Nota de editor:
Devido à
existência de erros tipográficos neste texto,
foram tomadas várias decisões quanto à
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mantida de acordo com o original. No final deste livro
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Rita
Farinha (Dezembro 2013)
CINCO MINUTOS
J. DE ALENCAR
CINCO MINUTOS
EDIÇÃO ESPECIAL
RIO DE JANEIRO
Typ. Mont'Alverne—Rua do Ouvidor 82
1894
A D***
I
É uma historia curiosa a que lhe
vou contar, minha prima. Mas é uma
historia, e não um romance.
Ha mais de dous annos, seriam seis
horas da tarde, dirigi-me ao Rocio para
tomar o omnibus de Andarahy.
Sabe que sou o homem o menos
pontual que ha n'este mundo: entre os
os meus immensos defeitos e as minhas
poucas qualidades, não conto a
pontualidade
essa virtude dos reis, e esse
mão costume dos Inglezes.
Enthusiasta da liberdade, não
posso admittir de modo algum que o
homem se escravise ao seu relogio e regule
as suas acções pelo movimento de
uma pendula.
Tudo isto quer dizer que, chegando
ao Rocio, não vi mais omnibus algum;
o empregado á quem dirigi-me respondeu:
—Partio ha cinco minutos.
Resignei-me, e esperei pelo omnibus
de sete horas.
Anoiteceu.
Fazia uma noite de inverno fresca
e humida: o céo estava calmo, mas sem
estrellas.
Á hora marcada chegou o omnibus,
e apressei-me á ir a tomar o meu
lugar.
Procurei, como costumo, o fundo
do carro, afim de ficar livre das conversas
monotonas dos recebedores, que
de ordinario têm sempre uma anecdota
insipida á contar, ou uma queixa á fazer
sobre o máo estado dos caminhos.
O canto já estava occupado por um
monte de sedas, que deixou escapar-se
um ligeiro farfalhar, conchegando-se
para dar-me lugar.
Sentei-me; prefiro sempre o contacto
da seda á vizinhança da casimira
ou do panno.
O meu primeiro cuidado foi ver si
conseguia descobrir o rosto e as fórmas
que se escondiam n'essas nuvens de
seda e de rendas.
Era impossivel.
Além de estar escura a noite, um
maldito véo cahido de um chapéozinho
de palha não me deixava a menor
esperança.
Resignei-me, e assentei que o melhor
era cuidar de outra cousa.
Já o meu pensamento tinha-se lançado
á galope pelo mundo da fantasia,
quando de repente foi obrigado á voltar
por uma circumstancia bem simples.
Senti no meu braço o contacto suave
de um outro braço, que me parecia
macio e avelludado como uma folha de
rosa.
Quiz recuar, mas não tive animo;
deixei-me ficar na mesma posição, e
scismei que estava sentado perto de
uma mulher que me amava e que se
apoiava sobre mim.
Pouco e pouco fui cedendo áquella
attracção irresistivel e reclinando-me
insensivelmente: a pressão tornou-se
mais forte; senti o seu hombro tocar de
leve o meu; e por acaso encontrei uma
mãozinha delicada e mimosa que
deixou-se apertar á medo.
Assim, fascinado ao mesmo tempo
pela minha illusão e por este contacto
voluptuoso, esqueci-me, á ponto que,
sem tino do que fazia, e, favorecido
pela obscuridão, passei-lhe a mão pela
cintura e cerrei seu talhe delicado.
Ella soltou um grito, que foi tomado
naturalmente como susto causado
pelos solavancos do omnibus, e refugiou-se
no canto.
Meio arrependido do que tinha
feito, voltei-me como para olhar pela
portinhola do carro, e, approximando-me
d'ella, disse-lhe quasi ao ouvido:
—Perdão!
Não respondeu; conchegou-se ainda
mais ao canto.
Tomei uma resolução heroica.
—Vou descer; não a incommodarei
mais.
Ditas estas palavras rapidamente,
de modo que só ella ouvisse, inclinei-me
para mandar parar.
Mas sentì outra vez a sua mãosinha,
que apertava docemente a minha,
para impedir-me de sahir.
Está entendido que não resisti, e
que deixei-me ficar; ella conservava-se
sempre longe de mim, mas tinha-mè
abandonado a mão, que apertava respeitosamente.
De repente veio-me uma idéa. Si
fosse feia! si fosse velha! si fosse uma
e outra cousa!
Fiquei frio, e comecei á reflectir.
Esta mulher, que sem me conhecer
me permittia o que só se permitte ao
homem que se ama, não podia deixar
com effeito de ser feia e muito feia.
Não lhe sendo facil achar um namorado
de dia, ao menos agarrava-se á
este, que de noite e ás cegas lhe proporcionára
o acaso.
É verdade que essa mão delicada,
essa espadua avelludada... Illusão! Era
a disposição em que eu estava!
A imaginação é capaz de maiores
esforços ainda.
N'esta marcha, o meu espirito em
alguns instantes tinha chegado á uma
convicção inabalavel sobre a fealdade
de minha vizinha.
Para adquirir a certeza renovei o
exame que tentára á principio aproveitando-me
da luz furtiva de algum raro
lampião acceso: porém ainda d'esta vez
foi baldado; estava tão bem envolvida
no seu mantelete e no seu véo, que nem
um traço do rosto trahia seu incognito.
Mais uma prova! Uma mulher bonita
deixa-se admirar, e não se esconde
como uma perola dentro da sua ostra.
Decididamente era feia, enormemente
feia!
N'isto ella fez um movimento entreabrindo
o seu mantelete, e um bafejo
suave de aroma de sandalo exhalou-se.
Aspirei voluptuosamente essa onda
de perfume, que se infiltrou em minha
alma como um effluvio celeste.
Não se admire, minha prima,
tenho uma theoria á respeito dos perfumes.
A mulher é uma flôr que se estuda,
como a flôr do campo, pelas suas côres,
pelas suas folhas e sobretudo pelo seu
perfume.
Dada a côr predilecta de uma
mulher desconhecida, o seu modo de
trajar e o seu perfume favorito, vou
descobrir, com a mesma exactidão de
um problema algebrico, si ella é bonita
ou feia.
De todos estes indicios, porém, o
mais seguro é o perfume; e isto por um
segredo da natureza, por uma lei mysteriosa
da creação, que não sei explicar.
Porque é que Deos deu o aroma
mais delicado á rosa, ao heliotropo, á
violeta, ao jasmim, e não á essas flôres
sem graça e sem belleza, que só servem
para realçar as suas irmãs?
É de certo por esta mesma razão
que Deos só dá á mulher linda esse
tacto delicado e subtil, esse gosto apurado,
que sabe distinguir o aroma mais
perfeito.
Já vê, minha prima, porque esse
odor de sandalo foi para mim como
uma revelação.
Só uma mulher distincta, uma
mulher de sentimento, sabe comprehender
toda a poesia d'esse perfume
oriental, d'esse
hatchiss do olfacto, que
nos embala nos sonhos brilhantes das
Mil e uma Noites, que nos falla da
India, da China, da Persia, dos esplendores
da Asia e dos mysterios do berço
do sol.
O sandalo é o perfume das odaliscas
de Stamboul e das houris do propheta;
como as borboletas que se alimentam
de mel, a mulher de Oriente vive com
as gottas d'essa essencia divina.
Seu berço é de sandalo; seus collares,
suas pulseiras, o seu leque, são de
sandalo; e, quando a morte vem quebrar
o fio d'essa existencia feliz, é ainda
em uma urna de sandalo que o amor
guarda as suas cinzas queridas.
Tudo isto passou-me pelo pensamento,
como um sonho, emquanto eu
aspirava ardentemente a exhalação
fascinadora, que foi á pouco e pouco
desvanecendo-se.
Era bella!
Tinha toda a certeza; d'esta vez
era uma convicção profunda e inabalavel.
Com effeito, uma mulher de distinção,
uma mulher de alma elevada, si
fosse feia, não dava sua mão á beijar á
um homem que podia repellil-a quando
a conhecesse; não se expunha ao escarneo
e ao desprezo.
Era bella!
Mas não a podia ver, por mais esforços
que fizesse; via-a com os olhos
da alma, fazia o seu retrato imaginario.
O omnibus parou; uma outra senhora
ergueu-se e sahio.
Senti que
sua mão apertava a
minha; vi uma sombra passar diante
de meus olhos no meio do
ruge-ruge
de um vestido, e quando dei accordo
de mim rodava o carro e eu tinha perdido
a minha visão.
Resoava-me ainda ao ouvido uma
palavra murmurada, ou antes suspirada
quasi imperceptivelmente:
—
Non ti scordar di me!...
Lancei-me fóra do omnibus; caminhei
á direita e á esquerda; andei
como um louco até nove horas da noite.
Nada!
II
Quinze dias se passáram depois da
minha aventura.
Durante este tempo é escusado dizer-lhe
as extravagancias que fiz.
Fui todos os dias á Andarahy no
omnibus das sete horas, para ver si encontrava
a minha desconhecida; indaguei
de todos os passageiros si a
conheciam, e não obtive a menor informação.
Estava á braços com uma paixão,
minha prima, e com uma paixão de
primeira força e de alta pressão, capaz
de fazer vinte milhas por hora.
Quando sahia não via ao longe um
vestido de seda preta e um chapéo de
palha que não lhe désse caça, até fazel-o
chegar á abordagem..
No fim descobria alguma velha ou
alguma costureira desgeitosa, e continuava
tristemente meu caminho,
atrás d'essa sombra impalpavel, que eu
procurava havia quinze longos dias,
isto é, um seculo para o pensamento de
um amante.
Um dia estava em um baile, triste
e pensativo, como um homem que ama
uma mulher e não conhece a mulher
que ama.
Recostei-me á uma porta, e d'ahi
via passar diante de mim uma myriada
brilhante e esplendida, pedindo á todos
aquelles rostos indifferentes um olhar,
um sorriso, que me désse á conhecer
aquella que eu procurava.
Assim preoccupado, quasi não dava
fé do que se passava junto de mim,
quando senti um leque tocar no meu
braço, e uma voz que vivia no meu coração,
uma voz que cantava dentro de
minha alma, murmurou:
—
Non ti scordar di me!...
Voltei-me.
Corri um olhar pelas pessoas que
estavam junto de mim, e apenas vi uma
velha que passeava pelo braço de seu
cavalheiro, abanando-se com um leque.
—Será ella, meu Deos? pensei eu
horrorisado.
E, por mais que fizesse, meus olhos
não se podiam destacar d'aquelle rosto
cheio de rugas.
A velha tinha uma expressão de
bondade e de sentimento que devia
attrahir a sympatia; mas n'aquelle
momento essa belleza moral, que illuminava
aquella physionomia intelligente,
pareceu-me horrível e até repugnante.
Amar quinze dias uma sombra,
sonhal-a bella como um anjo, e por
fim encontrar uma velha de cabellos
brancos, uma velha
coquette e namoradeira!
Não, era possivel! Naturalmente
a minha desconhecida tinha fugido
antes que eu tivesse tempo de vêl-a.
Essa esperança consolou-me; mas
durou apenas um segundo.
A velha fallou, e na sua voz eu reconheci,
apezar de tudo, apezar de mim
mesmo, o timbre doce e avelludado que
ouvira duas vezes.
Em face da evidencia não havia
mais que duvidar. Eu tinha amado
uma velha, tinha beijado sua mão
enrugada com delirio, tinha vivido
quinze dias de sua lembrança.
Era para fazer-me enlouquecer ou
rir; não me ri nem enlouqueci, mas
fiquei com tal tedio e aborrecimento
de mim mesmo que não posso exprimir.
Que peripecias, que lances, porém,
não me reservava ainda esse drama,
tão simples e obscuro!
Não distingui as primeiras palavras
da velha logo que ouvi a sua
voz; foi só passado o primeiro espanto
que percebi o que dizia.
—Ella não gosta de bailes.
—Pois admira, replicou o cavalheiro;
na sua idade!
—Que quer! não acha prazer n'estas
festas ruidosas, e n'isto mostra bem que
é minha filha.
A velha tinha uma filha, e isto
podia explicar a semelhança extraordinaria
da voz. Agarrei-me á esta
sombra, como um homem que caminha
no escuro.
Resolvi-me á seguir a velha toda a
noite, até que ella se encontrasse com
sua filha: desde este momento era o
meu fanal, a minha estrella polar.
A senhora e o seu cavalheiro entráram
na saleta da escada. Separado
d'ella um instante pela multidão, ia
seguil-a.
N'isto ouço uma voz alegre dizer da
saleta:
-Vamos, mamãi!
Corri, e apenas tive tempo de perceber
os folhos de um vestido preto, envolto
n'um largo
bornou de seda
branca, que desappareceu ligeiramente
na escada.
Atravessei a saleta tão depressa
como me permittio a multidão, e, pisando
callos, dando encontrões á direita
e á esquerda, cheguei emfim á
porta da sahida.
O meu vestido preto sumio-se pela
portinhola de um
coupé, que partio á
trote largo.
Voltei ao baile desanimado; á
minha unica esperança era a velha;
por ella podia tomar informações, saber
quem era a minha desconhecida, indagar
o seu nome e a sua morada,
acabar emfim com este enigma, que me
matava de emoções violentas e contrarias.
Indaguei d'ella.
Mas como era possivel designar
uma velha da qual eu só sabia pouco
mais ou menos a idade?
Todos os meus amigos tinham visto
muitas velhas, porém não tinham
olhado para ellas.
Retirei-me triste e abatido, como
um homem que se vê em luta contra o
impossivel.
De duas vezes que a minha visão
me tinha apparecido, só me restava
uma lembrança, um perfume e uma
palavra!
Nem siquer um nome!
Á todo momento parecia-me ouvir
na briza da noite essa phrase do
Trovador,
tão cheia de melancolia e de
sentimento, que resumia para mim
toda uma historia.
Desde então não se representava
uma só vez esta opera em que eu não
fosse ao theatro, ao menos para ter o
prazer de ouvil-a repetir.
Á principio, por uma intuição natural,
julguei que
ella devia, como eu,
admirar essa sublime harmonia de
Verdi, que devia tambem ir sempre ao
theatro.
O meu binoculo examinava todos
os camarotes com uma attenção meticulosa;
via moças bonitas ou feias,
mas nenhuma d'ellas me fazia palpitar
o coração.
Entrando uma vez no theatro e
passando a minha revista costumada,
descobri finalmente na terceira ordem
sua mãi, a minha estrella, o fio de
Ariadne que me podia guiar n'este labyrintho
de duvidas.
A velha estava só na frente do camarote,
e de vez em quando voltava-se
para trocar uma palavra com alguem,
sentado no fundo.
Senti uma alegria ineffavel.
O camarote proximo estava vazio;
perdi quasi todo o espectaculo á procurar
o cambista incumbido de vendêl-o.
Por fim achei-o, e subi de um
pulo as tres escadas.
O coração queria saltar-me quando
abri a porta do camarote e entrei.
Não me tinha enganado; junto da
velha vi um chapéozinho de palha com
um véo preto rocegado, que não me
deixava ver o rosto da pessoa á quem
pertencia.
Mas eu tinha adivinhado que era
ella; e sentia um prazer indefinivel
em olhar aquellas rendas e fitas, que
me impediam de conhecêl-a, mas que
ao menos lhe pertenciam.
Uma das fitas do chapéo tinha cahido
do lado do meu camarote, e, em
risco de ser visto, não pude soster-me e
beijei-a á furto.
Representava-se a
Traviata, e era
o ultimo acto; o espectaculo ia acabar,
e eu ficaria no mesmo estado de
incerteza.
Arrastei as cadeiras do camarote,
tossi, deixei cahir o binoculo, fiz um
barulho insupportavel, para ver si
ella
voltava o rosto.
A platéa pedio silencio; todos os
olhos procuráram conhecer a causa do
rumor; porém
ella não se moveu; com
a cabeça meio inclinada sobre a columna,
em uma languida inflexão, parecia
toda entregue ao encanto da musica.
Tomei um partido.
Encostei-me á mesma columna, e
em voz baixa balbuciei estas palavras:
—Não me esqueço!
Estremeceu e, abaixando rapidamente
o véo, conchegou ainda mais o
largo
bornou de setim branco.
Cuidei que ia voltar-se, mas enganei-me;
esperei muito tempo, e debalde.
Tive então um movimento de despeito
e quasi de raiva; depois de um
mez que eu guardava a maior fidelidade
á sua sombra,
ella me recebia
assim friamente.
Revoltei-me.
—Comprehendo agora, disse eu em
voz baixa e como fallando á um amigo
que estivesse á meu lado, comprehendo
porque ella me foge, porque conserva
esse mysterio; tudo isto não passa de
uma zombaria cruel, de uma comedia,
em que eu faço o papel do amante ridiculo.
Realmente é uma lembrança
engenhosa! Lançar em um coração o
germen de um amor profundo; alimental-o
de tempos a tempos com uma
palavra, excitar a imaginação pelo
mysterio; e depois, quando esse namorado
de uma sombra, de um sonho, de
uma illusão, passear pelo salão a sua
figura triste e abatida, mostral-o á suas
amigas como uma victima immolada
aos seus caprichos, e escarnecer do
louco! É espirituoso! O orgulho da
mais vaidosa mulher deve ficar satisfeito!
Emquanto eu proferia estas palavras,
repassadas de todo o fel que tinha
no coração, a Charton modulava com
a sua voz sentimental essa linda aria
final da
Traviata, interrompida por
ligeiros accessos de uma tosse secca.
Ella tinha curvada a cabeça, e não
sei si ouvia o que eu lhe dizia ou o que
a Charton cantava; de vez em quando
as suas espaduas se agitavam com um
tremor convulsivo, que eu tomei injustamente
por um movimento de impaciencia.
O espectaculo terminou, as pessoas
do camarote sahiram, e
ella, levantando
sobre o chapéu o capuz de seu manto,
acompanhou-as lentamente.
Depois,
fingindo que se tinha esquecido
de alguma cousa, tornou á entrar
no camarote, e estendeu-me a mão.
—Não saberá nunca o que me fez
soffrer, disse-me com a voz tremula.
Não pude ver-lhe o rosto; fugio,
deixando-me o seu lenço impregnado
d'esse mesmo perfume de sandalo e
todo molhado de lagrimas ainda quentes.
Quiz seguil-a; mas ella fez um
gesto tão supplicante que não tive
animo de desobedecer-lhe.
Estava como d'antes; não a conhecia,
não sabia nada á seu respeito;
porém ao menos possuia alguma cousa
d'ella; o seu lenço era para mim uma
reliquia sagrada.
Mas as lagrimas? Aquelle soffrimento
de que ella fallava? O que queria
dizer tudo isto?
Não comprendia; si eu tinha sido
injusto, era uma razão para não continuar
á esconder-se de mim. Que queria
dizer este mysterio, que parecia obrigada
á conservar?
Todas estas perguntas e as conjecturas
á que ellas davam lugar não
me deixáram dormir.
Passei uma noite de vigilia á fazer
supposições, cada qual mais desarrazoada.
III
Recolhendo-me no dia seguinte,
achei em casa uma carta.
Antes de abril-a conheci que era
d'ella, porque lhe tinha imprimido
esse suave perfume que a cercava
como uma aureola.
Eis o que dizia:
«Julga mal de mim, meu amigo;
nenhuma mulher póde escarnecer de
um nobre coração como o seu.
Si me occulto, si fujo, é porque
ha uma fatalidade que á isto me obriga.
E só Deus sabe quanto me custa este
sacrificio, porque o amo!
Mas não devo ser egoista e trocar
sua felicidade por um amor desgraçado.
Esqueça-me.
C.»
Essa assignatura era a mesma
lettra que marcava o seu lenço, e á
qual eu desde a vespera pedia debalde
seu nome!
Reli não sei quantas vezes esta
carta, e, apezar da delicadeza de sentimento
que parecia ter dictado suas palavras,
o que para mim tornava-se bem
claro é que ella continuava á fugir-me.
Fosse qual fosse esse motivo que
ella chamava uma fatalidade, e que eu
suppunha ser apenas escrupulo, sinão
uma zombaria, o melhor era aceitar o
seu conselho e fazer por esquecel-a.
Reflecti então seriamente sobre a
extravagancia da minha paixão, e assentei
que com effeito precisava tomar
uma resolução decidida.
Não era possivel que continuasse á
correr atrás de um fantasma que esvaecia-se
quando ia tocal-o.
Aos grandes males os grandes remedios,
como diz Hippocrates. Resolvi
fazer uma viagem.
Mandei sellar o meu cavallo, metti
alguma roupa em um sacco de viagem,
embrulhei-me no meu capote e sahi,
sem me importar com a manhã de
chuva que fazia.
Não sabia para onde iria. O meu
cavallo levou-me para o Engenho-Velho,
e eu d'ahi encaminhei-me para
a Tijuca, onde cheguei ao meio-dia, todo
molhado e fatigado pelos máos caminhos.
Si algum dia se apaixonar, minha
prima, aconselho-lhe as viagens como
um remedio soberano e talvez o unico
efficaz.
Deram-me um excellente almoço no
hotel; fumei um charuto, e dormi doze
horas, sem ter um sonho, sem mudar
de lugar.
Quando accordei, o dia despontava
sobre as montanhas da Tijuca.
Uma bella manhã, fresca e rociada
das gottas do orvalho, desdobrava o
seu manto de azul por entre a cerração,
que se desvanecia aos raios do sol.
O aspecto d'esta natureza quasi
virgem, esse céo brilhante, essa luz esplendida
cahindo em cascatas de ouro
sobre as encostas dos rochedos, serenou-me
completamente o espirito.
Fiquei alegre, o que ha muito
tempo não me succedia.
O meu hospede, um Inglez franco
e cavalheiro, convidou-me para acompanhal-o
á caça; gastámos todo o dia
á correr atrás de duas ou tres marrecas
e á bater as margens da Restinga.
Assim passei nove dias na Tijuca,
vivendo uma vida estupida quanto
póde ser; dormindo, caçando e jogando
o bilhar.
Na tarde do decimo dia, quando já
me suppunha perfeitamente curado e
estava contemplando o sol, que se escondia
por detrás dos montes, e a lua,
que derramava no espaço a sua luz
doce e assetinada, fiquei triste de repente.
Não sei que caminho tomáram as
minhas idéas; o caso é que d'ahi á
pouco descia a cerra no meu cavallo,
lamentando esses nove dias, que talvez
tivessem feito perder para sempre a
minha desconhecida.
Accusava-me de infidelidade, de
traição; a minha fatuidade dizia-me
que eu devia ao menos ter-lhe dado o
prazer de ver-me.
Que importava que ella me ordenasse
que a esquecesse? Não me tinha
confessado que me amava, e não devia
eu resistir e vencer essa fatalidade,
contra a qual ella, fraca mulher, não
podia lutar?
Tinha vergonha de mim mesmo;
achava-me egoista, cobarde, irreflectido,
e revoltava-me contra tudo, contra
o meu cavallo, que me levára á Tijuca,
e o meu hospede, cuja amabilidade
alli me havia demorado.
Com esta disposição de espirito
cheguei á cidade, mudei de trajo, e ia
sahir, quando o meu moleque deu-me
uma carta.
Era d'ella.
Causou-me uma sorpresa misturada
de alegria e de remorso:
«Meu amigo.
Sinto-me com coragem de sacrificar
o meu amor á sua felicidade;
mas ao menos deixe-me o consolo de
amal-o.
Ha dous dias que espero debalde
vêl-o passar, e acompanhal-o de longe
com um olhar! Não me queixo; não
sabe nem deve saber em que ponto de
seu caminho o som de seus passos faz
palpitar um coração amigo.
Parto hoje para Petropolis, d'onde
voltarei breve; não lhe peço que me
acompanhe, porque devo ser-lhe sempre
uma desconhecida, uma sombra
escura que passou um dia pelos sonhos
dourados de sua vida.
Entretanto, eu desejava vêl-o
ainda uma vez, apertar a sua mão e
dizer-lhe adeus para sempre.
C.»
A carta tinha a data de 3; nós estavamos
a 10; havia oito dias que ella
partira para Petropolis e que me esperava.
No dia seguinte embarquei na
Prainha e fiz essa viagem da bahia, tão
pittoresca, tão agradavel, e ainda tão
pouco apreciada.
Mas então a magestade d'essas
montanhas de granito, a poesia d'esse
vasto seio de mar, sempre alisado como
um espelho, os grupos de ilhotas graciosas
que bordam a bahia, nada d'isto
me preoccupava.
Só tinha uma idéa—chegar; e o
vapor caminhava menos rapido do que
meu pensamento.
Durante a viagem pensava n'essa
circumstancia que a sua carta me revelára,
e fazia-me por lembrar de todas
as ruas por onde costumava passar,
para ver si adivinhava aquella onde
ella morava, e d'onde todos os dias me
via sem que eu suspeitasse.
Para um homem como eu, que
andava todo o dia desde a manhã até a
noite, á ponto de merecer que a senhora,
minha prima, me appellidasse
de Judêo Errante, este trabalho era
improficuo.
Quando cheguei á Petropolis eram
cinco horas da tarde; estava quasi
noite.
Entrei n'esse hotel suisso, ao qual
nunca mais voltei, e emquanto me
serviam um magro jantar, que era o
meu almoço, tomei informações.
—Têm subido estes dias muitas familias?
perguntei ao criado.
—Não, senhor.
—Mas ha cousa de oito dias não
vieram da cidade duas senhoras?
—Não estou certo.
—Pois indague, que preciso saber
e já; isto o ajudará á obter informações.
A physionomia sizuda do criado
expandio-se ao tinir da moeda, e a lingua
adquiriu a sua elasticidade natural.
—Talvez o senhor queira fallar de
uma senhora já idosa que veio acompanhada
de sua filha.
—É isso mesmo.
—A moça parece doente; nunca a
vejo sahir.
—Onde está morando?
—Aqui perto, na rua de...
—Não conheço as ruas de Petropolis;
o melhor é acompanhar-me e vir
mostrar-me a casa.
—Sim, senhor.
O criado seguio-me, e tomámos por
uma das ruas agrestes da cidade
allemã.
IV
A noite estava escura.
Era uma d'essas noites de Petropolis,
envoltas de nevoeiro e cerração.
Caminhavamos mais pelo tacto do
que pela vista, difficilmente distinguiamos
os objectos á uma pequena
distancia; e muitas vezes, quando o
meu guia se apressava, o seu vulto perdia-se
nas trevas.
Em alguns minutos chegámos em
face de um pequeno edificio construido
á alguns passos do alinhamento, e
cujas janellas estavam esclarecidas por
uma luz interior.
—É alli.
—Obrigado.
O criado voltou, e eu fiquei junto
d'essa casa, sem saber o que ia fazer.
A idéa de que estava perto d'ella,
que via a luz que a esclarecia, que tocava
a relva que ella pisára, fazia-me
feliz.
É cousa singular, minha prima!
O amor, que é insaciavel e exigente, e
não se satisfaz com tudo quanto uma
mulher póde dar, que deseja o impossivel,
ás vezes contenta-se com um simples
gozo d'alma, com uma d'essas
emoções delicadas, com um d'esses
nadas,
dos quaes o coração faz um mundo
novo e desconhecido.
Não pense, porém, que eu fui á
Petropolis só para contemplar com enlevo
as janellas de um
chalet; não: ao
passo que sentia esse prazer, reflectia
no meio de vêl-a e de fallar-lhe.
Mas como?...
Si soubesse todos os expedientes,
cada qual mais extravagante, que inventou
a minha imaginação! Si visse
a elaboração tenaz á que se entregava
o meu espirito para descobrir um meio
de dizer-lhe que eu estava alli e a esperava!
Por fim achei um; si não era o
melhor, era o mais prompto.
Desde que chegára, tinha ouvido
uns preludios de piano, mas tão debeis
que pareciam antes tirados por uma
mão distrahida que roçava o teclado do
que por uma pessoa que tocasse.
Isto me fez lembrar que ao meu
amor se prendia a recordação de uma
bella musica de Verdi; e foi quanto
bastou.
Cantei, minha prima, ou antes
assassinei aquella linda
romanza; os
que me ouvissem tomar-me-hiam por
algum furioso; mas ella me comprehenderia.
E de facto, quando eu acabei de estropeiar
esse trecho magnifico de harmonia
e sentimento, o piano, que havia
emmudecido, soltou um trilho brilhante
e sonoro, que acordou os echos
adormecidos no silencio da noite.
Depois d'aquella cascata de sons
magestosos, que se precipitavam em
ondas de harmonia, do seio d'aquelle
turbilhão de notas, que se cruzavam,
deslisou plangente, suave e melancolica,
uma voz que sentia e palpitava,
exprimindo todo o amor que respira a
melodia sublime de Verdi.
Era ella quem cantava!
Oh! não posso pintar-lhe, minha
prima, a expressão profundamente
triste, a angustia de que ella repassou
aquella phrase de despedida: