A 13 de junho os francezes tinham começado um bombardeamento terrivel. Sete baterias vomitando incessantemente fogo, batiam em brecha a face direita do terceiro bastião da esquerda, a cortina e a face esquerda do segundo bastião. As outras occupavam-se particularmente da villa Spada e da villa Savorelli, que ameaçava a cada instante cahir-nos em cima, de sorte que com grande pesar meu, vi-me a 20 forçado a transportar o meu quartel general para o palacio Corsini.
Era impossivel que eu ahi ficasse: estava muito affastado das muralhas.
É verdade que julgava poder estar tranquillo.
Atacado por todos os lados, todos os dias Medici, que nós chamavamos o infatigavel, repellia os ataques e conservava o Vascello e as suas barracas.
Eu não saberei dizer em seu elogio, senão que não sei como elle poude tanto.
A 20 de junho havia tres brechas praticaveis, apezar de tudo o que Manara e eu haviamos feito para nos oppôr aos effeitos dos projectis.
Afóra isto fazia do assalto um divertimento. Os adversarios que tinhamos em frente eram dignos de nós. Já lhes haviamos mostrado que os italianos sabiam bater-se. Esperava ainda mostrar-lhes o que era uma lucta á faca e ao punhal.
Na noite de 21 o segundo batalhão da União estava de guarda ao bastião da esquerda e á defensa da brecha, assim como duas companhias do 1.o regimento, que deviam ser trocadas. Entretanto prolongaram o seu serviço até ao amanhecer, para melhor defensa do terceiro bastião á esquerda.
A primeira e a quinta companhia dos bersaglieri estavam ao serviço no Vascello; a sexta e a setima, de guarda aos approches da esquerda, fóra da porta São-Pancracio, de onde se estendiam nossas sentinellas, sobre a direita, até aos muros do casino e a poucos passos da parallela franceza.
Este serviço era horrivelmente perigoso. Apenas se fazia de noite, e um pouco antes de amanhecer, todos os postos eram retirados e a guarda de noite reentrava nos muros.
O major Calvandro tinha a vigilancia exterior d'esta linha; o coronel Rossi o serviço de ronda interior.
Depois de ter disposto todos os postos avançados, o major estava occupado a dar suas instrucções aos capitães Stambio e Morandoli quando pelas onze horas da noite, se ouviu para o lado dos bastiões n.os 2 e 3 um certo ruido egual ao de cousa que se quebra.
Alguns tiros seguiram este ruido, e tudo reentrou na noite e no silencio.
Que acontecêra?
Que os francezes se haviam apresentado repentinamente ante a brecha, não como um inimigo que sobe ao assalto, mas como soldados que despertam uma sentinella.
De onde sahiram elles? por onde tinham vindo? que caminho haviam seguido? Eis o que foi sempre impossivel saber-se.
Muitos suppozeram uma traição.
A sentinella interrogada respondeu que os francezes tinham sahido debaixo da terra, e lhe tinham ordenado de fugir.
Na mesma noite, apezar de uma energica resistencia, o bastião no 7 e a cortina que o unia ao bastião no 6 cahiu depois de um combate sangrento, nas mãos dos francezes.
Era justamente no dia precedente que eu havia transportado o meu quartel general da villa Savorelli ao palacio Corsini. Quasi immediatamente ao successo fui d'elle prevenido pelo ajudante Delai, do regimento da União.
Confesso que foi grande a minha surpreza, e que não fui dos ultimos a attribuir o facto a uma traição.
Seguido de Manara e do capitão Hoffstetter, cheguei aos postos justamente no momento em que os bersaglieri, sempre promptos e álerta, estavam reunidos na rua que conduz a São-Pancracio.
A legião italiana, seguiu-me a marche-marche; e logo atraz vinham duas cohortes do coronel Sacchi.
Este enviou logo uma companhia a reconhecer os logares; chegada ao segundo bastião foi constrangida a retirar-se para a casa Gallicelli, visto o numero excessivo dos francezes.
A terrivel nova já estava espalhada pela cidade; e o triumvirato prevenido d'ella fez tocar a rebate. A este ruido cada casa pareceu repellir seus habitantes; n'um instante encheram-se as ruas de gente.
O general em chefe Roselli, o ministro da guerra, todo o estado maior e Marini correram ao Janiculo.
O povo em armas rodeiava-nos e pedia para repellir os francezes das muralhas.
O general Roselli e o ministro da guerra eram d'este parecer; mas eu declarei-me contra.
Temia a confusão que poria nas minhas linhas esta multidão, a irregularidade dos movimentos, os panicos nocturnos tão naturaes em gente não habituada ao fogo, e mesmo entre os já habituados, como vimos na noite de 10.
Pedi pois positivamente que se esperasse a manhã.
De manhã vêr-se-hia a que inimigo era mister fazer face, fosse elle á traição.
Vindo o dia, toda a minha divisão estava prompta, reforçada pelos regimentos que o general Roselli poz á minha disposição.
A companhia dos estudantes lombardos que faziam parte da legião Medici estava na vanguarda.
A propria legião Medici recebêra ordem de se juntar a nós.
Os canhões das nossas baterias voltados para os bastiões occupados, ribombavam ao mesmo tempo de São Pedro in Montorio, do bastião no 8 e de Santo Aleixo.
Os estudantes lombardos marcharam na frente ao assalto. Ainda que fulminados pelo fogo dos francezes, precipitaram-se á bayoneta sobre a guarda principal e sobre os trabalhadores, que forçaram a concentrar-se no casino Barberini.
Os bravos mancebos estavam já no terrapleno do casino; mas eu acabava de saber com que forças tinhamos a combater. Vi que um segundo 3 de junho ia roubar-me metade d'estes homens que eu amava como filhos. Não tinha esperança alguma de affastar os francezes da sua posição; ia portanto ordenar uma carnificina inutil.
Roma estava perdida, mas era perdida depois de uma defensa esplendida e maravilhosa. A queda de Roma depois de um cerco tal era o triumpho da democracia na Europa.
Depois restava-me a idéa de que eu conservava quatro ou cinco mil defensores dedicados que me conheciam, que eu conhecia e que corresponderiam á minha primeira chamada.[3]
Dei a ordem de retirada, promettendo para as cinco horas da tarde um outro assalto, que não contava dar se não como o primeiro.
Os estudantes haviam sido admiraveis. Citarei apenas um exemplo.
Um pintor, o milanez Juduno, foi retirado da arena ferido por vinte e sete bayonetadas.
Bertani salvou-o, e hoje gosa uma saude admiravel.
Para mim, pois, tudo estava perdido, pelo menos provisoriamente, não desde o momento em que os francezes estavam senhores das nossas brechas, mas desde o instante em que o partido que sustentava a republica romana na constituinte franceza fôra vencido.
Suppondo que sacrificando um milhar de bravos, eu tinha repellido os francezes das suas posições das villas Corsini e Valentina; como no 3 de junho elles teriam retomado, á força de tropas frescas, todas as posições d'onde eu os repellia.
E aqui não tinha eu as mesmas razões de me obstinar.
A villa Corsini em nosso poder impedia os trabalhos de approche.
Mas uma vez executados os trabalhos de approche, uma vez abertas as brechas, quem podia impedir a tomada de Roma?
Ninguem.
Antes da noticia da fuga de Ledru-Rollin e de seus amigos para Inglaterra, cada dia em que eu prolongava a existencia de Roma era um dia de esperança.
Depois d'esta nova, a resistencia era uma desesperação inutil.
Ora, eu julguei que os romanos tinham feito muitos prodigios em face do mundo para não ter necessidade de recorrer á desesperação.
Os poderes coalligados tinham encerrado a republica romana, isto é a democracia da Peninsula nas velhas muralhas d'Aurelio.
Nada mais tinhamos a fazer do que romper o circulo e levar, como Scipião, a guerra a Carthago.
A nossa Carthago era Napoles.
É ali que nos encontraremos um dia face a face, espero-o, o despotismo e eu.
Deus approxime este dia.