Amici, la notte è bella...
La ra la la...
Quasi topou com Juliana, que varria o corredor.
—Não deixe de engommar a saia bordada para
ámanhã, Juliana!
—Sim, minha senhora. Está em gomma!
E seguindo-a com um olhar feroz:
—Canta, piorrinha, canta, cabrasinha, canta, bebedasinha!...
E ella mesma, tomada subitamente d'um jubilo
agudo, atirou vassouradas rapidas, soltando na sua
voz rachada:
Além d'ámanhã termina a campanha,
P-o-o-or aqui se
diz...
Se tal fôr verdade, se não fôr patranha...
E com um espremido emphatico:
Se-e-rei bem feliz!
Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebastião
e Julião passeavam em S. Pedro de Alcantara.
Sebastião estivera contando a sua «scena» com
Luiza, e como desde então a sua estima por ella
crescera. Ao principio escabreára-se, sim...
—Mas teve razão! Assim de surpreza, ouvir uma
d'aquellas! E eu levei a cousa mal, fui muito á bruta...
Depois, coitadinha, concordára logo, mostrára-se
muito desgostosa, toda zelosa do seu pudor, pedira-lhe
conselhos... Até tinha as lagrimas nos olhos.
—Eu disse-lhe logo que o melhor era fallar ao
primo, dizer o que se passava... Que te parece?
—Sim—disse vagamente Julião.
Tinha-o escutado distrahido, chupando a ponta do
cigarro. O seu rosto terreo cavava-se, com uma côr
mais biliosa.
—Então achas que fiz bem, hein?
E depois d'uma pausa:
—Que ella é uma senhora de bem ás direitas!
Ás direitas, Julião!
Continuaram calados. O dia estava encoberto e
abafado, com um ar de trovoada: grossas nuvens pesadas
e pardas iam-se accumulando, ennegrecendo
para o lado da Graça por traz das collinas: um vento
rasteiro passava por vezes, pondo um arripio nas
folhas das arvores.
—De maneira que agora estou descançado—resumiu
Sebastião.—Não te parece?
Julião encolheu os hombros com um sorriso triste:
—Quem me dera os teus cuidados, homem!—disse.
E fallou então com amargura nas suas preoccupações.—Havia
uma semana que se abrira concurso
para uma cadeira de substituto na Escóla, e preparava-se
para elle. Era a sua taboa de salvação, dizia:
se apanhasse a cadeira, ganhava logo nome, a
clientella podia vir, e a fortuna... E, que diabo, sempre
era estar de dentro!... Mas a certeza da sua superioridade
não o tranquillisava—porque emfim em
Portugal, não é verdade? n'estas questões a sciencia,
o estudo, o talento são uma historia, o principal
são os padrinhos! Elle não os tinha—e o seu concorrente,
um semsaborão, era sobrinho d'um director
geral, tinha parentes na camara, era um colosso!
Por isso elle trabalhava a valer, mas parecia-lhe indispensavel
metter tambem as suas cunhas! Mas
quem?
—Tu não conheces ninguem, Sebastião?...
Sebastião lembrava-se d'um primo seu, deputado
pelo Alemtejo, um gordo, da maioria, um pouco fanhoso.
Se Julião queria, fallava-lhe... Mas sempre
ouvira dizer que a Escóla não era gente de empenhos
e de intriga... De resto tinham o conselheiro
Accacio...
—Uma besta!—fez Julião—Um parlapatão!
Quem faz lá caso d'aquillo? O teu primo, hein! O
teu primo parece-me bom! É necessario alguem que
falle, que trabalhe...—Porque acreditava muito nas
influencias dos empenhos, no dominio dos «personagens»,
nas docilidades da fortuna quando dirigida
pelas habilidades da intriga. E com um orgulho raiado
d'ameaça:—Que eu hei-de-lhes mostrar o que é
saber as cousas, Sebastião!
Ia explicar-lhe o assumpto da these, mas Sebastião
interrompeu-o:
—Ella ahi vem.
—Quem?
—A Luiza.
Passava com effeito, por fóra do Passeio, toda
vestida de preto, só.—Respondeu á cortezia dos
dous homens com um sorriso,
adeusinhos da mão,
um pouco corada.
E Sebastião immovel, seguindo-a devotamente
com os olhos:
—Se aquillo não respira mesmo honestidade!
Vai ás lojas... Santa rapariga!
Ia encontrar Bazilio no
Paraiso pela primeira vez.
E estava muito nervosa: não pudera dominar, desde
pela manhã, um medo indefinido que lhe fizera pôr
um véo muito espêsso, e bater o coração ao encontrar
Sebastião. Mas ao mesmo tempo uma curiosidade
intensa, multipla, impellia-a, com um estremecimentosinho
de prazer.—Ia, emfim, ter ella propria
aquella aventura que lêra tantas vezes nos romances
amorosos! Era uma fórma nova do amor que ia experimentar,
sensações excepcionaes! Havia tudo—a
casinha mysteriosa, o segredo illegitimo, todas as palpitações
do perigo! Porque o apparato impressionava-a
mais que o sentimento; e a
casa em si interessava-a,
attrahia-a mais que Bazilio! Como seria?
Era para os lados d'Arroios, adiante do largo de
Santa Barbara: lembrava-se vagamente que havia alli
uma correnteza de casas velhas... Desejaria antes
que fosse no campo, n'uma quinta, com arvoredos
murmurosos e relvas fôfas; passeariam então, com
as mãos enlaçadas, n'um silencio poetico; e depois
o som d'agua que cahe nas bacias de pedra daria um
rhythmo languido aos somnos amorosos... Mas era
n'um terceiro andar,—quem sabe como seria dentro?
Lembrava-lhe um romance de Paulo Féval em
que o heroe, poeta e duque, fórra de setins e tapeçarias
o interior d'uma choça; encontra alli a sua
amante; os que passam, vendo aquelle casebre arruinado,
dão um pensamento compassivo á miseria que
de certo o habita—em quanto dentro, muito secretamente,
as flôres se esfolham nos vasos de Sèvres
e os pés nús pisam Gobelins veneraveis! Conhecia o
gosto de Bazilio,—e o
Paraiso de certo era como
no romance de Paulo Féval.
Mas no largo de Camões reparou que o sujeito de
pera comprida, o do Passeio, a vinha seguindo, com
uma obstinação de gallo; tomou logo um coupé. E ao
descer o Chiado, sentia uma sensação deliciosa em
ser assim levada rapidamente para o seu amante, e
mesmo olhava com certo desdem os que passavam,
no movimento da vida trivial—em quanto ella ia
para uma hora tão romanesca da vida amorosa! Todavia
á maneira que se aproximava vinha-lhe uma
timidez, uma contracção d'acanhamento, como um
plebeu que tem de subir, entre alarbadeiros solemnes,
a escadaria d'um palacio. Imaginava Bazilio esperando-a
estendido n'um divan de sêda: e quasi
receava que a sua simplicidade burgueza, pouco experiente,
não achasse palavras bastante finas ou caricias
bastante exaltadas. Elle devia ter conhecido
mulheres tão bellas, tão ricas, tão educadas no amor!
Desejava chegar n'um coupé seu, com rendas de
centos de mil reis, e ditos tão espirituosos como um
livro...
A carruagem parou ao pé d'uma casa amarellada,
com uma portinha pequena. Logo á entrada um
cheiro molle e salobre enojou-a. A escada, de degraus
gastos, subia ingrememente, apertada entre paredes
onde a cal cahia, e a humidade fizera nodoas. No patamar
da sobre-loja, uma janella com um gradeadosinho
d'arame, parda do pó accumulado, coberta
de teias d'aranha, coava a luz suja do saguão. E por
traz d'uma portinha, ao lado, sentia-se o ranger d'um
berço, o chorar doloroso d'uma criança.
Mas Bazilio desceu logo, com o charuto na bocca,
dizendo baixo:
—Tão tarde! sóbe! Pensei que não vinhas. O
que foi?
A escada era tão esguia, que não podiam subir
juntos. E Bazilio, caminhando adiante, d'esguelha:
—Estou aqui desde a uma hora, filha! imaginei
que te tinhas esquecido da rua...
Empurrou uma cancella, fêl-a entrar n'um quarto
pequeno, forrado de papel ás listras azues e brancas.
Luiza viu logo, ao fundo, uma cama de ferro
com uma colcha amarellada, feita de remendos juntos
de chitas differentes: e os lençoes grossos, d'um
branco encardido e mal lavado, estavam impudicamente
entreabertos...
Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraçada.
E os seus olhos, muito abertos, iam-se fixando—nos
riscos ignobeis da cabeça dos phosphoros, ao pé da
cama; na esteira esfiada, comida, com uma nodoa
de tinta entornada; nas bambinellas da janella, d'uma
fazenda vermelha, onde se viam passagens; n'uma
lithographia, onde uma figura, coberta d'uma tunica
azul fluctuante, espalhava flôres voando... Sobre tudo
uma larga photographia, por cima do velho canapé
de palhinha, fascinava-a: era um individuo atarracado,
d'aspecto hilare e alvar, com a barba em
collar, o feitio d'um piloto ao domingo: sentado, de
calças brancas, com as pernas muito afastadas, pousava
uma das mãos sobre um joelho, e a outra muito
estendida assentava sobre uma columna truncada:
e por baixo do caixilho, como sobre a pedra d'um
tumulo, pendia d'um prego de cabeça amarella, uma
corôa de perpetuas!
—Foi o que se pôde arranjar—disse-lhe Bazilio.—E
foi um acaso: é muito retirado, é muito discreto...
Não é muito luxuoso...
—Não—fez ella, baixo.—Levantou-se, foi á
janella, ergueu uma ponta da cortininha de cassa fixada
á vidraça: defronte eram casas pobres: um sapateiro
grisalho, batia a sola a uma porta; á entrada
d'uma lojita balouçava-se um ramo de carqueja
ao pé d'um maço de cigarros pendente d'um barbante;
e, a uma janella, uma rapariga esguedelhada
embalava tristemente no collo uma criança doente
que tinha crostas grossas de chagas na sua cabecinha
côr de melão.
Luiza mordia os beiços, sentia-se entristecer. Então
nós de dedos bateram discretamente á porta.
Ella assustou-se, desceu rapidamente o véo. Bazilio
foi abrir. Uma voz adocicada, cheia de
ss
mellifluos,
ciciou baixo. Luiza ouviu vagamente: Socegadinhos,
suas chavesinhas...
—Bem, bem!—disse Bazilio apressado, batendo
com a porta.
—Quem é?
—É a patrôa.
O céo pozera-se a ennegrecer; já a espaços grossas
gôtas de chuva se esmagavam nas pedras da rua;
e um tom crepuscular fazia o quarto mais melancolico.
—Como descobriste tu isto?—perguntou Luiza,
triste.
—Inculcaram-m'o.
Outra gente, então, tinha vindo alli, «amado»
alli? pensou ella. E a cama pareceu-lhe repugnante.
—Tira o chapéo—disse Bazilio, quasi impaciente—estás-me
a fazer afflicção com esse chapéo
na cabeça.
Ella soltou devagar o elastico que o prendia, foi
pôl-o no canapé de palhinha, desconsoladamente.
Bazilio tomou-lhe as mãos, e attrahindo-a, sentando-se
na cama:
—Estás tão linda!—Beijou-lhe o pescoço, encostou
a cabeça ao peito d'ella. E com a vista muito
quebrada:
—O que eu sonhei comtigo esta noite!
Mas, de repente, uma forte pancada de chuva
fustigou os vidros. E immediatamente bateram á porta,
com pressa.
—Que é?—bradou Bazilio furioso.
A voz cheia de
ss explicou que esquecera um
cobertor na varanda que estava a seccar. Se se encharcasse,
que perdição!...
—Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me!—berrou
Bazilio.
—Dá-lhe o cobertor...
—Que a leve o diabo!
E Luiza, sentindo um arripio de frio nos seus
hombros nús, abandonava-se com uma vaga resignação,
entre os joelhos de Bazilio—vendo constantemente
voltada para si a face alvar do piloto.
Assim um
yacht que apparelhou nobremente para
uma viagem romanesca vai encalhar, ao partir, nos
lodaçaes do rio baixo; e o mestre aventureiro que
sonhava com os incensos e os almiscares das florestas
aromaticas, immovel sobre o seu tombadilho, tapa
o nariz aos cheiros dos esgotos.
Apenas Luiza começou a sahir todos os dias, Juliana
pensou logo: Bem, vai ter com o
gajo!
E a sua attitude tornou-se ainda mais servil. Era
com um sorriso de baixeza que corria a abrir a porta,
alvoroçada, quando Luiza voltava ás cinco horas. E
que zelo! Que exactidões! Um botão que faltasse,
uma fita que se extraviava, e eram «mil perdões,
minha senhora», «desculpe por esta vez», muitas
lamentações humildes. Interessava-se com devoção
pela saude d'ella, pela sua roupa, pelo que tinha
para jantar...
Todavia, desde as idas ao
Paraiso, o seu trabalho
augmentára: todos os dias agora tinha d'engommar;
muitas vezes era preciso ensaboar á noite collares,
rendinhas, punhos, n'uma bacia de latão, até
ás onze horas. Ás seis da manhã, mais cedo, já estava
com o «ferro ás voltas». E não se queixava,
até dizia a Joanna:
—Ai! é um regalo vêr assim uma senhora aceada!...
Que as ha! credo! Não, não é por dizer,
mas até me dá gosto. Depois, graças a Deus, agora
tenho saude, o trabalho não me assusta!
Não tornára a resmungar da «patrôa». Affirmava
mesmo á Joanna repetidamente:
—A senhora! ai, é uma santa! Muito boa d'aturar...
Não a ha melhor!
O seu rosto perdera alguma cousa do tom bilioso,
da contracção amarga. Ás vezes, ao jantar ou á
noite, costurando calada ao pé de Joanna, á luz do
petroleo, vinham-lhe sorrisos subitos, o olhar clareava-se-lhe
n'uma dilatação jovial.
—A snr.
a Juliana tem o ar de quem está a pensar
em cousas boas...
—A malucar cá por dentro, snr.
a Joanna!—respondia
com satisfação.
Parecia perder a inveja; ouviu mesmo fallar com
tranquillidade do vestido de sêda que estreou n'um
dia de festa, em setembro, a Gertrudes do doutor.
Disse apenas:
—Tambem um dia hei-de estrear vestidos, e
dos bons! Dos da modista!
Já outras vezes revelára por palavras vagas a idéa
d'uma abundancia proxima. Joanna até lhe dissera:
—A snr.
a Juliana espera alguma herança?
—Talvez!—respondeu seccamente.
E cada dia detestava mais Luiza. Quando pela
manhã a via arrebicar-se, perfumar-se com agua de
colonia, mirar-se ao toucador cantarolando, sahia do
quarto porque lhe vinham venetas d'odio, tinha medo
d'estourar! Odiava-a pelas
toilettes, pelo ar
alegre,
pela roupa branca, pelo
homem que ia vêr, por
todos os seus regalos de senhora. «A cabra!» Quando
ella sahia ia espreitar, vêl-a subir a rua, e fechando
a vidraça com um risinho rancoroso:
—Diverte-te, piorrinha, diverte-te, que o meu
dia ha-de chegar! Oh se ha-de!
Luiza com effeito divertia-se. Sahia todos os dias
ás duas horas. Na rua já se dizia que «a do Engenheiro
tinha agora o seu S. Miguel».
Apenas ella dobrava a esquina o
conciliabulo
juntava-se logo a cochichar. Tinham a certeza que se
ia encontrar com o «peralta». Onde seria?—era a
grande curiosidade da carvoeira.
—No hótel—murmurava o Paula.—Que nos
hóteis é escandalo bravio. Ou talvez—acrescentava
com tedio—n'alguma d'essas possilgas da baixa!
A estanqueira lamentava-a: uma senhora que era
tão apropositada!
—Vacca solta lambe-se toda, snr.
a Helena!—rosnava
o Paula.—São todas o mesmo!
—Menos isso!—protestava a estanqueira—Que
eu sempre fui uma mulher honesta!
E ella?—reclamava a carvoeira—ninguem tinha
que lhe dizer!
—Fallo da alta sociedade, das fidalgas, das que
arrastam sêdas! É uma cambada. Eu é que o sei!—E
acrescentava gravemente:—No povo ha mais
moralidade. O povo é outra raça!—E com as mãos
enterradas nos bolsos, as pernas muito abertas, ficava
absorto, com a cabeça baixa, o olhar cravado no
chão.—Se é!—murmurava—Se é!—Como se
estivesse positivamente achando as pedrinhas da calçada
menos numerosas que as virtudes do povo!
Sebastião, que tinha estado na quinta d'Almada
quasi duas semanas, ficou aterrado quando, ao voltar,
a Joanna lhe deu as grandes «novidades»: que
a Luizinha agora sahia todos os dias ás duas horas,
que o primo não voltára; a Gertrudes é que lh'o
dissera; não se fallava na rua n'outra cousa...
—Então a pobre senhora nem sequer póde ir ás
lojas, aos seus arranjos!—exclamou Sebastião.—A
Gertrudes é uma desavergonhada, e nem sei como
a tia Joanna consente que ella ponha aqui os
pés. Vir com esses mexericos!...
—Cruzes! Olha o destempero!—replicou muito
escandalisada a tia Joanna.—Oh menino, realmente...
A pobre mulher disse o que ouviu na rua!
Que ella até a defende, até ella é que a defende!
Até se esteve a queixar que se falla! que se falla!
Boa!—E a tia Joanna sahiu, resmungando:—Olha
o destempero, credo!
Sebastião chamou-a, aplacou-a:
—Mas quem falla, tia Joanna?
—Quem?—E muito emphaticamente:—Toda
a rua! Toda a rua! Toda a rua!
Sebastião ficou aniquilado. Toda a rua! Pudera!
Se ella agora se punha a sahir todos os dias, uma
senhora, que quando estava Jorge não sahia do buraco!
A visinhança que murmurára das visitas do
outro, naturalmente começava a commentar as sahidas
d'ella! Estava-se a desacreditar! E elle não podia
fazer nada! Ir advertil-a? Ter outra «scena»?
Não podia.
Procurou-a. Não lhe queria de certo tocar em
nada, ia só vêl-a. Não estava. Voltou d'ahi a dous
dias. Juliana veio-lhe dizer á cancella, com o seu
sorriso amarellado: «Foi-se agora mesmo, ha um
instantinho. Ainda a apanha á Patriarchal». Emfim,
um dia encontrou-a ao principio da rua de S. Roque.
Luiza pareceu muito contente em o vêr:—Porque
se tinha demorado tanto em Almada? Que deserção!
Trazia carpinteiros, era necessario vigiar as obras.
E ella?
—Bem. Um bocado aborrecida. O Jorge diz que
ainda se demora. Tenho estado muito só. Nem Julião,
nem Conselheiro, ninguem. A D. Felicidade é
que tem apparecido ás vezes de fugida. Está agora
sempre mettida na Encarnação... Isto gente devota!—E
riu.
Então aonde ia?
A umas comprasitas, á modista depois...—E
appareça agora, Sebastião, hein?
—Hei-d'apparecer.
—Á noite. Estou tão só! Tenho tocado muito, é
o que me vale é o piano!
N'essa mesma tarde Sebastião recebeu uma carta
de Jorge. «Tens visto a Luiza? Estive quasi com cuidado,
porque estive mais de cinco dias sem carta
d'ella. De resto está preguiçosa como uma freira;
quando escreve são quatro linhas porque está o correio
a partir. Vai dizer ao correio que espere, que
diabo! Queixa-se de se aborrecer, de estar só, que
todos a abandonaram, que tem vivido como n'um
deserto. Vê se lhe vaes fazer companhia, coitada,
etc.»
No dia seguinte ao anoitecer foi a casa d'ella.
Appareceu-lhe muito vermelha, com os olhos estremunhados,
de roupão branco. Tinha chegado muito
cançada de fóra, tinha-lhe dado o somno depois de
jantar, adormecera sobre a
causeuse... Que havia de
novo? E bocejava.
Fallaram das obras d'Almada, do Conselheiro, de
Julião; e ficaram calados. Havia um constrangimento.
Luiza então accendeu as velas no piano, mostrou-lhe
a nova musica que estudava, a
Medjé de
Gounod; mas havia uma passagem em que se embrulhava
sempre; pediu a Sebastião que a tocasse,
e junto do piano, batendo o compasso com o pé,
acompanhava baixo a melodia, a que a execução de
Sebastião dava um encanto penetrante. Quiz tentar
depois, mas enganou-se, zangou-se, atirou a musica
para o lado, veio sentar-se no sophá, dizendo:
—Quasi nunca tóco! Estão-se-me a enferrujar os
dedos!...
Sebastião não se atrevia a perguntar pelo primo
Bazilio. Luiza não lhe pronunciou sequer o nome. E
Sebastião, vendo n'aquella reserva uma diminuição
de confiança ou um resto persistente de despeito,
disse que tinha d'ir á Associação Geral d'Agricultura,
e sahiu muito desconsolado.
Cada dia que se seguiu trouxe-lhe a sua inquietação
differente. Ás vezes era a tia Joanna que lhe
dizia á tarde: «A
Luizinha lá sahiu hoje outra
vez!
Por este calor, até póde apanhar alguma! Credo!»
Outras era o conciliabulo dos visinhos, que avistava
de longe, e que de certo «estavam a cortar na pelle
da pobre senhora»!
Parecia-lhe tudo aquillo exactamente a
aria da
Calumnia no
Barbeiro de Sevilha: a
calumnia ao
principio leve como o fremito das azas d'um passaro,
subindo n'um crescendo aterrador até estalar como
um trovão!
Dava agora voltas para não passar na rua, diante
do Paula e da estanqueira: tinha vergonha d'elles!
Encontrára o Teixeira Azevedo, que lhe perguntára:
—Então o Jorge quando vem? Que diabo! o rapaz
fica por lá!
E aquella observação trivial aterrou-o.
Emfim, um dia, mais apoquentado, foi procurar
Julião. Encontrou-o no seu quarto andar, em mangas
de camisa e em chinellas, enxovalhado e esguedelhado,
rodeado de papelada, com uma chocolateirinha
de café ao pé, trabalhando. O soalho negro estava
cheio de pontas de cigarro; ao canto estava
embrulhada roupa suja; sobre a cama desfeita havia
livros abertos;—e um cheiro relentado sahia do desmazêlo
das cousas. A janella de peitoril dava para o
saguão, d'onde vinha o cantar estridente d'uma criada,
e o ruido areado do esfregar de tachos.
Julião, apenas elle entrou, ergueu-se, espreguiçou-se,
enrolou um cigarro, e declarou que estava a
trabalhar desde as sete!... Hein? Era bonito! Para
que soubesse o snr. Sebastião!
—De resto chegaste a proposito. Estava para
mandar a tua casa... Devia receber ahi um dinheiro
e não veio. Dá cá uma libra.
E immediatamente começou a fallar da these. A
cousa sahia!
Leu-lhe paragraphos do prologo com uma deleitação
paternal, e, muito satisfeito, na abundancia de
confiança que dá a excitação do trabalho, com grandes
passadas pelo quarto:
—Hei-de-lhes mostrar que ainda ha portuguezes
em Portugal, Sebastião! Hei-de-os deixar de bocca
aberta! Tu verás!
Sentou-se, pôz-se a numerar as folhas escriptas,
assobiando. Sebastião, então, com timidez, quasi vexado
de perturbar com as suas preoccupações domesticas
aquelles interesses scientificos, disse baixo:
—Pois eu vim-te fallar por causa lá da nossa
gente...
Mas a porta abriu-se com força, e um rapaz de
barba desleixada, e olhar um pouco doudo, entrou;
era um estudante da Escóla, amigo de Julião; e quasi
immediatamente os dous recomeçaram uma discussão
que tinham travado de manhã, e que fôra interrompida
ás onze horas, quando o rapaz d'olhar doudo
descêra a almoçar á Aurea.
—Não, menino!—exclamava o estudante exaltado.—Estou
na minha! A medicina é uma meia
sciencia, a physiologia é outra meia sciencia! São
sciencias conjecturaes, porque nos escapa a base, conhecer
o principio da vida!
E cruzando os braços diante de Sebastião, bradou-lhe:
—Que sabemos nós do principio da vida?
Sebastião, humilhado, baixou os olhos.
Mas Julião indignava-se:
—Estás desmoralisado pela doutrina vitalista,
miseravel! Trovejou contra o Vitalismo, que declarou
«contrario ao espirito scientifico». Uma theoria que
pretende que as leis que governam os corpos brutos
não são as mesmas que governam os corpos vivos—é
uma heresia grotesca!—exclamava.—E
Bichat que a proclama é uma besta!
O estudante, fóra de si, bradou—que chamar a
Bichat uma besta era simplesmente d'um alarve.
Mas Julião desprezou a injuria, e continuou, exaltado
nas suas idéas:
—Que nos importa a nós o principio da vida?
Importa-me tanto como a primeira camisa que vesti!
O principio da vida é como outro qualquer principio:
um segredo! Havemos d'ignoral-o eternamente! Não
podemos saber nenhum principio. A vida, a morte,
as origens, os fins, mysterios! São causas primarias
com que não temos nada a fazer, nada! Podemos
batalhar seculos, que não avançamos uma pollegada.
O physiologista, o chimico, não tem nada com os
principios das cousas; o que lhes importa são os
phenomenos! Ora os phenomenos e as suas causas
immediatas, meu caro amigo, podem ser determinadas
com tanto rigor nos corpos brutos, como nos
corpos vivos—n'uma pedra, como n'um desembargador!
E a physiologia e a medicina são sciencias
tão exactas como a chimica! Isto já vem de Descartes!
Travaram então um berreiro sobre Descartes. E
immediatamente, sem que Sebastião attonito tivesse
descoberto a transição, encarniçaram-se sobre a idéa
de Deus.
O estudante parecia necessitar Deus para explicar
o universo. Mas Julião atacava Deus com cólera:
chamava-lhe «uma hypothese safada», «uma velha
caturrice do partido miguelista»! E começaram a
assaltar-se sobre a questão social, como dous gallos
inimigos.
O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava,
dando punhadas sobre a mesa, o principio da authoridade!
Julião berrava pela «anarchia individual»!
E depois de citarem com furia Proudhon, Bastiat,
Jouffroy romperam em personalidades. Julião, que
dominava pela estridencia da voz, censurou violentamente
ao estudante—as suas inscripções a seis por
cento, o ridiculo de ser filho d'um corretor de fundos,
e o bife de proprietario que vinha de comer na
Aurea!
Olharam-se, então, com rancor.
Mas d'ahi a momentos o estudante deixou cahir
com desdem algumas palavras sobre Claude Bernard,
e a questão recomeçou, furiosa.
Sebastião tomou o chapéo.
—Adeus—disse baixo.
—Adeus, Sebastião, adeus—disse promptamente
Julião.
Acompanhou-o ao patamar.
—E quando quizeres que eu falle a meu primo...—murmurou
Sebastião.
—Pois sim, veremos, eu pensarei—disse Julião
com indifferença, como se o orgulho do trabalho lhe
tivesse dissipado o terror da injustiça.
Sebastião foi descendo as escadas, pensando: Não
se lhe póde fallar em nada, agora!
De repente veio-lhe uma idéa: se fosse ter com
D. Felicidade, abrir-se com ella! D. Felicidade era
espalhafatona, um pouco tonta, mas era uma mulher
d'idade, intima de Luiza; tinha mais authoridade, mais
habilidade mesmo...
Decidiu-se logo, tomou um trem, foi á rua de S.
Bento.
A criada de D. Felicidade appareceu-lhe, desolada,
e lacrimosa:
—Pois não sabe?
—Não.
—Ai! até admira!
—Mas o que?
—A senhora! Uma desgraça assim! Torceu um
pé na Encarnação, deu uma quéda. Tem estado muito
mal, muito mal.
—Aqui?
—Na Encarnação. Nem pôde sahir. Está com a
snr.
a D. Anna Silveira. Uma desgraça assim! E está
n'um phrenesi!
—Mas quando foi?
—Antes d'hontem á noite.
Sebastião saltou para o trem, mandou «bater»
para casa de Luiza.
A D. Felicidade, doente, na Encarnação! Mas então
Luiza podia bem sahir todos os dias! Ia vêl-a,
fazer-lhe companhia, tratar d'ella!...
A visinhança não tinha que rosnar! Ia vêr a pobre
doente!...
Eram duas horas quando a parelha estacou á porta
de Luiza. Encontrou-a, que descia a escada, vestida
de preto, de luva
gris perle, com um véo negro.
—Ah! suba, Sebastião, suba! Quer subir?
Parára, nos degraus, com uma côrzinha no rosto,
um pouco embaraçada.
—Não, obrigado. Vinha dizer-lhe... Não sabe?
A D. Felicidade...
—O quê?
—Torceu um pé. Está mal.
—Que me diz?
Sebastião deu os pormenores.
—Vou já lá.
—Deve ir. Eu não posso ir, não entram homens.
Coitada! Diz que está mal.—Acompanhou-a até á
esquina da rua, offereceu-lhe mesmo a tipoia:—E
muitos recados, que tenho pena de a não vêr!...
Pobre senhora! E diz que está n'um phrenesi!
Viu-a afastar-se para a Patriarchal, e, admirando
a graça da sua figura, esfregava as mãos satisfeito.
Estavam justificadas, santificadas mesmo aquellas
passeatas todos os dias! Ia ser a enfermeira da pobre
D. Felicidade! Era necessario que todos soubessem,
o Paula, a estanqueira, a Gertrudes, as Azevedos,
todos, de modo que quando a vissem de manhã,
subir a rua, dissessem:—Lá vai fazer companhia
á doente! Santa senhora!
O Paula estava á porta da loja—e Sebastião com
uma idéa subita, entrou. Estava-se estimando de se
sentir tão fecundo em expedientes, tão habil!
Deitou um pouco o chapéo para a nuca, e mostrando
com o guarda-sol o painel que representava
D. João VI:
—Quanto quer vossemecê por isto, ó snr. Paula?
O Paula ficou surprehendido:
—O snr. Sebastião está a brincar?
Sebastião exclamou:
—A brincar?—Fallava muito sério! queria uns
quadros para a sala d'entrada, em Almada: mas velhos,
sem caixilho, para dizerem bem sobre um papel
escuro.—Como isto! Estou a brincar! Ora essa,
homem!
—Desculpe, snr. Sebastião... Pois n'esse caso
ha por ahi alguns paineis a calhar.
—Este D. João VI agrada-me. Quanto custa isto?
O Paula disse, sem hesitar:
—Sete mil e duzentos. Mas é obra de mestre.
Era uma téla desbotada de tom defumado, onde
uns restos de face avermelhada, com uma cabelleira
em cachos, sobresahiam vagamente sobre um fundo
sombrio. Um vermelhão baço indicava o velludo de
uma casaca de côrte: a pança saliente e ostentosa
enchia um collete esverdeado. E a parte mais conservada
da téla era, ao lado sobre um coxim, a corôa
real—que o artista trabalhára com uma minuciosidade
enthusiasta, ou por preoccupação d'idiota,
ou por adulação de cortezão.
Sebastião achava caro; mas o Paula mostrou-lhe
o preço escripto por traz, n'uma tirinha de papel;
espanejou a téla com amor; indicou as bellezas, fallou
na sua honestidade; deprimiu outros vendedores
de moveis, «que tinham a consciencia nas palmilhas»;
jurou que o retrato pertencera ao paço de
Queluz, e ia atacar as questões publicas—quando
Sebastião disse resumindo:
—Bem, pois mande-m'o logo, fico com elle. E
mande a conta.
—Leva uma rica obra!
Sebastião agora olhava em redor. Queria fallar
do «pé torcido de D. Felicidade», e procurava uma
transição. Examinou umas jarras da India, um tremó;
e avistando uma poltrona de doente:
—Aquillo é que era bom para a D. Felicidade!—exclamou
logo—aquella cadeira! Boa cadeira!
O Paula arregalou os olhos.
—Para a D. Felicidade Noronha—repetiu Sebastião.—Para
estar deitada... Pois não sabia, homem?
Partiu um pé, tem estado muito mal.
—A D. Felicidade, a amiga
de cá?—e indicou
com o pollegar a casa do Engenheiro.
—Sim, homem! Quebrou um pé na Encarnação.
Até lá ficou. A D. Luiza vai para lá fazer-lhe companhia
todos os dias. Agora ia ella para lá...
—Ah!—fez o Paula lentamente. E depois de
uma pausa:—Mas eu ainda a vi entrar
para cá ha-de
haver oito dias.
—Foi antes d'hontem.—Tossiu e acrescentou,
voltando o rosto, olhando muito umas gravuras:—De
resto a D. Luiza já ia todos os dias á Encarnação,
mas era para vêr a Silveira, a D. Anna Silveira, que
esteve mal. Coitada, ha tres semanas que tem passado
uma vida d'enfermeira. Não sahe da Encarnação!
E agora é a D. Felicidade. Não é má massada!
—Pois não sabia, não sabia—murmurava o
Paula, com as mãos enterradas nos bolsos.
—Mande-me o D. João VI, hein?
—Ás ordens, snr. Sebastião.
Sebastião foi para casa. Subiu á sala; e atirando
o chapéo para o sophá: Bem, pensou, agora
ao menos estão salvas as apparencias!—Passeou
algum tempo com a cabeça baixa; sentia-se triste;
porque o ter conseguido, por um acaso, justificar
aquelles passeios para com a visinhança, fazia-lhe
parecer mais cruel a idéa de que os não podia justificar
para comsigo. Os commentarios dos visinhos
iam findar por algum tempo, mas
os seus?... Queria
achal-os falsos, pueris, injustos: e, contra sua
vontade, o seu bom senso e a sua rectidão estavam
sempre a revolvel-os baixo. Emfim, tinha feito o que
devia! E com um gesto triste, fallando só, no silencio
da sala:
—O resto é com a sua consciencia!
N'essa tarde, na rua, sabia-se já que a D. Felicidade
de Noronha torcera um pé na Encarnação,
(outros diziam quebrára uma perna), e que a D.
Luiza não lhe sahia da cabeceira... O Paula declarára
com authoridade:
—É de boa rapariga, é de muito boa rapariga!
A Gertrudes do doutor foi logo, á noitinha, perguntar
á tia Joanna, «se era verdade da perna quebrada».
A tia Joanna corrigiu: era o pé, torcera o
pé! E a Gertrudes veio dizer ao doutor, ao chá, que
a D. Felicidade déra uma queda que ficára em pedaços.—Foi
na Encarnação, acrescentou. Diz que anda
tudo lá n'uma roda viva. A Luizinha até lá tem
dormido...
—Pieguices de beatas!—rosnou com tedio o
doutor.
Mas na rua todos a elogiavam. Mesmo, d'ahi a
dias, o Teixeira Azevedo (que apenas comprimentava
Luiza), tendo-a encontrado na rua de S. Roque, parou,
e com uma cortezia profunda:
—Desculpe vossencia. Como vai a sua doente?
—Melhor, agradecida.
—Pois, minha senhora, tem sido de muita caridade,
ir todos os dias por este calor á Encarnação...
Luiza corou.
—Coitada! Não lhe falta companhia, mas...
—É de muita caridade, minha senhora—exclamou
com emphase—Tenho-o dito por toda a parte.
É de muita caridade. Um criado de vossencia!
E afastou-se commovido.
Luiza fôra logo, com effeito, vêr D. Felicidade.
Tinha uma luxação simples; e deitada nos quartos
da Silveira, com o pé em compressas d'arnica, cheia
de terror de «perder a perna», passava o dia rodeada
d'amigas, chorando-se, saboreando os mexericos
do Recolhimento, e debicando petiscos.
Apenas alguem entrava para a vêr, redobrava
d'exclamações e de queixas; vinha logo a historia
miuda, incidentada, prolixa da «desgraça»: ia a
descer, a pôr o pé no degrau; escorregára; sentiu
que ia a cahir; ainda se sustentou, e pôde dizer:
Ai Nossa Senhora da Saude! Ao principio a dôr não
foi grande; mas podia ter morrido; tinha sido um
milagre!
Todas as senhoras concordavam «que era realmente
um milagre». Olhavam-na compungidas, e iam
ao côro alternadamente prostrar-se, e pedir aos santos
especiaes o allivio da Noronha!
A primeira visita de Luiza foi para D. Felicidade
uma consolação, «deu-lhe melhoras»; porque se ralava
de estar alli de cama, sem saber noticias d'
elle,
sem poder fallar d'
elle!
E nos dias seguintes, apenas ficava só no quarto
com Luiza, chamava-a logo para a cabeceira, e n'um
murmurio mysterioso: Tinha-o visto? Sabia d'
elle?
—A sua afflicção era que o Conselheiro não soubesse
que ella estava doente, e não lhe podesse dar aquelles
pensamentos compassivos—a que o seu pé tinha
direito, e que seriam um conforto para o seu
coração! Mas Luiza não
o vira—e D. Felicidade,
remexendo
a chásada, exhalava suspiros agudos.
Ás duas horas Luiza sahia da Encarnação—e ia
tomar um trem ao Rocio: para não parar á porta do
Paraiso com espalhafato de tipoia, apeava-se ao
largo
de Santa Barbara; e fazendo-se pequenina, cosida
com a sombra das casas, apressava-se com os olhos
baixos, e um vago sorriso de prazer.
Bazilio esperava-a deitado na cama, em mangas
de camisa: para não se enfastiar, só, tinha trazido
para o
Paraiso uma garrafa de cognac, assucar,
limões—e
com a porta entreaberta fumava, fazendo
grogs frios. O tempo arrastava-se, via a todo o
momento
as horas, e sem querer ia escutando, notando
todos os ruidos intimos da familia da proprietaria
que vivia nos quartos interiores: a rabuje d'uma
criança, uma voz acatarrhoada que ralhava, e de repente
uma cadellinha que começava a ladrar furiosa.
Bazilio achava aquillo burguez e reles, impacientava-se.
Mas um
frou-frou de vestido roçava a escada—e
os tedios d'elle, bem como os receios d'ella,
dissipavam-se logo no calor dos primeiros beijos.
Luiza vinha sempre com pressa; queria estar em
casa ás cinco horas, «e era um estirão depois!» Entrava
um pouco suada, e Bazilio gostava da transpiraçãosinha
tepida que havia nos seus hombros nús.
—E teu marido?—perguntava elle.—Quando
vem?
—Não falla em nada.—Ou então:—Não recebi
carta, não sei nada.
Parecia ser aquella a preoccupação de Bazilio, na
alegria egoista da posse recente. Tinha então caricias
muito extaticas; ajoelhava-se aos pés d'ella; fazia
voz de criança:
—Lili não ama Bibi...
Ella ria, meio despida, com um riso cantado e
libertino.
—Lili adora Bibi!... É douda por Bibi!
E queria saber se pensava n'ella, o que tinha
feito na vespera. Fôra ao Gremio, jogára uns
robbers,
viera para casa cedo, sonhára com ella...
—Vivo para ti, meu amor, acredita!
E deixava-lhe cahir a cabeça no regaço, como
sob uma felicidade excessiva.
Outras vezes, mais serio, dava-lhe certos conselhos
de gôsto, de
toilette: pedira-lhe que não trouxesse
postiços no cabello, que não usasse botinhas
de elastico.
Luiza admirava muito a sua experiencia do luxo;
obedecia-lhe, amoldava-se ás suas idéas:—até affectar,
sem o sentir, um desdem pela gente virtuosa,
para imitar as suas opiniões libertinas.
E lentamente, vendo aquella docilidade, Bazilio
não se dava ao incommodo de se constranger; usava
d'ella,
como se a pagasse! Acontecera uma manhã
escrever-lhe duas palavras a lapis que «não podia
ir ao
Paraiso», sem outras explicações! Uma
occasião mesmo não foi, sem a avisar—e Luiza
achou a porta fechada. Bateu timidamente, olhou pela
fechadura, esperou palpitante—e voltou muito
desconsolada, quebrada do calor, com a poeirada nos
olhos, e vontade de chorar.
Não aceitava o menor incommodo, nem para
lhe causar um contentamento. Luiza tinha-lhe pedido
que fosse de vez em quando aos domingos a sua
casa, passar a noite: viria Sebastião, o Conselheiro,
D. Felicidade quando estivesse melhor: era uma alegria
para ella, e depois dava ás suas relações um
ar mais parente, mais legitimo.
Mas Bazilio pulou:
—O quê! ir cabecear de somno com quatro caturras...
Ah! não!...
—Mas conversa-se, faz-se musica...
—
Merci! Conheço-a, a musica das
soirées de
Lisboa! A valsa do
Beijo e o
Trovador. Safa!
Depois duas ou tres vezes fallára de Jorge com
desdem. Aquillo offendera-a.
Ultimamente mesmo, quando ella entrava no
Paraiso,
já não tinha a delicadeza amorosa de se levantar
alvoroçado: sentava-se apenas na cama, e tirando
preguiçosamente o charuto da bocca:
—Ora viva a minha flôr!—dizia.
E um ar de superioridade quando lhe fallava!
Um modo de encolher os hombros, de exclamar:—Tu
não percebes nada d'isso! Chegava a ter palavras
cruas, gestos brutaes. E Luiza começou a desconfiar
que Bazilio não a estimava,—apenas a desejava!
Ao principio chorou. Resolveu explicar-se com
elle, romper se fosse necessario. Mas adiou, não se
atrevia: a figura de Bazilio, a sua voz, o seu olhar
dominavam-na; e accendendo-lhe a paixão tiravam-lhe
a coragem de a perturbar com queixas. Porque
estava convencida então que o adorava: o que lhe
dava tanta exaltação no
desejo, se não era a
grandeza
do
sentimento?... Gozava tanto, é porque o
amava muito!... E a sua honestidade natural, os
seus pudores refugiavam-se n'este raciocinio subtil.
Elle tinha ás vezes uma seccura aspera de maneiras,
era verdade; certos tons de indifferença, era
certo... Mas n'outros momentos, quantas denguices,
que tremuras na voz, que phrenesi nas caricias!...
Amava-a tambem, não havia duvida. Aquella certeza
era a sua justificação. E como era o Amor que os
produzia, não se envergonhava dos alvoroços voluptuosos
com que ia todas as manhãs ao
Paraiso!
Duas ou tres vezes, ao voltar, tinha encontrado
Juliana que subia tambem apressada o Moinho de
Vento.
—D'onde vinha vossê?—perguntára-lhe em
casa.
—Do medico, minha senhora, fui ao medico.
Queixava-se de pontadas, palpitações, faltas d'ar.
—Flatos! flatos!
Com effeito, Juliana agora fazia todos os arranjos
pela manhã; depois apenas Luiza, pela uma hora,
dobrava a esquina, ia-se vestir, e muito espartilhada
no seu vestido de merino, de chapéo e sombrinha,
vinha dizer a Joanna:
—Até logo, vou ao medico.
—Até logo, snr.
a Juliana—dizia a cozinheira
radiante.
E ia logo fazer signal ao carpinteiro.
Juliana descia por S. Pedro de Alcantara, e tomando
para o largo do Carmo ia á ruasita, defronte
do quartel. Alli morava n'um terceiro andar a sua intima
amiga, a tia Victoria.
Era uma velha que fôra inculcadeira. Ainda tinha
mesmo na cancella, n'uma placa de metal, com letras
negras: «
Victoria Soares, inculcadeira.»
Mas nos ultimos annos a sua industria tornou-se mais
complicada, muito tortuosa.
Exercia-a n'uma saleta esteirada, com mosquiteiros
de papel pendentes do tecto encardido, alumiada
por duas tristes janellas de peito. Um vasto sophá
occupava quasi a parede do fundo: fôra de certo de
reps verde, mas o estofo coçado, comido, remendado,
tinha agora, sob largas nodoas, uma vaga côr parda;
as molas partidas, rangiam com estalidos melancolicos;
a um dos cantos, n'uma cova que o uso cavára,
dormia todo o dia um gato; e um dos lados da madeira
queimada revelava que fôra salvo d'um incendio.
Sobre o sophá pendia a lithographia do senhor
D. Pedro IV. Entre as duas janellas havia uma
commoda
alta; e em cima, entre um Santo Antonio e
um cofre feito de buzios, um macaquinho empalhado,
com olhos de vidro, equilibrava-se sobre um galho
d'arvore. Ao entrar via-se logo, junto da janella
fronteira á porta, a uma mesa coberta de oleado, um
dorso magro e curvado, e um barretinho de sêda
com uma borla arrebitada. Era o snr. Gouvêa, o escripturario!
O ar abafado tinha um cheiro complexo, indefinido—em
que se sentia a cavalhariça, a graxa e o
refogado. Havia sempre gente: grossas matronas de
capote e lenço, face gordalhufa e buço; cocheiros com
o cabello acamado, muito lustroso de oleo, e blusa
de riscadinho: pesados gallegos côr de greda, de passadas
retumbantes e fórmas lôrpas: criadinhas de
dentro, amarelladas, de olheiras, sombrinha de cabo
d'osso, e as luvas de pellica com passagens nas pontas
dos dedos.
Defronte da sala abria-se um quarto que deitava
para o saguão,—por cuja portinha verde se viam ás
vezes desapparecer dorsos respeitaveis de proprietarios,
ou caudas espalhafatosas de vestidos suspeitos.
Em certas occasiões, aos sabbados, juntavam-se
cinco, seis pessoas: velhas fallavam baixo, com gestos
mysteriosos: uma altercação mal abafada roncava
no patamar: rapariguitas de repente desatavam
a chorar; e, impassivel, o snr. Gouvêa escrevinhava
os seus registos, arremessando para o lado jactos melancolicos
de saliva.
A tia Victoria, no entanto, com a sua touca de
renda negra, um vestido rôxo,—ia, vinha, cochichava,
gesticulava, fazia tilintar dinheiro, tirando a
cada momento da algibeira rebuçados de avenca para
o catarrho.
A tia Victoria era uma grande utilidade, tornára-se
um centro! A criadagem reles, mesmo a criadagem
fina, tinha alli para tudo o seu
despacho.
Emprestava
dinheiro aos desempregados; guardava as
economias dos poupados; fazia escrever pelo snr.
Gouvêa as correspondencias amorosas ou domesticas
dos que não tinham ido á escóla; vendia vestidos
em segunda mão; alugava casacas; aconselhava collocações,
recebia confidencias, dirigia intrigas, entendia
de partos. Nenhum criado era inculcado por ella;
mas, arranjados ou despedidos, nunca deixavam de
subir, descer as escadas da tia Victoria. Tinha além
d'isso muitas relações, infinitas condescendencias:
celibatarios maduros iam entender-se com ella, para
o confortosinho d'uma sopeira gordita e nova: era
ella quem inculcava as serventes ás mulheres policiadas;
sabia de certos agiotas discretos. E dizia-se:
a tia Victoria tem mais manhas que cabellos!
Mas, ultimamente, apesar dos seus «afazeres»,
apenas Juliana entrava—levava-a para o quarto
nas trazeiras, fechava a porta, e «havia para meia
hora»!
E Juliana sahia sempre vermelha, os olhos accesos,
feliz! Voltava depressa para casa; e mal entrava:
—A senhora ainda não voltou, snr.
a Joanna?
—Ainda não.
—Está na Encarnação. Coitada! não tem má
cruz, ir aturar a velha! E depois naturalmente vai
dar o seu passeio! Faz ella muito bem! Espairecer!
Joanna era de certo espessa e obtusa; além d'isso
a paixão animal pelo rapazola emparvecia-a. Todavia,
percebera que a snr.
a Juliana andava «muito
derretida pela senhora»: disse-lh'o mesmo um dia:
—Vossemecê agora, snr.
a Juliana, parece mais
na bola da senhora!
—Na bola?
—Sim, quero dizer, mais aquella, mais...
—Mais apegada á senhora?
—Mais apegada.
—Sempre o estive. Mas então! ás vezes a gente
tem os seus repentes... Que olhe, snr.
a Joanna, não
se acha melhor que aqui. Senhora de muito bom genio,
nada de exquisitices, nenhumas prisões... Ai, é
dar louvores ao céo de estarmos n'este descanço.
—E é!
A casa com effeito tinha um aspecto jovial de felicidade
tranquilla: Luiza sahia todos os dias e achava
tudo bom; nunca se impacientava; a sua antipathia
por Juliana parecia dissipada, considerava-a uma
pobre de Christo! Juliana tomava os seus caldinhos,
dava os seus passeios, ruminava. Joanna, muito livre,
muito só em casa, regalava-se com o carpinteiro.
Não vinham visitas. D. Felicidade, na Encarnação,
inundava-se d'arnica. Sebastião fôra para Almada
vigiar as obras. O Conselheiro partira para Cintra,
«dar umas ferias ao espirito, tinha elle dito a
Luiza, e deliciar-se nas maravilhas d'aquelle Eden».
O snr. Julião, «o doutor», como dizia a Joanna, trabalhava
a sua these. As horas eram muito regulares,
havia sempre um silencio pacato. Juliana, um dia, na
cozinha, impressionada por aquelle recolhimento satisfeito
de toda a casa, exclamou para Joanna:
—Não se póde estar melhor! A barca vai n'um
mar de rosas!
E acrescentou, com uma risadinha:
—E eu ao leme!
VII
Por esse tempo, uma manhã que Luiza ia para
o
Paraiso, viu de repente sahir d'um portal, um
pouco adiante do largo de Santa Barbara, a figura
azafamada d'Ernestinho.
—Por aqui, prima Luiza!—exclamou elle logo
muito surprehendido.—Por estes bairros! Que faz
por aqui? Grande milagre!
Vinha vermelho, trazia as bandas do casaco d'alpaca
todas deitadas para traz, e agitava com excitação
um rolo grosso de papeis.
Luiza ficou um pouco embaraçada; disse que viera
fazer uma visita a uma amiga.—Oh! elle não
conhecia, tinha chegado do Porto...
—Ah, bem! bem! E que é feito, como tem passado?
Quando vem o Jorge?—Desculpou-se logo
de a não ter ido vêr; mas é que não tinha uma migalha
livre! De manhã a alfandega, á noite os ensaios...
—Então sempre vai?—perguntou Luiza.
—Vai.
E enthusiasmado:
—E como vai! Um primor! Mas que trabalhão,
que trabalhão!—Agora vinha elle de casa do actor
Pinto, que fazia o papel de amante, de conde de
Monte Redondo; tinha-o ouvido dizer as palavras finaes
do terceiro acto:
Maldição, a sorte funesta esmaga-me!
Pois bem, arcarei braço a braço com a
sorte. Á lucta! Era uma maravilha! Vinha tambem
de lhe dar parte que alterára o monologo do segundo
acto. O empresario achava-o longo...
—Então continúa a implicar, o empresario?
Ernestinho fez uma visagem d'hesitação.
—Implica um bocado...—E com um rosto radioso:—Mas
está delirante! Estão todos delirantes!
Hontem me dizia elle: «Lesminha»... É o nome
que me dão por pandiga. Tem graça, não é verdade?
Dizia-me elle: «Lesminha, na primeira representação
cahe ahi Lisboa em peso! Vossê enterra-os
a todos!» É bom homem! E agora vou-me a casa do
Bastos, o folhetinista da
Verdade. Não conhece?
Luiza não se lembrava bem.
—O Bastos, o da
Verdade!—insistia elle.
E vendo que Luiza parecia alheia ao nome, ao
individuo:
—Ora não conhece outra cousa!—Ia descrever-lhe
as feições, citar-lhes as obras...
Mas Luiza, impaciente, para findar:
—Ah! sim, lembro-me agora. Perfeitamente...
Bem sei!
—Pois é verdade, vou a casa d'elle.—Tomou
um tom compenetrado:—Somos muito amigos, é
muito bom rapaz, e tem um pequerrucho lindo!...—E
apertando-lhe muito a mão:—Adeusinho, prima
Luiza, que não posso perder um momento. Quer
que a vá acompanhar?
—Não, é aqui perto.
—Adeus, recados ao Jorge!
Ia a afastar-se, atarefado, mas voltando-se rapidamente,
correu atraz d'ella.
—Ah! esquecia-me dizer-lhe, sabe que lhe perdoei?
Luiza abriu muito os olhos.
—Á condessa, á heroina!—exclamou Ernestinho.
—Ah!
—Sim, o marido perdôa-lhe, obtem uma embaixada,
e vão viver no estrangeiro. É mais natural...
—De certo!—disse vagamente Luiza.
—E a peça acaba, dizendo o amante, o conde
de Monte Redondo:
E eu irei para a solidão morrer
d'esta paixão funesta! É de muito effeito!—Esteve
um momento a olhal-a, e bruscamente:—Adeus,
prima Luiza, recadinhos ao Jorge!
E abalou.
Luiza entrou no
Paraiso muito contrariada. Contou
o encontro a Bazilio. Ernestinho era tão tolo!
Podia mais tarde fallar n'aquillo, citar a hora, perguntarem-lhe
quem era a amiga do Porto...
E tirando o véo, o chapéo:
—Não, realmente é imprudente vir assim tantas
vezes. Era melhor não vir tanto. Póde-se saber...
Bazilio encolheu os hombros, contrariado:
—Se queres não venhas.
Luiza olhou-o um momento, e curvando-se profundamente:
—Obrigada!
Ia a pôr o chapéo, mas elle veio prender-lhe as
mãos, abraçou-a, murmurando:
—Pois tu fallas em não vir! E eu, então? Eu
que estou em Lisboa por tua causa...
—Não, realmente dizes ás vezes cousas... tens
certos modos...
Bazilio abafou-lhe as palavras com beijos.
—Ta, ta, ta! Nada de questões! Perdôa. Estás
tão linda...
Luiza, ao voltar para casa, veio a reflectir n'aquella
«scena». Não—pensava—já não era a primeira
vez que elle mostrava um desprendimento
muito secco por ella, pela sua reputação, pela sua
saude! Queria-a alli todos os dias, egoistamente.
Que as más linguas fallassem, que as soalheiras a
matassem, que lhe importava? E para que?... Porque
emfim, saltava aos olhos, elle amava-a menos...
As suas palavras, os seus beijos arrefeciam cada
dia, mais e mais!... Já não tinha aquelles arrebatamentos
do desejo em que a envolvia toda n'uma caricia
palpitante, nem aquella abundancia de sensação
que o fazia cahir de joelhos com as mãos tremulas
como as d'um velho!... Já se não arremessava
para ella, mal ella apparecia á porta, como sobre
uma presa estremecida!... Já não havia aquellas
conversas pueris, cheias de risos, divagadas e tontas,
em que se abandonavam, se esqueciam, depois da
hora ardente e physica, quando ella ficava n'uma lassitude
dôce, com o sangue fresco, a cabeça deitada
sobre os braços nús!—Agora! trocado o ultimo beijo,
accendia o charuto, como n'um restaurante ao
fim do jantar! E ia logo a um espelho pequeno que
havia sobre o lavatorio dar uma penteadella no cabello
com um pentesinho d'algibeira! (O que ella odiava
o pentesinho!) Ás vezes até olhava o relogio!...
E em quanto ella se arranjava não vinha, como nos
primeiros tempos, ajudal-a, pôr-lhe o collarinho, picar-se
nos seus alfinetes, rir em volta d'ella, despedir-se
com beijos apressados da nudez dos seus hombros
antes que o vestido se apertasse. Ia rufar nos
vidros,—ou sentado, com um ar macambuzio, bamboleava
a perna!
E depois positivamente não a respeitava, não a
considerava... Tratava-a por cima do hombro, como
uma burguezinha, pouco educada e estreita, que
apenas conhece o seu bairro. E um modo de passear,
fumando, com a cabeça alta, fallando no «espirito
de madame de tal», nas
toilettes da «condessa
de tal»! Como se ella fosse estupida, e os seus vestidos
fossem trapos! Ah, era seccante! E parecia,
Deus me perdôe, parecia que lhe fazia uma honra,
uma grande honra em a possuir... Immediatamente
lembrava-lhe Jorge, Jorge que a amava com tanto
respeito! Jorge, para quem ella era de certo a mais
linda, a mais elegante, a mais intelligente, a mais
captivante!... E já pensava um pouco que sacrificára
a sua tranquillidade tão feliz a um amor bem
incerto!
Emfim, um dia que o viu mais distrahido, mais
frio, explicou-se abertamente com elle. Direita, sentada
no canapé de palhinha, fallou com bom senso,
devagar, com um ar digno e preparado: «Que percebia
bem que elle se aborrecia, que o seu grande
amor tinha passado, que era por tanto humilhante
para ella verem-se n'essas condições, e que julgava
mais digno acabarem...»
Bazilio olhava-a, surprehendido da sua solemnidade;
sentia um estudo, uma affectação n'aquellas
phrases; disse muito tranquillamente, sorrindo:
—Trazias isso decorado!
Luiza ergueu-se bruscamente, encarou-o, teve um
movimento desdenhoso dos labios.
—Tu estás douda, Luiza?
—Estou farta! Faço todos os sacrificios por ti,
venho aqui todos os dias, comprometto-me, e para
que? Para te vêr muito indifferente, muito seccado...
—Mas, meu amor...
Ella teve um sorriso d'escarneo.
—
Meu amor! Oh! são ridiculos esses fingimentos!
Bazilio impacientou-se.
—Já isso cá me faltava, essa scena!—exclamou
impetuosamente. E cruzando os braços diante d'ella:—Mas
que queres tu? Queres que te ame como
no theatro, em S. Carlos? Todas sois assim!
Quando um pobre diabo ama naturalmente, como todo
o mundo, com o seu coração, mas não tem gestos
de tenor, aqui d'el-rei que é frio, que se aborrece,
é ingrato... Mas que queres tu? Queres que me atire
de joelhos, que declame, que revire os olhos,
que faça juras, outras tolices?...
—São tolices que tu fazias...
—Ao principio!—respondeu elle brutalmente.—Já
nos conhecemos muito para isso, minha
rica.
E havia apenas cinco semanas!
—Adeus!—disse Luiza.
—Bem. Vaes zangada?
Ella respondeu, com os olhos baixos, calçando
nervosamente as luvas:
—Não.
Bazilio pôz-se diante da porta, e estendendo os
braços:
—Mas sê razoavel, minha querida. Uma ligação
como a nossa não é o duetto do
Fausto. Eu amo-te;
tu, creio, gostas de mim; fazemos os sacrificios
necessarios, encontramo-nos, somos felizes... Que
diabo queres tu mais? Porque te queixas?
Ella respondeu com um sorriso ironico e triste:
—Não me queixo. Tens razão.
—Mas não vás zangada, então.
—Não...
—Palavrinha?
—Sim...
Bazilio tomou-lhe as mãos.
—Dê então um beijinho em Bibi...
Luiza beijou-o de leve na face.
—Na boquinha, na boquinha!—E ameaçando-a
com o dedo, fitando-a muito:—Ah geniosinho! Tens
bem o sangue do snr. Antonio de Brito, nosso extremoso
tio, que arrepellava as criadas pelos cabellos!—E
sacudindo-lhe o queixo:—E vens ámanhã?
Luiza hesitou um momento:
—Venho.
Entrou em casa exasperada, humilhada. Eram
seis horas. Juliana veio logo dizer-lhe, muito quisilada:
que a Joanna tinha sahido ás quatro horas,
não tinha voltado, o jantar estava por acabar...
—Onde foi?
Juliana encolheu os hombros com um sorrisinho.
Luiza percebeu. Tinha ido a algum amante, a algum
amor... Teve um gesto de piedade desdenhosa.
—Ha-de lucrar muito com isso. Boa tôla!—disse.
Juliana olhou-a espantada.
—Está bebeda!—pensou.
—Bem, que se lhe ha-de fazer?—exclamou
Luiza.—Esperarei...
E passeando pelo quarto, excitada, revolvendo o
seu despeito:
—Que egoista, que grosseiro, que infame! E é
por um homem assim que uma mulher se perde! É
estupido!
Como elle supplicava, se fazia pequenino, humilde
ao principio! O que são os amores dos homens!
Como teem a fadiga facil!
E immediatamente lhe veio a idéa de Jorge!
Esse
não! Vivia com ella havia tres annos—e o seu
amor era sempre o mesmo, vivo, meigo, dedicado.
Mas o
outro! Que indigno!
Já a conhecia
muito! Ah!
estava bem certa agora, nunca a amára, elle! Quizera-a
por vaidade, por capricho, por distracção, para
ter uma mulher em Lisboa! É o que era! Mas
amor? Qual!
E ella mesmo, por fim? Amava-o, ella? Concentrou-se,
interrogou-se... Imaginou casos, circumstancias:
se elle a quizesse levar para longe, para
França, iria? Não! Se por um acaso, por uma desgraça
enviuvasse, antevia alguma felicidade casando
com elle? Não!
Mas então!... E como uma pessoa que destapa
um frasco muito guardado, e se admira vendo o perfume
evaporado, ficou toda pasmada de encontrar o
seu coração vazio. O que a levára então para elle?...
Nem ella sabia; não ter nada que fazer, a
curiosidade romanesca e morbida de ter um amante,
mil vaidadesinhas inflammadas, um certo desejo physico...
E sentira-a por ventura, essa felicidade, que
dão os amores illegitimos, de que tanto se falla nos
romances e nas operas, que faz esquecer tudo na vida,
affrontar a morte, quasi fazel-a amar? Nunca!
Todo o prazer que sentira ao principio, que lhe parecera
ser o amor—vinha da novidade, do saborzinho
delicioso de comer a maçã prohibida, das condições
do mysterio do
Paraiso, d'outras circumstancias
talvez, que nem queria confessar a si mesma,
que a faziam corar por dentro!
Mas que sentia d'extraordinario
agora? Bom Deus,
começava a estar menos commovida ao pé do seu
amante, do que ao pé de seu marido! Um beijo de
Jorge perturbava-a mais, e viviam juntos havia tres
annos! Nunca se seccára ao pé de Jorge, nunca! E
seccava-se positivamente ao pé de Bazilio! Bazilio,
no fim, o que se tornára para ella? era como um
marido pouco amado, que ia amar fóra de casa! Mas
então, valia a pena?...
Onde estava o defeito? No amor mesmo talvez!
Porque emfim, ella e Bazilio estavam nas condições
melhores para obterem uma felicidade excepcional:
eram novos, cercava-os o mysterio, excitava-os a
difficuldade... Porque era então que quasi bocejavam?
É que o amor é essencialmente perecivel, e
na hora em que nasce começa a morrer. Só os começos
são bons. Ha então um delirio, um enthusiasmo, um
bocadinho do céo. Mas depois!... Seria pois necessario
estar sempre a
começar, para poder sempre
sentir?... Era o que fazia Leopoldina. E apparecia-lhe
então nitidamente a explicação d'aquella existencia
de Leopoldina, inconstante, tomando um amante,
conservando-o uma semana, abandonando-o como
um limão espremido, e renovando assim constantemente
a flôr da sensação!—E, pela logica tortuosa
dos amores illegitimos, o seu primeiro amante fazia-a
vagamente pensar no segundo!
Logo no dia seguinte pôz-se a dizer comsigo que
era bem longe o
Paraiso! Que massada, por aquelle
calor, vestir-se, sahir! Mandou saber de D. Felicidade
por Juliana, e ficou em casa, de roupão branco,
preguiçosa, saboreando a sua preguiça.
N'essa tarde recebeu uma carta de Jorge: «que
ainda se demorava, mas que a sua viuvez começava
a pezar-lhe. Quando se veria emfim na sua casinha,
na sua alcovinha?...»
Ficou muito commovida. Um sentimento de vergonha,
de remorso, uma compaixão terna por Jorge,
tão bom, coitado! um indefinido desejo de o vêr e de
o beijar, a recordação de felicidades passadas perturbaram-na
até ás profundidades do seu sêr. Foi logo
responder-lhe, jurando-lhe «que tambem já estava
farta de estar só, que viesse, que era estupida
semelhante separação...» E era sincera n'aquelle
momento.
Tinha fechado o enveloppe, quando Juliana lhe
veio trazer «uma carta do hotel». Bazilio mostrava-se
desesperado: «...Como não vieste, vejo que estás
zangada; mas é de certo o teu orgulho, não o
teu amor que te domina: não imaginas o que senti
quando vi que não vinhas hoje. Esperei até ás cinco
horas; que supplicio! Fui talvez secco, mas tu tambem
estavas implicativa. Devemos perdoar-nos ambos,
ajoelharmos um diante do outro, e esquecer todo
o despeito no mesmo amor... Vem ámanhã. Adoro-te
tanto! Que outra prova queres, que esta que
te dou d'abandonar os meus interesses, as minhas
relações, os meus gostos, e enterrar-me aqui em
Lisboa, etc.»
Ficou muito nervosa, sem saber o que havia de
fazer, o que havia de querer. Aquillo era verdade.
Porque estava elle em Lisboa? Por ella. Mas se reconhecia
agora,—que o não amava, ou tão pouco!
E depois era vil trahir assim Jorge, tão bom, tão
amoroso, vivendo todo para ella. Mas se Bazilio realmente
estivesse tão apaixonado!... As suas idéas
redemoinhavam, como folhas d'outono, violentadas
por ventos contradictorios. Desejava estar tranquilla,
«que a não perseguissem». Para que voltára aquelle
homem? Jesus! que havia de fazer? Tinha os seus
pensamentos, os seus sentimentos n'uma dolorosa
trapalhada.
E na manhã seguinte estava na mesma hesitação.
Iria, não iria? O calor fóra, a poeirada da rua faziam-lhe
appetecer mais a casa! Mas que desapontamento,
o do pobre rapaz tambem! Atirou ao ar uma
moeda de cinco tostões. Era cunho, devia ir. Vestiu-se,
sem vontade, seccada,—tendo todavia um certo
desejo dos refinamentos de prazer que dão as expansões
da reconciliação...
Mas que surpreza! esperava encontral-o humilde
e de joelhos, achou-o com a testa franzida e muito
aspero.
—Luiza, parece incrivel, porque não vieste hontem?
Na vespera, Bazilio, quando viu que ella faltava,
teve um grande despeito e um medo maior; a sua
concupiscencia receou perder aquelle lindo corpo de
rapariga, e o seu orgulho escandalisou-se de vêr libertar-se
aquella escravasinha docil. Resolveu portanto,
a todo o custo, «chamal-a ao rego». Escreveu-lhe;
e mostrando-se submisso para a attrahir, decidiu
ser severo para a castigar.—E acrescentou:
—É uma criancice ridicula. Porque não vieste?
Aquelle modo enraiveceu-a:
—Porque não quiz.
Mas emendou logo:
—Não pude.