guerra para prover o alimento.
—Tubim tem as azas da abelha; se elle alcançar o corumim tapuia que eu estou olhando, Ubirajara lhe dará o nome de Abeguar.
O joven caçador seguiu o olhar do chefe, e sumiu-se num turbilhão de poeira. Quando os vagalumes começaram a luzir no escuro da mata, elle estava de volta no campo dos araguaias e trazia o corumim fechado nos braços.
Nessa mesma noite Tubim recebeu o nome de Abeguar, senhor do vôo, em honra da façanha que tinha realizado.
Os cantores entoaram seu louvor; e o joven caçador teve a gloria de receber os aplauzos dos moacaras de sua nação, e de um chefe como Ubirajara.
Ao raiar da manhã, Murinhem foi á taba dos tocantins, acompanhado por vinte guerreiros que conduziam o corumim.
Quando chegou em frente á cabana do grande chefe, o cantor viu Itaquê no terreiro sentado em uma sapopema.
O guerreiro fitava os olhos no céu, onde o calor lhe dizia que estava o sol. Mas não encontrava a luz que para sempre o abandonára.
Então o velho guerreiro abaixava os olhos para terra, como se buscasse o logar do repouzo.
Quando soaram lonje os passos dos estranjeiros, o chefe alongou a fronte para ver pelo ouvido o que os olhos lhe recuzavam.
Murinhem chegou e disse:
—Ubirajara envia a Itaquê o resto da vingança. Este é Paan, o filho de Canicran. Elle te roubou a vista; mas não salvou o pai de tua mão terrivel. Faze do corumim tapuia um mancebo tocantim; e elle será a luz de teus olhos e caminhará na frente do grande chefe para abrir-lhe o caminho da guerra.
Paan avançou:
—O filho de Canicran jámais será escravo; naceu tapuia e tapuia morrerá, como o grande chefe que o gerou. Emquanto o ouriço viver nas florestas, elle roubará seus espinhos para furar os olhos dos tucanos.
Itaquê pouzou a palma da mão na cabeça do menino:
—O corumim que ama seu pai é filho de Itaquê. Tu és livre, Paan; vai caçar o ouriço. Quando fôres um guerreiro, acharás cem mancebos do sangue de Itaquê para castigarem tua audacia.
O chefe voltou-se para o cantor:
—Tupan tirou a luz dos olhos de Itaquê; mas aumentou a força de seu braço. Ubirajara terá para combatel-o um inimigo digno de seu valor.
Murinhem tornou ao chefe araguaia com esta resposta.
Quando partia o cantor, chegaram á cabana de Itaquê os abarés da nação tocantim.
Os anciãos sentaram-se em torno do guerreiro cégo; e bebendo a fumaça da sabedoria, formaram o carbeto.
Falou Guaribú:
—O grande arco da nação carece de uma mão robusta para brandir sua corda, e de um olho seguro para dirijir sua seta. Itaquê é o maior guerreiro das florestas; seu nome faz tremer aos mais valentes dos inimigos; seu braço fere como o raio. Mas a luz fujiu de seus olhos e elle não póde mais abrir o caminho da guerra.
O velho chefe ergueu-se com o passo trôpego. Alcançando o grande arco dos tocantins abraçou-se com elle e falou-lhe.
—Quando Itaquê te recebeu da mão do grande Javarí elle pensava que só a morte o separaria de ti, para transmitir-te a um guerreiro de seu sangue. Mas Itaquê ficou na terra, como um tronco levado pela corrente, que não sabe onde vai.
Um esguicho de sangue saltou dos buracos, onde o velho tivera os olhos. Era a lagrima que a desgraça lhe deixára.
Os abarés meditaram. Guaribú falou de novo:
—O grande arco da nação que tu recebeste do grande Javarí, teu pai, não te abandonará. Elle fica em tua mão invencivel; haverá outro arco na mão do mais valente guerreiro, que abrirá o caminho da guerra. Mas emquanto Itaquê viver, sua voz governará a nação que elle defendeu com seu braço.
O semblante do velho chefe cobriu-se de um sorrizo como o negro rochedo sobre o qual desliza um raio do luar.
—Pais da sabedoria, abarés, olhai aquelle jatobá que se levanta no meio da campina, e que eu só posso ver agora na sombra de minha alma.
«Elle tem muitas raizes que o sustentam nos ares; tem muitos galhos que o cercam e estendem ao lonje a sua rama. Mas o tronco é um só.
«As grossas raizes são os abarés que sustentam o chefe com o seu conselho. Os galhos fortes são os moacaras que cercam o chefe e geram a multidão de guerreiros mais numeroza que as folhas das arvores. O tronco é o chefe da nação; se elle se dividir, o jatobá não subirá ás nuvens nem terá forças para rezistir ao tufão.
«O logar de Itaquê é no conselho. O ultimo dente de seu colar de guerra foi o que elle arrancou da boca de Canicran. Convocai os guerreiros, e o que fôr mais forte e mais valente empunhe o grande arco da nação.
O trocano chamou a nação ao carbeto. Vieram os moacaras, conduzindo suas tribus.
O velho Itaquê contava pelos passos os guerreiros que chegavam. O grande arco da nação, que elle segurava direito, parecia um dos esteios da cabana, e tinha a corda tão grossa como a da rêde do chefe.
Os mais famozos guerreiros tocantins se aprezentaram para disputar o grande arco; muitos conseguiram vergal-o; mas a seta não partiu.
Itaquê escutava com o ouvido atento: o som delle conhecido não feriu os ares.
—Onde está Pojucan? perguntou o velho chefe.
O valente guerreiro do sangue de Itaquê estava de parte, grave e taciturno. Algum motivo o separava do arco chefe, que elle devia ser o primeiro a disputar.
—Teu filho te escuta, respondeu.
—Empunha o arco chefe; se ha um guerreiro tocantim que possa conquistal-o esse deve ser do sangue de Itaquê.
Pojucan recebeu o arco. Fincando nelle os pés, o guerreiro arrojou-se para traz como a giboia quando se enrista para armar o bote.
A seta partiu, e foi cravar a cabeça de um chefe tapuia, fincada na estaca, á entrada da taba.
Itaquê curvára a cabeça. Elle ouviu brandir a arma; não era, porém, aquelle o zunido da corda do arco, quando o vergava sua mão possante.
Pojucan depôz o arco chefe aos pés de Itaquê e disse:
—Pojucan mostrou que em suas veias corre o sangue generozo de Itaquê. Mas o grande arco peza em sua mão. Só ha um guerreiro na terra que o possa brandir como Itaquê: e esse não cinje a fronte com o cocar das penas de tucano.
—Pojucan negou a Itaquê esta ultima consolação. O arco invencivel do grande Tocantim que foi o pai da nação, vai sair de sua geração. Tocantim o transmitiu a seu filho Javarí, que me gerou; mas eu não sube gerar com seu sangue um guerreiro digno delles.
Os tapuias voltaram; e com elles vinha Agniná á frente de sua nação, para vingar a morte de Canicran, seu irmão.
Era grande a multidão dos guerreiros; e maior a tornavam a sanha da vingança e a fama do chefe que a conduzia.
Não eram tantos os tocantins; mas bastaria seu valor para igualal-os, se não lhes faltasse a cabeça, que reje o corpo.
A poderoza nação estava como o bando de caitetús que perdeu o pai, e desgarra-se pela floresta, correndo sem rumo.
Os mais valentes moacaras, chefes das tribus, esperavam pelo grande chefe da nação para abrir-lhes o caminho da guerra.
Os abarés meditaram. Elles não podiam inventar um guerreiro capaz de suceder a Itaquê; mas não se rezignavam a abater a gloria da nação, trocando o arco invencivel do grande Tocantim por outro arco mais leve, que Pojucan manejasse.
Tambem Pojucan anunciára, que não podendo brandir o arco de Itaquê, jámais empunharia outro arco chefe, menos gloriozo do que o do grande Tocantim.
Abarés, chefes, moacaras, guerreiros, toda a nação se reuniu em torno do heróe cégo.
Daquelle que durante tantas luas defendera a nação com a força de seu braço, e a protejera com o terror de seu nome, esperavam ainda a salvação.
O velho ouviu a voz dos abarés, a voz dos chefes, a voz dos moacaras, a voz dos guerreiros, e disse:
—Itaquê ainda póde combater e morrer por sua nação; mas sem a luz do céu, elle não póde mais abrir a seus filhos o caminho da vitoria.
«O braço de Itaquê defendeu sempre a nação tocantim; quer ella ser defendida agora pela palavra daquelle, que não tem mais para dar-lhe senão a experiencia de sua velhice?
«Pensem os abarés, os chefes, os moacaras e os guerreiros.»
Guaribú respondeu:
—A nação pensou. Fala e todos obedecerão á tua palavra, como obedeciam ao braço de Itaquê.
—A voz do coração diz ao neto de Tocantim, que a gloria da nação que elle gerou, não se póde extinguir. O sangue de Itaquê, passando pelo seio de Arací, se unirá a outro sangue generozo para brotar maior e mais ilustre.
«Assim a terra onde naceu uma floresta de acajás recebe o limo do rio e gera nova floresta mais frondoza que a outra.
«Jacamim, chama Arací, a filha de nossa velhice. E vós, abarés, chefes, moacaras e guerreiros, seguí-me.»
O velho heróe atravessou a taba guiado por Arací.
A nação o seguia em silencio.
Quando o guerreiro cégo passava com a mão no hombro da virjem formoza que dirijia o seu passo incerto, os guerreiros lembravam-se do tronco já morto que a rama do maracujá ainda sustenta de pé junto ao penedo.
Os cantores iam adiante, e entoavam um canto de paz.
Um mensajeiro de Itaquê o precedera no campo dos araguaias.
Ubirajara, cercado de seus abarés, chefes, moacaras e guerreiros, veiu ao encontro do morubixaba dos tocantins.
A alma do grande chefe araguaia encheu-se da alegria de ver Arací; mas elle retirou os olhos da espoza, para que o amor não perturbasse a serenidade do varão.
—Ubirajara está em face de Itaquê; para combatel-o se trouxe a guerra, para abraçal-o se trouxe a paz.
—Nunca Itaquê pediu a paz ao inimigo que lhe trouxe a guerra, antes de o vencer; nem teria vivido tanto para cometer essa fraqueza. Elle vem trazer-te a vitoria para que tu a repartas com seu povo.
O velho heróe avançou o passo:
—Chefe dos araguaias, tu levaste a guerra á taba dos tocantins para conquistar Arací, a filha de minha velhice.
«Por teu heroismo, e ainda mais pela nobreza com que restituiste a liberdade a Pojucan, tu merecias uma espoza do sangue tocantim.
«Mas desde que tu ameaçaste tomal-a pela força de teu braço, Itaquê não podia mais conceder-te a filha de sua velhice, senão depois que abatesse teu orgulho.
«Elle preparava-se para te combater, e á tua nação; mas fujiu-lhe dos olhos a luz que dirije a seta da guerra; e não ha entre seus guerreiros um que possa brandir o arco do grande Tocantim.»
Quando pronunciou estas palavras, a voz do velho guerreiro sossobrou-lhe no peito:
—O arco de Itaquê é como o gavião que perdeu as azas e não póde mais levar a morte ao inimigo. As andorinhas zombam de suas garras.
«Empunha o arco de Itaquê, chefe dos araguaias, e tu conquistarás por teu heroismo uma espoza e uma nação.
«Á espoza farás mãi de cem guerreiros como Itaquê; e á nação conservarás a gloria que ella conquistou quando o filho de Javarí a conduzia á guerra.
«Tupan dará a teu braço esta força para que o sangue de Itaquê brote mais vigorozo e os netos de Tocantim dominem as florestas.»
Ubirajara sorriu:
—Chefe dos tocantins, teus olhos não podem ver o grande arco da nação araguaia; mas pergunta á tua mão, se o arco que Camacan brandia invencivel e agora empunha Ubirajara, cede ao arco de Itaquê.
O velho heróe palpou o arco chefe dos araguaias e vergou-lhe a ponta ao hombro, como se a haste fosse de taquarí.
Ubirajara travou do arco de Itaquê e desdenhando fincal-o no chão, elevou-o acima da fronte. A flecha ornada de penas de tucano partiu.
O semblante de Itaquê remoçou, ouvindo o zunido que lhe recordava o tempo de seu vigor. Era assim que elle brandia o arco outr'ora, quando as luas creciam aumentando a força de seu braço.
O velho inclinou a fronte para escutar o sibilo de sua flecha que talhava o azul do céu. Os cantores não tinham para elle mais doce harmonia do que essa.
Ubirajara largou o arco de Itaquê para tomar o arco de Camacan. A flecha araguaia tambem partiu e foi atravessar nos ares a outra que tornava á terra.
As duas setas deceram trespassadas uma pela outra como os braços do guerreiro quando se cruzam ao peito para exprimir a amizade.
Ubirajara apanhou-as no ar:
—Este é o emblema da união. Ubirajara fará a nação tocantim tão poderoza como a nação araguaia. Ambas serão irmãs na gloria e formarão uma só, que ha de ser a grande nação de Ubirajara, senhora dos rios, montes e florestas.
O chefe dos chefes ordenou que tres guerreiros araguaias e tres guerreiros tocantins, ligassem com o fio do crautá as hastes dos dois arcos.
Quando o arco de Camacan e o arco de Itaquê não fizeram mais que um, Ubirajara o empunhou na mão possante e mostrou-o ás nações:
—Abarés, chefes, moacaras e guerreiros de minhas nações, aqui está o arco de Ubirajara, o chefe dos grandes chefes. Suas flechas são gemeas, como as duas nações, e voam juntas.
Ambas as cordas brandiram a um tempo. A seta araguaia e a seta tocantim partiram de novo como duas aguias que par a par remontam ás nuvens.
Quando se calou a pocema do triunfo, Ubirajara caminhou para a filha de Itaquê:
—Arací, estrela do dia, tu pertences a Ubirajara que te conquistou pela força de seu braço. Agora que é senhor, elle espera tua vontade.
A formoza virjem rompeu a liga vermelha que lhe cinjia a perna, e atou-a ao pulso de seu guerreiro.
Ubirajara tomou a espoza aos hombros e levou-a á cabana do cazamento.
O jasmineiro semeava de flôres perfumadas a rêde do amor.
O outro sol rompia, quando os tapuias estenderam pela campina a multidão de seus guerreiros.
Na frente assomava Agniná, a montanha dos guerreiros, ainda mais feroz do que o irmão, o terrivel Canicran.
De um lado e do outro seguiam-se os chefes, cada um á frente de seus guerreiros.
Ubirajara escolheu mil guerreiros araguaias e mil guerreiros tocantins, com que saiu ao encontro dos tapuias.
Depois que desdobrou sua batalha pela campina, o chefe dos chefes caminhou só para o inimigo.
Quando chegava a meio do campo, os tapuias levantaram a pocema de guerra, que atroou os ares, como o estrépito da cachoeira.
Um turbilhão de setas crivou o longo escudo do heróe, que ficou semelhante ao grosso tronco da jussára, erriçado de espinhos.
Ubirajara embraçou o escudo na altura do hombro, e com o pé brandiu sete vezes a corda do grande arco gemeo.
As setas vermelhas e amarelas subiram direitas ao céu e se perderam nas nuvens.
Quando voltaram, Agniná e os chefes que obedeciam a seu arco, tinham cada um fincado na cabeça o dezafio do formidavel guerreiro.
Enfurecidos mais pelo insulto, do que pela dôr, arremessaram-se contra o inimigo que os esperava coberto com seu vasto escudo.
Agniná era o primeiro na corrida, e o primeiro na sanha. Após elle vinham os outros, a dois e dois, lutando na rapidez.
Quando o espozo de Arací viu que elles se estendiam pela campina, como dois ribeiros que se aproximam para confundir suas aguas, o heróe empunhou a lança de duas pontas e soltou seu grito de guerra que era como o bramir do jaguar, senhor da floresta.
Seu pé devorou o espaço; e a lança de duas pontas girou em sua mão, como a serpente que se enrosca nos ares silvando.
Caiu Agniná do primeiro bote; após elle caíram aos dois os chefes tapuias, como caem os juncos talhados pelo dente afiado da capivara.
Então o heróe soltou seu grito de triunfo, que era como o rujido do vento no dezerto:
—Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro invencivel que tem por arma uma serpente.
«Eu sou Ubirajara, o senhor das nações, o chefe dos chefes, que varre a terra, como o vento do dezerto.»
O heróe estendeu a vista pela campina, e não descobriu mais o inimigo, que se sumia na poeira.
Ubirajara lançou-lhe seus guerreiros, que tinham fome de vingança; porém o terror de sua lança dava azas aos fujitivos.
Desde esse dia nunca mais um tapuia pizou as marjens do grande rio.
Ubirajara voltou á cabana, onde o esperava Arací.
A espoza despiu as armas de seu guerreiro, enxugou-lhe o corpo com o macio cotão da monguba, e cobriu-o do balsamo fragrante da embaiba.
Encheu depois de generozo cauim a taça vermelha feita do côco da sapucaia; e aplacou a sêde do combate.
Emquanto nas grandes tabas se preparava a festa do triunfo e o heróe repouzava na rêde, Arací foi ao terreiro, e voltou conduzindo Jandira pela mão.
—Arací, tua espoza, é irmã de Jandira. Ubirajara é o chefe dos chefes, senhor do arco das duas nações. Elle deve repartir seu amor por ellas, como repartiu sua força.
A virjem araguaia pôz no guerreiro seus olhos de corça.
—Jandira é serva de tua espoza; seu amor a obrigou a querer o que tu queres. Ella ficará em tua cabana para ensinar a tuas filhas como uma virjem araguaia ama seu guerreiro.
Ubirajara cinjiu ao peito com um e outro braço, a espoza e a virjem.
—Arací é a espoza do chefe tocantim; Jandira será a espoza do chefe araguaia; ambas serão as mãis dos filhos de Ubirajara, o chefe dos chefes, e o senhor das florestas.
As duas nações, dos araguaias e dos tocantins, formaram a grande nação dos Ubirajaras, que tomou o nome do heróe.
Foi esta poderoza nação que dominou o dezerto.
Mais tarde, quando vieram os caramurús, guerreiros do mar, ella campeava ainda nas marjens do grande rio.
Este livro é irmão de Iracema.
Chamei-lhe de lenda como ao outro. Nenhum titulo responde melhor pela propriedade, como pela modestia, ás tradições da patria indijena.
Quem por desfastio percorrer estas pajinas, se não tiver estudado com alma brazileira o berço de nossa nacionalidade, ha de estranhar entre outras coizas a magnanimidade que resumbra no drama selvajem e lhe fórma o vigorozo relevo.
Como admitir que barbaros, quais nos pintaram os indijenas, brutos e canibais, antes féras que homens, fossem sucetiveis desses brios nativos que realçam a dignidade do rei da creação?
Os historiadores, cronistas e viajantes da primeira época, se não de todo o periodo colonial, devem ser lidos á luz de uma critica severa. É indispensavel sobretudo escoimar os fatos comprovados das fabulas a que serviam de mote, e das apreciações a que os sujeitavam espiritos acanhados, por demais embuidos de uma intolerancia rispida.
Homens cultos, filhos de uma sociedade velha e curtida por longo trato de seculos, queriam esses forasteiros achar nos indijenas de um mundo novo e segregado da civilização universal uma perfeita conformidade de idéas e costumes. Não se lembravam, ou não sabiam, que elles mesmos provinham de barbaros ainda mais ferozes e grosseiros do que os selvajens americanos.
Desta prevenção não escaparam muitas vezes espiritos graves e bastante ilustrados para escreverem a historia sob um ponto de vista mais largo e filozofico.
Entre muitos citarei um exemplo. Barloeus referindo as justas que se faziam entre os selvajens para obterem em premio de seu valor a virjem mais formoza, não se esqueceu de acrecentar este comento—finis spectantium est voluptas.
Narrados com este pessimismo, as cenas da cavalaria, os torneios e justas não passariam de manejos inspirados pela sensualidade. Nada rezistiria á censura ou ao ridiculo.
Por igual teor, senão mais grosseiras, são as apreciações de outros escritores ácerca dos costumes indijenas. As coizas mais poeticas, os traços mais generozos e cavalheirescos do carater dos selvajens, os sentimentos mais nobres desses filhos da natureza, são deturpados por uma linguajem impropria, quando não acontece lançarem á conta dos indijenas as extravagancias de uma imajinação desbragada.
Releva ainda notar, que duas classes de homens forneciam informações ácerca dos indijenas: a dos missionarios e a dos aventureiros. Em luta uma com outra, ambas se achavam de acôrdo nesse ponto, de figurarem os selvajens como féras humanas. Os missionarios encareciam assim a importancia de sua catequese; os aventureiros buscavam justificar-se da crueldade com que tratavam os indios.
Faço estas advertencias para que, ao lerem as palavras textuais dos cronistas citados nas notas seguintes, não se deixem impressionar por suas apreciações muitas vezes ridiculas. É indispensavel escoimar o fato dos comentos de que vem acompanhado, para fazer uma idéa exata dos costumes e indole dos selvajens.
Grande rio.—Os tupís chamavam assim ao maior rio que existia na rejião por elles habitada: e daí rezultou ficarem tantos rios com essa dezignação na lingua orijinal ou traduzida.
O rio grande de que se trata nesta lenda é o Tocantins, em cujas marjens se passa a ação dramatica.
Jaguarê.—Nome composto de Jaguar, a onça e o sufixo ê que na lingua tupí reforça emfaticamente a palavra a que se liga. Jaguarê, significa, pois, a onça, verdadeiramente onça, digna do nome, por sua força, corajem e ferocidade.
Uiraçaba.—Nome que davam os tupís á aljava, de uira—seta e aba—dezinencia exprimindo o logar, modo e instrumento; literalmente «o que tem a seta.»
Os selvajens a faziam, ou do tubo de taquarussú, ou da casca de certas arvores, guarnecida de fios embebidos de rezina, o que as tornava muito rezistentes.
Nome de guerra.—«Mal nacia a criança logo se lhe punha nome. Hans Stade achou-se prezente numa dessas ocaziões. Convocou o pai aos mais proximos vizinhos de dormitorio, pedindo-lhes para o filho um nome viril e terrivel; não lhe agradando nenhum dos propostos, declarou que ia escolher o de um de seus quatro antepassados, o que daria fortuna ao rapaz, e repetindo-o em voz alta, fixou a escolha. Ao chegar á idade de ir á guerra, dava-se outro nome ao mancebo que aos seus titulos ia acrecentando um por inimigo que trazia para caza a ser imolado. Tambem a mulher tomava adicional apelido quando o marido dava uma festa antropofaga. De objetos viziveis se tirava o cognome, determinando o orgulho ou a ferocidade a escolha. O epiteto grande frequentemente se compunha com o nome. Southey, H. do Brazil, tom. 1o, cap. 8o, paj. 336.
Póde-se ler tambem a este respeito o que diz Gabriel Soares, cit. no cap. 160, ácerca do nome que tomava o tupinambá quando matava o contrario, e no cap. 164 onde acrecenta: «Acontece muitas vezes cativar um tupinambá a um contrario na guerra, onde o não quiz matar para o trazer cativo para sua aldêa, onde o faz engordar com as ceremonias já declaradas para o deixar matar a seu filho quando é moço e não tem idade para ir á guerra, o qual o mata em terreiro, como fica dito, com as mesmas ceremonias; mas atam as mãos ao que ha de padecer, para com isso o filho tomar nome novo e ficar armado cavaleiro e mui estimado de todos.»
A este trecho de Gabriel Soares é precizo dar o devido desconto ácerca da engorda do cativo, e do papel insignificante que reprezenta o mancebo. Devemos crer que entre gente, cuja alma era a guerra, o titulo de guerreiro não se conferia ao mancebo que não fizesse prova real de seu esforço e corajem.
Ives d'Evreux, cap. XXI, trata minuciozamente da graduação que a idade estabelecia entre os tupís. Havia para os guerreiros seis classes: 1o das crianças até dois anos, mitanga, que significa chupador ou mamador; 2o curumim mirim, isto é o pequeno que balbucia; compreendia os meninos até sete anos; 3o curumim simplesmente, correspondia á segunda infancia de 7 a 15 anos; 4o curumim-guassú, era a adolecencia, em que os rapazes se empregavam na caça e na pesca; 5o aba—o homem, indicava o principio da virilidade, o qual logo que se cazava tornava-se apiaba, o varão, ou como diz d'Evreux, mendarama, o cazado; 6o tijubaê, o ancião ou veterano, o homem de experiencia, guerreiro consumado.
Jandira.—O nome é jandaíra, de uma abelha que fabrica excelente mel; Jandira é uma contração mais eufonica daquelle nome, que tambem por sua vez é contração de Jemonhaíra, que fabrica mel.
Aratuba.—Palavra que se compõe de ara—o sol e tuba—infinito do verbo ajub—estar deitado. Vem a ser a significação leito do sol, aplicada pelos indios á montanha do poente, onde o sol se esconde no seu ocazo.
Lança.—O uzo da lança não era comum aos selvajens, que empregavam de preferencia o arco, o tacape, a macana, e a igarapema, especie de remo, que fazia as vezes de partazana. Outros escrevem iverapema; mas o nome é aquelle de igara-pema, espada da canôa; basta ver-lhe a fórma para compreender seu duplo destino.
Craúba.-É a mesma carabiuba dos indios, assim contraída pelo uzo dos nossos sertanejos. Madeira roxa, excessivamente rija, que não cede ao páu-ferro no pezo e na dureza.
A liga vermelha.—Era este um dos mais curiozos e interessantes ritos dos tupís.
Quando a menina atinjia a puberdade, depois de sua purificação, da qual tratam os autores, especialmente Orbigny e Thevet, a mãi punha-lhe nas pernas, abaixo do joelho, uma liga de fio de algodão tinta de vermelho, de tres dedos de largura, e tecida no proprio logar de modo que uma vez fechada, não era mais possivel tiral-a. Vide Gabriel Soares, cap. 153.
A essa liga chamavam tapacora, e não a podia trazer senão a virjem, de modo que se acontecesse quebrar a castidade havia de rompel-a, para que todos conhecessem sua falta. Eis como Gabriel Soares se exprime a este respeito no cap. 152: «E como o marido lhe leva a flôr, é obrigada a noiva a quebrar estes fios para que seja notorio que é feita dona; e ainda que uma moça destas seja deflorada por quem não seja seu marido, ainda que seja em segredo, ha de romper os fios de sua virjindade, que de outra maneira cuidará que a leva o diabo, os quais dezastres lhes acontecem muitas vezes, etc.»
Este simples traço é bastante para dar uma idéa da moralidade dos tupís, e vingal-a contra os embustes dos cronistas, que por não compreenderem seus costumes, foram-lhes emprestando gratuitamente, quanto inventavam exploradores mal informados e prevenidos.
Em que sociedade civilizada se observa tão profundo respeito pela união conjugal, a ponto de não consentir-se que a mulher decaída conserve o segredo de sua falta, e iluda o homem que a busque para espoza?
A rezignação com que a moça culpada rompia a liga da virjindade, e fazia confissão publica de seu erro, é um exemplo da lealdade do carater tupí e da veneração que inspiravam os ritos de sua relijião.
Nega Southey, cap. VIII, que a liga vermelha e o respeito que ella inspirava indicassem guarda da castidade, porquanto a castidade como a caridade é virtude da civilização; do mesmo modo considera o amor uma delicadeza da vida civilizada. São paradoxos de escritor. Sentimentos naturais á creatura humana, dezenvolvem-se nella em qualquer estado e condições.
Não é possivel negar a castidade da mulher tupí; além desse recato da virjindade, prova-a de modo cabal a continencia que homens e mulheres guardavam em certas circumstancias. Assim, nenhum homem tinha relações com a mulher inubil, nem ella o consentia; o proprio marido não violava essa lei, embora tivesse a espoza em seu poder. Gabriel Soares cit. Durante a gravidez e a amamentação interrompia-se absolutamente o ajuntamento conjugal. (Barlœus 2a edic.)
Onde está a sociedade civilizada, que observe leis tão rigorozas, e refreie os instintos sensuais com a severidade uzada pelos tupís?
Poderiamos fazer muitas outras observações que rezervamos para um estudo especial ácerca dos selvajens brazileiros.
Tocantim.—Compõe-se de tocano e tim; literalmente o nariz, o rostro do tucano. Nome que tomou um guerreiro por trazer na cabeça o despojo de um tucano com o grande bico da ave; e que transmitido a uma nação selvajem, ficou dezignando o rio a cujas marjens vivia.
Taarí.—Rio que despeja no Tocantins, pouco depois da confluencia do Araguaia. Indica o logar da cena.
Araguaia.—O nome é araguara, de ara e guara, literalmente, os guerreiros das araras, porque uzavam nos seus ornatos das penas encarnadas daquellas aves. Conservei a versão que ficou no nome do rio.
Arací.—Esta palavra tupí compõe-se de ara, dia, e ceí ou cejí, grande estrela. Este ultimo nome davam os indijenas ás pleiades, que lhes serviam para contar os anos.
Cem dos melhores guerreiros.—Nesta e outras frazes identicas, os numerais cem ou mil não reprezentam algarismo exato, que não os tinham os tupís para exprimir numero tão elevado. Traduzem apenas esses termos a dezinencia tiba, com que os tupís dezignavam cópia e multidão.
Canitar.—Enfeite de cabeça. Adotei esta dezignação empregada pelos autores sob a autoridade de Hans Stade por me parecer mais eufonica. A exata lição pede acanga atara.
As duas nações não estão em guerra.—As nações tupís não viviam em um estado perene de guerra, como propalaram alguns escritores. A guerra era frequente; mas não constante. As nações faziam a paz e nella se mantinham até que sobrevinha alguma cauza de rompimento. Então não começavam as hostilidades senão depois de anunciada a guerra ao inimigo, o que se fazia lançando-lhe uma flecha na taba, ou levando-lhe um guerreiro o dezafio.
É uma prova do carater leal dos selvajens. Foi depois da colonização, que os portuguezes, assaltando-os como a feras, e caçando-os a dente de cão, ensinaram-lhes a traição que elles não conheciam.
Pojucan.—Contração de uma fraze tupica.I-pojuca;—significa: eu mato gente. Essas contrações não são arbitrarias; ellas eram da indole da lingua e conformes ao seu sistema de aglutinação. Todas as vezes que os indijenas compunham uma palavra, cerceavam as sílabas dos vocabulos que entravam na compozição, para ligal-as mais eufonicamente.
Lemos em Alfred Maury La Terre et l'homme, cap. VIII, o seguinte trecho:
«Nas linguas americanas, não é sómente uma sinteze que concentra em uma palavra todos os elementos da idéa mais complexa; ha ainda engrazamento (enchevêtrement) das palavras umas nas outras; é o que M. F. Lieber chama incapsulação, comparando a maneira por que as palavras entram na fraze a uma caixa na qual se conteria outra que a seu turno conteria terceira, esta uma quarta, e assim por diante. A incorporação das palavras é por vezes levada á extrema exajeração nesses idiomas, o que produz a mutilação dos vocabulos incorporados.»
Esta observação é da maior justeza e conforma-se de todo o ponto com a indole da lingua, como se vê nas seguintes palavras—A-por-u—como gente—A-poro-tim—enterro gente—A-po-çub—vizito a gente. (Vide Figueira, Gramatica da lingua do Brazil, paj. 51.)
Tapuia.—de taba e puir, o que foje das tabas. Davam os indijenas esse nome a povos mais barbaros e de lingua diversa. Segundo as ultimas investigações etnolojicas, pertenciam esses povos a uma raça diversa da tupí, e muito aproximada, senão conjenere do tipo mongolico. Entretanto Orbigny, L'Homme Américain, sustenta a identidade das duas raças, tapuia e tupí.
Tacape.—Davam os tupís o nome de apem, a um corpo alongado de fórma analoga á espada, e como ella cortante. Daí vinha chamarem a unha—po-apem, espada do dedo; e á raiz que surje da terra e se eleva como um galho—sapopema—raiz espada.
Á sua principal arma de guerra chamavam ita-ca-apem, espada de páu-pedra; ou ita-qui-apem, machado comprido de pedra, por ter sido dessa materia que primeiro o fabricaram, antes de aprenderem a lavrar a madeira.
Ácerca da força dessa arma e da destreza com que a manejavam, diz Lery que um tupinambá com ella armado daria que fazer a dois soldados de espada.
Guerreiro chefe.—Para compreender-se bem a força dessa dezignação, diremos alguma coiza ácerca da hierarquia selvajem.
Como a relijião, era simples o governo dos tupís; mas não careciam delle, segundo inculcam os cronistas: antes o tinham, e bem regulado para o seu estado de civilização.
Podemos distinguir na taba selvajem uma sociedade civil e uma sociedade politica; a primeira reduzida á familia, e a segunda excluziva á subzistencia, defeza e guerra.
A sociedade civil era constituida pela oca, a caza, onde o varão, aba, morava com suas mulheres, sua prole, os servos que trabalhavam para granjear as filhas em cazamento, os cativos que fazia na guerra, e os parentes que agregava a si.
O dono da caza, ou literalmente o que fazia a caza, moacara, era a perfeita imajem do patriarca. Elle governava a sua gente; e formava uma sociedade independente, no seio da grande sociedade politica, de que era membro e para cuja defeza concorria não só por interesse proprio, mas pela honra da nação.
Moacara nos dicionarios significa fidalgo. A tradução resente-se da preocupação do homem civilizado; mas havia realmente uma distinção entre o moacara, chefe da oca, pai de muitos guerreiros, e o simples individuo que ainda não possuia uma familia.
A sociedade politica, taba, era a reunião das ocas. Essa denominação vem de tama, a patria, o berço, a terra natal, e aba dezinencia que indica o logar, modo, instrumento da coiza. Assim, taba significa literalmente onde ou o que faz a patria, isto é, aldeia natal.
O governo da taba, essencialmente democratico, rezidia no conselho dos moacaras, entre os quais predominava a experiencia dos anciãos, que se chamavam abarés ou abaetês; isto é, varões egrejios.
Nações essencialmente guerreiras, tinham um chefe para governal-as nas jornadas e batalhas. A estes davam o nome de tuxava, ou tauxaba, o dono da taba, morubixaba, o que governa o povo; de moro, gente, e aba, dezinencia.
Quando as nações eram grandes e não cabiam numa taba, destacavam-se alguns moacaras com suas familias e formavam novas tabas, sujeitas á taba mãi. Daí se orijinaria a diferença das duas dezignações, vindo então tauxaba a dezignar o simples chefe de uma taba; e morubixaba o chefe da taba primitiva, ou da nação, moro.
Tambem acontecia que muitas vezes um moacara poderozo separava-se de sua nação por cauza de alguma dissenção intestina, e constituia-se independente com seus decendentes, e os guerreiros a elle sujeitos pelo parentesco. Essa oca independente, chamava-se moroca, isto é, oca de gente, de tribu e não mais de familia. O termo moloca tão frequente nos cronistas não é senão corruptela daquelle, e póde corresponder ao de tribu ou horda.
A nomeação do chefe participava da natureza dessa sociedade democratica e guerreira. O mais audaz e o mais forte impunha-se: a permanencia de sua autoridade, bem como sua extensão, dependia do respeito que elle conseguia infundir a seus guerreiros.
No momento em que surjia outro ambiciozo a disputar o poder, este tornava-se o premio do mais valente. Acontecia então que o vencido com seus sectarios revoltava-se; e daí as frequentes guerras intestinas, que aniquilaram a raça indijena, ainda mais talvez do que a crueldade dos europeus.
Na morte do morubixaba ocorria igual pleito. O filho apossava-se do poder pelo direito de herança; e o conservava se não aparecia algum emulo mais poderozo que lh'o arrebatasse.
Falando com as nossas teorias da civilização, podemos dizer que a baze desse poder executivo era, como nas republicas, o sufragio universal. Mas era o sufragio sempre ativo e vijilante, pronto a inclinar-se ao merecimento superior, onde elle se revelasse.
Entre o chefe guerreiro (poder executivo), e o conselho dos moacaras (poder lejislativo) os conflitos eram inevitaveis. Morubixaba haveria, como o celebre Cunhanbebe, que era um verdadeiro despota. O tacape de muito heróe tupí ha de ter governado tão absolutamente como a espada de Cezar ou de Napoleão.
Outros conflitos tambem se deviam dar frequentemente entre a influencia dos pajés e o poder do chefe ou dos anciãos. Aquelles sacerdotes, cercados do respeito dos guerreiros, fortes pelo prestijio de seus augurios e sortilejios, tentariam insuflados pela ambição governar a taba, ou pelo menos fomentar a rezistencia ao chefe.
Eis em escorço as paixões que deviam ajitar aquella sociedade politica, depois da guerra que era a maior preocupação.
Além das ocas, ou familias, havia na taba uma especie de oca mais vasta e comum. Nessa parece que moravam aquellas pessoas, que já não tinham oca, e estavam a cargo da nação; tais eram as velhas, e por este nome devem-se entender as mulheres sem companhia de marido, nem parentes; os orfãos, aos cuidados daquellas mãis emprestadas; e finalmente as moças que não faziam vida conjugal.
Vejamos agora a sociedade civil, tal como a podemos induzir dos acanhados esclarecimentos que nos deixaram os cronistas.
O cazamento, baze da familia, devia ter alguma ceremonia simbolica, ainda que não passasse da simples entrega da noiva ao varão. Essa minha supozição funda-se no fato de haver entre esses povos um cazamento bem caracterizado, e não simples coito.
A mulher lejitima distinguia-se pelo nome. O marido a chamava temireco, isto é, a verdadeira mãi de meus filhos; emquanto que ás outras mulheres, suas amantes, chamava aguaçaba. O marido tinha tambem um nome especial menda, que o distinguia do simples amante.
Acrece que para obter a noiva o varão sujeitava-se a certas condições, e até mesmo a provas de corajem; donde devemos inferir com boa razão, que não era esse um ato insignificante para os selvajens, a ponto de não o distinguirem com uma fórmula qualquer, elles que em outros pontos eram tão ceremoniozos, como na recepção do hospede, na declaração da paz ou da guerra.
Os cronistas, porém, não se ocuparam disso e todo seu tempo foi pouco para lamentarem a poligamia dos tupís, tirando logo dalí argumento para pintarem os selvajens vivendo a modo de cães.
É uma falsidade. Os tupís tinham moralidade conjugal, e até muito severa. O adulterio era punido de morte; e tambem por isso permitia-se o divorcio por mutuo consentimento.
A poligamia dos tupís foi da mesma natureza da que existiu entre os hebreus; era uma poligamia patriarcal, filha das condições da vida selvajem, e não a poligamia sensual dos turcos e outros povos do oriente, produzida unicamente pelo requinte da libidinajem.
Compreende-se que no estado selvajem ou primitivo, a mulher, fraca para rezistir aos perigos que a rodeavam, tinha necessidade de acolher-se ao amparo e proteção do homem. Por outro lado cada varão, no interesse não sómente de sua gloria, como de seu poder, carecia rodear-se de uma familia numeroza, e de gerar do seu proprio sangue, os seus guerreiros.
Entretanto, e é isto que distingue a poligamia patriarcal, a posse de muitas mulheres não destruia a instituição da familia, bem caracterizada pela preeminencia da primeira mulher ou a verdadeira espoza; e pela adoção dos filhos nacidos das outras mulheres, que se tornavam todos filhos da espoza, ou da verdadeira mãi, temireco.
Muita coiza poderia dizer ácerca da educação dos filhos e da condição da mulher, mas não cabe esse estudo em uma nota. Mais tarde e a propozito é possivel que o faça.
Para a intelijencia do texto basta saber-se que além da espoza, temireco, mãi da familia, das amantes, aguaçabas, que faziam parte da familia na condição de servas, havia—1.o as virjens, cunhantem, mulheres debalde, que pertenciam á familia, e se destinavam para espozas dos guerreiros que as obtivessem pelas provas de esforço e denodo; 2.o as velhas, ou mulheres já privadas de seus maridos, e que ficavam sob a proteção da comunhão, incumbidas da educação dos orfãos, e dos filhos anonimos; 3.o as moças ou mulheres que desprezavam o cazamento e viviam livremente aceitando o amor do guerreiro que lhes agradava, e do qual tinham filhos, que não pertenciam á familia, mas á tribu; eram estas as mulheres que ofereciam seu amor como penhor de hospitalidade ao estranjeiro que chegava á taba; 4.o finalmente, a classe infeliz, abandonada de todo o sentimento e de todo o pudor, á qual davam o nome de morixaba, literalmente coiza de todos; ou, segundo o testemunho de Ives d'Evreux, menondere, que equivalia a ladra; porquanto entendiam os selvajens que a mulher roubava seu primeiro amante dando ou vendendo a outro o amor que lhe pertencia.
Ainda nesta ultima escala, se estão manifestando as leis severas do recato e fidelidade da união sexual entre os selvajens. Além do cazamento lejitimo, havia o concubinato, como existiu entre os romanos, produzindo direito e obrigação reciproca. A mulher que traía a fé conjugal, ou o concubinato, era uma adultera, isto é, uma ladra e decia á ultima infamia. O marido tinha o direito de matal-a; o amante entregava-a ao desprezo da tribu.
Jaguarê agradece a Tupan.—Não achando entre os aborijenes templos e idolos, ainda que alguns cronistas atestam a existencia dos ultimos, foram os colonizadores peremptoriamente declarando ateus a esses povos. Mas logo, com incoerencia flagrante, reconheciam a existencia de uma superstição, que outra coiza não é a relijião na infancia da humanidade.
Os tupís adoravam uma excelencia superior, Tupan, que se manifestava pelo raio e pelo trovão; donde se induz o grande poder que atribuiam a essa divindade. Seu nome de raça aprezenta uma afinidade que faz prezumir a crença de uma decendencia celeste.
Tambem temiam os tupís o espirito do mal, personificado em Anhanga, o fantasma, que habitava as trévas, e a quem referiam um poder funesto. Para conjurar essa divindade malefica, tinham sacerdotes, os pajés, que buscavam sua força e virtude no fumo da planta sagrada, o tabaco.
Além disso contava a mitologia tupica genios bons e máus, que habitavam as florestas e os rios, e percorriam as solidões montados em caitetús, ou transformados em certos animais. Entre estes mencionarei o caipora e a mãi d'agua, cuja abuzão transmitiu-se á raça conquistadora, e de que ainda se encontram vestijios entre as populações do norte.
Não ha contestar que aí está uma relijião bem caracterizada. Mas como faltassem templos e idolos, os decendentes dos barbaros gaulezes, godos, francos e celtas não podiam admitir na America uma relijião sem culto regular, qual a tiveram aquelles selvajens europeus.
Entre os viajantes que mais tarde percorreram a America havia espiritos superiores, dedicados ao estudo da humanidade, que investigavam sem prevenções a orijem e indole das raças indijenas do novo mundo. Na primeira plaina destes sabios figura Alexandre de Humboldt.
O eminente naturalista assinalou a cauza dessa auzencia de culto dos aborijenes do Brazil, quando observou que o antropomorfismo da divindade se manifesta por dois modos: da terra ao céu, como na Grecia, ou do céu á terra, como na America. Voyage au Nouveau Continent—8.o volume, paj. 243.
Quando a imajinação do homem personificando a divindade á sua imajem a faz subir ao céu, como os numes pagãos da Grecia, ella é levada naturalmente a oferecer-lhe uma constante adoração com que mantêm o vinculo da creatura ao creador. Daí a necessidade de idolos, que simbolizem esses numes, e a tenham prezente aos olhos mortais.
Diverso, porém, é quando, concebendo a divindade á sua imajem, o mortal a humana inteiramente, transportando-a do céu á terra. Então o homem figura-se não a creatura, mas o decendente, o filho de seu deus.
Dezaparece a necessidade dos idolos, pois a verdadeira reprezentação da divindade na terra é o mesmo homem que a continúa. Cada um tem o seu nume em si. A adoração transforma-se naturalmente no culto da propria individualidade, nessa exajeração prodijioza do estalão humano, que distingue as idades heroicas.
É pela ostentação da corajem, da força, da grandeza de animo, que o selvajem se elevava até o deus, seu projenitor; e não pela adoração, pelas preces e oferendas uzadas no paganismo grego, o qual estava bem lonje da humildade evanjelica do cristianismo. Os tupís não careciam, pois, de orações e sacrificios; as façanhas com que se mostravam dignos de sua orijem celeste eram as melhores oblações do seu culto.
Tal era o respeito que o selvajem professava pela dignidade humana, que matava as pessoas mais caras quando não se podiam curar da enfermidade. Essa implacavel sujeição ao mal, abatia e humilhava uma raça forte e guerreira.
Muitos outros exemplos podia aprezentar dessa elevada conciencia da individualidade, que distinguia no mais alto ponto o selvajem brazileiro.
Eis o que não souberam ver os cronistas, quando taxaram de ateus aos indijenas americanos.
Abstraindo da moral absoluta em que só ha uma verdade, a do cristianismo, e tomada a questão no ponto de vista da arte, não se póde recuzar a essa relijião tupí, que nivela o homem á divindade, certo cunho de grandeza selvajem e um vigorozo sentimento da individualidade.
O paganismo grego lhe fica inferior nesse ponto da dignidade humana; ao passo que elle tornava a raça de Japeto escrava submissa dos deuzes, e vitima de seus caprichos e vinganças, na mitolojia americana o homem é o filho e o emulo da divindade.
Á parte as ficções graciozas do espirito helenico, a mitolojía grega só tem uma creação que reveste a majestade da relijião tupí; é a creação dos semi-deuzes, em que se operava o antropomorfismo terrestre da divindade, qual se deu na America.
Considerando-se divino, o selvajem americano acreditava-se combatido por um ente malefico, antagonista do deus de quem decendia. Nos achaques e mizeria que aflijem a humanidade via as manifestações desse poder funesto. Os sacerdotes o esconjuravam por sortilejios; os heróes, porém, rezistiam-lhe pela constancia e o afrontavam.
Á essa relijião simples e sem aparato, como devia ser uma relijião das florestas, professada por povos caçadores e guerreiros, coroava a crença profunda e inalteravel da imortalidade da alma, revelada pela veneração ás cinzas dos mortos, e pelas ceremonias da inhumação.
Os indijenas encerravam suas mumias em tumulos especiais, a que davam o nome de Camucins; e as acompanhavam não só das armas e objetos de uzo proprio, como de alimentos para a viajem aos campos alegres, onde iam reviver os guerreiros e suas mulheres.
Basta este rapido esboço para dar idéa da relijião dos tupís, e avaliar o criterio daquelles que os consideravam estranhos a qualquer noção da divindade.
Um povo que mantinha as tradições a que aludimos, não era certamente um acervo de brutos, dignos do desprezo com que foram tratados pelos conquistadores. E quando, através de suas falsas apreciações, a verdade pôde chegar até nossos tempos, o que não seria, se espiritos despreocupados e de vistas menos estreitas, vivendo entre essas nações primitivas, se aplicassem ao estudo de suas crenças, tradições e costumes?
Os jezuitas, que podiam melhor realizar esse estudo, eram induzidos a exajerar a ferocidade e ignorancia dos selvajens, no interesse de tornar indispensavel sua catequeze. Já imbuidos da intolerancia relijioza, a politica exajerava ainda mais sua suspeição.
Ubiratan.—Páu-ferro; literalmente ubira—madeira, e atan—duro. Atan não é senão a palavra ita com a terminação ana, que na lingua tupí servia para a formação dos adjetivos. Itana, o que tem a natureza de pedra. Assim, de pedra fizemos nós pedregozo. Rigorozamente ubiratan é páu-pedra; pois que os indijenas não conheciam o ferro. Era dessa madeira que faziam os tacapes.
O chefe tocantim.—Os autores empregam em geral os termos maioral, principal, para dezignar o cabeça de uma tribu ou nação indijena. Alguns, como Southey, serviram-se do termo cacique adotado dos Araucanos; Barlœus chamou-os classicamente de reis.
Neste livro, como em Iracema, preferi traduzir o termo indijena tuxaba, por chefe; e fui levado pela razão de ser, além de muito apropriado e vulgar, um termo nobre e sucetivel de entrar no estílo o mais elevado, sem laivos de afetação. Ao morubixaba pela mesma razão chamei chefe dos chefes.
Calcou a mão sobre o hombro esquerdo.—Ácerca desse modo simbolico de assegurar o vencedor seu imperio sobre o cativo, é curiozo o que referiu e notou Ives d'Evreux, cap. XIV.
«Então eu soube que era uma ceremonia de guerra praticada entre essas nações, que quando um prizioneiro cae na mão de algum, aquelle que o toma, bate-lhe com a mão na espadua dizendo-lhe: «Eu te faço meu escravo»; e desde então esse pobre cativo, por maior que seja entre os seus, se reconhece escravo e vencido, segue o vitoriozo, o serve fielmente, sem que seu senhor se importe com elle; tem liberdade de andar por onde lhe pareça, não faz senão o que quer e ordinariamente espóza a filha ou irmã de seu senhor, até o dia em que deve ser, morto e comido.»
Depois o missionario lembra as palavras de Isaías cap. 9—Factus est principatus super humerum ejus—e cap. XXII—Dabo clavem dominis David super humerum ejus; e mostra a conformidade desse rito dos tupís com as tradições dos hebreus e outros povos primitivos.
Ubirajara—senhor da lança, de ubira—vara e jara—senhor; aportuguezando o sentido, vem a ser lanceíro.
Com este nome existia ao tempo do descobrimento, nas cabeceiras do rio S. Francisco uma nação de que fala Gabriel Soares—Roteiro do Brazil, cap. 182.
«A peleja dos Ubirajaras, diz esse escritor, é a mais notavel do mundo, como fica dito, porque a fazem com uns páus tostados muito agudos, de comprimento de tres palmos pouco mais ou menos cada um, e tão agudos, de ambas as pontas, com os quais atiram a seus contrarios como com punhais, e são tão certos com elles que não erram tiro, com o que têm grande chegada; e desta maneira matam tambem a caça que, se lhe espera o tiro, não lhe escapa; os quais com estas armas se defendem de seus contrarios tão valorozamente como seus vizinhos com arcos e flexas, etc.»
Desta arma e da destreza com que a manejavam proveiu o nome de bilreiros que lhe deram os sertanistas, significando assim que tanjiam suas lanças com ajilidade e sutileza igual á da rendeira ao trocar os bilros.
Preciza de um prizioneiro.—Era entre os selvajens maior honra conduzir da guerra um prizioneiro, para ornar o seu triunfo e a festa de vitoria, do que matal-o em combate. Veja Gabriel Soares—cit. na nota 4a.
Chamas de alegria.—Metafora tupí. Chamavam a alegria e a festa toríba, literalmente, grande quantidade de fogueiras.
Historia de guerra.—Os tupís para exprimirem historia, ou narrativa, diziam maranduba, conto de guerra, de mara—guerra—nheng—falar e tuba—muito; falar muito de guerra.
Depois aplicaram os indijenas essa palavra a toda narrativa, se é que não crearam para as outras historias o termo analogo de poranduba, composto de poro, nheng, e tuba—falar muito da gente.
Os indios eram muito apaixonados dessas narrações, em que mostravam sua natural eloquencia. Informa-me o Dr. Coutinho, incansavel explorador do vale do Amazonas, que ainda hoje nenhum indio chega de viajem, que não diga a sua maranduba, que é o recito circumstanciado de quanto viu e lhe aconteceu em caminho.
Ás vezes traduzo o termo; outras o emprego orijinal para mais incutir no livro o espirito indijena. Do mesmo modo procedi ácerca de outros termos eufonicos tais como tuxaba, moribixaba, moacara, nhengaçara, etc.
Os cantores.—Os tupís eram muito dados á muzica e á dansa.
Lery fala com entuziasmo da doçura de seus cantos; e Ferdinand Denis, paj. 21, afirma, não sei com que fundamento, que a imitação dos Chataws da America do Norte, certas nações do Brazil gozavam do privilejio de fornecer poetas e musicos aos outros povos, como sucedia com os tamoios entre os tupís.
Gabriel Soares—cap. 162—descreve os cantos, improvizos e dansas dos tupinambás, concluindo com estas palavras:
«Entre este gentio, os muzicos são muito estimados e por onde quer que vão, são bem agazalhados e muitos atravessaram já o sertão por entre seus contrarios, sem lhes fazerem mal.»
Como chefe pertence-lhe a virjem, etc, Barlœus—2.a edic. paj. 483.—Quotquot luta, hastarum concursu ac venatu prœcellunt, eminentiores habentur et ut hœroum numero, qui ob virtutis fortitudinisque excellentiam ab ipsis virginibus ambire mœrentur, cum meliores ex melioribus nasci opinentur, nec vanum esse nobilitatis nomen, sed cum sanguine transfundi.»—Quantos disputam em jogos de lança e caça; os eminentes são tidos no numero dos heróes; os quais pela excelencia da virtude e fortaleza merecem possuir as mesmas virjens; por quanto pensam que os melhores nacem dos melhores; nem é vão nome a nobreza, pois se comunica pela transfuzão do sangue.
Purifica o corpo.—Os selvajens distinguiam-se pelo apurado asseio. Ives d'Evreux diz a este respeito: «Ils sont fort soigneux de tenir leur corps net de toute ordure: ils se lavent fort souvent tout le corps et ne se passe jour qu'ils ne jettent sur eux force eau et se frottent avec les mains de tous côtés et en toutes les parts, pour oster la poudre et autres ordures. Les femmes ne manquent de se peigner souvent.»
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Urú.—Tinham os indijenas varias especies de moveis para guardar objetos. O urú era um cesto aberto. Panacum era um cesto maior com tampa. Samburá era cesto com orelha, corrupção de nambi e urú, literalmente cesto de orelha. Tinham ainda os selvajens o patiguá ou patuâ, que era uma caixa de palha ou couro; e o mocô, pequeno surrão da pele felpuda do coelho. Todos estes nomes ainda são uzados no norte para dezignar os mesmos objetos, produtos da industria indijena, aproveitada pelos colonizadores.