«Minha querida Luiza.
«Seria longo explicar-te, como só antes d'hontem
em Nice—d'onde cheguei esta madrugada a
Paris—recebi a tua carta, que pelos carimbos vejo
que percorreu toda a Europa atraz de mim. Como
já lá vão dous mezes e meio que a escreveste,
imagino que te arranjaste com a mulher, e que
não precisas do dinheiro. De resto se por acaso o
queres, manda um telegramma e tens-l'o ahi em
dous dias. Vejo pela tua carta que não acreditaste
nunca que a minha partida fosse motivada por negocios.
És bem injusta. A minha partida não te
devia ter tirado, como tu dizes,
todas as illusões
sobre o amor, porque foi realmente quando sahi
de Lisboa que percebi quanto te amava, e não ha
dia, acredita, em que me não lembre do
Paraiso.
Que boas manhãs! Passaste por lá por acaso alguma
outra vez? Lembras-te do nosso
lunch? Não tenho
tempo para mais. Talvez em breve volte a
Lisboa. Espero vêr-te, porque sem ti Lisboa é para
mim um desterro.
«Um longo beijo do
«Teu do C.
«Bazilio».
Jorge dobrou o papel, lentamente, em duas, em
quatro dobras, atirou-o para cima da mesa, disse
alto:
—Sim, senhor! bonito!
Encheu o cachimbo de tabaco machinalmente,
com os olhos vagos, os beiços a tremer: deu alguns
passos incertos pelo escriptorio:—de repente arremessou
o cachimbo que despedaçou um vidro da janella,
bateu com as mãos desvairado, e atirando-se
de bruços para cima da mesa, rompeu a chorar, rolando
a cabeça entre os braços, mordendo as mangas,
batendo com os pés, louco!
Ergueu-se subitamente, agarrou a carta, ia com
ella á alcova de Luiza. Mas a lembrança das palavras
de Julião immobilisou-o: que esteja socegada, nada
de phrases, nenhuma excitação! Fechou a carta n'uma
gaveta, metteu a chave na algibeira. E de pé, a
tremer, com os olhos raiados de sangue, sentia idéas
insensatas alumiarem-lhe bruscamente o cerebro, como
relampagos n'uma tormenta—matal-a, sahir de
casa, abandonal-a, fazer saltar os miolos...
A Marianna bateu ligeiramente á porta, disse-lhe
que a senhora o chamava.
Uma onda de sangue subiu-lhe á cabeça; fitava
Marianna, estupido, batendo as palpebras:
—Já vou—disse com a voz rouca.
Ao passar na sala, diante do espelho oval, ficou
pasmado do seu rosto manchado, envelhecido. Foi
correr uma toalha molhada pela face, alisou o cabello:
e ao entrar na alcova, ao vêl-a, com os seus
grandes olhos dilatados onde a febre reluzia, teve
de se agarrar á barra do leito, porque sentiu, em
redor, as paredes oscillarem como lonas ao vento.
Mas sorriu-lhe:
—Como estás?
—Mal—murmurou ella debilmente.
Chamou-o para ao pé de si com um gesto muito
fatigado.
Elle veio, sentou-se sem a olhar.
—Que tens?—disse ella chegando o rosto para
elle.—Não te afflijas.—E tomou a mão que elle
pousára á beira do leito.
Jorge, com um repellão secco, sacudiu a mão
d'ella, ergueu-se bruscamente com os dentes cerrados;
sentia uma colera brutal; ia-se, com medo de
si, de um crime, quando ouviu a voz de Luiza, arrastando-se,
n'uma lamentação:
—Porque, Jorge? Que tens?...
Voltou-se; viu-a meia erguida com os olhos abertos
para elle, uma angustia no rosto; e duas lagrimas
cahiam-lhe, silenciosamente.
Atirou-se de joelhos, agarrou-lhe as mãos, aos
soluços.
—Que é isto?—exclamou a voz de Julião á
porta da alcova.
Jorge, muito pallido, ergueu-se devagar.
Julião levou-o para a sala, e cruzando terrivelmente
os braços diante d'elle:
—Tu estás doudo? Pois tu sabes que ella está
n'um estado d'aquelles, e vaes-te pôr a fazer-lhe
scenas de lagrimas?
—Não me pude conter...
—Estoura. Eu estou a cortar-lhe a febre por um
lado, e tu a dar-lh'a por outro? Estás doudo!
Estava realmente indignado. Interessava-se por
Luiza como doente. Desejava muito cural-a; e sentia
uma satisfação em exercer o dominio de pessoa
necessaria n'aquella casa, onde as suas visitas tinham
tido sempre uma attitude dependente; mesmo
agora ao sahir, não se esquecia de offerecer negligentemente
um charuto a Jorge.
Jorge foi heroico durante toda essa tarde. Não
podia estar muito tempo na alcova de Luiza, a desesperação
trazia-o n'um movimento contradictorio;
mas ia lá a cada momento, sorria-lhe, conchegava-lhe
a roupa com as mãos tremulas; e como ella dormitava,
ficava immovel a olhal-a feição por feição,
com uma curiosidade dolorosa e immoral, com para
lhe surprehender no rosto vestigios de beijos alheios,
esperando ouvir-lhe n'algum sonho da febre murmurar
um nome ou uma data; e amava-a mais desde
que a suppunha infiel, mas d'um outro amor, carnal
e perverso. Depois ia-se fechar no escriptorio, e movia-se
alli entre as paredes estreitas, como um animal
n'uma jaula. Releu a carta infinitas vezes, e a
mesma curiosidade roedora, baixa, vil, torturava-o
sem cessar: Como tinha sido? Onde era o
Paraiso?
Havia uma cama? Que vestido levava ella? O que
lhe dizia? Que beijos lhe dava?
Foi relêr todas as cartas que ella lhe escrevêra
para o Alemtejo, procurando descobrir nas palavras
symptomas de frieza, a data da traição! Tinha-lhe
odio então, voltavam-lhe ao cerebro idéas homicidas—esganal-a,
dar-lhe chloroformio, fazer-lhe beber
laudano! E depois immovel, encostado á janella,
ficava esquecido n'um scismar espesso, revendo o
passado, o dia do seu casamento, certos passeios que
déra com ella, palavras que ella dissera...
Ás vezes pensava—seria a carta uma
mistificação?
Algum inimigo d'elle podia tel-a escripto, remettido
para França. Ou talvez Bazilio tivesse
outra
Luiza em Lisboa, e por engano ao sobrescriptar o enveloppe
tivesse escripto o nome da prima; e a alegria
momentanea que lhe davam aquellas phantasias
fazia-lhe parecer a realidade mais cruel. Mas como
fôra? como fôra? Se podesse saber a verdade! Tinha
a certeza que socegaria, então! Arrancaria de certo
do seu peito aquelle amor como um parasita immundo;
apenas ella melhorasse, leval-a-hia a um
convento, e elle iria morrer longe, n'Africa, ou algures...
Mas quem saberia?...
Juliana!
Era ella que sabia! De certo! E todas as condescendencias
d'ella por Juliana, os moveis, o quarto,
as roupas, comprehendeu tudo! Era a pagar a cumplicidade!
Era a sua confidente! Levava as cartas,
sabia tudo. E estava na valla, morta, sem poder fallar,
a maldita!
Sebastião, como costumava, veio á noitinha. Não
havia ainda luzes, e, apenas elle entrou, Jorge chamou-o
ao escriptorio, calado, accendeu uma vela, tirou
a carta da gaveta.
—Lê isto.
Sebastião ficára assombrado ao vêr o rosto de Jorge.
Olhava a carta fechada, e tremia. Apenas viu a
assignatura, uma pallidez d'agonia cobriu-lhe o rosto.
Parecia-lhe que o soalho tinha uma vibração onde
elle se firmava mal. Mas dominou-se, leu devagar,
pousou a carta sobre a mesa, sem uma palavra.
Jorge disse então:
—Sebastião, isto p'ra mim é a morte. Sebastião,
tu sabes alguma cousa. Tu vinhas aqui. Tu sabes.
Dize-me a verdade!
Sebastião abriu devagar os braços e respondeu:
—Que te hei-de eu dizer? Não sei nada!
Jorge agarrou-lhe as mãos, sacudiu-lh'as, e procurando
o seu olhar anciosamente:
—Sebastião, pela nossa amizade, pela alma de
tua mãi, por tantos annos que temos passado juntos,
Sebastião, dize-me a verdade!...
—Não sei nada. Que hei-de eu saber?
—Mentes!
Sebastião disse apenas:
—Podem-te ouvir, homem!
Houve um silencio: Jorge apertava as fontes nas
mãos, com passadas pelo escriptorio, que faziam vibrar
o soalho; e de repente pondo-se diante de Sebastião,
quasi supplicante:
—Mas dize-me ao menos o que fazia ella! Sahia?
Vinha aqui alguem?
Sebastião respondeu devagar, os olhos fixos na
luz:
—Vinha o primo ás vezes, ao principio. Quando
a D. Felicidade esteve doente, ella ia vêl-a... O primo
depois partiu... Não sei mais nada.
Jorge esteve um momento a olhar Sebastião,
com uma fixidez abstracta.
—Mas que lhe fiz eu, Sebastião? Que lhe fiz eu?
Adorava-a! Que lhe fiz eu p'ra isto? Eu, que a adorava,
áquella mulher!
Rompeu a chorar.
Sebastião ficára de pé junto á mesa, estupido,
aniquilado.
—Foi talvez uma brincadeira, apenas...—murmurou.
—E o que diz a carta?—gritou Jorge, voltando-se
n'uma colera, sacudindo o papel.—Este
Paraiso!
As boas manhãs lá passadas! É uma infame!...
—Está doente, Jorge—disse apenas Sebastião.
Jorge não respondeu. Passeou calado algum tempo.
Sebastião, immovel, fatigava a vista contra a
chamma da luz. Jorge então fechou a carta na gaveta,
e tomando o castiçal com um tom de lassidão
lugubre e resignado:
—Queres vir tomar chá, Sebastião?
E não tornaram mais a fallar na carta.
N'essa noite Jorge dormiu profundamente. Ao
outro dia o seu rosto estava impassivel, d'uma serenidade
livida.
Foi d'ahi por diante o enfermeiro de Luiza.
A doença, depois d'uma marcha incerta durante
tres dias, definiu-se: eram crescimentos; enfraquecia
muito, mas Julião estava tranquillo.
Jorge passava os seus dias ao pé d'ella. D. Felicidade
vinha ordinariamente pelas manhãs: sentava-se
aos pés da cama, e ficava calada, com uma face
envelhecida; aquella esperança na mulher de Tuy
tão subitamente destruida abalára-a como um velho
edificio a que se tira subitamente um pilar; ia-se
tornando ruina; e só se animava quando o Conselheiro
apparecia pelas tres horas a saber da «nossa
formosa enferma». Trazia sempre alguma palavra
grave que dizia com um tom profundo, conservando
o chapéo na mão, sem querer entrar na alcova,
por pudor:
—A saude é um bem que só apreciamos quando
nos foge!
Ou:
—A doença serve para aquilatarmos os amigos.
E terminava sempre:
—Meu Jorge, as rosas da saude bem cedo reflorirão
nas faces de sua virtuosa esposa!...
De noite Jorge dormia vestido, n'um enxergão
sobre o chão; mas apenas cerrava os olhos uma ou
duas horas. O resto da noite procurava lêr: começava
um romance, mas nunca ia além das primeiras
linhas; esquecia o livro, e com a cabeça entre as
mãos punha-se a pensar: era sempre a mesma idéa—
como
tinha sido? Conseguira reconstruir aproximadamente,
com logica, certos factos; via bem Bazilio
chegando, vindo visital-a, desejando-a, mandando-lhe
ramos, perseguindo-a, indo-a vêr aqui e
além, escrevendo-lhe; mas depois? Viera já a comprehender
que o dinheiro era para Juliana. A creatura
tivera alguma exigencia: tinha-os surprehendido?
possuia cartas?... E encontrava, n'aquella reconstrucção
dolorosa, falhas, vazios, como buracos
escuros, onde a sua alma se arremessava sofregamente.
Então começava a recordar os ultimos mezes
desde a sua volta do Alemtejo, e como ella se mostrára
amante, e que ardor punha nas suas caricias...
Para que o enganára então?
Uma noite, com precauções de ladrão, rebuscou
todas as gavetas d'ella, esquadrinhou os vestidos,
até as dobras da roupa branca, as caixas de collares,
de rendas; viu bem o cofre de sandalo; estava
vazio; nem o pó d'uma flôr secca! Ás vezes punha-se
a fitar os moveis no quarto, na sala, a sondal-os
como se quizesse descobrir n'elles os vestigios do
adulterio. Ter-se-hiam sentado alli? Elle teria ajoelhado
aos pés d'ella, acolá, sobre o tapete? Sobretudo
o divan tão largo, tão commodo, desesperava-o;
tomou-lhe odio. Veio a detestar mesmo a casa, como
se os tectos que os tinham coberto, os soalhos
que os tinham sustentado tivessem uma cumplicidade
consciente. Mas o que o torturava sobretudo eram
aquellas palavras—o
Paraiso,
as boas manhãs...
Luiza então já dormia tranquillamente. Ao fim de
uma semana os crescimentos desappareceram. Mas
estava muito fraca: no dia em que pela primeira vez
se levantou, desmaiou duas vezes: era necessario
vestil-a, trazel-a amparada para a
chaise-longue: e
não dispensava Jorge, queria-o alli, ao pé, com exigencias
de criança! Parecia receber a vida dos seus
olhos, a saude do contacto das suas mãos. Fazia-lhe
lêr o jornal pela manhã, e vir escrever para ao pé
d'ella. Elle obedecia, e mesmo aquellas instancias
eram para a sua dôr como caricias consoladoras. É
porque o amava de certo!
Sentia então, machinalmente, abertas de felicidade.
Surprehendia-se a dizer-lhe ternuras, a rir com
ella, esquecido, como d'antes! E, estendida na
chaise-longue,
Luiza, contente, percorria antigos volumes
da
Illustração franceza, que lhe mandára o Conselheiro,—«onde»,
segundo elle lhe dissera, «podia,
ao mesmo tempo que se divertia com os desenhos,
adquirir noções uteis sobre importantes acontecimentos
historicos»; ou, com a cabeça reclinada, saboreava
a felicidade de melhorar, de estar livre das
tyrannias da
outra, das amarguras do
passado.
Uma das suas alegrias era vêr entrar a Marianna
com o seu jantarzinho disposto n'um guardanapo
sobre o taboleiro; tinha appetite, saboreava muito o
calix de vinho do Porto, que Julião recommendára;
quando Jorge não estava, fazia longas conversações
com Marianna, palrando baixo, consolada, e lambendo
colherinhas de gelatina.
Ás vezes, calada, com os olhos no tecto, fazia
planos. Dizia-os depois a Jorge: iria estar duas semanas
no campo, para ganhar forças; á volta começaria
a bordar tiras de casimira para cobrir as cadeiras
da sala; porque queria occupar-se muito da casa,
viver recolhida; elle não voltaria ao Alemtejo,
não sahiria de Lisboa, não é verdade? E a sua vida
seria d'ahi por diante d'uma doçura continua e facil.
Mas Luiza ás vezes achava-o «macambusio». Que
tinha? Elle explicava pela fadiga, pelas noites mal
dormidas... Se adoecesse, ao menos, dizia ella, que
fosse quando ella estivesse forte para o tratar, para
o velar!... Mas não adoeceria, não? E fazia-o sentar
ao pé de si, passava-lhe a mão pelos cabellos, com
o olhar quebrado, porque com as forças que renasciam
vinham os impulsos do seu temperamento amoroso.
Jorge sentia que a adorava, e era mais desgraçado!
Luiza, só comsigo, tinha outras resoluções. Não
tornaria a vêr Leopoldina, e frequentaria as igrejas.
Sahia da doença com uma vaga sentimentalidade devota.
Durante a febre, em certos pesadêlos de que
lhe ficára uma indistincta idéa aterrada, vira-se ás
vezes n'um lugar pavoroso, onde corpos se erguiam,
torcendo os braços, do meio de chammas escarlates:
fórmas negras giravam com espetos em braza, um
rugido d'agonia subia para a mudez do céo: e já lhe
tocavam o peito linguas de fogueiras, quando alguma
cousa de dôce e d'ineffavel de repente a refrescava;
eram as azas d'um anjo luminoso e sereno,
que a tomava nos braços; e ella sentia-se elevar,
apoiando a cabeça contra o seio divino, que a penetrava
d'uma felicidade sobrenatural; via as estrellas
de perto, ouvia fremitos d'azas. Aquella sensação
deixára-lhe como uma recordação saudosa do céo. E
aspirava a ella, nas debilidades da convalescença,
esperando ganhal-a pela pontualidade á missa, e pela
repetição de corôas á Virgem.
Emfim uma manhã veio á sala, e abriu pela primeira
vez o piano; Jorge, á janella, olhava para a
rua—quando ella o chamou, e sorrindo:
—Estou a detestar, ha tempos, aquelle divan—disse.—Podia-se
tirar, não te parece?
Jorge sentiu uma pancada no coração: não pôde
responder logo; disse, emfim, com esforço:
—Sim, parece...
—Estou com vontade de o tirar—disse ella sahindo
da sala, arrastando tranquillamente a longa
cauda do seu roupão.
Jorge não pôde destacar os olhos do divan. Veio
mesmo sentar-se n'elle; passava a mão sobre o estofo
ás listras; e sentia um prazer doloroso em verificar
que fôra alli!
Principiára a vir-lhe agora uma especie de resignação
sombria; quando a ouvia gozar tanto as melhoras,
fallar com felicidade de futuros tranquillos,
decidia-se a aniquilar a carta, esquecer tudo. Ella
tinha-se arrependido de certo, amava-o: para que
havia de crear a sangue frio uma infelicidade perpetua?
Mas quando a via com os seus movimentos
languidos estender-se na
chaise-longue, ou ao despir-se
mostrar a brancura do seu collo—e pensava
que aquelles braços tinham enlaçado outro homem,
aquella bocca gemido de amor n'uma cama alheia—vinha-lhe
uma onda de cólera bruta, precisava
sahir para a não esganar!
Para explicar os seus maus humores, os seus silencios,
começou a queixar-se, a dizer-se doente. E
as solicitudes d'ella, então, as interrogações mudas
do seu olhar inquieto faziam-o mais infeliz—por se
sentir amado, agora que se sabia trahido!
Um domingo emfim Julião deu licença a Luiza
para se deitar mais tarde, e fazer á noite as honras
da casa. Foi uma alegria para todos vel-a na sala,
ainda um pouco pallida e fraca,—mas, como disse
o Conselheiro, restituida aos deveres domesticos e
aos prazeres da sociedade!
Julião que veio ás nove horas achou-a
como nova.
E abrindo os braços, no meio da sala:
—E que me dizem á novidade?—exclamou—A
peça do Ernesto teve um triumpho!...
Assim tinham lido nos jornaes. O
Diario de Noticias
dizia mesmo que o «author chamado ao proscenio,
no meio do mais vivo enthusiasmo, recebera uma
formosa corôa de louros». Luiza declarou logo que
queria ir vêr!
—Mais tarde, D. Luiza, mais tarde—acudiu
com prudencia o Conselheiro.—Por ora é conveniente
evitar toda a commoção forte. As lagrimas que
não deixaria de derramar, conheço o seu bom coração,
podiam produzir uma recahida. Não é verdade,
amigo Julião?
—De certo, Conselheiro, de certo. Eu tambem
quero ir. Quero convencer-me por meus olhos...
Mas o ruido d'uma carruagem, lançada a trote
largo, que parou á porta, interrompeu-o. A campainha
retiniu fortemente.
—Aposto que é o author!—exclamou elle.
E quasi immediatamente a figura radiante de Ernestinho,
de casaca, precipitou-se na sala: ergueram-se
com ruido, abraçaram-no: mil parabens! mil
parabens! E a voz do Conselheiro, dominando as outras:
—Bem vindo o festejado author! Bem vindo!
Ernesto suffocava de jubilo. Tinha um sorriso
immobilisado; as azas do nariz dilatavam-se-lhe, como
para respirar os incensos; trazia o peito alto,
enfunado d'orgulho; e movia a cabeça, sem cessar,
como n'um agradecimento instinctivo a multidões applaudidoras.
—Aqui estou! aqui estou!—disse.
Sentou-se offegante; e, com um modo amavel de
Deus-bom-rapaz, declarou que os ultimos ensaios de
apuro não lhe tinham deixado um momento para vir
vêr a prima Luiza. Tinha tido n'aquella noite um instante
de seu, mas devia voltar ás dez horas para
o theatro: até nem mandára a tipoia embora...
Contou então largamente o triumpho. Ao principio
tivera «grandes colicas». Todos as tinham, os
mais acostumados, os mais illustres! Mas apenas o
Campos disse o monologo do primeiro acto—e como
o disse! haviam de vêr, uma cousa sublime!—os
applausos romperam. Tinha agradado tudo. No fim
era um barulho, gritos pelo author, salvas de palmas...
Elle viera ao palco, arrastado; não queria,
mas obrigaram-no, a Jesuina por um lado, a Maria
Adelaide por outro! Um delirio! O Savedra do
Seculo
tinha-lhe dito: o amigo é o nosso Shakspeare! O
Bastos da
Verdade tinha affirmado: és o nosso Scribe!
Houve uma cêa. E tinham-lhe dado uma corôa.
—E serve-lhe?—acudiu Julião.
—Perfeitamente; um bocadinho larga...
O Conselheiro disse com authoridade:
—Os grandes authores, o famigerado Tasso, o
nosso Camões são sempre representados com as suas
respectivas corôas.
—É o que eu lhe aconselho, snr. Ledesma—acudiu
Julião, erguendo-se e batendo-lhe no hombro—é
que se faça retratar de corôa!...
Riram.
E Ernestinho, um pouco despeitado, desdobrando
o seu lenço perfumado:
—O snr. Zuzarte não dispensa o seu epigrammasinho...
—É a prova da gloria, meu amigo. Nos triumphos
dos generaes victoriosos, em Roma, havia um
bobo no prestito!
—Eu não sei!—disse Luiza muito risonha—É
uma honra p'ra a familia!...
Jorge concordou. Passeava pela sala fumando; e
disse que gozava tanto a corôa, como se tivesse direito
a usal-a...
E Ernestinho voltando-se logo para elle:
—Sabes que lhe perdoei, primo Jorge? Perdoei
á esposa...
—Como Christo...
—Como Christo—confirmou Ernestinho, com satisfação.
D. Felicidade approvou logo:
—Fez muito bem! Até é mais moral!
—O Jorge é que queria que eu désse cabo d'ella—disse
Ernestinho, rindo tolamente.—Não se lembra,
n'aquella noite...
—Sim, sim—fez Jorge, rindo tambem, nervosamente.
—O nosso Jorge—disse com solemnidade o
Conselheiro—não podia conservar idéas tão extremas.
E de certo a reflexão, a experiencia da vida...
—Mudei, Conselheiro, mudei—interrompeu Jorge.
E entrou bruscamente no escriptorio.
Sebastião, inquieto, foi devagar ter com elle. Estava
ás escuras.
—Aquelles idiotas não se calarão? Não se irão?—disse
elle abafadamente, agarrando o braço de Sebastião.
—Socega!
—Oh Sebastião! Sebastião!—E sua voz tremia,
com lagrimas.
Mas Luiza, da sala, gritou:
—Que conspiração é essa ahi dentro ás escuras?
Sebastião appareceu logo, dizendo:
—Nada, nada. Estavamos lá dentro...—E acrescentou
baixo:—O Jorge está fatigado. Está adoentado,
coitado!
Notaram, quando elle voltou—que tinha com effeito
o ar exquisito.
—Não, realmente não me sinto bom, estou incommodado!
—E a debil D. Luiza precisa o repouso do seu
leito—disse o Conselheiro erguendo-se.
Ernestinho que não se podia demorar, offereceu
logo ao Conselheiro e a Julião—«a sua carruagem,
que era um caleche, se iam para a baixa...»
—Que honra—exclamou Julião olhando Accacio—irmos
na tipoia do Grande Homem!
E em quanto D. Felicidade se agasalhava, os
tres desceram.
No meio da escada Julião parou, e cruzando os
braços:
—Ora aqui vou eu entre os representantes dos
dous grandes movimentos de Portugal desde 1820.
A Litteratura—e comprimentou Ernestinho—e o
Constitucionalismo!—e curvou-se para o Conselheiro.
Os dous riram, lisongeados.
—E o amigo Zuzarte?
—Eu?—E baixando a voz:—Até ha dias um
revolucionario terrivel. Mas agora...
—O quê?
—Um amigo da ordem—gritou com jubilo.
E desceram, contentes de si e do seu paiz, para
se metterem na tipoia do Grande Homem!
XVII
Ao outro dia Jorge foi ao ministerio, onde não
tinha apparecido nos ultimos tempos. Mas demorou-se
pouco. A rua, a presença dos conhecidos ou dos
estranhos torturava-o; parecia-lhe que
todo o mundo
sabia; nos olhares mais naturaes via uma intenção
maligna, e nos apertos de mão mais sinceros uma
ironica pressão de pezames; as carruagens mesmo
que passavam davam-lhe a suspeita de a terem conduzido
ao
rendez-vous, e todas as casas lhe pareciam
a fachada infame do
Paraiso. Voltou mais sombrio,
infeliz, sentindo a vida estragada. E logo do corredor
ao entrar ouviu Luiza cantarolando, como outr'ora, a
Mandolinata!
Estava-se a vestir.
—Como estás tu?—perguntou, pondo a um
canto a sua bengala.
—Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado
fraca ainda...
Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno.
—E tu?—perguntou-lhe ella.
—P'ra aqui ando—disse tão desconsoladamente
que Luiza pousou o pente, e com os cabellos soltos
veio pôr-lhe as mãos nos hombros, muito carinhosa:
—Que tens tu? Tu tens alguma cousa. Estranho-te
tanto ha dias! Não és o mesmo! Ás vezes estás
com uma cara de réo... Que é? Dize.
E os seus olhos procuravam os d'elle, que se desviavam
perturbados.
Abraçou-o. Insistia, queria que dissesse tudo á
«sua mulherzinha».
—Dize. Que tens?
Elle olhou-a muito, e de repente, com uma resolução
violenta:
—Pois bem, digo-te. Tu agora estás boa, pódes
ouvir... Luiza! vivo n'um inferno ha duas semanas.
Não posso mais... Tu estás boa, não é verdade? Pois
bem, que quer dizer isto? Dize a verdade!
E estendeu-lhe a carta de Bazilio.
—O que é?—fez ella muito branca. E o papel
dobrado tremia-lhe na mão.
Abriu-a devagar, viu a letra de Bazilio, n'um relance
adivinhou-a. Fixou Jorge um momento d'um
modo desvairado, estendeu os braços sem poder fallar,
levou as mãos á cabeça com um gesto ancioso
como se se sentisse ferida, e oscillando, com um
grito rouco, cahiu sobre os joelhos, ficou estirada no
tapete.
Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na
na cama. Elle quiz que Joanna corresse a chamar
Sebastião; e ficou, como petrificado, junto ao leito,
olhando-a, em quanto Marianna toda tremula desatacava
os espartilhos da senhora.
Sebastião veio logo. Felizmente havia ether, fizeram-lh'o
respirar; apenas abriu lentamente os olhos,
Jorge precipitou-se sobre ella:
—Luiza, ouve, falla! Não, não tem duvida. Mas
falla. Dize, que tens?
Ao ouvir a voz d'elle desmaiou outra vez. Movimentos
convulsivos sacudiam-lhe o corpo. Sebastião
correu a buscar Julião.
Luiza parecia adormecida agora, immovel, branca
como cera, as mãos pousadas sobre a colcha; e
duas lagrimas corriam-lhe devagar pelas faces.
Um trem parou. Julião appareceu esbaforido.
—Achou-se mal de repente... Vê, Julião. Está
muito mal!—disse Jorge.
Fizeram-lhe respirar mais ether; despertou outra
vez. Julião fallou-lhe, tomando-lhe o pulso.
—Não, não, ninguem!—murmurou ella, retirando
a mão. Repetiu com impaciencia:—Não, vão-se,
não quero...—As suas lagrimas redobravam. E
como elles sahiam da alcova para a não excitar contrariando-a,
ouviram-na chamar:—Jorge!
Elle ajoelhou-se ao pé da cama, e fallando-lhe
junto do rosto:
—Que tens tu? Não se falla mais em tal. Acabou-se.
Não estejas doente. Juro-te, amo-te... Fosse
o que fosse, não me importa. Não quero saber, não.
E como ella ia fallar, elle pousou-lhe a mão na
bocca:
—Não, não quero ouvir. Quero que estejas boa,
que não soffras! Dize que estás boa! Que tens? Vamos
ámanhã para o campo, e esquece-se tudo. Foi
uma cousa que passou...
Ella disse apenas com a voz sumida:
—Oh! Jorge! Jorge!
—Bem sei... Mas agora vaes ser feliz outra
vez... Dize, que sentes?
—Aqui—disse ella, e levava as mãos á cabeça.—Dóe-me!
Elle ergueu-se para chamar Julião, mas ella reteve-o,
attrahiu-o; e devorando-o com olhos onde a
febre se accendia, adiantando o rosto, estendia-lhe
os labios. Elle deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio
de perdão.
—Oh! minha pobre cabeça!—gritou ella.
As fontes latejavam-lhe, e uma côr ardente, sêcca,
esbrazeava-lhe o rosto.
Como era habituada a enxaquecas, Julião traquillisou-os;
recommendou um socego immovel e
sinapismos de mostarda aos pés,—até que elle voltasse.
Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de
presentimentos, de sustos, suspirando ás vezes.
Eram então quatro horas; cahia uma chuva miudinha,
ennevoada; a alcova tinha uma luz lugubre.
—Não ha-de ser nada...—dizia Sebastião.
Luiza agitava-se no leito, apertando as mãos na
cabeça, torturada pela dôr crescente, cheia de sêde.
Marianna acabava d'arrumar em pontas de pés,
vagamente assombrada d'aquella casa, onde só vira
desgosto e doença: mas só o pousar subtil dos seus
passos fazia soffrer Luiza, como se fossem martelladas
sobre o craneo.
Julião não tardou; logo da porta do quarto, o
aspecto d'ella inquietou-o. Accendeu um phosphoro,
aproximou-lh'o do rosto; e aquella luz fez-lhe dar
um grito como se um ferro frio lhe trespassasse a
cabeça.
Os olhos dilatados tinham um reluzir metallico.
Conservava-se muito quieta, porque o gesto mais
lento lhe dava na nuca dôres penetrantes que a dilaceravam.
Só de vez em quando sorria para Jorge
com uma expressão d'afflicção serena e muda.
Julião fez logo pôr tres travesseiros, para lhe
conservar a cabeça alta. Fóra cahia o crepusculo humido.
Andavam em bicos de pés, com cuidado; e
mesmo tiraram o relogio da parede para afastar o
tic-tac monotono. Ella começava agora a murmurar
sons cançados, e a voltar-se com movimentos bruscos
que lhe arrancavam gritos; ou immovel gemia
d'um modo continuo e angustioso. Tinham-lhe envolvido
as pernas n'um longo sinapismo; mas não o
sentia. Pelas nove horas começou a delirar; a lingua
tornára-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo.
Julião fez logo applicar na cabeça compressas
d'agua fria. Mas o delirio exacerbava-se.
Ora tinha um murmurio espesso, um vago rosnar
modorrento—onde os nomes de Leopoldina, de
Jorge, de Bazilio voltavam incessantemente: depois
debatia-se, esgaçava a camisa com as mãos; e, arqueando-se,
os seus olhos rolavam, como largos bugalhos
prateados onde a pupilla se sumia.
Socegava mais; dava risadinhas d'uma doçura
idiota; tinha gestos lentos sobre o lençol, que aconchegavam
e acariciavam, como n'um gozo tepido:
depois começava a respirar anciosamente, vinham-lhe
expressões torturadas de terror, queria enterrar-se
nos travesseiros e nos colxões, fugindo a aspectos
pavorosos: punha-se então a apertar a cabeça phreneticamente,
pedia que lh'a abrissem, que a tinha
cheia de pedras, que tivessem piedade d'ella!—e
fios de lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Não sentia
os sinapismos; expunham-lhe agora os pés nús ao
vapor d'agua a ferver, carregada de mostarda; um
cheiro acre adstringia o ar do quarto. Jorge fallava-lhe
com toda a sorte de palavras consoladoras e
supplicantes: pedia-lhe que socegasse, que o conhecesse;
mas de repente ella desesperava-se, gritava
pela carta, maldizia Juliana—ou então dizia palavras
d'amor, enumerava sommas de dinheiro... Jorge
temia que aquelle delirio revelasse tudo a Julião,
ás criadas: tinha um suor á raiz dos cabellos—e
quando ella, um momento, julgando-se no
Paraiso e
nas exaltações do adulterio, chamou Bazilio, pediu
champagne, teve palavras libertinas, Jorge fugiu da
alcova allucinado, foi para a sala ás escuras, atirou-se
para o divan a soluçar, arrepellou-se, blasphemou.
—Está em perigo?—perguntou Sebastião.
—Está—disse Julião.—Se sentisse os sinapismos,
ao menos! Mas estas malditas febres cerebraes...
Calaram-se vendo Jorge entrar na alcova, com o
rosto manchado, esguedelhado.
E Julião tomando-o pelo braço, levando-o para
fóra:
—Ouve lá, é necessario cortar-lhe o cabello, e
rapar-lhe a cabeça.
Jorge olhou-o com um ar estupido:
—O cabello?—E agarrando-lhe os braços:—Não,
Julião, não, hein? Póde-se fazer outra cousa.
Tu deves saber. O cabello não! Não! Isso não, pelo
amor de Deus! Ella não está em perigo. P'ra quê?
Mas aquella massa de cabello era o diabo, impedia
a acção da agua!
—Ámanhã, se fôr necessario. Ámanhã! Espera
até ámanhã... Obrigado, Julião, obrigado!
Julião consentiu, contrariado. Fazia então humedecer
constantemente as compressas da cabeça, e como
Marianna tremula, desgeitosa, molhava muito o
travesseiro, foi Sebastião que se collocou á cabeceira
da cama, toda a noite, espremendo sem cessar
uma esponja, d'onde a agua gotejava lentamente; tinham
jarros fóra da varanda, na sala, para dar á
agua uma frialdade gelada. O delirio alta noite acalmára
um pouco. Mas o seu olhar injectado tinha um
aspecto selvagem: as pupillas pareciam apenas um
ponto negro.
Jorge, sentado aos pés da cama, com a cabeça
entre as mãos, olhava para ella: lembravam-lhe vagamente
outras noites de doença assim, quando ella
tivera a pneumonia: e melhorára! Até ficára mais
linda, com tons de pallidez que lhe adoçavam a expressão!
Iriam para o campo quando ella convalescesse:
alugaria uma casinha: voltaria á noite no
omnibus, e vêl-a-hia de longe na estrada vindo ao
seu encontro, com um vestido claro, na tarde suave!...
Mas ella gemia, elle erguia os olhos sobresaltado:
e não lhe parecia a mesma: afigurava-se-lhe
que se ia dissipando, desapparecendo n'aquelle ar
de febre que enchia a alcova, no silencio morbido
da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluço sacudia-o,
e recahia na sua immobilidade.
Joanna, em cima, rezava. As velas, com uma
chamma alta e direita, extinguiam-se.
Emfim uma vaga claridade desenhou nos transparentes
brancos os caixilhos da vidraça. Amanhecia.
Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua. Não chovia;
a calçada seccava. O ar tinha uma vaga côr d'aço.
Tudo dormia: e uma toalha, esquecida á janella das
Azevedos, agitava-se ao vento frio, silenciosamente.
Quando entrou na alcova Luiza fallava com uma
voz extincta: sentia muito vagamente os sinapismos,
mas a dôr de cabeça não cessava. Começou a agitar-se—e
o delirio d'ahi a pouco voltou. Julião, então,
determinou que se lhe rapasse o cabello.
Sebastião foi acordar um barbeiro na rua da Escóla—que
veio logo, com um ar transido, a gola
do casaco levantada; e batendo o queixo começou
a tirar immediatamente d'um sacco de couro as navalhas,
as tesouras, devagar, com as mãos molles da
gordura das pomadas.
Jorge foi refugiar-se na sala: parecia-lhe que
grandes pedaços mutilados da sua felicidade cahiam
com aquellas lindas tranças, destruidas ás tesouradas;
e com a cabeça nas mãos recordava certos penteados
que ella usava, noites em que os seus cabellos
se tinham desmanchado nas alegrias da paixão,
tons com que brilhavam á luz... Voltou ao quarto,
attrahido irresistivelmente; sentiu na alcova o ruido
secco e metallico das tesouras; sobre a mesa, n'uma
caixa de sabão, estava um velho pincel de barba,
entre flocos d'espuma... Chamou Sebastião baixo:
—Dize-lhe que se avie! Estão-me a matar a fogo
lento! É de mais. Que ande depressa!
Foi á sala de jantar, errou pela casa: a manhã
fria clareava; erguera-se vento, que ia levando, aos
pedaços, nuvens d'um tom alvadio.
Quando tornou a entrar no quarto, o barbeiro
guardava as navalhas com a mesma lentidão molle;
e tomando o seu chapéo desabado, sahiu em bicos
de pés, murmurando n'um tom funerario:
—Estimo as melhoras. Deus ha-de permittir que
não seja nada...
O delirio com effeito d'ahi a uma hora acalmou:—e
Luiza cahiu n'uma somnolencia prostrada com
gemidos fracos, que sahiam de seus labios como a
lamentação interior da vida vencida.
Jorge tinha então dito a Sebastião que desejava
chamar o doutor Caminha. Era um medico velho que
tratára sua mãi, e que curára Luiza da pneumonia,
no segundo anno de casada. Jorge conservára
uma admiração agradecida por aquella reputação antiquada;
e agora a sua esperança voltava-se sofregamente
para elle, anciando pela sua presença como
pela apparição d'um santo.
Julião condescendeu logo. Até estimava! E Sebastião
desceu correndo, para ir a casa do dr. Caminha.
Luiza, que sahira um momento do seu torpôr,
sentiu-os fallar baixo. A sua voz extincta chamou
Jorge:
—Cortaram-me o cabello...—murmurou tristemente.
—É para te fazer bem—disse-lhe Jorge, quasi
tão agonisante como ella.—Cresce logo. Até te vem
melhor...
Ella não respondeu; duas lagrimas silenciosas
correram-lhe pelos cantos dos olhos.
Devia ser a sua ultima sensação: a prostração comatosa
ia-a immobilisando, apenas a sua cabeça rolava
n'um movimento dôce e vagaroso sobre o travesseiro,
gemendo sempre com um cansaço triste; a
pelle empallidecia como um vidro de janella, por
traz do qual lentamente uma luz se apaga; e mesmo
os ruidos da rua que começavam não a impressionavam,
como se fossem muito distantes e abafados em
algodão.
Ao meio dia D. Felicidade appareceu. Ficou petrificada
quando a viu tão mal: e ella que a vinha
buscar para irem á Encarnação, talvez ás lojas! Tirou
logo o chapéo, installou-se; fez arranjar a alcova,
tirar as bacias, os velhos sinapismos que arrastavam,
compôr a cama—«porque não havia peor
p'ra um doente que desarranjo no quarto»: e muito
corajosamente animava Jorge.
Uma carruagem parou á porta. Era o doutor Caminha,
emfim!... Entrou atabafado no seu cachenez
de quadrados verdes e pretos, queixando-se muito do
frio;—e tirando devagar as grossas luvas de casimira,
que pôz dentro do chapéo methodicamente,
adiantou-se para a alcova com um passo cadenciado,
acamando com a mão as suas repas grisalhas já muito
colladas ao craneo pela escova.
Julião e elle ficaram sós na alcova.
No quarto os outros esperavam calados, ao pé de
Jorge, pallido como cêra, com os olhos vermelhos
como carvões.
—Vai-se-lhe pôr um caustico na nuca—veio dizer
Julião.
Jorge devorava com o olhar ancioso o doutor Caminha,
que se pozera a calçar tranquillamente as
suas luvas de casimira, dizendo:
—Vamos a vêr com o caustico. Não está bem...
Mas ha ainda peor. E eu volto, meu amigo, eu
volto.
O caustico foi inutil. Não o sentia, immovel e
branca, com as feições crispadas; e tremuras passaram-lhe
de repente nos nervos da face como vibrações
fugitivas.
—Está perdida—disse Julião baixo a Sebastião.
D. Felicidade ficou muito aterrada, fallou logo
nos sacramentos.
—P'ra quê?—resmungou Julião impaciente.
Mas D. Felicidade declarou que tinha escrupulos,
que era um peccado mortal; e chamando Jorge para
o vão da janella, toda tremula:
—Jorge, não se assuste, mas seria bom pensar
nos sacramentos...
Elle murmurava como assombrado:
—Os sacramentos!
Julião chegou-se bruscamente, e quasi zangado:
—Nada de tolices! Qual sacramentos! P'ra quê?
Ella nem ouve, nem comprehende, nem sente. É necessario
deitar-lhe outro caustico, talvez ventosas, e
é o que é! Isso é que são os sacramentos!
Mas D. Felicidade escandalisada, muito abalada,
começou a chorar. Esqueciam Deus, e em Deus é
que está o remedio!—dizia, assoando-se com estrondo.
—Pelo que Deus faz por mim...—exclamou
Jorge, sahindo do seu torpôr. E batendo as mãos,
como revoltado por uma injustiça:—Porque realmente,
que fiz eu p'ra isto? Que fiz eu!...
Julião ordenára outro caustico. Havia agora na
casa um movimento allucinado. Joanna entrava de
repente com um caldo inutil que ninguem pedira,
os olhos muito vermelhos de chorar. Marianna soluçava
pelos cantos. D. Felicidade ia, vinha pelo
quarto, refugiando-se na sala para rezar, fazendo
promessas, lembrando que se chamasse o doutor
Barbosa, o doutor Barral.
E Luiza no entanto estava immovel; uma côr macilenta
ia-lhe dando ás faces tons cavados e rigidos.
Julião extenuado pediu um calix de vinho, uma
fatia de pão. Lembraram-se então que desde a vespera
não tinham comido, e foram á sala de jantar
onde Joanna, sempre lavada em lagrimas, serviu
uma sopa, e ovos. Mas não achava os colheres,
nem os guardanapos; murmurava rezas, pedia desculpa;
em quanto Jorge, com os olhos inchados,
fitos na borda da mesa, a face contrahida, fazia
dobras na toalha.
Depois d'um momento pousou devagarinho a
colhér, desceu ao quarto. Marianna estava sentada
aos pés do leito: Jorge disse-lhe que fosse servir os
senhores: e apenas ella sahiu, deixou-se cahir de
joelhos, tomou uma das mãos de Luiza, chamou-a
baixo; depois mais forte:
—Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. Não estejas
assim, faze por melhorar. Não me deixes n'este
mundo, não tenho mais ninguem! Perdôa-me. Dize
que sim. Faze signal que sim ao menos. Não me
ouve, meu Deus!
E olhava-a anciosamente. Ella não se movia.
Ergueu então os braços ao ar n'uma desesperação
allucinada.
—Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a!
Salva-a!—E arremessava a sua alma para as alturas:—Ouve,
meu Deus! Escuta-me! Sê bom!
Olhava em roda, esperando um movimento, uma
voz, um acaso, um milagre! Mas tudo lhe pareceu
mais immovel. A face livida cavava-se; o lenço que
lhe envolvia a cabeça desarranjára-se, via-se o craneo
rapado, d'uma côr ligeiramente amarellada.
Pôz-lhe então a mão na testa, hesitando, com medo;
pareceu-lhe que estava fria! Abafou um grito, correu
para fóra do quarto, e deu com o doutor Caminha
que entrava, tirando pausadamente as luvas.
—Doutor! Está morta! Veja. Não falla, está
fria...
—Então! Então!—disse elle—Nada de barulho,
nada de barulho!
Tomou o pulso de Luiza, sentiu-o fugir sob os
dedos, como a vibração expirante d'uma corda.
Julião veio logo. E concordou com o doutor Caminha
que as ventosas eram inuteis.
—Já as não sente—disse o doutor, sacudindo
o tabaco dos dedos.
—Se se lhe désse um copo de cognac?...—lembrou
de repente Julião. E vendo o olhar espantado
do doutor:—Ás vezes estes symptomas de coma
não querem dizer que o cerebro esteja desorganisado:
podem ser apenas a inacção da força nervosa
exhausta. Se a morte é irremediavel não se
perde nada; se é apenas uma depressão do systema
nervoso, póde-se salvar...
O doutor Caminha, com o beiço descahido, oscillava
incredulamente a cabeça:
—Theorias!—murmurou.
—Nos hospitaes inglezes...—começou Julião.
O doutor Caminha encolheu os hombros com desprezo.
—Mas se o doutor lêsse...—insistiu Julião.
—Não leio nada!—disse o doutor Caminha com
força—tenho lido de mais! Os livros são os doentes...—E
curvando-se, com ironia:—Mas se o
meu talentoso collega quer fazer a experiencia...
—Um copo de cognac ou d'aguardente!—pediu
Julião á porta.
E o doutor Caminha sentou-se commodamente
«para gozar o fracasso do talentoso collega».
Levantaram Luiza; Julião fez-lhe engulir o cognac;
quando a deitaram ficou na mesma immobilidade
comatosa: o doutor Caminha tirou o relogio, viu
as horas, esperou: havia um silencio ancioso: emfim
o doutor ergueu-se, tomou-lhe o pulso, apalpou a
frialdade crescente das extremidades; e indo buscar
silenciosamente o chapéo começou a calçar as luvas.
Jorge foi com elle até á porta:
—Então, doutor?—disse, agarrando com uma
força desvairada o braço.
—Fez-se o que se pôde—disse o velho, encolhendo
os hombros.
Jorge ficou estupido no patamar, vendo-o descer.
As suas passadas vagarosas nos degraus cahiam-lhe
com uma percussão medonha no coração. Debruçou-se
no corrimão, chamou-o baixo. O doutor parou,
levantou os olhos; Jorge pôz as mãos para elle,
com uma anciedade humilde:
—Então não é possivel mais nada?
O doutor fez um gesto vago, indicou o céo.
Jorge voltou para o quarto, encostando-se ás paredes.
Entrou na alcova, atirou-se de joelhos aos
pés da cama, e alli ficou com a cabeça entre as
mãos n'um soluçar baixo e continuo.
Luiza morria: os seus braços tão bonitos, que
ella costumava acariciar diante do espelho, estavam
já paralysados; os seus olhos, a que a paixão dera
chammas e a voluptuosidade lagrimas, embaciavam-se
como sob a camada ligeira d'uma pulverisação
muito fina.
D. Felicidade e Marianna tinham accendido uma
lamparina a uma gravura de Nossa Senhora das Dôres,
e de joelhos rezavam.
O crepusculo triste descia, parecia trazer um silencio
funerario.
A campainha, então, tocou discretamente; e d'ahi
a momentos appareceu a figura do Conselheiro Accacio.
D. Felicidade ergueu-se logo; e vendo as suas
lagrimas, o Conselheiro disse lugubremente:
—Venho cumprir o meu dever, ajudar-lhes a passar
este transe!
Explicou «que encontrára por acaso o bom doutor
Caminha, que lhe contára a fatal occorrencia»! Mas
muito discretamente não quiz entrar na alcova. Sentou-se
n'uma cadeira, collocou melancolicamente o
cotovêlo sobre o joelho, a testa sobre a mão, dizendo
baixo a D. Felicidade:
—Continue as suas orações. Deus é imperscrutavel
em seus decretos.
Na alcova, Julião estivera tomando o pulso de
Luiza; olhou então Sebastião, fez-lhe o gesto d'alguma
cousa que vôa e desapparece... Aproximaram-se
de Jorge, que não se movia, de joelhos, com a face
enterrada no leito:
—Jorge—disse baixinho Sebastião.
Elle levantou o rosto desfigurado, envelhecido,
os cabellos nos olhos, as olheiras escuras.
—Vá, vem—disse Julião. E vendo o espanto
do seu olhar:—Não, não está morta, está n'aquella
somnolencia... Mas vem.
Elle ergueu-se, dizendo com mansidão:
—Pois sim, eu vou. Estou bem... Obrigado.
Sahiu da alcova.
O Conselheiro levantou-se, foi abraçal-o com solemnidade:
—Aqui estou, meu Jorge!
—Obrigado, Conselheiro, obrigado.
Deu alguns passos pelo quarto; os seus olhos pareciam
preoccupar-se com um embrulho que estava
sobre a mesa; foi apalpal-o; desapertou as pontas,
e viu os cabellos de Luiza. Ficou a olhal-os, erguendo-os,
passando-os d'uma das mãos para outra, e
disse com os beiços a tremer:
—Fazia tanto gosto n'elles, coitadinha!
Tornou a entrar na alcova. Mas Julião tomou-lhe
o braço, queria-o afastar do leito. Elle debatia-se dôcemente;
e, como uma vela ardia sobre a mesinha
ao pé da cabeceira, disse, mostrando-a:
—Talvez a incommode a luz...
Julião respondeu commovido:
—Já não a vê, Jorge!
Elle soltou-se da mão de Julião, foi debruçar-se
sobre ella; tomou-lhe a cabeça entre as mãos com
cuidado para a não magoar, esteve a olhal-a um momento;
depois pousou-lhe sobre os labios frios um
beijo, outro, outro, e murmurava:
—Adeus! Adeus!
Endireitou-se, abriu os braços, cahiu no chão.
Todos correram. Levaram-no para a
chaise-longue.
E em quanto D. Felicidade n'um pranto afflicto
fechava os olhos de Luiza, o Conselheiro, com o chapéo
sempre na mão, cruzava os braços, e oscillando
a sua calva respeitavel, dizia a Sebastião:
—Que profundo desgosto de familia!
XVIII
Depois do enterro de Luiza, Jorge despediu as
criadas, foi para casa de Sebastião.
N'essa noite pelas nove horas o Conselheiro Accacio,
muito abafado, descia o Moinho de Vento, quando
encontrou Julião, que vinha de vêr um doente
na rua da Rosa. Foram andando juntos, conversando
de Luiza, do enterro, da afflicção de Jorge.
—Pobre rapaz! Aquillo é que é soffrer!—disse
Julião compadecido.
—Era uma esposa modêlo!...—murmurou o
Conselheiro.
De resto, disse, vinha justamente de casa do bom
Sebastião, mas não podéra vêr o seu Jorge; tinha-se
estirado sobre a cama, e dormia profundamente.
E acrescentou:
—Ultimamente lia eu que aos grandes golpes
succedem sempre somnos prolongados. Assim, por
exemplo, Napoleão depois de Waterloo, depois do
grande desastre de Waterloo!
E passado um momento, continuou:
—É verdade. Fui vêr o nosso Sebastião... Fui
mostrar-lhe...—E interrompendo-se, parando:—Porque
eu entendi que era o meu dever dedicar um
tributo á memoria da infeliz senhora. Era o meu dever,
e não me eximi a elle! E estimo tel-o encontrado,
porque quero saber a sua opinião conscienciosa
e desassombrada.
Julião tossiu, e perguntou:
—É um necrologio?
—É um necrologio.
E o Conselheiro, apesar de «não achar proprio,
na sua posição, o entrar em cafés publicos», lembrou
a Julião que poderiam descançar um momento
no Tavares, se não estivesse muita gente, e elle poderia
lêr-lhe «a producção».
Espreitaram.
Estavam apenas, a uma mesa, dous velhos calados
defronte dos seus cafés, com os chapéos na cabeça,
apoiados a bengalas de cana da India. O moço
dormitava ao fundo. Uma luz crua e intensa enchia
a sala estreita.
—Ha um silencio propicio—disse o Conselheiro.
Offereceu um café a Julião; e tirando então do
bolso uma folha de papel pautado, murmurou:—Infeliz
senhora!—Inclinou-se para Julião, e leu: