—Ah! é essa a maneira por que respondes á
minha carta, Luiza?
—E tu, é esse o modo com que me recebes?
Olharam-se um momento, detestando-se.
—Bem, queres uma questão? És como as outras.
—Que outras?
E toda escandalisada:
—Ah! é de mais! Adeus!
Ia sahir.
—Vaes-te, Luiza?
—Vou. É melhor acabarmos por uma vez...
Elle segurou o fecho da porta rapidamente.
—Fallas serio, Luiza?
—De certo. Estou farta!
—Bem. Adeus.
Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se
silenciosamente.
Ella deu um passo, e Bazilio com a voz um pouco
tremula:
—Então, é para sempre? Nunca mais?
Luiza parou, branca. Aquella triste palavra
nunca
mais deu-lhe uma saudade, uma commoção. Rompeu
a chorar.
As lagrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia
tão dolorida, tão fragil, tão desamparada!...
Bazilio cahiu-lhe aos pés: tinha tambem os olhos
humidos.
—Se tu me deixares, morro!
Os seus labios uniram-se n'um beijo profundo,
longo, penetrante. A excitação dos nervos deu-lhes
momentaneamente a sinceridade da paixão; e foi
uma manhã deliciosa.
Ella prendia-o nos braços nús, pallida como cêra,
balbuciava:
—Não me deixas nunca, não?
—Juro-t'o! Nunca, meu amor!
Mas fazia-se tarde, era necessario ir-se! E a mesma
idéa de certo acudiu-lhes—porque se olharam
avidamente, e Bazilio murmurou:
—Se podesses aqui passar a noite!
Ella disse aterrada, quasi supplicante:
—Oh! não me tentes, não me tentes...
Bazilio suspirou, disse:
—Não, é uma tolice. Vai.
Luiza começou a arranjar-se, á pressa. E de repente,
parando, com um sorriso:
—Sabes tu uma cousa?
—O que, meu amor?
—Estou a cahir com fome! Não almocei nada,
estou a cahir!
Elle ficou desolado:
—Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse...
—Que horas são, filho?
Bazilio viu o relogio, disse quasi envergonhado:
—Sete!
—Ai, Santo Deus!
Punha o chapéo, o véo, atrapalhadamente:
—Que tarde! Jesus! Que tarde!
—E ámanhã, quando?
—Á uma.
—Com certeza?
—Com certeza.
Ao outro dia foi muito pontual. Bazilio veio esperal-a
ao fundo da escada; e apenas entraram no
quarto, devorando-a de beijos:
—Que me fizeste tu? Desde hontem que estou
doudo!
Mas Luiza estava muito intrigada com um cesto
que via em cima da cama.
—Que é aquillo?
Elle sorriu, levou-a pela mão junto da barra de
ferro, e destampando o cesto, com uma cortezia
grave:
—Provisões, festins, bacchanaes! Não dirás depois
que tens fome!
Era um
lunch. Havia sandwichs, um
pâté de
foie
gras, fruta, uma garrafa de champagne, e, envolto
em flanella, gelo.
—É brilhante!—disse ella, com um sorriso
quente, rubra de prazer.
—Foi o que se pôde arranjar, minha querida
prima! Já vê que pensei em si!
Pôz o cesto no chão, e vindo para ella com os
braços abertos:
—E tu pensaste em mim, meu amor?
Os olhos d'ella responderam—e a pressão apaixonada
dos seus braços.
Ás tres horas lancharam. Foi delicioso; tinham
estendido um guardanapo sobre a cama; a louça tinha
a marca do Hotel Central; aquillo parecia a
Luiza muito estroina, adoravel—e ria de sensualidade,
fazendo tilintar os pedacinhos de gelo contra
o vidro do copo, cheio de
champagne. Sentia uma
felicidade exuberante que transbordava em gritinhos,
em beijos, em toda a sorte de gestos buliçosos. Comia
com gula; e eram adoraveis os seus braços nús
movendo-se por cima dos pratos.
Nunca achára Bazilio tão bonito; o quarto mesmo
parecia-lhe muito conchegado para aquellas intimidades
da paixão; quasi julgava possivel viver alli,
n'aquelle cacifro, annos, feliz com elle, n'um amor
permanente, e
lunchs ás tres horas... Tinham as
pieguices classicas: mettiam-se bocadinhos na bocca;
ella ria com os seus dentinhos brancos; bebiam pelo
mesmo copo, devoravam-se de beijos,—e elle
quiz-lhe ensinar então a verdadeira maneira de beber
champagne. Talvez ella não soubesse!
—Como é?—perguntou Luiza erguendo o copo.
—Não é com o copo! Horror! Ninguem que se
preza bebe
champagne por um copo. O copo é bom
para o Collares...
Tomou um gole de
champagne, e n'um beijo
passou-o para a bocca d'ella. Luiza riu muito, achou
«divino», quiz beber mais assim. Ia-se fazendo vermelha,
o olhar luzia-lhe.
Tinham tirado os pratos da cama; e sentada á
beira do leito, os seus pésinhos calçados n'uma meia
côr de rosa pendiam, agitavam-se, em quanto um
pouco dobrada sobre si, os cotovêlos sobre o regaço,
a cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa
a graça languida d'uma pomba fatigada.
Bazilio achava-a irresistivel: quem diria que uma
burguezinha podia ter tanto
chic, tanta
queda? Ajoelhou-se,
tomou-lhe os pésinhos entre as mãos, beijou-lh'os;
depois, dizendo muito mal das ligas «tão
feias, com fechos de metal», beijou-lhe respeitosamente
os joelhos; e então fez-lhe baixinho um pedido.
Ella córou, sorriu, dizia: não! não!—E quando
sahiu do seu delirio tapou o rosto com as mãos,
toda escarlate, murmurou reprehensivamente:
—Oh Bazilio!
Elle torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinára-lhe
uma sensação nova: tinha-a na mão!
Só ás seis horas se desprendeu dos seus braços.
Luiza fez-lhe jurar que havia de pensar n'ella toda
a noite:—não queria que elle sahisse; tinha ciumes
do Gremio, do ar, de tudo! E já no patamar
voltava, beijava-o, louca, repetia:
—E ámanhã mais cedo, sim? para estarmos todo
o dia.
—Não vaes vêr a D. Felicidade?
—Que me importa a D. Felicidade! Não me importa
ninguem! Quero-te a ti! só a ti!
—Ao meio dia?
—Ao meio dia!
Quanto lhe pezou á noite a solidão do seu quarto!
Tinha uma impaciencia que a impellia a prolongar
a excitação da tarde, agitar-se. Ainda quiz lêr,
mas bem depressa arremessou o livro: as duas velas
accesas sobre o toucador pareciam-lhe lugubres;
foi vêr a noite,—estava tepida e serena. Chamou
Juliana:
—Vá pôr um chale, vamos a casa da snr.
a D.
Leopoldina.
Quando chegaram foi a Justina que veio abrir,
depois d'uma grande demora, esguedelhada, em
chambre branco. Pareceu muito espantada:
—A senhora foi p'ra o Porto!
—P'ra o Porto!
Sim. Demorava-se quinze dias.
Luiza ficou muito desconsolada. Mas não queria
voltar, o seu quarto solitario aterrava-a.
—Vamos um bocado até alli abaixo, Juliana. A
noite está tão bonita!
—Rica, minha senhora!
Foram pela rua de S. Roque. E como guiados pelas
duas linhas de pontos de gaz, que desciam a
rua do Alecrim, o seu pensamento, o seu desejo foram
logo para o
Hotel Central.
Estaria em casa? Pensaria n'ella? Se podesse ir
surprehendel-o de repente, atirar-se-lhe aos braços,
vêr as suas malas... Aquella idéa fazia-a arfar. Entraram
na praça de Camões. Gente passeava devagar;
sob a sombra mais escura que faziam as arvores
cochichava-se pelos bancos; bebia-se agua fresca;
claridades cruas de vidraças, de portas de lojas destacavam
em redor no tom escuro da noite: e no rumor
lento das ruas em redor, sobresahiam as vozes
agudas dos vendedores de jornaes.
Então um sujeito com um chapéo de palha passou
tão rente d'ella, tão intencionalmente que Luiza teve
medo.—Era melhor voltarem—disse.
Mas ao meio da rua de S. Roque o chapéo de
palha reappareceu, roçou quasi o hombro de Luiza;
dous olhos repolhudos dardejaram sobre ella.
Luiza ia desesperada: o tic-tac das suas botinas
batia vivamente a lage do passeio; de repente, ao
pé de S. Pedro d'Alcantara, de sob o chapéo de palha
sahiu uma voz adocicada e brazileira, dizendo-lhe
junto ao pescoço:
—Aonde mora, ó menina?
Agarrou aterrada o braço de Juliana.
A voz repetiu:
—Não se agaste, menina, aonde mora?
—Seu malcriado!—rugiu Juliana.
O chapéo de palha immediatamente desappareceu
entre as arvores.
Chegaram a casa a arquejar. Luiza tinha vontade
de chorar; deixou-se cahir na
causeuse, esfalfada,
infeliz. Que imprudencia, pôr-se a passear pelas
ruas de noite, com uma criada! Estava douda, desconhecia-se.
Que dia aquelle! E recordava-o desde
pela manhã: o
lunch, o
champagne
bebido pelos beijos
de Bazilio, os seus delirios libertinos, que vergonha!
e ir a casa de Leopoldina, de noite, e ser tomada
na rua por uma mulher do Bairro Alto!... De
repente lembrou-lhe Jorge no Alemtejo trabalhando
por ella, pensando n'ella... Escondeu o rosto entre
as mãos, detestou-se, os seus olhos humedeceram-se.
Mas na manhã seguinte acordou muito alegre.
Sentia, sim, uma vaga vergonha de todas as suas
«tolices» da vespera, e como a sensação indefinida,
palpite ou presentimento, de que não devia ir ao
Paraiso.
O seu desejo, porém, que a impellia para lá
vivamente, forneceu-lhe logo razões: era desapontar
Bazilio, a não ir hoje não devia voltar, e então romper...
Além d'isso a manhã muito linda attrahia
para a rua: chovera de noite, o calor cedera; havia
nos tons da luz e do azul uma frescura lavada e
dôce.
E ás onze e meia descia o Moinho de Vento,
quando viu a figura digna do conselheiro Accacio que
subia da rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol fechado,
a cabeça alta.
Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente:
—Que encontro verdadeiramente feliz!...
—Como está, Conselheiro? Ditosos olhos que o
vêem!
—E v. exc.
a, minha senhora? Vejo-a com excellente
aspecto!
Passou-lhe á esquerda com um movimento solemne,
pôz-se a caminhar ao lado d'ella.
—Permitte-me de certo que a acompanhe na sua
excursão?
—De certo, com o maior prazer. Mas que tem
feito? Tenho muito que lhe ralhar...
—Estive em Cintra, minha querida senhora.—E
parando:—Não sabia? O
Diario de Noticias
especificou-o!
—Mas depois de vir de Cintra?
Elle acudiu:
—Ah! tenho estado occupadissimo! Occupadissimo!
Inteiramente absorvido na compilação de certos
documentos que me eram indispensaveis para o
meu livro...—E depois d'uma pausa:—Cujo nome
não ignora, creio.
Luiza não se recordava inteiramente. O Conselheiro
então expôz o titulo, os fins, alguns nomes de
capitulos, a utilidade da obra: era a
Descripção pitoresca
das principaes cidades de portugal e
seus mais famosos estabelecimentos.
—É um guia, mas um guia scientifico. Illustrarei
com um exemplo: V. exc.
a quer ir a Bragança:
sem o meu livro é muito natural (direi, é certo) que
volta sem ter gozado das curiosidades locaes; com o
meu livro percorre os edificios mais notaveis, recolhe
um fundo muito solido d'instrucção, e tem ao
mesmo tempo o prazer.
Luiza mal o escutava, sorrindo vagamente sob o
seu véo branco.
—Está hoje muito agradavel!—disse ella.
—Agradabilissimo! Um dia creador!
—Que bom fresco aqui!
Tinham entrado em S. Pedro d'Alcantara; um ar
dôce circulava entre as arvores mais verdes; o chão
compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira humidade;
e, apesar do sol vivo, o céo azul parecia leve e
muito remoto.
O Conselheiro então fallou do estio; tinha sido
torrido! na sua sala de jantar tinha havido 48 graus
á sombra! 48 graus!—E com bonhomia, querendo
logo desculpar a sala d'aquella exageração canicular:—Mas
é que está exposta ao sul! façamos essa justiça!
Está muito exposta ao sul. Hoje porém está verdadeiramente
restaurador.
Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no
jardim. Luiza hesitava. E o Conselheiro puxando o
relogio, fitando-o de longe, declarou logo que ainda
não era meio dia. Estava certo pelo Arsenal, era um
relogio inglez.—Muito preferiveis aos suissos!—acrescentou
com ar profundo.
Cobardemente, por inercia, enervada pela voz
pomposa do Conselheiro, Luiza foi descendo, contrariada,
as escadinhas para o jardim. De resto—pensava—tinha
tempo, tomaria um trem...
Foram encostar-se ás grades. Através dos varões
viam, descendo n'um declive, telhados escuros, intervallos
de pateos, cantos de muro com uma ou outra
magra verdura de quintal resequido; depois, no
fundo do valle, o Passeio estendia a sua massa de
folhagem prolongada e oblonga, onde a espaços branquejavam
pedaços da rua areada. Do lado de lá erguiam-se
logo as fachadas inexpressivas da rua Oriental,
recebendo uma luz forte que fazia faiscar as vidraças:
por traz iam-se elevando no mesmo plano
terrenos d'um verde crestado fechados por fortes muros
sombrios, a cantaria da Encarnação de um amarello
triste, outras construcções separadas, até ao
alto da Graça coberta d'edificios ecclesiasticos, com
renques de janellinhas conventuaes e torres d'igrejas,
muito brancas sobre o azul: e a Penha de
França, mais para além, punha em relevo o vivo do
muro caiado, d'onde sobresahia uma tira verde-negra
d'arvoredo. Á direita, sobre o monte pellado, o castello
assentava, atarracado, ignobilmente sujo: e a
linha muito quebrada de telhados, d'esquinas de casas
da Mouraria e d'Alfama descia com angulos bruscos
até ás duas pesadas torres da Sé, d'um aspecto
abbacial e secular. Depois viam um pedaço do rio,
batido da luz: duas velas brancas passavam devagar:
e na outra banda, á base de uma collina baixa
que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza
de casarias d'uma povoaçãosinha d'um branco de cré
luzidio. Da cidade um rumor grosso e lento subia,
onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar
dos carros de bois, a vibração metallica das carretas
que levam ferraria, e algum grito agudo de pregão.
—Grande panorama!—disse o Conselheiro com
emphase.—E encetou logo o elogio da cidade. Era
uma das mais bellas da Europa, de certo, e como
entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na
immenso. Fôra outr'ora um grande emporio,
e era uma pena que a canalisação fosse tão má, e a
edilidade tão negligente!
—Isto devia estar na mão dos inglezes, minha
rica senhora!—exclamou.
Mas arrependeu-se logo d'aquella phrase impatriotica.
Jurou que «era uma maneira de dizer».
Queria a independencia do seu paiz; morreria por
ella, se fosse necessario; nem inglezes nem castelhanos!...
Só nós, minha senhora!—E acrescentou
com uma voz respeitosa:—E Deus!
—Que bonito está o rio!—disse Luiza.
Accacio affirmou-se, e murmurou em tom cavo:
—O Tejo!
Quiz então dar uma volta pelo jardim. Sobre os
canteiros borboletas brancas, amarellas, esvoaçavam;
um gotejar d'agua fazia no tanque um rhythmosinho
de jardim burguez; um aroma de baunilha predominava;
sobre a cabeça dos bustos de marmore, que
se elevam d'entre os maciços e as moitas de dhalias,
passaros pousavam.
Luiza gostava d'aquelle jardimzinho, mas embirrava
com as grades tão altas...
—Por causa dos suicidios!—acudiu logo o Conselheiro.—E
todavia, segundo a sua opinião, os suicidios
em Lisboa diminuiam consideravelmente; attribuia
isso á maneira severa e muito louvavel como
a imprensa os condemnava...
—Porque em Portugal, creia isto, minha senhora,
a imprensa é uma força!
—Se fossemos andando...?—lembrou Luiza.
O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a a ir colher
uma flôr, reteve-lhe vivamente o braço:
—Ah, minha rica senhora, por quem é! os regulamentos
são muito explicitos! Não os infrinjamos,
não os infrinjamos!—E acrescentou:—O exemplo
deve vir de cima.
Foram subindo, e Luiza pensava:—Vai para casa,
larga-me ao Loreto.
Na rua de S. Roque espreitou o relogio d'uma
confeitaria: era meia hora depois do meio dia! Já
Bazilio esperava!
Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro
olhou-a, sorrindo, esperando.
—Ah! pensei que ia para casa, Conselheiro!
—Já agora quero acompanhal-a, se v. exc.
a m'o
permitte. De certo não sou indiscreto?
—Ora essa! De modo nenhum.
Uma carruagem da Companhia passava, seguida
d'um correio a trote.
O Conselheiro, com um movimento ancioso, tirou
profundamente o chapéo.
—É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me
um signal de dentro.—Começou logo o seu elogio:
Era o nosso primeiro parlamentar; vastissimo talento,
uma linguagem muito castigada!—E ia de certo
fallar das cousas publicas, mas Luiza atravessou para
os Martyres, erguendo um pouco o vestido por
causa d'uns restos de lama. Parou á porta da igreja,
e sorrindo:
—Vou aqui fazer uma devoçãosinha. Não o quero
fazer esperar. Adeus, Conselheiro, appareça.—Fechou
a sombrinha, estendeu-lhe a mão.
—Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se
vir que não se demora muito. Esperarei, não tenho
pressa.—E com respeito:—Muito louvavel esse
zelo!
Luiza entrou na igreja desesperada. Ficou de pé
debaixo do côro, calculando:—Demoro-me aqui, elle
cança-se d'esperar e vai-se! Por cima reluziam vagamente
os pingentes de crystal dos lustres. Havia
uma luz velada, igual, um pouco fôsca. E as architecturas
caiadas, a madeira muito lavada do soalho,
as balaustradas lateraes de pedra davam uma tonalidade
clara e alvadia, onde destacavam os dourados
da capella, os frontaes rôxos dos pulpitos, ao fundo
dous reposteiros d'um rôxo mais escuro, e sob o docel
côr de violeta os ouros do Throno. Um silencio
fresco e alto repousava. Diante do Baptisterio um rapaz
de joelhos, com um balde de zinco ao pé, esfregava
o chão com uma rodilha, discretamente: dorsos
de beatas, encapotados ou cobertos de chales tingidos,
curvavam-se, aqui e além, diante d'um altar:
e um velho, de jaqueta de saragoça, prostrado no
meio da igreja, rosnava rezas n'uma molopéa lugubre;
via-se a sua cabeça calva, as tachas enormes
dos sapatos, e a cada momento, dobrando-se, batia
no peito com desespero.
Luiza subiu ao altar-mór. Bazilio impacientava-se,
de certo, pobre rapaz! Perguntou então, timidamente,
as horas a um sacristão que passava. O homem
ergueu a sua face côr de cidra para uma janela
na cupula, e olhando Luiza de lado:
—Vai indo p'ra as duas.
Para as duas! Era capaz de não esperar, Bazilio!
Veio-lhe um receio de perder a sua manhã amorosa,
um desejo aspero de se achar no
Paraiso nos
braços d'elle! E olhava vagamente os santos, as virgens
trespassadas d'espadas, os Christos chagados,—cheia
de impaciencias voluptuosas, revendo o
quarto, a caminha de ferro, o pequeno bigode de
Bazilio!... Mas demorou-se, queria «fatigar o Conselheiro,
deixal-o ir». Quando pensou que elle teria
partido, sahiu devagarinho.—Viu-o logo á porta, direito,
com as mãos atraz das costas, lendo a pauta
dos jurados.
Começou immediatamente a louvar a sua devoção.
Não entrára porque não quizera perturbar o seu
recolhimento. Mas approvava-a muito! A falta de religião
era a causa de toda a immoralidade que grassava...
—E além d'isso é de boa educação. V. exc.
a
ha-de reparar que toda a nobreza cumpre...
Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de
descer o Chiado com aquella linda senhora, tão olhada.
Mesmo, ao passar por um grupo, curvou-se para
ella mysteriosamente, disse-lhe ao ouvido, sorrindo:
—Está um dia apreciavel!
E offereceu-lhe bolos á porta do Baltreschi. Luiza
recusou.
—Sinto. Todavia acho muito sensata a regularidade
nas comidas.
A sua voz vinha agora a Luiza com a impertinencia
d'um zumbido; apesar de não fazer calor,
abafava, picava-lhe o sangue no corpo; tinha vontade
de deitar a correr, de repente; e todavia caminhava
devagar, infeliz, como somnambula, cheia da
necessidade de chorar.
Sem razão, ao acaso, entrou no Valente. Era hora
e meia! Depois d'hesitar pediu gravatas de
foulard
a um caixeiro louro e jovial.
—Brancas? de côr? de riscas? com pintinhas?
—Sim, verei, sortidas.
Não lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-as,
punha-as de lado; e olhava em roda vagamente, pallida...
O caixeiro perguntou-lhe se estava incommodada:
offereceu-lhe agua, qualquer cousa...
Não era nada; o ar é que lhe fazia bem; voltaria.
Sahiu. O Conselheiro, muito solicito, promptificou-se
a acompanhal-a a uma boa pharmacia tomar
agua de flôr de laranja... Desciam então a rua Nova
do Carmo, e o Conselheiro ia affirmando que o
caixeiro fôra muito polido: não se admirava, porque
no commercio havia filhos de boas familias: citou
exemplos.
Mas vendo-a calada:
—Ainda soffre?
—Não, estou bem.
—Temos dado um delicioso passeio!
Foram ao comprido do Rocio, até ao fim. Voltaram,
atravessaram-no em diagonal. E pelo lado do
Arco do Bandeira, aproximaram-se para a rua do Ouro.
Luiza olhava em redor, afflicta, procurava uma
idéa, uma occasião, um acontecimento—e o Conselheiro,
grave a seu lado, dissertava. A vista do theatro
de D. Maria levára-o para as questões da arte
dramatica: tinha achado que a peça do Ernestinho
era talvez demasiado forte. De resto só gostava de
comedias. Não que se não enthusiasmasse com as
bellezas d'um
Frei Luiz de Sousa! mas a sua saude
não lhe permittia as agitações fortes. Assim por
exemplo...
Mas Luiza tivera uma idéa, e immediatamente:
—Ah! esquecia-me! Tenho d'ir ao Vitry. Vou fazer
chumbar um dente.
O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Luiza, estendendo-lhe
a mão, com a voz rapida:
—Adeus, appareça, hein?—E precipitou-se para
o portal do Vitry.
Subiu até ao primeiro andar, correndo, com os
vestidos apanhados: parou, arquejando: esperou:
desceu devagar, espreitou á porta... A figura do
Conselheiro afastava-se direita, digna, para os lados
das secretarias.
Chamou um trem.
—A quanto puder!—exclamou.
A carruagem entrou quasi a galope na ruasinha
do
Paraiso. Figuras pasmadas appareceram á janella.
Subiu, palpitante. A porta estava fechada—e logo
a cancella do lado abriu-se, e a voz dôce da patrôa
segredou:
—Já sahiu. Ha-de haver meia hora.
Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se
para o fundo do coupé, rompeu n'um chôro hysterico.
Correu os
stores para se esconder; arrancou o
véo, rasgou uma luva, sentindo em si violencias
inesperadas, Então veio-lhe um desejo phrenetico de
vêr Bazilio! Bateu nos vidros
desesperadamente,
gritou:
—Ao Hotel Central!
Porque estava n'um d'aquelles momentos em
que os temperamentos sensiveis teem impulsos indomaveis;
ha uma delicia colerica em espedaçar os
deveres e as conveniencias; e a alma procura sofregamente
o mal com estremecimentos de sensualidade!
A parelha estacou, resvalando á porta do hotel.
«O snr. Bazilio de Brito não estava, o snr. visconde
Reynaldo, sim».
—Bem, para casa, para onde eu disse!
O cocheiro bateu. E Luiza, sacudida por uma irritabilidade
febril, insultava o Conselheiro, o estafermo,
o imbecil! maldizia a vida que lh'os fizera conhecer,
a elle e a todos os amigos da casa! vinha-lhe
uma vontade acre de mandar o casamento ao diabo,
de fazer o que lhe viesse á cabeça!...
Á porta não tinha troco para o cocheiro. Espere!—disse,
subindo furiosa—Eu lhe mandarei pagar!
—Que bicha!—pensou o cocheiro.
Foi Joanna que veio abrir; e quasi recuou, vendo-a
tão vermelha, tão excitada.
Luiza foi direita ao quarto: o
cuco cantava tres
horas. Estava tudo desarrumado; vasos de plantas
no chão, o toucador coberto com um lençol velho,
roupa suja pelas cadeiras. E Juliana, com um lenço
amarrado na cabeça, varria tranquillamente, cantarolando.
—Então vossê ainda não arrumou o quarto!—gritou Luiza.
Juliana estremeceu áquella colera inesperada.
—Estava agora, minha senhora!
—Que estava agora vejo eu!—rompeu Luiza.
—São tres horas da tarde e ainda o quarto n'este
estado!
Tinha atirado o chapéo, a sombrinha.
—Como a senhora costuma vir sempre mais
tarde...—disse Juliana.
E seus beiços faziam-se brancos.
—Que lhe importa a que horas eu venho? Que
tem vossê com isso? A sua obrigação é arrumar logo
que eu me levante. E não querendo, rua, fazem-se-lhe
as contas!
Juliana fez-se escarlate e cravando em Luiza os
olhos injectados:
—Olhe, sabe que mais? não estou para a aturar!
E arremessou violentamente a vassoura.
—Sáia!—berrou Luiza—Sáia immediatamente!
Nem mais um momento em casa!
Juliana poz-se diante d'ella, e com palmadas convulsivas
no peito, a voz rouca:
—Hei-de sahir se eu quizer! Se eu quizer!
—Joanna!—bradou Luiza.
Queria chamar a cozinheira, um homem, um policia,
alguem! Mas Juliana descomposta, com o punho
no ar, toda a tremer:
—A senhora não me faça sahir de mim! A senhora
não me faça perder a cabeça!—E com a voz
estrangulada através dos dentes cerrados:—Olhe
que nem todos os papeis foram p'ra o lixo!
Luiza recuou, gritou:
—Que diz vossê?
—Que as cartas que a senhora escreve aos seus
amantes, tenho-as eu aqui!—E bateu na algibeira,
ferozmente.
Luiza fitou-a um momento com os olhos desvairados,
e cahiu no chão, junto á
causeuse, desmaiada.
VIII
A primeira impressão, mal acordada, de Luiza foi
que duas figuras, que não conhecia, estavam debruçadas
sobre ella. Uma, a mais forte, afastou-se; o
som frio d'um frasco de vidro, pousado sobre o marmore
do toucador, despertou-a. Sentiu então uma
voz dizer abafadamente:
—Está muito melhor. Mas deu-lhe de repente,
snr.
a Juliana?
—De repente.
—Eu vi-a entrar tão afogueada...
Passos subtis pisaram o tapete, a voz de Joanna
perguntou-lhe junto do rosto:
—Está melhor, minha senhora?
Abriu os olhos, a percepção nitida das cousas
foi-lhe voltando; estava estendida na
causeuse,
tinham-lhe
desapertado o vestido, e havia no quarto
um forte cheiro de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovêlo,
devagar, com um olhar errante, vago:
—E a outra?...
—A snr.
a Juliana? Foi-se deitar. Tambem se não
achava bem. Foi de vêr a senhora, coitada... Está
melhorzinha?
Sentou-se. Sentia uma fadiga em todo o corpo;
tudo no quarto lhe parecia oscillar brandamente:
—Póde ir, Joanna, póde ir—disse.
—A senhora não precisa mais nada? Talvez um
caldinho lhe fizesse bem...
Luiza, só, pôz-se a olhar em roda, espantada.
Estava já tudo arrumado, as janellas cerradas. Uma
luva ficára cahida no chão: ergueu-se, ainda tropega,
foi apanhal-a, esteve a esticar-lhe os dedos machinalmente,
como somnambula, pôl-a na gaveta do
toucador. Alisou o cabello; achava-se mudada, com
outra expressão como se fosse
outra; e o silencio
do quarto impressionava-a, como extraordinario.
—Minha senhora—disse a voz timida de Joanna.
—Que é?
—É o cocheiro.
Luiza voltou-se, sem comprehender:
—Que cocheiro?
—Um cocheiro; diz que a senhora que não tinha
troco, que o mandou esperar...
—Ah!
E como a uma luz de gaz que salta subitamente
e alumia uma decoração, viu, n'um relance, toda
a «sua desgraça»!
Ficou tão tremula que mal podia abrir a gavetinha
da commoda:
—Tinha-me esquecido, tinha-me esquecido...—balbuciava.
Deu o dinheiro a Joanna; e vindo cahir sobre a
causeuse:
—Estou perdida!—murmurou, apertando as
mãos na cabeça.
Tudo descoberto! E representaram-se-lhe logo no
espirito, com a intensidade de desenhos negros sobre
um muro branco, o furor de Jorge, o espanto dos
seus amigos, a indignação d'uns, o escarneo dos outros;
e estas imagens cahindo com ruido na sua alma,
como combustiveis n'uma fogueira, ateavam-lhe
desesperadamente o terror.
Que lhe restava?—Fugir com Bazilio!
Aquella idéa, a primeira, a unica, apossou-se
d'ella impetuosamente, trespassou-a—como a agua
d'uma inundação que subitamente alaga um campo.
Elle tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam tão
felizes em Paris, no seu
appartamento da rua Saint
Florentin! Pois bem, iria! Não levaria malas, poria
no seu pequeno sacco de marroquim alguma roupa
branca, as joias da mamã... E os criados? a casa?
Deixaria uma carta a Sebastião para que viesse, fechasse
tudo!... Levaria na viagem o vestido de riscadinho
azul—ou o preto! Mais nada. O resto compral-o-hia
longe, n'outras cidades...
—Se a senhora quer vir jantar...—disse Joanna
á porta do quarto.
Tinha posto um avental branco, e acrescentou:
—A snr.
a Juliana está deitada, diz que está com
a dôr, não póde servir á mesa.
—Já vou.
Tomou apenas uma colhér de sopa, bebeu um
grande gole d'agua; e erguendo-se:
—Que tem ella?
—Diz que é uma dôr muito forte no coração.
Se morresse! Estava salva, ella! Podia ficar, então!
E com uma esperança perversa:
—Vá vêr, Joanna, vá vêr como está!
Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de
uma dôr! Iria logo ao quarto d'ella rebuscar-lhe a
arca, apossar-se da carta! E não teria medo do silencio
da morte, nem da lividez do cadaver...
—Está mais descançada, minha senhora—veio
dizer a Joanna—diz que logo que se levanta. Então
a senhora não come mais nada? Credo!
—Não.
E entrou para o quarto, pensando:—de que
serve estar a imaginar cousas? Só me resta fugir.
Decidiu-se logo a escrever a Sebastião; mas não
pôde acertar com outras palavras além do começo,
no alto, n'uma letra muito trémula:
Meu amigo!
Para que havia de escrever? Quando ao outro dia
ella não voltasse, nem á tarde, nem á noite—as
criadas, a
outra, a infame! iriam logo a Sebastião.
Era o intimo da casa. Que espanto o d'elle! Imaginaria
algum accidente, correria á Encarnação, depois
á policia, esperaria n'uma angustia até de madrugada!
Todo o dia seguinte seriam outras esperanças de
a vêr chegar, decepções aterradas,—até que telegrapharia
a Jorge! E a essa hora de certo, ella, encolhida
no canto do wagon, rolaria, ao ruido offegante
da machina, para um destino novo!...
Mas porque se affligia, por fim? Quantas invejariam
a sua desgraça! O que havia de infeliz em
abandonar a sua vida estreita entre quatro paredes,
passada a examinar roes de cozinha e a fazer
crochet,
e partir com um homem novo e amado, ir para
Paris! para Paris! viver nas consolações do luxo, em
alcovas de sêda, com um camarote na Opera!... Era
bem tola em se affligir! Quasi fôra uma felicidade
aquelle «desastre»! Sem elle nunca teria tido a coragem
de se desembaraçar da sua vida burgueza;
mesmo quando um alto desejo a impellisse, haveria
sempre uma timidez maior para a reter!
E depois, fugindo, o seu amor tornava-se digno!
Seria só d'um homem; não teria de amar em casa e
amar fóra de casa!
Veio-lhe mesmo a idéa de ir ter immediatamente
com Bazilio, «acabar com aquillo por uma vez». Mas
era tarde para ir ao hotel; temia as ruas escuras, a
noite, e os bebedos...
Foi logo arranjar o sacco de marroquim. Metteu
lenços, alguma roupa branca, o estojo das unhas, o
rosario que lhe dera Bazilio, pós d'arroz, algumas
joias que tinham pertencido á mamã... Quiz levar as
cartas de Bazilio tambem... Tinha-as guardadas n'um
cofre de sandalo, no gavetão do guarda-vestidos. Espalhou-as
no regaço; abriu uma, d'onde cahiu uma
florzinha sêcca; outra que tinha, na dobra, a photographia
de Bazilio. De repente, pareceu-lhe que não
estavam completas! Tinha
sete:
cinco bilhetes curtos,
e
duas cartas—a primeira que elle lhe escrevêra,
tão terna! e a ultima no dia do arrufo! Contou-as...
Faltava, com effeito, a
primeira, e
dous bilhetes!
Tinha-lh'as roubado, tambem!... Ergueu-se
livida. Ah que infame! veio-lhe uma raiva de subir
ao sotão, luctar com ella, arrancar-lh'as, esganal-a!...
Que lhe importava, por fim!—E deixou-se cahir na
causeuse, aniquilada—Que ella tivesse uma, duas,
todas—era a mesma desgraça!
E muito excitada, foi preparar o vestido preto
que devia levar, o chapéo, um chale-manta...
O
cuco cantou dez horas. Entrou então na alcova;
pôz o castiçal sobre a mesinha, ficou a olhar o
largo leito com o seu cortinado de fustão branco.
Era a ultima vez que alli dormia! Fôra ella que bordára
aquella coberta de
crochet no primeiro anno de
casada: não havia uma malha que não correspondesse
a uma alegria. Jorge ás vezes vinha vêl-a trabalhar,
e, calado, considerava-a com um sorriso, ou
fallava-lhe baixo enrolando devagar nos dedos o fio
de algodão grosso! Alli dormira com elle tres annos:
o seu lugar era de lá, do lado da parede...
Fôra n'aquella cama que ella estivera doente, com a
pneumonia. Durante semanas elle não se deitára—a
velal-a, a conchegar-lhe a roupa, a dar-lhe os caldos,
os remedios, com toda a sorte de palavras dôces
que lhe faziam tão bem!... Fallava-lhe como a
criancinha pequena: dizia-lhe: «isso vai passar,
ámanhã estás boa, vamos passear». Mas o seu olhar
ancioso estava marejado de lagrimas! Ou então pedia-lhe:
«Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha
querida, melhora!...» E ella queria tanto melhorar,
que sentia como uma ligeira onda de vida que voltava,
lhe refrescava o sangue!
Nos primeiros dias da convalescença era elle que
a vestia; ajoelhava-se para lhe calçar os sapatos,
embrulhava-a no roupão, vinha estendel-a na
causeuse,
sentava-se ao pé d'ella a lêr-lhe romances,
desenhar-lhe paizagens, recortar-lhe soldados de papel.
E dependia toda d'elle, não tinha mais ninguem
no mundo para a tratar, para soffrer, chorar por ella—senão
elle! Adormecia sempre com as mãos
nas suas, porque a doença deixára-lhe um vago medo
dos pesadêlos da febre; e o pobre Jorge, para a
não acordar, alli ficava com a mão presa, horas, sem
se mover. Deitava-se vestido n'um colxãosito ao pé
d'ella. Muitas vezes, acordando de noite, o tinha visto
a limpar as lagrimas; d'alegria, de certo, porque
ella então estava salva! o medico, o bom dr. Caminha,
tinha-o dito: «Está livre de perigo, agora é refazer
esse corpinho». E Jorge, o pobre Jorge, coitado,
sem dizer nada, tinha tomado as mãos do velho,—tinha-as
coberto de beijos!
E agora, quando elle soubesse, quando elle voltasse!
Quando ao entrar alli na alcova—visse os
dous travesseirinhos, ainda! Ella iria longe, com outro,
por caminhos estranhos, ouvindo outra lingua.
Que horror! E elle alli estaria, n'aquella casa só,
chorando, abraçado a Sebastião. Quantas memorias
d'ella para o torturar! Os seus vestidos, as suas chinellinhas,
os seus pentes, toda a casa! Que vida
triste, a d'elle! Dormiria alli
só! Já não teria
ninguem
para o acordar de manhã com um beijinho,
passar-lhe o braço pelo pescoço, dizer-lhe:
é tarde,
Jorge! Tudo acabára para ambos. Nunca mais!—Rompeu
a chorar, de bruços sobre a cama...
Mas a voz de Juliana fallou alto no corredor com
Joanna. Ergueu-se aterrada. Viria ter com ella, aquella
infame? Os passos achinellados afastaram-se devagar,
e Joanna entrou com o rol e com a lamparina.
—A snr.
a Juliana—disse—levantou-se um momento,
mas diz que ainda está mal, coitada. Foi-se
deitar. A senhora não precisa mais nada?
—Não—disse da alcova.
Despiu-se; e, prostrada, adormeceu profundamente.
Juliana em cima não dormia. A dôr passára-lhe—e
agitava-se sobre o enxergão, «com o diabo
da espertina»! como tantas outras noites, nas ultimas
semanas. Porque desde que apanhára a carta no
sarcophago
vivia n'uma febre; mas a alegria era tão
aguda, a
esperança tão larga
que a sustentavam, lhe
davam saude! Deus emfim tinha-se lembrado d'ella!
Desde que Bazilio começára a vir a casa, tivera logo
um palpite, uma cousa que lhe dizia que tinha chegado
emfim a sua vez! A primeira satisfação fôra
n'aquella noite em que achára, depois de Bazilio sahir
ás dez horas, a travéssinha de Luiza cahida ao
pé do sophá. Mas que explosão de felicidade, quando,
depois de tanta espionagem, de tanta canceira,
apanhou emfim a carta no
sarcophago! Correu ao
sotão, leu-a avidamente, e quando viu a importancia
da «cousa» arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas,
arremessou a sua alma perversa para as alturas, bradando
em si, n'um triumpho:
—Bemdito seja Deus! Bemdito seja Deus!
E que havia de fazer
áquillo?—foi então a sua
inquietação. Ora pensava em a vender a Luiza por
uma forte somma... mas onde tinha ella o dinheiro?
Não; o melhor era esperar a volta de Jorge, e com
ameaças de a publicar, extorquir-lhe
um rôr de
libras
por meio d'outra pessoa, já se vê, e ella á capa!
E em certos dias em que a figura, as
toilettes,
as passeatas de Luiza a irritavam mais, vinham-lhe
venetas de sahir p'ra a rua, chamar os visinhos, lêr
o papel, pôl-a mais rasa que a lama, vingar-se da
«cabra»!
Foi a tia Victoria que a calmou, e a dirigiu. Disse-lhe
logo «que para a armadilha ser completa era
necessario uma carta do janota». Começára então o
lento trabalho de lh'a apanhar! Fôra preciso muita
finura, muita chave experimentada, duas feitas por
moldes de cêra, paciencia de gato, habilidades de
ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a lido
com a tia Victoria—que rira, rira!... Sobre tudo o
bilhete em que Bazilio lhe dizia: «Hoje não posso
ir, mas espero-te ámanhã ás duas; mando-te essa
rosinha, e peço-te que faças o que fizeste á outra,
trazel-a no seio, porque é tão bom quando vens assim,
sentir-te o peitinho perfumado!...» A tia Victoria,
suffocada, quil-a mostrar á sua velha amiga,
a Pêdra, a Pêdra gorda, que estava na saleta.
A Pêdra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes
como odres mal cheios, tinham sacudidellas
furiosas de hilaridade. E com as mãos nas ilhargas,
rubra, roncando, com o seu vozeirão de trombone:
—Essa é das boas, tia Victoria! Essa é de mestre.
Não, isso merece ir para os papeis! Ai os bebedos!
Raios do diabo!
A tia Victoria, então, disse muito seriamente a
Juliana:
—Bem; agora tens a faca e o queijo! Com isso
já pódes fallar d'alto. É esperar a occasião. Muito
bons modos, cara prazenteira, sorrisos a fartar para
ella não desconfiar, e o olho álerta. Tens o rato seguro,
deixa-o dar ao rabo!
E desde esse dia Juliana saboreava com delicias,
com gula, muito comsigo—aquelle gozo de a ter
«na mão», a Luizinha, a senhora, a patroa, a
piorrinha!
Via-a aperaltar-se, ir ao homem, cantarolar,
comer bem—e pensava com uma voluptuosidade
felina: Anda, folga, folga, que eu cá t'a tenho armada!
Aquillo dava-lhe um orgulho perverso. Sentia-se
vagamente
senhora da casa. Tinha alli fechada
na mão a felicidade, o bom nome, a honra, a paz
dos patrões! Que desforra!
E o futuro estava certo!
Aquillo era dinheiro, o
pão da velhice. Ah! tinha-lhe chegado o seu dia! Todos
os dias rezava uma
Salvè-rainha de graças a
Nossa Senhora, mãi dos homens!
Mas agora, depois d'aquella
scena com Luiza—não
podia ficar de braços cruzados, com as cartas na
algibeira. Devia sahir de casa, pôr-se em campo, fazer
alguma cousa. O que? A tia Victoria é que havia
de dizer...
Logo pela manhã ás sete horas, sem tomar o seu
café, sem fallar a Joanna, desceu devagar, sahiu.
A tia Victoria não estava em casa. Gente na saleta
esperava. O snr. Gouvêa, com a borla do barretinho
muito arrebitada, escrevinhava, dobrado, cuspilhando
o seu catarrho. Juliana deu os
bons dias em
redor, e sentou-se a um canto, direita, com a sua
sombrinha nos joelhos.
Conversava-se: e uma mulher de trinta annos,
picada das bexigas, que estava sentada no canapé,
depois de ter dado um sorriso a Juliana, continuou,
voltada para uma gordita com um chale de quadrados
vermelhos:
—Pois não imagina, snr.
a Anna, não faz idéa!
É uma desgraça! É todas as noites como um carro.
Ás vezes até acordo com o barulho que elle faz a fallar
só, a tropeçar na escada... Eu, do que tenho mais
medo, é que o demonio adormeça com a luz e haja
um fogo. Ah! é de todo!
—Quem?—perguntou um rapazola bonito, com
uma blusa de trintanario, que fallava de pé a um
criado alto, de suiças e gravata branca enxovalhada.
—O Cunha, o filho do meu patrão. É uma desgraça!
—Piteireiro, hein?—disse o rapazola, enrolando
o cigarro.
—Um horror! Eu pela manhã nem posso entrar
no quarto, que é um cheiro... A mãi, coitadinha,
chora, rala-se; o rapaz já esteve para ser posto fóra
do emprego. Ai! não estou nada contente, nada contente!
—Pois olhe que por lá tambem ha desgosto
grande—disse, baixando a voz, a do chale de quadrados.
Os dous homens aproximaram-se.
—O senhor—continuou ella com gestos aterrados—é
um desafôro com a cunhada!... A senhora
sabe, e aquillo são questões de dia e de noite! As
duas irmãs andam n'uma bulha pegada. O homem
toma as dôres da rapariga, a mulher põe-se aos gritos...
Ai! aquillo vem a acabar mal!
—E então se a gente tem lá o seu descuido—disse
o da gravata branca com indignação—é aqui
d'el-rei, e d'aqui e d'alli!
—Lá a sua gente é socegada, snr. João—observou
a picada das bexigas.
—É boa gente. As raparigas namoradeiras...
Proveito das criadas, apanham o seu vestidito, a
sua placa... Mas os velhotes é uma santa gente, a
verdade é a verdade! E come-se bem!
E voltando-se para o trintanario,
batendo-lhe no
hombro, com uma voz que o admirava e que o invejava:
—Mas isto sim! Isto é que é leval-a!
O rapazola sorriu com satisfação:
—Ora! são mais as vozes do que as nozes!
—Vá lá, mostra lá—disse o da gravata branca
tocando-lhe com o cotovêlo—mostra lá!
O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da
cintura, arregaçando a blusa, tirou do bolso do collete
de riscadinho um relogio d'ouro.
—Muito bonito! Rica prenda!—disseram as duas
mulheres.
—Suor do meu rosto—fez elle, acariciando o
queixo.
O da gravata branca indignou-se:
—Ora seu marôto!—E baixo para as raparigas:—Suor
do seu rosto, hein!—É o seraphim da patrôa,
uma senhora da alta que aquillo são tudo sêdas,
muitissimo boa mulher, um bocado entradota, mas
muitissimo boa mulher, recebe d'estas lembranças,
um relogio d'um par de moedas—e ainda falla!
O rapazola disse então, enterrando as mãos na
algibeira:
—E se quizer agora, ha-de largar a corrente!
—Ha-de-lhe custar muito!—exclamou o da gravata
branca.—Uma gente que tem ahi pela baixa
correntezas de casas! Metade da rua dos Retrozeiros
é d'ella!
—Mas muito agarrada!—disse o rapazola. E
bamboleando o corpo, com o cigarro ao canto da
bocca:—Estou com ella ha dous mezes, e ainda se
não desabotoou senão com o relogio e tres libras em
ouro!... Que eu, como quem diz, um dia passo-lhe
o pé!—E cofiando o cabello para a testa:—Não
faltam mulheres! e das que tem
Dom!
Mas a tia Victoria entrou, muito azafamada, com
o chale no braço; e vendo Juliana:
—Olá! por cá! Tive que dar umas voltas, estou
na rua desde as seis. Bons dias, snr.
a Theodosia;
bons dias, Anna. Viva, temos por cá o alfenim! Entra
cá p'ra dentro, Juliana! Eu já venho, meus pombinhos,
é um instante!
Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguão:
—E então, que ha de novo?
Juliana pôz-se a contar longamente a
scena da
vespera, o desmaio...
—Pois minha rica—disse a tia Victoria—o que
está feito, está feito; não ha tempo a perder; é mãos
á obra! Tu vaes ao Brito, ao hótel, e
entendes-te com
elle.
Juliana recusou-se logo: não se atrevia, tinha
medo...
A tia Victoria reflectiu, coçando o ouvido; foi dentro,
cochichou com o tio Gouvêa, e voltando, fechando
a porta do quarto:
—Arranja-se quem vá. Tens tu as cartas?
Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha
de marroquim escarlate. Mas hesitou um momento,
olhou a tia Victoria com desconfiança.
—Tens medo de largar os papeis, creatura?—exclamou
offendida a velha.—Arranja-te tu, então
arranja-te tu...
Juliana deu-lh'as logo. Mas que as guardasse, que
tivesse cautela!...
—A pessoa—disse a tia Victoria—vai ámanhã
á noite fallar com o Brito, e pede-lhe um conto
de reis!
Juliana teve um deslumbramento. Um conto de
reis! A tia Victoria estava a brincar!
—Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta,
que quasi não tinha mal nenhum, pagou uma pessoa
que bate ahi o Chiado de carruagem—ainda
hontem a vi com uma pequerrucha que tem—pagou
trezentos mil reis. E em bellas notas. Pagou-os o
janota, já se sabe, foi o janota que pagou. Se fosse
outro, não digo, mas o Brito! É rico, é um man-rôtas,
cahe logo...
Juliana, muito branca, agarrou-lhe o braço, tremula:
—Oh tia Victoria, dava-lhe um córte de sêda.
—Azul! até já te digo a côr!
—Mas o Brito é homem muito teso, tia Victoria,
se lhe tira as cartas, se lhe faz alguma!
A tia Victoria fitou-a, com desdem:
—Sahes-me uma simploria! Imaginas que eu
mando lá algum tolo? Nem as cartas vão, o que vai
é uma copia! Olha quem! O melro que lá ha-de ir!
E depois de reflectir um momento:
—Tu vai-te para casa...
—Não, lá isso não volto...
—Tambem tens razão. Até vêr em que param
as modas, vem cá dormir. Jantas cá hoje; tenho uma
rica pescada...
—Mas não haverá perigo, tia Victoria, se o Brito
vai á policia...
A tia Victoria encolheu os hombros, e impacientada:
—Olha, vai-te, que me estás a emphrenesiar! Policia!
Qual policia! Essas cousas levam-se lá á policia...
Deixa a cousa commigo! Adeus—e ás quatro
para jantar, hein!
Juliana sahiu como levada pelo ar! Um conto de
reis!
Era o conto de reis que voltava, o que já um
dia entrevira, que lhe fugira, que lhe vinha agora
cahir na mão, com um tlin-tlin de libras e um
frou-frou
de notas! E o cerebro enchia-se-lhe confusamente
de perspectivas differentes, todas maravilhosas:
um mostrador de capellista onda ella venderia!
um marido ao seu lado, ás horas da cêa! pares de
botinas das boas, das
chics. Onde poria o dinheiro?
No Banco? Não; no fundo da arca—para estar mais
seguro, mais á mão!
Para passar a sua manhã, comprou uma quarta de
rebuçados, e foi-se sentar no Passeio, com a sombrinha
aberta, deliciando-se, ruminando já a sua vida
rica, julgando-se já senhora; mesmo fez olho a um
proprietario pacifico e rubicundo—que se afastou
escandalisado!
Áquella hora Luiza acordava. E sentando-se bruscamente
na cama:—É hoje!—foi o seu primeiro
pensamento. Um susto, uma tristeza horrivel contrahiram-lhe
o coração. Começou depois a vestir-se,
muito nervosa com a idéa de vêr Juliana! Estava
mesmo imaginando fechar-se, não almoçar, sahir pé
ante pé ás onze horas, ir procurar Bazilio ao hotel,
quando a voz de Joanna disse á porta do quarto:
—A senhora faz favor?
Começou logo a contar, muito espantada, que a
snr.
a Juliana tinha sahido de manhã, ainda não voltára,
estava tudo por arrumar...
—Bem, arranje-me o almoço, eu já vou...—Que
allivio para ella!
Calculou logo que Juliana deixára a casa. Para
que? Para lhe armar alguma, de certo! O melhor
era sahir immediatamente... Podia esperar Bazilio no
Paraiso.
Foi á sala de jantar, bebeu um gole de chá,
de
pé, á pressa.
—A snr.
a Juliana ter-lhe-ha dado alguma cousa?—veio
dizer Joanna assombrada.
Luiza encolheu os hombros, respondeu vagamente:
—Depois se saberá...
Era hora e meia, foi pôr o chapéo. O coração
batia-lhe alto, e apesar do terror de vêr entrar Juliana,
não se decidia a sahir; sentou-se mesmo, com
o sacco de marroquim nos joelhos. Vamos! pensou
emfim.—Ergueu-se; mas parecia que alguma cousa
de subtil e de forte a prendia, a enleava... Entrou
na alcova devagar: o seu roupão estava cahido
aos pés da cama, as suas chinellinhas sobre o tapete
felpudo...—Que desgraça! disse alto. Veio ao toucador,
mexeu nos pentes, abriu as gavetas; de repente
entrou na sala, foi ao album, tirou a photographia
de Jorge, metteu-a toda tremula no sacco de
marroquim, olhou ainda em roda como desvairada,
sahiu, atirou com a porta, desceu a escada correndo.
Á Patriarchal passava um
coupé de praça. Tomou-o,
mandou-o ir ao
Hotel Central.
O snr. Brito sahira logo de manhã cedo, disse o
porteiro muito azafamado. De certo algum paquete
chegára, porque entravam bagagens, fortes malas
cobertas d'oleado, caixas de madeira debruadas de
ferro; passageiros com ar espantado da chegada, ainda
entontecidos do balouço do mar, fallavam, chamavam.
Aquelle movimento animou-a: veio-lhe um desejo
de viagens, do ruido nocturno das
gares á claridade
do gaz, da agitação alegre das partidas nas
manhãs frescas, sobre o tombadilho dos paquetes!
Deu ao cocheiro a adresse do
Paraiso. E á maneira
que o trem trotava parecia-lhe que toda a sua
vida passada, Juliana, a casa, se esbatiam, se dissipavam
n'um horisonte abandonado. Á porta d'um livreiro
julgou entrevêr Julião; debruçou-se pela portinhola,
precipitadamente; não o avistou, teve pena:
ia-se sem vêr um amigo da casa! Todos agora, Julião,
Ernestinho, o Conselheiro, D. Felicidade lhe pareciam
adoraveis, com qualidades nobres, que nunca
percebera, que repentinamente tomavam um grande
encanto. E o pobre Sebastião, tão bom! Nunca mais
lhe ouviria tocar a sua
Malaguenha!
Ao fim da rua do Ouro o
coupé parou n'um embaraço
de carroças, e Luiza viu no passeio ao lado
o Castro, o Castro dos oculos, o banqueiro, o que
Leopoldina lhe dizia que «tinha uma paixão por
ella»: um rapazito rôto offerecia-lhe cautelas; e o
Castro nedio, com os dous pollegares nas algibeiras
do collete branco, dizia graças ao rapaz, com um
desdem ricaço, dardejando olhadellas sobre Luiza,
através dos seus oculos d'ouro. Ella, pelo canto do
olho, observava-o: tinha uma paixão por ella, aquelle
homem, que horror! Achava-o medonho, com o seu
ventre pançudo, a perninha curta. A lembrança de
Bazilio atravessou-a, a sua linda figura!...—e bateu
nos vidros impaciente, com pressa de o vêr.
O trem partiu emfim. O Rocio reluzia ao sol; do
Americano, parado á esquina, gente descia apressada,
de calças brancas, vestidos leves, vinda de Belem,
de Pedrouços; pregões cantavam.—Todos alli
ficavam nas suas familias, nas suas felicidades, só
ella partia!
Na rua Occidental, viu vir a D. Camilla—uma
senhora casada com um velho, illustre pelos seus
amantes. Parecia gravida; e adiantava-se devagar,
com a face branca satisfeita, uma lassitude do corpo
arredondado, passeando um marmanjosinho de jaqueta
côr de pinhão, uma pequerrucha de sainhas tufadas,
e adiante uma ama, vestida de lavradeira,
empurrava um carrinho de mão onde um bébé se
babava. E a Camilla, feliz, vinha tranquillamente pela
rua expondo as suas fecundidades adulteras! Era
muito festejada, ninguem dizia mal d'ella; era rica,
dava
soirées...—O que é o mundo!—pensava
Luiza.
O trem parou á porta do
Paraiso, era meio dia.
A portinha em cima estava fechada: e a patrôa appareceu
logo, ciciando que «sentia muitissimo, mas
só o senhor é que tinha a chavesinha, se a senhora
quizesse descançar...» N'este momento outra carruagem
chegou, e Bazilio appareceu galgando os degraus.
—Até que emfim!—exclamou abrindo a porta.—Porque
não vieste hontem?...
—Ah! se tu soubesses...
E, agarrando-lhe os braços, cravando os olhos
n'elle:
—Bazilio, sabes, estou perdida!
—Que ha?
Luiza atirára o sacco de marroquim para o canapé,
e, d'um folego, contou-lhe a historia da carta
apanhada nos papeis, as d'elle roubadas, a
scena no
quarto...—O que me resta é fugir. Aqui estou. Leva-me.
Tu disseste que podias, tens-l'o dito muitas
vezes. Estou prompta. Trouxe aquelle sacco, com o
necessario, lenços, luvas... hein?
Bazilio com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar
o dinheiro e as chaves, seguia attonito os seus gestos,
as suas palavras.
—Isso só a ti!—exclamou.—Que douda! Que
mulher!—E muito excitado:—Isso é lá questão de
fugir? Que estás tu a fallar em fugir? É uma questão
de dinheiro. O que ella quer é dinheiro. É vêr
quanto quer, e pagar-se-lhe!
—Não, não!—fez Luiza—Não posso ficar!—Tinha
uma afflicção na voz. A mulher venderia a
carta, mas conservava o segredo: a todo o tempo
podia fallar, Jorge saber: estava perdida, não tinha
coragem de voltar para casa!—Não sinto um momento
de descanço, em quanto estiver em Lisboa.
Partimos hoje, sim? Se não pódes, ámanhã. Eu vou
para algum hotel, aonde ninguem saiba, escondo-me
esta noite. Mas, ámanhã vamos. Se elle sabe, mata-me,
Bazilio! Sim, dize que sim!—Agarrára-se a
elle, procurava avidamente com os seus olhos o consentimento
dos d'elle.
Bazilio desprendeu-se brandamente:
—Estás douda, Luiza, tu não estás em ti! Póde
lá pensar-se em fugir! Era um escandalo atroz, eramos
apanhados de certo, com a policia, com os telegraphos!
É impossivel! Fugir é bom nos romances!
E depois, minha filha, não é um caso para isso! É
uma simples questão de dinheiro...
Luiza fazia-se branca, ouvindo-o.
—E além d'isso—continuou Bazilio, muito agitado,
pelo quarto—eu não estou preparado, nem
tu! Não se foge assim. Ficas desacreditada para toda
a vida, sem remedio, Luiza. Uma mulher que foge,
deixa de ser a snr.
a D. Fulana, é a Fulana, a que
fugiu, a desavergonhada, uma concubina! Eu tenho
de certo de ir ao Brazil, onde has-de tu ficar? Queres
ir tambem, um mez n'um beliche, arriscar-te á
febre amarella? E se teu marido nos persegue se
formos detidos na fronteira? Achas bonito voltar entre
dous policias, e ir passar um anno ao Limoeiro?
O teu caso é simplicissimo. Entendes-te com essa
creatura, dá-se-lhe um par de libras, que é o que
ella quer, e ficas em tua casa, socegada, respeitada
como d'antes—sómente mais acautelada! Aqui está!
Aquellas palavras cahiam sobre os planos de
Luiza, como machadadas que derrubam arvores. Ás
vezes a verdade que ellas continham atravessava-a
irresistivelmente, viva como um relampago, desagradavel
como um gume frio. Mas via n'aquella recusa
uma ingratidão, um abandono. Depois de se ter
installado, pela imaginação, n'uma segurança feliz,
longe, em Paris—parecia-lhe intoleravel ter de voltar
para casa, de cabeça baixa, soffrer Juliana, esperar
a morte; e os contentamentos que entrevira
n'aquelle outro destino, agora que lhe fugiam d'entre
as mãos, pareciam-lhe maravilhosos, quasi indispensaveis!
E depois de que servia resgatar a carta
a dinheiro? A creatura saberia o seu segredo! E a
vida seria amarga, tendo sempre em volta de si
aquelle perigo a rondar!
Ficára calada, como perdida n'uma reflexão vaga;
e de repente erguendo a cabeça, com um olhar brilhante:
—Então, dize!...
—Mas estou-te a dizer, filha...
—Não queres?
—Não!—exclamou Bazilio com força.—Se tu
estás douda, não estou eu!
—Oh! pobre de mim, pobre de mim!
Deixou-se cahir no sophá, tapou o rosto com as
mãos. Soluços baixos sacudiam-lhe o peito.
Bazilio sentou-se ao pé d'ella. Aquellas lagrimas
mortificavam-no, e impacientavam-no.
—Mas, santo nome de Deus, escuta-me!
Ella voltou para elle os olhos que reluziam sob o
pranto:
—Para que dizias então, tantas vezes, que seriamos
tão felizes, que se eu quizesse...
Bazilio ergueu-se bruscamente:
—Pois tu pensaste em fugir, em te metter commigo
n'um wagon, vir para Paris, viver commigo,
ser a minha amante?
—Sahi de casa p'ra sempre, ahi está o que eu
fiz!
—Mas vaes voltar p'ra casa!—exclamou elle,
quasi com colera.—Por que havias de tu fugir? por
amor? então deviamos ter partido ha um mez, não
ha razão agora para irmos. Para que, então?
Para evitar um escandalo? com um escandalo maior,
não é verdade? um escandalo irreparavel, medonho!
Estou-te a fallar como um amigo, Luiza!—Tomou-lhe
as mãos, com muita ternura:—Tu imaginas que
eu não seria feliz em ir viver comtigo para Paris?
Mas vejo os resultados, tenho outra experiencia. O
escandalo todo evita-se com umas poucas de libras.
Tu imaginas que a mulher vai-se pôr a fallar? O seu
interesse é safar-se, desapparecer; sabe perfeitamente
o que fez, que te roubou, que usou de chaves
falsas. A questão é pagar-lhe.
Ella disse, com uma voz lenta:
—E o dinheiro, onde o tenho eu?
—Está claro que o dinheiro tenho-o eu!—E
depois de uma pausa:—Não muito, estou mesmo um
pouco atrapalhado, mas emfim...—Hesitou, disse:—se
a creatura quizer duzentos mil reis, dão-se-lhe!
—E se não quizer?
—Que ha-de ella querer, então? Se roubou a
carta é para a vender! Não é para guardar um autographo
teu!
Vinham-lhe palavras duras, passeava pelo quarto
exasperado. Que pretensão querer vir com elle para
Paris, embaraçar-lhe para sempre a sua vida! E que
despeza tão tola, dar um 'rôr de libras a uma ladra!
Depois aquelle incidente, a carta de namoro roubada
nos papeis sujos, a criada, a chave falsa do gavetão
dos vestidos—parecia-lhe soberanamente burguez,
um pouco pulha. E parando, para acabar:
—Emfim oferece-lhe trezentos mil reis, se quizeres.
Mas pelo amor de Deus, não faças outra; não
estou para pagar as tuas distracções a trezentos mil
reis cada uma!
Luiza fez-se livida, como se elle lhe tivesse cuspido
no rosto.
—Se é uma questão de dinheiro, eu o pagarei,
Bazilio!
Não sabia como. Que lhe importava! Pediria, trabalharia,
empenharia... Não o aceitaria d'elle!
Bazilio encolheu os hombros:
—Estás-te a dar ares, onde o tens tu?
—Que te importa?—exclamou.
Bazilio coçou a cabeça, desesperado. E tomando-lhe
as mãos, com uma impaciencia reprimida:
—Estamos a dizer tolices, filha, estamos a irritar-nos...
Tu não tens dinheiro.
Ella interrompeu-o, agarrou-lhe violentamente o
braço:
—Pois sim, mas falla tu a essa mulher, falla-lhe
tu, arranja tudo. Eu não a quero tornar a vêr. Se a
vejo, morro, acredita. Falla-lhe tu!
Bazilio recuou vivamente, e batendo com o pé:
—Estás douda, mulher! Se eu lhe fallo, então
pede tudo, então pede-me a pelle! Isso é comtigo.
Eu dou-te o dinheiro, tu arranja-te!
—Nem isso me fazes?
Bazilio não se conteve:
—Não! c'os diabos, não!
—Adeus!
—Tu estás fóra de ti, Luiza!
—Não. A culpa é minha—dizia, descendo o véo
com as mãos tremulas—eu é que devo arranjar
tudo!
E abriu a porta. Bazilio correu a ella, prendeu-a
por um braço.
—Luiza, Luiza! o que queres tu fazer? não podemos
romper assim! Escuta...
—Fujamos então, salva-me de todo!—gritou
ella, abraçando-o anciosamente.
—Caramba! Se te estou a dizer que não é possivel!
Ella atirou com a porta, desceu as escadas correndo.
O coupé esperava-a.
—Para o Rocio—disse.
E deitando-se para o canto da carruagem, rompeu
a chorar convulsivamente.