Vladimiro! Vladimiro! foram de
novo os gritos
isolados, aqui, além.
Os dous cavallos approximavam-se, com um som
surdo das patas, trazendo um ar de rajada.
—
Minhoto! Minhoto!
—
Vladimiro! Vladimiro!
Chegavam... De repente o jockey inglez de
Vladimiro,
todo em fogo, levantando o potro que lhe parecia
fugir d'entre as pernas, esticado e lustroso, fez
silvar triumphantemente o chicote, e d'um arremesso
directo lançou-o além da meta, duas
cabeças adiante
de
Minhoto, todo coberto d'espuma.
Então em volta de Carlos foi uma
desconsolação,
um longo murmurio de lassidão. Todos perdiam;
elle apanhava a
poule, ganhava as
apostas, empolgava
tudo. Que sorte! Que chance! Um addido italiano, thesoureiro
da
poule, empallideceu ao separar-se
do lenço
cheio de prata: e de todos os lados mãosinhas
calçadas
de gris-perle, ou de castanho, atiravam-lhe
com um ar amuado as apostas perdidas, chuva de
placas que elle recolhia, rindo, no chapéo.
—Ah, monsieur, exclamou a vasta ministra da Baviera,
furiosa, mefiez-vous... Vous connaissez le
proverbe: heureux au jeu...
—Helas! madame! disse Carlos, resignado, estendendo-lhe
o chapéo.
E outra vez um dedo subtil tocou-lhe no braço. Era
o secretario de Steinbroken, lento e silencioso, que
lhe trazia o seu dinheiro e o dinheiro do seu chefe,
a aposta do reino da Filandia.
—Quanto ganha você? exclamou Telles da Gama,
assombrado.
Carlos não sabia. No fundo do chapéo
já reluzia
ouro. Telles contou, com o olho brilhante.
—Você ganha doze libras! disse elle maravilhado,
e olhando Carlos com respeito.
Doze libras! Esta somma espalhou-se em redor,
n'um rumor de espanto. Doze libras! Em baixo os
amigos de Darque, agitando os chapéos, davam ainda
hurrahs. Mas uma
indifferença, um tedio lento, ia
pesando outra vez, desconsoladoramente. Os rapazes
vinham-se deixar cahir nas cadeiras, bocejando, com
um ar exhausto. A musica, desanimada tambem, tocava
cousas plangentes da
Norma.
Carlos, no entanto, n'um degrau da tribuna, com
a idéa de descobrir o Damaso, sondava de binoculo
o recinto das carruagens. A gente, agora, ia dispersando
pela collina. As senhoras tinham retomado
a immobilidade melancolica, no fundo das caleches,
de mãos no regaço. Aqui e além um
dog-cart, mal
arranjado, dava um trote curto pela relva. N'uma
vittoria estavam as duas hespanholas do Eusebiosi
Carlos, no entanto, n'um degrau da tribuna, com
a idéa de descobrir o Damaso, sondava de binoculo
o recinto das carruagens. A gente, agora, ia dispersando
pela collina. As senhoras tinham retomado
a immobilidade melancolica, no fundo das caleches,
de mãos no regaço. Aqui e além um
dog-cart, mal
arranjado, dava um trote curto pela relva. N'uma
vittoria estavam as duas hespanholas do Eusebiosinho,
a Concha e a Carmen, de sombrinhas escarlates.
E sujeitos, de mãos atrás das costas, pasmavam
para um char-à-bancs a quatro attrelado á Daumont
onde, entre uma familia triste, uma ama de lenço
de lavradeira dava de mamar a uma creança cheia de
rendas. Dous garotos esganiçados passeavam bilhas
d'agua fresca.
Carlos descia da tribuna, sem ter descoberto o
Damaso—quando deu justamente de frente com elle,
dirigindo-se para a escada, affogueado, flamante, na
sua famosa sobrecasaca branca.
—Onde diabo tens tu estado, creatura?
O Damaso agarrou-o pelo braço, alçou-se em bicos
de pés, para lhe contar ao ouvido que tinha estado do
outro lado com uma gaja divina, a Josephina do Zalazar...
Chic a valer! lindamente vestida! parecia-lhe
que tinha mulher!
—Ah, Sardanapalo!...
—Faz-se pela vida... Volta cá acima á tribuna,
anda. Eu ainda hoje não pude cavaquear com o
high-life!...
Mas estou furioso, sabes? Implicaram com
o meu veo azul. Isto é um paiz de bestas! Logo
troça, e
olhe não creste a
pelle, e
onde mora, ó
catitinha?
e chalaça... Uma canalha! Tive de tirar
o veo ... Mas já resolvi. Para as outras corridas venho
nú. Palavra, venho nú! Isto é a
vergonha da civilisação,
esta terra! Não vens d'ahi? Então até
já.
Carlos deteve-o.
—Escuta lá homem, tenho que te dizer... Então,
essa visita aos Olivaes?... Nunca mais appareceste...
Tinhamos combinado que fosses convidar o Castro
Gomes, que viesses dar a resposta... Não vens,
não
mandas... O Craft á espera... Emfim um procedimento
de selvagem.
Damaso atirou os braços ao ar. Então Carlos
não
sabia? Havia grandes novidades! Elle não voltara
ao Ramalhete, como estava combinado, porque o
Carlos Gomes não podia ir aos Olivaes. Ia partir
para o Brazil. Já partirá mesmo, na quarta feira.
A
coisa mais extraordinaria... Elle chega lá, para fazer
o convite, e s. ex.
a declara-lhe que sente
muito, mas
que parte no dia seguinte para o Rio... E já de
mala feita, já alugada uma casa para a mulher ficar
aqui á espera tres mezes, já a passagem no bolso.
Tudo de repente, feito de sabbado para segunda
feira... Telhudo, aquelle Castro Gomes.
—E lá partiu, exclamou elle, voltando-se a cumprimentar
a viscondessa d'Alvim e Joanninha Villar
que desciam das tribunas. Lá partiu, e ella já
está installada. Até já antes de
hontem a fui visitar,
mas não estava em casa... Sabes do que tenho
medo? É que ella, n'estes primeiros tempos, por
causa da visinhança, como está só,
não queira que
eu lá vá muito... Que te parece?
—Talvez... E onde mora ella?
Em quatro palavras, Damaso explicou a installação
de madame. Era muito engraçado, morava no predio
do Cruges! A mamã Cruges, havia já annos, alugava
aquelle primeiro andar mobilado: o inverno passado
estivera lá o Bertonni, o tenor, com a familia.
Casa bem arranjada, o Castro Gomes tinha tido
dedo...
—E para mim, muito commodo, ali ao pé do Gremio...
Então não voltas cá acima, a cavaquear
com
o femeaço? Até logo... Está hoje chic
a valer a
Gouvarinho! E está a pedir homem!
Good-bye.
Defronte de Carlos a condessa de Gouvarinho, no
grupo de D. Maria a que se viera juntar a Alvim e
Joanninha Villar, não cessava de o chamar com o olhar
inquieto, torturando o seu grande leque negro. Mas
elle não obedeceu logo, parado ao pé dos degraus
da
tribuna, accendendo vagamente uma cigarrette, perturbado
por todas aquellas palavras do Damaso que
lhe deixavam n'alma um sulco luminoso. Agora que
a sabia só em Lisboa, vivendo na mesma casa do
Cruges, parecia-lhe que já a conhecia, sentia-se muito
perto d'ella—podendo assim a todo o momento entrar
os hombraes da sua porta, pisar os degraus que ella
pisava. Na sua imaginação transluziam
já possibilidades
d'um encontro, alguma palavra trocada, cousas
pequeninas, subtis como fios, mas por onde os
seus destinos se começariam a prender... E immediatamente
veio-lhe a tentação pueril de ir lá,
logo
n'essa mesma tarde, n'esse instante, gosar como
amigo do Cruges o direito de subir a escada d'ella,
parar diante da porta d'ella—e surprehender uma
voz, um som de piano, um rumor qualquer da sua
vida.
O olhar da condessa não o deixava. Elle approximou-se,
emfim, contrariado: ella ergueu-se logo, deixou
o seu grupo, e dando alguns passos com elle
pela relva, recomeçou a fallar na ida a Santarem.
Carlos, então, muito seccamente, declarou toda essa
invenção insensata.
—Porque?...
Ora porque! Por tudo. Pelo perigo, pelos desconfortos,
pelo ridiculo... Emfim, a ella como mulher
ficava-lhe bem ter phantasias pittorescas de romance;
mas a elle competia-lhe ter bom senso.
Ella mordia o beiço, com todo o sangue na face.
E não via alli bom senso. Via só frieza. Quando
ella
arriscava tanto, elle podia bem, por uma noite, affrontar
os desconfortos da estalagem...
—Mas não é isso!...
Então que era? Tinha medo? Não havia mais perigo
do que nas idas a casa da titi. Ninguem a podia
conhecer, com outra côr de cabello, toda a sorte de
véos, disfarçada n'um grande water-proof.
Chegavam
de noite, entravam para o quarto, d'onde não sahiam
mais, servidos apenas pela escosseza. No dia seguinte,
no comboio da noite, ella seguia para o Porto,
todo acabava... E n'aquella insistencia ella era o
homem, o seductor, com a sua vehemencia de paixão
activa, tentando-o, soprando-lhe o desejo; emquanto
elle parecia a mulher, hesitante e assustada.
E Carlos sentia isto. A sua resistencia a uma noite
de amor, prolongando-se assim, ameaçava ser grotesca:
ao mesmo tempo o calor de voluptuosidade
que emanava d'aquelle seio, arfando junto d'elle e por
elle, ia-o amollecendo lentamente. Terminou por a
olhar de certo modo; e, como se o desejo se lhe accendesse
emfim de repente á curta chamma que faiscava
nas pupillas d'ella, negras, humidas, avidas,
promettendo mil cousas, disse, um pouco pallido:
—Pois bem, perfeitamente... Ámanhã á
noite, na
estação.
N'esse momento, em redor, romperam exclamações
de troça: era um cavallo solitario que chegava,
n'um galope pacato, passara a meta sem se apressar,
como se descesse uma avenida do Campo Grande
n'uma tarde de domingo. E em redor perguntava-se
que corrida era aquella d'um cavallo só—quando
ao longe, como sahindo da claridade loura
do sol que descia sobre o rio, appareceu uma pobre
pileca branca, empurrando-se, arquejando, n'um esforço
doloroso, sob as chicotadas atarantadas d'um
jockey de roxo e preto. Quando ella chegou, emfim,
já o outro
gentleman-rider voltara da meta, a
passo, pachorrentamente,—e estava conversando com
os amigos, encostado á corda da pista.
Todo o mundo ria. E a corrida do Premio d'El-rei
terminou assim, grotescamente.
Ainda havia o Premio de Consolação—mas agora
desapparecera todo o interesse ficticio pelos cavallos.
Perante a calma e radiante belleza da tarde, algumas
senhoras, imitando a Alvim, tinham descido para a
pesagem, cançadas da immobilidade da tribuna. Arranjaram-se
mais cadeiras: aqui e além, sobre a
relva pisada, formavam-se grupos alegrados por algum
vestido claro ou por uma pluma viva de chapéo:
e palrava-se, como n'uma sala de inverno, fumando-se
familiarmente. Em redor de D. Maria e
da Alvim projectava-se um grande pic-nic a Queluz.
Alencar e o Gouvarinho discutiam a reforma de
instrucção. A horrivel Craben, entre outros
diplomatas
e moços de binoculo a tiracolo, dava do fundo
grosso do papo, opiniões sobre Daudet, que elle achava
très agreable. E, quando
Carlos emfim abalou, o recinto,
esquecidas as corridas, tomava um tom de
soirée,
no ar claro e fresco da collina, com o murmurio de
vozes, um mover de leques, e ao fundo a musica tocando
uma valsa de Strauss.
Carlos, depois de procurar muito Craft, encontrou-o
no buffete com o Darque, com outros, bebendo mais
champagne.
—Eu tenho de ir ainda a Lisboa, disse-lhe elle, e
vou no phaeton. Abandono torpemente. Você vá para
o Ramalhete como poder...
—Eu o levo! gritou logo o Vargas, que tinha já a
gravata toda desmanchada. Levo-o no dog-cart. Eu
me encarrego d'elle... O Craft fica por minha conta...
É necessario recibo? Á saude do Craft,
inglez cá
dos meus... Hurrah!
—Hurrah! Hip, hip, hurrah!
D'ahi a pouco, a trote largo no phaeton, Carlos
descia o Chiado, dava a volta para a rua de S. Francisco.
Ia n'uma perturbação deliciosa e singular, com
aquella certeza de que ella estava só na casa do Cruges:
o ultimo olhar que ella lhe déra parecia ir
adiante d'elle, chamando-o: e um despertar tumultuoso
de esperanças sem nome atirava-lhe a alma
para o azul.
Quando parou diante do portão—alguem, por dentro
das janellas d'ella, ía correndo lentamente os stores.
Na rua silenciosa cahia já uma sombra de crepusculo.
Atirou as redeas ao cocheiro, atravessou o
pateo. Nunca viera visitar o Cruges, nunca subira
esta escada; e pareceu-lhe horrorosa, com os seus
frios degraus de pedra, sem tapete, as paredes nuas
e enxovalhadas alvejando tristemente no começo de
escuridão. No patamar do primeiro andar parou. Era
alli que ella vivia. E ficou olhando, com uma
devoção
ingenua, para as tres portas pintadas d'azul: a do
centro estava inutilisada por um banco comprido de
palhinha, e na do lado direito pendia, com uma enorme
bola, o cordão da campainha. De dentro não vinha
um rumor:—e este pesado silencio, juntando-se
ao movimento de stores que elle vira fechar-se, parecia
cercar as pessoas que alli viviam de solidão e
de impenetrabilidade. Uma desconsolação
passou-lhe
na alma. Se ella agora, só, sem o marido,
começasse
uma vida reclusa e solitaria? Se elle não tornasse
mais a encontrar os seus olhos?
Foi subindo de vagar até ao andar do Cruges. E
mal sabia o que havia de dizer ao maestro para explicar
aquella visita extranha, deslocada... Foi um
allivio quando a criadita lhe veiu dizer que o menino
Victorino tinha sahido.
Em baixo, Carlos tomou as redeas, e foi levando
lentamente o phaeton até ao largo da Bibliotheca.
Depois retrocedeu, a passo. Agora, por traz do store
branco, havia uma vaga claridade de luz. Elle olhou-a
como se olha uma estrella.
Voltou ao Ramalhete. Craft, coberto de pó, estava-se
justamente apeando de uma calecha de praça.
Um momento ficaram alli á porta, em quanto Craft,
procurando troco para o cocheiro, contava o final das
corridas. No
Premio de
Consolação, um dos cavalleiros
tinha cahido, quasi ao pé da meta, sem se magoar:
e, por ultimo, já á partida, o Vargas, que ia
na sua terceira garrafa de champagne, esmurrara um
criado do buffete, com ferocidade.
—Assim, disse Craft completando o seu troco, estas
corridas foram boas pelo velho principe Shakespereano
de que
tudo é bom quanto acaba
bem.
—Um murro, disse Carlos rindo, é com effeito um
bello ponto final.
No peristillo, o velho guarda-portão esperava, descoberto,
com uma carta na mão para Carlos. Um
criado tinha-a trazido, instantes antes de s. ex.
a
chegar.
Era uma letra ingleza de mulher, n'um envelope
largo, lacrado com um sinete d'armas. Carlos alli
mesmo abriu-a: e, logo á primeira linha, teve um movimento
tão vivo, de tão bella surpreza,
illuminando-se-lhe
tanto o rosto, que Craft do lado perguntou
sorrindo:
—Aventura? Herança?...
Carlos, vermelho, metteu a carta no bolso, e murmurou:
—Um bilhete apenas, um doente...
Era apenas um doente, era apenas um bilhete, mas
começava assim:—«Madame Castro Gomes apresenta
os seus respeitos ao sr. Carlos da Maia, e roga-lhe o
obsequio...»—depois, em duas breves palavras,
pedia-lhe para ir ver na manhã seguinte, o mais
cedo possivel, uma pessoa de familia, que se achava
incommodada.
—Bem, eu vou-me vestir, disse Craft... Jantar ás sete e
meia, hein?
—Sim, o jantar...—respondeu Carlos, sem saber o quê,
banhado todo n'um sorriso, como em extase.
Correu aos seus aposentos: e junto da janella, sem mesmo tirar
o chapéo, leu uma vez mais o bilhete, outra vez ainda,
contemplando enlevadamente a forma da letra, procurando
voluptuosamente o perfume do papel.
Era datada d'esse mesmo dia á tarde. Assim, quando
elle passara defronte da sua porta, já ella a escrevera,
já o seu pensamento se demorara n'elle—quando mais
não fosse senão ao traçar as lettras
simples do seu nome. Não era ella que estava
doente. Se fosse Rosa, ella não diria
tão friamente «uma pessoa de familia.»
Era talvez o esplendido preto de carapinha grisalha. Talvez
miss Sarah, abençoada fosse ella para sempre, que
queria um medico que entendesse inglez... Emfim havia lá uma
pessoa n'uma cama, junto da qual ella mesma o conduziria,
atravez dos corredores interiores d'aquella
casa—que havia apenas instantes sentira tão
fechada, e como impenetravel para sempre!... E depois este
adoradobilhete, este delicioso pedido para ir a sua
casa, agora que ella o conhecia, que vira Rosa
atirar-lhe um grande adeus—tomava uma
significação profunda, perturbadora...
Se ella não quizesse comprehender, nem acceitar
o distante amor que os seus olhos lhe tinham
offerecido claramente, o mais luminosamente que
tinham podido, n'esses fugitivos instantes que se tinham
cruzado com os d'ella—então poderia ter mandado
chamar outro medico, um clinico qualquer, um
estranho. Mas não: o seu olhar respondera ao d'elle, e ella
abria-lhe a sua porta...—E o que sentia a esta
idéa era uma gratidão ineffavel, um impulso
tumultuoso de todo o seu ser a cahir-lhe aos pés,
ficar-lhe beijando a orla do vestido, devotamente,
eternamente, sem querer mais nada, sem pedir mais nada...
Quando Craft d'alli a pouco desceu, de casaca, fresco, alvo, engommado,
correcto—achou Carlos, ainda com toda a poeira da estrada, de
chapéo na cabeça passeando o quarto, n'esta
agitação radiante.
—Você está a faiscar, homem! disse Craft, parando
deante d'elle, com as mãos nos bolsos, e contemplando-o um
instante do alto do seu resplandecente collarinho. Você
flameja!... Você parece que tem uma auréola na
nuca!... Você succedeu-lhe o quer que seja de muito
bom!
Carlos espreguiçou-se, sorrindo. Depois olhou para Craft um
momento, em silencio, encolheu os hombros, e murmurou:
—A gente, Craft, nunca sabe se o que lhe
succede é, em definitivo, bom ou mau.
—Ordinariamente é mau, disse o outro friamente,
aproximando-se do espelho a retocar com mais
correcção o nó da gravata
branca.
FIM DO PRIMEIRO VOLUME
EÇA DE QUEIROZ
OS MAIAS
EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA
VOLUME II
PORTO
Livraria Internacional de Ernesto Chardron
CASA EDITORA
LUGAN & GENELIOUX, Successores
1888
Todos os direitos reservados
OS MAIAS
VOLUME II
OS MAIAS
I
Na manhã seguinte, Carlos, que se erguera cedo, veio a
pé do Ramalhete até á rua de S.
Francisco, a casa de Madame Gomes. No patamar, onde morria em penumbra
a luz distante da claraboia, uma velha de lenço na
cabeça, encolhida n'um chalesinho preto, esperava, sentada
melancolicamente ao canto do banco de palhinha. A porta aberta mostrava
uma parede feia de corredor, forrada de papel amarello. Dentro um
relogio ronceiro estava batendo dez horas.
—A senhora já tocou? perguntou Carlos, erguendo o
chapéo.
A velha murmurou, d'entre a sombra do lenço que lhe cahia
para os olhos, n'um tom cançado e doente:
—Já, sim, meu senhor.
Já fizeram o favor de me fallar. O criado, o snr. Domingos,
não tarda...
Carlos esperou, passeando lentamente no patamar. Do segundo andar vinha
um barulho alegre de crianças brincando; por cima, o
moço do Cruges esfregava a escada com estrondo, assobiando
desesperadamente o fado. Um longo minuto arrastou-se, depois outro,
infindavel. A velha, d'entre a negrura do lenço, deu um
suspirosinho abatido. Lá ao fundo um canario rompera a
cantar; e então Carlos, impaciente, puxou o
cordão da campainha.
Um criado de suissas ruivas, correctamente abotoado n'um
jaquetão de flanella, appareceu correndo, com uma travessa
na mão, abafada n'um guardanapo; e ao vêr Carlos
ficou tão atarantado, bambaleando á porta, que um
pouco de molho de assado escorregou, cahiu sobre o soalho.
—Oh snr. D. Carlos Eduardo, faz favor d'entrar!... Ora esta! Tem a
bondade d'esperar um instantinho, que eu abro já a sala...
Tome lá, snr.
a Augusta, tome
lá, olhe
não entorne mais! A senhora diz que lá manda logo
o vinho do Porto... Desculpe v. exc.
a, snr. D.
Carlos... Por aqui, meu
senhor...
Correu um reposteiro de reps vermelho, introduziu Carlos n'uma sala
alta, espaçosa, com um papel de ramagens azues, e duas
varandas para a rua de S. Francisco; e erguendo á pressa os
dois transparentes de paninho branco, perguntava a
Carlos se
s. exc.
a não se lembrava
já do
Domingos. Quando elle se voltou, risonho, descendo precipitadamente os
canhões das mangas, Carlos reconheceu-o pelas suissas
ruivas. Era com effeito o Domingos, escudeiro excellente, que no
começo do inverno estivera no Ramalhete, e se despedira por
birras patrioticas, birras ciumentas, com o cozinheiro francez.
—Não o tinha visto bem, Domingos, disse Carlos. O patamar
é um pouco escuro... Lembro-me perfeitamente... E
então vossê agora aqui, hein? E está
contente?
—Eu parece-me que estou muito contente, meu senhor... O snr. Cruges
tambem mora cá por cima...
—Bem sei, bem sei...
—Tenha v. exc.
a a paciencia de esperar um
instantinho que eu vou dar
parte á snr.
a D. Maria Eduarda...
Maria Eduarda! Era a primeira vez que Carlos ouvia o nome d'ella; e
pareceu-lhe perfeito, condizendo bem com a sua belleza serena. Maria
Eduarda, Carlos Eduardo... Havia uma similitude nos seus nomes. Quem
sabe se não presagiava a concordancia dos seus destinos!
Domingos, no entanto, já á porta da sala, com a
mão no reposteiro, parou ainda, para dizer n'um tom de
confidencia e sorrindo:
—É a governante ingleza que está doente...
—Ah! é a governante?
—Sim, meu senhor, tem uma febresita desde hontem, peso no peito...
—Ah!...
O Domingos deu outro movimento lento ao reposteiro, sem se apressar,
contemplando Carlos com admiração:
—E o avôsinho de v. exc.
a passa bem?
—Obrigado, Domingos, passa bem.
—Aquillo é que é um grande senhor!...
Não ha, não ha outro assim em Lisboa!
—Obrigado, Domingos, obrigado...
Quando elle finalmente sahiu, Carlos, tirando as luvas, deu uma volta
curiosa e lenta pela sala. O soalho fôra esteirado de novo.
Ao pé da porta havia um piano antigo de cauda, coberto com
um pano alvadio; sobre uma estante ao lado, cheia de partituras, de
musicas, de jornaes illustrados, pousava um vaso do Japão
onde murchavam tres bellos lirios brancos; todas as cadeiras eram
forradas de reps vermelho; e aos pés do sofá
estirava-se uma velha pelle de tigre. Como no Hotel Central, esta
intallação summaria de casa alugada recebera
retoques de conforto e de gosto: cortinas novas de cretone, combinando
com o papel azul da parede, tinham substituido as classicas bambinellas
de cassa: um pequeno contador arabe, que Carlos se lembrava de ter
visto havia dias no tio Abrahão, viera encher um lado mais
desguarnecido da parede: o tapete de pellucia d'uma mesa oval,
collocada ao centro, desapparecia sob
lindas
encadernações de livros, albuns, duas
taças japonezas de bronze, um cesto para flôres de
porcelana de Dresde, objectos delicados d'arte que não
pertenciam decerto á mãi Cruges. E
parecia errar alli, acariciando a ordem das coisas e marcando-as com um
encanto particular, aquelle indefinido perfume que Carlos já
sentira nos quartos do Hotel Central, e em que dominava o jasmim.
Mas o que attrahiu Carlos foi um bonito biombo de linho crú,
com ramalhetes bordados, desdobrado ao pé da janella,
fazendo um recanto mais resguardado e mais intimo. Havia lá
uma cadeirinha baixa de setim escarlate, uma grande almofada para os
pés, uma mesa de costura com todo um trabalho de mulher
interrompido, numeros de jornaes de modas, um bordado enrolado,
mólhos de lã de côres transbordando de
um açafate. E, confortavelmente enroscada no macio da
cadeira, achava-se ahi, n'esse momento, a famosa cadellinha escosseza,
que tantas vezes passára nos sonhos de Carlos, trotando
ligeiramente atraz de uma radiante figura pelo Aterro fóra,
ou aninhada e adormecida n'um doce regaço...
—Bonjour, Mademoiselle, disse-lhe elle, baixinho, querendo captar-lhe
as sympathias.
A cadellinha erguera-se logo bruscamente na cadeira, d'orelhas fitas,
dardejando para aquelle estranho, por entre as repas esguedelhadas,
dois bellos olhos de azeviche, desconfiados, d'uma
penetração
quasi humana. Um instante Carlos receou que ella rompesse a ladrar. Mas
a cadellinha de repente namorára-se d'elle, deitada
já na
cadeira, de patas ao ar, descomposta, abandonando o ventresinho
ás suas caricias. Carlos ia coçal-a e amimal-a,
quando um passo leve pizou a esteira. Voltou-se, viu Maria Eduarda
diante de si.
Foi como uma inesperada apparição—e vergou
profundamente os hombros, menos a saudal-a, que a esconder a tumultuosa
onda de sangue que sentia abrazar-lhe o rosto. Ella, com um vestido
simples e justo de sarja preta, um collarinho direito de homem, um
botão de rosa e duas folhas verdes no peito, alta e branca,
sentou-se logo junto da mesa oval, acabando de desdobrar um pequeno
lenço de renda. Obedecendo ao seu gesto risonho, Carlos
pousou-se embaraçadamente á borda
do sofá de reps. E depois d'um instante de silencio, que lhe
pareceu profundo, quasi solemne, a voz de Maria Eduarda ergueu-se, uma
voz rica e lenta, d'um tom d'ouro que acariciava.
Através do seu enleio, Carlos percebia vagamente que ella
lhe agradecia os cuidados que elle tivera com Rosa: e, de cada vez que
o seu olhar se demorava n'ella um instante mais, descobria logo um
encanto novo e outra fórma da sua
perfeição. Os cabellos não eram
louros, como julgára de longe á claridade do sol,
mas de dois tons, castanho-claro e castanho-escuro, espessos e ondeando
ligeiramente sobre a testa. Na grande luz
escura dos seus olhos havia ao
mesmo tempo alguma coisa de muito grave e de muito dôce. Por
um geito familiar cruzava ás vezes, ao fallar, as
mãos sobre os joelhos. E através da manga justa
de sarja, terminando n'um punho branco, elle sentia a belleza, a
brancura, o macio, quasi o calor dos seus braços.
Ella calára-se. Carlos, ao levantar a voz, sentiu outra vez
o sangue abrazar-lhe o rosto. E, apesar de saber já pelo
Domingos que a doente era a governante, só achou, na sua
perturbação, esta
pergunta timida:
—Não é sua filha que está doente,
minha senhora?
—Oh não! graças a Deus!
E Maria Eduarda contou-lhe, justamente como o Domingos, que a
governante ingleza havia dois dias se achava incommodada, com
difficuldade de respirar, tosse, uma ponta de febre...
—Imaginámos ao principio que era uma
constipação passageira; mas hontem á
tarde estava peor, e estou agora impaciente que a veja...
Ergueu-se, foi puxar um enorme cordão de campainha que
pendia ao lado do piano. O seu cabello por traz, repuxado para o alto
da cabeça, deixava uma pennugem d'ouro frisar-se
delicadamente sobre a brancura lactea do pescoço. Entre
aquelles moveis de reps, sob o tecto banal d'estuque enxovalhado, toda
a sua pessoa parecia a Carlos mais radiante, d'uma belleza mais nobre,
e quasi inaccessivel;
e pensava que nunca alli ousaria olhal-a tão
francamente, com uma tão clara
adoração, como quando a encontrava na rua.
—Que linda cadellinha v. exc.
a tem, minha
senhora! disse elle, quando
Maria Eduarda se tornou a sentar, e pondo já n'estas
palavras simples, ditas a sorrir, um accento de ternura.
Ella sorriu tambem com um lindo sorriso, que lhe fazia uma covinha no
queixo, dava uma doçura mais mimosa ás suas
feições
sérias. E alegremente, batendo as palmas, chamando para
dentro do biombo:
—
Niniche! estão-te a
fazer elogios, vem agradecer!
Niniche appareceu a bocejar. Carlos
achava lindo este nome de
Niniche. E
era curioso,
tinha tido tambem uma galguinha italiana que se chamava
Niniche...
N'esse instante a criada entrou—a rapariga magra e sardenta, d'olhar
petulante, que Carlos vira já no Hotel Central.
—Melanie vai-lhe ensinar o quarto de miss Sarah, disse Maria Eduarda.
Eu não o acompanho, porque ella é tão
timida, tem tanto escrupulo em incommodar, que diante de mim
é capaz de negar tudo, dizer que não tem nada...
—Perfeitamente, perfeitamente, murmurava Carlos, sorrindo, n'um
encanto de tudo.
E pareceu-lhe então que no olhar d'ella alguma
coisa brilhára,
fugira para elle, de mais vivo, de mais dôce.
Com o seu chapéo na mão, pisando familiarmente
aquelle corredor intimo, surprehendendo detalhes de vida domestica,
Carlos sentia como a alegria d'uma posse. Por uma porta meio aberta
pôde entrevêr uma banheira, e ao lado dependurados
grandes roupões turcos de banho. Adiante, sobre uma mesa,
estavam alinhadas, e como desencaixotadas recentemente, garrafas
d'aguas mineraes de Saint-Galmier e de Vals. Elle deduzia logo d'estas
coisas tão simples, tão banaes, evidencias de
vida delicada.
Melanie correu um reposteiro de linho crú, fêl-o
entrar n'um quarto claro e fresco: e ahi foi encontrar a pobre miss
Sarah n'um leitosinho de ferro, sentada, com um laço de
sêda azul ao
pescoço, e os bandós tão lisos,
tão acamados pela
escova, como se fosse sahir n'um domingo para a capella presbyteriana.
Na mesinha de cabeceira os seus jornaes inglezes estavam
escrupulosamente dobrados, junto d'um copo com duas bellas rosas; e
tudo no quarto resplandecia de severo arranjo, desde os retratos da
familia real d'Inglaterra, expostos sobre a toalha de renda que cobria
a commoda, até ás suas
botinas bem engraxadas, classificadas, perfiladas n'uma prateleira de
pinho.
Apenas Carlos se sentou, ella immediatamente, com duas rosetas de
vergonha na face, entre frouxos de tosse, declarou que não
tinha nada. Era a
senhora, tão boa, tão cautelosa, que a
forçára a metter-se na cama... E para ella era um
desgosto vêr-se alli ociosa, inutil, agora que Madame estava
tão só, n'uma casa sem jardim. Onde havia a
menina de brincar? Quem havia de sahir com ella? Ah! Era uma
prisão para Madame!...
Carlos consolava-a, tomando-lhe o pulso. Depois, quando elle se ergueu
para a auscultar, a pobre miss cobriu-se toda d'um rubor afflicto,
apertando mais a roupa contra o peito, querendo saber se era
absolutamente necessario...
Sim, decerto, era necessario... Achou-lhe o pulmão direito
um pouco tomado; e, em quanto a agasalhava, fez-lhe algumas perguntas
sobre a sua familia. Ella contou que era de York, filha de um
clergyman, e tinha quatorze
irmãos: os rapazes estavam na Nova Zelandia, e todos eram
d'uma robustez de athletas. Ella sahira a mais fraca; tanto que o pai,
vendo que ella aos dezesete annos pesava só oito arrobas,
ensinou-lhe logo latim, destinando-a para governante.
Em todo o caso, dizia Carlos, nunca houvera na sua familia
doenças de peito? Ella sorriu. Oh! nunca! A mamã
ainda vivia. O papá, já
muito velho, morrera do couce de uma egua.
Carlos, no entanto, já de pé, com o
chapéo na mão, continuava a observal-a,
reflectindo. Então,
de repente, sem motivo, ella enterneceu-se, os seus olhos pequeninos
ennevoaram-se de agua. E quando ouviu que eram precisos tantos
agasalhos, que
teria
de estar alli no quarto ainda quinze dias, perturbou-se mais, duas
lagrimasinhas timidas quasi lhe fugiram das pestanas. Carlos terminou
por lhe afagar paternalmente a mão.
—
Oh! Thank you sir! murmurou ella,
commovida de todo.
Na sala, Carlos veio encontrar Maria Eduarda sentada junto da mesa,
arranjando ramos, com uma grande cesta de flôres pousada ao
lado d'uma cadeira, e o regaço cheio de cravos. Uma bella
restea de sol, estendida na esteira, vinha morrer-lhe aos
pés; e
Niniche,
deitada alli, reluzia como se fosse feita de fios de prata. Na rua, sob
as janellas, um realejo ia tocando, na alegria da linda
manhã de sol, a walsa da
Madame
Angot. Pelo
andar de cima tinham recomeçado as correrias de
crianças
brincando.
—Então? exclamou ella, voltando-se logo, com um
mólho de cravos na mão.
Carlos tranquillisou-a. A pobre miss Sarah tinha uma bronchite ligeira,
com pouca febre. Em todo o caso necessitava resguardo, toda a
cautela...
—Certamente! E ha de tomar algum remedio, não é
verdade?
Atirou logo o resto dos cravos do regaço para o cesto, foi
abrir uma secretariasinha de pau preto collocada entre as janellas.
Ella mesmo arranjou o papel para elle receitar, metteu um bico novo na
penna. E estes cuidados perturbavam Carlos como caricias.
—Oh minha senhora... murmurava elle, um lapis basta...
Quando se sentou, os seus olhos demoraram-se com uma curiosidade
enternecida n'esses objectos familiares onde pousava a
doçura das mãos
d'ella—um sinete d'agatha sobre um velho livro de contas, uma faca de
marfim com monogramma de prata ao lado d'uma taçasinha de
Saxe cheia d'estampilhas; e em tudo havia a ordem clara que
tão bem condizia com o seu puro perfil. Na rua o realejo
calára-se, por cima do tecto já
não cavallavam as crianças. E, em quanto escrevia
devagar, Carlos sentia-a abafar sobre a esteira o som dos seus passos,
mover os seus vasos mais de leve.
—Que bonitas flôres v. exc.
a tem,
minha senhora! disse
elle, voltando a cabeça, em quanto ia seccando distrahida e
lentamente a receita.
De pé, junto do contador arabe, onde pousava um vaso
amarello da India, ella arranjava folhas em volta de duas rosas.
—Dão frescura, disse ella. Mas imaginei que em Lisboa havia
mais bonitas flôres. Não ha nada que se compare
ás flôres de França...
Pois não é verdade?
Elle não respondeu logo, esquecido a olhar para ella,
pensando na doçura de ficar alli eternamente n'aquella sala
de reps vermelho, cheia de claridade e cheia de silencio, a
vêl-a pôr folhas verdes em torno de pés
de rosa!
—Em Cintra ha lindas flôres, murmurou por fim.
—Oh, Cintra é um encanto! disse ella, sem erguer os olhos
do seu ramo. Vale a pena vir a Portugal só por causa de
Cintra.
N'esse momento, o reposteiro de reps esvoaçou, e Rosa entrou
de dentro, correndo, vestida de branco, com meiasinhas de
sêda preta, uma onda negra de cabello a bater-lhe as costas,
e trazendo ao collo a sua grande boneca. Ao vêr Carlos parou
bruscamente, com os bellos olhos muito abertos para elle, toda
encantada, e apertando mais nos braços Cri-cri que vinha em
camisa.
—Não conheces? perguntou-lhe a mãi, indo
sentar-se outra vez diante do seu cesto de flôres.
Rosa começava já a sorrir, o seu rostosinho
cobria-se d'uma linda côr. E assim, toda d'alvo e negro como
uma andorinha, tinha um encanto raro, com o seu dôce mimo de
fórma, a sua
graça ligeira, os seus grandes olhos cheios d'azul, e um
ruborzinho de mulher na face. Quando Carlos se adiantou com a
mão estendida para renovar o antigo conhecimento—ella
ergueu-se na ponta dos pés, estendeu-lhe vivamente a
boquinha, fresca como um botão de rosa. Carlos ousou apenas
tocar-lhe de leve na testa.
Depois quiz apertar a mão á sua velha amiga
Cri-cri. E então, de repente, Rosa recordou-se do que a
trouxera alli a correr.
—É o robe-de-chambre, mamã!
Não posso
achar o robe-de-chambre de
Cri-cri... Ainda a não pude vestir... Dize, sabes onde
é que está o
robe-de-chambre?
—Vejam esta desarranjada! murmurava a mãi olhando-a com um
sorriso lento e terno. Se Cri-cri tem uma commoda particular, o seu
guarda-vestidos, não se lhe deviam perder as coisas... Pois
não é verdade, snr. Carlos da Maia?
Elle, ainda com a sua receita na mão, sorria tambem, sem
dizer nada, todo no enternecimento d'aquella intimidade em que se
sentia penetrar dôcemente.
A pequena então veio encostar-se á
mãi, roçando-se pelo seu braço, com
uma vozinha languida, lenta, e de mimo:
—Anda, dize... Não sejas má... Anda... Onde
está o robe-de-chambre? Dize...
Levemente, com a ponta dos dedos, Maria Eduarda arranjou-lhe o
pequenino laço de sêda branca que lhe prendia no
alto o cabello. Depois ficou mais séria:
—Está bem, está quieta... Tu sabes que
não sou eu que trato dos arranjos da Cri-cri. Devias ter
mais ordem... Vai perguntar a Melanie.
E Rosa obedeceu logo, séria tambem, comprimentando agora
Carlos ao passar, com um arzinho senhoril:
—Bonjour, Monsieur...
—É encantadora! murmurou elle.
A mãi sorriu. Tinha acabado de compôr o seu
ramo de cravos;—e
immediatamente attendeu a Carlos, que pousára a receita
sobre a mesa, e sem se apressar, installando-se n'uma poltrona, lhe foi
fallando da dieta que devia ter miss Sarah, das colheres de xarope de
codeina que se lhe deviam dar de tres em tres horas...
—Pobre Sarah! dizia ella. E é curioso, não
é verdade? Veio com o presentimento, quasi com a certeza,
que havia de adoecer em Portugal...
—Então vem a detestar Portugal!
—Oh! tem-lhe já horror! Acha muito calor, por
toda a parte maus cheiros, a gente hedionda... Tem medo de ser
insultada na rua... Emfim é infelicissima, está
ardendo por se ir embora...
Carlos ria d'aquellas antipathias saxonias. De resto em muitas coisas a
boa miss Sarah tinha talvez razão...
—E v. exc.
a tem-se dado bem em Portugal, minha
senhora?
Ella encolheu os hombros, indecisa.
—Sim... Devo dar-me bem... É o meu paiz
O
seu paiz!... E elle que a julgava
brazileira!
—Não, sou portugueza.
E, durante um momento, houve um silencio. Ella tomára de
sobre a mesa, abria lentamente um grande leque negro pintado de
flôres vermelhas. E Carlos sentia, sem saber porque, uma
doçura nova penetrar-lhe no coração.
Depois ella fallou da sua viagem que fôra muito agradavel;
adorava andar no mar; tinha sido um encanto a manhã
da chegada a
Lisboa,
com um céo azul-ferrete, o mar todo azul tambem, e
já um calorzinho do clima dôce... Mas depois,
apenas desembarcados, tudo correra desagradavelmente. Tinham ficado mal
alojados no Central.
Niniche,
uma noite, assustára-os muito com uma indigestão.
Em seguida no Porto viera aquelle desastre...
—Sim, disse Carlos, o marido de v. exc.
a, na
Praça Nova...
Ella pareceu surprehendida. Como sabia elle? Ah! sim, sabia de certo
pelo Damaso...
—São muito amigos, creio eu.
Depois d'uma leve hesitação, que ella
comprehendeu, Carlos murmurou:
—Sim... O Damaso vai bastante ao Ramalhete... É de resto um
rapaz que eu conheço apenas ha mezes...
Ella abriu os olhos, pasmada.
—O Damaso? Mas elle disse-me que se conheciam desde pequeninos, que
eram até parentes...
Carlos encolheu simplesmente os hombros, sorrindo.
—É uma bella illusão... E se isso o faz
feliz!...
Ella sorriu tambem, encolhendo tambem ligeiramente os hombros.
—E v. exc.
a, minha senhora, continuou logo
Carlos não
querendo fallar mais do Damaso, como acha Lisboa?
Gostava bastante, achava muito bonito este tom azul e branco de cidade
meridional... Mas, havia tão poucos confortos!... A vida
tinha aqui um ar que ella não pudera perceber ainda—se era
de simplicidade ou de pobreza.
—Simplicidade, minha senhora. Temos a simplicidade dos selvagens...
Ella riu.
—Não direi isso. Mas supponho que são como os
gregos: contentam-se em comer uma azeitona, olhando o céo
que é bonito...
Isto pareceu adoravel a Carlos, todo o seu
coração fugiu para ella.
Maria Eduarda queixava-se sobretudo das casas, tão faltas de
commodidade, tão despidas de gosto, tão
desleixadas. Aquella em que vivia fazia a sua desgraça. A
cozinha era atroz, as portas
não fechavam. Na sala de jantar havia sobre a parede umas
pinturas de barquinhos e collinas que lhe tiravam o appetite...
—Além d'isso, acrescentou, é um horror
não ter um quintal, um jardim, onde a pequena possa correr,
ir brincar...
—Não é facil encontrar assim uma casa nas
condições d'esta e com jardim, disse Carlos.
Deu um olhar ás paredes, ao estuque enxovalhado do tecto—e
lembrou-lhe de repente a quinta do Craft, com a sua vista de rio, o ar
largo, as frescas ruas de acacias.
Felizmente, Maria Eduarda tomára a casa apenas ao mez, e
estava pensando em ir passar á beira-mar o tempo que tivesse
de ficar ainda em Portugal.
—De resto, disse ella, foi o que me aconselhou o meu medico em Paris,
o dr. Chaplain.
O dr. Chaplain? Justamente, Carlos conhecia muito o dr. Chaplain.
Ouvira-lhe as lições,
visitára-o até intimamente na sua propriedade de
Maisonnettes, ao pé de Saint-Germain. Era um grande mestre,
era um espirito bem superior!
—E tão bom coração! disse ella com um
claro sorriso, um olhar que brilhou.
E este sentimento commum pareceu de repente aproximal-os mais
dôcemente: cada um n'esse instante adorou o dr. Chaplain: e
continuaram ainda fallando d'elle prolongadamente, gozando,
através d'essa trivial sympathia por um velho clinico, a
nascente concordancia dos seus corações.
O bom dr. Chaplain! Que physionomia tão amavel,
tão fina!... Sempre com o seu barretinho de
sêda... E sempre
com a sua grande flôr na casaca... De resto, o pratico maior
que sahira da geração de Trousseau.
—E Madame Chaplain, acrescentou Carlos, é uma pessoa
encantadora... Não é verdade?
Mas Maria Eduarda não conhecia Madame Chaplain.
Dentro o relogio ronceiro começára a bater onze
horas. E Carlos
então ergueu-se, findando a sua fugitiva, inolvidavel,
deliciosa visita...
Quando ella lhe estendeu a mão, um pouco de sangue subiu-lhe
de novo á face ao tocar aquella palma tão macia e
tão fresca. Pediu os seus
comprimentos para Mademoiselle Rosa. Depois, á porta,
já com o reposteiro na mão, voltou-se ainda, uma
vez mais, n'uma ultima saudação, a receber o
olhar suave com que ella o seguia...
—Até ámanhã, está claro!
exclamou
ella de repente, com o seu lindo sorriso.
—Até ámanhã, decerto!
O Domingos estava já no patamar, de casaca, risonho e bem
penteado.
—É coisa de cuidado, meu senhor?
—Não é nada, Domingos... Estimei vêl-o
por aqui.
—E eu muito a v. exc.
a. Até
ámanhã,
meu senhor.
—Até ámanhã.
Niniche appareceu tambem no patamar.
Elle abaixou-se ternamente a afagal-a, e disse-lhe tambem, radiante:
—Até ámanhã,
Niniche!
Até ámanhã! Voltando para o Ramalhete,
era esta a
unica idéa que elle sentia distinctamente através
da nevoa luminosa que lhe afogava a alma.
Agora o seu dia estava
findo:—mas, passadas as longas horas, terminada a longa noite, elle
penetraria outra vez n'aquella sala de reps vermelho, onde ella o
esperava, com o mesmo vestido de sarja, enrolando ainda folhas verdes
em torno de pés de rosa...
Pelo Aterro, por entre a poeira de verão e o ruido das
carroças, o que elle via era essa sala, esteirada de novo,
fresca, silenciosa e clara: por vezes uma phrase que ella dissera
cantava-lhe na memoria, com o tom d'ouro da sua voz; ou luziam-lhe
diante dos olhos as pedras dos seus anneis entremettidos pelos
pêllos de
Niniche. Parecia-lhe mais linda,
agora que conhecia o seu sorriso d'uma graça tão
delicada; era cheia de
inteligencia, era cheia de gosto; e a pobre velha á porta,
esse doente a quem ella mandava vinho do Porto, revelavam a sua
bondade... E o que o encantava é que não tornaria
mais a farejar a cidade como um rafeiro perdido, á busca dos
seus olhos negros; agora bastava-lhe subir alguns degraus, abria-se
diante d'elle a porta da sua casa; e tudo de repente na vida parecia
tornar-se facil, equilibrado, sem duvidas e sem impaciencias.
No seu quarto, no Ramalhete, Baptista entregou-lhe uma carta.
—Trouxe-a a escosseza, já v. exc.
a
tinha sahido.
Era da Gouvarinho! Meia folha de papel, tendo simplesmente escripto a
lapis—
all rigth. Carlos
amarrotou-a, furioso. A
Gouvarinho!... Não se
tornára quasi a lembrar d'ella, desde a vespera, no radiante
tumulto em que andára o seu
coração. E era no comboio d'essa noite, d'ahi a
horas, que deviam ambos partir para Santarem, a amarem-se, escondidos
n'uma estalagem! Elle promettera-lh'o, a sério;
já ella se preparára decerto,
com a atroz cabelleira postiça, com o
water-proof de grande roda; tudo
estava
all rigth... Achou-a
n'esse instante ridicula, reles, estupida... Oh, era claro como a luz
que não ia, que nunca iria, jámais! Mas tinha
d'apparecer na estação de Santa Apolonia,
balbuciar uma desculpa tosca, assistir á sua
desconsolação, vêr-lhe os olhos
marejados de lagrimas. Que massada!... Teve-lhe odio.
Quando chegou á mesa do almoço Craft e Affonso,
já sentados, fallavam justamente do Gouvarinho, e dos
artigos que elle continuava gravemente a publicar no
Jornal do Commercio.
—Que besta essa! exclamou Carlos n'uma voz que sibilava, desabafando
sobre a litteratura politica do marido a colera que lhe davam as
importunidades amorosas da mulher.
Affonso e Craft olharam-n'o, pasmados de tanta violencia. E Craft
censurou-lhe a ingratidão. Porque, realmente, não
havia em toda a terra um enthusiasmo como o que aquelle desventuroso
homem d'estado tinha por Carlos...
—V. exc.
a não faz idéa,
snr. Affonso da Maia.
É um culto. É uma idolatria!
Carlos encolhia os hombros, impaciente. E Affonso, já bem
disposto para com o homem que assim admirava tão
prodigamente o seu neto, murmurou com bondade:
—Coitado, supponho que é inoffensivo...
Craft fez uma ovação ao velho:
—
Inoffensivo! Admiravel, snr.
Affonso da Maia!
Inoffensivo,
applicado a um homem
d'estado, a um par, a um ministro, a um legislador, é um
achado! E é com effeito o que elle é,
inoffensivo... E é o que
elles são...
—Chablis? murmurou o escudeiro.
—Não, tomo chá.
E acrescentou:
—Aquelle champagne que hontem bebemos nas corridas, por
patriotismo, arrasou-me... Tenho de me pôr uma semana a
regimen de leite.
Então fallou-se ainda das corridas, dos ganhos de Carlos, do
Clifford, e do véo azul do Damaso.
—Ora quem estava hontem muito bem vestida era a Gouvarinho, disse
Craft remexendo o seu chá. Ficava-lhe admiravelmente aquelle
branco creme, tocado de tons negros. Uma verdadeira toilette de
corridas...
C'était un œillet
blanc panaché de noir...
Vossê não achou, Carlos?
—Sim, rosnou Carlos, estava bem.
Outra vez a Gouvarinho! Parecia-lhe agora que não haveria na
sua vida conversa em que não
surgisse a Gouvarinho, e que não haveria caminho
na sua vida que o não
atravancasse a Gouvarinho! E alli mesmo, á mesa, decidiu
comsigo não a
tornar a vêr, escrever-lhe um bilhete curto, polido,
recusando-se a ir a Santarem, sem razões...
Mas no seu quarto, diante da folha de papel, fumou uma longa
cigarrette, sem achar phrase que não fosse pueril ou brutal.
Nem tinha a sympathia precisa para lhe dar o banal tratamento de
querida. Vinha-lhe até
por ella uma indefinida repulsão physica: devia ser
intoleravel toda uma noite o seu cheiro exagerado de verbena;—e
lembrava-se que aquella pelle do seu pescoço, que se lhe
afigurava outr'ora um setim, tinha um tom pegajoso, um tom amarellado,
para além da linha de pós d'arroz. Decidiu
não lhe escrever. Iria
á noite a Santa Apolonia, e no momento do comboio partir
correria á portinhola, a balbuciar fugitivamente uma
desculpa; não lhe daria tempo de choramigar, nem de
recriminar; um rapido aperto de mão, e adeus, para nunca
mais...
Á noite, porém, á hora de ir
á estação, que sacrificio em se
arrancar aos confortos da sua poltrona, e do seu charuto!... Atirou-se
para o coupé desesperado, maldizendo essa tarde no boudoir
azul em que, por causa d'uma rosa e d'um certo vestido côr de
folha morta que lhe ficava bem, elle se'achára cahido com
ella n'um sofá...
Ao chegar a Santa Apolonia faltavam, para a partida do expresso, dois
minutos. Precipitou-se para a extremidade da sala, já quasi
vazia áquella
hora, a comprar uma
admissão; e ainda ahi
esperou uma eternidade, vendo dentro do postigo duas mãos
lentas e molles arranjar laboriosamente os patacos d'um troco.
Penetrava emfim na sala d'espera—quando esbarrou com o Damaso, de
chapéo desabado e saccola de viagem a tiracollo. Damaso
agarrou-lhe as mãos, enternecido:
—Ó menino! pois tiveste o incommodo?... E como soubeste tu
que eu partia?
Carlos não o desilludiu, balbuciando que lh'o dissera o
Taveira, que encontrára o Taveira...
—Pois eu estava mais longe d'uma d'estas! exclamou o Damaso. Esta
manhã, muito regalado na cama, quando me vem o telegramma...
Fiquei furioso! Isto é, imagina tu como eu fiquei, um
desgosto assim!...
Foi então que Carlos reparou que elle estava carregado de
luto, com fumo no chapéo, luvas pretas, polainas pretas,
barra preta no lenço... Murmurou, embaraçado:
—O Taveira disse-me que ias, mas não me disse mais nada...
Morreu-te alguem?
—Meu tio Guimarães.
—O communista? o de Paris?
—Não, o irmão d'elle, o mais velho, o de
Penafiel... Espera ahi que eu volto já, vou alli ao
café encher o frasco de cognac. Com a
afflicção esquecia-me o cognac...
Ainda estavam chegando passageiros, esbaforidos,
de guarda-pó, com
chapeleiras na mão. Os guardas rolavam pachorrentamente as
bagagens. D'uma portinhola, onde se exhibia um cavalheiro barrigudo,
com um bonet bordado a retroz, pendia todo um cacho d'amigos politicos,
respeitosamente e em silencio. A um canto uma senhora
soluçava por baixo do véo.
Carlos, vendo um wagon com a papeleta de
reservado, imaginou lá a
condessa. Um guarda precipitou-se, furioso, como se visse a
profanação d'um santuario. Que queria elle, que
queria elle d'alli? Não sabia que era o
reservado do snr. Carneiro?
—Não sabia.
—Perguntasse, devia saber! ficou o outro a resmungar, ainda tremulo.
Carlos correu ainda outros wagons, onde a gente se apinhava,
atabafadamente, na amontoação dos embrulhos;
n'um, dois sujeitos, a proposito de lugares, tratavam-se de
malcriados; adiante,
uma criança esperneava no collo da ama, aos gritos.
—Ó menino, quem diabo andas tu a procurar? exclamou Damaso
alegremente, surgindo por traz d'elle, e passando-lhe o
braço pela cinta.
—Ninguem... Imaginei que tinha visto o marquez.
Immediatamente Damaso queixou-se d'aquella lúgubre massada
de ter d'ir a Penafiel!
—E então agora que eu precisava tanto estar em Lisboa! Que
tenho andado com uma sorte para mulheres, menino!... Uma sorte damnada!
Uma sineta badalou. Damaso deu logo um abraço terno a
Carlos, saltou para o seu wagon, enterrou na cabeça um
barretinho de sêda—e depois
debruçado da portinhola continuou ainda as confidencias. O
que mais o contrariava era deixar aquelle arranjinho da rua de S.
Francisco. Que ferro! agora que aquillo ia tão bem, o gajo
no Brazil, e ella alli, á mão, a dois passos do
Gremio!...
Carlos mal o escutava, distrahido, olhando o grande relogio
transparente. De repente Damaso, á portinhola, deu um salto
de surpreza:
—Olha os Gouvarinhos!
Carlos deu um salto tambem. O conde, de côco de viagem, de
paletot alvadio, sem se apressar, como competia a um director da
Companhia, vinha conversando com um empregado superior da
estação, agaloado de ouro, que se
encarregára da chapeleira de papelão de s. exc.
a
E a condessa, com um rico guarda-pó de foulard côr
de castanho, um véo cinzento que lhe cobria a face e o
chapéo, seguia atraz, com a criada escosseza, trazendo na
mão um ramo de rosas.
Carlos correu para elles, foi todo um assombro.
—Por aqui, Maia?
—De viagem, conde?
É verdade. Decidira acompanhar a condessa ao Porto, aos
annos do papá... Resolução
da ultima hora, quasi iam perdendo o comboio.
—Então temol-o por companheiro, Maia? Teremos esse grande
prazer, Maia?
Carlos contou rapidamente que viera apenas apertar a mão ao
pobre Damaso, de jornada para Penafiel, por causa da morte do tio.
Debruçado da portinhola, com as mãos de
fóra calçadas de negro, o pobre Damaso estava
saudando a senhora condessa, gravemente, funebremente. E o bom
Gouvarinho não quiz deixar de lhe ir dar logo o seu
shake-hands e o seu
pezame.
Sósinho n'esse curto instante com a condessa, Carlos
murmurou apenas:
—Que ferro!
—Este maldito homem! exclamou ella, entre dentes, com um olhar que
fuzilou através do véo. Tudo tão bem
arranjado, e á ultima hora teima em vir!...
Carlos acompanhou-os até ao
reservado, n'um outro wagon que se
estivera mettendo de novo para s. exc.
a A
condessa tomou o lugar do
canto junto da portinhola. E como o conde, n'um tom de polidez acida, a
aconselhava a que se sentasse antes com o rosto para a machina, ella
teve um gesto de aborrecimento, atirou o ramo para o lado
desabridamente, enterrou-se com mais força na almofada; e um
duro olhar de colera passou entre ambos. Carlos, embaraçado,
perguntava:
—Então vão com demora?
O conde respondeu, sorrindo, disfarçando o seu mau humor:
—Sim, talvez duas semanas, umas pequeninas ferias.
—Tres dias, o mais, replicou ella n'uma voz fria e afiada como uma
navalha.
O conde não respondeu, livido.
Todas as portinholas agora estavam fechadas, um silencio cahira sobre a
plataforma. O apito da machina varou o ar; e o comprido trem, n'um
ruido secco de freios retesados, começou a rolar, com gente
ás portinholas, que ainda se debruçava,
estendendo a mão para um ultimo aperto. Aqui e
além esvoaçava um lenço branco. O
olhar da condessa para o lado de Carlos teve a doçura de um
beijo, o Damaso gritou saudades para o Ramalhete. O compartimento do
correio resvalou, alumiado; e com outro dilacerante silvo o comboio
mergulhou na noite...
Carlos, só, dentro do coupé, voltando
á Baixa, sentia uma alegria triumphante com aquella partida
da condessa, e a inesperada jornada do Damaso. Era como uma
dispersão providencial de todos os importunos: e assim se
fazia em torno da rua de S. Francisco uma solidão—com todos
os seus encantos, e todas as suas cumplicidades.
No caes do Sodré deixou a carruagem, subiu a pé
pelo Ferregial, veio passar diante das janellas na rua de S. Francisco.
Só pôde vêr uma
vaga tira de claridade entre as portadas meio cerradas. Mas isto
bastava-lhe. Podia agora imaginar com precisão o
serão calmo que ella estava passando
na larga sala de reps vermelho. Sabia
o nome dos livros que ella lia, e as partituras que tinha sobre o
piano; e as flôres que espalhavam alli o seu aroma vira-as
elle arranjar n'essa manhã. Poria ella um instante o seu
pensamento n'elle? Decerto; a doença em casa
forçava-a a lembrar as horas do remedio, as
explicações que elle dera, e o som da
sua voz; e fallando com miss Sarah pronunciaria decerto o seu nome.
Duas vezes percorreu a rua de S. Francisco; e recolheu para casa, sob a
noite estrellada, devagar, ruminando a doçura d'aquelle
grande amor.
Então todos os dias, durante semanas, teve essa hora
deliciosa, esplendida, perfeita, «a visita á
ingleza».
Saltava do leito, cantando como um canario, e penetrava no seu dia como
n'uma acção triumphal. O correio chegava; e
invariavelmente lhe trazia uma carta da Gouvarinho, tres folhas de
papel d'onde cahia sempre alguma pequena flôr meio murcha.
Elle deixava ficar a flôr no tapete: e mal podia dizer o que
havia n'aquellas longas linhas cruzadas. Sabia apenas vagamente que,
tres dias depois d'ella chegar ao Porto, o pai, o velho Thompson,
tivera uma apoplexia. Ella lá estava, d'enfermeira. Depois,
levando duas ou tres bellas flôres
do jardim embrulhadas n'um papel
de sêda, partia para a rua de S. Francisco, sempre no seu
coupé—porque o tempo mudára, e os dias
seguiam-se, tristonhos, cheios de sudoeste e de chuva.
Á porta o Domingos acolhia-o com um sorriso cada vez mais
enternecido.
Niniche
corria de dentro, a pular d'amizade; elle erguia-a nos
braços para a beijar. Esperava um instante na sala, de
pé, saudando com o olhar os moveis, os ramos, a clara ordem
das coisas; ia examinar no piano a musica que ella tocára
essa manhã, ou o livro que
deixára interrompido, com a faca de marfim entre as folhas.
Ella entrava. O seu sorriso ao dar-lhe os bons dias, a sua voz d'ouro
tinham cada dia para Carlos um encanto novo e mais penetrante. Trazia
ordinariamente um vestido escuro e simples: apenas ás vezes
uma gravata de rica renda antiga, ou um cinto cuja fivella era
cravejada de pedras, avivavam este traje sobrio, quasi severo, que
parecia a Carlos o mais bello, e como uma expressão do seu
espirito.
Começavam por fallar de miss Sarah, d'aquelle tempo agreste
e humido que lhe era tão desfavoravel. Conversando, ainda de
pé, ella dava aqui e além um arranjo melhor a um
livro, ou ia mover uma cadeira que não estava no seu alinho;
tinha o habito inquieto de recompôr constantemente a symetria
das coisas;—e, machinalmente, ao passar, sacudia a superficie de
moveis
já
perfeitamente espanejados com as magnificas rendas do seu
lenço.
Agora acompanhava-o sempre ao quarto de miss Sarah. Pelo corredor
amarello, caminhando ao seu lado, Carlos perturbava-se sentindo a
caricia d'esse intimo perfume em que havia jasmim, e que parecia sahir
do movimento das suas saias. Ella ás vezes abria
familiarmente a porta de um quarto, apenas mobilado com um velho
sofá: era alli que Rosa brincava, e que tinha os arranjos de
Cri-cri, as carruagens de Cri-cri, a cozinha de Cri-cri. Encontravam-na
vestindo e conversando profundamente com a boneca; ou então,
ao canto do sofá, com os pésinhos cruzados,
immovel, perdida na admiração d'algum livro
d'estampas aberto sobre os joelhos. Ella corria, estendia a boquinha a
Carlos; e toda a sua pessoa tinha a frescura de uma linda
flôr.
No quarto da governante, Maria Eduarda sentava-se aos pés do
leito branco; e logo a pobre miss Sarah, ainda cheia de tosse, confusa,
verificando a cada instante se o lenço de sêda lhe
cobria correctamente o pescoço, affirmava que estava boa.
Carlos gracejava com ella, provando-lhe que n'esse feio tempo
d'inverno, a felicidade era estar alli na cama, com bons cuidados em
redor, alguns romances patheticos, e appetitosa dieta portugueza. Ella
voltava os olhos gratos para Madame, com um suspiro. Depois murmurava:
—
Oh yes, I am very comfortable!
E enternecia-se.
Logo nos primeiros dias, ao voltar á sala, Maria Eduarda
tinha-se sentado na sua cadeira escarlate, e, conversando com Carlos,
retomára muito naturalmente o seu bordado como na
presença familiar de um velho amigo. Com que felicidade
profunda elle viu desdobrar-se essa talagarça! Devia ser um
faisão de plumagens rutilantes: mas por ora só
estava bordado o galho de macieira em que elle pousava, galho fresco de
primavera, coberto de florzinhas brancas, como n'um pomar da Normandia.
Carlos, junto da linda secretariasinha de pau preto, occupava a mais
velha, a mais commoda das poltronas de reps vermelho, cujas molas
rangiam de leve. Entre elles ficava a mesa de costura com as
Illustrações
ou algum jornal de modas; ás vezes, um instante calado, elle
folheava as gravuras, em quanto as lindas mãos de Maria, com
brilhos de joias, iam puxando os fios de lã. Aos
pés d'ella
Niniche
dormitava,
espreitando-os a espaços, através das repas do
focinho, com o seu bello olho grave e negro. E n'esses escuros dias de
chuva, cheios de friagem lá fóra e do rumor das goteiras,
aquelle canto da janella, com a paz do vagaroso trabalho na
talagarça, as vozes lentas e amigas, e ás vezes
um dôce silencio, tinha um ar intimo e carinhoso...
Mas no que diziam não havia intimidades. Fallavam de Paris e
do seu encanto, de Londres onde
ella estivera durante quatro
lugubres mezes de inverno, da Italia que era o seu sonho vêr,
de livros, de coisas d'arte. Os romances que preferia eram os de
Dickens; e agradava-lhe menos Feuillet, por cobrir tudo de
pó d'arroz, mesmo as feridas do
coração. Apesar de educada n'um convento severo
d'Orleans, lêra Michelet e lêra Renan. De resto
não era catholica praticante; as igrejas apenas a attrahiam
pelos lados graciosos e artisticos do culto, a musica, as luzes, ou os
lindos mezes de Maria, em França, na doçura das
flôres de maio. Tinha um pensar muito recto e muito
são—com um fundo de ternura que a inclinava para tudo o que
soffre e é fraco. Assim gostava da Republica por lhe parecer
o regimen em que ha mais solicitude pelos humildes. Carlos provava-lhe
rindo que ella era socialista.
—Socialista, legitimista, orleanista, dizia ella, qualquer coisa,
comtanto que não haja gente que tenha fome!
Mas era isso possivel? Já Jesus, mesmo, que tinha
tão dôces illusões,
declarára que pobres sempre os haveria...
—Jesus viveu ha muito tempo, Jesus não sabia tudo... Hoje
sabe-se mais, os senhores sabem muito mais... É necessario
arranjar-se outra sociedade, e depressa, em que não haja
miseria. Em Londres, ás vezes, por aquellas grandes neves,
ha criancinhas pelos portaes a tiritar, a gemer de fome... É
um horror! E em Paris então! É que
se não vê
senão o boulevard; mas quanta
pobreza, quanta necessidade...
Os seus bellos olhos quasi se enchiam de lagrimas. E cada uma d'estas
palavras trazia todas as complexas bondades da sua alma—como n'um
só sopro podem vir todos os aromas esparsos de um jardim.
Foi um encanto para Carlos quando Maria o associou ás suas
caridades, pedindo-lhe para ir
vêr a irmã da sua engommadeira que tinha
rheumatismo, e o filho da snr.
a Augusta, a velha
do patamar, que
estava tisico. Carlos cumpria esses encargos com o fervor de
acções religiosas. E n'estas piedades achava-lhe
semelhanças com o avô. Como Affonso, todo o
soffrimento dos animaes a consternava. Um dia viera indignada da
Praça da Figueira, quasi com idéas de
vingança, por ter visto nas tendas dos gallinheiros aves e
coelhos apinhados em cestos, soffrendo durante dias as torturas da
immobilidade e a anciedade da fome. Carlos levava estes bellas coleras
para o Ramalhete, increpava violentamente o marquez, que era membro da
Sociedade protectora dos animaes.
O marquez, indignado tambem, jurava justiça,
fallava em
cadêas, em costa d'Africa... E Carlos, commovido,
ficava a pensar quanta larga e distante influencia póde ter,
mesmo isolado de tudo, um
coração que é justo.
Uma tarde fallaram do Damaso. Ella achava-o insupportavel, com a sua
petulancia, os olhos bugalhudos,
as perguntas nescias. V. exc.
a acha
Nice elegante? V.
exc.
a prefere a capella de S. João
Baptista a
Notre-Dame?...
—E então a insistencia de fallar de pessoas que eu
não conheço! A snr.
a
condessa de Gouvarinho, e
os chás da snr.
a condessa de
Gouvarinho, e a frisa da
snr.
a condessa de Gouvarinho, e a preferencia
que a snr.
a condessa de
Gouvarinho tem por elle... E isto horas! Eu ás vezes tinha
medo de adormecer...
Carlos fez-se escarlate. Porque trouxera ella, entre todos, o nome da
Gouvarinho? Tranquillisou-se, vendo-a rir simples e limpidamente.
Decerto não sabia quem era Gouvarinho. Mas, para sacudir
logo d'entre elles esse nome, começou a fallar de Mr.
Guimarães, o famoso tio do Damaso, o amigo de Gambetta, o
influente da Republica...
—O Damaso tem-me dito que v. exc.
a o conhece
muito...
Ella erguera os olhos, com um fugitivo rubor no rosto.
—Mr. Guimarães?... Sim, conheço muito...
Ultimamente viamo-nos menos, mas elle era muito amigo da
mamã.
E depois d'um silencio, d'um curto sorriso, recomeçando a
puxar o seu longo fio de lã:
—Pobre Guimarães, coitado! A sua influencia na Republica
é traduzir noticias dos jornaes hespanhoes e italianos para
o
Rappel, que d'isso é que vive...
Se é amigo de Gambetta, não sei, Gambetta
tem amigos tão extraordinarios... Mas o
Guimarães, aliás bom homem e homem honrado,
é um grutesco, uma especie de Calino republicano. E
tão pobre, coitado! O Damaso, que é rico, se
tivesse decencia, ou o menor sentimento, não o deixava viver
assim tão miseravelmente.
—Mas então essas carruagens do tio, esse luxo do tio, de
que falla o Damaso...?
Ella encolheu mudamente os hombros; e Carlos sentiu pelo Damaso um asco
intoleravel.
Pouco a pouco nas suas conversas foi havendo uma intimidade mais
penetrante. Ella quiz saber a idade de Carlos, elle fallou-lhe do
avô. E durante essas horas suaves em que ella, silenciosa, ia
picando a talagarça, elle contou-lhe a sua vida passada, os
planos de carreira, os amigos, e as viagens... Agora ella conhecia a
paizagem de Santa Olavia, o reverendo Bonifacio, as
excentricidades do Ega. Um dia quiz que Carlos lhe explicasse
longamente a idéa do seu livro
A medicina
antiga e moderna. Approvou, com sympathia, que elle
pintasse as figuras dos grandes medicos, bemfeitores da
humanidade. Porque se glorificariam só guerreiros e fortes?
A vida salva a uma criança parecia-lhe coisa bem mais bella
que a batalha de Austerlitz. E estas palavras que dizia com
simplicidade, sem mesmo erguer os olhos do seu bordado, cahiam no
coração de Carlos e ficavam
lá muito tempo, palpitando e brilhando...
Elle tinha-lhe feito assim largamente todas as
confissões;—e ainda não sabia nada do seu
passado, nem mesmo a terra em que nascera, nem sequer a rua que
habitava em Paris. Não lhe ouvira murmurar jámais
o nome do marido, nem fallar d'um amigo ou d'uma alegria da sua casa.
Parecia não ter em França, onde vivia, nem
interesses, nem lar;—e era realmente como a deusa que elle
ideára, sem contactos anteriores com a terra, descida da sua
nuvem d'oiro para vir ter alli, n'aquelle andar alugado da rua de S.
Francisco, o seu primeiro estremecimento humano.
Logo na primeira semana das visitas de Carlos tinham faltado
d'affeições. Ella acreditava
candidamente que podesse haver, entre uma mulher e um homem, uma
amizade pura, immaterial, feita da concordancia amavel de dois
espiritos delicados. Carlos jurou que tambem tinha fé
n'essas bellas uniões, todas d'estima, todas de
razão—comtanto que se lhes misturasse, ao de leve que
fosse, uma ponta de ternura... Isso perfumava-as d'um grande encanto—e
não lhes diminuia a sinceridade. E, sob estas palavras um
pouco diffusas, murmuradas por entre as malhas do bordado e com lentos
sorrisos, ficára subtilmente estabelecido que entre elles
só deveria haver um sentimento assim, casto, legitimo, cheio
de suavidade e sem tormentos.
Que importava a Carlos? Comtanto que podesse passar aquella hora na
poltrona de cretone,
contemplando-a a bordar, e conversando em coisas interessantes, ou
tornadas interessantes pela graça da sua pessoa; comtanto
que visse o seu rosto, ligeiramente córado, baixar-se, com a
lenta
attracção d'uma caricia, sobre as
flôres que lhe trazia; comtanto que lhe afagasse a alma a
certeza de que o pensamento d'ella o ficava seguindo sympathicamente
através do seu dia, mal elle deixava aquella adorada sala de
reps vermelho—o seu coração estava satisfeito,
esplendidamente.
Não pensava mesmo que aquella ideal amizade,
d'intenção casta, era o caminho mais seguro para
a trazer, brandamente enganada, aos seus braços ardentes
d'homem. No deslumbramento que o tomára ao vêr-se
de repente admittido a uma
intimidade que julgára impenetravel,—os seus desejos
desappareciam: longe d'ella, ás vezes, ainda ousavam ir
temerariamente até á
esperança d'um beijo, ou d'uma fugitiva caricia com a ponta
dos dedos; mas apenas transpunha a sua porta, e recebia o calmo raio do
seu olhar negro, cahia em devoção, e julgaria um
ultraje bestial
roçar sequer as prégas do seu vestido.
Foi aquelle decerto o periodo mais delicado da sua vida. Sentia em si
mil coisas finas, novas, d'uma tocante frescura. Nunca
imaginára que houvesse tanta felicidade em olhar para as
estrellas quando o céo está limpo; ou em descer
de manhã ao jardim para escolher uma rosa mais
aberta. Tinha na alma um constante
sorriso—que os seus labios repetiam. O marquez achava-lhe o ar baboso
e abençoador...
Ás vezes, passeando só no seu quarto, perguntava
a si mesmo onde o levaria aquelle grande amor. Não sabia.
Tinha diante de si os tres mezes em que ella estaria em Lisboa, e em
que ninguem mais senão elle occuparia a velha cadeira ao
lado do seu bordado. O marido andava longe, separado por legoas de mar
incerto. Depois elle era rico, e o mundo era largo...