—Bufa! bufa!—gritou de cima Juliana—mas
vai-te indo para o olho da rua!
Luiza escutava mordendo os beiços. Em que se
convertera a sua casa! Uma praça! Uma taberna!
—Se eu t'apanho!—rosnava a Joanna descendo.
—Rua! rua, sua porca!—gania a Juliana.
Luiza então chamou a rapariga:
—Joanna, não procure casa, venha por aqui
além d'amanhã—disse-lhe baixo.
Juliana em cima cantava a
Carta adorada, com
um jubilo estridente.
E d'ahi a pouco desceu, veio dizer, muito seccamente,
«que estava o jantar na mesa».
Luiza não respondeu. Esperou que ella subisse á
cozinha, correu á sala de jantar, trouxe pão, um
prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se no
quarto;—e alli
jantou, a um canto da jardineira.
Ás seis horas um trem parou á porta. Devia ser
Sebastião! Foi ella mesma abrir, em bicos de pés.
Era elle, animado, vermelho, com o chapéo na mão:
trazia-lhe a chave da frisa numero dezoito...
—E isto...
Era um ramo de camelias vermelhas, rodeadas
de violetas dobradas.
—Oh Sebastião!—murmurou ella, com um reconhecimento
commovido.
—E carruagem, tem?
—Não
—Eu cá mando. Ás oito, hein?
E desceu, todo feliz de a servir. Ella seguiu-o
com o olhar que se humedecia. Foi á janella do
quarto vêl-o sahir.—Que homem! pensava. E cheirava
as violetas, voltava o ramo na mão, sentia
tambem um prazer dôce na protecção d'elle, nos seus
cuidados.
Nós de dedos bateram á porta do quarto:
—Então a senhora não quer jantar?—disse a
voz impaciente de Juliana, de fóra.
—Não.
—Mais fica!
D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luiza
ficou tranquilla, vendo-a com vestido preto afogado,
e o seu adereço d'esmeraldas.
—Então que é isto? Que estroinice é esta, vamos
a saber?—disse logo, muito alegre, a excellente
senhora.
Um capricho!—O Jorge tinha jantado fóra, ella
sentira-se tão só!... Dera-lhe o appetite d'ir ao theatro.
Não pudera resistir... Tinham de o ir buscar pelo
Hotel Gibraltar.
—Eu tinha acabado de jantar quando recebi o
teu bilhete. Fiquei!... E estive p'ra não vir—disse,
sentando-se, com pancadinhas muito satisfeitas nas
pregas do vestido.—Apertar-me depois de jantar!
Felizmente, não tinha comido quasi nada!
Quiz então saber o que ia. O
Fausto? Ainda bem!
De que lado era a frisa? dezoito. Perdiam a vista da
familia real, era pena!... Pois estava mais longe
d'aquella noitada de theatro!...—E
erguendo-se passeava
diante do toucador com olhares de lado, alisando
os bandós, ageitando as pulseiras, entalada
nos espartilhos, a pupilla luzidia.
Uma carruagem parou á porta.
—O trem!—disse, toda risonha.
Luiza calçando as luvas, já com a capa, olhava
em redor: o coração batia-lhe alto; nos seus olhos
havia uma febre. Não lhe faltava nada? perguntou
D. Felicidade. A chave da frisa? o lenço?
—Ai! o meu ramo!—exclamou Luiza.
Juliana ficou espantada quando a viu vestida
p'ra theatro. Foi alumiar, calada; e atirando a cancella
com uma pancada insolente:
—Não tem mesmo vergonha n'aquella cara!—rosnou.
O trem já rodava, quando D. Felicidade rompeu
a gritar, batendo nos vidros:
—Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque!
Não posso ir sem leque! Pare, cocheiro!
—Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma!—fez
Luiza impaciente.
Aquellas agitações abalavam a digestão comprimida
de D. Felicidade; felizmente, como ella dizia,
arrotava! Graças a Deus, louvada seja Nossa Senhora,
que podia arrotar!
Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos
escuros, onde se gesticulava, destacavam ás portas
vivamente alumiadas da Casa Havaneza; os trens
passavam para o lado do Picadeiro, com um rapido
reluzir de lanternas ricas, que alumiavam as bandas
brancas dos capotes dos criados. D. Felicidade com
a sua face jubilosa á portinhola, gozava a claridade
do gaz nas vitrines, o ar d'inverno; e foi com uma
satisfação que viu o guarda-portão do
Gibraltar, de
calções vermelhos, vir com o boné na mão, á portinhola.
Perguntaram por Jorge.
E, caladas, olhavam a escada de lance decorativo
onde globos foscos derramavam uma luz dôce. D.
Felicidade, muito curiosa da «vida d'hotel», reparou
na engommadeira que entrou com um cesto de roupa;
depois n'uma senhora que lhe pareceu «estabanada»,
e que descia, vestida de
soirée, mostrando o
pé calçado n'um sapato redondo de setim branco: e
sorria de vêr sujeitos roçarem-se pelo trem, lançando
para dentro olhares gulosos.
—Estão a arder por saber quem somos.
Luiza calada apertava nas mãos o seu ramo.
Emfim Jorge appareceu no alto da escada, conversando
muito interessadamente com um sujeito magrissimo,
de chapéo ao lado, as mãos nos bolsos d'umas
calças muito estreitas, e um enorme charuto enristado
ao canto da bocca. Paravam, gesticulavam, cochichavam.
Por fim o sujeito apertou a mão de Jorge,
fallou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, bateu-lhe
no hombro, obrigou-o muito sériamente a aceitar
outro charuto,—e pondo o chapéo mais ao lado
foi conversar com o guarda-portão.
Jorge correu á portinhola do trem, rindo:
—Então que extravagancia é esta? Theatro, tipoias!...
Eu reclamo o divorcio!
Parecia muito jovial. Sómente tinha pena de não
estar vestido... Ficaria atraz no camarote.—E para
as não amarrotar subiu para a almofada.
XV
Passava das oito horas quando o trem parou em
S. Carlos. Um gaiato, que tossia muito, com o casaco
pregado sobre o peito por um alfinete, precipitou-se
a abrir a portinhola; e D. Felicidade sorria de
contentamento, sentindo a cauda do vestido de sêda
arrastar sobre o tapete esfiado do corredor das frisas.
O pano já estava levantado. Era á luz diminuida
da rampa, a decoração classica d'uma cella d'alchimista;
embrulhado n'um roupão monastico, com uma
abundancia hirsuta de barbas grisalhas, tremuras senis,
Fausto cantava, desilludido das sciencias, pousando
sobre o coração a mão onde reluzia um brilhante.
Um cheiro vago de gaz extravasado errava
subtilmente. Aqui e além tosses expectoravam. Havia
ainda pouca gente. Entrava-se.
Na frisa, para se collocarem, D. Felicidade e Luiza
cochichavam, com gestosinhos de recusa, olhares
supplicantes:
—Oh D. Felicidade, por quem é!
—Se estou aqui muito bem...
—Não consinto...
Emfim D. Felicidade sentou-se no lugar superior
alteando o peito. Luiza ficára atraz calçando as luvas;
em quanto Jorge arrumava os agasalhos, furioso com
o chapéo que já duas vezes rolára.
—Tem banquinho, D. Felicidade?
—Obrigada, cá o sinto.—E remexeu os pés.—Que
pena não se vêr a familia real!
Nos camarotes d'assignantes iam apparecendo os
altos penteados medonhos, enchumaçados de postiços;
peitilhos de camisas branquejavam. Sujeitos entravam
para as cadeiras devagar, com um ar gasto
e intimo, compondo o cabello. Conversava-se baixo.
Ao fundo da platéa havia um rumor desinquieto entre
moços de jaquetão; e á entrada, sob a tribuna,
viam-se, n'um apparato militar, correames polidos
de municipaes, bonés carregados de policias; e reluzindo
á luz, punhos de sabres.
Mas na orchestra correram fortes estremecimentos
metallicos, dando um pavor sobrenatural; Fausto
tremia como um arbusto ao vento; um ruido de folhas
de lata, fortemente sacudidas, estalou; e Mephistopheles
ergueu-se ao fundo, escarlate, lançando a
perna com um ar charlatão, as duas sobrancelhas
arrebitadas, uma barbilha insolente,
un bel cavalier;
e em quanto a sua voz poderosa saudava o Doutor,
as duas plumas vermelhas do gorro oscillavam sem
cessar d'um modo fanfarrão.
Luiza chegára-se para a frente; ao ruido da cadeira,
cabeças na platéa voltaram-se, languidamente;
pareceu de certo bonita, examinaram-na; ella,
embaraçada, pôz-se a olhar para o palco muito séria:—por
traz de véos sobrepostos que se levantavam,
n'uma affectação de visão, Margarida appareceu
fiando o linho, toda vestida de branco; a luz electrica,
envolvendo-a n'um tom crú, fazia-a parecer de
gesso muito caiado; e D. Felicidade achou-a tão linda
que a comparou a uma santa!
A visão desappareceu n'um tremulo de rebecas.
E depois d'uma aria, Fausto, que ficára immovel ao
fundo do palco, debateu-se um momento dentro da
tunica e das barbas, e emergiu joven, gordinho, vestido
de côr de lilaz, coberto de pôs d'arroz, compondo
o frisado do cabello. As luzes da rampa subiram:
uma instrumentação alegre e expansiva resoou: Mephistopheles,
apossando-se d'elle, arrastou-o sofrego
através da decoração. E o pano desceu rapidamente.
As platéas ergueram-se com um rumor grosso e
lento. D. Felicidade um pouco affrontada abanava-se.
Examinaram então as familias, algumas
toilettes; e
sorrindo concordaram que estava «do mais fino».
Nos camarotes conversava-se sobriamente; ás vezes
uma joia brilhava, ou a luz punha tons lustrosos
d'aza de corvo nos cabellos pretos onde alvejavam
camelias ou reluzia o aro de metal d'um pente; os
vidros redondos dos binoculos moviam-se devagar,
picados de pontos luminosos.
Na platéa, nas bancadas clareadas, sujeitos quasi
deitados namoravam com languidez; ou de pé, taciturnos,
acariciavam as luvas; velhos
dilettanti, de
lenço de sêda, tomavam rapé, caturravam; e D. Felicidade
interessava-se por duas hespanholas de verde,
que na superior immobilisavam, n'uma affectação
casta, os seus corpos de lupanar.
Um collega de Jorge magrinho e janota entrou
então no camarote: parecia animado, e perguntou
logo se não sabiam o grande escandalo? Não. E o
engenheiro, com gestos vivos das suas mãosinhas
calçadas n'umas luvas esverdeadas, contou que a
mulher do Palma, o deputado, sabiam, tinha fugido!...
—P'ra o estrangeiro?
—Qual!—E a voz do engenheiro tinha agudos
triumphantes.—Ahi é que estava o bonito. P'ra casa
d'um hespanhol que morava defronte!... Era divino!
De resto—e a sua voz tornou-se grave—estava
enthusiasmado com o baixo!
E depois de ter sorrido, olhado pelo binoculo, ficou
calado, extenuado do que dissera, batendo apenas
de vez em quando no joelho de Jorge, com um
Sim, senhor! familiar, ou um
Então que é feito?
amigavel.
Mas a campainha retinia finamente. O engenheiro
sahiu, em bicos de pés. E o pano ergueu-se
devagar na alegria da kermesse, cheia de uma luz
branca e dura. Casas acastelladas branquejavam no
pano de fundo, n'alguma collina do Rheno amiga
das vinhas. Escarranchado sobre uma pipa, o barrigudo
e folgazão rei Cambrinus ria enormemente, erguendo,
na sua attitude de taboleta gothica, a vasta
caneca emblematica da cerveja germanica. E estudantes,
judeus, reitres e donzellas, nas suas côres
vivas de paninho, moviam-se d'um modo automatico
e somnambulo, aos compassos largos da instrumentação
festiva.
A walsa então desenrolou-se languidamente, como
um fio de melodia, em espiraes suaves que ondeavam
e fugiam: Luiza seguia os pésinhos das dançarinas,
as pernas musculosas volteando no tablado; e
as saias tufadas e curtas faziam como o girar multiplicado
e reproduzido de vagos discos de cambraia.
—Que bonito!—murmurava ella, com uma felicidade
no rosto.
—D'appetite—affirmava D. Felicidade, revirando
os olhos.
Certas agudezas delicadas dos flautins enterneciam
Luiza; e a casa, Juliana, as suas miserias,
tudo lhe parecia recuado, no fundo d'uma noite esquecida.
Mas o jovial Diabo adiantava-se por entre os grupos,
e logo, com gestos aduncos e rapaces, cantou
o
Dio del oro. A sua voz arremessada affirmava,
n'um tom brutal, o poder do dinheiro; nas massas
da instrumentação passavam sonoridades claras e tilintantes
d'um remexer sofrego de thesouros; e as
notas altas finaes cahiam, d'um modo curto e secco,
como martelladas triumphantes cunhando o divino
ouro!
Luiza então viu D. Felicidade perturbar-se; e
seguindo o seu olhar negro, subitamente avivado,
descobriu na geral a calva polida do conselheiro
Accacio,—que comprimentava, promettendo generosamente,
com a mão espalmada, a sua visita proxima.
Veio, apenas o pano desceu, e felicitou-as immediatamente
por terem escolhido aquella noite: a
opera era das melhores e estava gente muito fina.
Lamentou ter perdido o primeiro acto;—ainda que
não gostasse extremamente da musica, apreciava-o
por ser muito philosophico. E, tomando da mão de
Luiza o binoculo, explicou os camarotes, disse os titulos,
citou as herdeiras ricas, nomeou os deputados,
apontou os litteratos.—Ah! conhecia bem S. Carlos!
Havia dezoito annos!
D. Felicidade, rubra, admirava-o. O Conselheiro
sentia que não podessem vêr o camarote real: a
rainha, como sempre, estava adoravel.
Sim? Como estava?
—De velludo. Não sabia se rôxo, se azul escuro.
Affirmar-se-hia, e viria dizer...
Mas quando o pano subiu, ficou sentado por traz
de Luiza começando logo a explicar—que aquella
(Siebel, colhendo flôres no jardim de Margarida) posto
que segunda dama, ganhava quinhentos mil reis
por mez...
—Mas apesar d'estes ordenadões morrem quasi
sempre na miseria—disse com reprovação.—Vicios,
cêas, orgias, cavalgadas...
A portinha verde do jardim abriu-se, e Margarida
entrou devagar, desfolhando o malmequer da legenda,
caracterisada de virgem, com as duas longas
tranças louras. Scismava, fallava só, amava: a
dôce creatura sente em volta de si o ar pesado, e
quereria bem que sua mãi voltasse!
Os olhos de Luiza encheram-se então de melancolia,
com a saudosa ballada do rei de Thule; aquella
melodia dava-lhe a vaga sensação d'um pallido
paiz d'amores espirituaes, banhado de luares frios,
longe, no Norte, junto a um mar gemente—ou de
tristezas aristocraticas, scismadas n'um terraço, sob
a sombra d'um parque...
Mas o Conselheiro preveniu-as, dizendo:
—Agora é que é! Reparem. Agora é o ponto
capital.
De joelhos, diante do cofre das joias, a dama requebrava-se,
garganteando; apertava nas mãos o
collar, extasiada; punha os brincos com denguices
delirantes; e da sua bocca muito aberta sahia um
canto trinado, d'uma crystallinidade aguda—entre
o vago
susurro da admiração burgueza.
O Conselheiro disse discretamente:
—Bravo! Bravo!
E, excitado, dissertou: aquillo era o melhor da
opera! Era alli que se via a força das cantoras...
D. Felicidade quasi tinha medo que lhe estalasse
alguma cousa na garganta. Preoccupava-se tambem
com as joias. Seriam falsas? Seriam d'ella?
—É p'ra a tentar, não é verdade?
—É um drama allemão—disse-lhe baixo o Conselheiro.
Mas Mephistopheles ia arrastando a boa Martha;
Fausto e Margarida perdiam-se nas sombras cumplices
do jardim aphrodisiaco,—e o Conselheiro observou
que todo aquelle acto era um pouco fresco.
D. Felicidade murmurou-lhe—entre reprehensiva
e extatica:
—Quantas scenas não terá tido assim, maganão!
O Conselheiro fitou-a, indignado:
—O quê, minha senhora! levar a deshonra ao
seio d'uma familia!
Luiza fez-lhe
chut, sorrindo. Interessava-se agora.
Tinha escurecido; uma facha de luz electrica enchia
o jardim d'um vago luar azulado, onde os maciços
arredondados se recortavam em pastas escuras;
e Fausto e Margarida enlaçados, quasi desfallecidos,
soltavam d'um modo expirante o seu duetto:
uma sensualidade delicada e moderna, com elances
d'um requinte devoto, arrastava-se na orchestra gemente;
o tenor esforçava-se, agarrando o peito,
com um geito morbido dos quadris, o olhar anuviado:
e desprendendo-se da languida arcada dos
violoncellos, o canto subia para as estrellas...
Al pallido chiarore
Dei astri d'oro.
Mas o coração de Luiza batia precipitadamente;
vira-se de repente sentada no divan, na sua sala,
ainda tomada dos soluços do adulterio, e Bazilio,
com o charuto ao canto da bocca, batia distrahido
no piano aquella aria—
Al pallido chiarore dei astri
d'oro. D'essa noite tinha vindo toda a sua miseria!—e
subitamente, como longos véos funebres que
descem e abafam, as recordações de Juliana, da casa,
de Sebastião, vieram escurecer-lhe a alma.
Olhou o relogio. Eram dez horas. Que se passaria?
—Estás incommodada?—perguntou-lhe Jorge.
—Um pouco.
Margarida apoiava-se, expirante de voluptuosidade,
ao rebordo da sua janellinha. Fausto corre.
Enlaçam-se. E entre as gargalhadas do Diabo e o
roncar dos rebecões—o pano desceu, pondo uma
reticencia pudica...
D. Felicidade, abrazada, quiz agua. Jorge apressou-se:
queria bolos? neve? A excellente senhora
hesitou; o
chic da neve attrahia-a, mas cohibiu-se
com terror da colica. Veio sentar-se ao fundo ao pé
de Luiza, e ficou a olhar, vagamente cançada; havia
um susurro lento; bocejava-se discretamente; e
o fumo dos cigarros, entrando, de fóra, fazia uma
nevoa apenas perceptivel que enchia a sala, ia prender-se
ao lustre, embaciando ligeiramente as luzes.
Quando Jorge sahiu o Conselheiro acompanhou-o: ia
acima tomar o seu copo de gelatina...
—É a minha cêa em dia de S. Carlos—disse.
Voltou d'ahi a pouco, limpando os beiços ao lenço
de sêda, ter com Jorge que fumava no pequeno
patamar junto á entrada das cadeiras:
—Veja isto, Conselheiro—disse-lhe logo Jorge,
indignado, mostrando a parede—que escandalo!
Tinham desenhado, com o charuto apagado sobre
a parede caiada, enormes figuras obscenas: e alguem,
prudente e amigo da clareza, ajuntára por baixo as
designações sexuaes com uma boa letra cursiva.
E Jorge, revoltado:
—E passam por aqui senhoras! Vêem, lêem!
Isto só em Portugal!...
O Conselheiro disse:
—A autoridade devia intervir de certo...—Acrescentou
com bonhomia:—São rapazes, com o
charuto. Apreciam muito esta distracção...—E sorrindo,
recordando-se:—Uma occasião mesmo, o conde
de Villa Rica, que tem graça, muita graça, insistiu
commigo, dando-me o charuto, para que eu fizesse
um desenho...—E mais baixo:—Eu dei-lhe
uma lição severa. Tomei o charuto...
—E fumou-o?
—Escrevi.
—Uma obscenidade?
O Conselheiro, recuando, exclamou com severidade:
—Jorge, conhece o meu caracter! Pois suppõe...?—E
acalmando-se:—Não, tomei o charuto e escrevi
com mão firme:
honra ao merito!
Mas a campainha retiniu, entraram no camarote.
Luiza incommodada não quiz sentar-se á frente. E
o Conselheiro, grave, tomou o seu lugar—defronte
de D. Felicidade. Foi para a nutrida senhora um
momento feliz, de um gozo requintado. Estavam
ambos,
alli, como noivos! O seu peito abundante arfava:
via-se a sahirem, mais tarde, de braço dado,
entrarem n'um
coupé estreito, pararem á porta da
casa conjugal, pisarem o tapete da alcova... Tinha
um suor á raiz dos cabellos—e vendo o Conselheiro
sorrir-lhe, amavel, com a sua calva toda luzidia
ao gaz, sentia um reconhecimento apaixonado
pela mulher de virtude que, áquella hora, no fundo
da Galliza, estava cravando agulhas n'um coração
de cera!...
Mas de repente o Conselheiro bateu na testa, arremessou-se
sobre o chapéo, sahiu impetuosamente.
Olharam-se inquietos. D. Felicidade empallideceu:
seria alguma dôr? Santo Deus! Já murmurava baixo
uma reza.
Mas viram-no entrar logo, e dizer com uma voz
triumphante:
—D'azul escuro!
Abriram grandes olhos, sem comprehender.
—Sua magestade a rainha! Tinha promettido
verifical-o, cumpri-o!
E sentou-se com solemnidade, dizendo a Luiza:
—Lamento que se esconda n'esse recanto, D.
Luiza! Na sua idade! Na flôr dos annos! Quando
tudo na vida é côr de rosa!
Ella sorriu. Estava agora muito sobresaltada. A
cada momento olhava o relogio. Sentia-se doente:
os pés arrefeciam-lhe, uma vaga febre fazia-lhe a
cabeça pesada. O seu pensamento estava na casa,
em Juliana, em Sebastião, cortado de palpites, de
esperanças, de terrores... E via, sem comprehender,
a multidão de soldados vestidos de côres mipartidas,
com armas obsoletas, que marchavam, paravam
n'uma cadencia affectada, erguendo uma poeira
subtil no tablado mal regado. Um côro vigoroso
resoava: era a marcha arrogante e festiva dos reitres
allemães, celebrando a alegria das excursões victoriosas
pelos paizes do vinho, e a posse das bolsas
mercenarias cheias de sonoros rixdales! E os
seus olhos seguiam um barbaças corpulento, que,
por cima dos gorros quadrados dos bésteiros, balançava
monotonamente um largo quadrado de paninho—a
bandeira do Santo Imperio, negra, vermelha
e d'ouro!
Mas então ergueu-se um rumor no fundo da platéa.
Vozes duras altercavam. Ordem! ordem! dizia-se.
Localistas na superior pozeram-se rapidamente
em bicos de pés na palhinha das cadeiras. Quatro policias
e dous municipaes appareceram á porta do
fundo; e depois d'uma troça, de risadas, foram levando
um moço livido, que cambaleava,—e o lado
esquerdo do seu jaquetão de pellucia estava todo
vomitado!
Mas fez-se logo silencio: o pano de fundo oscillava
um pouco, acotovellado pela sahida festiva dos
reitres e dos populares; e no palco deserto, tendo á
direita um portico oscillante de cathedral e á esquerda
a portinha triste d'uma casa burgueza, Valentim,
com uma longa pera, á beira da rampa, beijava
sofregamente uma medalha:—mas Luiza não
o escutava. Pensava com o coração confrangido: que
fará a esta hora Sebastião?
Sebastião, ás nove horas, por um nordeste agudo
que torcia as luzes do gaz dentro dos candieiros,
dirigia-se devagar a casa d'um commissario de policia,
seu primo afastado, o Vicente Azurara. Uma
velha servente, engelhada como uma maçã raineta,
levou-o ao quarto escolastico, «onde o snr. commissario
estava a cozer uma grande constipação»: encontrou-o
com um gabão pelos hombros, os pés embrulhados
n'um cobertor, tomando
grogs quentes, e
lendo o
Homem dos tres calções. Apenas Sebastião
entrou tirou do nariz adunco as grandes lunetas, e
erguendo para elle os olhos pequeninos, chorosos
do defluxo, exclamou:
—Estou com um diabo d'uma constipação ha
tres dias, que me não quer largar...—E rosnou
algumas pragas, passando a mão magra e nodosa
sobre uma face trigueira, de linhas duras, a que um
espesso bigode grisalho dava ferocidade.
Sebastião lamentou-o muito: não admirava com
a estação que ia!... Aconselhou-lhe agua sulfurica
com leite fervido.
—Eu, se isto não despega—disse o commissario
rancorosamente—atiro-lhe ámanhã p'ra dentro
com meia garrafa de genebra; e se não fôr por bem,
ha-de ir á força... E que ha de novo?
Sebastião tossiu, queixou-se d'andar tambem
adoentado, e chegando a cadeira para ao pé do primo
Vicente, pondo-lhe a mão sobre o joelho:
—Ó Vicente, tu, se eu te pedisse um policia p'ra
me acompanhar cá p'ra uma cousa, só p'ra metter
medo, só p'ra fazer que uma pessoa restitua o
que tirou, tu davas ordem, hein?
—Ordem p'ra quê?—perguntou lentamente o
Vicente com a cabeça baixa, os olhinhos avermelhados
em Sebastião.
—Ordem p'ra me acompanhar, p'ra se mostrar.
É só p'ra se mostrar. É um caso exquisito... P'ra
metter medo... Tu sabes que eu não sou capaz...
É p'ra que uma pessoa restitua o que tirou. Sem
fazer escandalo...
—Roupas? Dinheiro?
E o commissario cofiava reflectidamente o bigode
com os seus longos dedos magros, muito queimados
do cigarro.
Sebastião hesitou:
—Sim. Roupas, cousas... É p'ra não haver escandalo...
Tu percebes...
O Vicente murmurou com um ar profundo, fixando-o:
—Um policia p'ra se mostrar...
Escarrou ruidosamente. E franzindo a testa:
—Não é cousa de politica?
—Não!—fez Sebastião.
O commissario embrulhou mais os pés no cobertor,
rolou em redor os olhos, ferozmente:
—Nem toca com gente grauda?
—Qual!
—Um policia p'ra se mostrar...—ruminava o
Vicente.—Tu és um homem de bem... Dá cá aquella
pasta de cima da commoda.
Tirou um papel pautado, examinou-o, acavallando
a luneta no nariz, meditou com a mão em garra sobre
a testa:
—O Mendes... Serve-te o Mendes?
Sebastião, que não conhecia o Mendes, acudiu
logo:
—Sim, quem quizeres. É só p'ra se mostrar...
—O Mendes. É um homemzarrão. É serio, foi da
Guarda.
Fez-lhe aproximar o tinteiro; escreveu devagar a
ordem; releu-a duas vezes; cortou os
tt, seccou-a
á chaminé do candieiro; e dobrando-a com solemnidade:
—Á segunda divisão!
—Obrigado, Vicente. É um grande favor... Obrigado.
E agasalha-te, homem! E não te esqueça:
agua sulfurica da pharmacia Azevedo na rua de S.
Roque: meia chavena de leite fervido... E obrigado.
Não queres nada, hein?
—Não. Dá uma placa ao Mendes. É serio, foi da
Guarda!
E acavallando as lunetas retomou o
Homem dos
tres calções.
Sebastião d'ahi a meia hora, seguido do robusto
Mendes, que marchava militarmente, com os braços
um pouco arqueados, encaminhava-se para casa de
Jorge. Não tinha ainda um plano definido. Calculava
naturalmente que Juliana vendo, áquella hora da noite,
o policia com o seu terçado, se aterraria, imaginaria
logo a Boa Hora, o Limoeiro, a costa d'Africa,
entregaria as cartas, pediria misericordia! E depois?
Pensava vagamente em lhe pagar a passagem para
o Brazil, ou dar-lhe quinhentos mil reis para ella se
estabelecer longe, na provincia... Veria. O essencial
era aterral-a!
Juliana, com effeito, depois d'abrir a porta, apenas
viu subir, atraz de Sebastião, o policia, fez-se
muito amarella, exclamou:
—Credo! Que temos nós?
Estava embrulhada n'um chale preto, e o candieiro
de petroleo, que ella erguia, prolongava na parede
a sombra disforme da cuia.
—Ó snr.
a Juliana, faça favor d'accender luz na
sala—disse Sebastião, tranquillamente.
Ella fixava no policia um olhar faiscante e inquieto.
—Ó senhor, que aconteceu? Credo! Os senhores
não estão em casa. Eu se soubesse nem tinha aberto...
Ha alguma novidade? Olha o proposito!
—Não é nada—disse Sebastião, abrindo a porta
da sala—tudo em paz!
Elle mesmo accendeu com um phosphoro uma
vela na serpentina—que fez sahir vagamente da
sombra os dourados dos caixilhos das gravuras, a
pallida face do retrato da mãi de Jorge, um reflexo
de espelho.
—Ó snr. Mendes, sente-se, sente-se!
O Mendes collocou-se á beira da cadeira com a
mão na cinta, o terçado entre os joelhos, muito soturno.
—Esta é que é a pessoa—disse Sebastião, indicando
Juliana, que ficára á porta da sala, attonita.
A mulher recuou, livida:
—Ó snr. Sebastião, que brincadeira é esta?
—Não é nada, não é nada...
Tomou-lhe o candieiro da mão, e tocando-lhe no
braço:
—Vamos lá dentro á sala de jantar.
—Mas que é? É alguma cousa commigo? Credo!
E esta! Olha que desconchavo!
Sebastião fechou a porta da sala de jantar, pousou
o candieiro sobre a mesa, onde havia ainda um
prato com codeas de queijo, e um fundo de vinho
n'um copo, deu alguns passos, fazendo estalar nervosamente
os dedos, e parando bruscamente diante
de Juliana:
—Dê cá umas cartas que roubou á senhora...
Juliana teve um movimento para correr á janella,
gritar.
Sebastião agarrou-lhe o braço, e fazendo-a sentar
com força sobre uma cadeira:
—Escusa d'ir á janella gritar, a policia já está
dentro de casa. Dê cá as cartas, ou p'ra a enxovia!
Juliana entreviu n'um relance um quarto tenebroso
no Limoeiro, o caldo do rancho, a enxerga nas
lages frias...
—Mas que fiz eu?—balbuciava—que fiz eu?
—Roubou as cartas. Dê-as p'ra cá, avie-se.
Juliana sentada á beira da cadeira, apertando
desesperadamente as mãos, rosnava por entre os
dentes cerrados:
—A bebeda! A bebeda!
Sebastião, impaciente, pôz a mão no fecho da
porta.
—Espere, seu diabo!—gritou ella, erguendo-se
com um salto. Fixou-o rancorosamente, desabotoou
o corpete, enterrou a mão no peito, tirou uma carteirinha.
Mas de repente batendo com o pé, n'um
phrenesi:
—Não! não! não!
—Diabos me levem se vossê não fôr dormir á
enxovia!—Entre-abriu a porta.—Ó snr. Mendes!
—Ahi tem!—gritou ella atirando-lhe a carteira.
E brandindo para elle os punhos:—Raios te
partam, malvado!
Sebastião apanhou a carteira. Havia tres cartas:
uma muito dobrada era de Luiza; leu a primeira linha:
Meu adorado Bazilio; e muito pallido guardou
logo tudo na algibeira interior do casaco. Abriu então
a porta: a possante figura do Mendes estava na
sombra.
—Está tudo arranjado, snr. Mendes,—a voz
tremia-lhe um pouco—não lhe quero tomar mais
tempo.
O homem fez uma continencia, calado: quando
Sebastião, no patamar, lhe resvalou na mão uma libra,
o Mendes curvou-se respeitosamente e disse,
com uma voz pegajosa:
—E para o que quizer, o sessenta e quatro, o
Mendes, que foi da Guarda. Não se incommode v. s.
a
Ás ordens de v. s.
a Minha mulher e filhos agradecem.
Não se incommode v. s.
a O sessenta e quatro, o Mendes,
que foi da Guarda!
Sebastião fechou a cancella, voltou á sala de jantar.
Juliana ficára n'uma cadeira, aniquilada; mas
apenas o viu, erguendo-se furiosamente:
—A bebeda foi-lhe contar tudo! Foi vossê que
arranjou a armadilha! Tambem vossê dormiu com
ella!...
Sebastião, muito branco, dominava-se.
—Vá pôr o chapéo, mulher. O snr. Jorge despediu-a.
Ámanhã mandará buscar os bahus...
—Mas o homem ha-de saber tudo!—berrou ella.—Este
tecto me rache se eu não lhe disser tudo
tim-tim por tim-tim. Tudo! As cartas que recebia,
onde ia vêr o homem. Deitava-se com ella na sala,
até os pentes lhe cahiam na balburdia. Até a cozinheira
lhes sentia o alarido!
—Cale-se!—bradou Sebastião com uma punhada
na mesa, que fez tremer toda a louça no aparador,
e esvoaçar os canarios. E com a voz toda tremula,
os beiços brancos:—A policia tem o seu nome,
sua ladra! Á menor palavra que vossê diga vai
para o Limoeiro, e pela barra fóra. Vossê não roubou
só as cartas; roubou roupas, camisas, lençoes,
vestidos...—Juliana ia fallar, gritar.—Bem sei—continuou
elle violentamente—deu-lh'os ella, mas
á força, porque vossê a ameaçava. Vossê arrancou-lhe
tudo. É roubo. É d'Africa!—E o que é dizer
ao snr. Jorge, póde ir dizer. Vá. Veja se elle a
acredita. Diga! São algumas bengaladas que leva
por esses hombros, ladra!
Ella rangia os dentes. Estava apanhada!
Elles tinham
tudo por si, a policia, a Boa-Hora, a cadêa, a
Africa!... E ella—nada!
Todo o seu odio contra a
Piorrinha fez explosão.
Chamou-lhe os nomes mais obscenos. Inventou
infamias.
—É que nem as do Bairro-Alto! E eu—gritava—sou
uma mulher de bem, nunca um homem
se pôde gabar de tocar n'este corpo. Nunca houve
raio nenhum que me visse a côr da pelle. E a bebeda!...—Tinha
arremessado o chale, alargou anciosamente
o collar do vestido.—Era um desaforo
por essa casa! E o que eu passei com a bruxa da
tia! É o pago que me dão! Os diabos me levem se
eu não fôr para os jornaes. Vi-a eu abraçada ao janota,
como uma cabra!
Sebastião a seu pezar escutava-a, com uma curiosidade
dolorosa por aquelles pormenores; sentia desejos
agudos de a esganar, e os seus olhos devoravam-lhe
as palavras. Quando ella se calou arquejante:
—Vá, ponha o chapéo, e p'ra a rua!
Juliana então allucinada de raiva, com os olhos sahidos
das orbitas, veio para elle, e cuspiu-lhe na cara!
Mas de repente a bocca abriu-se-lhe desmedidamente,
arqueou-se para traz, levou com ancia as
mãos ambas ao coração, e cahiu para o lado, com
um som molle, como um fardo de roupa.
Sebastião abaixou-se, sacudiu-a; estava hirta, uma
escuma rôxa apparecia-lhe aos cantos da bocca.
Agarrou no chapéo, desceu as escadas, correu
até á Patriarchal. Um
coupé vazio passava; atirou-se
para dentro, mandou a «todo o que dér», para casa
de Julião; e obrigou-o a vir immediatamente, mesmo
em chinellas, sem collarinho.
—É caso de morte, é a Juliana—balbuciava
muito pallido.
E pelo caminho, entre o ruido das rodas e o tilintar
dos caixilhos, contava confusamente que entrára
em casa de Luiza, que achára Juliana muito despeitada
por ter sido despedida, e que a fallar, a esbracejar,
de repente, tombára p'ra o lado!
—Foi o coração. Estava p'ra dias—disse Julião,
chupando a ponta do cigarro.
Pararam. Mas Sebastião desorientado, ao sahir,
fechára a porta! E dentro só a morta! O cocheiro
offereceu a sua gazua, que serviu.
—Então nem se vai a uma passeadinha ao Dáfundo,
meus fidalgos?—disse o homem, mettendo
a gorgeta na algibeira.
Mas vendo-os atirar com a porta:
—Tambem não é gente d'isso—rosnou com
desprezo, batendo a parelha.
Entraram.
No pequeno pateo o silencio da casa pareceu a
Sebastião pavoroso. Subia, aterrado, os degraus, que
se afiguravam infindaveis; e, com fortes pancadas do
coração, esperava ainda que ella estivesse apenas
adormecida n'um desmaio simples, ou já de pé, pallida
e respirando!
Não. Lá estava como a deixára, estendida na esteira,
com os braços abertos, os dedos retorcidos como
garras. A convulsão das pernas arregaçára-lhe as
saias, viam-se as suas canellas magras com meias
de riscadinho côr de rosa e as chinellas de tapete;
o candieiro de petroleo, que Sebastião esquecera ao
pé sobre uma cadeira, punha tons lividos na testa,
nas faces rigidas; a bocca torcida fazia um sombra;
e os olhos medonhamente abertos, immobilisados
na agonia repentina, tinham uma vaga nevoa,
como cobertos d'uma têa d'aranha diaphana. Em redor
tudo parecia mais immovel, d'um hirto morto.
Vagos reflexos de prata reluziam no aparador; e o
tic-tac do
cuco palpitava sem descontinuar.
—Julião apalpou-a, ergueu-se sacudindo as mãos,
disse:
—Está morta com todas as regras. É necessario
tiral-a d'aqui. Onde é o quarto?
Sebastião, pallido, fez signal com o dedo que era
por cima.
—Bem. Arrasta-a tu, que eu levo o candieiro.—E
como Sebastião não se movia:—Tens medo?—perguntou
rindo.
Escarneceu-o: que diabo, era materia inerte, era
como quem agarrava uma boneca! Sebastião, com
um suor á raiz dos cabellos, levantou o cadaver por
debaixo dos braços, começou a arrastal-o, devagar.
Julião adiante erguia o candieiro; e por fanfarronada
cantou os primeiros compassos da marcha do
Fausto.
Mas Sebastião escandalisou-se, e com uma voz
que tremia:
—Largo tudo, e vou-me...
—Respeitarei os nervos da menina!—disse Julião
curvando-se.
Continuaram calados. Aquelle corpo magro parecia
a Sebastião d'um peso de chumbo. Arquejava.
Nas escadas uma das chinellas do cadaver soltou-se,
rolou. E Sebastião sentia aterrado alguma cousa que
lhe batia contra os joelhos; era a cuia cahida, suspensa
por um atilho.
Estenderam-na na cama; Julião, dizendo que se
deviam seguir as tradições,—pôz-lhe os braços
em cruz e fechou-lhe os olhos.
Esteve um momento a olhal-a:
—Feia besta!—murmurou, estendendo-lhe sobre
o rosto uma toalha enxovalhada.
Ao sahir examinou, admirado, o quarto:
—Estava mais bem alojada que eu, o estafermo!
Fechou a porta, deu volta á chave:
—
Requiescat in pace—disse.
E desceram, calados.
Ao entrar na sala, Sebastião, muito pallido, pôz
a mão no hombro de Julião:
—Então achas que foi o aneurisma?
—Foi. Enfureceu-se, estourou. É dos livros...
—Se não se tivesse zangado hoje...
—Estourava ámanhã. Estava nas ultimas... Deixa
em paz a creatura. Está começando a esta hora
a apodrecer, não a perturbemos.
Declarou então, esfregando as mãos com frio,
que «comia alguma cousa». Achou no armario um
pedaço de vitella fria, uma garrafa meia de Collares.
Installou-se e, com a bocca cheia, deitando o
vinho d'alto:
—Então sabes a novidade, Sebastião?
—Não.
—O meu concorrente foi despachado!
Sebastião murmurou:
—Que ferro!
—Era previsto—disse Julião com um grande
gesto.—Eu ia fazer um escandalo, mas...—e teve
um risinho—amansaram-me! Estou n'um posto medico,
deram-me um posto medico! Atiraram-me um
osso!
—Sim?—fez Sebastião.—Homem, ainda bem,
parabens. E agora?
—Agora, roel-o!
De resto, tinham-lhe promettido a primeira vagatura.
O posto medico não era mau... Em definitiva,
a situação melhorára...
—Mas mesquinha, mesquinha! Não sáio do atoleiro...
Estava farto de medicina, disse depois d'um silencio.
Era um bêco sem sahida. Devia-se ter feito
advogado, politico, intrigante. Tinha nascido p'ra
isso!
Ergueu-se, e com grandes passadas pela sala, o
cigarro na mão, a voz cortante, expoz um plano de
ambição:—O paiz está a preceito para um intrigante
com vontade! Esta gente toda está velha, cheia
de doenças, de catarrhos de bexiga, de antigas syphilis!
tudo isto está pôdre por dentro e por fóra!
o velho mundo constitucional vai a cahir aos pedaços...
Necessitam-se homens!
E plantando-se diante de Sebastião:
—Este paiz, meu caro amigo, tem-se governado
até aqui com
expedientes. Quando vier a revolução
contra os
expedientes, o paiz ha-de procurar quem
tenha os
principios. Mas quem tem ahi principios?
Quem tem ahi quatro principios? Ninguem; teem dividas,
vicios secretos, dentes postiços; mas principios,
nem meio! Por consequencia se houver tres
patuscos que se dêem ao trabalho de estabelecer
meia duzia de principios sérios, racionaes, modernos,
positivos, o paiz tem se atirar de joelhos, e
supplicar-lhes: Senhores, fazei-me a honra insigne
de me pôr o freio nos dentes! Ora eu devia ser um
d'estes. Nasci p'ra isso! E secca-me a idéa de que
em quanto outros idiotas, mais astutos e mais previdentes,
hão-de estar no poleiro a reluzir ao sol,
al
hermoso sol português, como se diz nas zarzuelas,
eu hei-de estar a receitar cataplasmas a velhas devotas,
ou a ligar as rupturas d'algum desembargador
caduco.
Sebastião calado pensava na outra, morta em
cima.
—Estupido paiz, estupida vida!—rosnou Julião.
Mas uma carruagem entrou na rua, parou á porta.
—Chegam os principes!—disse Julião. Desceram
logo.
Jorge ajudava Luiza a sahir do trem, quando Sebastião,
abrindo a porta, bruscamente:
—Houve cá grande novidade!
—Fogo?—gritou Jorge voltando-se aterrado.
—A Juliana, que lhe rebentou o aneurisma—disse
a voz de Julião da sombra da porta.
—Oh c'os diabos!—E Jorge atarantado procurava
á pressa na algibeira troco para o cocheiro.
—Ai, eu já não entro!—exclamou logo D. Felicidade,
mostrando á portinhola a sua larga face envolvida
n'uma manta branca.—Eu já não entro!
—Nem eu!—fez Luiza, toda tremula.
—Mas para onde queres que vamos, filha?—exclamou
Jorge.
Sebastião lembrou que podiam ir para casa d'elle.
Tinha o quarto da mamã, era só pôr lençoes na
cama.
—Vamos, sim! Vamos, Jorge! É o melhor!—supplicou
Luiza.
Jorge hesitava. A patrulha que ia passando ao
alto da rua, ao vêr aquelle grupo junto á lanterna
do trem, parou. E Jorge emfim, instado, muito contrariado,
consentiu.
—Diabo da mulher, morrer a semelhante hora!
A carruagem vai-a levar, D. Felicidade...
—E a mim, que estou em chinellas!—acudiu
Julião.
D. Felicidade lembrou então, como christã, que
era necessario alguem, para velar a morta...
—Ora, pelo amor de Deus, D. Felicidade!—exclamou
Julião, entrando logo para a carruagem, batendo
com a portinhola.
Mas D. Felicidade insistia: era uma falta de religião!
ao menos pôr duas velas, mandar chamar um
padre!...
—Largue, cocheiro!—berrou Julião, impaciente.
A carruagem deu a volta. E D. Felicidade á portinhola,
apesar de Julião que a puxava pelos vestidos,
gritava:
—É um peccado mortal! É uma irreverencia!
Ao menos duas velas!
O trem partiu a trote.
Luiza agora tinha escrupulos: realmente podia-se
mandar chamar alguem...
Mas Jorge enfureceu-se. Chamar quem, áquella
hora? Que beatice! Estava morta, acabou-se! Enterrava-se...
Velar o estafermo! Fazer-lhe talvez camara
ardente tambem? Queria ella ir velal-a?...
—Então, Jorge, então!...—murmurava Sebastião.
—Não, é de mais! É vontade de crear embaraços,
que diabo!
Luiza baixava a cabeça: e, em quanto Jorge, praguejando,
ficou atraz a fechar a porta da casa, ella
foi descendo a rua pelo braço de Sebastião.
—Estourou de raiva—disse-lhe elle baixinho.
Toda a rua Jorge resmungou. Que idéa, irem dormir
agora fóra de casa! Realmente era levar muito
longe as mariquices...!
Até que Luiza lhe disse, quasi chorando:
—Vê se me queres torturar mais, e fazer-me
mais doente, Jorge!
Elle calou-se, mordendo furioso o charuto. E Sebastião,
para a socegar, propoz que viesse a tia Vicencia,
a preta, velar a Juliana.
—Era talvez melhor—murmurou Luiza.
Chegaram á porta de Sebastião. O
frou-frou do
vestido de sêda de Luiza, áquella hora, na sua casa,
dava uma commoção a Sebastião: a mão tremia-lhe
ao accender as velas da sala. Foi acordar a tia Vicencia
para fazer chá; tirou elle mesmo os lençoes
dos bahús, apressado, feliz d'aquella hospitalidade.
Quando voltou á sala, Luiza estava só, muito pallida,
ao canto do sophá.
—Jorge?—perguntou elle.
—Foi ao seu escriptorio, Sebastião, escrever ao
parocho para o enterro...—E com os olhos brilhantes,
n'uma voz sumida e assustada:—Então?
Sebastião tirou da algibeira a carteirinha de Juliana.
Ella agarrou-a sofregamente—e com um movimento
brusco, tomou-lhe a mão, e beijou-lh'a.
Mas Jorge entrava, sorrindo.
—Então agora está mais descançada, a menina?
—Inteiramente—disse ella, com um suspiro de
allivio.
Foram tomar chá. Sebastião contou a Jorge, corando
um pouco, a maneira como entrára em casa,
a Juliana lhe estivera a dizer que fôra despedida, e
fallando, exaltando-se, zás, de repente, cahira para
o lado morta...
E acrescentou:
—Coitada!
Luiza via-o mentir, olhando-o com adoração.
—E a Joanna?—perguntou Jorge, de repente.
Luiza, sem se perturbar, respondeu:
—Ah, esqueci-me dizer-te... Tinha pedido licença
p'ra ir vêr uma tia que está muito mal, p'ra os
lados de Bellas... Diz que volta ámanhã... Mais uma
gota de chá, Sebastião...
Esqueceram-se depois de mandar a Vicencia—e
ninguem velou a morta.
XVI
Luiza passou a noite ás voltas, com febre. Jorge
de madrugada ficou assustado da frequencia do seu
pulso e do calor secco da pelle.
Elle mesmo, muito nervoso, não pudera dormir.
O quarto, onde se não accendera luz havia muito,
tinha uma frialdade deshabitada: na parede, junto
ao tecto, havia manchas de humidade: e a cama
antiga de columnas torneadas sem cortinados, o velho
tremó do seculo passado com o seu espelho embaciado
davam, á luz bruxuleante da lamparina, um
sentimento triste de convivencias extinctas. O achar-se
alli com sua mulher, n'uma cama alheia, trazia-lhe,
sem saber porque, uma vaga saudade; parecia-lhe
que se dera na sua vida uma alteração brusca—e
que, semelhante a um rio a que se muda o leito,
a sua existencia, desde essa noite, começaria a correr
entre aspectos differentes. O nordeste fazia bater
os caixilhos da vidraça, e uivava encanado na rua.
Pela manhã, Luiza não se pôde levantar.
Julião, chamado á pressa, tranquillisou-os:
—É uma febresita nervosa. Quer socego, não vale
nada. Foi o medosinho d'hontem, hein?
—Sonhei toda a noite com ella—disse Luiza.—Que
tinha resuscitado... Que horror!
—Ah! póde estar socegada... E já a aviaram,
a mulher?
—O Sebastião lá anda com a massada—disse
Jorge.—E eu vou dar uma vista d'olhos.
Na rua já se sabia a morte da
tripa-velha.
A mulher que a veio amortalhar, uma matrona
muito picada das bexigas, com os olhos avermelhados
da paixão da aguardente, era conhecida da snr.
a
Helena. Estiveram um momento a palrar ao sol, á
porta do estanque:
—Muito que fazer agora, snr.
a Margarida, hein?
—Bastante, bastante, snr.
a Helena—disse a
amortalhadeira com a voz um pouco rouca.—No inverno
sempre ha mais obra. Mas tudo gente velha,
com os frios. Nem um corpinho bonito p'ra vestir...
A snr.
a Margarida tinha predilecções artisticas.
Gostava d'um bonito corpo de dezoito annos, uma
mocinha fresca para lavar, escarolar, enfeitar... Entrouxava
á má cara a gente velha. Mas com as raparigas
novas esmerava-se: acatitava as pregas da
mortalha; calculava o
chic d'uma flôr, d'um laço;
trabalhava com os requintes ajanotados d'uma modista
do sepulchro.
A estanqueira contou-lhe muitas particularidades
sobre a Juliana, os favores dos patrões, as tafularias
d'ella, os luxos do quarto tapetado... A snr.
a Margarida
dizia-se «banzada». E para quem iria agora tudo
aquillo?—perguntavam.—A
tripa-velha não tinha
parentes...
—Era uma riqueza p'ra a minha Antoninha!—disse
a amortalhadeira, traçando o chale com tristeza.
—Como vai ella, a pequena?...
—Aquillo vai mal, snr.
a Helena. Aquella cabeça
douda!—E exhalando a sua dôr com loquacidade:—Deixar
o brazileiro que a trazia nas palminhas...
E por quem? Por aquelle desalmado, que lhe come
tudo, que já lhe arranjou um filho, e que a derrêa
com pau... Mas então, as raparigas são assim... Vão
atraz do palmo de cara... Que elle é bonito rapaz!
Mas um bebedo!... Coitada!... Pois vou vestir a boneca,
snr.
a Helena.—E entrou na casa compungidamente.
O padre já chegára tambem. Estava na sala com
Sebastião, que conhecia d'Almada, e fallava de lavoura,
d'enxertos, das regas, n'uma voz grossa—passando,
com um gesto lento da sua mão cabelluda,
o lenço enrolado por debaixo do nariz. As janellas
em toda a casa estavam abertas ao sol muito dôce.
Os canarios chilreavam.
—E estava ha muito tempo na casa, a defunta?—perguntou
o padre, a Jorge que passeava pela sala,
fumando.
—Ha quasi um anno.
O padre desdobrou lentamente o lenço, e sacudindo-o,
antes de se assoar:
—A sua senhora ha-de sentir muito... É um tributo
universal!...
E assoou-se, com estrondo.
A Joanna, então, de chale e lenço, appareceu,
em bicos de pés. Soubera pelos visinhos que a Juliana
«arrebentára», que os senhores estavam em
casa do snr. Sebastião. Vinha de lá. Luiz mandára-a
entrar no quarto. Quando a viu doente, a sua rica
senhora, lagrimejou muito. Luiza disse-lhe—«que
agora estava tudo como d'antes, podia voltar...»
—E ouça, Joanna, se o snr. Jorge lhe perguntar...
que esteve em Bellas, com a tia...
A rapariga fôra logo buscar a trouxa e vinha installar-se—um
pouco assustada da morte em casa.
D'ahi a pouco o Paula bateu discretamente á
porta.
Alli vinha offerecer-se para o que fosse necessario
n'aquelle transe! E tirando e pondo rapidamente
o boné, raspando o pé, dizia com a sua voz catarrhosa:
—Lamento a desgraça, lamento a desgraça! Todos
somos mortaes...
—Bem, bem, snr. Paula, não é necessario nada—disse
Jorge.—Obrigado!
E fechou bruscamente a cancella.
Estava impaciente por se desembaraçar «d'aquella
estopada»: e mesmo como o enfastiavam as martelladas
espaçadas dos homens pregando o caixão,
em cima, chamou a Joanna:
—Diga a essa gente que se avie. Não vamos ficar
aqui toda a vida!
A Joanna foi logo dizer que o senhor estava
n'um phrenesi! Tinha-se feito já intima da snr.
a Margarida.
A amortalhadeira fôra mesmo com ella á cozinha
para tomar uma «sustanciasinha». Como o lume
estava apagado, contentou-se com sopas de pão
em vinho.
—Sopinha de burro—dizia, fazendo estalar a
lingua.
Mas estava enojada com a defunta! Nunca vira
bicho mais feio. Um corpo de sardinha secca! E pondo
um olhar complacente nas bellas fórmas de Joanna:—A
menina, não. A menina tem-me o ar de
ter muito bom corpo...—E parecia calcular como
talharia a mortalha para aquellas linhas robustas.
Joanna disse escandalisada:
—Longe vá o agouro, cruzes!
A outra sorriu; faltavam-lhe dous dentes: e aflautando
a voz:
—Tem-me passado pela mão muita gente fina,
minha menina. Mais uma gotinha de vinho, faz favor?
É do Cartaxo, não? é muito avelludado! rica
gota!
Emfim, com grande satisfação de Jorge, ás quatro
horas os homens desceram o caixão. A visinhança
estava pelas portas. O Paula mesmo, por fanfarronada,
disse com dous dedos adeus ao esquife, murmurando:
—Boa viagem!
Jorge em cima, ao sahir, perguntou a Joanna:
—E vossê não tem medo de ficar aqui só?
—Eu não, meu senhor. Quem vai não volta!
Tinha medo, com effeito; mas preparava-se a
passar a noite com o Pedro, e batia-lhe o coração
de alegria de «terem a casa por sua» até de manhã,
e de se poderem rolar amorosamente, como fidalgos,
por cima do divan da sala.
Jorge voltou com Sebastião para casa, e apenas
entrou no quarto, onde Luiza estava deitada:
—Tudo prompto—disse, esfregando as mãos.—Lá
vai para o Alto de S. João, devidamente acondicionada.
Per omnia sæcula sæculorum!
A tia Joanna, que estava á cabeceira de Luiza,
acudiu:
—Ai, quem lá vai, lá vai... Mas boa mulher, não
era ella!
—Era um bom estafermo—disse Jorge.—Esperemos
que a esta hora esteja a ferver na caldeira
de Pero Botelho. Não é verdade, tia Joanna?
—Jorge!—fez Luiza reprehensivamente. E julgou
dever rezar-lhe baixo dous padre-nossos por
alma.
Foi tudo o que a terra deu na sua morte áquella
que ia rolando a essa hora, ao trote de duas velhas
eguas, para a valla dos pobres, e que fôra na vida
Juliana Couceiro Tavira!
No dia seguinte Luiza estava melhor: fallaram
mesmo, com grande desconsolação da tia Joanna, em
voltar para casa. Sebastião não dizia nada, mas quasi
desejava secretamente que uma convalescença a
retivesse alli semanas indefinidas. Ella parecia tão
agradecida! Tinha olhares tão reconhecidos, que só
elle comprehendia! E era tão feliz tendo-a alli e a
Jorge na sua casa! Conferenciava com a tia Vicencia
sobre o jantar; andava pelos corredores e pela sala,
com respeito, quasi em bicos de pés, como se a presença
d'ella santificasse a casa; enchia os vasos de
camelias e de violetas; sorria beatamente ao vêr
Jorge, á sobremesa, saborear e gabar o seu velho
cognac; sentia alguma cousa de bom acalental-o como
um manto acolchoado e macio; e já pensava que
quando ella partisse tudo lhe pareceria mais frio, e
com uma tristeza de ruina!
Mas d'ahi a dous dias voltaram para casa.
Luiza ficou muito agradada com a criada nova.
Fôra Sebastião que a arranjára. Era uma rapariguita
aceadinha e branca, com grandes olhos bonitos e
pasmados, um ar amoravel: chamava-se Marianna;
e foi logo correndo dizer a Joanna «que morria pela
senhora! tinha uma carinha d'anjo! que linda que
era!»
Jorge logo n'essa manhã mandou os dous bahus
de Juliana á tia Victoria.
Luiza, quando elle sahiu á tardinha, fechou-se no
quarto, com a carteirinha de Juliana, correu os transparentes
por precaução, accendeu uma vela, e queimou
as cartas. As mãos tremiam-lhe; e via, com os
olhos marejados de lagrimas, a sua vergonha, a sua
escravidão irem-se, dissiparem-se n'um fumo alvadio!
Respirou completamente! Emfim! E fôra Sebastião,
aquelle querido Sebastião!
Foi então á sala, á cozinha, vêr a casa: tudo lhe
pareceu novo, a sua vida cheia de doçura: abriu todas
as janellas; experimentou o piano; rasgou mesmo
em pedaços, por superstição, a musica da
Médjé,
que lhe dera Bazilio; conversou muito com a Marianna;
e saboreando o seu caldo de gallinha de convalescente,
com a face alumiada da felicidade:
—Que bem que vou passar agora!—pensava.
Quando sentiu no corredor os passos de Jorge
que entrava, correu, deitou-lhe os braços ao pescoço,
e com a cabeça no hombro d'elle:
—Estou tão contente hoje! E se tu soubesses,
é tão boa rapariga a Marianna!
Mas n'essa noite a febre voltou. Julião, de manhã,
achou-a peor.
—Crescimentos...—disse descontente.
Estava receitando, quando D. Felicidade entrou,
muito excitada. Ficou toda surprehendida de vêr
Luiza doente; e debruçando-se sobre ella, disse-lhe
logo ao ouvido:
—Tenho que te contar!
Apenas Jorge e Julião sahiram, desabafou, sentada
aos pés da cama,—com uma voz ora baixa
pela gravidade da confidencia, ora aguda pelo impeto
da indignação:
Tinha sido roubada! Indignamente roubada! O
homem que mandára a Tuy, o grande ladrão, tinha
escripto á Gertrudes, á criada, que não estava resolvido
a voltar a Lisboa; que a mulher de virtude
mudára de povoação; que elle não queria saber mais
d'esse negocio e que até o achava exquisito; que
offerecia o seu prestimo em Tuy,—tudo isto n'uma
boa letra d'escrevente publico, n'um portuguez horrivel,—e
do dinheiro nem palavra!
—Que te parece o mariola? Oito moedas! Eu
se não fosse pela vergonha, ia direita á policia...
Ai! os gallegos p'ra mim acabaram! Por isso o Conselheiro
não se chegava ao rego! Pudera! A mulher
nunca lançou a sorte!...—Porque se já não acreditava
na honestidade dos gallegos, não perdera a fé
no poder das bruxas.
Que ella não era pelas oito moedas! Era pelo
ferro! E depois, quem sabe onde estaria agora a
mulher! Ai, era d'endoudecer!... Que te parece,
hein?
Luiza encolheu os hombros: muito abafada na
roupa, as faces escarlates, cerravam-se-lhe os olhos
n'uma somnolencia pesada: D. Felicidade aconselhou-lhe
vagamente um «suadouro», suspirando; e
como Luiza não lhe podia dar consolações, sahiu para
ir á Encarnação desabafar com a Silveira.
N'essa madrugada Luiza peorou. A febre recrudecera.
Jorge, inquieto, vestiu-se á pressa, ás nove
horas da manhã, foi buscar Julião. Descia a escada
rapidamente, abotoando ainda o paletot, quando o
carteiro subia, tossindo o seu catarrho.
—Cartas?—perguntou Jorge.
—Uma p'ra a senhora—disse o homem.—Ha-de
ser p'ra a senhora...
Jorge olhou o enveloppe: tinha o nome de Luiza,
vinha de França.
—De quem diabo é isto?—pensou. Metteu-a
no bolso do paletot, e sahiu.
D'ahi a meia hora voltava com Julião, n'um trem.
Luiza dormitava, amodorrada.
—É preciso cautela... Vamos a vêr...—murmurou
Julião, coçando devagar a cabeça, em quanto
do outro lado do leito Jorge o olhava anciosamente.
Receitou e ficou para almoçar com Jorge. Estava
um dia frio e pardo. A Marianna, abafada n'um casabeque,
servia, com os dedos vermelhos, inchados
de frieiras. E Jorge sentia-se entristecer, como se
toda a nevoa do ar se lhe fosse lentamente depositando
e condensando n'alma.
A que se podia attribuir semelhante febre? dizia,
muito desconsolado. Tão extraordinario! Havia
seis dias, ora melhor, ora peor...
—Estas febres veem por tudo—replicou Julião,
partindo tranquillamente uma torrada.—Ás vezes
por uma corrente d'ar ás vezes por um desgosto.
Tenho eu, por exemplo, um caso curioso: um sujeito,
um Alves, que esteve p'ra fallir, e que viveu,
coitado, durante dous mezes em torturas. Ha duas
semanas, por um golpe de fortuna,—a velhaca ás
vezes tem d'estes caprichos,—arranjou todos os
seus negocios, viu-se livre. Pois senhor, desde então
tem uma febre assim, tortuosa, complexa, com
symptomas disparatados... O que é? É que a excitação
nervosa abateu, e a felicidade trouxe-lhe uma
revolução no sangue. Póde muito bem dar á casca.
Faz então a fallencia geral, a grande, aquella em
que o crédor é implacavel, saca á vista, e...
per
omnia sæcula!
Ergueu-se, e accendendo o cigarro:
—Em todo o caso um repouso absoluto. É necessario
ter-lhe o espirito em algodão em rama. Nada
de palestra, nada de phrases, e se tiver sêde, limonada.
Até logo!
E sahiu, calçando as luvas pretas que usava agora
desde que pertencia ao Posto Medico.
Jorge voltou á alcova: Luiza ainda dormitava.
Marianna sentada ao pé n'uma cadeirinha baixa, com
o rostinho muito triste, não tirava de Luiza os seus
grandes olhos vagamente espantados.
—Tem estado muito inquieta—murmurou.
Jorge apalpou a mão de Luiza que ardia, conchegou-lhe
a roupa. Beijou-a devagarinho na testa,
foi cerrar as portas da janella, defronte da alcova.—E
passeando no escriptorio, voltavam-lhe as palavras
de Julião: são febres que veem por um desgosto!
Pensava na historia do negociante, recordava aquelle
estado de abatimento e de fraqueza de Luiza que
o preoccupára tanto, ultimamente, tão inexplicavel!
Ora, tolices! Desgosto de quê? Em casa de Sebastião
estivera tão animada! Nem a morte da outra lhe fizera
abalo!—De resto acreditava pouco nas
febres
de desgosto! Julião tinha uma medicina litteraria. Pensou
mesmo que seria mais prudente chamar o velho
dr. Caminha...
Ao metter a mão no bolso, então, os seus dedos
encontraram uma carta; era a que o carteiro lhe dera,
de manhã, para Luiza. Tornou a examinal-a com
curiosidade; o sobrescripto era banal, como os que
ha nos cafés ou nos restaurantes; não conhecia a
letra; era d'homem, vinha de França... Atravessou-o
um desejo rapido de a abrir. Mas conteve-se, atirou-a
para cima da mesa, embrulhou devagar um
cigarro.
Voltou á alcova. Luiza permanecia na sua modorra:
a manga do chambre arregaçada descobria o
braço mimoso, com a sua pennugem loura; a face
escarlate reluzia; as pestanas longas pousavam pesadamente,
no adormecimento das palpebras finas;
um annel do cabello cahira-lhe sobre a testa, e pareceu
a Jorge adoravel e tocante com aquella côr, a
expressão da febre. Pensou, sem saber porque, que
outros a deveriam achar linda, desejal-a, dizer-lh'o,
se podessem... Para que lhe escreviam de França,
quem?
Voltou ao escriptorio, mas aquella carta sobre
a mesa irritava-o: quiz lêr um livro, atirou-o logo
impaciente; e poz-se a passear, torcendo muito
nervoso o forro das algibeiras.
Agarrou então a carta, quiz vêr, através do papel
delgado do enveloppe; os seus dedos, mesmo
irresistivelmente, começaram a rasgar um angulo
do sobrescripto. Ah! Não era delicado aquillo!...
Mas a curiosidade, que governava o seu cerebro,
suggeriu-lhe toda a sorte de raciocinios, com uma
tentação persuasiva:—Ella estava doente, e podia
ter alguma cousa urgente; se fosse uma herança?
depois ella não tinha segredos, e então em França!
Os seus escrupulos eram pueris! Dir-lhe-hia
que a abrira por engano. E se a carta contivesse
o segredo d'aquelle desgosto, do
desgosto das theorias
de Julião!... Devia abril-a então para a curar
melhor!
Sem querer achou-se com a carta desdobrada
na mão. N'um relanço avido devorou-a. Mas não
comprehendeu bem; as letras embrulhavam-se;
chegou-se á janella, releu devagar: