Igual ao mar sombrio
Meu coração profundo...
Um poeta, com uma dedicação obscura, traduzira
a letra no
Almanach das Senhoras. Luiza pela sua
propria mão a tinha copiado nas entrelinhas da musica.
E Bazilio debruçado sobre o papel sempre torcendo
as pontas do bigode:
Tem tempestades, coleras,
Mas perolas no fundo!
Os olhos largos de Luiza affirmavam-se para a musica—ou
a espaços, com um movimento rapido, erguiam-se
para Bazilio. Quando, na nota final, prolongada
como a reclamação d'um amor supplicante,
Bazilio soltou a voz d'um modo appellativo:
Vem! vem
Pousar, ó dôce amada,
Teu peito contra o meu...
os seus olhos fixaram-se n'ella com uma significação
de tanto desejo, que o peito de Luiza arfou, os seus
dedos embrulharam-se no teclado.
O conselheiro bateu as palmas.
—Uma voz admiravel!—exclamava—Uma voz
admiravel!
Bazilio dizia-se envergonhado.
—Não, senhor, não, senhor!—protestou Accacio,
levantando-se.—Um excellente orgão! Direi, o
melhor orgão da nossa sociedade!
Bazilio riu. Uma vez que tinha successo, então ia
dizer-lhes uma modinha brazileira da Bahia. Sentou-se
ao piano, e depois de ter preludiado uma melodia
muito balançada, d'um embalado tropical, cantou:
Sou negrinha, mas meu peito
Sente mais que um peito branco.
E interrompendo-se:
—Isto fazia furor nas reuniões da Bahia quando
eu parti.
Era a historia d'uma «negrinha» nascida na roça,
e que contava, com lyrismos d'almanach, a sua paixão
por um feitor branco.
Bazilio parodiava o tom sentimental d'alguma menina
bahiana; e a sua voz tinha uma preciosidade comica,
quando dizia o
ritornello choroso:
E a negra p'ra os mares
Seus olhos alonga;
No alto coqueiro
Cantava a araponga.
O conselheiro achou «delicioso»; e, de pé na sala,
lamentou a proposito da cantiga a condição dos
escravos. Que lhe affirmavam amigos do Brazil que
os negros eram muito bem tratados. Mas emfim a civilisação
era a civilisação! E a escravatura era um
estigma! Tinha todavia muita confiança no imperador...
—Monarcha de rara illustração...—acrescentou
respeitosamente.
Foi buscar o seu chapéo, e collando-lhe as abas
ao peito, curvando-se, jurou que—havia muito tempo
não tinha passado uma manhã tão completa. De
resto para elle nada havia como a boa conversação
e a boa musica...
—Onde está v. exc.
a alojado, snr. Brito?
Pelo amor de Deus! Que não se incommodasse!
Estava no Hotel Central.
Não havia considerações que o impedissem de
cumprir o seu dever—declarou.—Cumpril-o-hia!
Elle era uma pessoa inutil, a snr.
a D. Luiza bem o
sabia.—Mas se necessitar alguma cousa, uma informação,
uma apresentação nas regiões officiaes, licença
para visitar algum estabelecimento publico,
creia que me tem ás suas ordens!
E conservando na sua mão a mão de Bazilio:
—Rua do Ferregial de Cima numero tres, terceiro.
O modesto tugurio d'um ermita.
Tornou a curvar-se diante de Luiza:
—E quando escrever ao nosso viajante, que faço
sinceros votos pela prosperidade dos seus emprehendimentos.
Por quem é! Criado de v. exc.
a!
E direito, grave, sahiu.
—Este ao menos é limpo—resmungou Bazilio,
com o charuto ao canto da bocca.
Sentára-se outra vez ao piano, corria os dedos
pelo teclado. Luiza aproximou-se:
—Canta alguma cousa, Bazilio!
Bazilio pôz-se então a olhar muito para ella.
Luiza córou, sorriu; através da fazenda clara e
transparente do vestido, entrevia-se a brancura macia
e lactea do collo e dos braços; e nos seus olhos, na
côr quente do rosto havia uma animação e como
uma vitalidade amorosa.
Bazilio disse-lhe, baixo:
—Estás hoje nos teus dias felizes, Luiza.
O olhar d'elle, tão avido, perturbava-a; insistiu:
—Canta alguma cousa.
O seu seio arfava.
—Canta tu—murmurou Bazilio.
E devagarinho, tomou-lhe a mão. As duas palmas
um pouco humidas, um pouco tremulas, uniram-se.
A campainha, fóra, tocou. Luiza desprendeu a mão
bruscamente.
—É alguem—disse agitada.
Vozes baixas fallavam á cancella.
Bazilio teve um movimento d'hombros contrariado,
foi buscar o chapéo.
—Vaes-te?—exclamou ella toda desconsolada.
—Pudera! Não posso estar só comtigo um momento!
A cancella fechou-se com ruido.
—Não é ninguem, foi-se—disse Luiza.
Estavam de pé, no meio da sala.
—Não te vás! Bazilio!
Os seus olhos profundos tinham uma supplicação
dôce. Bazilio pousou o chapéo sobre o piano; mordia
o bigode um pouco nervoso.
—E para que queres tu estar só commigo?—disse
ella.—Que tem que venha gente?—E arrependeu-se
logo d'aquellas palavras.
Mas Bazilio, com um movimento brusco, passou-lhe
o braço sobre os hombros, prendeu-lhe a cabeça, e
beijou-a na testa, nos olhos, nos cabellos, vorazmente.
Ella soltou-se a tremer, escarlate.
—Perdôa-me—exclamou elle logo, com um impeto
apaixonado.—Perdôa-me. Foi sem pensar. Mas
é porque te adoro, Luiza!
Tomou-lhe as mãos com dominio, quasi com direito.
—Não. Has-de ouvir. Desde o primeiro dia que
te tornei a vêr estou doudo por ti, como d'antes, a
mesma cousa. Nunca deixei de me morrer por ti.
Mas não tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te
vêr rica, feliz. Não te podia levar para o Brazil. Era
matar-te, meu amor! Tu imaginas lá o que aquillo
é! Foi por isso que te escrevi aquella carta, mas o
que eu soffri, as lagrimas que chorei!
Luiza escutava-o immovel, a cabeça baixa, o olhar
esquecido; aquella voz quente e forte, de que recebia
o bafo amoroso, dominava-a, vencia-a; as mãos
de Bazilio penetravam com o seu calor febril a substancia
das suas; e, tomada d'uma lassidão, sentia-se
como adormecer.
—Falla, responde!—disse elle anciosamente,
sacudindo-lhe as mãos, procurando o seu olhar avidamente.
—Que queres que te diga?—murmurou ella.
A sua voz tinha um tom abstracto, mal acordado.
E desprendendo-se devagar, voltando o rosto:
—Fallemos n'outras cousas!
Elle balbuciava com os braços estendidos:
—Luiza! Luiza!
—Não, Bazilio, não!
E na sua voz havia o arrastado d'uma lamentação,
com a molleza d'uma caricia.
Elle então não hesitou, prendeu-a nos braços.
Luiza ficou inerte, os beiços brancos, os olhos
cerrados—e Bazilio, pousando-lhe a mão sobre a
testa, inclinou-lhe a cabeça para traz, beijou-lhe as
palpebras devagar, a face, os labios depois muito
profundamente; os beiços d'ella entreabriram-se, os
seus joelhos dobraram-se.
Mas de repente todo o seu corpo se endireitou,
com um pudor indignado, afastou o rosto, exclamou
afflicta:
—Deixa-me, deixa-me!
Viera-lhe uma força nervosa; desprendeu-se, empurrou-o;
e passando as mãos abertas pela testa, pelos
cabellos:
—Oh meu Deus! É horrivel!—murmurou.—Deixa-me!
É horrivel!
Elle adiantava-se com os dentes cerrados; mas
Luiza recuava, dizia:
—Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu
aqui? Deixa-me!
Elle então tranquillisou-a com a voz subitamente
serena e humilde. Não percebia. Porque se zangava?
Que tinha um beijo? Elle não pedia mais. Que tinha
ella imaginado, então? Adorava-a, de certo, mas puramente.
—Juro-t'o!—disse com força, batendo no peito.
Fel-a sentar no sophá, sentou-se ao pé d'ella.
Fallou-lhe muito sensatamente:—Via as circumstancias,
e resignar-se-hia. Seria como uma amizade d'irmãos,
nada mais.
Ella escutava-o, esquecida.
De certo, dizia elle, aquella paixão era uma tortura
immensa. Mas era forte, dominar-se-hia. Só queria
vir vêl-a, fallar-lhe. Seria um sentimento ideal.—E
os seus olhos devoravam-na.
Voltou-lhe a mão, curvou-se, pôz-lhe um beijo
cheio na palma. Ella estremeceu, ergueu-se logo:
—Não! Vai-te!
—Bem, adeus.
Levantou-se com um movimento resignado e infeliz.
E limpando devagar a sêda do chapéo:
—Bem, adeus—repetiu melancolicamente.
—Adeus.
Bazilio disse então com muita ternura:
—Estás zangada?
—Não!
—Escuta—murmurou, adiantando-se.
Luiza bateu com o pé.
—Oh que homem! Deixa-me! Ámanhã. Adeus.
Vai-te! Ámanhã!
—Ámanhã!—disse elle, baixinho.
E sahiu rapidamente.
Luiza entrou no quarto toda nervosa. E ao passar
diante do espelho ficou surprehendida: nunca se vira
tão linda! Deu alguns passos calada.
Juliana arrumava roupa branca n'um gavetão do
guarda-vestidos.
—Quem tocou ha bocado?—perguntou Luiza.
—Foi o snr. Sebastião. Não quiz entrar; disse
que voltava.
Tinha dito, com effeito, «que voltava». Mas começava
quasi a envergonhar-se de vir assim todos
os dias, e encontral-a sempre «com uma visita»!
Logo no primeiro dia ficára muito surprehendido
quando Juliana lhe disse: «Está com um sujeito! Um
rapaz novo que já cá esteve hontem!» Quem seria?
Conhecia todos os amigos da casa... Seria algum
empregado da secretaria ou algum proprietario de
minas, o filho do Alonso, talvez, um negocio de Jorge
de certo...
Depois no domingo, á noite, trazia-lhe a partitura
de
Romeu e Julieta, de Gounod, que ella desejava
tanto
ouvir, e quando Juliana lhe disse da varanda «que
tinha sahido com D. Felicidade de carruagem», ficou
muito embaraçado com o grosso volume debaixo do
braço, coçando devagar a barba. Onde teriam ido?
Lembrou-se do enthusiasmo de D. Felicidade pelo
theatro de D. Maria. Mas irem sós, n'aquelle calor de
julho, ao theatro! Emfim, era possivel. Foi a D. Maria.
O theatro, quasi vazio, estava lugubre; aqui e
além, n'algum camarote, uma familia feia perfilava-se,
com cabellos negrissimos carregados de postiços,
gozando soturnamente a sua noite de domingo: na
platéa, á larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas
e inexpressivas escutavam com um ar encalmado
e farto, limpando a espaços, com lenços de sêda,
o suor dos pescoços; na geral, gente de trabalho arregalava
olhos negros em faces trigueiras e oleosas;
a luz tinha um tom dormente; bocejava-se. E no
palco, que representava uma sala de baile amarella,
um velhote condecorado fallava a uma magrita de
cabellos riçados, sem cessar, com o tom diluido de
uma agua gordurosa e morna que escorre.
Sebastião sahiu. Onde estariam? Soube-o na manhã
seguinte.—Descia o Moinho de Vento, e um visinho,
o Netto, que subia curvado sob o seu guarda-sol,
com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o
bruscamente, para lhe dizer:
—Ó amigo Sebastião, ouça cá. Vi hontem á noite
no Passeio a D. Luiza com um rapaz que eu conheço.
Mas d'onde conheço eu aquella cara? Quem
diabo é?
Sebastião encolheu os hombros.
—Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado.
Eu conheço-o. N'outro dia vi-o entrar para lá.
Vossê não sabe?
Não sabia.
—Eu conheço aquella cara. Tenho estado a vêr
se me recordo...—Passava a mão pela testa.—Eu
conheço aquella cara! Elle é de Lisboa. De Lisboa é
elle!
E depois d'um silencio, fazendo girar o guarda-sol:
—E que ha de novo, Sebastião?
Tambem não sabia.
—Nem eu!
E bocejando muito:
—Isto está uma pasmaceira, homem!
N'essa tarde, ás quatro horas, Sebastião voltou a
casa de Luiza. Estava com «o sujeito!» Ficou então
preoccupado. De certo era algum negocio de Jorge;
porque não comprehendia que ella fallasse, sentisse,
vivesse, que não fosse no interesse da casa e para
maior felicidade de Jorge. Mas devia ser grave então—para
reclamar visitas, encontros, tantas relações.
Tinham pois interesses importantes que elle
não conhecia! E aquillo parecia-lhe uma ingratidão,
e como uma diminuição d'amizade.
A tia Joanna tinha-o achado «macambusio».
Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o
primo Bazilio, o Bazilio de Brito. O seu vago desgosto
dissipou-se, mas um receio mais definido veio inquietal-o.
Sebastião não conhecia Bazilio pessoalmente, mas
sabia a chronica da sua mocidade. Não havia n'ella
certamente, nem escandalo excepcional, nem romance
pungente. Bazilio tinha sido apenas um
pandigo
e, como tal, passára methodicamente por todos os
episodios classicos da estroinice lisboeta:—partidas
de monte até de madrugada com ricaços do Alemtejo;
uma tipoia despedaçada n'um sabbado de touros;
ceias repetidas com alguma velha Lola e uma
antiga salada de lagosta; algumas
pégas applaudidas
em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau
e Collares nas tabernas fadistas; muita guitarra;
sôcos bem jogados á face attonita d'um policia;
e uma profusão de gemas d'ovos nas glorias
do entrudo. As unicas mulheres mesmo que appareciam
na sua historia, além das Lolas e das Carmens
usuaes, eram a Pistelli, uma dançarina allemã cujas
pernas tinham uma musculatura d'athleta, e a condessinha
d'Alvim, uma douda, grande cavalleira, que
se separára de seu marido depois de o ter chicotado,
e que se vestia d'homem para bater ella mesmo
em trem de praça do Rocio ao Dá-fundo. Mas isto
bastava para que Sebastião o achasse um
debochado,
um
perdido; ouvira que elle tinha ido para o Brazil
para fugir aos credores; que enriquecera por acaso,
n'uma especulação, no Paraguay; que mesmo na Bahia,
com a corda na garganta, nunca fôra um trabalhador;
e suppunha que a posse da fortuna para
elle, seria apenas um desenvolvimento dos vicios. E
este homem agora vinha vêr a Luizinha todos os
dias, estava horas e horas, seguia-a ao Passeio...
Para que?... Era claro, para a desinquietar!
Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada
desconsolação d'estas idéas, quando uma voz
encatarrhoada disse com respeito:
—Ó snr. Sebastião!
Era o Paula dos moveis.
—Viva, snr. João.
O Paula atirou para as pedras da rua um jacto escuro
de saliva, e com as mãos cruzadas debaixo das
abas do comprido casaco de cotim, o tom grave:
—Ó snr. Sebastião, ha doença cá por casa do
snr. Engenheiro?
Sebastião todo surprehendido:
—Não. Porque?
O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou:
—É que tenho visto entrar para cá todos os dias
um sujeito. Imaginei que fosse o medico.
E puxando o escarro:
—D'esses novos da homœopathia!
Sebastião tinha córado.
—Nada—disse.—É o primo de D. Luiza.
—Ah!—fez o Paula.—Pois pensei... Queira
desculpar, snr. Sebastião.
E curvou-se, respeitosamente.
—Já temos fallatorio!—foi pensando Sebastião.
E entrou em casa, descontente.
Morava ao fundo da rua, n'um predio seu, de
construcção antiga, com quintal.
Sebastião era só. Tinha uma fortuna pequena em
inscripções, terras de lavoura para o lado do Seixal,
e a quinta em Almada,—o Rozegal. As duas criadas
eram muito antigas na casa. A Vicencia, a cozinheira,
era uma preta de S. Thomé já do tempo da
mamã. A tia Joanna, a governanta, servia-o havia trinta
e cinco annos; chamava ainda a Sebastião o «menino»;
tinha já as tontices d'uma criança, e recebia sempre
os respeitos d'uma avó. Era do Porto, do
Poârto,
como ella dizia, porque nunca perdera o seu accento
minhôto. Os amigos de Sebastião chamavam-lhe
uma velha de comedia. Era baixinha e gorda, com
um sorriso muito bondoso; tinha os cabellos alvos
como uma estriga, atados no alto n'um rolinho com
um antigo pente de tartaruga; trazia sempre um
vasto lenço branco muito aceado, traçado sobre o
peito. E todo o dia passarinhava pela casa, com o
seu passinho arrastado, fazendo tilintar os mólhos de
chaves, resmungando proverbios, tomando rapé de
uma caixa redonda, em cuja tampa se lascava o
desenho abonecado da ponte pensil do Porto.
Em toda a casa havia um tom caturra e dôce:
na sala de visitas, quasi sempre fechada, o vasto
canapé, as poltronas tinham o ar empertigado do
tempo do snr. D. José I, e os estofos de damasco
vermelho desbotado lembravam a pompa d'uma côrte
decrepita; das paredes da casa de jantar pendiam
as primeiras gravuras das batalhas de Napoleão, onde
se vê invariavelmente, n'uma eminencia, o cavallo
branco, para o qual galopa desenfreadamente
do primeiro plano um hussard, brandido um sabre.
Sebastião dormia os seus somnos de sete horas, sem
sonhos, n'uma velha barra de pau preto torneado; e
n'uma saleta escura, sobre uma commoda de fecharias
de metal amarello, conservava-se, havia annos,
o padroeiro da casa, S. Sebastião—que se torcia,
cravado de settas, nas cordas que o atavam ao tronco,
á luz d'uma lampada muito cuidada pela tia Joanna,
sob os ruidos subtis dos ratos pelo forro.
A casa condizia com o dono. Sebastião tinha um
genio antiquado. Era solitario e acanhado. Já no latim
lhe chamavam o
pelludo; punham-lhe rabos,
roubavam-lhe
impudentemente as merendas. Sebastião,
que tinha a força d'um gymnasta, offerecia a resignação
d'um martyr.
Foi sempre reprovado nos primeiros exames do
lyceu. Era intelligente, mas uma pergunta, o reluzir
dos oculos d'um professor, a grande lousa negra
immobilisavam-o; ficava muito embezerrado, a face
inchada e rubra, a coçar os joelhos, o olhar vazio.
Sua mãi, que era da aldêa e que fôra padeira,
muito vaidosa agora das suas inscripções, da sua
quinta, da sua mobilia de damasco, sempre vestida
de sêda, carregada d'anneis, costumava dizer:
—Ora! tem que comer e beber! Estar a affligir
a criança com estudos! Deixa lá, deixa lá!
A inclinação de Sebastião era pela musica. Sua
mãi, por conselhos da mãi de Jorge, sua visinha e
sua intima, tomou-lhe um mestre de piano; logo
desde as primeiras lições, a que ella assistia com
enfeites de velludo vermelho e cheia de joias, o velho
professor Achilles Bentes, d'oculos redondos e
cara de coruja, exclamou excitado com a sua voz
nasal:
—Minha rica senhora! o seu menino é um genio!
É um genio! Ha-de ser um Rossini! É puxar
por elle! É puxar por elle!
Mas era justamente o que ella não queria, era
puxar por elle, coitadinho! Por isso não foi um
Rossini. E todavia o velho Bentes continuava a dizer,
por habito:
—Ha-de ser um Rossini! Ha-de ser um Rossini!
Sómente em lugar de o gritar, brandindo papeis
de musica, murmurava-o, com bocejos enormes de
leão enfastiado.
Já então os dous rapazes visinhos, Jorge e Sebastião,
eram intimos. Jorge mais vivo, mais inventivo,
dominava-o. No quintal, a brincar, Sebastião
era sempre o
cavallo nas imitações da diligencia, o
vencido nas guerras. Era Sebastião que carregava os
pesos, que offerecia o dorso para Jorge trepar; nas
merendas comia todo o pão, deixava a Jorge toda a
fruta. Cresceram. E aquella amizade sempre igual,
sem amúos, tornou-se na vida d'ambos um interesse
essencial e permanente.
Quando a mãi de Jorge morreu, pensaram mesmo
em viver juntos; habitariam a casa de Sebastião,
mais larga e que tinha quintal; Jorge queria comprar
um cavallo; mas conheceu Luiza no Passeio, e
d'ahi a dous mezes passava quasi todo o seu dia na
rua da Magdalena.
Todo aquelle plano jovial da
Sociedade Sebastião
e Jorge—chamavam-lhe assim, rindo—desabou,
como um castello de cartas. Sebastião teve um grande
pezar.
E era elle, depois, que fornecia os ramos de rosas
que Jorge levava a Luiza, sem espinhos, com
cuidados devotos embrulhados n'um papel de sêda.
Era elle que tratava dos arranjos do «ninho», ia
apressar os estofadores, discutir preços de roupas,
vigiar o trabalho dos homens que pregavam os tapetes,
conferenciar com a inculcadeira, cuidar dos papeis
do casamento!
E á noite, fatigado como um procurador zeloso,
tinha ainda de escutar com um sorriso as expansões
felizes de Jorge, que passeava pelo quarto até ás
duas horas da noite em mangas de camisa, namorado,
loquaz, brandindo o cachimbo!
Depois do casamento Sebastião sentiu-se muito
só. Foi a Portel visitar um tio, um velho exquisito,
com um olhar de doudo, que passava a existencia
combinando enxertos no pomar, e lendo, relendo o
Eurico. Quando voltou, passado um mez, Jorge
disse-lhe
radioso:
—E sabes, hein? Isto agora é que é a tua casa!
Aqui é que tu vives!
Mas nunca obteve de Sebastião que fosse a sua
casa com uma inteira intimidade. Sebastião batia á
porta, timidamente. Corava diante de Luiza; o antigo
pelludo de latim reapparecia. Jorge luctára para
que elle cruzasse sem ceremonia as pernas, fumasse
cachimbo diante d'ella, não lhe dissesse a todo o
momento:—V. exc.
a, v. exc.
a—meio erguido na
cadeira.
Nunca vinha jantar senão arrastado. Quando Jorge
não estava, as suas visitas eram curtas, cheias
de silencio. Julgava-se gebo, tinha medo de massar!
N'essa tarde, quando elle foi para a sala de jantar,
a tia Joanna veio-lhe perguntar pela Luizinha.
Adorava-a, achava-a um
anjinho, uma
açucena.
—Como está ella? viu-a?
Sebastião corou, não quiz dizer, como na vespera,
«que estava gente, que não tinha entrado»; e
abaixando-se, pondo-se a brincar com as orelhas do
Trajano, o seu velho perdigueiro:
—Está boa, tia Joanna, está boa. Então
como
ha-de d'estar? Está optima!
Áquella hora Luiza recebia uma carta de Jorge.
Era de Portel, com muitas queixas sobre o calor,
sobre as más estalagens, historias sobre o extraordinario
parente de Sebastião,—saudades e mil beijos...
Não a esperava, e aquella folha de papel cheia
d'uma letra miudinha, que lhe fazia reapparecer vivamente
Jorge, a sua figura, o seu olhar, a sua ternura,
deu-lhe uma sensação quasi dolorosa. Toda a
vergonha dos seus desfallecimentos cobardes, sob os
beijos de Bazilio, veio abrazar-lhe as faces. Que horror
deixar-se abraçar, apertar! No sophá o que elle
lhe dissera, com que olhos a devorára!... Recordava
tudo,—a sua attitude, o calor das suas mãos, a
tremura da sua voz... E machinalmente, pouco e
pouco, ia-se esquecendo n'aquellas recordações, abandonando-se-lhe,
até ficar perdida na deliciosa lassidão
que ellas lhe davam, com o olhar languido, os
braços frouxos. Mas a idéa de Jorge vinha então outra
vez fustigal-a como uma chicotada. Erguia-se
bruscamente, passeava pelo quarto toda nervosa,
com uma vaga vontade de chorar...
—Ah! não! é horroroso, é horroroso!—dizia
só, fallando alto.—É necessario acabar!
Resolveu não receber Bazilio, escrever-lhe, pedir-lhe
que não voltasse, que partisse! Meditava
mesmo as palavras; seria sêcca e fria, não diria
meu
querido primo, mas simplesmente
primo
Bazilio.
E que faria elle, quando recebesse a carta? Choraria,
coitado!
Imaginava-o só, no seu quarto d'hotel, infeliz e
pallido; e d'aqui, pelos declives da sensibilidade,
passava á recordação da sua pessoa, da sua voz
convincente, das turbações do seu olhar dominante,
e a memoria demorava-se n'aquellas lembranças com
uma sensação de felicidade, como a mão se esquece
acariciando a plumagem dôce d'um passaro raro.
Sacudia a cabeça com impaciencia, como se aquellas
imaginações fossem os ferrões d'insectos importunos:
esforçava-se por pensar só em Jorge; mas as idéas
más voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraçada,
sem saber o que queria, com vontades confusas de
estar com Jorge, de consultar Leopoldina, de fugir
para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que era!—E
do fundo da sua natureza de preguiçosa vinha-lhe
uma indefinida indignação contra Jorge, contra Bazilio,
contra os sentimentos, contra os deveres, contra
tudo o que a fazia agitar-se e soffrer. Que a não
seccassem, Santo Deus!
Depois de jantar, á janella da sala, ficou a relêr
a carta de Jorge. Pôz-se a recordar de proposito tudo
o que a encantava n'elle, do seu corpo e das suas
qualidades. E juntava ao acaso argumentos, uns de
honra, outros de sentimento, para o amar, para o
respeitar. Tudo era por elle estar fóra, na provincia!
Se elle alli estivesse ao pé d'ella! Mas tão longe, e
demorar-se tanto! E ao mesmo tempo, contra sua
vontade, a certeza d'aquella ausencia dava-lhe uma
sensação de liberdade; a idéa de se poder mover á
vontade nos desejos, nas curiosidades, enchia-lhe o
peito d'um contentamente largo, como uma lufada
de independencia.
Mas emfim, vamos, de que lhe servia estar livre,
só?—E de repente tudo o que poderia fazer,
sentir, possuir, lhe apparecia n'uma perspectiva longa
que fulgurava: aquillo era como uma porta, subitamente
aberta e fechada, que deixa entrever, n'um
relance, alguma cousa de indefinido, de maravilhoso,
que palpita e faisca.—Oh! estava douda, de certo!
Escureceu. Foi para a sala, abriu a janella; a
noite estava quente e espessa, com um ar d'electricidade
e de trovoada. Respirava mal, olhava para o
céo, desejando alguma cousa fortemente, sem saber
o quê.
O moço do padeiro em baixo, como sempre, tocava
o fado; aquelles sons banaes entravam-lhe agora
na alma, com a brandura d'um bafo quente e a melancolia
de um gemido.
Encostou a cabeça á mão com uma lassidão. Mil
pensamentosinhos corriam-lhe no cerebro como os
pontos de luz que correm n'um papel que se queimou;
lembrava-lhe sua mãi, o chapéo novo que lhe
mandára madame François, o tempo que faria em
Cintra, a doçura das noites quentes sob a escuridão
das ramagens...
Fechou a janella, espreguiçou-se; e sentada na
causeuse, no seu quarto, ficou alli, n'uma
immobilidade,
pensando em Jorge, em lhe escrever, em lhe
pedir que viesse. Mas bem depressa aquelle scismar
começou a quebrar-se a cada momento como uma
tela que se esgaça em rasgões largos, e por traz
apparecia logo com uma intensidade luminosa e forte
a idéa do primo Bazilio.
As viagens, os mares atravessados tinham-no tornado
mais trigueiro; a melancolia da separação dera-lhe
cabellos brancos. Tinha soffrido por ella!—dissera.—E
no fim onde estava o mal? Elle jurára-lhe
que aquelle amor era casto, passando-se todo na
alma. Tinha vindo de Paris, o pobre rapaz, assim
lh'o jurára, para a vêr, uma semana, quinze dias. E
havia de dizer-lhe:—Não voltes, vai-te?
—Quando a senhora quizer o chá...—disse
da porta do quarto Juliana.
Luiza deu um suspiro alto como acordando. Não;
que trouxesse a lamparina, mais tarde.
Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu chá, á
cozinha. O lume ia-se apagando, o candieiro de petroleo
estendia nos cobres dos tachos reflexos avermelhados.
—Hoje houve cousa, snr.
a Joanna—disse Juliana
sentando-se.—Está toda no ar! E é cada suspiro!
Alli houve-a e grossa.
Joanna, do outro lado, com os cotovêlos na
mesa e a face sobre os punhos, pestanejava de
somno.
—A snr.
a Juliana, tambem, deita tudo para o
mal—disse.
—É que era necessario ser tola, snr.
a Joanna!
Calou-se, cheirou o assucar; era um dos seus
despeitos; gostava d'elle bem refinado—e aquelle
assucar mascavado e grosso, que punha no chá um
gosto de formigas, exasperava-a.
—Este é peor que o do mez passado! Para uma
pobre de Christo tudo é bom!—rosnou muito amargamente.
E depois d'uma pausa repetiu:
—É que era necessario ser tola, snr.
a Joanna!
A cozinheira disse preguiçosamente:
—Cada um sabe de si...
—E Deus de todos—suspirou Juliana.
E ficaram caladas.
Luiza tocou a campainha em baixo.
—Que teremos nós agora? Está com as cocegas!
Desceu. Voltou com o regador, muito enfastiada:
—Quer mais agua! Olha a mania, pôr-se agora
a chafurdar á meia noite! Sempre a gente as vê...
Foi encher o regador, e em quanto a agua da
torneira cantava no fundo de lata:
—E diz que lhe faça ámanhã ao almoço um bocado
de presunto frito, do salgado. Quer picantes!
E com muito escarneo:
—Sempre a gente vê cousas! Quer picantes!
Á meia noite a casa estava adormecida e apagada.
Fóra, o céo ennegrecera mais; relampejou, e um
trovão secco estalou, rolou.
Luiza abriu os olhos estremunhada; começára a
cahir uma chuva grossa e sonora; a trovoada arrastava-se,
ao longe. Esteve um momento escutando as
goteiras que cantavam sobre o lagedo; a alcova abafava,
descobriu-se; o somno tinha fugido, e de costas,
o olhar fixo na vaga claridade que vinha de fóra
da lamparina, seguia o tic-tac do relogio. Espreguiçou-se,
e uma certa idéa, uma certa visão foi-se
formando no seu cerebro, completando-se, tão nitida,
quasi tão visivel, que se revirou na cama devagar,
estirou os braços, lançou-os em roda do travesseiro,
adiantando os beiços seccos—para beijar uns cabellos
negros onde reluziam fios brancos.
Sebastião tinha dormido mal. Acordou ás seis horas
e desceu ao quintal em chinellas. Uma porta envidraçada
da sala de jantar abria para um terraçosinho,
largo apenas para tres cadeiras de ferro pintado
e alguns vasos de cravos; d'alli, quatro degraus
de pedra desciam para o quintal; era uma horta
ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de flôres,
saladas muito regadas, pés de roseiras junto dos muros,
um poço e um tanque debaixo d'uma parreirita,
e arvores; terminava por outro terraço assombreado
d'uma tilia, com um parapeito para uma rua baixa
e solitaria; defronte corria um muro de quintal
muito caiado. Era um sitio recolhido, d'uma paz
aldeã. Muitas vezes Sebastião, de madrugada, ia para
alli fumar o seu cigarro.
Era uma manhã deliciosa. Havia um ar transparente
e fino; o céo arredondava-se a uma grande altura
com o azulado de certas porcelanas velhas e,
aqui e além, uma nuvemzinha algodoada, mollemente
enrolada, côr de leite; a folhagem tinha um verde
lavado, a agua do tanque uma crystallinidade fria;
passaros chilreavam de leve, com vôos rapidos.
Sebastião estava debruçado para a rua, quando a
ponteira d'uma bengala, passos vagarosos cortaram
o silencio fresco. Era um visinho de Jorge, o Cunha
Rosado, o doente d'intestinos; arrastava-se, curvado,
abafado n'um cachenez e n'um paletot côr de pinhão,
com a barba grisalha desmazelada, a crescer.
—Já a pé, visinho!—disse Sebastião.
O outro parou, ergueu a cabeça lentamente.
—Oh Sebastião!—disse com uma voz plangente—Ando
a passear os meus leites, homem!
—A pé?
—Ao principio ia na burrita até fóra de portas,
mas diz que me fazia bem o passeiosito a
pé...
Encolheu os hombros com um gesto triste de duvida,
de desconsolação.
—E como vai isso?—perguntou Sebastião, muito
debruçado para a rua, com affecto.
O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beiços brancos:
—A desfazer-se!
Sebastião tossiu, embaraçado, sem achar uma
consolação.
Mas o doente, com as duas mãos apoiadas á bengala,
uma subita radiação d'interesse no olhar amortecido:
—Ó Sebastião, um rapaz alto, que eu tenho visto
todos estes dias entrar para casa do Jorge, é o Bazilio
de Brito, pois não é? O primo da mulher? o filho
do João de Brito?
—É, sim, porque?
O Cunha fez:
Ah! ah! com uma grande satisfação.
—Bem dizia eu!—exclamou.—Bem dizia eu!
E aquella teimosa que não! que não!...
E então explicou com uma tagarellice subita, e
cansaços de voz:
—O meu quarto é para a rua, e todos os dias,
como eu estou quasi sempre pela janella para espairecer...
tenho visto aquelle rapaz, a modo estrangeirado,
entrar para lá... todos os dias! Este é o
Bazilio de Brito! disse eu. Mas minha mulher que
não! que não!... Que diabo, homem! Eu tinha quasi
a certeza... Não conheço eu outra cousa!...
Até elle esteve para casar com a D. Luiza. Oh! Eu
sei essa historia na ponta dos dedos... Morava ella
na rua da Magdalena!...
Sebastião disse vagamente:
—Pois é, é o Brito...
—Bem dizia eu!
Ficou um momento immovel, fitando o chão, e
refazendo uma voz dolente:
—Pois, vou-me arrastando até casa.
Suspirou. E arregalando os olhos:
—Quem me dera a sua saude, Sebastião!
E dizendo adeus, com um gesto da mão calçada
de luva de casimira escura, afastou-se, curvado, rente
do muro, conchegando com o braço ao ventre, o seu
largo paletot côr de pinhão.
Sebastião entrou preoccupado. Todo o mundo começava
a reparar, hein! Pudera! Um rapaz novo,
janota, vir todos os dias de trem, estar duas, tres
horas! Uma visinhança tão chegada, tão maligna!...
Ao começo da tarde sahiu. Teve vontade de procurar
Luiza; mas sem saber porque, sentia um grande
acanhamento; como que receava encontral-a differente
ou com outra expressão... E subia a rua devagar,
sob o seu guarda-sol, hesitando, quando um
coupé que descia a trote largo veio parar á porta de
Luiza.
Um sujeito saltou rapidamente, atirou o charuto,
entrou. Era alto, com um bigode levantado, trazia
uma flôr no peito; devia ser o primo Bazilio, pensou.
O cocheiro limpou o suor da testa, e, cruzando
as pernas, pôz-se a enrolar o cigarro.
Ao ruido do trem o Paula postou-se logo á porta,
de boné carregado, as mãos enterradas no bolso,
com olhares de revés: a carvoeira defronte, immunda,
disforme de obesidade e de prenhez, veio embasbacar
com um pasmo lôrpa na face oleosa; a
criada do doutor abriu precipitadamente a vidraça.
Então o Paula atravessou rapidamente a rua faiscante
de sol, entrou no estanque; d'ahi a um momento
appareceu á porta, com a estanqueira, de carão viuvo;
e cochichavam, cravavam olhares perfidos nas
varandas de Luiza, no coupé! O Paula, d'alli, arrastando
as chinellas de tapete, foi segredar com a carvoeira,
provocou-lhe uma risada que lhe sacudia a
massa do seio; e foi emfim estacar á sua porta entre
um retrato de D. João VI e duas velhas cadeiras de
couro, assobiando com jubilo. No silencio da rua ouvia-se
n'um piano, a compasso de estudo, a
Oração
d'uma virgem.
Sebastião ao passar olhou machinalmente para as
janellas de Luiza.
—Rico calor, snr. Sebastião!—observou o Paula
curvando-se—É um regalo estar á fresca!
Luiza e Bazilio estavam muito tranquillos, muito
felizes na sala, com as portadas meio cerradas, n'uma
penumbra dôce. Luiza tinha apparecido de roupão
branco, muito fresca, com um bom cheiro de
agua d'alfazema.
—Eu venho assim mesmo—disse ella.—Não
faço ceremonias.
Mas assim é que ella estava linda! Assim é que
a queria sempre!—exclamava Bazilio muito contente,
como se aquelle roupão de manhã fosse já
uma promessa da sua nudez.
Vinha muito tranquillo, affectava um tom de parente.
Não a inquietou com palavras vehementes,
nem com gestos desejosos: fallou-lhe do calor, d'uma
zarzuela que vira na vespera, de velhos amigos
que encontrára, e disse-lhe apenas que tinha sonhado
com ella.
O que? Que estavam longe, n'uma terra distante,
que devia ser a Italia, tantas as estatuas que havia
nas praças, tantas as fontes sonoras que cantavam
nas bacias de marmore; era n'um jardim antigo,
sobre um terraço classico; flôres raras transbordavam
de vasos florentinos; pousando sobre as balaustradas
esculpidas, pavões abriam as caudas; e
ella arrastava devagar sobre as lages quadradas a
cauda longa do seu vestido de velludo azul. De resto,
dizia, era um terraço como o de S. Donato, a
villa do principe Demidoff,—porque lembrava sempre
as suas intimidades illustres, e não se descuidava
de fazer reluzir a gloria das suas viagens.
E ella, tinha sonhado?
Luiza córou.—Não, tinha tido muito medo da
trovoada. Tinha ouvido a trovoada, elle?
—Estava a cear no Gremio, quando trovejou.
—Costumas cear?
Elle teve um sorriso infeliz.—Cear! se se
podia chamar cear ir ao Gremio rilhar um bife corneo
e tragar um Collares peçonhento!
E fitando-a:
—Por tua causa, ingrata!
Por sua causa?
—Por quem, então? Porque vim eu a Lisboa?
Porque deixei Paris?
—Por causa dos teus negocios...
Elle encarou-a severamente:
—Obrigado—disse, curvando-se até ao chão.
E a grandes passadas pela sala soprava violentamente
o fumo do seu charuto.
Veio sentar-se bruscamente ao pé d'ella.—Não,
realmente era injusta. Se estava em Lisboa, era por
ella. Só por ella!
Fez uma voz meiga, perguntou-lhe se lhe tinha
realmente um bocadinho d'amor muito pequenino,
assim...—Mostrava o comprimento da unha.
Riram.
—Assim, talvez.
E o peito de Luiza arfava.
Elle então examinou-lhe as unhas; admirou-lh'as
e aconselhou-lhe o verniz que usam as
cocottes, que
lhes dá um lustre polido; ia-se apossando da sua
mão, pôz-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou
o dedo minimo, jurou que era muito dôce; arranjou-lhe
com um contacto muito timido uns fios de cabello
que se tinham soltado,—e, disse, tinha um pedido
a fazer-lhe!
Olhava-a com uma supplicação.
—Que é?
—É que venhas commigo ao campo. Deve estar
lindo no campo!
Ella não respondeu; dava pancadinhas leves nas
pregas molles do roupão.
—É muito simples—acrescentou elle.—Tu
vaes-me encontrar a qualquer parte, longe d'aqui,
está claro. Eu estou á espera de ti com uma carruagem,
tu saltas para dentro e
fouette,
cocher!
Luiza hesitava.
—Não digas que não.
—Mas onde?
—Onde tu quizeres. A Paço d'Arcos, a Loires,
a Queluz. Dize que sim.
A sua voz era muito urgente, quasi ajoelhára.
—Que tem? É um passeio d'amigos, d'irmãos.
—Não! isso não!
Bazilio zangou-se, chamou-lhe
beata. Quiz sahir.
Ella veio tirar-lhe o chapéo da mão, muito meiga,
quasi vencida.
—Talvez, veremos—dizia.
—Dize que sim!—insistia.—Sê boa rapariga!
—Pois sim, ámanhã veremos, ámanhã fallaremos.
Mas no dia seguinte, muito habilmente, Bazilio
não fallou no passeio, nem no campo. Não fallou
tambem do seu amor, nem dos seus desejos. Parecia
muito alegre, muito superficial; tinha-lhe trazido o
romance de Belot,
A mulher de fogo. E sentando-se
ao piano, disse-lhe canções de
café concerto, muito
picantes; imitava a rouquidão acre e canalha das cantoras;
fel-a rir.
Depois fallou muito de Paris, contou-lhe a moderna
chronica amorosa, anecdotas, paixões
chics.
Tudo se passava com duquezas, princezas, d'um modo
dramatico e sensibilisador, ás vezes jovial, sempre
cheio de delicias. E, de todas as mulheres de
que fallava, dizia recostando-se: Era uma mulher distinctissima,
tinha naturalmente o seu amante...
O adulterio apparecia assim um dever aristocratico.
De resto a virtude parecia ser, pelo que elle
contava, o defeito d'um espirito pequeno, ou a occupação
reles d'um temperamento burguez...
E quando sahiu, disse, como recordando-se:
—Sabes que estou com minhas idéas de partir?...
Ella perguntou, um pouco descorada:
—Porque?
Bazilio disse, muito indifferente:
—Que diabo faço eu aqui?...
Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro,
e como dominando-se:
—Adeus, meu amor...
E sahiu.
Quando n'essa tarde Luiza entrou na sala de jantar,
levava os olhos vermelhos.
Foi ella no dia seguinte que fallou do campo.
Queixou-se do contínuo calor, da
sécca de Lisboa.
Como devia estar lindo em Cintra!
—És tu que não queres—acudiu elle. —Podiamos
fazer um passeio adoravel.
Mas tinha medo, podiam vêr...
—O quê! N'um coupé fechado? Com os
stores
descidos?
Mas então era peor que estar n'uma sala, era abafar
n'uma bocêta!
Mas não! Iam a uma quinta. Podiam ir ás
Alegrias,
á quinta d'um amigo d'elle que estava em
Londres. Só viviam lá os caseiros, era ao pé dos Olivaes,
era lindo! Bellas ruas de loureiros, sombras
adoraveis. Podiam levar gelo, champagne...
—Vem!—disse bruscamente, tomando-lhe as
mãos.
Ella córou.—Talvez. No domingo veria.
Bazilio conservava-lhe as mãos presas. Os seus
olhos encontraram-se, humedeceram-se. Ella sentiu-se
muito perturbada; desprendeu as mãos; foi abrir as
vidraças ambas, dar á sala uma claridade larga como
uma publicidade; sentou-se n'uma cadeira ao pé do
piano, receando a penumbra, o sophá, todas as cumplicidades;
e pediu-lhe que cantasse alguma cousa,
porque já temia as palavras, tanto como os silencios!
Bazilio cantou a
Medjé, a melodia de Gounod, tão
sensual e perturbadora. Aquellas notas quentes passavam-lhe
na alma como bafos d'uma noite electrica.
E quando Bazilio sahiu, ficou sentada, quebrada,
como depois d'um excesso.
Sebastião tinha estado nos ultimos tres dias em
Almada, na quinta do Rozegal, onde trazia obras.
Voltára na segunda-feira cedo, e, pelas dez horas,
sentado no poial da janella de jantar que abria para
o terraçosinho, esperava o seu almoço, brincando
com o
Rolim—o seu gato, amigo e confidente da
illustre Vicencia, nedio como um prelado, ingrato
como um tyranno.
A manhã começava a aquecer; o quintal estava
já cheio de sol; na agua do tanque, sob a parreira,
claridades espelhadas e tremulas faiscavam. Nas duas
gaiolas os canarios cantavam estridentemente.
A tia Joanna, que andava a arranjar a mesa do
almoço muito calada, poz-se então a dizer com a sua
vozinha arrastada e minhôta:
—Ora esteve ahi hontem a Gertrudes, a do doutor,
com uns palratorios, com umas tontices!...
—A respeito de quê, tia Joanna?—perguntou
Sebastião.
—A respeito d'um rapaz, que diz que vai agora
todos os dias a casa da Luizinha.
Sebastião ergueu-se logo:
—Que disse ella, tia Joanna?
A velha assentava a toalha devagar com a sua
mão gorducha espalmada:
—Esteve ahi a palrar. Quem seria, quem não
seria? Diz que é um perfeito rapaz. Vem todos os
dias. Vem de trem, vai de trem... No sabbado que
estivera até quasi á noitinha. E cantou-se na sala,
diz que uma voz que nem no theatro...
Sebastião interrompeu-a, impaciente:
—É o primo, tia Joanna. Então quem havia de
ser? É o primo que chegou do Brazil.
A tia Joanna teve um bom sorriso.
—Eu logo vi que era cousa de parente. Pois diz
que é um perfeito rapaz! E todo janota!
E sahindo para a cozinha, devagar:
—Eu logo vi que era parente, logo disse!...
Sebastião almoçou inquieto. Positivamente a visinhança
já se punha a mexericar, a commentar! Estava-se
a armar um escandalo!—E, assustado, decidiu-se
logo a ir consultar Julião.
Descia a rua de S. Roque para casa d'elle, quando
o viu, que subia devagar pela sombra, com um rolo
de papel debaixo do braço, uma calça branca enxovalhada,
o ar suado.
—Ia a tua casa, homem!—disse Sebastião logo.
Julião estranhou a excitação desusada da sua voz.
Havia alguma novidade? Que era?
—Uma do diabo!—exclamou, baixo, Sebastião.
Estavam parados ao pé da confeitaria. Na vidraça,
por traz d'elles, emprateleirava-se uma exposição
de garrafas de malvasia com os seus letreiros
muito coloridos, transparencias avermelhadas de gelatinas,
amarellidões enjoativas de dôces d'ovos, e
quéques d'um castanho escuro tendo espetados cravos
tristes de papel branco ou côr de rosa. Velhas
natas lividas amollentavam-se no ôco dos folhados;
ladrilhos grossos de marmelada esbeiçavam-se ao calor;
as empadinhas de marisco agglomeravam as suas
crôstas resequidas. E no centro, muito proeminente
n'uma travessa, enroscava-se uma lampreia d'ovos
medonha e bojuda, com o ventre d'um amarello ascoroso,
o dorso malhado d'arabescos d'assucar, a
bocca escancarada: na sua cabeça grossa esbogalhavam-se
dous horriveis olhos de chocolate; os seus
dentes d'amendoa ferravam-se n'uma tangerina de
chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaçavam.
—Vamos alli para o café—disse Julião.—Aqui
na rua arde-se!
—Tenho estado apoquentado—ia dizendo Sebastião.—Muito
apoquentado! Quero fallar-te.
No café o papel azul ferrete e as meias portas fechadas
abatiam a aspera intensidade da luz, davam
uma frescura calada.
Foram-se sentar ao fundo. Do outro lado da rua
as fachadas muito caiadas brilhavam com uma radiação
faiscante. Por traz do balcão, onde reluziam garrafas
de crystal, um criado de jaquetão, estremunhado
e esguedelhado, cabeceava de somno. Um passaro
chilreava dentro; sentia-se o bater espaçado das bolas
do bilhar através d'uma porta de baeta verde;
ás vezes o pregão de um cangalheiro na rua sobresahia,
e—todos estes sons, por momentos, se perdiam
no ruido forte do descer d'um trem travado.
Defronte d'elles um sujeito de ar debochado lia
um jornal; as suas melenas grisalhas collavam-se a
um craneo amarellado; o bigode tinha tons queimados
do cigarro; e das noitadas ficára-lhe uma vermelhidão
inflammada nas palpebras. De vez em quando
erguia preguiçosamente a cabeça, atirava para o chão
areado um jacto escuro de saliva, dava uma sacudidella
triste ao jornal e tornava a fital-o com um olhar
infeliz. Quando os dous entraram e pediram carapinhadas,
abaixou-lhes gravemente a cabeça.
—Mas o que é então?—perguntou logo Julião.
Sebastião chegou-se mais para elle:
—É por causa lá da nossa gente. Por causa do
primo—disse baixo.
E acrescentou:
—Tu vistel-o, hein?
A lembrança repentina da sua humilhação na sala
de Luiza trouxe um rubor ás faces de Julião. Mas
muito orgulhoso, disse seccamente:
—Vi.
—E então?
—Pareceu-me um asno!—exclamou, não se
contendo.
—E um extravagante—disse com terror Sebastião—Não
te pareceu, hein?
—Pareceu-me um asno—repetiu.—Umas maneiras,
uma affectação, um alambicado, a olhar muito
para as meias, umas meias ridiculas de mulher...
E com um certo sorriso azedado:
—Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas.
Estas—disse, apontando para os botins mal engraxados—tenho
muita honra n'ellas, são de quem
trabalha...
Porque publicamente costumava gloriar-se d'uma
pobreza, que intimamente não cessava de o humilhar.
E remexendo devagar a sua carapinhada:
—Uma besta!—resumiu.
—Tu sabes que elle foi namoro da Luiza?—disse
Sebastião, baixo, como assustado da gravidade
da confidencia.
E respondendo logo ao olhar surprehendido de
Julião:
—Sim. Ninguem o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o
ha pouco, ha mezes. Foi. Estiveram para casar. Depois
o pai falliu, elle foi para o Brazil, e de lá escreveu
a romper o casamento.
Julião sorriu, e encostando a cabeça á parede:
—Mas isso é o enredo da
Eugenia Grandet, Sebastião!
Estás-me a contar o romance de Balzac!
Isso é a
Eugenia Grandet!
Sebastião fitou-o espantado.
—Ora! não se póde fallar serio comtigo. Dou-te
a minha palavra d'honra—acrescentou vivamente.
—Vá, Sebastião, vá, dize.
Houve um silencio. O sujeito calvo, agora, contemplava
o estuque do tecto sujo do fumo dos cigarros
e do pousar das moscas; e, com a mão sapuda,
de tom pegajoso, cofiava amorosamente as rêpas. No
bilhar vozes altercavam.
Sebastião então, como tomado d'uma resolução,
disse bruscamente:
—E agora vai lá todos os dias, não sahe de lá!
Julião afastou-se na banqueta e encarou-o:
—Tu queres-me dar a entender alguma cousa,
Sebastião?
E com uma vivacidade quasi jovial:
—O primo atira-se?
Aquella palavra escandalisou Sebastião.
—Ó Julião!—E severamente:—Com essas cousas
não se brinca!
Julião encolheu os hombros.
—Mas está claro que se atira!—exclamou.—És
de bom tempo ainda! Está claro que sim! Namorou-a
solteira, agora quel-a casada!
—Falla baixo—acudiu Sebastião.
Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha
recahido na sua leitura funebre.
Julião baixou a voz:
—Mas é sempre assim, Sebastião. O primo Bazilio
tem razão; quer o prazer sem a responsabilidade!
E quasi ao ouvido d'elle:
—É de graça, amigo Sebastião! É de graça! Tu
não imaginas que influencia isto tem no sentimento!
Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilherias
vinham-lhe com abundancia:
—Ha um marido que a veste, que a calça, que
a alimenta, que a engomma, que a vela se está
doente, que a atura se ella está nervosa, que tem
todos os encargos, todos os tedios, todos os filhos,
todos, todos os que vierem, sabes a lei... Por consequencia
o primo não tem mais que chegar, bater
ao ferrolho, encontra-a aceada, fresca, appetitosa á
custa do marido, e...
Teve um risinho, recostou-se com uma grande
satisfação, enrolando deliciosamente o cigarro, regosijando-se
no escandalo.
—É optimo!—acrescentou.—Todos os primos
raciocinam assim. Bazilio é primo, logo... Sabes o
syllogismo, Sebastião! Sabes o syllogismo, menino!—gritou,
dando-lhe uma palmada na perna.
—É o diabo—murmurou Sebastião cabisbaixo.
Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando:
—Mas tu suppões que uma rapariga de bem...
—Eu não supponho nada!—acudiu Julião.
—Falla baixo, homem!
—Eu não supponho nada—repetiu Julião baixinho.—Eu
affirmo o que elle faz. Agora ella...
E acrescentou com seccura:
—Como é uma rapariga honesta...
—Se é!—exclamou Sebastião, batendo uma
punhada na pedra da mesa.
—Prompto!—cantou arrastadamente o moço.
O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o
criado se recolhia ao balcão bocejando, e que os
dous continuavam a remexer a sua carapinhada, encostou
os cotovêlos á mesa, salivou para longe, e
puxando o jornal deixou-lhe cahir em cima um olhar
desolado.
Sebastião disse, então, com tristeza:
—A questão não é por ella. A questão é pela
visinhança.
Ficaram um momento calados. A altercação de
vozes no bilhar crescia.
—Mas—disse Julião, como sahindo d'uma reflexão—a
visinhança? Como a visinhança?
—Sim, homem! Vêem entrar para lá o rapaz.
Vem de tipoia, faz um escandalo na rua. Já se falla.
Já vieram com mexericos á tia Joanna. Ha dias encontrei
o Netto que reparou. O Cunha tambem. O
homem dos trastes, em baixo, não se faz nada que
elle não dê fé: são umas linguas de tremer. Ha dias
ia eu a passar quando o primo se apeou da carruagem
para entrar, e foram logo conciliabulos na rua,
olhadellas para a janella, o diabo! Vai lá todos os
dias. Sabem que o Jorge está no Alemtejo... Está
duas e tres horas. É muito serio, é muito serio!
—Mas ella então é tola!
—Não vê o mal...
Julião encolheu os hombros, duvidando.
Mas a porta de baeta do bilhar abriu-se; um homem
herculeo, de bigode negro, muito escarlate, sahiu
bruscamente, e parando, segurando a porta aberta,
gritou para dentro:
—E fique sabendo que havia d'encontrar homem!
Uma voz grossa, do bilhar, respondeu-lhe uma
obscenidade.
O sujeito herculeo atirou a porta, furioso; atravessou
o café resfolegando, apopletico; um rapaz
chupado, de jaquetão de inverno e calça branca, seguia-o,
com um ar gingado.
—O que eu devia fazer—exclamava o agigantado,
brandindo o punho—era quebrar a cara áquelle
pulha!
O rapaz chupado, dizia, com doçura e servilismo,
bamboleando-se:
—Questões não servem para nada, sô Corrêa!
—É que sou muito prudente—berrou o herculeo.—É
que me lembro que tenho mulher e filhos! Senão
bebia-lhe o sangue!
E sahindo, a sua voz roncante perdeu-se no rumor
da rua.
O criado muito pallido, tremia dentro do balcão;
e o sujeito calvo, que erguera a cabeça, teve um
sorriso de tedio, e retomou tristemente o jornal.
Sebastião, então, disse reflectindo:
—Não te parece que seria bom avisal-a?
Julião encolheu os hombros, soltou uma baforada
de fumo.
—Dize alguma cousa!—implorou Sebastião—Tu
não ias fallar-lhe, hein?
—Eu?—exclamou Julião com um aspecto que
repellia a idéa.—Eu! Estás doudo!
—Mas que te parece, emfim?
E a voz de Sebastião tinha quasi uma afflicção.
Julião hesitou:
—Vai, se queres. Dize-lhe que se tem reparado...
Emfim, eu não sei, meu amigo!
E pôz-se a chupar o seu cigarro.
Aquelle mutismo affectou Sebastião. Disse com
desconsolação:
—Homem, vim-te pedir um conselho...
—Mas que diabo queres tu?—E a voz de Julião
irritava-se.—A culpa é d'ella. É d'ella!—insistiu,
vendo o olhar de Sebastião.—É uma mulher de vinte
e cinco annos, casada ha quatro, deve saber que
se não recebe todos os dias um peralvilho, n'uma
rua pequena, com a visinhança a postos! Se o faz,
é porque lhe agrada.
—Ó Julião!—disse muito severamente Sebastião.
E dominando-se, com a voz commovida:
—Não tens razão, não tens razão!
Calou-se muito magoado.
Julião levantou-se.
—Amigo Sebastião, eu digo o que penso, tu fazes
o que entendes.
Chamou o criado.
—Deixa—disse Sebastião precipitadamente, pagando.
Iam sahir. Mas então o sujeito calvo, atirando o
jornal, arremessou-se para a porta, abriu-a, curvou-se,
e estendeu a Sebastião um papel enxovalhado.
Sebastião, surprehendido, leu alto, machinalmente:
«O abaixo assignado, antigo empregado da nação,
reduzido á miseria...»
—Fui intimo amigo do nobre duque de Saldanha!—gemeu
chorosamente, com uma rouquidão,
o sujeito calvo.
Sebastião córou, comprimentou, metteu-lhe na
mão duas placas de cinco tostões, discretamente.
O sujeito dobrou profundamente o espinhaço, e
declamou com uma voz cava:
—Mil agradecimentos a v. exc.
a, snr. conde!