Non ti scordar di me
Addio!...
Partia-me a alma.
Apenas acabou de cantar, vi desenhar-se
uma sombra em uma das janellas;
saltei a grade do jardim; mas
as venezianas descidas não me permittiram
ver o que se passava na sala.
Sentei-me sobre uma pedra e esperei.
Não se ria, D***; estava resolvido
á passar alli a noite ao relento, olhando
para aquella casa, e alimentando a esperança
de que ella viria ao menos com
uma palavra compensar o meu sacrificio.
Não me enganei.
Havia meia hora que a luz da sala
tinha desapparecido e que toda a casa
parecia dormir, quando abrio-se uma
das portas do jardim, e eu vi ou antes
presenti a sua sombra na sala.
Recebeu-me sem sorpresa, sem
temor; naturalmente e como si eu
fosse seu irmão ou seu marido. É
porque o amor puro tem bastante delicadeza
e bastante confiança para dispensar
o falso pejo, o pudor de convenção
de que ás vezes costumam cercal-o.
—Eu sabia que sempre havia de
vir, disse-me ella.
—Oh! não me culpe! si soubesse!
—Eu culpal-o? Quando mesmo
não viesse, não tinha direito de queixar-me.
—Porque não me ama!
—Pensa isto? disse-me com uma
voz cheia de lagrimas.
—Não! não!... Perdôe!
—Perdôo-lhe, meu amigo, como já
lhe perdoei uma vez; julga que lhe
fujo, que me occulto, porque não o amo,
e entretanto não sabe que a maior
felicidade para mim seria poder dar-lhe
a minha vida.
—Mas então porque esse mysterio?
—Esse mysterio, bem sabe, não é
uma cousa creada por mim, e sim pelo
acaso; si o conservo é porque, meu
amigo... não deve amar.
—Não a devo amar! Mas eu
amo-a!...
Recostou a cabeça no meu hombro,
e eu senti uma lagrima cahir sobre meu
seio.
Estava tão perturbado, tão commovido
d'essa situação incomprehensivel,
que senti-me vacilar, e deixei-me
cahir sobre o sofá.
Ella sentou-se junto de mim; e, tomando-me
as duas mãos, disse-me um
pouco mais calma:
—Diz que me ama!
—Juro-lhe!
—Não se illude talvez?
—Si a vida não é uma illusão, respondi,
penso que não, porque a minha
vida agora é você, ou antes a sua
sombra.
—Muitas vezes toma-se um capricho
por amor; não conhece de
mim, como diz, sinão a minha sombra!...
—Que me importa?...
—E si eu fosse feia? disse ella
rindo.
—É bella como um anjo! Tenho
toda a certeza.
—Quem sabe?
—Pois bem; convença-me, disse
eu passando-lhe o braço pela cintura e
procurando leval-a para uma sala vizinha,
d'onde filtravam os raios de uma luz.
Desprehendeu-se do meu braço.
A sua voz tornou-se grave e triste.
—Escute, meu amigo; fallemos
seriamente. Diz que me ama; eu o
creio, eu o sabia antes mesmo que me
dissesse. As almas como as nossas
quando se encontram se reconhecem
e se comprehendem. Mas ainda é
tempo; não julga que mais vale conservar
uma recordação do que entregar-se
á um amor sem esperança e sem
futuro?...
—Não, mil vezes não! Não entendo
o que quer dizer; o meu amor,
o meu, não precisa de futuro e de esperança,
porque o tem em si, porque
viverá sempre!...
—Eis o que eu temia; e entretanto
eu sabia que assim havia de acontecer;
quando se tem a sua alma ama-se de
uma só vez.
—Então porque exige de mim
um sacrificio que sabe ser impossivel?
—Porque, disse ella com exaltação,
porque, si ha uma felicidade indefinivel
em duas almas que ligam sua vida,
que se confundem na mesma existencia,
que só têm um passado e um futuro
para ambas, que desde a flôr da
idade até a velhice caminham juntas
para o mesmo horizonte, partilhando
os seus prazeres e as suas magoas, revendo-se
uma na outra até o momento
em que batem as azas e vão abrigar-se
no seio de Deos; deve ser cruel, bem
cruel, meu amigo, quando, tendo-se
apenas encontrado, uma d'essas duas
almas irmãs fugir d'este mundo, e a
outra, viuva e triste, fôr condemnada á
levar sempre no seu seio uma idéa
de morte; á trazer essa recordação,
que, como um crepe de luto, envolverá
a sua bella mocidade; á fazer
do seu coração, cheio de vida e de
amor, um tumulo para guardar as
cinzas do passado! Oh! deve ser
horrivel!...
A exaltação com que fallava tinha-se
tornado uma especie de delirio;
sua voz, sempre tão doce e avelludada,
parecia alquebrada pelo cansaço da
respiração.
Ella cahio sobre o meu seio, agitando-se
convulsivamente em um accesso
de tosse.
V
Assim ficámos muito tempo immoveis,
ella com a fronte apoiada
sobre meu peito, eu sob a impressão
triste de suas palavras.
Por fim ergueu a cabeça; e, recobrando
a serenidade, disse-me em tom
doce e melancolico:
—Não pensa que melhor é esquecer
do que amar assim?
—Não! Amar, sentir-se amado, é
sempre um gozo immenso e um grande
consolo para a desgraça. O que é triste,
o que é cruel, não é essa viuvez da alma
separada de sua irmã, não; ahi ha um
sentimento que vive, apezar da morte,
apezar do tempo. É sim esse vacuo
do coração que não tem uma affeição
no mundo, e que passa como
um estranho por entre os prazeres que
o cercam.
—Que santo amor, meu Deus! Era
assim que eu sonhava ser amada!...
—E me pedia que a esquecesse!...
—Não! não! Ama-me: quero que
me ame. Ao menos...
—Não me fugirá mais?
—Não.
—E me deixará ver aquella que
eu amo, e que não conheço? perguntei
sorrindo.
—Deseja?
—Supplico-lhe!
—Não sou eu sua?...
Lancei-me para a saleta onde havia
luz, e colloquei o lampião sobre a mesa
do gabinete em que estavamos.
Para mim, minha prima, era um
momento solemne; toda essa paixão
violenta, incomprehensivel, todo esse
amor ardente por um vulto de mulher,
ia depender talvez de um olhar.
E tinha medo de ver esvaecer-se,
como um fantasma em face da realidade,
essa visão poetica de minha
imaginação, essa creação que resumia
todos os typos.
Foi, portanto, com uma emoção
extraordinaria que, depois de collocar
a luz, voltei-me.
Ah!...
Eu sabia que era bella; mas a minha
imaginação apenas tinha esboçado
o que Deos creára.
Ella olhava-me e sorria.
Era um ligeiro sorriso, uma flôr
que desfolhava-se nos seus labios, um
reflexo que illuminava o seu lindo
rosto.
Seus grandes olhos negros fitavam
em mim um d'esses olhares languidos
e avelludados que afagam os seios
d'alma.
Um annel de cabellos negros brincava-lhe
sobre o hombro, fazendo sobresahir
a alvura de seu collo gracioso.
Tudo quanto a arte tem sonhado
de bello e de voluptuoso desenhava-se
n'aquellas formas soberbas, n'aquelles
contornos harmoniosos que se destacavam
entre as ondas de cambraia de
seu ropão branco.
Vi tudo isto de um só olhar, rapido,
ardente e fascinado; depois fui
ajoelhar-me diante d'ella, e esqueci-me
á contemplal-a.
Ella me sorria sempre, e se deixava
admirar.
Por fim tomou-me a cabeça entre
as mãos, e seus labios fecháram-me os
olhos com um beijo.
—Ama-me, disse.
O sonho esvaeceu-se.
A porta da sala fechou-se sobre ella;
tinha-me fugido.
Voltei ao hotel.
Abri a minha janella, e sentei-me
ao relento.
A brisa da noite trazia-me de
vez em quando um aroma de plantas
agrestes que me causava intimo
prazer.
Fazia-me lembrar da vida campestre,
d'essa existencia doce e tranquilla
que se passa longe das cidades,
quasi no seio da natureza.
Pensava como seria feliz vivendo
com ella em algum canto isolado, onde
pudessemos abrigar o nosso amor em
um leito de flôres e de relva.
Fazia na imaginação um idyllio encantador,
e sentia-me tão feliz que não
trocaria a minha cabana pelo mais
rico palacio da terra.
Ella me amava.
Essa só idéa embellezava tudo
para mim; a noite escura de Petropolis
parecia-me poetica e o murmurejar
triste das aguas do canal tornava-se-me
agradavel.
Uma cousa, porém, perturbava
essa felicidade; era um ponto negro,
uma nuvem escura que toldava o céo
da minha noite de amor.
Lembrava-me d'aquellas palavras
tão cheias de angustia e tão sentidas,
que pareciam explicar a causa de sua
reserva para commigo: havia n'isto um
quer que seja que eu não comprehendia.
Mas esta lembrança desapparecia
logo sob a impressão de seu sorriso,
que eu tinha em minh'alma, de seu
olhar, que eu guardava no coração, e
de seos labios, cujo contacto ainda
sentia.
Dormi embalado por estes sonhos
e só acordei quando um raio do sol,
alegre e travesso, veio bater-me nas palpebras
e dar-me o
bom dia.
O meu primeiro pensamento foi ir
saudar a minha casinha; estava ainda
fechada.
Eram oito horas.
Resolvi dar um passeio para disfarçar
a minha impaciencia; voltando
ao hotel, o criado disse-me terem trazido
um objecto que recommendáram
me fosse entregue logo.
Em Petropolis não conhecia ninguem;
devia ser d'ella.
Corri ao meu quarto, e achei sobre
a mesa uma caixinha de páo setim; na
tampa havia duas lettras de tartaruga
incrustada:—C. L.
A chave estava fechada em uma
sobrecarta com endereço á mim: dispuz-me
á abrir a caixa com a mão tremula
e tomado por um triste presentimento.
Parecia-me que n'aquelle cofre perfumado
estava encerrada a minha
vida, o meu amor, toda a minha felicidade.
Abri.
Continha o seu retrato, alguns fios
de cabello e duas folhas de papel escriptas
por ella e que li de sorpresa em
sorpresa.
VI
Eis o que ella me dizia:
«Devo-te uma explicação, meu
amigo.
Esta explicação é a historia de
minha vida, breve historia, da qual escreveste
a mais bella pagina.
Cinco mezes antes do nosso primeiro
encontro, completava eu os meus
dezeseis annos, a vida começava á sorrir-me.
A educação rigorosa que me dera
minha mãi me conservára menina até
aquella idade, e foi só quando ella
julgou conveniente correr o véo que occultava
o mundo aos meus olhos que
eu perdi as minhas idéas de infancia e
as minhas innocentes illusões.
A primeira vez que fui á um baile
fiquei deslumbrada no meio d'aquelle
turbilhão de cavalheiros e damas, que
girava em torno de mim sob uma atmosphera
de luz, de musica, de perfumes.
Tudo me causava admiração; o
abandono com que as mulheres se
entregavam a seu par de valsa, o
sorriso constante e sem expressão que
uma moça parece tomar na porta da
entrada para só deixal-o á sahida, esses
galanteios sempre os mesmos e sempre
sobre um thema banal, ao passo que me
excitavam a curiosidade, faziam desvanecer
o enthusiasmo com que tinha
acolhido a noticia que minha mãi me
dera de minha entrada nos salões.
Estavas n'esse baile; foi a primeira
vez que te vi.
Reparei que n'essa multidão alegre
e ruidosa tu só não dansavas nem
galanteavas, passando pelo salão como
um espectador mudo e indifferente, ou
talvez como um homem que procurava
uma mulher e só via toilettes.
Comprehendi-te, e durante muito
tempo segui-te com os olhos: ainda
hoje me lembro de teus menores gestos,
da expressão de teu rosto e do sorriso
de fina ironia que ás vezes fugia-te
pelos labios.
Foi a unica recordação que trouxe
d'essa noite, e quando adormeci, os
meus doces sonhos de infancia, que,
apezar do baile, vieram de novo pousar
nas alvas cortinas de meu leito, apenas
foram interrompidos um instante por
tua imagem, que me sorria.
No dia seguinte reatei o fio de
minha existencia, feliz, tranquilla e
descuidosa, como costuma ser a existencia
de uma moça aos dezeseis
annos.
Algum tempo depois fui á outros
bailes e ao theatro, porque minha mãi,
que guardára a minha infancia como
um avaro esconde seu thesouro, queria
fazer brilhar a minha mocidade.
Quando cedia a seu pedido e me
ia a apromptar, emquanto preparava o
meu simples trajo, murmurava:
—Talvez elle esteja.
E esta lembrança, não só me tornava
alegre, mas fazia com que procurasse
parecer bella, para te merecer
um primeiro olhar.
Ultimamente era eu quem, cedendo
á um sentimento que não sabia
explicar, pedia á minha mãi para irmos
á um divertimento, só na esperança de
encontrar-te.
Nem suspeitavas então que entre
todos aquelles vultos indifferentes
havia um olhar que te seguia sempre
e um coração que adivinhava teus
pensamentos, que expandia-se quando
te via sorrir e contrahia-se quando uma
sombra de melancolia anuviava teu
semblante.
Si pronunciavam o teu nome
diante de mim corava, e na minha perturbação
julgava que tinham lido esse
nome nos meus olhos ou dentro de
minh'alma, onde eu bem sabia que elle
estava escripto.
E entretanto nem siquer ainda
me tinhas visto; si teus olhos haviam
passado alguma vez por mim, tinha
sido em um d'esses momentos em que
a luz se volta para o intimo, e se olha
mas não se vê.
Consolava-me, porém, que algum
dia o acaso nos reuniria, e então não
sei o que me dizia que era impossivel
não me amares.
O acaso deu-se, mas quando a
minha existencia já se tinha completamente
transformado.
Ao sahir de um d'esses bailes apanhei
uma pequena constipação, de que
não fiz caso. Minha mãi teimava que
eu estava doente, e eu achava-me um
pouco pallida e sentia ás vezes um ligeiro
calafrio, que eu curava sentando-me
ao piano e tocando alguma musica
de bravura.
Um dia, porém, achei-me mais
abatida; tinha as mãos e os labios ardentes,
a respiração era difficil, e ao
menor esforço humedecia-se-me a pelle
com uma transpiração que me parecia
gelada.
Atirei-me sobre um sofá, e com
a cabeça recostada ao collo de minha
mãi cahi em um lethargo que não sei
quanto tempo durou. Lembro-me sómente
que, no momento mesmo em
que ia despertando d'essa somnolencia
que se apoderára de mim, vi minha
mãi sentada á cabeceira de meu leito
chorando, e um homem dizia-lhe algumas
palavras de consolo, que eu ouvi
como em sonho.
—Não desespere, minha senhora;
a sciencia não é infallivel, nem os meus
diagnosticos são sentenças irrevogaveis.
Póde ser que a natureza e as
viagens a salvem. Mas é preciso não
perder tempo.
O homem partio.
Não tinha comprehendido suas
palavras, ás quaes não ligava o menor
sentido.
Passado um instante, ergui tranquillamente
os olhos para minha mãi,
que escondeu o lenço e tragou em silencio
o pranto e os soluços.
—Chora, mamãi?
—Não, minha filha... não... não
é nada.
—Mas está com os olhos cheios de
lagrimas!... disse eu assustada.
—Ah! sim!... uma noticia triste
que me contáram ha pouco... sobre uma
pessoa... que tu não conheces.
—Quem é este senhor que estava
aqui?
—É o Dr. Valladão, que te veio
visitar.
—Então eu estou muito doente,
boa mamãi?
—Não, minha filha, elle assegurou
que não tens nada; é apenas um
incommodo nervoso.
E minha querida mãi, não podendo
mais conter as lagrimas que lhe
saltavam dos olhos, fugio pretextando
uma ordem á dar.
Então, á medida que a minha intelligencia
ia sahindo do lethargo, comecei
á reflectir sobre o que se tinha passado.
—Aquelle desmaio tão longo, aquellas
palavras que eu ouvira ainda entre
as nevoas de um somno agitado, as lagrimas
de minha mãi e a sua repentina
afflicção, o tom condoìdo com que o
medico lhe fallára...
Um raio de luz esclareceu de repente
o meu espirito.
Estava desenganada.
O poder da sciencia, o olhar profundo,
seguro, infallivel, d'esse homem,
que lê no corpo humano como em um
livro aberto, tinha visto em meu seio
um atomo imperceptivel.
E esse atomo era o verme que
devia destruir as fontes da vida, apezar
dos meus dezeseis annos, apezar de
minha organisação, apezar de minha
belleza e dos meus sonhos de felicidade!»
Aqui terminava a primeira folha,
que eu acabei de ler entre as lagrimas
que me inundavam as faces e cahiam
sobre o papel.
Era este o segredo de sua estranha
reserva; era a razão por que me
fugia, por que se ócultava, por que
ainda na vespera dizia que se tinha
imposto o sacrificio de nunca ser amada
por mim.
Que sublime anegação, minha
prima! E como eu me sentia pequeno
e mesquinho á vista d'esse amor tão
nobre!»
VII
Continuei á ler:
«Sim, meu amigo!...
Estava condemnada á morrer;
estava atacada d'essa molestia fatal e
traiçoeira, cujo dedo descarnado nos
toca no meio dos prazeres e dos risos,
nos arrasta ao leito, e do leito ao tumulo,
depois de ter escarnecido da natureza,
transfigurando as suas mais
bellas creações em mumias animadas.
É impossivel descrever-te o que
se passou então em mim: foi um desespero
mudo e concentrado, que me
prostrou em uma atonia profunda; foi
uma angustia pungente e cruel.
As rosas da minha vida apenas
se entreabriam, e já eram bafejadas por
um halito infectado; já tinham no seio
o germen da morte que devia fazel-as
murchar!
Meus sonhos de futuro, minhas
tão risonhas esperanças, meu puro
amor, que nem siquer ainda tinha colhido
o primeiro sorriso, este horizonte,
que ha pouco me parecia tão brilhante;
tudo isto era uma visão que ia sumir-se,
uma luz que lampejava prestes á
extinguir-se.
Foi preciso um esforço sobrehumano
para esconder de minha mãi
a certeza que eu tinha sobre o meu estado,
e para gracejar dos seus temores,
que eu chamava imaginarios.
Boa mãi! Desde então só viveu
para consagrar-se exclusivamente á sua
filha, para envolvel-a com esse desvelo
e essa protecção que Deos deu ao coração
materno, para abrigar-me com
suas preces, sua solicitude e seus carinhos,
para lutar á força de amor e de
dedicação contra o destino.
Logo no dia seguinte fomos para
Andarahy, onde ella alugára uma chacara,
e ahi, graças á seus cuidados,
adquiri tanta saude, tanta força, que
me julgaria boa si não fosse a sentença
fatal que pesava sobre mim.
Que thesouro de sentimento e
delicadeza que é um coração de mãi,
meu amigo! Que tacto delicado, que
sensibilidade apurada, possue esse amor
sublime!
Nos primeiros dias, quando ainda
estava muito abatida e era obrigada á
agasalhar-me, si visses como ella presentia
as rajadas de um vento frio antes
que elle agitasse os renovos dos cedros
do jardim, como adivinhava a menor
neblina antes que a primeira gotta humedecesse
a lage do nosso terraço!
Fazia tudo por distrahir-me;
brincava commigo como uma camarada
de collegio; achava prazer nas menores
cousas para excitar-me á imital-a; tornava-se
menina e obrigava-me á ter
caprichos.
Emfim, meu amigo, si fosse á dizer-te
tudo, escreveria um livro, e esse
livro deves ter lido no coração de tua
mãi, porque todas as mãis se parecem.
Ao cabo de um mez tinha recobrado
a saude para todos, excepto para
mim, que ás vezes sentia um quer que
seja como uma contracção, que não era
dôr, mas me dizia que o mal estava alli,
e dormia apenas.
Foi n'esta occasião que te encontrei
no omnibus de Andarahy;
quando entravas a luz do lampeão
illuminou-te o rosto e eu reconheci-te.
Faze idéa que emoção sentiria
quando te sentaste junto de mim.
O mais tu sabes; eu te amava, e
era tão feliz de ter-te á meu lado, de
apertar a tua mão, que nem me lembrava
como te devia parecer ridicula
uma mulher que, sem te conhecer, te
permittia tanto.
Quando nos separámos, arrependi-me
do que tinha feito.
Com que direito ia eu perturbar a
tua felicidade, condemnar-te á um amor
infeliz e obrigar-te á associar tua vida
á uma existencia triste, que talvez não
te podesse dar sinão os tormentos de
seu longo martyrio?!
Eu te amava; mas, já que Deos
não me tinha concedido a graça de ser
tua companheira n'este mundo, não
devia ir roubar ao teu lado e no teu coração
o lugar que outra mais feliz,
porém menos dedicada, teria de
occupar.
Continuei á amar-te, mas impuz-me
á mim mesma o sacrificio de nunca
ser amada por ti.
Vês, meu amigo, que não era
egoista e preferia a tua á minha felicidade.
Tu farias o mesmo, estou certa.
Aproveitei o mysterio do nosso
primeiro encontro, e esperei que alguns
dias te fizessem esquecer essa aventura
e quebrassem o unico e bem fragil laço
que te prendia á mim.
Deus não quiz que acontecesse
assim: vendo-te só em um baile, tão
triste, tão pensativo, procurando um
ser invisivel, uma sombra, e querendo
descobrir os seus vestigios em algum
dos rostos que passavam diante de ti,
senti um prazer immenso.
Conheci que tu me amavas; e,
perdôa, fiquei orgulhosa d'essa paixão
ardente, que uma só palavra minha
havia creado, d'esse poder do meu
amor, que, por uma força de atracção
inexplicavel, tinha-te ligado á minha
sombra.
Não pude resistir.
Approximei-me, disse-te uma palavra
sem que tivesses tempo de ver-me;
foi essa mesma palavra que resume
todo o poema do nosso amor, e que depois
do primeiro encontro era, como
ainda hoje, a minha prece de todas as
noites.
Sempre que me ajoelho diante do
meu crucifixo de marfim, depois de
minha oração, ainda com os olhos na
cruz e o pensamento em Deos, chamo a
tua imagem para pedir-te que não te
esqueças de mim.
Quando tu te voltaste ao som da
minha voz eu tinha entrado no toilette;
e pouco depois sahi d'esse baile, onde
apenas acabava de entrar, tremendo da
minha imprudencia, mas alegre e
feliz por te ter visto ainda uma vez.
Deves agora comprehender o que
me fizeste soffrer no theatro quando
me dirigias aquella accusação tão injusta,
no momento mesmo em que a
Charton cantava a aria da Traviata.
Não sei como não me trahi
n'aquelle momento e não te disse tudo;
o teu futuro, porém, era sagrado para
mim, e eu não devia destruil-o para satisfação
de meu amor-proprio offendido.
No dia seguinte escrevi-te; e
assim, sem me trahir, pude ao menos
rehabilitar-me na tua estima; doia-me
muito que, ainda mesmo não me conhecendo,
tivesses sobre mim uma
idéa tão injusta e tão falsa.
Aqui é preciso dizer-te que no dia
seguinte ao do nosso primeiro encontro
tinhamos voltado á cidade, e eu via-te
passar todos os dias diante de minha
janella, quando fazias o teu passeio costumado
á Gloria.
Por detrás das cortinas seguia-te
com o olhar, até que desapparecias no
fim da rua, e este prazer, rapido como
era, alimentava o meu amor, habituado
á viver de tão pouco.
Depois de minha carta tu deixaste
de passar dous dias; estava eu á
partir para aqui, d'onde devia voltar
unicamente para embarcar no paquete
inglez.
Minha mãi, incansavel nos seus
desvelos, quer levar-me á Europa e
fazer-me viajar pela Italia, pela Grecia,
por todos os paizes de um clima doce.
Diz ella que é para mostrar-me os
grandes modelos de arte e cultivar o
meu espirito; mas eu sei que essa
viagem é sua unica esperança, que
não podendo nada contra minha enfermidade,
quer ao menos disputar-lhe
sua victima durante mais algum
tempo.
Julga que fazendo-me viajar sempre
me dará mais alguns dias de existencia,
como si estes sobejos de vida
valessem alguma cousa para quem
já perdeu sua mocidade e seu futuro.
Quando ia embarcar para aqui
lembrei-me que talvez não te visse mais,
e diante d'essa derradeira provança
succumbi. Ao menos o consolo de dizer-te
adeos!...
Era o ultimo!
Escrevi-te segunda vez; admirava-me
da tua demora, mas tinha uma
quasi certeza de que havias de vir.
Não me enganei.
Vieste, e toda minha resolução,
toda minha coragem cedeu, porque,
sombra ou mulher, conheci que me
amavas como eu te amo.
O mal estava feito.
Agora, meu amigo, peço-te por
mim, pelo amor que me tens, que reflictas
no que te vou dizer, mas que
reflictas com calma e tranquillidade.
Para isto parti hoje para Petropolis
sem prevenir-te, e colloquei entre
nós o espaço de vinte e quatro horas e
uma distancia de muitas leguas.
Desejo que não procedas precipitadamente,
e que, antes de dizer-me
uma palavra, tenhas medido todo o alcance
que ella deve ter sobre teu futuro.
Sabes o meu destino, sabes que
sou uma victima cuja hora está marcada,
e que todo o meu amor, immenso,
profundo, não te póde dar talvez dentro
em bem pouco sinão o sorriso contrahido
pela tosse, o olhar desvairado
pela febre e caricias roubadas aos soffrimentos.
É triste; e não deves immolar
assim tua bella mocidade, que ainda
te reserva tantas venturas e talvez um
amor como o que eu te consagro.
Deixo-te, pois, meu retrato, meus
cabellos e minha historia: guarda-os
como uma lembrança, e pensa algumas
vezes em mim; beija esta folha muda,
onde os meus labios deixáram-te o adeos
extremo.
Entretanto, meu amigo, si, como
tu dizias hontem, a felicidade é amar
e sentir-se amado; si te achas com
forças de partilhar esta curta existencia,
estes poucos dias que me restam á
passar sobre a terra, si me queres dar
esse consolo supremo, unico que ainda
embellezaria minha vida, vem!
Sim, vem! iremos pedir ao bello
céo da Italia mais alguns dias de vida
para nosso amor; iremos onde tu quizeres,
ou onde nos levar a Providencia.
Errantes pelas vastas solidões dos
mares ou pelos cimos elevados das
montanhas, longe do mundo, sob o
olhar protector de Deos, á sombra dos
cuidados de
nossa mãi, viveremos tanto
um do outro, encheremos de tanta
affeição os nossos dias, as nossas horas,
os nossos instantes, que, por curta que
seja minha existencia, teremos vivido
por cada minuto seculos de amor e de
felicidade.
Eu espero; mas temo.
Espero-te como a flôr desfallecida
espera o raio do sol que deve aquecel-a,
a gotta de orvalho que póde animal-a,
o halito da briza que vem bafejal-a.
Porque para mim o unico céo que hoje
me sorri são teus olhos, o calor que
póde me fazer viver é o do teu seio.
Entretanto temo, temo por ti, e
quasi peço á Deos que te inspire e te
salve de um sacrificio talvez inutil!
Adeos para sempre, ou até
amanhã!
Carlota»
VIII
Devorei toda esta carta de um lanço
de olhos.
Minha vista corria sobre o papel
como o meu pensamento, sem parar, sem
hesitar, poderia até dizer sem respirar.
Quando acabei de ler só tinha um
desejo: era o de ir ajoelhar-me á seus
pés, e receber como uma benção do céo
esse amor sublime e santo.
Como sua mãi, lutaria contra o
destino, cercal-a-hia de tanto affecto e
de tanta adoração, tornaria sua vida tão
bella e tão tranquilla, prenderia tanto
sua alma á terra, que lhe seria impossivel
deixal-a.
Crearia para ella com o meu coração
um mundo novo, sem as miserias e
as lagrimas d'este mundo em que vivemos;
um mundo só de ventura, onde
a dôr e o soffrimento não pudessem
penetrar.
Pensava que devia haver no universo
algum lugar desconhecido, algum
canto de terra ainda puro do halito do
homem, onde a natureza virgem conservaria
o perfume dos primeiros tempos
da creação e o contacto das mãos de
Deos quando a formára.
Ahi era impossivel que o ar não
désse vida; que o raio do sol não viesse
impregnado de um atomo de fogo celeste;
que a agua, as arvores, a terra,
cheia de tanta seiva e de tanto vigor,
não inoculassem na creatura a vitalidade
poderosa da natureza no seu primitivo
esplendor.
Iriamos, pois, á uma d'essas solidões
desconhecidas; o mundo abria-se
diante de nós, e eu sentia-me com bastante
coragem para levar o meu thesouro
além dos mares e das montanhas,
até achar um retiro onde escondesse
a nossa felicidade.
N'esses desertos, tão vastos, tão extensos,
não haveria siquer vida bastanto
para duas creaturas que apenas
pediam um palmo de terra e um sopro
de ar, afim de poderem elevar á Deos,
como uma prece constante, o seu amor
tão puro?
Ella dava-me vinte e quatro horas
para reflectir, e eu não queria nem um
minuto, nem um segundo.
Que me importavam o meu futuro
e a minha existencia, si eu os sacrificaria
de bom grado para dar-lhe mais
um dia de vida.
Todas estas idéas, minha prima,
cruzavam-se no meu espirito rapidas e
confusas, emquanto eu fechava na caixinha
de páo-setim os objectos preciosos
que ella encerrava, copiava na minha
carteira a sua morada, escripta no fim
da carta, e atravessava o espaço que
me separava da porta do hotel.
Ahi encontrei o criado da vespera.
—Á que horas parte a barca da
Estrella?
—Ao meio-dia.
Eram onze horas; no espaço de
uma hora eu faria as quatro leguas que
me separavam d'aquelle porto.
Lancei os olhos em torno de mim
com uma especie de desvario.
Não tinha um throno, como Ricardo
III, para offerecer em troca de
um cavallo; mas tinha a realeza do
nosso seculo, tinha dinheiro.
Á dous passos da porta do hotel estava
um cavallo, que o seu dono tinha
pela redea.
—Compro-lhe este cavallo, disse
eu caminhando para elle, sem mesmo
perder tempo em comprimental-o.
—Não pretendia vendêl-o, respondeu-me
o homem cortezmente; mas,
si o senhor está disposto á dar o preço
que elle vale...
—Não questiono sobre preço; compro-lhe
o cavallo arreiado como está.
O sujeito olhou-me admirado; porque,
á fallar a verdade os arreios nada
valiam.
Quanto á mim, já tinha-lhe tomado
as redeas da mão; e, sentado no sellim,
esperava que me dissesse quanto tinha
de pagar-lhe.
—Não repare, fiz uma aposta e preciso
de um cavallo para ganhal-a.
Isto deu-lhe á comprehender a singularidade
do meu acto e a pressa que eu
tinha: recebeu sorrindo o preço do seu
animal, e disse, saudando-me com a mão
de longe, porque já eu dobrava a rua:
—Estimo que ganhe a aposta; o
animal é excellente!
Na verdade era uma aposta que eu
tinha feito commigo mesmo, ou antes
com a minha razão, a qual me dizia que
era impossivel apanhar a barca, e que
eu fazia uma extravagancia sem necessidade,
pois bastava ter paciencia por
vinte e quatro horas.
Mas o amor não comprehende esses
calculos e esses raciocinios, proprios da
fraqueza humana; creado com uma
particula do fogo divino, elle eleva o
homem acima da terra, desprende-o da
argilla que o envolve, e dá-lhe força para
dominar todos os obstaculos, para querer
o impossivel.
Esperar tranquillamente um dia
para ir dizer-lhe que eu a amava, e queria
amal-a com todo o culto e admiração
que me inspirava a sua nobre abnegação,
me parecia quasi uma infamia.
Seria dizer-lhe que tinha reflectido
friamente, que tinha pesado todos os
prós e contras do passo que ia dar,
que havia calculado como um egoista a
felicidade que ella me offerecia.
Não só minha alma se revoltava
contra esta idéa; mas parecia-me que
ella, com a sua delicadeza de sentimento,
embora não se queixasse, sentiria
vêr-se objecto de um calculo e o
alvo de um projecto de futuro.
A minha viagem foi uma corrida
louca, esvairada, delirante. Novo Mazzepa,
passava por entre a cerração da
manhã, que cobria os pincaros da serrania,
como uma sombra que fugia
rapida e veloz.
Dir-se-hia que alguma rocha collocada
em um dos cabeços da montanha
tinha-se desprendido de seu alveolo
secular, e precipitando-se com todo o
peso rolava surdamente pelas encostas.
O galopar de meu cavallo formava
um unico som, que ia reboando pelas
grutas e cavernas, e confundia-se com
o rumor das torrentes.
As arvores, cercadas de nevoa,
fugiam diante de mim como fantasmas;
o chão desapparecia sob os pés do
animal; ás vezes parecia-me que a
terra ia faltar-me, e cavallo e cavalleiro
rolavam por algum d'esses
abysmos immensos e profundos, que
devem ter servido de tumulos titanicos.
Mas de repente, entre uma aberta
de nevoeiro, eu via a linha azulada do
mar, e fechava os olhos e atirava-me
sobre o cavallo, gritando-lhe ao ouvido
a palavra de Byron:—
Away!
Elle parecia entender-me, e precipitava
essa corrida desesperada; não
galopava, voava; seus pés, como impellidos
por quatro molas de aço, nem
tocavam a terra.
Assim, minha prima, devorando o
espaço e a distancia, foi elle, o nobre
animal, abater-se á alguns passos apenas
da praia; a coragem e as forças só o
tinham abandonado com a vida, e no
termo da viagem.
Em pé, ainda sobre o cadaver
d'esse companheiro leal, vi á cousa de
uma milha o vapor que singrava ligeiramente
para a cidade.
Ahi fiquei perto de uma hora,
seguindo com os olhos essa barca que
a conduzia; e quando o casco desappareceu
olhei os frocos de fumaça do vapor,
que se ennovelavam no ar, e que o
vento desfazia á pouco e pouco.
Por fim, quando tudo desappareceu,
e mais nada me fallava d'ella,
olhei ainda o mar por onde havia passado
e o horizonte que a occultava aos
meus olhos.
O sol dardejava raios de fogo; mas
eu bem me importava com o sol; como
meu espirito os meus sentidos se concentravam
em um unico pensamento:
vêl-a, vêl-a em uma hora, em
um momento, si possivel fosse.
Um velho pescador arrastava n'esse
momento sua canôa á praia.
Approximei-me e disse-lhe:
—Meu amigo, preciso ir á cidade,
perdi a barca, e desejava que você me
conduzisse na sua canôa.
—Mas si eu agora mesmo é que
chego!
—Não importa; pagarei o seu trabalho,
e tambem o incommodo que isto
lhe causa.
—Não posso, não, senhor; não é
lá pela paga que eu digo que estou chegando;
mas é que passar a noite no
mar sem dormir não é lá das melhores
cousas; e estou cahindo de somno.
—Escute, meu amigo...
—Não se canse, senhor, quando
eu digo não, é não: e está dito.
E o velho continuou á arrastar a
sua canôa.
—Bem, não fallemos mais n'isto;
mas conversemos.
—Lá isto como o senhor quizer.
—A sua pesca rende-lhe bastante?
—Qual! rende nada!...
—Ora diga-me! Si houvesse um
meio de fazer-lhe ganhar em um só dia o
que póde ganhar em um mez, não engeitaria
de certo?
—Isto é cousa que se pergunte?
—Quando mesmo fosse preciso embarcar
depois de passar uma noite em
claro no mar?
—Ainda que devesse remar tres
dias com tres noites, sem dormir nem
comer.
—N'esse caso, meu amigo, prepare-se,
que vai ganhar o seu mez de
pescaria; leve-me á cidade.
—Ah! isto já é outro fallar; porque
não disse logo?...
—Era preciso explicar-me?!
—Bem diz o dictado que é fallando
que a gente se entende.
—Assim, é negocio decidido. Vamos
embarcar?
—Com licença; preciso de um
instantinho para prevenir á mulher;
mas é um passo lá e outro cá.
—Olhe, não se demore; tenho
muita pressa.
—É n'um fechar dos olhos, disse
elle correndo na direcção da villa.
Mal tinha feito vinte passos, parou,
hesitou, e por fim voltou lentamente
pelo mesmo caminho.
Eu tremia; julgava que se tinha
arrependido, que vinha apresentar-me
alguma nova difficuldade. Chegou-se
para mim de olhos baixos e coçando
a cabeça.
—O que temos, meu amigo? perguntei-lhe
com uma voz que esforçava
por tornar calma.
—É que... o senhor disse que pagava
um mez...
—De certo; e, si duvida..., disse
levando a mão ao bolso.
—Não, senhor, Deos me defenda
de desconfiar do senhor! Mas é que...
sim, não vê, o mez agora tem menos
um dia que os outros!
Não pude deixar de sorrir-me do
temor do velho; nós estavamos com
effeito no mez de Fevereiro.
—Não se importe com isto; está
entendido que quando eu digo um
mez é um mez de trinta e um dias; os
outros são mezes aleijados, e não se
contam.
—É isso mesmo, disse o velho rindo-se
da minha idéa; assim como quem
diz um homem sem um braço. Ah!...
ah!...
E continuando á rir-se, tomou o caminho
de casa e desappareceu.
Quanto á mim, estava tão contente
com a idéa de chegar á cidade em algumas
horas, que não pude deixar tambem
de rir-me do caracter original do
pescador.
Conto-lhe estas scenas e as outras
que se lhe seguiram com todas as suas
circumstancias por duas razões, minha
prima.
A primeira é porque desejo que
comprehenda bem o drama simples
que me propuz traçar-lhe; a segunda é
porque tenho tantas vezes repassado na
memoria as menores particularidades
d'essa historia, tenho ligado de tal maneira
o meu pensamento á essas reminiscencias,
que não me animo á destacar
d'ellas a mais insignificante circumstancia;
parece-me que si o fizesse
separaria uma parcella de minha vida.
Depois de duas horas de espera e de
impaciencia, embarquei n'essa casquinha
de noz, que saltou sobre as ondas,
impellida pelo braço ainda forte e agil
do velho pescador.
Antes de partir fiz enterrar o meu
pobre cavallo; não podia deixar assim
exposto ás aves de rapina o corpo
d'esse nobre animal, que eu tinha roubado
á affeição do seu dono, para immolal-o
á satisfação de um capricho
meu.
Talvez lhe pareça isto uma puerilidade;
mas a senhora é mulher, minha
prima, e deve saber que, quando se ama
como eu amava, tem-se o coração tão
cheio de affeição, que espalha uma atmosphera
de sentimento em torno de
nós, e inunda até os objectos inanimados,
quanto mais as creaturas, ainda
irracionaes, que um momento se ligáram
á nossa existencia para realisação
de um desejo.
IX
Eram seis horas da tarde.
O sol declinava rapidamente, e a
noite, descendo do céo, envolvia a
terra nas sombras desmaiadas que
acompanham o occaso.
Soprava uma forte viração de
sudoeste, que desde o momento da partida
retardava a nossa viagem; lutavamos
contra o mar e o vento.
O velho pescador, morto de fadiga
e de somno, estava exhausto de forças;
a sua pá, que á principio fazia saltar
sobre as ondas como um peixe o fragil
barquinho, apenas feria agora a flôr da
agua.
Eu, recostado na pôpa, e com os
olhos fitos na linha azulada do horizonte,
esperando á cada momento ver
desenhar-se o perfil do meu bello Rio
de Janeiro, começava seriamente á inquietar-me
da minha extravagancia e
loucura.
Á proporção que declinava o dia e
que as sombras cobriam o céo, esse vago
inexprimivel da noite no meio das ondas,
a tristeza e melancolia que infunde
o sentimento da fraqueza do homem
em face d'essa solidão immensa de
agua e de céo, se apoderavam do meu
espirito.
Pensava então que teria sido mais
prudente esperar o dia seguinte, para
fazer uma viagem breve e rapida, do
que sujeitar-me á mil contratempos e
mil embaraços, que no fim de contas
nada adiantavam.
Com effeito, já tinha anoitecido;
e, ainda que conseguissemos chegar á
cidade por volta de nove ou dez horas,
só no dia seguinte poderia ver Carlota
e fallar-lhe.
De que havia servido, pois, todo o
meu arrebatamento, toda a minha impaciencia?
Tinha morto um animal,
tinha incommodado um pobre velho,
tinha atirado ás mãos cheias dinheiro,
que poderia melhor empregar soccorrendo
algum infortunio e cobrindo esta
obra de caridade com o nome e a lembrança
d'ella.
Concebia uma triste idéa de mim;
do meu modo de ver então as cousas,
parecia-me que eu tinha feito do amor,
que é uma sublime paixão, apenas uma
estupida mania; e dizia interiormente
que o homem que não domina os seus
sentimentos é um escravo, que não
tem o menor merecimento quando pratica
um acto de dedicação.
Tinha-me tornado philosopho, minha
prima, e de certo comprehenderá
a razão.
No meio da bahia, mettido em uma
canôa, á mercê do vento e do mar, não
podendo dar largas á minha impaciencia
de chegar, não havia sinão
um modo de sahir d'esta situação, e
este era arrepender-me do que tinha
feito.
Si eu podesse fazer alguma nova
loucura creio piamente que adiaria o
arrependimento para mais tarde: porém
era impossivel.
Tive um momento a idéa de atirar-me
á agua, e procurar vencer á nado
a distancia que me separava d'ella; mas
era noite, não tinha a luz de
Hero para
guiar-me, e me perderia n'esse novo
Hellesponto.
Foi de certo uma inspiração do céo
ou o meo anjo da guarda que me veio
advertir que n'aquella occasião eu nem
sabia mesmo de que lado ficava a cidade.
Resignei-me, pois, e arrependi-me
sinceramente.
Dividi com o meu companheiro algumas
provisões que tinha trazido; e
fizemos uma verdadeira collação de
contrabandistas ou piratas.
Cahi na asneira de obrigal-o á beber
uma garrafa de vinho do Porto,
bebendo eu outra para acompanhal-o
e fazer-lhe as honras da hospitalidade.
Julgava que d'este modo elle restabeleceria
as forças e chegariamos mais
depressa.
Tinha-me esquecido que a sabedoria
das nações, ou a sciencia dos proverbios,
consagra o principio de que
de vagar se vai ao longe.
Acabada a nossa magra collação, o
pescador começou á remar com uma
força e um vigor que me reanimaram
a esperança.
Assim, docemente embalado pela
idéa de vêl-a e pelo marulho das
ondas, com os olhos fitos na estrella
da tarde, que ia sumir-se no horizonte
e me sorria como para consolar-me,
senti á pouco e pouco fecharem-se-me
as palpebras, e dormi.
Quando accordei, minha prima, o
sol derramava seus raios de ouro sobre
o manto azulado das ondas: era dia
claro.
Não sei onde estavamos; via ao
longe algumas ilhas: o pescador dormia
na prôa, e resonava como um boto.
A canôa tinha vogado á mercê da
corrente: e o remo, que cahira naturalmente
das mãos do velho, no momento
em que elle cedêra á força invencivel
do somno, tinha desapparecido.
Estavamos no meio da bahia, sem
poder dar um passo, sem poder mover-nos.
Aposto, minha prima, que a senhora
acaba de dar uma risada, pensando
na comica posição em que me
achava; mas seria uma injustiça zombar
de uma dôr profunda, de uma angustia
cruel como a que soffri então.
Os instantes, as horas, corriam de
decepção em decepção; alguns barcos
que passáram perto, apezar dos nossos
gritos, seguiram seu caminho, não
podendo suppôr que com o tempo calmo
e sereno que fazia houvesse sombra de
perigo para uma canôa que boiava tão
levemente sobre as ondas.
O velho, que tinha accordado, nem
se desculpava; mas a sua aflicção era
tão grande que quasi me commoveu;
o pobre homem arrancava os cabellos
e mordia os beiços de raiva.
As horas corrêram assim n'essa
atonia do desespero. Sentados em face
um do outro, talvez culpando-nos mutuamente
do que succedia, não proferiamos
uma palavra, não faziamos um
gesto.
Por fim veio a noite. Não sei como
não fiquei louco lembrando-me que estavamos
á 13, e que o paquete devia
partir no dia seguinte.
Não era unicamente a idéa de uma
ausencia que me afligia: era tambem
a lembrança do mal que ia causar-lhe,
á ella, que, ignorando o que se passava,
me julgaria egoista, supporia que a
havia abandonado, e que ficára em
Petropolis divertindo-me.
Aterrava-me com as consequencias
que poderia ter esse facto sobre a sua
saude tão fragil, sobre a sua vida; e
me condemnava já como assassino.
Lancei um olhar hallucinado sobre
o pescador, e tive impetos de abraçal-o
e atirar-me com elle ao mar.
Oh! como sentia então o nada do
homem e a fraqueza da nossa raça tão
orgulhosa de sua superioridade e do seu
poder!
De que me serviam a intelligencia,
a vontade, e essa força invencivel do
amor, que me impellia e me dava coragem
para arrostar vinte vezes a
morte?
Algumas braças d'agua e uma pequena
distancia me retinham e me encadeavam
n'aquelle lugar como á um
poste; a falta de um remo, isto é, de
tres palmos de madeira, creava para
mim o impossivel; um circulo de ferro
me cingia, e para quebrar essa prisão,
contra a qual toda a minha razão era
impotente, bastava-me que fosse um
ente irracional.
A gaivota, que frisava as ondas
com a ponta de suas azas brancas; o
peixe, que fazia scintillar um momento
seu dorso de escamas á luz das estrellas;
o insecto, que vivia no seio das aguas
e plantas marinhas, eram reis d'essa
solidão, na qual o homem não podia
siquer dar um passo.
Assim, blasphemando contra Deos
e sua obra, sem saber o que fazia nem
o que pensava, entreguei-me á Providencia;
embrulhei-me no meu capote,
deitei-me e fechei os olhos, para não
ver a noite adiantar-se, as estrellas empallidecerem
e o dia raiar.
Tudo estava sereno e tranquillo; as
aguas nem se moviam; apenas sobre a
face lisa do mar passava uma aragem
tenue; que dir-se-hia o halito das ondas
adormecidas.
De repente pareceu-me sentir que
a canôa deixára de boiar á discrição
e singrava lentamente; julgando que
fosse illusão minha, não me importei,
até que um movimento continuo e regular
convenceu-me.
Afastei a aba do capote e olhei, receiando
ainda illudir-me; não vi o pescador,
mas á alguns passos da prôa
percebi os rolos de espuma que formava
um corpo agitando-se nas ondas.
Approximei-me, e distingui o velho
pescador, que nadava, puxando
a canôa por meio de uma corda que
amarrára á cintura, para deixar-lhe os
movimentos livres.
Admirei essa dedicação do pobre
velho, que procurava remediar a sua
falta por um sacrificio que eu supunha
inutil: não era possivel que um homem
nadasse assim por muito tempo.
Com effeito, passados alguns instantes,
vi-o parar e saltar ligeiramente
na canôa como temendo acordar-me;
a sua respiração fazia uma especie de
borborinho no seu peito largo e forte.
Bebeu um trago de vinho, e com o
mesmo cuidado deixou-se cahir n'agua
e continuou á puxar a canôa.
Era alta noite quando n'esta marcha
chegámos á uma especie de praia,
que teria quando muito duas braças. O
velho saltou e desappareceu.
Fitando a vista nas trevas, vi uma
claridade, que não pude distinguir si
era fogo, si luz, sinão quando uma
porta abrindo-se deixou-me ver o interior
de uma cabana.
O velho voltou com um outro homem,
sentáram-se sobre uma pedra e
começáram á fallar em voz baixa.
Senti uma grande inquietação; na verdade,
minha prima, só me faltava, para
completar a minha aventura, uma historia
de ladrões.
A minha suspeita, porém, era injusta;
os dous pescadores estavam á
espera de dous remos que lhes trouxe
uma mulher, e immediatamente embarcáram
e começaram a remar com
uma força espantosa.
A canôa resvalou sobre as ondas,
agil e veloz como um d'esses peixes de
que ha pouco invejava a rapidez.
Ergui-me para agradecer á Deos,
ao céo, ás estrellas, ás aguas, á toda a
natureza emfim, o raio de esperança
que me enviavam.
Uma facha escarlate já se desenhava
no horizonte; o oriente foi-se
esclarecendo de gradação em gradação,
até que deixou ver o disco luminoso
do sol.
A cidade começou á erguer-se do
seio das ondas, linda e graciosa, como
uma donzella que, recostada sobre um
monte de relva, banhasse os pés na corrente
limpida de um rio.
Á cada movimento de impaciencia
que eu fazia, os dous pescadores dobravam-se
sobre os remos e a canôa voava.
Assim nos approximámos da cidade,
passámos entre os navios, e nos dirigimos
á Gloria, onde pretendia desembarcar,
para ficar mais proximo de
sua casa.
Em um segundo tinha tomado á
minha resolução; chegar, vêl-a, dizer-lhe
que a seguia, e embarcar-me n'esse
mesmo paquete em que ella ia partir.
Não sabia que horas eram; mas
ha pouco havia amanhecido; tinha
tempo para tudo, tanto mais que eu só
precisava de uma hora. Um credito
sobre Londres e a minha mala de viagem
eram todos os meus preparativos;
podia acompanhal-a ao fim do mundo.
Já via tudo côr de rosa, sorria á
minha ventura e gozava da alegre sorpresa
que ia causar-lhe, á ella que já
não me esperava.
A sorpresa, porém, foi minha.
Quando passava diante de Villegaignon
descobri de repente o paquete
inglez: as pás se moviam indolentemente,
e imprimiam ao navio essa marcha
vagarosa do vapor, que parece experimentar
suas forças, para precipitar-se
á toda a carreira.
Carlota estava sentada sob a tolda,
com a cabeça encostada ao hombro de
sua mãi, e com os olhos engolfados no
horizonte, que occultava o lugar onde
tinhamos passado a primeira e ultima
hora de felicidade.
Quando me vio, fez um movimento,
como si quizesse lançar-se para mim;
mas conteve-se, sorrio-se para sua mãi,
e, cruzando as mãos no peito, ergueu os
olhos ao céo, como para agradecer á
Deos, ou para dirigir-lhe uma prece.
Trocámos um longo olhar, um
d'esses olhares que levam toda a nossa
alma e a trazem ainda palpitante das
emoções que sentio n'outro coração;
uma d'essas correntes electricas que
ligam duas vidas em um só fio.
O vapor soltou um gemido surdo; as
rodas fenderam as aguas; e o monstro
marinho, rugindo como uma cratera,
vomitando fumo e devorando o espaço
com os seus flancos negros, lançou-se.
Por muito tempo ainda vi o seu
lenço branco agitar-se ao longe, como
as azas brancas do meu amor, que
fugia e voava ao céo.
O paquete sumio-se no horizonte.