Desprezamos essa multidão de pagãos,
e nenhum temor ha em nós.
Sebast. de
Salamanca—Chronicon.
O espectaculo que offerecia a caverna de
Covadonga na noite immediata áquella que
se terminou com os successos das margens
do Sallia era mui semelhante ao dess'outra
noite em que Pelagio recebera a nova do
captiveiro d'Hermengarda;—espectaculo semelhante,
mas personagens, em parte, diversas.
Na vasta lareira proxima da entrada
da gruta e a que servia de chaminé uma larga
fenda dos rochedos superiores ardiam alguns
cepos de carvalho, que, repassados do
fogo durante uma longa noite de novembro
e abrazados até a medúlla, davam apenas uma
chamma tenue e azulada, cujo fraco esplendor
se perdia na claridade brilhante de cinco
ou seis fachos encostados pelas paredes irregulares
da caverna. Do numeroso tropel de
guerreiros que naquella memoravel noite se
tinham erguido á voz do moço duque de Cantabria,
travando das armas, apenas se viam
agora, estendidos nos grosseiros leitos formados
das pelles de animaes bravios, dez
cavalleiros, que no seu profundo somno, no
transfigurado do gesto e no desalinho dos
trajos faziam antes lembrar o jazer de cadaveres,
que o repousar de vivos. Perto do
lar acceso, assentado em escabello tosco
e com a cabeça encostada ao braço firmado
n'uma anfractuosidade do rochedo, via-se,
tambem adormecido, um guerreiro em cujo
rosto os sulcos das rugas e o cavado das faces
davam, porventura, mostra de mais dilatada
vida do que, na realidade, era a sua.
O somno parecia nelle unicamente o entorpecimento
das forças physicas exhaustas e
não o repouso do espirito; porque, de quando
em quando, os membros se lhe agitavam por
estremeção violento, ou se lhe descerravam
os olhos, e moviam os labios, como se tentasse
falar; mas sussurrava apenas alguns sons
inarticulados e cahia de novo em torpor, que
não tardava em ser outra vez interrompido.
N'um recésso da gruta, formado pelos resaltos
das rochas e que servia como de camara
ao joven capitão dos foragidos, parecia
tambem jazer um vulto sobre telas mais delicadas
que os despojos d'animaes silvestres,
as quaes eram, talvez, ainda restos do anterior
luxo dos paços de Tárraco; talvez, vestigios
da passada grandeza dos duques de
Cantabria e da antiga civilisação gothica.
Um panno de purpura franjado d'ouro pendia
da abobada natural, preso nas stalactites
seculares que della desciam, semelhantes aos
penduróes do tecto de um templo normando-arabe.
A luz dos fachos mal alumiava
aquelle recanto affastado; mas nessa meia-claridade
branquejavam roupas alvas de mulher,
que tambem parecia agitada por sonhos
dolorosos, se é que o seu gemer de espaço
a espaço, o soluçar contínuo, o agitar-se
d'instante a instante não eram antes indicios
dessa modorra febril, dessa hesitação entre
o dormir e a vigilia, semelhante ao arquejar
do moribundo que já perdeu a consciencia
da vida que vai fugindo. No meio desta scena
de duvidosa quietação uma personagem velava.
Era o moço Pelagio, que, atravessando
a caverna a passos lentos e cautelosos, de
um para outro lado, ora applicava o ouvido
aos movimentos irrequietos e ao respirar agitado
do vulto branco, ora parava á entrada
da gruta, fitando os olhos na escuridão exterior
e escutando com todos os signaes d'impaciencia
de quem espera alguem que tarda.
Depois, dirigia-se para o lado do vermelho
brasido e, cruzando os braços, punha-se
a contemplar o torvo aspecto do cavalleiro
do escabello, com um olhar de sympathia e
compaixão, misturada do que quer que era
de admiração e de terror involuntario.
Estes movimentos successivos do mancebo
repetiram-se umas poucas de vezes; por fim,
a figura membruda e selvatica do lusitano
Gutislo assomou no arco irregular que servia
de portico áquella habitação roubada pela
desventura ás feras.
«Voltaram?—perguntou em voz baixa
ao barbaro do Herminio o duque de Cantabria.
«Desmontam agora:—respondeu Gutislo:—Vellido,
o centenario, disse-me viesse
vêr se repousavas.»
«Repousar!—replicou Pelagio, sorrindo
tristemente e olhando para o sitio onde o
panno de purpura occultava o vulto branco.
«Que venha; que venha já.»
Gutislo desappareceu. D'ahi a alguns momentos,
o centenario entrava.
Era um guerreiro, cujos cabellos brancos,
cujos meneios pausados e cujo olhar
penetrante davam testemunho de prudencia
e discrição. Parecia inquieto e assustado.
«Que novas nos trazes, Vellido? Qual caminho
seguem os arabes?»
«O que prouvera a Deus elles nunca houvessem
encontrado. Ao amanhecer os cavallos
africanos beberão as aguas do Deva; os
sons das trombetas agarenas ouvir-se-hão retumbar
pelas encostas de Concana e ecchoarão
nos alcantís do Auseba. Vagueiámos dispersos
a tarde inteira e a maior parte da
noite. Pelas alturas do sul e do oriente reluziam
ao longe as armas dos infiéis, e depois
as suas almenaras. Os pastores asturios,
que já nos esperavam no valle d'Onis, onde
todos os esculcas se ajunctaram á hora de
terça nocturna, nos relataram então o que,
sumidos por entre as brenhas, tinham podido
observar de perto...»
«E quaes foram as novas dos pegureiros?—interrompeu
vivamente Pelagio.—São
muitos ou poucos os inimigos? A que
distancia se acham?»
«Pouco depois do amanhecer devem ter
descido os ultimos outeiros do Vinnio e quando
o sol brilhar em todo o seu esplendor poderão
pisar o solo, até hoje livre, do valle de
Covadonga. Os pastores viram os nossos cavalleiros
transpôrem o Sallia: viram despenhar-se
o roble, e os infiéis recuarem espantados.
Mas, esquadrões após esquadrões
desciam das montanhas, e dentro em breve
na margem do rio não se descortinavam por
grande espaço senão tropeis d'arabes. Ao pôr
do sol ainda as gargantas das serranias golfavam
torrentes de infiéis, e as selvas retumbavam
com os golpes de machado. Antes de
anoitecer, uma ponte espaçosa estava lançada
sobre o Sallia n'um sitio menos profundo, e
os inimigos começavam a atravessá-la. Entre
os primeiros que passaram áquem, asseguram
os zagaes terem visto muitos cavalleiros
que, pelos elmos e couraças, pelas cateias e
frankisks, eram, sem duvida, godos.»
«São as tiuphadias da Tingitania: são os
soldados réprobos do conde de Septum, que
Deus conduz aos desertos das Asturias para
que os abutres e javalís tenham lauto banquete
de cadaveres.»
Pelagio e o centenario voltaram-se: a
voz que proferíra estas palavras soára atrás
delles. Era o cavalleiro do escabello, que despertara
ás primeiras palavras do capitão dos
esculcas e que, firmados os cotovelos sobre
os joelhos e com a cabeça entre os punhos,
escutara todo o dialogo.
«Que?!—exclamou o mancebo—ainda
ha pouco havieis cerrado as palpebras, e já
despertastes, Eurico?»
«Duque de Cantabria, desde muito que o
somno é sempre breve para mim: ha muito
que nestas veias elle não derrama consolação
nem frescor. Adormecido ou desperto, o
meu espirito vê sempre ante si immutavel a
realidade, e a realidade é medonha. Oxalá
podesse esta alma dormir!»
«Bem o sei:—replicou o filho de Favila.—A
imagem da patria, sancta e melancholica,
se misturava sanguinolenta nos vossos
sonhos do dormitar. Algumas palavras soltas
que proferieis...»
«Ah!—interrompeu o cavalleiro, pondo-se
em pé rapidamente, com um gesto d'espanto.—Eu
falava?! Eram tão extravagantes
os meus sonhos!... Que palavras me ouvistes?
Delirios, loucuras!... Dizei; não é
assim?»
E olhava inquieto para o mancebo, como
se receiasse que um segredo importante lhe
houvesse fugido dos labios.
«As vossas palavras eram quasi inintelligiveis—respondeu
Pelagio.—Perdida para
sempre; para sempre!—Eis o que repetieis
muitas vezes; e depois:—Não resta uma esperança!...
Oh, tão formosa e gentil!... Homem
infame, que tinhas em mais o ouro que
a virtude e a gloria, maldicto sejas tu!—E
então os dentes vos rangiam, e, entreabrindo
os olhos, o vosso aspecto era terrivel! Pensaveis,
por certo, na Hespanha, na formosa
terra dos godos, e a indignação vos arrancava
maldicções contra Oppas, e contra os que
venderam pelo ouro dos arabes as aras de
Christo e a liberdade de seus irmãos. Enganaram-vos,
porém, os sonhos, cavalleiro! A
esperança resta ainda, e a Hespanha não se
perdeu para sempre! Vós mesmo agora o
dissestes. Abundante cevo de cadaveres humanos
vão ter os abutres e os javalís das
montanhas.»
«Tendes razão!—replicou o guerreiro,
deixando-se cahir de novo sobre o escabello
e voltando á postura anterior.—Os meus
labios mentiram ao coração, se disseram que
para a Hespanha não havia esperança. Mas
a mentir não tornarão elles, porque estes
olhos só hão-de cerrar-se, já agora, em somno
bem profundo, no qual não haja sonhar!
Depois dos combates é que se dorme bem
placidamente! É então que eu dormirei.»
Era sinistro e lugubre e, todavia, tranquillo
o modo com que elle o dizia. Pelagio,
preoccupado pelas novas que o centenario
trouxera, não reparou no sorriso doloroso
que enrugava as faces de Eurico e, voltando-se
para Vellido, proseguiu:
«Oh! Abdulaziz busca a ultima guarida
dos christãos,
os ultimos aripennes de terra
livre da Hespanha: persegue-nos como a besta-feras?...
Pois bem! Vai, e dize aos nossos
cavalleiros que antes de romper a manhan
estejam a cavallo com a lança em punho
promptos a marcharem para a entrada
do valle. Os fundeiros e mais buccellarios de
pé que se preparem para subir aos pincaros
sobranceiros por ambos os lados do arraial.
Dize-lhes, tambem, a uns e a outros, que
sem demora eu serei com elles.»
O centenario saiu.
Pelagio chegou-se então aos que dormiam
e, despertando-os um a um, fe-los approximar
da boca da gruta:
«Vedes vós a estrella matutina que empallidece?—disse,
apontando para um breve
espaço do firmamento, onde, atravez do
portal irregular, se via fulgir o planeta Venus.—Não
tarda muito que ella desappareça
mergulhada na vermelhidão da aurora.
Essa vermelhidão tingirá em breve o céu,
como o sangue ha-de hoje tingir a terra: mas
confio em Deus que, tambem, como após ella
ha-de surgir o sol envolto no seu fulgor glorioso,
assim a cruz e o nome dos godos se
alevantarão triumphantes, após o sangue vertido
por esses dous objectos sanctos e queridos,
que nos tem alimentado a energia da
alma no meio dos trabalhos e perigos. Guerreiros!
os arabes seguiram as vossas pisadas.
Abdulaziz e Juliano, um insensato e um renegado,
ousaram approximar-se ao antro dos
leões d'Hespanha, e os leões hão-de despedaçá-los.
O céu condemnou-os: diz-me íntima
voz que elle os condemnou, inspirando-me
um estratagema a que os infiéis não poderão
resistir.»
No gesto de Pelagio, ao proferir estas palavras,
estava estampada a expressão da confiança,
do esforço e do enthusiasmo; daquelle
enthusiasmo que elle sabía communicar aos
que o ouviam e que, na situação quasi desesperada
em que se achavam os foragidos das
Asturias, fizera com que lhe cedessem voluntariamente
o mando supremo os mais velhos
e experimentados guerreiros.
Pelagio expôs em breves palavras os seus
desenhos para obter dos arabes um triumpho
completo. O caminho que seguiam devia forçosamente
trazê-los ás gargantas das serras.
Collocados na entrada do valle, uma parte
dos cavalleiros offerecer-lhes-hiam debil resistencia,
cedendo pouco a pouco e retirando-se
para o topo daquella especie de caldeira
cortada nas montanhas: apenas ahi chegados,
abandonando os ginetes, precipitar-se-hiam
para a caverna, aonde já se teriam
acolhido as mulheres, creanças e velhos dispersos
pelas tendas do campo, e em cujo estreito
e escarpado portal poucos pelejadores
bastavam para resistir á multidão dos inimigos.
Então o grosso dos cavalleiros, em cilada
nas selvas que se dilatavam para as alturas,
á esquerda das gargantas do valle,
acommette-los-hiam pelas costas, emquanto
os buccellarios, sumidos pelas penedias, lá
no alto dos barrocaes que formavam como
um muro de ambos os lados do arraial, fariam
chover sobre os infiéis as armas de arremesso,
sem que a estes fosse possivel repelli-los,
ignorando os caminhos que conduziam
áquelles logares, na apparencia só accessiveis
ás aguias e aos abutres, que alli tinham,
de feito, a sua guarida solitaria.
«Mas a vós, cavalleiros—concluia Pelagio—que
provastes extremos de esforço na
correria a que devo a salvação de minha pobre
irman, a vós pertence o acabar a victoria
que o Senhor nos vai dar. Ha mais de
um anno que as nossas mãos se tem callejado
a alluir os penhascos que coroam o
tecto desta caverna; ha mais de um anno que
raro dia se passa sem que o suor das nossas
frontes os humedeça, ao tombarmo-los lentamente
para a borda do despenhadeiro que
se eleva a prumo sobre o ádito deste recincto.
Ahi, acompanhados dos meus robustos cantabros
e dos selvagens do Herminio, será o
vosso pelejar: ahi, quando os inimigos, apinhados
ante aquelle portal, se arremessarem
contra os guerreiros que o hão-de defender;
quando as trombetas dos que os ferirem pelas
costas soarem uma toada de morte, e os
invisiveis buccellarios fizerem chover sobre os
infiéis os tiros de funda, as settas e os dardos,
cumpre que esses rochedos que, lá no
cimo, parecem embebidos na penedia, cáiam
rapidamente e esmaguem os esquadrões cerrados
dos inimigos da Hespanha. Pelo caminho
talhado na rocha sobre as nascentes
subterraneas do Deva, ireis assentar-vos no
cume do Auseba, e o anjo do exterminio pairará
juncto de vós: sereis a intelligencia que
guie o duro braço dos cantabros e dos lusitanos
para lhes dirigir os golpes, para os reter
quando, rareiados, confundidos, esmagados
os troços da serpente maldicta que ousa
colleiar juncto de Covadonga, nós podermos
arremessar-nos ao meio delles e fazer cahir
sobre a cabeça dos pagãos os golpes dos nossos
frankisks, não menos destruidores que os
rochedos despenhados.
«Como assim?!—replicou Sancion, que
por vezes estivera a ponto d'interromper o
mancebo.—Nós, próceres e gardingos, nós
que meneiamos a facha e a espada; nós que
trajamos o ferro, combateremos, como os
servos e vís, de longe e sem risco? Nós, que
por tantas milhas através das serras démos
as costas aos infiéis, não poderemos, embebendo-lhes
as espadas no peito, dizer-lhes
emfim:—Eis-nos aqui?...—Pelagio, isso é
impossivel!»
«Impossivel!—repetiram todos os outros
cavalleiros apinhados ao redor de Sancion.
«Impossivel é—interrompeu o duque de
Cantabria com gesto severo—que haja guerreiros
christãos que recusem obedecer-me, no
momento em que se tracta, não de ambições
de gloria, mas da redempção da Hespanha.
Cavalleiros, o esforço de vossos corações vos
engana! Exhaustos pela correria da proxima
noite, os braços vos desmentiriam o animo,
e eu não consentirei jámais um sacrificio inutil,
quando de outro modo podeis contribuir
para salvarmos as Asturias. Gutislo!—clamou
elle approximando-se da boca da caverna—dize
aos teus irmãos do Herminio
que venham aqui e ao quingentario da minha
tiuphadia que vos siga com os soldados cantabros.
Sancion, Gudesteu, Astrimiro, Énecon,
vós todos que me cercaes, eis alli o vosso
caminho! Parti.»
E apontava para um lado da gruta, onde
quem chegava ao perto via, lá em cima, o
céu estrellado, por uma especie de claraboia
natural, e, quasi debaixo dos pés, um como
sorvedouro escuro, em cujas profundezas se
percebia o ruído das nascentes do Deva. Na
circumferencia daquelle abysmo, desde o chão
da caverna, os foragidos, aproveitando as escabrosidades
das paredes circulares, tinham
formado uma escada tosca, ora cavada na
pedra, ora firmada sobre troncos de arvores
fixos nas fendas e cavidades da rocha, e que,
lançada em espiral, saía perto do cimo calvo
do Auseba. Assim, quando o valle fosse occupado
dos sarracenos, os christãos poderiam
defender-se por largo tempo, obtendo por
esse caminho occulto os soccorros dos montanheses.
Entre os cavalleiros a quem Pelagio dirigíra
aquellas palavras houve alguns instantes
de hesitação, e um murmurio de descontentamento;
mas, por fim, Sancion, pegando em
um dos fachos, encaminhou-se para a escada
subterranea, e os outros seguiram-no. Os
quasi selvagens filhos do Munda, vestidos de
pelles de alimarias, e os cantabros, cujas feições
e trajos tambem revelavam a sua origem
celtica, não tardaram a entrar na caverna.
Pelagio então lhes ordenou obedecessem
aos guerreiros que os haviam precedido,
e em breve o som das passadas daquelle tropel
desordenado, alongando-se pelo abysmo,
morreu em silencio total.
Eurico parecia indifferente ao que se passava
ao pé delle, assentado no escabello e
com os olhos cravados no cepo candente que
se consumia no afumado lar. Pelagio voltou-se
para elle, e disse-lhe:
«Vós, Eurico, ficareis aqui: vós que salvastes
minha irman, sereis o seu guardador.
Quem melhor vigiaria por Hermengarda do
que esse homem que nella tem um testemunho
perenne do mais indizivel esforço, da
mais pura e generosa lealdade? Desejaria ver
juncto de mim no combate o melhor guerreiro
da Hespanha: ter-vo-lo-hia, até, pedido
quando o mysterio em que vos involvieis
nos fazia suspeitar a todos que vós, o cavalleiro
negro, ereis um ente privilegiado e não
um mortal como nós. Agora, porém, depois
que no trance horroroso das margens do Sallia
nos revelastes quem sois, quando, resolvido
a morrer, pedieis apenas algumas lagrymas
para a vossa memoria áquelles que
vos sobreviviam, pedir-vos-hei eu, tambem,
que não queiraes encontrar o primeiro impeto
dos sarracenos. Se na defensão desta
nossa triste morada, aonde cumpre attrahi-los,
for necessario o auxilio do vencedor dos
vasconios, do mais illustre dos tiuphados de
Witiza, ou se a colera de Deus ainda não
está satisfeita, e devem hoje perecer os ultimos
homens livres da Hespanha, vireis vós
morrer comnosco. Entretanto, continuae a
ser o anjo da guarda da pobre filha de Favila.
Ella parece mais tranquilla, e o monge
Bacchiario, em cuja sciencia tem achado allivio
tantos de nossos irmãos, recommendou
o repouso como o melhor remedio para a
febre que a devora. Retardarei quanto podér
o instante de se acolherem aqui as mulheres,
as creanças e os velhos inuteis para o combate.
Fazei, entretanto, que nestes logares
reine profundo silencio.»
Silencio guardava o cavalleiro: no seu olhar
incerto e scintillante descobria-se que lá, naquella
alma, tumultuavam paixões violentas
e oppostas. Não respondeu; nem Pelagio lhe
dera para isso tempo. Crendo ler no seu gesto
perturbado a mesma repugnancia que tinham
mostrado os outros guerreiros em não
assistir ao primeiro recontro dos infiéis, o
duque de Cantabria atravessou apressado a
boca da gruta e desceu a senda tortuosa que
conduzia ao fundo do valle. D'ahi a pouco,
sentiu-se o galopar de um cavallo á rédea
solta, que se confundiu, por fim, no sussurro
longinquo do arraial que se agitava, preparando-se
para o temeroso dia que pouco
tardaria a nascer.
Eurico estava, emfim, só.
XVIII
IMPOSSIVEL!
Nada neste mundo me agita o seio,
senão o teu amor.
Lenda de S. Pedro Confessor—9.
Apenas Pelagio transpôs o escuro portal
da gruta, Eurico alevantou-se. Aspirava com
ancia, como se aquelle ambiente tepido não
bastasse a saciá-lo. O desgraçado resumia
n'um pensamento devorador, n'uma synthese
atroz, o seu longo e doloroso passado e o seu
torvo e irremediavel futuro. Como voltara
áquelle logar? Como, sem lhe vergarem os
joelhos, tinha elle descido das alturas do Vinnio
com Hermengarda nos braços? Que tempo
durara essa carreira deliciosa e ao mesmo
tempo infernal? Não o sabía. Imagens confusas
de tudo isso eram apenas o que lhe
restava,—do sol, que pouco a pouco lhe
viera alumiar os passos, dos ribeiros que vadeiara,
das penedias agras, dos recostos dos
montes, das selvas que recuavam para trás
delle, dos cabeços negros que, ás vezes, lhe
parecera debruçarem-se no cimo dos despenhadeiros,
como para o verem correr. No
meio destas recordações incertas e materiaes
outras passavam íntimas, ardentes, voluptuosas,
negras, desesperadas. Por horas, que haviam
sido para elle uma eternidade de ventura,
o respirar daquella que amava como
insensato se misturara com o seu alento; por
horas sentira o ardor das faces della aquecer
as suas, e o coração bater-lhe contra o seu
coração. Depois, avultavam-lhe no espirito a
imagem veneranda de Siseberto e o altar da
sé d'Hispalis, juncto do qual vestira a pura
stringe de sacerdote, e Carteia e o presbyterio
e as noites de agonia volvidas nos ermos
do Calpe. E tudo isto se contradizia, se
repellia, se condemnava, o amor pelo sacerdocio,
o sacerdocio pelo amor, o futuro pelo
passado; e aquella alma, dilacerada no combate
destes pensamentos, quasi cedia ao peso
de tanta amargura.
Eurico deu alguns passos e encostou-se á
boca da gruta; porque os membros exhaustos
lhe fraqueiavam, apesar de que nem um
momento o abandonasse a força da sua alma
energica. A brisa frigidissima da madrugada
consolava-o como ao febricitante a aragem
de um sol-posto do outono. A seus pés estavam
as trevas do valle, sobre a sua cabeça
as solidões profundas e serenas do céu semeiado
dos pontos rutilantes das estrellas e
mal desbotado ao occidente pela ultima claridade
da lua minguante que desapparecia.
Era a imagem da sua vida. Serena e esperançosa,
como o crepusculo do luar fugitivo,
lhe fora a juventude. Desde que um amor
desditoso o fizera alevantar uma barreira entre
si e o ruído do mundo; desde que se votara
ás solemnes tristezas da soledade e a
derramar beneficios e consolações sobre a cabeça
dos miseraveis e humildes; pela alta noite
do seu viver muitas vezes fulgurara uma
luz de alegria, como esses astros que brilham
a espaços nos abysmos do firmamento: lá, ao
menos, havia instantes em que se esquecia
do seu destino. Mas, depois que o phrenesi
das batalhas o arrastara; depois que trocara
as harmonias das tempestades do Calpe e o
rugido das vagas do Estreito pelo gemer de
moribundos nos combates e pelo retinir dos
golpes, nunca mais descera um raio de cima
a alumiar-lhe o espirito. O seu presente e
o seu porvir eram, como esse valle, um precipicio
sem fundo, indelineavel, tenebroso e
maldicto.
E pelo céu tão placido e melancholico;
pelo céu, que elle ás vezes se punha a contemplar
ás horas mortas no pobre presbyterio
de Carteia ou assentado em algum promontorio,
a sua imaginação voou até os desvios
do sul, e as lagrymas de saudade começaram
a rolar-lhe mansamente pelas faces.
O desventurado tinha saudades das tristezas
do ermo, porque já não podia ter desejos
dos contentamentos humanos.
Engolfado naquellas cogitações dolorosas,
o guerreiro conservou-se por algum tempo
immovel e com os olhos cravados nos astros
scintillantes, que pareciam sorrir-lhe e chamá-lo
para o seio immenso do Senhor. As
lagrymas correram-lhe então mais abundantes,
e o coração parecia dilatar-se-lhe com o
pensamento da morte. Insensivelmente ajoelhou
e estendeu as mãos para o firmamento:
os seus labios murmuravam com cicío quasi
imperceptivel. Era a oração d'alma, férvida,
procellosa, que os agitava: era essa oração
que todos nós sabemos no momento de suprema
agonia e que nenhumas palavras, nenhuma
escriptura poderiam representar; oração
que é um mysterio entre Deus e o homem
e que nem os anjos comprehendem;
gemido energico de todas as miserias terrenas,
cuja intensidade só a providencia, que
as accumula ou dissipa, sabe pesar nas balanças
da justiça e da piedade divinas.
A morte; esta idéa, tremenda, indifferente
ou formosa, segundo a vida é risonha, pallida
ou negra, veio suavisar o martyrio daquella
alma attribulada, como em estio ardente
as grossas aguas da trovoada refrigeram
a terra, que estûa sob os raios aprumados
do sol. Tinha-a buscado; buscado com
a placidez horrivel da desesperança; como
um remedio de cuja efficacia a consciencia
da immortalidade o fazia duvidar. Sería não
mais do que ir deitar-se em leito de dores
eternas? Talvez: mas a mudança podia ser
refrigerio: tanto bastava. A morte parecia,
comtudo, fugir delle para que nem este ultimo
desejo se lhe cumprisse. Houve um instante
em que lhe occorreu o pensamento de subir
ao pinaculo escarpado do Auseba e despenhar-se
no valle. Refugiu d'esta idéa, porque
era covarde. Eurico, o sacerdote soldado, não
devia fenecer impia e vilmente; devia depôr
o peso intoleravel da vida no campo das batalhas
pelejadas em nome da cruz e da Hespanha.
E no recontro daquelle dia, uma voz
íntima lhe murmurava que o havia de obter.
Este anhelar pela morte era uma bem
triste cubiça! E quando se lembrava de que
essa mulher que ahi jazia a poucos passos
delle; essa mulher, em cuja adoração concentrara
todos os affectos dos mais formosos
dias da vida; cuja imagem sonhada nas solidões
do Calpe, desenhada de contínuo diante
dos olhos da sua alma, gravada como um
sello de saudade e de amargura em todas
as suas cogitações; essa mulher que, pouco
havia, por horas de delicioso delirio, apertara
contra o peito, e o podera, outr'ora, tornar
o mais feliz dos homens; quando se lembrava
de que sobre isso tudo elle deixara
cahir a campa de bronze do sacerdocio, que
ninguem podia erguer, o desgraçado sentia
estalarem-lhe uma a uma todas as fibras do
coração, e fugir-lhe do seio um grito semelhante
ao que rebenta dos labios do condemnado
ao supplicio do potro, no primeiro
movimento da mão pesada do algoz.
E, como se quizesse ainda mais saciar-se
de dor, encaminhou-se para o lado onde Hermengarda
repousava. Ao clarão da tocha que
espargia uma luz mortiça, o guerreiro contemplou-a
naquelle inquieto dormir. Era bella;
mais bella que nos tempos da primeira
mocidade! O seu gesto angelico, desbotado
pela pallidez, emmagrecido pelos pesares e
terrores, ganhara em expressão, em reflexo
dos íntimos pensamentos o que perdera em
viço e em toques d'innocencia. Bonina desabrochada
nos campos da vida, brilhara com
todas as pompas do seu vecejar á luz da manhan;
o ardor intenso do meio-dia a fizera
pender; a viração da tarde lhe traria, talvez,
ainda frescor e viveza; mas a sua fragrancia
perdia-se nas auras que passavam; nas suas
côres harmoniosas revia-se, apenas, o céu!
Aquella alma fugia solitaria pela terra n'um
viver incompleto e volveria aos abysmos da
creação sem conhecer o mais profundo e energico
dos affectos humanos, o amor, que une
dous espiritos como dous fragmentos de um
todo, os quaes a providencia separou ao lançá-los
na terra, e que devem buscar-se, unir-se,
completar-se, até irem, depois da morte,
formar, talvez, uma só existencia de anjo no
seio de Deus.
Mas quando Eurico se lembrou de que,
porventura, isto era um sonho; de que podia
ser que essa alma não passasse na vida
tão vazia e solitaria como elle julgava, e que
esse coração que poucas horas antes pulsára
tão perto do seu batia, acaso, por outrem,
sentiu o suor frio manar-lhe da fronte. A
tocha baça e funebre que mal alumiava a irman
de Pelagio pareceu-lhe retincta em sangue;
e, como o cedro arrancado por tufão
repentino, foi encostar-se á rocha lateral, cuja
superficie irregular lhe escondia Hermengarda.
O vê-la despertara todo o delirio do seu
primeiro amor, e aquella idéa intoleravel, que
tantas vezes o atormentara nas solidões do
Calpe, espremia-lhe agora o coração com redobrado
furor.
E assim ficou por alguns momentos mudo,
anhelante, anniquilado. Quem era, onde estava,
porque viera alli, não o saberia dizer:
os pensamentos revolviam-se-lhe na mente,
como as ondas n'um sorvedouro maritimo,
tempestuosos, rapidos e indistinctos.
De repente, um ai comprimido veio acordá-lo
daquella especie de torpor doloroso.
Estremeceu. Era a voz de Hermengarda. Approximou-se
manso e manso, de modo que
ella o não visse. Assentada sobre o leito, demudado
o gesto, e com o susto pintado no
olhar, a irman de Pelagio estendia os braços,
voltando o rosto para o lado, como quem
tentava affastar visão medonha. Pelas suas
palavras incoherentes e truncadas, o guerreiro
conheceu que um sonho máu a agitava,
até que, inteiramente desperta, essas palavras
confusas se começaram a coordenar em
periodos intelligiveis. O pulsar do coração
d'Eurico redobrava de violencia, ao passo que
o seu respirar se ia tornando cada vez mais
imperceptivel.
«Sempre elle! sempre esta visão de remorso!—murmurou
Hermengarda.—Meu
pae, meu pae! Perdoe-te o céu o orgulho
com que repelliste o gardingo... Perdoe-te
o céu o haveres-me obrigado a sacrificar aos
pés desse orgulho o sentimento de amor que
se alevantara neste coração. Nós ambos assassinámos
o desgraçado; mas a punição cahiu
inteira sobre mim! Embora. Eu não te
amaldicçoarei, oh meu pae! A tua filha nunca
te accusará ante o supremo juiz.»
Depois, ficou por alguns instantes calada,
com os olhos fitos no rochedo fronteiro, em
cuja face escabrosa as sombras pareciam dançar
e agitar-se á luz da tocha que ardia a
curta distancia, e que a aragem movia. Crera
perceber perto de si um gemido abafado,
cortando fugitivo o grande silencio nocturno.
«Vai-te, vai-te!—proseguiu ella.—Que
posso eu fazer-te, infeliz?... Bem longo e
atroz tem sido o meu martyrio, porque ainda
não achei no mundo alma com quem me fosse
dado repartir o calis do infortunio; a quem
houvesse de contar os tormentos que ha tanto
tempo me varreram dos labios o sorrir.
Se vivesses, sería tua; tua esposa, tua escrava!...
mas a benção nupcial não póde descer
entre o tumulo e a vida. Favila!... meu
pae!... diante do throno do Senhor, onde
são iguaes o duque e o gardingo, jura-lhe
que tua filha repelliu o seu amor por obedecer-te:
dize-lhe que o pranto correu destes olhos
ao ouvir a nova da sua morte. Oh, dize-lhe,
dize-lhe que não fui eu que o assassinei!»
E aqui, deixando pender a cabeça sobre
o peito, pareceu voltar ao sentimento da realidade;
mas aquella especie de terror febril
que lhe haviam gerado no espirito os trances,
qual mais doloroso, por que successivamente
passara, se tornou a apossar della. Favoreciam-no
o logar, a hora, o silencio. Hermengarda
alevantou de novo os olhos desvairados
e, firmando-se no rochedo, tentava
erguer-se.
«Era Eurico!—murmurou ella.—Depois
de dez annos, bem conheci a sua voz! Mais
triste, só: triste, como tantas vezes a tenho
ouvido nos meus sonhos de remorsos! Bem
conheci o seu gesto! Mais pallido e carregado,
só: pallido e carregado, como tantas
vezes tem surgido do sepulchro para vir mudamente
accusar-me, silencioso e quedo ante
mim, por longas e não dormidas noites. Era
elle!... um espectro cujo coração eu sentia
bater, cujos braços me apertaram por cima
do abysmo revolto, através da floresta, pelos
recostos das serranias. Dos seus olhos cahiu
sobre o meu seio uma lagryma! As lagrymas
dos mortos queimam... devoram a vida; porque
bem sinto a morte chamar-me...»
Tinha-se posto de joelhos e, com as mãos
estendidas, parecia implorar piedade.
«Morrer! tão cedo! Quando apenas tórno
a vêr meu irmão?!... Pelagio! Pelagio! porque
me deixaste? Vem despedir-te da tua
pobre Hermengarda. Eurico a espera para o
noivado do sepulchro, e eu não posso tardar.»
E desvairada, poz-se em pé, chamando
por Pelagio com voz suffocada. Apenas, porém,
dera os primeiros passos, soltou um
gemido agudo e ficou immovel. Diante della,
realidade ou phantasma, estava a origem dos
seus terrores secretos. Era o gardingo que
a amara, que ella cria morto, e cuja imagem
vingadora vinha mais uma vez atormentá-la.
O vulto cravara nella um olhar ardente,
que a fascinava. Sorriso doloroso lhe pousava
nos labios. Estendeu o braço, segurando
a mão de Hermengarda, que pretendeu recuar
e não pôde. Como petrificada, parecia
que os pés se lhe haviam enraizado no chão
da caverna. Aquella mão, que segurava a sua
escaldando de febre, era gelada como a de
um morto. A vida do gardingo tinha-se concentrado
toda no coração, que lhe despedaçavam
duas idéas, horriveis porque associadas:
o amor correspondido e tornado ao mesmo
tempo maldicto, monstruoso, impossivel
por uma palavra fatal, que lá estava escripta
em caracteres de fogo, e que elle via, escutava,
sentia—o sacerdocio!
«Oh, Deus t'o pague!—disse Eurico em
voz baixa e lenta—que lançaste na tão longa
noite da minha alma um raio fugitivo de luz,
luz sancta e pura de contentamento e felicidade!...
Ha dez annos que não me alumia,
e ella é tão bella, ainda quando passa como
o relampago!»—E, depois de estar calado
alguns instantes, com um gesto de íntimo e
angustiado cogitar, proseguiu:—Não, Hermengarda,
não! Os vermes ainda não receberam
a parte da sua herança que eu lhes
retenho. Morri; porém não para isso que, na
linguagem mentirosa do mundo, se chama a
vida. Durante annos dei-a a devorar á desesperação,
e a desesperação não pôde consummi-la.
Pendurei-a alta noite, pela espessura
das trevas, nas rochas escarpadas do mar
do occidente, á beira dos precipicios, e o mar
e os precipicios não quizeram tragá-la. Atirei-a
á torrente impetuosa das batalhas, e o
ferro embotou-se n'ella. O céu guardava-me
para te ouvir palavras de amor e arrependimento;
essas palavras de ineffavel doçura que
nunca esperei escutar. É que na minha fronte
está gravada a maldicção de cima: é que
ainda me faltava o derradeiro martyrio...
Ao menos posso acabar o teu: o pensá-lo é
um refrigerio. Hermengarda, eu vivo ainda!
Vivi para te salvar da deshonra, e todo o
meu passado esqueci-o. Só uma cousa não,
porque me subverteu para sempre o futuro;
porque, depois de passageira alegria, me recalcou
mais violentamente esperanças que
ousaram um momento agitar-se no fundo desta
alma, tranquilla na desesperança. Agora,
se ha repouso debaixo da campa, posso ir
buscar lá meu repouso. Mas dize-me; oh,
dize-me, ainda outra vez, que amas Eurico!
Repete diante do que respira aquillo que
proferiste diante da sombra creada pelo teu
terror. Essas palavras e o morrer!... O
teu amor e a morte; eis para mim a unica
ventura possivel, mas que não tem igual
na terra.
E Hermengarda sentia ao contacto daquella
mão fria e trémula apertando a sua,
no accento dessas phrases, tempestuosas como
o oceano, tristes como céu procelloso, que lá,
no peito do vulto que tinha ante si, havia um
coração de homem vivo, onde chaga antiga
e cancerosa vertia ainda sangue. A especie
de pesadelo em que se debatia desapparecera
com a realidade. O repentino impulso da sua
alma foi lançar-se nos braços de Eurico. Fora
elle o objecto do seu quasi infantil e unico
amor, amor condemnado ao silencio antes do
primeiro suspiro, antes do primeiro volver
d'olhos; era elle o cavalleiro negro, cujo nome
se tornara conhecido e glorioso por todos os
angulos da Hespanha; era elle, finalmente,
o homem que duas vezes acabava de salva-la.
Reteve-a, todavia, o pudor e, talvez, aquella
mysteriosa tristeza que escurecia as idéas desordenadas
vindas de tropel aos labios do guerreiro.
Procurando asserenar a violencia dos
affectos que a agitavam, Hermengarda respondeu
com voz fraca e tremula:
«Bemdicta a mão do Senhor, que te salvou,
Eurico, leal e nobre entre os mais nobres
e leaes filhos dos godos! Graças á piedade
do céu, que por meio de tantas desventuras
e perigos nos uniu nos paços que
restam ao filho do duque de Cantabria! No
devaneiar do terror revelei-te, sem querer, o
segredo do meu coração: a sua historia, ouviste-a.
Perdoa á memoria de meu pae, e,
se de mim depende a tua felicidade, as palavras
que me saíram involuntariamente da
boca te asseguram que serás feliz. O orgulho
que a ambos nos fez desgraçados não o herdou
Pelagio. Que o herdasse, mal caberia
n'estas brenhas, na caverna dos fugitivos. E
depois, que nome ha hoje na Hespanha mais
illustre que o do cavalleiro negro, o nome
de Eurico? Morreres?!... Oh, não? Salvaste
Hermengarda do opprobrio: se nunca te houvera
amado, ella te diria como te diz hoje:
Sou tua, Eurico!»
A filha de Favila, cujo profundo e energico
sentir mal poderia comprehender quem
só a houvera visto no momento em que timida
recuava diante do perigo mais apparente
que real das margens do Sallia, proferiu
estas palavras com um tom de enthusiasmo,
com uma expressão affectuosa tão
íntima, que o guerreiro cahiu a seus pés. A
ventura embargava-lhe a voz. O que lhe tumultuava
no coração não tem nome na linguagem
dos homens: era mais que a loucura.
Com um movimento delirante, apertou
contra os labios a mão da donzella. Queimavam!
Depois de largo silencio, elle murmurou
emfim:
«Minha!... Quem ha na terra que possa
roubar-m'a?... Annos de tormentos, fostes
como um dia de bonança e deleite! Imagem
que absorveste esta existencia inteira; anjo
que me fazes surgir do meu inferno para o
teu céu, tu foste que me salvaste a mim! Oh,
como é bom ser feliz!... Tinha-me já esquecido!...
Como o sol deve agora ser bello,
serena a aragem da tarde, meigo o murmurar
do ribeiro, viçosa a verdura do prado!...
Tinha-me tambem esquecido! Tens razão,
Hermengarda. Quero viver: o viver é delicioso;
delicioso, porque será comtigo... ao
pé de ti... a adorar-te sempre, sem me lembrar
do que existe, além de ti, no universo.
Vem, minha amante, minha esposa! vem jurar
que me pertences, perante o altar e aos
pés do sacerdote...»
A esta palavra fatal, um grito semelhante
ao de homem ferido de morte, rompeu agudo
e rapido do seio do cavalleiro. A mão d'Eurico
abandonou a mão d'Hermengarda, e os
seus olhos brilharam com fulgor infernal.
Recuou, affastando de si a irman de Pelagio,
sobresaltada por aquelle gesto subitamente
demudado, por aquelle olhar ardente e vago.
Ella não podia comprehender a causa de semelhante
mudança... Com o braço esquerdo
estendido, o guerreiro parecia querer arredá-la
de si, emquanto com a mão confrangida
apertava a fronte, como se buscasse esmagar
um pensamento atroz que lhe surgia
lá dentro.
«Affasta-te, mulher, que o teu amor me
perdeu!—murmurou emfim.—Ha entre nós
um abysmo: tu o abriste; eu precipitei-me
nelle. Um crime, só um crime, póde unir-nos...»
Fez uma pausa, e proseguiu:—E
porque não se commetterá elle? Talvez
obtivessemos perdão!... Perdão? Oh meu
Deus, não o terias para o sacrilego... não!—Affasta-te,
Hermengarda. Diante de ti
tens um desgraçado, um desgraçado que fizeste!»
A donzella uniu as mãos lavada em lagrymas,
e exclamou:
«Eurico! Eurico! enlouqueceste?... Por
piedade, explica-me este horroroso mysterio!
Porque me repelles? que te fiz eu... eu que
te amo, que sou tua, tua para sempre?!»
Mas os olhos scintillantes do cavalleiro tinham
amortecido: derribado na lucta que
travara com o destino, o seu combater de
tantos annos terminava, finalmente. Um sorriso
insensato substituiu-lhe no rosto as contracções
habituaes de melancholia. Affigurava-se-lhe
que em roda delle balouçava a caverna,
e a luz fumosa da tocha que ardia
segura no braço de ferro cravado na pedra
parecia-lhe faiscar em fitas cor de sangue. Esvaído,
vacillante, assentou-se n'um fragmento
da rocha e, estendendo a mão para Hermengarda,
pegou de novo na della e, com
um sorriso indizivel, continuou em voz submissa:
«Dez annos!... Sabes tu, Hermengarda,
o que é o passar dez annos amarrado ao proprio
cadaver? Sabes tu o que são mil e mil
noites consummidas a espreitar em horisonte
illimitado a estrella polar da esperança e,
quando, no fim, os olhos cansados e gastos
se vão cerrar na morte, ver essa estrella reluzir
um instante e, depois, desfechar do céu
nas profundezas do nada? Sabes o que é caminhar
sobre silvados pelo caminho da vida e
achar ao cabo, em vez do marco milliario
onde o peregrino dê treguas aos pés rasgados
e sanguentos, a borda de um despenhadeiro,
no qual é força precipitar-se? Sabes
o que isto é? É a minha triste historia! Estrella
momentanea que me illuminaste, cahiste
no abysmo! Arbusto que me retiveste
um instante, a minha mão desfalecida abandonou-te,
e eu despenhei-me! Oh, quanto o
meu fado foi negro!»
Hermengarda contemplava-o com assombro
e terror... Como o entenderia ella? Eurico
proseguiu:
«Olha tu! Ao pôr do sol, no estio, ía eu
assentar-me sobre um cerro maritimo, alongando
a vista pelo oceano tranquillo, e parecia-me
divisar-te desenhada na atmosphera
a sorrir-me. Então, as lagrymas de felicidade
começavam a brotar-me dos olhos: depois,
lembrava-me de quem eu era, e essas lagrymas
condensavam-se a meio das faces e
queimavam como se fossem de metal candente.
A horas mortas, correndo pelos desvios,
quando o vento açoutava os arbustos
enfezados da montanha, cada sombra que se
meneiava ao luar, sobre o chão pardacento,
era a tua sombra que eu via. Outras noites,
em que mais tranquillo podia, a sós comigo,
engolfar-me nos pensamentos de Deus, a tua
imagem vinha interpôr-se entre mim e a lampada
mortiça que me alumiava, e o hymno
do Presbytero de Carteia, que devia, talvez,
escrever-se nos hymnarios das cathedraes da
Hespanha, ficava incompleto ou terminava
por uma blasphemia; porque, tambem, te via
sorrir, mas a outrem, mas a homem feliz
com o teu amor, e eu tinha então sede...
sede de sangue... Era uma lenta agonia! E
sempre tu ante mim: nas solidões das brenhas,
na immensidade das aguas, no silencio
do presbyterio, nos raios esplendidos do sol,
no reflexo pallido da lua e, até, na hostia do
sacrificio... sempre tu!... e sempre para
mim impossivel!»
«Mas deliras!...—interrompeu Hermengarda.—Que
tens tu com o Presbytero de
Carteia; com esse illustre sacerdote, cujos
hymnos sacros reboavam ainda ha pouco pelos
templos da Hespanha, e a quem, de certo,
o
ferro impio dos arabes não respeitou?
A tua gloria é outra e mais bella; a gloria
de seres o vencedor dos vencedores da cruz.
A sua era sancta e pacifica. Deus chamou-o
para si, e tu vives para ser meu. Ninguem
existe hoje no mundo que possa embaraçá-lo.
Esquece o passado; esquece-o por amor
de mim!»
O cavalleiro sorriu de novo dolorosamente,
e disse-lhe:
«Que tenho eu com o Presbytero de Carteia?!...
Hermengarda, lembras-te do seu
nome?»
Os labios da donzella fizeram-se brancos
ao ouvir esta pergunta: um pensamento monstruoso
e incrivel lhe passara pelo espirito.
Com voz affogada e quasi imperceptivel replicou:
«Era.... era o teu, Eurico!... Mas que
póde haver commum entre o guerreiro e o
sacerdote? Que importa um nome... uma
palavra?.... que...»
O cavalleiro pôs-se em pé e, deixando descahir
os braços e pender o rosto sobre o
peito, murmurou:
«Ha commum, que o guerreiro e o presbytero
são um desgraçado só!... Importa,
que esse desgraçado é neste momento um
sacerdote sacrilego. O pastor de Carteia...»
«Oh não acabes!—interrompeu Hermengarda,
com indizivel afflicção.
«Era Eurico, o gardingo!»
Proferindo estas palavras, que explicavam
o mysterio da sua existencia, o cavalleiro negro
viu cahir como fulminada a filha de Favila.
E elle não se moveu. A sua imaginação
tresvariada affigurou-lhe perto de si o vulto
suave e triste do veneravel Siseberto, que
estendia a mão mirrada entre ambos, como
para os dividir em nome da religião, que os
devia salvar, e do sepulchro, a quem pertenciam.
Neste momento uma grande multidão de
creanças, de velhos, de mulheres penetraram
na caverna com gritos e chóros de terror.
No coração das Asturias, entre alcantis intractaveis,
no fundo de um vasto deserto, repetia-se
o grito que mil vezes tinha soado na
devastada Hespanha: «Os arabes!»
Amanhecera.
Aquelle sobresalto, tão impensado, revocou
o cavalleiro ao sentimento da sua situação.
Ajoelhou juncto de Hermengarda e, pegando-lhe
na mão já fria, beijou-lh'a. Nas
raias da vida, aquelle beijo, primeiro e ultimo,
era purificado pelo halito da morte que
se approximava: era innocente e sancto, como
o de dous cherubins ao dizer-lhes o Creador:
«existí!»
Depois ergueu-se, vestiu a sua negra armadura,
cingiu a espada, lançou mão do
frankisk e, rompendo por entre o tropel, que
fizera silencio ao vê-lo, desappareceu através
da porta da gruta, cujas rochas tingia
cor de sangue a dourada vermelhidão da
aurora.
XIX
CONCLUSÃO