E como a felicidade se aproximava, já tinha de
olho tres pares de botinas que vira na vidraça do
Manoel Lourenço!
A velha, emfim, morreu. Nem a mencionava no
testamento!
Veio-lhe uma febre. Jorge, agradecido pelos cuidados
d'ella com a tia Virginia, pagou-lhe um quarto
no hospital, e prometteu tomal-a para criada de dentro.
A que tinha, uma Emilia muito bonita, ia casar.
Quando sahiu do hospital para casa de Jorge, começava
a queixar-se mais do coração. Vinha desilludida
de tudo, tinha ás vezes vontade de morrer. Ouviam-se
todo o dia pela casa os seus
ais. Luiza achava-a
funebre.
Quiz despedil-a ao fim de duas semanas. Jorge
não consentiu, estava em divida com ella, dizia. Mas
Luiza não podia disfarçar a sua antipathia;—e Juliana
começou a detestal-a: poz-lhe logo um nome:—a
piorrinha! depois, d'ahi a semanas viu vir os
estofadores: renovava-se a mobilia da sala! A tia
Virginia deixára tres contos de reis a Jorge,—e ella,
ella que durante um anno fôra a enfermeira, humilde
como um cão e fixa como uma sombra, aturando
o monstrengo, tinha em paga ido para o hospital,
com uma febre, das noitadas, das canceiras! Julgava-se
vagamente roubada. Começou a odiar a casa.
Tinha para isso muitas razões, dizia: dormia
n'um cubiculo abafado; ao jantar não lhe davam vinho,
nem sobremesa; o serviço dos engommados era
pesado; Jorge e Luiza tomavam banho todos os dias,
e era um trabalhão encher, despejar todas as manhãs
as largas bacias de folha: achava despropositada
aquella mania de se pôrem a chafurdar todos os
dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte
amos, e nunca vira semelhante desproposito! A
unica vantagem—dizia ella á tia Victoria—era não
haver pequenos; tinha horror a crianças! Além d'isso
achava que o bairro era saudavel; e como tinha a
cozinheira «na mão», não é verdade? havia aquelle
regalo dos caldinhos, de algum prato melhor de
vez em quando! Por isso ficava; senão, não era
ella!
Fazia no entanto o seu serviço, ninguem tinha
nada que lhe dizer. O olho aberto sempre e o ouvido
á escuta, já se vê! E como perdera a esperança de
se estabelecer, não se sujeitava ao rigor de economisar:
por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas,
de vez em quando; e satisfazia o seu vicio,—trazer
o pé catita. O pé era o seu orgulho, a
sua mania, a sua despeza. Tinha-o bonito e pequenino.
—Como poucos—dizia ella—não vai outro ao
Passeio!
E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos,
lançava-o muito para fóra. A sua alegria era ir
aos domingos para o Passeio Publico, e alli, com a
orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho
de sêda, estar a tarde inteira na poeira, no calor,
immovel, feliz,—a mostrar, a expôr o pé!
IV
Pelas tres horas da tarde, Juliana entrou na cozinha
e atirou-se para uma cadeira, derreada. Não
se tinha nas pernas de debilidade! Desde as duas
horas que andava a arrumar a sala! Estava um chiqueiro.
O peralta na vespera até deixára cinza de
tabaco por cima das mesas! A negra é que as pagava.
E que calor! Era de derreter! Ouf!
—O caldinho ha-de estar prompto, hein!—disse,
adocicando a voz.—Tira-m'o, snr.
a Joanna, faz favor?
—Vossemecê hoje está com outra cara—notou
a cozinheira.
—Ai! sinto-me outra, snr.
a Joanna! Pois olhe
que adormeci com dia. Já luzia o dia!
—E eu!—Tinha tido cada sonho! Credo! Uma
avantesma côr de fogo a passear-lhe por cima do
corpo, e cada pancada na bocca do estomago, como
quem pisava uvas n'um lagar!
—Enfartamento—disse sentenciosamente Juliana,
e repetiu:
—Pois eu sinto-me outra. Ha mezes que me não
sinto tão bem!
Sorria com os seus dentes amarellados. O caldo
que Joanna deitava na malga branca, com um vapor
cheiroso, cheio de hortaliça, dava-lhe uma alegria
gulosa. Estendeu os pés, recostou-se, feliz, na
boa sensação da tarde quente e luminosa, entrando
largamente pelas duas janellas abertas.
O sol retirára-se da varanda, e sobre a pedra,
em vasos de barro, plantas pobres encolhiam a sua
folhagem chupada do calor: sobre uma táboa a um
canto, n'uma velha panella bojuda, verdejava um pé
de salsa muito tratado: o gato dormia sobre um esteirão:
esfregões seccavam n'uma corda: e para
além alargava-se o azul vivo como um metal candente,
as arvores dos quintaes tinham tons ardentes
do sol, os telhados pardos com as suas vegetações
esguias coziam no calor, e pedaços de paredes
caiadas despediam uma rebrilhação dura.
—Está de appetite, snr.
a Joanna, está de appetite!—dizia
Juliana, remexendo o caldo devagarinho,
com gula. A cozinheira de pé, com os braços
cruzados sobre o seu peito abundante, regosijava-se:
—O que se quer é que esteja a gosto.
—Está a preceito.
Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras.—E
a campainha da porta que já tinha tocado,
tornou a tilintar discretamente.
Juliana não se mexeu. Bafos de aragem quente
entravam: ouvia-se ferver a panella no fogão, e fóra
o martellar incessante da forja: ás vezes o arrulhar
triste de duas rôlas que viviam na varanda,
n'uma gaiola de vime, punha na tarde abrazada
uma sensação de suavidade.
A campainha retilintou, sacudida com impaciencia.
—Com a cabeça, burro!—disse Juliana.
Riram. Joanna fôra sentar-se á janella, n'uma cadeira
baixa; estendia os seus grossos pés, calçados
de chinellas de ourêlo; coçava-se devagarinho no
sovaco, toda repousada.
A campainha retiniu violentamente.
—Fóra, besta!—rosnou Juliana, muito tranquilla.
Mas a voz irritada de Luiza chamou de baixo:
—Juliana!
—Que nem uma pessoa póde tomar a sustancia
socegada! Raio de casa! Irra!
—Juliana!—gritou Luiza.
A cozinheira voltou-se, já assustada:
—A senhora zanga-se, snr.
a Juliana.
—Que a leve o diabo!
Limpou os beiços gordurosos ao avental, desceu
furiosa.
—Vossê não ouve, mulher? Estão a bater ha
uma hora!
Juliana arregalou os olhos espantada: Luiza tinha
vestido o roupão novo de
foulard côr de castanho,
com pintinhas amarellas!
—Temos novidade! Temol-a grossa!—pensou
Juliana pelo corredor.
A campainha repicava. E no patamar, vestido de
claro, com uma rosa ao peito, um embrulho debaixo
do braço, estava o
sujeito do negocio das minas!
—Aquelle sujeito de hontem!—veio dizer, toda
pasmada.
—Mande entrar...
—Viva!—pensou.
Galgou a escada da cozinha, disse logo da porta,
com a voz aguda de jubilo:
—Está cá o peralta de hontem! Está cá outra
vez! Traz um embrulho!—Que lhe parece, snr.
a
Joanna? Que lhe parece?
—Visitas...—disse a cozinheira.
Juliana teve um risinho secco. Sentou-se, acabou
o seu caldo, á pressa.
Joanna indifferente cantarolava pela cozinha; o
arrulhar das rôlas continuava langoroso e debil.
—Pois, senhores, isto vai rico!—disse Juliana.
Esteve um momento a limpar os dentes com a
lingua, o olhar fixo, reflectindo. Sacudiu o avental, e
desceu ao quarto de Luiza: o seu olhar esquadrinhador
avistou logo sobre o toucador as chaves esquecidas
da dispensa: podia subir, beber um trago de
bom vinho, engulir dous ladrilhos de marmelada...
Mas possuia-a uma curiosidade urgente, e, em bicos
de pés, foi agachar-se á porta que dava para a sala,
espreitou. O reposteiro estava corrido por dentro:
podia apenas sentir a voz grossa e jovial do sujeito.
Foi de volta, pelo corredor, á outra porta, ao pé da
escada; poz o olho á fechadura, collou o ouvido á
frincha. O reposteiro dentro estava tambem cerrado.
—Os diabos calafetaram-se!—pensou.
Pareceu-lhe que se arrastava uma cadeira, depois
que se fechava uma vidraça. Os olhos faiscavam-lhe.
Uma risada de Luiza sobresahiu, em seguida um silencio;
e as vozes recomeçaram n'um tom sereno e
continuo. De repente o sujeito ergueu a falla, e entre
as palavras que dizia, de pé de certo, passeando,
Juliana ouviu claramente:
Tu, foste tu!
—Oh que bebeda!
Um tlim-tlim timido da campainha, ao lado, assustou-a.
Foi abrir. Era Sebastião, muito vermelho do
sol, com as botas cheias de pó.
—Está?—perguntou, limpando a testa suada.
—Está com uma visita, snr. Sebastião!
E cerrando a porta sobre si, mais baixo:
—Um rapaz novo que já cá esteve hontem, um
janota! Quer que vá dizer?
—Não, não, obrigado, adeus.
Desceu discretamente. Juliana voltou logo a encostar-se
á porta, a orelha contra a madeira, as mãos
atraz das costas: mas a conversação, sem saliencia
de vozes, tinha um rumor tranquillo e indistincto.
Subiu á cozinha.
—Tratam-se por tu!—exclamou.—Tratam-se
por tu, snr.
a Joanna!
E muita excitada:
—Isto vai á vela! Caspitè! assim é que eu gosto
d'ellas!
O sujeito sahiu ás cinco horas. Juliana, apenas
sentiu abrir-se a porta, veio a correr; viu Luiza no
patamar, debruçada no corrimão, dizendo para baixo,
com muita intimidade:
—Bem, não falto. Adeus.
Ficou então tomada d'uma curiosidade que a alterava
como uma febre. Toda a tarde, na sala de
jantar, no quarto, esquadrinhou Luiza com olhares
de lado. Mas Luiza, com um roupão de linho mais
velho, parecia serena, muito indifferente.
—Que sonsa!
Aquella naturalidade despertava a sua bisbilhotice.
—Eu hei-de-t'apanhar, desavergonhada!—calculava.
Afigurou-se-lhe que Luiza tinha os olhos um pouco
pisados! Estudava-lhe as posições, os tons de voz.
Viu-a repetir o assado,—pensou logo:
—Abriu-lhe o appetite!
E quando Luiza ao fim do jantar se estendeu na
voltaire com um ar quebrado:
—Ficou derreada.
Luiza que nunca tomava café, quiz n'essa tarde
«meia chavena, mas forte, muito forte».
—Quer café!—veio ella dizer á cozinheira,
toda excitada.—Tudo á grande! E do forte. Quer
do forte! Ora o diabo!
Estava furiosa.
—Todas o mesmo! Uma récua de cabras!
Ao outro dia era domingo. Logo pela manhã cedo,
quando Juliana ia para a missa, Luiza chamou-a
da porta do quarto, deu-lhe uma carta para levar a
D. Felicidade. Ordinariamente mandava um recado;—e
a curiosidade de Juliana accendeu-se logo diante
d'aquelle sobrescripto fechado e lacrado com o sinete
de Luiza, um L gothico dentro d'uma corôa de
rosas.
—Tem resposta?
—Tem.
Quando voltou ás dez horas, com um bilhete de
D. Felicidade, Luiza quiz saber se havia muito calor,
se fazia poeira. Sobre a mesa estava um chapéo de
palha escuro, que ella estivera a enfeitar com duas
rosas de musgo.
Fazia um bocadinho de vento, mas p'ra a tarde
abrandava, de certo. E pensou logo:—Temos passeata,
vai ter com o gajo!
Mas durante todo o dia, Luiza em roupão não
sahiu do seu quarto ou da sala, ora estendida na
causeuse lendo aos bocados, ora batendo
distrahidamente
no piano pedaços de valsas. Jantou ás quatro
horas. A cozinheira sahiu, e Juliana pôz-se a passar
a sua tarde á janella da sala de jantar. Tinha o
vestido novo, as salas muito rijas de gomma, a cuia
dos dias santos—e pousava solemnemente os cotovêlos
n'um lenço, estendido sobre o peitoril da varanda.
Defronte os passaros chilreavam na figueira
brava. Dos dous lados do tabique que cercava o terreno
vago, agachavam-se os tectos escuros das duas
ruasitas parallelas: eram casas pobres onde viviam
mulheres, que pela tarde, em chambre ou de garibaldi,
os cabellos muito oleosos, faziam meia á janella,
fallando aos homens, cantarolando com um
tedio triste. Do outro lado do terreno, verduras de
quintaes, muros brancos davam áquelle sitio um ar
adormecido de villa pacata. Quasi ninguem passava.
Havia um silencio fatigado; e só ás vezes o som distante
d'um realejo, que tocava a
Norma ou a
Lucia,
punha uma melancolia na tarde.—E Juliana alli estava
immovel, até que os tons quentes da tarde empallideciam,
e os morcegos começavam a voar.
Pelas oito horas entrou no quarto de Luiza,—ficou
pasmada de a vêr vestida toda de preto, de
chapéo! Tinha accendido as serpentinas na parede,
os castiçaes no toucador; e sentada á beira da
causeuse
calçava as luvas devagar, com a face muito
séria, um pouco esbatida de pó d'arroz, o olhar
cheio de brilho.
—O vento abrandou?—disse.
—Está a noite muito bonita, minha senhora.
Um pouco antes das nove horas uma carruagem
parou á porta. Era D. Felicidade, muito encalmada.
Abafára todo o dia! E á noite nem uma aragem!
Até tinha mandado buscar uma carruagem descoberta,
que n'um coupé, credo, morria-se!
Juliana pelo quarto arrumava, dobrava, toda curiosa.
Onde iriam? onde iriam? D. Felicidade, amplamente
sentada, de chapéo, tagarellava: uma indigestão
que tivera na vespera com umas bajes; a
cozinheira que a tinha querido «comer» em quatro
vintens; uma visita que lhe fizera a condessa de
Arruella...
Emfim, Luiza, disse, baixando o seu véo branco:
—Vamos, filha. Faz-se tarde.
Juliana foi-lhes alumiar, furiosa. Olha que proposito,
irem duas mulheres sós por ahi fóra, n'uma tipoia!
E se uma criada então se demorava na rua mais
meia hora, credo, que alarido! Que duas bebedas!
Foi á cozinha desabafar com a Joanna. Mas a
rapariga estirada n'uma cadeira, dormitava.
Fôra com o seu Pedro ao Alto de S. João. E toda
a tarde tinham passeado no cemiterio, muito juntos,
admirando os jazigos, soletrando os epitaphios,
beijocando-se nos recantos que os chorões escureciam,
e regalando-se do ar dos cyprestes e das relvas
dos mortos. Voltaram por casa da Serena, entraram
a beberricar um quartilho no Espregueira... Tarde
cheia! e estava derreada da soalheira, do pó, da
admiração de tanto tumulo rico, do homem, e da
pinguita de vinho.
O que ia, era refastelar-se para a cama!
—Credo, snr.
a Joanna, vossemecê está-se a fazer
uma dorminhôca! Olha que mulher! Com pouco
arrêa! Cruzes!
Desceu ao quarto de Luiza, apagou as luzes,
abriu as janellas, arrastou a poltrona para a varanda,—e,
repimpada, os braços cruzados, pôz-se a passar
a noite.
O estanque ainda não se fechára, e a sua luzita
lugubre como a estanqueira, estendia-se tristemente
sobre a pedra miuda da rua; as janellas ao pé estavam
abertas; por algumas, mal alumiadas, viam-se
dentro serões melancolicos; n'outras, onde havia
vultos immoveis, luzia ás vezes a ponta d'um cigarro;
aqui, além tossia-se; e o moço do padeiro, no silencio
quente da noite, harpejava baixinho a guitarra.
Juliana pozera um vestido de chita claro; dous
sujeitos que estavam á porta do estanque riam, erguiam
de vez em quando os olhos para a janella,
para aquelle vulto branco de mulher: Juliana, então,
gozou! Tomavam-na de certo pela senhora, pela do
Engenheiro; faziam-lhe «olho», diziam brejeirices...
Um tinha calça branca e chapéo alto, eram janotas...
E com os pés muito estendidos, os braços
cruzados, a cabeça de lado, saboreava, longamente,
aquella consideração.
Passos fortes que subiam a rua, pararam á porta;
a campainha retiniu de leve.
—Quem é?—perguntou muito impaciente.
—Está?—disse a voz grossa de Sebastião.
—Sahiu com a D. Felicidade, foram de carruagem.
—Ah!—fez elle.
E acrescentou:
—Muito bonita noite!
—D'appetite, snr. Sebastião! d'appetite!—exclamou
alto.
E quando o viu descer a rua, gritou, affectadamente:
—Recados a Joanna! Não se esqueça!—mostrando-se
intima, madama, com olho terno para os
homens.
Áquella hora D. Felicidade e Luiza chegavam ao
Passeio.
Era beneficio; já de fóra se sentia o
brouhaha
lento e monotono, e via-se uma nevoa alta de poeira,
amarellada e luminosa.
Entraram. Logo ao pé do tanque encontraram
Bazilio. Fez-se muito surprehendido, exclamou:
—Que feliz acaso!
Luiza corou, apresentou-o a D. Felicidade.
A excellente senhora teve muitos sorrisos. Lembrava-se
d'elle, mas se não lhe dissessem talvez o
não conhecesse! Estava muito mudado!
—Os trabalhos, minha senhora...—disse Bazilio
curvando-se.
E acrescentou rindo, batendo com a bengala na
pedra do tanque:
—E a velhice! Sobretudo a velhice!
Na agua escura e suja as luzes do gaz torciam-se
até uma grande profundidade. As folhagens em
redor estavam immoveis, no ar parado, com tons
d'um verde livido e artificial. Entre os dous longos
renques parallelos d'arvores mesquinhas, entremeadas
de candieiros de gaz, apertava-se, n'um empoeiramento
de macadam, uma multidão compacta e escura;
e através do rumor grosso, as saliencias metallicas
da musica faziam passar no ar pesado, compassos
vivos de valsa.
Tinham ficado parados, conversando.
Que calor, hein? Mas a noite estava linda! Nem
uma aragem! que enchente!
E olhavam a gente que entrava: moços muito
frisados, com calças côr de flôr d'alecrim, fumando ceremoniosamente
os charutos do dia santo; um aspirante
com a cinta espartilhada e o peito enchumaçado;
duas meninas de cabello riçado, de movimentos gingados
que lhe desenhavam os ossos das omoplatas
sob a fazenda do vestido atabalhoado; um ecclesiastico
côr de cidra, o ar molle, o cigarro na bocca, e
lunetas defumadas; uma hespanhola com dous metros
de saia branca muita rija, fazendo ruge-ruge
na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaquetão
e bengalão, de chapéo na nuca, o olho avinhado;
e Bazilio ria muito de dous pequenos que o pai conduzia
com um ar hilare e compenetrado—vestidos
d'azul claro, a cinta ligada n'uma facha escarlate,
barretinas de lanceiro, botas á hungara, cretinos e
somnambulos.
Um sujeito alto então passou rente d'elles, e voltando-se,
revirou para Luiza dous grandes olhos langorosos
e prateados: tinha uma pera longa e aguçada;
trazia o collete decotado mostrando um bello
peitilho, e fumava por urna boquilha enorme que representava
um zuavo.
Luiza quiz-se sentar.
Um garoto de blusa, sujo como um esfregão, correu
a arranjar cadeiras; e acommodaram-se ao pé
d'uma familia acabrunhada e taciturna.
—Que fizeste tu hoje, Bazilio?—perguntou
Luiza.
Tinha ido aos touros.
—E que tal? Gostaste?
—Uma semsaboria. Se não fosse pelo trambolhão
do Peixinho tinha-se morrido de pasmaceira. Gado
fraco, cavalleiros infelizes, nenhuma sorte! Touros
em Hespanha! Isso sim!
D. Felicidade protestou. Que horror! Tinha-os visto
em Badajoz, quando estivera de visita em Elvas á
tia Francisca de Noronha, e ia desmaiando. O sangue,
as tripas dos cavallos... Pouh! É muito cruel!
Bazilio disse, com um sorriso:
—Que faria se visse os combates de gallos, minha
senhora!
D. Felicidade tinha ouvido contar,—mas achava
todos esses divertimentos barbaros, contra a religião.
E recordando um gozo que lhe punha um riso
na face gorda:
—P'ra mim não ha nada como uma boa noite
de theatro! Nada!
—Mas aqui representam tão mal!—replicou
Bazilio com uma voz desolada.—Tão mal, minha rica
senhora!
D. Felicidade não respondeu; meio erguida na
cadeira, o olhar avivado d'um brilho humido, saudava
desesperadamente com a mão:
—Não me viu—disse desconsolada.
—Era o conselheiro?—perguntou Luiza.
—Não. Era a condessa d'Alviella. Não me viu!
Vai muito á Encarnação, sou muito d'ella. É um anjo!
Não me viu. Ia com o sogro.
Bazilio não tirava os olhos de Luiza. Sob o véo
branco, á luz falsa do gaz, no ar ennevoado da poeira,
o seu rosto tinha uma fórma alva e suave, onde
os olhos que a noite escurecia punham uma expressão
apaixonada; os cabellinhos louros, frisados, tornando
a testa mais pequena, davam-lhe uma graça
ameninada e amorosa; e as luvas
gris-perle faziam
destacar sobre o vestido negro o desenho elegante
das mãos, que ella pousára no regaço, sustentando
o leque, com uma fofa renda branca em torno dos
seus pulsos finos.
—E tu, que fizeste hoje?—perguntou-lhe Bazilio.
Tinha-se aborrecido muito. Estivera todo o santo
dia a lêr.
Tambem elle passára a manhã deitado no sophá
a lêr a
Mulher de fogo de Belot. Tinha lido, ella?
—Não, que é?
—É um romance, uma novidade.
E acrescentou sorrindo:
—Talvez um pouco picante; não t'o aconselho!
D. Felicidade andava a lêr o
Rocambole. Tanto
lh'o tinham apregoado! Mas era uma tal trapalhada!
Embrulhava-se, esquecia-se... E ia deixar, porque
tinha percebido que a leitura lhe augmentava a indigestão.
—Soffre?—perguntou Bazilio, com um interesse
bem educado.
D. Felicidade contou logo a sua dyspepsia. Bazilio
aconselhou-lhe o uso do gelo.—De resto felicitava-a,
porque as doenças d'estomago, ultimamente,
tinham muito
chic. Interessou-se pela d'ella, pediu
pormenores.
D. Felicidade prodigalisou-os; e, fallando, via-se-lhe
crescer no olhar, na voz a sua sympathia por
Bazilio. Havia de usar o gelo!
—Com o vinho, já se sabe?
—Com o vinho, minha senhora!
—E olha que talvez!—exclamou D. Felicidade,
batendo com o leque no braço de Luiza, já esperançada.
Luiza sorriu, ia responder—mas viu o sujeito
pallido da pera longa que fitava n'ella os seus olhos
langorosos, com obstinação. Voltou o rosto importunada.
O sujeito afastou-se, retorcendo a ponta da
pera.
Luiza sentia-se molle; o movimento rumoroso e
monotono, a noite calida, a accumulação da gente,
a sensação de verdura em redor davam ao seu corpo
de mulher caseira um torpor agradavel, um bem
estar d'inercia, envolviam-na n'uma doçura emolliente
de banho morno. Olhava com um vago sorriso, o
olhar frouxo; quasi tinha preguiça de mexer as mãos,
d'abrir o leque.
Bazilio notou o seu silencio.—Tinha somno?
D. Felicidade sorriu com finura.
—Ora, vê-se sem o seu maridinho! Desde que
o não tem está esta mona que se vê.
Luiza respondeu, olhando Bazilio instinctivamente:
—Que tolice! Até estes dias tenho andado bem
alegre!
Mas D. Felicidade insistia:
—Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse coraçãosinho
está no Alemtejo!
Luiza disse, com impaciencia:
—Não has-de querer que me ponha aos pulos e
ás gargalhadas no Passeio.
—Está bem, não te enfureças!—exclamou D.
Felicidade. E para Bazilio:—Que geniosinho, hein!
Bazilio pôz-se a rir.
—A prima Luiza antigamente era uma vibora.
Agora não sei...
D. Felicidade acudiu:
—É uma pomba, coitada, é uma pomba! Não,
lá isso, é uma pomba.
E envolvia-a n'um olhar maternal.
Mas a familia taciturna ergueu-se, sem ruido,—e
as meninas adiante, os paes atraz, afastaram-se lugubremente,
succumbidos.
Bazilio immediatamente apossou-se da cadeira ao
pé de Luiza,—e vendo D. Felicidade a olhar distrahida:
—Estive para te ir vêr de manhã—disse baixinho
a Luiza.
Ella ergueu a voz, muito naturalmente, com indifferença:
—E porque não foste? Tinhamos feito musica.
Fizeste mal. Devias ter ido...
D. Felicidade quiz então saber as horas. Começava
a enfastiar-se. Tinha esperado encontrar o conselheiro:
por elle, para lhe parecer bem, fizera
o sacrificio de se apertar; Accacio não vinha, os
gazes começavam a affrontal-a; e o despeito d'aquella
ausencia augmentava-lhe a tortura da digestão. Na
sua cadeira, com o corpo molle, ia seguindo a multidão
que girava incessantemente, n'uma nevoa empoeirada.
Mas a musica, no coreto, bateu de repente, alto,
a grande ruido de cobres, os primeiros compassos
impulsivos da marcha do
Fausto. Aquillo reanimou-a.
Era um
pot-pourri da opera,—e não havia musica de
que gostasse mais. Estaria para a abertura de S. Carlos,
o snr. Bazilio?
Bazilio disse, com uma intenção, voltando-se para
Luiza:
—Não sei, minha senhora, depende...
Luiza olhava, calada. A multidão crescera. Nas
ruas lateraes mais espaçosas, frescas, passeavam
apenas, sob a penumbra das arvores, os acanhados,
as pessoas de luto, os que tinham o fato coçado.
Toda a burguezia domingueira viera amontoar-se na
rua do meio, no corredor formado pela filas cerradas
das cadeiras do asylo: e alli se movia entalada,
com a lentidão espessa d'uma massa mal derretida,
arrastando os pés, raspando o macadam,
n'um amarfanhamento plebeu, a garganta secca, os
braços molles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente,
para cima e para baixo, com um bamboleamento
relaxado e um rumor grosso, sem alegria
e sem bonhomia, no arrebanhamento passivo que
agrada ás raças mandrionas: no meio da abundancia
das luzes e das festividades da musica, um tedio
morno circulava, penetrava como uma nevoa: a
poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom
neutro; e nos rostos que passavam sob os candieiros,
nas zonas mais directas de luz, viam-se desconsolações
de fadiga e aborrecimentos de dia santo.
Defronte as casas da rua Occidental tinham na
sua fachada o reflexo claro das luzes do Passeio; algumas
janellas estavam abertas; as cortinas de fazenda
escura destacavam sobre a claridade interior
dos candieiros. Luiza sentia como uma saudade de
outras noites de verão, de serões recolhidos. Onde?
Não se lembrava. O movimento então retrahia-a; e
encontrava em face, fitando-a n'uma attitude lugubre,
o sujeito da pera longa. Debaixo do véo sentia a
poeira arder-lhe nos olhos: em redor d'ella gente
bocejava.
D. Felicidade propoz uma volta. Levantaram-se,
foram rompendo devagar; as filas das cadeiras apertavam-se
compactamente, e uma infinidade de faces
a que a luz do gaz dava o mesmo tom amarellado olhavam
de um modo fixo e cançado, n'um abatimento
de pasmaceira. Aquelle aspecto irritou Bazilio, e como
era difficil andar lembrou—«que se fossem d'aquella
semsaboria».
Sahiram. Em quanto elle ia comprar os bilhetes,
D. Felicidade, deixando-se quasi cahir n'um banco
sob a folhagem d'um chorão, exclamou afflicta:
—Ai filha! Estou que arrebento!
Passava a mão no estomago, tinha a face envelhecida.
—E o conselheiro, que me dizes? Olha que já é
pouca sorte! Hoje que eu vim ao Passeio...
Suspirou, abanando-se. E com o seu sorriso bondoso:
—É muito sympathico, teu primo! E que maneiras!
Um verdadeiro fidalgo. Que elles conhecem-se,
filha!
Declarou-se muito fatigada, apenas sahiram o portão.
Era melhor tomarem um trem.
Bazilio achava preferivel subirem a pé até ao
largo do Loreto. A noite estava tão agradavel! E o
andar fazia bem á snr.
a D. Felicidade!
Depois diante do Martinho, fallou em irem tomar
neve; mas D. Felicidade receava a frialdade, Luiza
tinha vergonha. Pelas portas do café abertas, viam-se
sobre as mesas jornaes enxovalhados; e algum raro
individuo, de calça branca, tomava placidamente
o seu sorvete de morango.
No Rocio, sob as arvores, passeava-se: pelos bancos,
gente immovel parecia dormitar; aqui e além
pontas de cigarro reluziam; sujeitos passavam, com
o chapéo na mão, abanando-se, o collete desabotoado;
a cada canto se apregoava agua fresca «do Arsenal»;
em torno do largo, carruagens descobertas
rodavam vagarosamente. O céo abafava,—e na
noite escura, a columna da estatua de D. Pedro tinha
o tom baço e pallido de uma vela de estearina
colossal e apagada.
Bazilio, ao pé de Luiza, ia calado. Que horror de
cidade!—pensava—Que tristeza! E lembrava-lhe
Paris, de verão: subia, á noite, no seu phaeton, os
Campos Elyseos devagar: centenares de victorias descem,
sobem rapidamente, com um trote discreto e
alegre; e as lanternas fazem em toda a avenida um
movimento jovial de pontos de luz; vultos brancos
e mimosos de mulheres reclinam-se nas almofadas,
balançadas nas molas macias; o ar em redor tem
uma doçura avelludada, e os castanheiros espalham
um aroma subtil. Dos dous lados, d'entre os arvoredos,
saltam as claridades violentas dos cafés cantantes,
cheios do
brouhaha das multidões alegres, dos
brios impulsivos das orchestras; os restaurantes
flammejam;
ha uma intensidade de vida amorosa e feliz;
e, para além, sahe das janellas dos palacetes, através
dos
stores de sêda, a luz sobria e velada das
existencias ricas. Ah! se lá estivesse!—Mas ao passar
junto dos candieiros olhava de lado para Luiza:
o seu perfil fino sob o véo branco tinha uma grande
doçura; o vestido prendia bem a curva do seu peito;
e havia no seu andar uma lassidão que lhe quebrava
a linha da cinta de um modo languido e promettedor.
Veio-lhe uma certa idéa, começou a dizer: Que
pena que não houvesse em toda a Lisboa um restaurante,
onde se podesse ir tomar uma aza de perdiz
e beber uma garrafa de
champagne frappée!
Luiza não respondeu. Devia ser delicioso—pensava.—Mas
D. Felicidade exclamou:
—Perdiz, a esta hora!
—Perdiz ou outra qualquer cousa.
—Fosse o que fosse, era para estourar! Credo!
Subiam pela rua Nova do Carmo. Os candieiros
davam uma luz mortiça: as altas casas dos dous lados,
apagadas, entalavam, carregavam a sombra; e
a patrulha muito armada, descia passo a passo, sem
ruido, sinistra e subtil.
Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os
com cautelas de loteria; a sua voz aguda e
chorosa promettia a fortuna, muitos contos de reis.
D. Felicidade ainda parou, com uma tentação... Mas
uma troça de rapazes bebedos que descia de chapéo
na nuca, fallando alto, aos tropeções, assustou muito
as duas senhoras. Luiza encolheu-se logo contra
Bazilio, D. Felicidade enfiada agarrou-lhe anciosamente
o braço, quiz-se metter n'uma carruagem; e até
ao Loreto foi explicando o seu medo aos borrachos,
com a voz atarantada, contando casos, facadas, sem
largar o braço de Bazilio. Da fileira de tipoias, ao
lado das grades da praça de Camões, um cocheiro lançou
logo a sua caleche descoberta, de pé na almofada,
apanhando confusamente as rédeas, com grandes
chicotadas na parelha, muito excitado, gritando:
—Prompto, meu amo, prompto!
Demoraram-se um momento ainda conversando.
Um homem então passou, rondou,—e Luiza desesperada
reconheceu os olhos acarneirados do sujeito
da pera.
Entraram para a caleche. Luiza ainda se voltou
para vêr Bazilio immovel no largo, com o seu chapéo
na mão: depois accommodou-se, pôz os pésinhos
no outro assento e balançada pelo trote largo viu
passar, calada, as casas apagadas da rua de S. Roque,
as arvores de S. Pedro de Alcantara, as fachadas
estreitas do Moinho de Vento, os jardins adormecidos
da Patriarchal. A noite estava immovel, de um
calor molle: e desejava, sem saber porque, rolar assim
sempre, infinitamente, entre ruas, entre grades
cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino,
sem cuidados, para alguma cousa de feliz que não
distinguia bem! Um grupo defronte da Escóla ia tocando
o
Fado do Vimioso; aquelles sons entraram-lhe
na alma como um vento dôce, que fazia agitar
brandamente muitas sensibilidades passadas: suspirou
baixo.
—Um suspirosinho que vai para o Alemtejo—disse
D. Felicidade, tocando-lhe o braço.
Luiza sentiu todo o sangue abrazar-lhe o rosto.
Davam onze horas quando entrou em casa.
Juliana veio alumiar.—O chá estava prompto,
quando a senhora quizesse...
Luiza subiu d'ahi a pouco com um largo roupão
branco, muito fatigada, estendeu-se na
voltaire;
sentia
vir-lhe uma somnolencia, a cabeça pendia-lhe,
cerrava as palpebras... E Juliana tardava tanto com
o chá! Chamou-a. Onde estava? credo!
Tinha descido, pé ante pé, ao quarto de Luiza.
E ahi tomando o vestido, as saias engommadas que
ella despira e atirára para cima da
causeuse,
desdobrou-as,
revirou-as, examinou-as, e com uma certa
idéa, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo
lavado e quente, com uma pontinha de suor e de
agua de colonia. Quando a sentiu chamar, impacientar-se
em cima, subiu, correndo.—Fôra abaixo dar
uma arrumadella. Era o chá? Estava prompto...
E entrando com as torradas:
—Veio ahi o snr. Sebastião, haviam de ser nove
horas...
—Que lhe disse?
—Que a senhora tinha sahido com a snr.
a D. Felicidade.
Como não sabia, não disse para onde.
E acrescentou:
—Esteve a conversar commigo, o snr. Sebastião...
Esteve a conversar mais de meia hora!...
Luiza recebeu, na manhã seguinte, da parte de
Sebastião, um ramo de rosas, magenta-escuro, magnificas.
Cultivava-as elle na quinta de Almada, e
chamavam-se rosas
D. Sebastião. Mandou-as pôr nos
vasos da sala, e como o dia estava encoberto, de um
calor baixo e suffocante:
—Olhe—disse a Juliana—abra as janellas.
—Bem—pensou Juliana—temos cá o melro.
O
melro veio com effeito ás tres horas. Luiza estava
na sala, ao piano.
—Está alli o sujeito do costume—foi dizer Juliana.
Luiza voltou-se corada, escandalisada da expressão:
—Ah! meu primo Bazilio? Mande entrar.
E chamando-a:
—Ouça, se vier o snr. Sebastião, ou alguem, que
entre.
Era o primo! O
sujeito, as suas visitas perderam
de repente para ella todo o interesse picante. A sua
malicia cheia, enfunada até ahi, cahiu, engelhou-se
como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus!
Era o primo!
Subiu á cozinha, devagar,—lograda.
—Temos grande novidade, snr.
a Joanna! O tal
peralta é primo. Diz que é o primo Bazilio.
E com um risinho:
—É o Bazilio! Ora o Bazilio! Sahe-nos primo á
ultima hora! O diabo tem graça!
—Então que havia de o homem ser senão parente?—observou
Joanna.
Juliana não respondeu. Quiz saber se estava o
ferro prompto, que tinha uma carga de roupa para
passar! E sentou-se á janella, esperando. O céo baixo
e pardo pesava, carregado de electricidade; ás
vezes uma aragem subita e fina punha nas folhagens
dos quintaes um arripio tremulo.
—É o primo!—reflectia ella.—E só vem então
quando o marido se vai. Boa! E fica-se toda no
ar quando elle sahe, e é roupa branca e mais roupa
branca, e roupão novo, e tipoia para o passeio, e
suspiros e olheiras! Boa bebeda! Tudo fica na familia!
Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda.
Havia alli muito «para vêr e para escutar». E o
ferro, estava prompto?
Mas a campainha, em baixo, tocou.
—Boa! isto agora é um fadario! Estamos na casa
do despacho!
Desceu; e exclamou logo, vendo Julião com um
livro debaixo do braço:
—Faz favor d'entrar, snr. Julião! A senhora está
com o primo, mas diz que mandasse entrar!
Abriu a porta da sala bruscamente, de surpreza.
—Está aqui o snr. Julião—disse com satisfação.
Luiza apresentou os dous homens.
Bazilio ergueu-se do sophá languidamente, e,
n'um relance, percorreu Julião desde a cabelleira
desleixada até ás botas mal engraxadas, com um
olhar quasi horrorisado.
—Que pulha!—pensou.
Luiza, muito fina, percebeu, e córou, envergonhada
de Julião.
Aquelle homem de collarinho enxovalhado e com
um velho casaco de pano preto mal feito—que idéa
daria a Bazilio das relações, dos amigos da casa!
Sentia já o seu
chic diminuido. E instinctivamente,
a
sua physionomia tornou-se muito reservada,—como
se semelhante visita a surprehendesse! semelhante
toilette a indignasse!
Julião percebeu o constrangimento d'ella, disse,
já embaraçado, ageitando a luneta:
—Passei por aqui por acaso, entrei a saber se
ha algumas noticias de Jorge...
—Obrigada. Sim, tem escripto. Está bem...
Bazilio, recostado no sophá, como um parente intimo,
examinava a sua meia de sêda bordada de estrellinhas
escarlates, e cofiava indolentemente o bigode,
arrebitando um pouco o dedo minimo,—onde
brilhavam, em dous grossos anneis d'ouro, uma saphira
e um rubi.
A affectação da attitude, o reluzir das joias irritaram
Julião.
Quiz mostrar tambem a sua intimidade, os seus
direitos, disse:
—Eu não tenho vindo fazer-lhe um bocado de
companhia, porque tenho estado muito occupado...
Luiza acudiu para desauthorisar logo aquella familiaridade:
—Eu tambem não me tenho achado bem. Não
tenho recebido ninguem,—a não ser meu primo,
naturalmente!
Julião sentiu-se renegado! E todo vermelho, de
surpreza, d'indignação, ficou a balançar a perna, calado,
com o livro sobre o joelho; como a calça era
curta, via-se o elastico esfiado das botas velhas.
Houve um silencio difficil.
—Bonitas rosas!—disse emfim Bazilio, preguiçosamente.
—Muito bonitas!—respondeu Luiza.
Estava agora compadecida de Julião, procurava
uma palavra; disse-lhe emfim muito precipitadamente:
—E que calor! É de morrer! Tem havido muitas
doenças?
—Colerinas—respondeu Julião.—Por causa das
frutas. Doenças de ventre.
Luiza baixou os olhos. Bazilio então começou a
fallar da viscondessinha d'Azeias: tinha-a achado
acabada; e que era feito da irmã, da grande?
Aquella conversação sobre fidalgas que elle não
conhecia isolava mais Julião: sentia o suor humedecer-lhe
o pescoço; procurava um dito, uma ironia,
uma agudeza; e machinalmente abria e fechava o seu
grosso livro de capa amarella.
—É algum romance?—perguntou-lhe Luiza.
—Não. É o tratado do dr. Lee sobre doenças
d'utero.
Luiza fez-se escarlate: Julião tambem, furioso da
palavra que lhe escapára. E Bazilio, depois de sorrir,
perguntou por uma certa D. Raphaela Grijó, que costumava
ir á rua da Magdalena, que usava luneta, e
tinha um cunhado gago...
—Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado.
—Com o gago?
—Sim. Tem um filhito d'elle, gago tambem.
—Que conversação, em familia! E a D. Eugenia,
a de Braga?
Julião, exasperado, ergueu-se; e com uma voz
de garganta secca:
—Estou com pressa, não me posso demorar.
Quando escrever a Jorge, os meus recados, hein?
Abaixou bruscamente a cabeça a Bazilio. Mas não
achava o chapéo, tinha rolado para debaixo d'uma
cadeira. Embrulhou-se no reposteiro, topou violentamente
contra a porta fechada, e sahiu emfim desesperado,
desejando vingar-se, odiando Luiza, Jorge, o
luxo, a vida,—transbordando agora d'ironias, de ditos,
de réplicas. Devia-os ter achatado, o asno e a
tola... E não lhe acudira nada!
Mas apenas elle tinha fechado a cancella, Bazilio
pôz-se de pé, e cruzando os braços:
—Quem é este pulha?
Luiza córou muito, balbuciou:
—É um rapaz medico...
—É uma creatura impossivel, é uma especie
d'estudante!
—Coitado, não tem muitos meios...
Mas não era necessario ter meios para escovar
o casaco e limpar a caspa! Não devia receber semelhante
homem! Envergonha uma casa. Se seu
marido gostava d'elle, que o recebesse no escriptorio!...
Passeava pela sala, excitado, com as mãos nos
bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as chaves.
—São frescos os amigos da casa!...—continuou.—Que
diabo! tu não foste educada assim. Nunca
tiveste gente d'este genero na rua da Magdalena.
Não tivera: e pareceu-lhe que as ligações do casamento
lhe tinham trazido um pouco o plebeismo
das convivencias. Mas um respeito pelas opiniões,
pelas sympathias de Jorge fez-lhe dizer:
—Diz que tem muito talento...
—Era melhor que tivesse botas.
Luiza, por cobardia, concordou.
—Tambem o acho exquisito!—disse.
—Horrivel, minha filha!
Aquella palavra fez-lhe bater o coração. Era assim
que elle lhe chamava, outr'ora! Houve um momento
de silencio:—e a campainha da porta retiniu
fortemente.
Luiza ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastião!
Bazilio achal-o-hia ainda mais reles! Mas Juliana veio
dizer:
—O snr. conselheiro. Mando entrar?
—De certo—exclamou.
E a alta figura d'Accacio adiantou-se, com as bandas
do casaco d'alpaca deitadas para traz, a calça
branca muito engommada cahindo sobre sapatos de
entrada abaixo, de laço.
Apenas Luiza lhe apresentou o primo Bazilio, disse
logo, respeitoso:
—Já sabia que v. exc.
a tinha chegado, vi-o nas
interessantes noticias do nosso
high-life. E do
nosso
Jorge?
Jorge estava em Beja... Diz que se aborrece
muito...
Bazilio, mais amavel, deixou cahir:
—Eu realmente não tenho a menor idéa do que
se possa fazer em Beja. Deve ser horroroso!
O conselheiro, passando sobre o bigode a sua
mão branca onde destacava o annel d'armas, observou:
—É todavia a capital do districto!
Mas se já em Lisboa se não podia fazer nada, e
era a capital do reino!—E Bazilio puxava, todo recostado,
o punho da camisa.—Morria-se positivamente
de pasmaceira!
Luiza, muito contente da affabilidade de Bazilio,
pôz-se a rir:
—Não digas isso diante do conselheiro. É um
grande admirador de Lisboa.
Accacio curvou-se:
—Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica
senhora.
E com muita bonhomia:
—Conheço porém que não é para comparar aos
Parizes, ás Londres, ás Madrids...
—De certo—fez Luiza.
E o conselheiro continuou com pompa:
—Lisboa porém tem bellezas sem igual! A entrada,
ao que me dizem (eu nunca entrei a barra),
é um panorama grandioso, rival das Constantinoplas
e das Napoles. Digno da penna d'um Garrett ou d'um
Lamartine! Proprio para inspirar um grande engenho!...
Luiza, receando citações ou apreciações litterarias,
interrompeu-o, perguntou-lhe o que tinha feito?
Tinham estado domingo no Passeio, ella e D. Felicidade,
tinham esperado vêl-o, e nada!
Nunca ia ao Passeio, ao domingo—declarou.—Reconhecia
que era muito agradavel, mas a multidão
entontecia-o. Tinha notado,—e a sua voz tomou o
tom espaçado d'uma revelação,—tinha notado que
muita gente, n'um local, causa vertigens aos homens
d'estudo. De resto queixou-se da sua saude e do
peso dos seus trabalhos. Andava compilando um livro
e usando as aguas de Vichy.
—Pódes fumar—disse Luiza de repente, sorrindo,
a Bazilio.—Queres lume?
Ella mesmo lhe foi buscar um phosphoro, toda
ligeira, feliz. Tinha um vestido claro, um pouco transparente,
muito fresco. Os seus cabellos pareciam
mais louros, a sua pelle mais fina.
Bazilio soprou o fumo do charuto, e declarou muito
reclinado:
—O Passeio ao domingo é simplesmente idiota!...
O conselheiro reflectiu e respondeu:
—Não serei tão severo, snr. Brito!—Mas parecia-lhe
que com effeito antigamente era uma diversão
mais agradavel.—Em primeiro lugar—exclamou
com muita convicção, endireitando-se—nada, mas
nada, absolutamente nada póde substituir a charanga
da Armada!—Além d'isso havia a questão dos preços...
Ah! tinha estudado muito o assumpto! Os
preços diminutos favoreciam a agglomeração das classes
subalternas... Que longe do seu pensamento
lançar desdouro n'essa parte da população... As
suas idéas liberaes eram bem conhecidas.—Appéllo
para a snr.
a D. Luiza!—disse.—Mas emfim, sempre
era mais agradavel encontrar uma roda escolhida!
Em quanto a si nunca ia ao Passeio. Talvez
não acreditassem, mas nem mesmo quando havia
fogo de vistas! N'esses dias, sim, ia vêr por fóra das
grades. Não por economia! De certo não. Não era
rico, mas podia fazer face a essa contribuição diminuta.
Mas é que receava os accidentes! É que os receava
muito! Contou a historia d'um sujeito, cujo
nome lhe escapava, a quem uma cana de foguete furára
o craneo.—E além d'isso nada mais facil que
cahir uma fagulha accesa na cara, n'um paletot
novo...—É conveniente ter prudencia—resumiu,
compenetrado, limpando os beiços com o lenço de
sêda da India muito enrolado.
Fallaram então da estação: muita gente fôra para
Cintra: de resto, Lisboa no verão era tão seccante!...
E o conselheiro declarou que Lisboa só era imponente,
verdadeiramente imponente, quando estavam abertas
as camaras e S. Carlos!
—Que estavas tu a tocar quando eu entrei?—perguntou
Bazilio.
O conselheiro acudiu logo:
—Se estavam fazendo musica, por quem são...
Sou um velho assignante de S. Carlos, ha dezoito
annos...
Bazilio interrompeu-o:
—Toca?
—Toquei. Não o occulto. Em rapaz fui dado á
flauta.
E acrescentou, com um gesto benevolo:
—Rapaziadas!... Alguma novidade, o que estava
tocando, D. Luiza?
—Não! Uma musica muito conhecida, já antiga:
a
Filha do Pescador, de Meyerbeer! Tenho a letra
traduzida.
Tinha cerrado as vidraças, sentára-se ao piano.
—O Sebastião é que toca isto bem, não é verdade,
conselheiro?
—O nosso Sebastião—disse o conselheiro com
authoridade—é um rival dos Thalbergs e dos Litz.
Conhece o nosso Sebastião?—perguntou a Bazilio.
—Não, não conheço.
—Uma perola!
Bazilio tinha-se aproximado do piano devagar,
frisando o bigode.
—Tu ainda cantas?—perguntou-lhe Luiza, sorrindo.
—Quando estou só.
Mas o conselheiro pediu-lhe logo um «trecho».
Bazilio ria. Tinha medo d'escandalisar um velho assignante
de S. Carlos...
O conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente:
—Coragem, snr. Brito, coragem!
Luiza então preludiou.
E Bazilio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada,
de barytono; as suas notas altas faziam a sala sonora.
O conselheiro, direito na poltrona, escutava
concentrado; a sua testa, franzida n'um vinco, parecia
curvar-se sob uma responsabilidade de juiz; e as
lunetas defumadas destacavam, com reflexos escuros,
n'aquella physionomia de calvo, que o calor tornava
mais pallida.
Bazilio dizia com uma melancolia grave a primeira
phrase, tão larga, da canção: