«Querido Bazilio.
«Porque não vens? Estás doente? Se soubesses
os tormentos por que me fazes passar...»
A campainha retiniu. Era elle! Amarrotou o bilhete,
metteu-o no bolso do vestido, ficou esperando,
palpitante. Passos d'homem pisaram o tapete da
sala. Entrou, com o olhar faiscante... Era Sebastião.
Sebastião, um pouco pallido, que lhe apertou
muito as mãos. Estava melhor? Tinha dormido bem?
Sim, obrigada, estava melhor. Sentára-se no sophá,
muito vermelha. Mal sabia que dizer.
Repetiu com um sorriso vago:—Estou muito melhor!—E
pensava:—Não me deixa agora a casa,
este massador!
—Então, não sahiu?—perguntou Sebastião,
sentado na poltrona, com o chapéo desabado nas mãos.
Não, estava um pouco fatigada ainda.
Sebastião passou devagar a mão pelos cabellos,
e com uma voz que o embaraço engrossava:
—Tambem agora tem sempre companhia pela
manhã...
—Sim, meu primo Bazilio tem apparecido. Ha
tanto tempo que nos não viamos! Fomos creados de
pequenos, quasi... Tenho-o visto quasi todos os dias.
Sebastião fez logo rolar um pouco a poltrona, e
curvando-se, baixando a voz:
—Eu mesmo tinha vindo para lhe fallar a esse
respeito...
Luiza abriu um olhar surprehendido.
—A respeito de quê?
—É que se repara... A visinhança é a peor cousa
que ha, minha rica amiga. Repara em tudo. Já se
tem fallado. A criada do lente, o Paula. Até já vieram
á tia Joanna. E como o Jorge não está... O Netto
tambem reparou. Como não sabem o parentesco...
E como vem todos os dias...
Luiza ergueu-se bruscamente, com o rosto alterado:
—Então eu não posso receber os meus parentes
sem ser insultada?—exclamou.
Sebastião levantou-se tambem. Aquella colera
subita n'ella, uma pessoa tão dôce, atarantou-o como
um trovão que estala n'um céo claro de verão.
Pôz-se a dizer, quasi anciosamente:
—Oh minha rica senhora! mas repare, eu não
digo... É por causa da visinhança!...
—Mas que póde dizer a visinhança?
A sua voz tinha uma vibração aguda. E batendo
com as mãos, apertando-as, exaltada:
—Isto é curioso! Tenho um parente unico, com
quem fui creada, que não vejo ha uns poucos d'annos,
vem-me fazer tres ou quatro visitas, está um
momento, e já querem deitar maldade!
Fallava convencida, esquecendo as palavras de
Bazilio, os beijos, o
coupé...
Sebastião, acabrunhado, enrolava o chapéo nas
mãos tremulas. E com uma voz abafada:
—Eu tinha-me parecido prudente avisar; o Julião
tambem...
—O Julião!—exclamou ella.—Mas que tem o
Julião com isso? Com que direito se mettem no que
se passa em minha casa? O Julião!
A intervenção, as decisões de Julião pareciam-lhe
um acrescimo d'affronta. Cahiu n'uma cadeira,
com as mãos contra o peito, os olhos no tecto.
—Oh! Se o Jorge aqui estivesse! Oh! se elle
aqui estivesse, Santo Deus!
Sebastião balbuciou aniquilado:
—Era para seu bem...
—Mas que mal me póde succeder?
E erguendo-se, indo d'um movel a outro, n'uma
excitação:
—É o meu unico parente. Fomos creados ambos,
brincavamos juntos. Em casa da mamã, na rua da
Magdalena, estava lá sempre. Ia lá jantar todos os
dias. É como se fossemos irmãos. Em pequena trazia-me
ao collo...
E amontoava detalhes d'aquella fraternidade, exagerando
uns, inventando outros ao acaso, na improvisação
da colera.
—Vem aqui—acrescentava—está um bocado,
fazemos musica, elle toca admiravelmente, fuma um
charuto, vai-se...
Instinctivamente justificava-se.
Sebastião estava sem idéa, sem resolução. Parecia-lhe
aquella uma outra Luiza, differente, que o
assustava; e quasi curvava os hombros sob a estridencia
da sua voz, que nunca conhecera tão forte,
vibrando n'uma loquacidade trapalhona.
Erguendo-se emfim, disse com uma dignidade
melancolica:
—Eu entendi que era o meu dever, minha senhora.
Fez-se um silencio grave. Aquelle tom sobrio,
quasi severo, obrigou-a a córar um pouco dos seus
espalhafatos: baixou os olhos: disse embaraçada:
—Perdôe, Sebastião! Mas realmente!... Não,
acredite, juro-lhe, estou-lhe muito obrigada em me
avisar. Fez muito bem, Sebastião!
Elle exclamou logo, vivamente:
—Para evitar qualquer calumnia d'essas linguas
damnadas! Pois não é verdade?
Justificou então a sua intervenção, com muita
amizade: ás vezes por uma palavra, arma-se uma
intriga, e quando uma pessoa está prevenida...
—De certo, Sebastião!—repetiu ella.—Fez
perfeitamente bem em me avisar. De certo!...
Tinha-se sentado; o olhar reluzia-lhe febrilmente;
e a cada momento limpava com o lenço os cantos
seccos da bocca.
—Mas que hei-de eu fazer, Sebastião! Diga!
Elle commovia-se agora de a vêr assim ceder,
aconselhar-se; quasi lamentava vir, com a gravidade
das suas advertencias, perturbar a alegria das suas
intimidades. Disse:
—Está claro que deve vêr seu primo, recebel-o...
Mas emfim, sempre é bom uma certa reserva,
com esta visinhança! Eu se fosse a si contava-lhe...
explicava-lhe...
—Mas, por fim, que diz essa gente, Sebastião?
—Repararam. Quem seria? quem não seria? Que
vinha, que estava, o diabo!
Luiza ergueu-se impetuosamente:
—Eu bem tenho dito a Jorge! Tantas vezes
lh'o tenho dito! Isto é uma rua impossivel! Não se
mexe um dedo que não espreitem, que não cochichem!
—Não teem que fazer...
Houve um silencio. Luiza passeava pela sala, com
a cabeça baixa, a testa franzida; e parando, olhando
quasi anciosamente para Sebastião:
—O Jorge se soubesse é que tinha um desgosto!
Santo Deus!
—Escusa de saber!—exclamou logo Sebastião.—Isto
fica entre nós!
—Para o não affligir, não é verdade?—acudiu
ella.
—Está claro! Isto fica entre nós.
E Sebastião estendendo-lhe a mão, quasi humildemente:
—Então não está zangada commigo, hein?
—Eu, Sebastião! Que tolice!
—Bem, bem. Acredite!—e espalmou a mão
sobre o peito—eu entendi que era o meu dever.
Porque emfim, a minha rica amiga não sabia nada...
—Estava bem longe!...
—De certo. Bem, adeus. Não a quero massar
mais.—E com uma voz profunda, commovida:—Cá
estou ás ordens, hein!
—Adeus, Sebastião... Mas que gente! Por vêr
entrar o pobre rapaz tres ou quatro vezes!...
—Uma canalha, uma canalha!—disse Sebastião,
arregalando os olhos.
E sahiu.
Apenas elle fechou a porta:
—Que desafôro!—exclamou Luiza—Isto só a
mim!
Porque a intervenção de Sebastião, no fundo, irritava-a
mais que os mexericos da visinhança! A
sua vida, as suas visitas, o interior da sua casa era
discutido, resolvido por Sebastião, por Julião, por
tutti quanti! Aos vinte e cinco annos tinha
mentores!
Não estava má! E porque, Santo Deus? Porque
seu primo, o seu unico parente, vinha vel-a!...
Mas então, de repente, emmudecia interiormente.
Lembravam-lhe os olhares de Bazilio, as suas palavras
exaltadas, aquelles beijos, o passeio ao Lumiar.
A sua alma corava baixo, mas o seu despeito seguia
declamando alto:—de certo, havia um sentimento,
mas era honesto, ideal, todo platonico!... Nunca seria
outra cousa! Podia ter lá dentro, no fundo, uma
fraqueza... Mas seria sempre uma mulher de bem,
fiel, só d'um!...
E esta certeza irritava-a então contra os «palratorios»
da rua! Que de resto era lá possivel, que
só por verem entrar Bazilio, quatro ou cinco vezes,
ás duas horas da tarde, começassem logo a murmurar,
a cortar na pelle?... Sebastião era um caturra,
com terrores d'ermitão! E que idéa, ir consultar Julião!
Julião! Era elle, de certo, que o instigára a vir
prégar, assustal-a, humilhal-a!... Porque? Azedume,
inveja! Porque Bazilio tinha belleza,
toilette,
maneiras,
dinheiro!... Se tinha!
As qualidades de Bazilio appareciam-lhe então
magnificas e abundantes como os attributos d'um
deus. E estava apaixonado por ella! E queria vir
viver junto d'ella! O amor d'aquelle homem, que tinha
esgotado tantas sensações, abandonado de certo
tantas mulheres, parecia-lhe como a affirmação gloriosa
da sua belleza e da irresistibilidade da sua seducção.
A alegria que lhe dava aquelle culto trazia-lhe
o receio de o perder. Não o queria vêr diminuido;
queria-o sempre presente, crescendo, balouçando
sem cessar, diante d'ella, o murmurio languido das
ternuras humildes! Podia lá separar-se de Bazilio!
Mas se a visinhança, as relações começavam a commentar,
a cochichar... Jorge podia saber!... Áquella
supposição o coração arrefecia-lhe...—Sebastião
tinha razão, no fundo, era evidente!
N'uma rua pequena, com doze casas, vir todos
os dias, aquelle lindo rapaz, tão elegante, agora que
seu marido não estava... Era terrivel!—Que havia
de fazer, Santo Deus!...
A campainha retiniu com força;
Leopoldina entrou.
Vinha furiosa com o cocheiro: que imaginasse
ella, hein! Tinha parado ao Correio, e o homem queria
duas corridas. Uma canalha assim!...
—E que calor, ouf!—Atirou a sombrinha, as
luvas; agitou as mãos no ar para descer o sangue,
dar-lhes pallidez; e diante do toucador, compondo ligeiramente
os frisados do cabello, com uma côr na
pelle, muito espartilhada, admiravel no seu corpete
couraçado:
—Que tens tu, filha? Estás toda no ar!
Nada. Tinha-se zangado com as criadas...
—Ai! estão insupportaveis!—Contou as exigencias
da Justina, os seus desmazelos.—E muito
agradecida ainda que ella se me não vá! Quando a
gente depende d'ellas!...—E pondo pó d'arroz no
rosto, com uma voz lenta:—Lá o meu senhor foi
para o Campo Grande. Eu estive para ir jantar fóra
com...—Suspendeu-se, sorriu, e voltada para Luiza,
mais baixo, com um tom alegre, muito sincero:—Mas
olha, a fallar a verdade, nem sabia onde,
nem tinha dinheiro... Que elle coitado com a sua
mezada mal lhe chega. Disse commigo: nada, vou vêr
a Luiza. Tambem os homens sempre, sempre, seccam!...—Que
tens tu para jantar? Não fizeste ceremonia, hein?
E com uma idéa subita:
—Tens tu bacalhau?
Devia haver, talvez. Que extravagancia! Porque?
—Ai!—exclamou—Manda-me assar um bocadinho
de bacalhau! Meu marido detesta o bacalhau!
aquelle animal! Eu é a minha paixão. Com azeite e
alho!—Mas calou-se, contrariada.—Diabo!
—O que?
—É que hoje não posso comer alho...
E entrou para a sala a rir. Foi tirar uma rosa do
ramo de Sebastião, pôl-a n'uma casa do corpete. Desejava
ter uma sala assim,—pensava, olhando em
redor. Queria-a de reps azul, com dous grandes espelhos,
um lustre de gaz, e o seu retrato a oleo de
corpo inteiro, decotada, ao pé d'um rico vaso de flôres...
Sentou-se ao piano, bateu rijamente o teclado,
tocou motivos do
Barba Azul.
E vendo Luiza entrar:
—Mandaste arranjar o bacalhau?
—Mandei.
—Assado?
—Sim.
—Gracias!—E atirou, com a sua voz mordente,
a sua canção querida da
Gran-Duqueza:
Ouvi dizer que meu avô de vinho,
Era um tal amador...
Mas Luiza achava aquella musica «espalhafatona»;
queria alguma cousa triste, dôce... O fado!
que tocasse o fado!...
Leopoldina exclamou logo:
—Ai, o fado novo! Tu não ouviste? É lindo! Os
versos são divinos!
Preludiou, cantando com um balouçar languido
da cabeça, o olhar erguido e turvo:
O rapaz que eu hontem vi
Era moreno e bem feito...
—Tu não sabes isto, Luiza? Oh filha! É o ultimo!
É de chorar!
Recomeçou, com o tom muito quebrado. Era a
historia rimada d'um amor infeliz. Fallava-se nas
«raivas do ciume, nas rochas de Cascaes, nas noites
de luar, nos suspiros da saudade», todo o palavriado
morbido do sentimentalismo lisboeta. Leopoldina
dava tons dolentes á voz, revirava um olhar expirante;
uma quadra sobre tudo enternecia-a; repetiu-a
com paixão:
Vejo-o nas nuvens do céo,
Nas ondas do mar sem fim,
E por mais longe que esteja
Sinto-o sempre ao pé de mim.
—Lindo!—suspirava Luiza.
E Leopoldina terminava com
ais! em que a sua
voz se arrastava n'uma extensão desafinada.
Luiza, de pé junto do piano, sentia o cheiro do
feno que ella usava; o fado, os versos
entristeciam-na
um pouco; e com o olhar saudoso seguia sobre o
teclado os dedos ageis e magros de Leopoldina, onde
reluziam as pedras dos anneis que lhe tinha dado o
Gama.
Mas Juliana entrou, vestida de passeio, com a
sua cuia nova. Estava o jantar na mesa!
Leopoldina declarou que vinha a cahir de fome!
E a sala de jantar com as vidraças abertas, as verduras
dos terrenos vagos defronte, um azul d'horisonte
onde se algodoavam nuvemzinhas muito brancas—alegrou-a:
a sala de jantar d'ella tirava-lhe até o
appetite, era uma tristeza, deitava para o saguão!
Pôz-se a depenicar bagos d'uvas, a trincar bocadinhos
de conserva—e reparando no retrato do
pai de Jorge, desdobrando o guardanapo:
—Havia de ser divertido teu sogro! Tem cara
de pandigo!...
E ha que tempos que não jantavam juntas! Desde
quando?
—Desde o meu primeiro anno de casada—lembrou
Luiza.
Leopoldina fez-se um pouco vermelha. Viam-se
muito n'esse tempo; Jorge deixava-as ir ás lojas ambas,
aos confeiteiros, á Graça... A lembrança d'aquella
camaradagem levou-a ás recordações mais distantes
do collegio. Tinha visto, havia dias, a Rita Pessoa,
com o sobrinho.—Lembras-te d'elle?
—O
Espinafre?
Espinafre ou não era no collegio o homem, o
ideal, o heroe; todas lhe escreviam bilhetes, desenhavam-lhe
corações d'onde sahia uma fogueira,
mettiam-lhe no boné muito sebento ramos de flôres
de papel... E quando a Michaela foi apanhada, no
cacifro dos bahús, a devoral-o de beijos!...
Luiza disse:
—Que horror!
—Não que a Michaela era douda!
Coitada! Tinha casado com um alferes, um homem
que a espancava. Estava cheia de filhos...
—Isto é um valle de lagrimas!—resumiu Leopoldina,
recostando-se.
Estava loquaz. Servia-se muito, com gula; depois
picava um bocadinho na ponta do garfo, provava,
deixava, punha-se a comer côdeas de pão que
barrava de manteiga. E deleitava-se nas recordações
do collegio! Que bom tempo!
—Lembraste quando estivemos de mal?
Luiza não se lembrava...
—Por tu teres dado um beijo na Thereza, que
era o meu
sentimento—disse Leopoldina.
Pozeram-se a fallar dos
sentimentos. Leopoldina
tivera quatro; a mais bonita era a Joanninha, a Freitas.
Que olhos! E que bem feita! Tinha-lhe feito a
côrte um mez!...
—Tolices!—disse Luiza córando um pouco.
—Tolices! Porque?
Ai! era sempre com saudade que fallava dos
sentimentos.
Tinham sido as primeiras sensações, as
mais intensas. Que agonia de ciumes! Que delirio de
reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares!
E os bilhetinhos, e todas as palpitações do coração,
as primeiras da vida!
—Nunca—exclamou—nunca, depois de mulher,
senti por um homem o que senti pela Joanninha!...
Pois pódes crêr...
Um olhar de Luiza deteve-a.—A Juliana!...
Diabo! tinha-se esquecido! Constrangia-as muito, com
o seu sorrisinho torcido, a figura de peito chato, o tic-tac
metallico dos tacões.
—E que foi feito da Joanninha?—perguntou
Luiza.
Morrêra tisica—e a voz de Leopoldina fez-se
saudosa. Uma doença bem triste, não era? Mas não
lhe tinha medo, ella! Batia no seio, bem formado:
—Isto é rijo, isto é são!
Juliana sahiu, e Luiza observou logo:
—Vê no que fallas, filha! Tem cuidado!
Leopoldina curvou-se:
—Ah! a respeitabilidade da casa! Tens razão!—murmurou.
E como Juliana entrava com o bacalhau assado,
fez-lhe uma ovação!
—Bravo! Está soberbo!
Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha
louro, um pouco tostado, abrindo em lascas.
—Tu verás—dizia ella.—Não te tentas? Fazes
mal!
Teve então um movimento decidido de bravura,
disse:
—Traga-me um alho, snr.
a Juliana! Traga-me
um bom alho!
E apenas ella sahiu:
—Eu vou ter logo com o Fernando, mas não me
importa!...—Ah! Obrigada, snr.
a Juliana! Não ha
nada como o alho!...
Esborrachou-o em roda do prato, regou as
lascas
do bacalhau d'um fio molle d'azeite, com
gravidade.—Divino!—exclamou.—Tornou
a encher o copo,
achava aquillo «uma pandiga».
—Mas que tens tu?
Luiza com effeito parecia preoccupada. Tinha suspirado
baixo. Duas vezes, endireitando-se na cadeira,
dissera a Juliana, inquieta:
—Parece que tocaram a campainha, vá vêr.
Não era ninguem.
—Quem havia de ser? Não esperas teu marido,
de certo.
—Ah! não!
E então Leopoldina, com os olhos no prato, partindo
devagar, muito attenta, lascasinhas de bacalhau:
—E teu primo veio vêr-te?
Luiza fez-se vermelha.
—Sim, tem vindo. Tem vindo varias vezes.
—Ah!
E depois d'um silencio:
—Ainda está bonito?
—Não está feio...
—Ah!
Luiza apressou-se a perguntar se tinha encommendado
o vestido de xadrezinho? Não. E começaram
a fallar de
toilettes, fazendas, lojas, e preços...
Depois, de conhecidas, d'outras senhoras, de boatos—perdendo-se
n'uma conversa de mulheres sós,
miudinha e divagada, semelhante ao ramalhar de
folhagens.
Viera o assado. Leopoldina já ia tendo uma côr
quente nas faces. Pediu a Juliana que lhe fosse buscar
o leque;—e recostada, abanando-se, declarou
que se sentia como um principe! E ia beberricando
golinhos de vinho. Que boa idéa, jantarem juntas!...
Apenas Juliana dispôz os pratos de fruta, Luiza
disse-lhe logo: «que chamaria para o café, que podia
ir». Foi ella mesmo fechar a porta da sala, correr
o reposteiro de cretone:
—Estamos á vontade, agora! Faço-me velha só
d'olhar para esta creatura! Estou morta pela vêr pelas
costas.
—Mas porque a não pões na rua?
Era Jorge que não queria, senão...
Leopoldina protestou. Boa! os maridos não deviam
ter vontade!... Era o que faltava!...
—E o teu, então?—disse Luiza, rindo.
—Obrigada!—exclamou Leopoldina.—Um homem
que faz quarto á parte!
De resto detestava os homens que se occupam
de criadas, de roes, d'azeites e vinagres...
—Que lá o meu cavalheiro até pesa a carne!—Sorriu,
com odio.—Tambem é o que vale, senão!...
Eu só d'ir á cozinha me dão enjôos...
Quiz deitar vinho, mas a garrafa estava vazia.
Luiza acudiu:
—Queres tu champagne?—Tinha-o muito bom,
que o mandava a Jorge um hespanhol, um proprietario
de minas.
Foi ella mesmo buscar a garrafa, desembrulhou-a
do seu papel azul;—e com risinhos, sustos, fizeram
estalar a rolha. A espuma encantou-as: olhavam os
copos, caladas, com um bem-estar feliz. Leopoldina
gabou-se de saber abrir muito bem o champagne;
fallava vagamente de cêas passadas...
—Em terça-feira gorda, ha dous annos!...
E toda recostada na cadeira, com um sorriso calido,
as azas do nariz dilatadas, a pupilla humida,
olhava com sensualidade os globulosinhos vivos que
subiam, sem cessar, no copo esguio.
—Se fosse rica, bebia sempre champagne—disse.
Luiza não: ambicionava um coupé; e queria viajar,
ir a Paris, a Sevilha, a Roma... Mas os desejos
de Leopoldina eram mais vastos: invejava uma larga
vida, com carruagens, camarotes d'assignatura,
uma casa em Cintra, cêas, bailes,
toilettes, jogo...
Porque gostava do
monte—dizia—fazia-lhe bater
o coração. E estava convencida que havia de adorar
a roleta.
—Ah!—exclamou—Os homens são bem mais
felizes que nós! Eu nasci para homem! O que eu
faria!
Levantou-se, foi-se deixar cahir muito languidamente
na
voltaire, ao pé da janella. A tarde descia
serenamente; por traz das casas, para lá dos terrenos
vagos, nuvens arredondavam-se, amarelladas,
orladas de côres sanguineas ou de tons alaranjados.
E voltando-lhe a mesma idéa d'acção, d'independencia:
—Um homem póde fazer tudo! Nada lhe fica
mal! Póde viajar, correr aventuras... Sabes tu, fumava
agora um cigarrito...
O peor é que Juliana podia sentir o cheiro. E parecia
tão mal!...
—É um convento, isto!—murmurou Leopoldina.—Não
tens má prisão, minha filha!
Luiza não respondeu; tinha encostado a cabeça á
mão: e com o olhar vago, como continuando alguma
idéa:
—São tolices, no fim, andar, viajar! A unica
cousa n'este mundo é a gente estar na sua casa,
com o seu homem, um filho ou dous...
Leopoldina deu um salto na
voltaire. Filhos! Credo,
que nem fallasse em semelhante cousa! Todos
os dias dava graças a Deus em os não ter!
—Que horror!—exclamou com convicção.—O
incommodo todo o tempo que se está!... as despezas!
os trabalhos, as doenças! Deus me livre! É uma
prisão! E depois quando crescem, dão fé de tudo,
palram, vão dizer... Uma mulher com filhos está
inutil para tudo, está atada de pés e mãos! Não ha
prazer na vida. É estar alli a atural-os... Credo!
Eu? Que Deus não me castigue, mas se tivesse essa
desgraça parece-me que ia ter com a velha da travessa
da Palha!
—Que velha?—perguntou Luiza.
Leopoldina explicou. Luiza achava uma «infamia».
A outra encolheu os hombros, acrescentou:
—E depois, minha rica, é que uma mulher estraga-se:
não ha belleza de corpo que resista. Perde-se
o melhor. Quando se é como a tua amiga, a
D. Felicidade, emfim!... Mas quando se é direitinha
e arranjadinha!... Nada, minha rica! Embaraços não
faltam!
Por baixo, na rua, o realejo do bairro, no seu
giro da tarde, veio tocar o final da
Traviata; ia
escurecendo;
já as verduras dos quintaes tinham uma
igual côr parda; e as casas para além esbatiam-se na
sombra.
A
Traviata lembrou a Luiza a
Dama das
Camelias:
fallaram do romance: recordaram episodios...
—Que paixão que eu tive por Armando em rapariga!—disse
Leopoldina.
—E eu foi por d'Artagnan—exclamou ingenuamente
Luiza.
Riram muito.
—Começamos cedo—observou Leopoldina.—Dá-me
uma gotinha mais.
Bebeu, pousou o calix—e encolhendo os hombros:
—Oh! Começamos cedo? Começam todas! Aos
treze annos já a gente vai na sua quarta paixão. Todas
são mulheres, todas sentem o mesmo!—E batendo
o compasso com o pé, cantou, no tom do fado:
O amor é uma doença
Que costuma andar no ar;
Só d'ir á janella, ás vezes
S'apanha a febre d'amar!
Estou hoje com uma telha!—E espreguiçando-se
muito languidamente:—No fim de contas é o
que ha de melhor n'este mundo: o resto é uma
semsaboria! Não é verdade? Dize, tu! Não é verdade?
Luiza murmurou:
—Se é!—E acrescentou logo:—Creio eu!
Leopoldina ergueu-se, e escarnecendo-a:
—Crê ella! Pobre innocentinha! Vejam o anjinho!
Foi-se encostar á janella; ficou a olhar pelos vidros
o descer do crepusculo; de repente pôz-se a dizer
devagar:
—Realmente vale bem a pena estar uma pobre
de Christo a privar-se, a passar uma vida de coruja,
a mortificar-se, para vir um dia uma febre, um ar,
uma soalheira, e boas noites, vai-se para o Alto de
S. João! Tó rola!
A sala agora estava um pouco escura.
—Pois não te parece?—perguntou ella.
Aquella conversa embaraçava Luiza: sentia-se córar;
mas o crepusculo, as palavras de Leopoldina davam-lhe
como o enfraquecimento d'uma tentação.
Declarou todavia
immoral semelhante idéa.
—Immoral, porque?
Luiza fallou vagamente nos
deveres, na
religião.
Mas os
deveres irritavam Leopoldina. Se havia uma
cousa que a fizesse sahir de si—dizia—era ouvir
fallar em deveres!...
—Deveres? Para com quem? Para um maroto
como meu marido?
Calou-se, e passeando pela sala excitada:
—E em quanto a religião, historias! A mim me
dizia o padre Estevão, o de luneta, que tem os dentes
bonitos, que me dava todas as absolvições, se eu
fosse com elle a Carriche!
—Ah, os padres...—murmurou Luiza.
—Os padres quê? São a religião! Nunca vi outra.
Deus, esse, minha rica, está longe, não se occupa
do que fazem as mulheres.
Luiza achava horrivel «aquelle modo de pensar».
A felicidade, a verdadeira, segundo ella, era
ser honesta...
—E a bisca em familia!—resmungou Leopoldina,
com odio.
Luiza disse, animada:
—Pois olha que com as tuas paixões, umas atraz
das outras...
Leopoldina estacou:
—O que?
—Não te podem fazer feliz!
—Está claro que não!—exclamou a outra.—Mas...—procurou
a palavra; não a quiz empregar
de certo; disse apenas com um tom secco:—Divertem-me!
Calaram-se. Luiza pediu o café.
Juliana entrou com a bandeja, trouxe luz; d'ahi
a pouco foram para a sala.
—Sabes quem me fallou hontem de ti?—disse
Leopoldina, indo estender-se no divan.
—Quem?
—O Castro.
—Que Castro?
—O d'oculos, o banqueiro.
—Ah!
—Muito apaixonado por ti sempre.
Luiza riu.
—Doudo, palavra!—affirmou Leopoldina.
A sala estava ás escuras, com as janellas abertas;
a rua esbatia-se n'um crepusculo pardo: um ar
languido e dôce amaciava a noite.
Leopoldina esteve um momento calada; mas o
champagne, a meia obscuridade deram-lhe bem depressa
a necessidade de cochichar confidenciasinhas.
Estirou-se mais no divan, n'uma attitude toda abandonada;
pôz-se a fallar «d'elle». Era ainda o Fernando,
o poeta. Adorava-o.
—Se tu soubesses!—murmurava com um ar de
extase.—É um amor de rapaz!
A sua voz velada tinha inflexões d'uma ternura
calida. Luiza sentia-lhe o halito e o calor do corpo,
quasi deitada tambem, enervada; a sua respiração
alta tinha por vezes um tom suspirado: e a certos
detalhes mais picantes de Leopoldina soltava um risinho
quente e curto, como de cocegas... Mas passos
fortes de botas de taxas subiram a rua, e no candieiro
defronte o gaz saltou com um jacto vivo. Uma
branda claridade pallida penetrou na sala.
Leopoldina ergueu-se logo.—Tinha d'ir já, já,
ao accender do gaz. Estava á espera, o pobre rapaz!
Entrou no quarto, mesmo ás escuras, a pôr o chapéo,
buscar a sombrinha.—Tinha-lhe promettido, coitado,
não podia faltar. Mas realmente embirrava d'ir
só. Era tão longe! Se a Juliana podesse vir acompanhal-a...
—Vai, sim, filha!—disse Luiza.
Ergueu-se preguiçosamente com um grande
ai!
foi abrir a porta, e deu de cara com Juliana, na sombra
do corredor.
—Credo, mulher, que susto!
—Vinha saber se queriam luz...
—Não. Vá pôr um chale para acompanhar a
snr.
a D. Leopoldina! Depressa!
Juliana foi correndo.
—E quando appareces tu, Leopoldina?—perguntou
Luiza.
Logo que podesse. Para a semana estava com
idéas d'ir ao Porto vêr a tia Figueiredo, passar quinze
dias na Foz...
A porta abriu-se.
—Quando a senhora quizer...—disse Juliana.
Fizeram grandes
adeuses, beijaram-se muito. Luiza
disse rindo ao ouvido de Leopoldina:—Sê feliz!
Ficou só. Fechou as janellas, accendeu as velas,
começou a passear pela sala, esfregando devagar as
mãos. E, sem querer, não podia desprender a idéa
de Leopoldina que ia vêr o seu amante! O seu
amante!...
Seguia-a mentalmente:—caminhava depressa de
certo fallando com Juliana; chegava; subia a escada,
nervosa; atirava com a porta—e que delicioso,
que avido, que profundo o primeiro beijo! Suspirou.
Tambem ella amava—e
um mais bello, mais fascinante.
Porque não tinha vindo?
Sentou-se ao piano preguiçosamente; pôz-se a
cantar baixo, triste, o fado de Leopoldina: