V
A manhã estava abrazadora. Um pouco depois do
meio dia, Joanna, estirada n'uma velha cadeira de
vime da ilha da Madeira que havia na cozinha, dormitava
a sésta. Como madrugava muito, áquella hora
da calma vinha-lhe sempre uma quebreira.
As janellas estavam cerradas ao sol faiscante; as
panellas no lume faziam um
ron-ron dormente; e toda
a casa, muito silenciosa, parecia amodorroada no
amollecimento do calor torrido, quando Juliana entrou
como uma rajada, atirou para o chão, furiosa,
uma braçada de roupa suja, e gritou:
—Raios me partam se não ha um escandalo
n'esta casa que vai tudo raso!
Joanna deu um salto estremunhada.
—Quem quer as cousas em ordem olha por ellas!—berrava
a outra com os olhos injectados.—Não
é estar todo o dia na sala a palrar com as visitas!
A cozinheira foi fechar a porta precipitadamente,
já assustada.
—Que foi, snr.
a Juliana, que foi?
—Está com a mosca! Tem o sangue a ferver!
Sangrias! sangrias! Tem peguilhado por tudo! Não
estou para a aturar, não estou!
E batia o pé com phrenesi.
—Mas que foi? que foi?
—Diz que os collarinhos tinham pouca gomma,
pôz-se a despropositar! Estou farta de a aturar! Estou
farta! Estou até aqui!—bradava, puxando a
pelle engelhada da garganta.—Pois que me não faça
sahir de mim! Que me vou, e pespego-lhe na cara
por quê! Desde que aqui temos homem e pouca
vergonha, boas noites!... Quem quizer que se metta
em alhadas...
—Ó snr.
a Juliana, pelo amor de Deus! Jesus!—E
a Joanna apertava a cabeça nas mãos.—Ai, se
a senhora ouve!
—Que ouça, digo-lh'o na cara! Estou farta! estou
farta!
Mas, de repente, fez-se branca como a cal, cahiu
sobre a cadeira de vime com as duas mãos contra
o coração, os olhos em alvo.
—Snr.
a Juliana!—gritou Joanna—Snr.
a Juliana!
Falle!
Borrifou-a d'agua; sacudia-a, anciosamente.
—Nossa Senhora nos valha! Nossa Senhora nos
valha! Está melhor? Falle!
Juliana deu um suspiro longo, d'allivio, cerrou
as palpebras. E arquejava devagarinho, muito prostrada.
—Como se sente? Quer um caldinho? É fraqueza,
ha-de ser fraqueza...
—Foi a pontada—murmurou Juliana.
Ai! aquelles phrenesis matavam-na!—dizia a
cozinheira, remexendo-lhe o caldo, muito pallida
tambem.—A gente tinha d'aturar os amos! Que tomasse
a sustancia, que socegasse!...
N'aquelle momento Luiza abriu a porta. Vinha
em collete e saia branca.
Que barulho era aquelle?
—A snr.
a Juliana que lhe tinha dado uma cousa,
quasi desmaiára...
—Foi a pontada—balbuciou Juliana.
E erguendo-se, com um esforço:
—Se a senhora não precisa nada, vou ao medico...
—Vá, vá!—disse Luiza logo. E desceu.
Juliana pôz-se a tomar o seu caldo com um vagar
moribundo. Joanna consolava-a baixo:—Tambem,
a snr.
a Juliana arrenegava-se por qualquer cousa.
E quando a gente tem pouca saude não ha nada
peor que emphrenesiar-se...
—É que não imagina!—e abafava a voz arregalando
os olhos—Tem estado de não se poder aturar!
Está-se a vestir que nem para uma partida!
Amarfanhou uns poucos de collares, atirou-os para o
chão, que eu engommava que era uma porcaria, que
não servia para nada... Ai! Estou farta!—repetia—Estou
farta!
—É ter paciencia! Todos tem a sua cruz!
Juliana teve um sorriso livido, ergueu-se com um
grande
ai!, escabichou os dentes, apanhou a roupa
suja, e subiu ao sotão.
D'ahi a pouco, de luvas pretas, muito amarella,
sahiu.
Ao dobrar a esquina da rua, defronte do estanque,
parou indecisa. Até ao medico era um estirão!...
E estava, que lhe tremiam as pernas!... Mas tambem,
largar tres tostões para trem!...
—Pst, pst!—fez do lado uma voz dôce.
Era a estanqueira, com o seu longo vestido de
luto tingido, o seu sorriso desconsolado.
Que era feito da snr.
a Juliana? a dar o seu passeio,
hein?
Gabou-lhe a sombrinha preta de cabo d'osso.—De
muito gosto—disse.—E como ia de saude?
Mal. Dera-lhe a pontada. Ia ao medico...
Mas a estanqueira não tinha fé nos medicos. Era
dinheiro deitado á rua... Citou a doença do seu homem,
os gastos, um
rôr de moedas. E para que?
para o vêr penar e morrer como se nada fosse! Era
um dinheiro que sempre chorava!
E suspirou. Emfim, fosse feita a vontade de Deus!
E lá por casa do snr. Engenheiro?
—Tudo sem novidade.
—Ó snr.
a Juliana, quem é aquelle rapaz que vai
agora por lá todos os dias?
Juliana respondeu logo:
—É o primo da senhora.
—Dão-se muito!...
—Parece.
Tossiu, e com um comprimentosinho:
—Pois, muito boas tardes, snr.
a Helena.
E foi resmungando:
—Ora, fica-te a chuchar no dedo, lêsma!
Juliana detestava a visinhança; sabia que a escarneciam,
que a imitavam, que lhe chamavam a
tripa velha!...—Pois tambem d'ella não haviam
de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade! Vinham
de carrinho! Boa! Tudo o que visse ou que
lhe cheirasse havia de ficar guardadinho, lá dentro.—Para
uma occasião!—pensava com rancor, sacudindo
os quadris.
A estanqueira ficou á porta, despeitada. E o Paula
dos moveis, que as vira conversar, veio logo, deslisando
subtilmente nas suas chinellas de tapete:
—Então a
tripa velha escorregou-se?
—Ai! não se lhe tira nada!
O Paula enterrou as mãos nos bolsos, com tedio:
—Aquillo, a do Engenheiro besunta-lhe as
mãos... É ella quem leva a cartinha, quem abre a
portita de noite...
—Tanto não direi! Credo!
O Paula fitou-a com superioridade:
—A snr.
a Helena está ahi ao seu balcão... Mas
eu é que as conheço, as mulheres da alta sociedade!
Conheço-as nas pontas dos dedos. É uma cambada!
Citou logo nomes, alguns illustres; tinham amantes
innumeraveis: até trintanarios! Algumas fumavam,
outras
entortavam-se. E peor! E peor!
—E passeiam por ahi, muito repimpadas de carrinho,
á barba da gente de bem!
—Falta de religião!—suspirou a estanqueira.
O Paula encolheu os hombros:
—A religião é que é, snr.
a Helena! C'os padres
é que é!
E agitando furioso o punho fechado:
—C'os padres é uma
choldra viva!
—Credo, snr. Paula, que até lhe fica mal!...
E o carão amarellado da estanqueira tinha uma
severidade de devota offendida.
—Ora, historias, snr.
a Helena!—exclamou o homem
com desprezo.
E bruscamente:
—Porque é que acabaram os conventos? Diga-me!
Porque era um desaforo lá dentro!
—Oh snr. Paula! oh snr. Paula!—balbuciava a
Helena, recuando, encolhendo-se.
Mas o Paula atirava-lhe as impiedades como punhaladas.
—Um desaforo! De noite as freiras vinham por
um subterraneo ter c'os frades. E era vinhaça e mais
vinhaça. E batiam o fandango em camisa! Anda isso
por ahi em todos os livros.
E erguendo-se nas chinellas:
—E os jesuitas, se vamos a isso! Sim! diga!
Mas recuou, e levando a mão á pala do boné:
—Um criado da senhora—disse com respeito.
Era Luiza que passava, vestida de preto, o véo
descido. Ficaram calados, a olhal-a.
—Que ella é muito bonita!—murmurou a estanqueira,
com admiração.
O Paula franziu a testa.
—Não é mau bocado...—disse. E acrescentou,
com desdem:—P'ra quem gosta d'aquillo!...
Houve um silencio. E o Paula rosnou:
—Não são as saias que me levam o tempo, nem
d'isto!...
E bateu no bolso do collete, fazendo tilintar dinheiro.
Tossiu, pigarreou, e ainda aspero:
—Venha de lá um pataco de Xabregas.
Foi para a porta do estanco enrolar o cigarro,
assobiar; mas os seus olhos arregalaram-se indignados;
n'uma das janellas de cima na casa do Engenheiro,
tinha avistado, por entre as vidraças abertas,
a figura enfesada do Pedro, o carpinteiro.
Voltou-se para a estanqueira, e cruzando dramaticamente
os braços:
—E agora que a patrôa vai á vida, lá está o rapazola
a entender-se com a criada!
Soltou uma larga baforada de fumo, e com uma
voz soturna:
—Aquella casa vai-se tornando um prostibulo!
—Um quê, snr. Paula?
—Um prostibulo, snr.
a Helena! É como se dissesse
um alcouce!
E, com passos escandalisados, o patriota afastou-se.
Luiza ia emfim ao campo com Bazilio. Consentira
na vespera, declarando logo «que era só um passeio
de meia hora, de carruagem, sem se apearem».
Bazilio ainda insistiu, fallando em «sombras d'alamedas,
uma merendinha, relvas...» Mas ella recusou,
muito teimosa, rindo, dizendo:—Nada de relvas!...
E tinham combinado encontrar-se na praça da
Alegria. Chegou tarde, já depois das duas e meia,
com o guarda-solinho muito carregado sobre o rosto,
toda assustada.
Bazilio esperava, fumando, n'um coupé, á esquina,
debaixo d'uma arvore. Abriu rapidamente a portinhola,
e Luiza entrou fechando atrapalhadamente a
sombrinha; o vestido prendeu-se ao estribo, esgaçou-se
no rufo de sêda; e achou-se ao lado d'elle, muito
nervosa, offegante, com o rosto abrazado, murmurando:
—Que tolice, que tolice esta!
Mal podia fallar. O coupé partiu logo a trote. O
cocheiro era o Pintéos, um batedor.
—Tão cançada, coitadinha!—disse-lhe Bazilio
muito meigo.
Levantou-lhe o véo; estava suada; os seus largos
olhos brilhavam da excitação, da pressa, do medo...
—Que calor, Bazilio!
Quiz descer um dos vidros do coupé.
Não, isso não! Podiam vêl-os! Quando passassem
as portas...
—Para onde vamos nós?
E espreitava, levantando o
store.
—Vamos para o lado do Lumiar, é o melhor sitio.
Não queres?
Encolheu os hombros. Que lhe importava? Ia socegando:
tinha tirado o véo e as luvas: sorria, abanando-se
com o lenço, d'onde sahia um aroma fresco.
Bazilio prendeu-lhe o pulso, pôz-lhe muitos beijos
longos, delicados, na pelle fina, azulada de veiasinhas.
—Tu prometteste ter juizo!—fez ella com um
sorriso calido, olhando-o de lado.
Ora! mas um beijo, no braço! Que mal havia?
Tambem era necessario não ser beata!
E olhava-a avidamente.
Os velhos
stores do coupé corridos eram de sêda
vermelha, e a luz que os atravessava envolvia-a
n'um tom igual, côr de rosa e quente. Os seus beiços
tinham um escarlate molhado, a lisura sã d'uma
petala de rosa; e ao canto do olho um ponto de luz
movia-se n'um fluido dôce.
Não se conteve, passou-lhe os dedos um pouco
tremulos nas fontes, nos cabellos, com uma caricia
fugitiva e assustada; e com a voz humilde:
—Nem um beijo na face, um só?
—Um só?...—fez ella.
Pousou-lh'o delicadamente ao pé da orelha. Mas
aquelle contacto exasperou-lhe o desejo brutalmente;
teve um som de voz soluçado; agarrou-a com sofreguidão,
e atirava-lhe beijos tontos pelo pescoço, pela
face, pelo chapéo...
—Não! não!—balbuciava ella, resistindo.—Quero
descer! Dize que pare!
Batia nos vidros; esforçava-se por correr um,
desesperada, magoando os dedos na dura corrêa
suja.
Bazilio pôz-se a supplicar, que lhe perdoasse!
Que doudice, zangar-se por um beijo! Se ella estava
tão linda!... Fazia-o doudo. Mas jurava ir quieto,
muito quieto...
A carruagem, ao
pé das portas, rolava sacudida
na calçada miuda; nas terras, aos lados, as oliveiras
de um verde empoeirado estavam immoveis na luz
branca; e sobre a herva crestada o sol batia duramente
n'uma fulguração continua.
Bazilio tinha descido um dos vidros; o
store corrido
palpitava brandamente; pôz-se então a fallar-lhe
ternamente de si, do seu amor, dos seus planos. Estava
resolvido a vir estabelecer-se em Lisboa—dizia.—Não
tencionava casar-se; amava-a e não comprehendia
nada melhor do que viver ao pé d'ella,
sempre. Dizia-se desilludido, enfastiado. Que mais
lhe podia offerecer a vida? Tinha tido as sensações
dos amores ephemeros, as aventuras das longas viagens.
Ajuntára alguma cousa de seu,—e sentia-se
velho.
Repetia, fitando-a, tomando-lhe as mãos:
—Não é verdade que estou velho?
—Não muito—e os seus olhos humedeciam-se.
Ah! estava! estava! O que lhe appetecia agora
era viver para ella, vir descançar nas doçuras da
sua intimidade. Ella era a sua unica familia.—Fazia-se
muito
parente.—A familia no fim de tudo é o
que ha de melhor ainda. Não te incommoda que eu
fume?
E acrescentou, raspando o phosphoro:
—O que ha de bom na vida é uma affeição profunda
como a nossa. Não é verdade? Contento-me
com pouco, de resto. Vêr-te todos os dias, conversar
muito, saber que me estimas...—Por dentro do
campo, ó Pintéos!—gritou com força pela portinhola.
O coupé entrou a passo no Campo Grande. Bazilio
ergueu os
stores; um ar mais vivo penetrou. O
sol cahia sobre o arvoredo, traspassando-o d'uma luz
faiscante, formando no chão poeirento e branco sombras
quentes de ramagens. Tudo tinha em redor um
aspecto resequido e exhausto. Na terra gretada, a
herva curta, crestada, fazia tons cinzentos. Na estrada,
ao lado, arrastava-se uma poeira amarellada. Saloios
passavam, amodorroados sobre o albardão, bamboleando
as pernas, abrigados sob os vastos guarda-soes
escarlates; e a luz que vinha de um céo azul
ferrete, acabrunhador, fazia reluzir com uma radiação
crua as paredes muito caiadas, as aguas d'algum balde
esquecido ás portas, todas as brancuras de pedras.
E Bazilio continuava:
—Vendo tudo o que tenho lá fóra, alugo aqui
uma casinha em Lisboa, em Buenos-Ayres, talvez...
Não te agrada? Dize...
Ella calava-se; aquellas palavras, as promessas,
a que a voz d'elle metallica e velada dava um vigor
mais amoroso, iam-na perturbando como a inebriação
d'um licôr forte. O seu seio arfava.
Bazilio baixou a voz, disse:
—Quando estou ao pé de ti sinto-me tão feliz,
parece-me tudo tão bom!...
—Se isso fosse verdade!—suspirou ella, encostando-se
para o fundo do coupé.
Bazilio prendeu-lhe logo a cintura; jurou-lhe que
sim! Ia pôr a sua fortuna em inscripções. Começou
a dar-lhe provas: já fallára a um procurador; citou-lhe
o nome, um sêcco, de nariz agudo...
E apertando-a contra si, os olhos muito vorazes:
—E se fosse verdade, dize, que fazias?
—Nem eu sei—murmurou ella.
Iam entrando no Lumiar, e por prudencia desceram
os
stores. Ella afastou um, e, espreitando, via
fóra passar rapidamente, ao lado do trem, arvores
empoeiradas; um muro de quinta d'uma côr de rosa
sujo; fachadas de casas mesquinhas; um omnibus
desatrellado; mulheres sentadas ao portal, á sombra,
catando os filhos; e um sujeito vestido de
branco, de chapéo de palha, que estacou, arregalou
os olhos para as cortinas fechadas do coupé. E
ia desejando habitar alli n'uma quinta, longe da estrada;
teria uma casinha fresca com trepadeiras
em roda das janellas, parreiras sobre pilares de pedra,
pés de roseiras, ruasinhas amaveis sob arvores
entrelaçadas, um tanque debaixo d'uma tilia, onde
de manhã as criadas ensaboariam, bateriam a roupa,
palrando. E ao escurecer, ella e elle, um pouco
quebrados das felicidades da sésta, iriam pelos campos,
ouvindo calados, sob o céo que se estrella, o
coaxar triste das rãs.
Cerrou os olhos. O movimento muito lançado do
coupé, o calor, a presença d'elle, o contacto da sua
mão, do seu joelho, amolleciam-na. Sentia um desejo
a alargar-se dentro do peito.
—Em que vaes tu a pensar?—perguntou-lhe
elle baixo, muito terno.
Luiza fez-se vermelha. Não respondeu. Tinha medo
de fallar, de lhe dizer...
Bazilio tomou-lhe a mão devagarinbo, com respeito,
com cuidado, como uma cousa preciosa e santa;
e beijou-lh'a de leve, com a servilidade d'um negro
e a unção d'um devoto. Aquella caricia tão humilde,
tão tocante, quebrou-a; os seus nervos distenderam-se;
deixou-se cahir para o canto do coupé,
rompeu a chorar...
Que era? Que tinha? Prendera-a nos braços, beijava-a,
dizia-lhe palavras loucas.
—Queres que fujamos?
As suas lagrimasinhas redondas e luminosas, rolando
devagarinho sobre aquella face mimosa,
enterneciam-no,
e davam aos seus desejos uma vibração
quasi dolorosa.
—Foge commigo, vem, levo-te! Vamos para o
fim do mundo!
Ella soluçou, murmurou muito doridamente:
—Não digas tolices.
Elle calou-se; pôz a mão sobre os olhos com uma
attitude melancolica, pensando:—Estou a dizer tolices,
não ha que vêr!
Luiza limpava as lagrimas, assoando-se devagarinho.
—É nervoso—disse.—É nervoso. Voltamos,
sim? Não me sinto bem. Dize que volte.
Bazilio mandou «bater» para Lisboa.
Ella queixava-se de um ameaço d'enxaqueca. Elle
tinha-lhe tomado a mão, repetia-lhe as mesmas
ternuras: chamava-lhe «sua pomba», «seu ideal».
E pensava baixo:—Estás cahida!
Pararam na praça da Alegria. Luiza espreitou,
saltou depressa, dizendo:
—Ámanhã, não faltes, hein?
Abriu o guarda-solinho, carregou-o sobre o rosto,
subiu rapidamente para a Patriarchal.
Bazilio então desceu os vidros, e respirou com
satisfação. Accendeu outro charuto, estendeu as pernas,
gritou:
—Ao Gremio, ó Pintéos!
Na sala de leitura, o seu amigo o visconde Reynaldo,
que havia annos vivia em Londres, e muito
em Paris tambem, lia o
Times languidamente,
enterrado
n'uma poltrona. Tinham vindo ambos de Paris,
com promessa de voltarem juntos por Madrid.
Mas o calor desolava Reynaldo; achava a temperatura
de Lisboa
reles; trazia lunetas defumadas; e
andava saturado de perfumes, por causa «do cheiro
ignobil de Portugal». Apenas viu Bazilio deixou
escorregar o
Times no tapete, e com os braços
molles,
a voz desfallecida:
—E então essa questão da prima, vai ou não
vai? Isto está horrivel, menino! Eu morro! Preciso
o Norte! Preciso a Escocia! Vamos embora! Acaba
com essa prima. Viola-a. Se ella te resiste, mata-a!
Bazilio, que se estendera n'uma poltrona, disse,
estirando muito os braços:
—Oh! Está cahidinha!
—Pois avia-te, menino, avia-te!
Apanhou moribundamente o
Times, bocejou, pediu
soda—soda ingleza!
«Não havia», veio dizer o criado. Reynaldo fitou
Bazilio com espanto, com terror, e murmurou
soturnamente:
—Que abjecção de paiz!
Quando Luiza entrou, Juliana, ainda vestida, disse-lhe
logo á porta:
—O snr. Sebastião está na sala. Tem estado um
rôr de tempo á espera... Já cá estava quando eu
cheguei.
Tinha vindo com effeito havia meia hora. Quando
a Joanna lhe veio abrir, muito encarnada, com o ar
estremunhado, e resmungou «que a senhora estava
para fóra», Sebastião ia logo descer, com o allivio
delicioso d'uma difficuldade adiada. Mas reagiu, retesou
a vontade, entrou, pôz-se a esperar... Na vespera
tinha decidido fallar-lhe, avisal-a que aquellas
visitas do primo, tão repetidas, com espalhafato,
n'uma rua maligna, podiam compromettel-a... Era
o diabo, dizer-lh'o!... Mas era um dever! Por ella,
pelo marido, pelo respeito da casa! Era forçoso acautelal-a!...
E não se sentia acanhado. Perante as reclamações
do dever, vinham-lhe as energias da decisão.
O coração batia-lhe um pouco, sim, e estava
pallido... Mas, que diabo, havia de lh'o dizer!...
E passeando pela sala com as mãos nos bolsos,
ia arranjando as suas phrases, procurando-as muito
delicadas, bem amigas...
Mas a campainha retiniu, um
frou-frou de vestido
roçou o corredor,—e a sua coragem engelhou-se
como um balão furado. Foi-se logo sentar ao piano,
pôz-se a bater vivamente no teclado. Quando Luiza
entrou, sem chapéo, descalçando as luvas, ergueu-se,
disse embaraçado:
—Tenho estado aqui a trautear um bocado...
Estava á espera... Então d'onde vem?
Ella sentou-se, cançada. Vinha da modista—disse.
Fazia um calor! Porque não tinha entrado as outras
vezes? Não estava com visitas de ceremonia!
Era familia, era seu primo que viera de fóra.
—Está bom, seu primo?
—Bom. Tem estado aqui, bastante. Aborrece-se
muito em Lisboa, coitado! Ora, quem vive lá fóra!
Sebastião repetiu, esfregando devagar os joelhos:
—Está claro, quem vive lá fóra!
—E Jorge, tem-lhe escripto?—perguntou Luiza.
—Recebi carta hontem.
Tambem ella. Fallaram de Jorge, dos tedios da
jornada, do que contava do phantastico parente de
Sebastião, da demora provavel...
—Faz-nos uma falta, aquelle maroto!—disse
Sebastião.
Luiza tossiu. Estava um pouco pallida, agora.
Passava ás vezes a mão pela testa, cerrando os
olhos.
Sebastião de repente, teve uma decisão:
—Pois eu vinha, minha rica amiga...—começou.
Mas viu-a ao canto do sophá, com a cabeça baixa,
a mão sobre os olhos.
—Que tem? Está incommodada?
—É a enxaqueca que me veio de repente. Já
tinha tido ameaços na rua. E com uma força!
Sebastião tomou logo o chapéo:
—E eu a massal-a! É necessario alguma cousa?
Quer que vá chamar o medico?
—Não! Vou-me deitar um momento, passa logo.
Que não apanhasse ar, ao menos, recommendava
elle. Talvez sinapismos ou rodellas de limão nas
fontes... E em todo o caso, se não estivesse melhor
que o mandasse chamar...
—Isto passa! E appareça, Sebastião! Não se esconda...
Sebastião desceu, respirou largamente; e pensava:—Eu
não me atrevo, santo Deus!... Mas á
porta, ao levantar os olhos, viu no fundo escuro da
loja de carvão o vulto enorme da carvoeira, de
chambre branco, estendendo o olhar, cocando; por
cima, tres das Azevedos, entre as velhas cortinas de
cassa, juntavam as suas cabecinhas riçadas n'algum
conciliabulo maligno: por traz dos vidros a criada
do doutor costurava, com olhares de lado, a cada
momento, que lambiam a rua; e ao lado, na loja
de moveis, sentiam-se as expectorações do patriota.
—Não passa um gato que esta gente não dê fé!—pensou
Sebastião.—E que linguas! Que linguas!
Devo fazel-o, ainda que estoure! Se ella ámanhã está
melhor, digo-lhe tudo!
Estava com effeito já boa, ás nove horas, no dia
seguinte, quando Juliana a foi acordar, com «uma
cartinha da snr.
a D. Leopoldina».
A criada de Leopoldina, a Justina, uma magrita
muito trigueira, de buço e olho vesgo, esperava na
sala de jantar. Era amiga de Juliana, beijocavam-se
muito, diziam-se sempre finezas. E depois de ter
guardado a resposta de Luiza n'um cabazinho que
trazia no braço, traçou o chale, e muito risonha:
—Então que ha por cá de novo, snr.
a Juliana?
—Tudo velho, snr.
a Justina.
E mais baixo:
—O primo da senhora, agora; vem todos os
dias. Perfeito rapaz!
Tossiram ambas, baixinho, com malicia.
—E por lá, snr.
a Justina, quem vai por lá?
Justina fez um aceno de desprezo.
—Um rapazola, um estudante. Fraca cousa!...
—Sempre pinga!—disse Juliana com um risinho.
A outra exclamou:
—Olha quem! o pelintra! Nem cheta!
E erguendo o olhar com saudade:
—Ai, como o Gama não ha! Quando era do
tempo do Gama, isso sim! Nunca ia que me não
désse os seus dez tostões, ás vezes meia libra. Ai,
devo dizel-o, foi elle que me ajudou para o meu
vestido de sêda! Este agora!... é um fedelho. Eu
nem sei como a senhora supporta aquillo! E amarellado,
enfesado! Aquillo póde prestar para nada!
Juliana disse então:
—Pois olhe, snr.
a Justina, eu agora é que começo
a considerar: é onde se está bem, é em casas
em que ha pôdres! Encontrei hontem a Agostinha, a
que está em casa do commendador, ao Rato... Pois
senhor, não se imagina. É tudo o que se póde! Tudo!
Annel, vestido de sêda, sombrinha, chapéo! E
de roupa branca diz que é um enxoval. E tudo o
Couceiro, o que está com a ama. E pelas festas sua
moeda. Diz que é um homem rasgado. Ella tambem,
verdade seja, tem um trabalhão: fal-o entrar pelo
jardim, e para o fazer sahir tem d'esperar...
—Ah, lá não!—acudiu a Justina.—Lá é pela
escada.
Riram baixinho, saboreando o escandalo.
—Genios...—disse Juliana.
—Ai, lá isso, o nosso tem estomago—affirmou
Justina.—Encontra-os na escada, e tanto se lhe
dá!...
E muito affectuosamente, arranjando o chale:
—E adeusinho, que se faz tarde, snr.
a Juliana.
Ella vem hoje cá jantar, a senhora. Estive toda a
manhã a engommar uma saia; desde as sete!
—Tambem eu por cá—disse Juliana.—Ellas é
o que tem; quando ha amante sempre ha mais que
engommar.
—Deitam mais roupa branca, deitam—observou
a Justina.
—As que deitam!—exclamou Juliana, com desprezo.
Mas Luiza tocou a campainha dentro.
—Adeus, snr.
a Juliana—disse logo a outra,
ageitando o chapéo.
—Adeus, snr.
a Justina.
Foi acompanhal-a ao patamar. Beijocaram-se. Juliana
voltou muito apressada ao quarto de Luiza; estava
já a pé, vestindo-se, muito alegre, cantarolando.
O bilhete de Leopoldina dizia na sua letra torta:
«Meu marido vai hoje para o campo. Eu vou-te
pedir de jantar, mas não posso ir antes das seis.
Convem-te?»
Ficou muito contente. Havia semanas que a não
via... O que iam rir, palrar! E Bazilio devia vir ás
duas. Era um dia divertido, bem preenchido...
Foi logo á cozinha dar as suas ordens para o jantar.
Quando descia, o criadito de Sebastião tocava a
campainha, com um ramo de rosas, «a saber se a
senhora estava melhor».
—Que sim, que sim!—gritou logo Luiza.—E
para o tranquillisar, para que elle não viesse:—Que
estava boa, que até talvez sahisse...
As rosas, sim, é que vinham a proposito. Foi
ella mesma pôl-as nos vasos, cantarolando sempre, o
olhar vivo, satisfeita de si, da sua vida que se tornava
interessante, cheia de incidentes...
E ás duas horas, vestida, veio para a sala, pôz-se
ao piano a estudar a
Medjé de Gounod, que Bazilio
trouxera, e que a encantava agora muito, com
os seus accentos suspirados e calidos.
Ás duas e meia, porém, começou a estar impaciente;
os dedos embrulhavam-se-lhe no teclado.—Já
devia ter vindo, Bazilio!—pensava.
Foi abrir as janellas, debruçar-se para a rua;
mas a criada do doutor, que costurava por dentro
dos vidros, ergueu logo olhos tão sofregos que Luiza
fechou rapidamente as vidraças. Veio recomeçar
a melodia, já nervosa.
Uma carruagem rolou. Ergueu-se agitada, batia-lhe
o coração. A carruagem passou...
Tres horas já! O calor parecia-lhe maior, insupportavel;
sentia-se afogueada, foi cobrir-se de pó
d'arroz. Se Bazilio estivesse doente! E n'um quarto
d'hotel! Só, com criados desleixados! Mas não, ter-lhe-hia
escripto n'esse caso!... Não viera, não se importára!
Que grosseiro, que egoista!
Era bem tola em se affligir. Melhor! Mas, abafava-se,
positivamente! Foi buscar um leque, e as suas
mãos enraivecidas sacudiram n'um phrenesi a gaveta,
que não se abriu logo, um pouca perra. Pois bem,
não o tornaria a receber! E acabava tudo!
E o seu grande amor, de repente, como um fumo
que uma rajada dissipa, desappareceu! Sentiu
um allivio, um grande desejo de tranquillidade. Era
absurdo, realmente, com um marido como Jorge,
pensar n'outro homem, um leviano, um estroina!...
Deram quatro horas. Veio-lhe uma desesperação,
correu ao escriptorio de Jorge, agarrou uma folha de
papel, escreveu á pressa: