MEMORIAS DE GARIBALDI
Nasci em Niza, a 22 de julho de 1807, não só na casa, mas no proprio quarto em que nasceu Masséna. O illustre marechal era, como ninguem ignora, filho de um padeiro. Nas lojas d'aquelle predio ainda hoje se conserva uma padaria.
Antes de fallar a meu respeito seja-me permittido dizer duas palavras de meus estimados paes de que o excellente caracter e profunda ternura tanta influencia tiveram na minha educação e disposições physicas.
Meu pae, Domingos Garibaldi, natural de Chiavari, era como meu avô maritimo. Vindo ao mundo o primeiro objecto que seus olhos viram foi o mar, e era no mar que devia passar quasi toda a sua vida. Estava bem longe de possuir os conhecimentos que são o apanagio dos homens da sua classe, e principalmente do nosso seculo. Não havia formado a sua educação em uma escóla especial, mas sim nos navios de meu avô.
Mais tarde capitaneou uma embarcação com grande felicidade. Soffreu immensos incidentes uns felizes, outros desgraçados, e muitas vezes ouvi dizer que nos poderia ter deixado mais bens de fortuna do que nos legou.
Mas que importa isso! Meu pobre pae era livre de gastar como intendesse um dinheiro tão laboriosamente ganho, e eu não lhe sou menos reconhecido por esse facto. De mais ha uma coisa, de que estou intimamente convencido e é, de que todo o dinheiro que dispendeu n'este mundo o que gastou com a minha educação foi o que com mais prazer saín das suas algibeiras apesar dos grandes sacrificios que para isso era obrigado a fazer.
Não julguem por isto que a minha educação foi aristocratica. Meu pae não me mandou ensinar gymnastica, jogo d'armas ou equitação. A gymnastica apprendi-a trepando pelos cabos dos navios, e deixando-me escorregar pelas enxarcias; a esgrima defendendo a minha cabeça e tentando o melhor que podia quebrar a dos outros, e a equitação tomando os exemplos dos primeiros cavalleiros do mundo, isto é, dos Gauchos.
O unico exercicio corporal da minha mocidade, para o qual tambem não tive mestre, foi a natação. Não me lembro quando, e como aprendi a nadar, mas julgo que sempre o soube, pois desconfio que nasci amphibio. Assim não obstante o pouco prazer que tenho em me prodigalisar elogios, como sabem todos aquelles que me conhecem, não posso deixar de dizer que, sou um dos melhores nadadores existentes. Sendo conhecida a confiança que tenho em mim é escuzado dizer que nunca hesitei em me atirar á agua quando era necessario salvar um dos similhantes.
Entretanto se meu pae não me mandou ensinar todos estes exercicios a culpa não foi sua, mas sim da epocha calamitosa porque atravessavamos. N'estes tempos desgraçados o clero era o senhor absoluto do Piemonte, e todos os seus esforços eram tornar os mancebos em frades inuteis e mandriões em logar de cidadãos aptos para servirem a nossa desgraçada patria. O amor profundo que me consagrava meu pobre pae, até lhe fazia receiar que se eu recebesse alguma instrucção, isso me fosse funesto para o futuro.
Rosa Raymundo, minha mãe, era, digo-o com bastante orgulho, o modelo das mulheres. Todo o bom filho deve dizer o mesmo de sua mãe, mas nenhum o dirá com mais justiça do que eu.
Um dos remorsos de toda a minha vida, talvez o maior, foi e será o ter tornado desgraçados os seus ultimos dias! Só Deus sabe quanto ella soffreu com a minha vida aventureira, porque só Deus sabe o immenso amor que minha mãe me consagrava. Se em mim existe algum sentimento bom, confesso-o, e com bastante ufania, é a ella a quem o devo. O seu caracter angelico devia forçosamente deixar-me alguns vestigios. Não será á sua piedade pelos desgraçados, á sua compaixão pelos infelizes, que eu devo este amor pela patria, amor que me mereceu a affeição e sympathia dos meus compatriotas?
Não sou supersticioso, mas devo dizer que nas circumstancias mais criticas da minha vida, quando o oceano rugindo erguia o meu navio como um pedaço de cortiça, quando as bombas assobiavam a meus ouvidos como o vento da tempestade, quando as ballas cahiam em volta de mim como a saraiva, via sempre minha pobre mãe ajoelhada aos pés do Senhor orando pelo filho das suas entranhas. Se algumas vezes mostrei uma coragem de que muitos se admiraram, é porque estava convencido de que não me succederia desgraça alguma quando tão santa mulher, quando similhante anjo orava por mim.
Os primeiros annos da minha mocidade foram passados, como são os de todas as creanças, isto é, rindo e chorando sem saber porque, estimando mais o prazer que o trabalho, os divertimentos que o estudo, e não aproveitando, como devia ter feito, os sacrificios que meus paes faziam por meu respeito. Cousa alguma extraordinaria aconteceu durante a minha infancia. Tinha um excellente coração, sendo este um bem emanado de Deus e de minha mãe. Escusado é dizer que os impulsos d'esse coração eram por mim immediatamente satisfeitos. Tive sempre grande compaixão por tudo o que era fraco e soffredor. Esta compaixão estendia-se até aos animaes, ou antes começava por elles. Lembra-me de que um dia apanhei um grillo e que levando-o para o meu quarto, ahi passei alguns momentos brincando com elle, até que com essa inepcia ou antes brutalidade da infancia lhe arranquei uma perna: a minha dôr foi tal, que passei muitas horas encerrado no meu quarto chorando amargamente.
Outra vez indo a Var á caça com um primo meu, parei ao pé d'um profundo fosso aonde as lavadeiras costumavam lavar a roupa e aonde n'aquelle momento se achava uma pobre mulher lavando a sua. Não sei como, mas esta desgraçada caiu no fosso. Apesar de ser mui novo—tinha então oito annos—atirei-me á agua conseguindo salval-a. Conto este caso para provar quanto é natural em mim um sentimento que me leva a soccorrer o meu similhante, e para se conhecer o pouco valor que tem o fazel-o.
Entre os professores que tive n'esta epocha da minha vida, contam-se o padre Giovanni e o senhor Arene, a quem eu conservo um reconhecimento particular.
Com o primeiro aproveitei pouco, porque, como já disse, tinha mais disposição para brincar e vadear, do que para trabalhar. Resta-me sobre tudo o pesar de não haver estudado o inglez, como o teria podido fazer, porque sendo o padre Giovanni de casa e quasi de familia, as suas lições resentiam-se da muita familiaridade que entre nós existia. Todas as vezes que sou obrigado a tractar com inglezes, que não são poucas, este sentimento renova-se sempre. Ao segundo, optimo professor, é a quem devo o pouco que sei, mas o que mais lhe agradeço, e porque lhe serei eternamente grato, é haver-me ensinado a minha lingua materna pela constante leitura da historia romana.
A grave falta de não ensinar ás creanças a lingua e historia patria é frequentemente commettida em Italia, e principalmente em Niza, onde a proximidade de França influe muitissimo na educação. É pois a esta primeira leitura da nossa historia, e á persistencia com que meu irmão mais velho, Angelo, me recommendava o seu estudo, que eu devo o pouco que sei da sciencia historica e a facilidade de exprimir os meus pensamentos.
Termino este primeiro periodo da minha juventude narrando um facto que, apezar da sua pouca importancia dará uma idéa da minha disposição para a vida aventureira.
Fatigado de estudar, e soffrendo muito pela vida sedentaria que era obrigado a levar, propuz um dia a alguns dos meus companheiros que fugissemos para Genova. A proposta foi logo approvada e desatando um barco de pesca fizemo-nos de véla para o Oriente. Estavamos nas alturas de Monaco quando um pirata, mandado por meu excellente pae nos apanhou e entregou cheios de vergonha ás nossas familias. Um abbade que nos havia visto foi o denunciante. D'este facto é que provavelmente vem as poucas sympathias que sinto pelos abbades.
Os meus companheiros n'esta aventura eram, se bem me recordo, César Parodi, Rafael de Andreis e Celestino Dermond.
«Oh! primavera, juventude do anno. Oh! juventude, primavera da vida!» disse Metastasio, eu ajuntarei: Como tudo se aformosea ao sol da juventude e da primavera!
Foi illuminado por esse bello sol que tu linda Constanza, primeiro navio em que sulquei os mares, me appareceste. Os teus robustos flancos, a tua elevada e ligeira mastreação, a tua espaçosa coberta, e até o busto de mulher que se patenteava soberbo na tua prôa, ficarão eternamente gravados na minha idéa! Como os teus marinheiros, verdadeiros typos dos nossos Ligurios, se inclinavam graciosamente sob os remos!
Com que alegria me dependurava na amurada para ouvir as suas canções populares.
Cantavam canções de amor; ninguem então lhe ensinava outras, e estas por mais insignificantes que fossem, enterneciam-me e arrebatavam-me. Se esses cantos tivessem sido pela patria, talvez me enlouquecessem! Quem lhe diria então que havia uma Italia? Quem lhe diria que tinhamos uma patria a vingar e a tornar livre?
Ninguem!
Fomos educados e crescemos como judeus, isto é, na crença de que a vida não tem senão um fim—fazer fortuna.
Em quanto olhava alegre para o navio em que ia embarcar, minha mãe preparava, chorando, a minha bagagem.
A minha vocação era a vida aventureira do mar. Meu pae fez todo o possivel para me tirar similhante idéa, a sua vontade era que eu seguisse, uma carreira pacifica e sem perigos; que fosse padre, advogado ou medico. Mas a minha persistencia o fez desistir, e o seu amor cedeu á minha juvenil obstinação. Embarquei então na Constanza de que era capitão Angelo Pesante o mais atrevido maritimo que tenho conhecido. Se a nossa marinha tivesse tomado as proporções que se podiam esperar, o capitão Pesante teria direito ao commando de um dos nossos navios de guerra, e ninguem o teria excedido. Pesante nunca commandou uma esquadra, mas que se dirijam a elle, e em breve tempo já terá arranjado uma, desde as barcas até ás naus de tres pontos. Se elle algum dia obtivesse uma tal commissão, posso assegurar que haveria proveito e gloria para a patria.
Fiz a minha primeira viagem a Odessa. Estas viagens tornaram-se depois tão communs e faceis que é inutil descrevel-as.
A minha segunda viagem foi a Roma, mas na companhia de meu pae que tendo na minha primeira ausencia soffrido mortaes inquietações, se tinha resolvido visto eu não querer ceder da minha teima, a acompanhar-me.
Fizemos a viagem na sua tartana a Santa Reparata.
A Roma! Com que alegria eu partia! Já disse como pelos conselhos de meu irmão e pelos cuidados do meu digno professor havia estudado, a historia romana. Roma era para mim, admirador da antiguidade, a capital do mundo. É verdade que se achava destruida, mas as suas ruinas eram immensas, gigantescas e d'ellas sae a memoria de tudo quanto é bello e grandioso. Roma foi não só a capital do mundo, mas o berço d'essa religião santa que quebrou a cadêa dos escravos, que ennobreceu a humanidade, d'essa religião de que os primeiros apostolos foram os instituidores das nações, os emancipadores dos povos, mas de que infelizmente os successores degenerados teem sido o flagello da Italia, vendendo sua mãe, ou antes nossa mãe, aos estrangeiros! Não! não! a Roma que eu via nos sonhos da minha mocidade não era só a Roma do passado, mas tambem a do futuro, abrigando em seu seio a idéa regeneradora de um povo perseguido pela inveja das outras nações, porque nasceu grande e porque tem sempre marchado á frente dos povos, guiados por ella á civilisação.
Roma! quando penso na sua desgraça, no seu abatimento, no seu martyrio, parece-me superior a todo o mundo. Amava-a com todas as forças da minha alma, não só nos combates soberbos da sua grandeza durante tres seculos; mas até nos mais pequenos successos que eu recolhia no meu coração como um precioso deposito.
O meu amor em logar de diminuir, tem augmentado com o desterro. Muitas vezes, no outro lado dos mares, a tres mil leguas de distancia, pedia ao Senhor como uma graça especial o tornar a vêl-a. Finalmente, Roma era para mim a Italia, porque eu não vejo a Italia senão na reunião dos seus membros dispersos, e Roma é para mim o symbolo da unidade italiana.
Durante algum tempo naveguei na companhia de meu pae; depois fui a Cagliari no bergantim Etna, de que era capitão José Gervino.
N'esta viagem presenciei uma horrivel catastrophe que me deixou uma eterna recordação. Vindo de Cagliari, na altura do cabo Noli, navegavamos na companhia de alguns navios, entre os quaes se achava uma encantadora falua catalã. Depois de gosarmos dois ou tres dias de um bello tempo, começámos a sentir algumas rajadas d'esse vento a que os nossos marinheiros chamam Libieno, por que antes de chegar ao Mediterraneo passa pelo deserto de Lybia. Impellido por elle o mar não tardou a enfurecer-se, e tão furiosamente que nos arrastou para Vado.
A falua de que já fallei sustentou-se admiravelmente no começo da tormenta, e não duvido dizer que todos nós receiando que a tempestade augmentasse, desejavamos antes estar a bordo da falua, do que dos nossos navios. Infelizmente a desgraçada embarcação estava destinada a offerecer-nos um doloroso espectaculo: uma vaga horrivel a cobriu, e em bem poucos instantes todos aquelles desgraçados foram submergidos. A catastrophe tinha logar á nossa direita, e por isso nos era absolutamente impossivel soccorrel-os. Os outros navios que nos acompanhavam tambem se achavam na mesma impossibilidade. Nove pessoas da mesma familia morreram á nossa vista, sem lhe podermos prestar o mais leve soccorro. Algumas lagrimas appareceram nos olhos dos mais endurecidos dos nossos marinheiros, mas o perigo proprio era tal que ellas bem depressa seccaram. A tempestade abrandou, como se estivesse satisfeita por haver immolado estas victimas; e chegamos a Vado sem incídente.
De Vado parti para Genova, e de Genova voltei a Niza.
Então comecei uma serie de viagens ao Levante, durante as quaes fomos tres vezes tomados e roubados pelos piratas. Duas vezes o fomos na mesma viagem, o que tornou os segundos piratas mui furiosos, visto que não nos encontravam cousa alguma para roubar. Foi n'estes ataques que comecei a familiarisar-me com o perigo, e a vêr que sem ser Nelson, podia como elle perguntar:—O que é o medo?
Foi n'uma destas viagens, no bergantim Cortese, capitão Barlasemeria, que fiquei doente em Constantinopla. O navio foi obrigado a fazer-se de véla, e prolongando-se a minha doença mais do que eu tinha julgado, achei-me muito falto de recursos.
Como em todas as situações desgraçadas em que me tenho achado, sempre encontrei alguma alma caridosa que me soccorresse, nunca pensei muito na falta de dinheiro.
Entre essas almas caridosas encontrei uma que nunca esquecerei: é a excellente senhora Luiza Sauvaigo, de Niza, que me fez convencer de que as duas mulheres mais perfeitas do mundo, eram minha mãe e ella.
Luiza fazia a felicidade de um marido, excellente homem, e tratava com uma admiravel intelligencia da educação de seus filhos.
Porque razão fallei agora de Luiza? É porque escrevendo para satisfazer uma necessidade do coração, ella me dictou o que acabo de lançar ao papel.
A guerra então existente entre a Porta Ottomana e a Russia contribuiu a prolongar a minha estada na capital do imperio turco. Durante este tempo e ignorando ainda como poderia alcançar recursos para viver, fui admittido como preceptor em casa da viuva Timoni. Este emprego foi-me dado sob recommendação de M. Diego, doutor em medicina, e a quem dou aqui um voto de agradecimento pelo serviço que me prestou. Estava, pois, preceptor de tres meninos. Assim fiquei muitos mezes, até que a vontade de navegar vindo de novo, me embarquei no bergantim Notre-Dame-de-Grace, de que tinha sido capitão Casanova.
Foi este o primeiro navio em que embarquei como capitão.
Não fatigarei o leitor fallando nas minhas viagens, em que nada de extraordinario me succedeu, direi unicamente que atormentado sempre por um profundo patriotismo, nunca cessei de perguntar noticias sobre a ressurreição de Italia, mas infelizmente até á edade de vinte e quatro annos todo o trabalho foi inutil.
Emfim, n'uma viagem a Taganrog veiu a bordo do meu navio um patriota italiano, que me deu algumas noticias sob a maneira porque marchavam os negocios de Italia.
Havia alguma esperança para o nosso desgraçado paiz.
Christovão Colombo, não foi mais feliz, quando perdido no meio do Atlantico, e ameaçado pelos seus companheiros a quem havia pedido só tres dias, ouviu gritar: «Terra», do que eu quando ouvi pronunciar a palavra patria, e vi no horisonte o primeiro pharol preparado pela revolução franceza de 1830.
Havia então homens que se occupavam da redempção da Italia!
Em outra viagem, transportei no Clorinde, a Constantinopla alguns Simoniacos, conduzidos por Emilio Parrault.
Tinha ouvido fallar pouco na seita de «Saint-Simon»; sabia unicamente que estes homens eram os apostolos perseguidos de uma nova religião.
Vendo em Parrault um patriota italiano, dei-lhe parte de todos os meus pensamentos. Então durante essas noutes transparentes do Oriente, que, como diz Chateaubriand, não são as trevas, mas unicamente a ausencia do dia, debaixo d'esse ceu marchetado de estrellas, sobre esse mar de que a brisa parecia cheia de inspirações generosas, discutimos, não só as mesquinhas questões de nacionalidade nas quaes havia pensado muito, questões restrictas á Italia, e a cada provincia—mas até a grande questão da humanidade.
Este apostolo provou-me que o homem que defende a sua patria, ou que ataca a dos outros, é no primeiro caso um soldado piedoso; injusto no segundo,—mas o homem que tornando-se cosmopolita, adopta a todas por patria e vae offerecer a sua espada e o seu sangue ao povo que lucta contra a tyrannia, é mais que um soldado—é um heroe.
Teve então logar no meu espirito uma mudança repentina. Pareceu-me vêr em um navio não o vehiculo encarregado de transportar mercadorias entre os diversos paizes, mas o mensageiro do Senhor. Havia partido avido de emoções, e curioso por vêr cousas novas, e a mim mesmo perguntava se esta idéa irresistivel que me perseguia não tinha horisontes mais dilatados e por descobrir. Via esses horisontes atravez o longiquo véo do futuro.
O navio em que desta vez voltei do Oriente destinava-se a Marselha.
Chegando a esta cidade soube da revolução suffocada no Piemonte e dos fuzilamentos de Chambéry, Alexandria e Genova.
Em Marselha travei relações intimas com Covi, que me apresentou a Mazzini.
Então estava longe de suspeitar a grande communidade de principios que um dia me uniria a Mazzini. Ninguem conhecia ainda o persistente e obstinado pensador, que nem a propria ingratidão tem feito desistir da grande obra que emprehendeu. Quando soube da morte de Vocchieri, Mazzini tinha dado um verdadeiro grito de guerra.
Escreveu na sua Joven Italia: «Italianos, é tempo de nos juntarmos, se queremos ficar dignos do nosso nome; e derramar o nosso sangue amalgamando-o com o dos martyres piemontezes.»
Mas em França, em 1833, não se diziam impunemente d'estas cousas. Algum tempo depois de lhe haver sido apresentado, e de lhe ter dito que podia contar comigo, Mazzini, o eterno proscripto, era obrigado a deixar a França e a retirar-se a Genova.
N'esta occasião o partido republicano parecia completamente morto na França. Era um anno apenas decorrido: estavamos a 5 de junho,—alguns mezes depois do processo dos combatentes do claustro Saint-Merry.
Mazzini havia escolhido este momento para fazer uma nova tentativa.
Os patriotas tinham respondido que estavam promptos, mas pediam um chefe.
Pensaram em Romarino, ainda coberto de louros por causa das suas luctas na Polonia.
Mazzini não approvava esta escolha, o seu espirito activo e profundo prevenia-o contra os grandes nomes; mas a maioria queria Romarino, e então Mazzini cedeu.
Chamado a Genova, Romarino acceitou o commando da expedição. Na primeira conferencia com Mazzini foi convencionado que duas columnas republicanas se deviam dirigir ao Piemonte, uma pela Saboia outra por Genova.
Romarino recebeu quarenta mil francos para fazer face ás primeiras despezas, e partiu com um secretario de Mazzini que ia encarregado de o vigiar.[3]
Todos estes acontecimentos tiveram logar em setembro de 1833; a expedição devia ter logar em outubro.
Mas Romarino conduziu tudo de tal modo que a expedição não estava prompta senão em janeiro de 1834.
Mazzini não obstante todas as tergivergencias do general tinha-se mostrado firme.
Em fim a 31 de janeiro, Ramorino collocado na ultima extremidade por Mazzini reuniu-se a elle em Genova, com dois outros generaes e um ajudante de campo.
A conferencia foi triste, e mal annunciada por pessimos agouros. Mazzini propoz que se occupasse militarmente a villa de S. Julião, onde se achavam reunidos os patriotas saboyanos e os republicanos francezes, que haviam adherido ao movimento.
Era em S. Julião que se devia levantar o grito de rebellião.
Ramorino era da opinião de Mazzini. As duas columnas deviam pôr-se em marcha no mesmo dia: uma partiria de Caronge, e a outra de Nyon, devendo esta atravessar o lago para se reunir á primeira na estrada de S. Julião.
Ramorino ficava com o commando da primeira columna: a segunda estava debaixo das ordens de Graboky.
O governo genovez receioso de se indispor, por um lado com a França, por outro com o Piemonte, viu com maus olhos este movimento. Quiz oppor-se á partida da columna de Caronge commandada por Romarino, mas o povo sublevou-se, e o governo foi forçado a deixal-a marchar.
Não succedeu o mesmo com a que devia partir de Nyon.
Dous barcos se haviam feito de véla, levando um soldados, e o outro armas.
Mandaram em sua perseguição um navio de guerra a vapor, que trouxe as armas e aprisionou os soldados.
Ramorino não vendo chegar a tropa que se lhe devia juntar, em logar de proseguir na sua marcha sobre S. Julião, começou a costear o lago.
Muito tempo se passou sem saber aonde iam. Não se conheciam as intenções do general: o frio era intenso, e os caminhos estavam em um estado deploravel.
Exceptuando alguns polacos, a columna era composta de voluntarios italianos, impacientes pela hora do combate, mas que cançavam facilmente pela extensão e difficuldade do caminho.
A bandeira italiana atravessou algumas pobres villas, nenhuma voz amiga a saudou, não encontrando por toda a parte senão curiosos ou indifferentes.
Fatigado pelos seus largos trabalhos, Mazzini que tinha trocado a penna pela espingarda, seguia a columna: soffrendo uma febre ardente, arrastava-se por aquelles asperos caminhos com a dôr escripta na fronte.
Já por varias vezes tinha perguntado a Ramorino quaes eram as suas intenções, e que caminho seguia.
As respostas do general nunca o haviam satisfeito.
Chegaram a Carra e detiveram-se para ahi passar a noite; Mazzini e Ramorino achavam-se na mesma camara.
Ramorino estava embrulhado na sua capa; Mazzini fixava sobre elle o seu olhar sombrio desconfiado.
—Não é seguindo este caminho, disse elle com a sua voz sonora, tornada mais vibrante pela febre, que temos a esperança de encontrar o inimigo. Devemos ir ao seu encontro, e se a victoria é impossivel, provemos ao menos á Italia que sabemos morrer.
—Não nos faltará nem o tempo, nem a occasião, respondeu o general, para affrontar perigos inuteis: considero como um crime o expôr inutilmente a flôr da mocidade italiana.
—Não ha religião sem martyres, respondeu Mazzini, fundemos a nossa, ainda que seja com o nosso sangue.
Mal acabava de pronunciar estas palavras, que o estrondo da fuzilaria se ouviu.
Ramorino deu um salto. Mazzini pegou n'uma carabina, agradecendo a Deus o ter-lhe feito encontrar o inimigo. Mas este era o ultimo esforço da sua energia: a febre devorava-o; os seus companheiros correndo de noite pareciam-lhe fantasmas, a fronte escaldava-lhe, e a terra tremia-lhe debaixo dos pés. Depois de alguns minutos de afflicção caíu desmaiado.
Quando voltou a si achou-se na Suissa, aonde os seus companheiros o tinham conduzido com grande trabalho: a fuzilaria de Carra tinha sido um rebate falso.
Ramorino declarou então que tudo estava perdido: recusou-se a ir mais longe e ordenou a retirada.
Durante este tempo uma columna de cem homens, da qual faziam parte um certo numero de republicanos francezes, partiu para Grenoble, e atravessou a fronteira da Saboya.
O perfeito francez preveniu as auctoridades sardas: os republicanos foram attacados de noute e de improviso, ao pé das grutas de Cobellos, e dispersos depois d'um combate que durou uma hora.
N'este combate os soldados sardos fizeram dois prisioneiros. Angelo Volantieri e José Borrel: conduzidos voluntariamente a Chamberg e condemnados á morte, foram fuzilados na mesma terra aonde ainda estava fumegante o sangue de Elfico Tolla.
Por este modo terminou aquella expedição.
Tinha tambem a minha parte a cumprir no movimento que devia ter tido logar, e havia-a acceitado sem discutir.
Havia entrado no serviço do estado como marinheiro de primeira classe da fragata Eurydice. A minha missão era alcançar proselytos para a nossa causa, e para conseguir este fim tinha feito tudo quanto me era possivel.
Dado o caso que o nosso movimento tivesse bom resultado, devia com os meus companheiros apoderar-me da fragata e pôl-a á disposição dos republicanos.
Não havia querido, impellido pelo ardor que sentia, limitar-me a este papel. Tinha ouvido dizer que um movimento teria logar em Genova, devendo por esta occasião apoderarem-se do quartel dos gendarmes situado na praça de Sarzana. Deixei aos meus companheiros o cuidado de se assenhorearem do navio, e proximo da hora em que devia rebentar a rebellião de Genova deitei uma canôa ao mar e desembarquei na alfandega, gastando poucos momentos a chegar á praça de Sarzana, onde, como já disse, estava situado o quartel.
Esperei quasi uma hora, mas nenhum indicio de rebellião appareceu. Bem depressa ouvi dizer que tudo estava perdido, havendo-se posto os republicanos em fuga: dizendo-se tambem que varias prisões haviam sido feitas.
Como não me tinha engajado na marinha sarda senão para ajudar o movimento republicano, julguei inutil voltar a bordo do Eurydice, começando a pensar nos meios de me pôr em fuga.
No momento em que fazia estas reflexões, alguma tropa prevenida sem duvida do projecto de nos apoderarmos do quartel, começou a guarnecer a praça.
Vi então que não havia tempo a perder. Refugiei-me em casa de uma vendedeira de fructa e confessei-lhe a situação em que me achava.
A excellente mulher não fez nenhuma reflexão e escondeu-me nos quartos interiores do seu estabelecimento. No dia seguinte procurou-me um fato completo de camponez, e pelas oito horas da noite sahi, como se andasse passeando, de Genova pela porta da Lanterne, começando então essa vida de exilio, luto e perseguição, que, segundo todas as probabilidades, ainda não finalisou.
Estavamos a 5 de fevereiro de 1834.
Abandonando os caminhos batidos e trilhados dirigi-me por atalhos para as montanhas. Tinha bastantes jardins que atravessar, e muitos muros que saltar. Felizmente estava familiarisado com estes exercicios, e depois de uma hora de gymnastica achava-me fóra do ultimo jardim.
Encaminhado-me para Cassiopea, ganhei as montanhas de Sestri, e no fim de dez dias, ou antes de dez noites; cheguei a Niza, dirigindo-me logo a casa de minha tia, na praça da Victoria, a fim de que ella prevenindo minha mãe lhe tirasse todos os cuidados.
Descancei um dia, e na noite seguinte parti acompanhado por dois amigos, José Jaun, e Engelo Gostavini.
Chegados ao Var, achamol-o innundado pelas chuvas, mas para um nadador como eu, não era isto um obstaculo. Atravessei-o metade a nado, metade a vau.
Os meus dois amigos haviam ficado na outra margem. Disse-lhe adeus.
Estava salvo, ou quasi, como se vae vêr.
N'esta esperança dirigi-me a um corpo de guardas da alfandega; disse-lhe quem era, e qual o motivo porque havia deixado Genova.
Os guardas disseram-me que era seu prisioneiro, até nova ordem, e que a iam mandar pedir a Paris.
Julgando que acharia facilmente occasião de fugir, não fiz nenhuma resistencia, e deixei-me conduzir a Grasse, e de Grasse a Draguignan.
Em Draguignan metteram-me em um quarto do primeiro andar, cuja janella sem grades, dava para um jardim.
Aproximei-me d'ella como se quizesse vêr o jardim: da janella ao chão havia a altura de quinze pés. Dei um salto, e em quanto os guardas, menos ligeiros e estimando mais as pernas do que eu estimava as minhas, saíam pela escada; ganhei-lhe muita dianteira embrenhando-me nas montanhas.
Não conhecia o caminho, mas era marinheiro, e lendo no ceo, n'esse grande livro, aonde estava habituado a lêr, orientei-me e dirigi-me a Marselha. No dia seguinte de tarde cheguei a uma villa de que nunca soube o nome, porque nem tive tempo para o perguntar.
Entrei n'uma estalagem. Um mancebo e uma mulher ainda joven estavam á mesa esperando pela ceia.
Pedi alguma cousa de comer: desde a vespera que não havia tomado nenhum alimento.
O dono da hospedaria convidou-me para ceiar na sua companhia e de sua mulher. Acceitei.
A comida era boa, o vinho do paiz agradavel, e o fogo excellente. Senti então um d'esses momentos de bem estar e felicidade, como só se experimentam depois de se haver passado um perigo, e quando se julga não haver mais nada a receiar.
O dono da hospedaria felicitou-me pelo meu bom appetite, e pelo meu rosto alegre e prasenteiro.
Disse-lhe que o meu appetite não tinha nada de extraordinario, porque não tinha comido havia dezoito horas e que o achar-me alegre e satisfeito era por haver escapado talvez á morte no meu paiz—e em França á prisão.
Tendo-me adiantado tanto, não podia fazer segredo do resto. O estalajadeiro e sua mulher pareciam-me tão boas pessoas que lhe contei tudo.
Então, com grande espanto meu, o estalajadeiro ficou pensativo.
—Que tem? lhe perguntei.
—É que depois da confissão que acaba de fazer, respondeu elle, não tenho remedio senão prendel-o.
Dei uma grande gargalhada porque não tomei este dito ao serio, e demais se o fosse eramos um contra um, e não havia no mundo um unico homem que eu temesse.
—Bem, disse eu, mas como julgo que não tem muita pressa, peço-lhe que me deixe ceiar com todo o descanço, pois temos muito tempo depois do dessert. E continuei comendo sem mostrar a mais leve inquietação.
Infelizmente vi bem depressa que se o estalajadeiro tivesse necessidade de ajudantes para realisar os seus projectos, esses ajudantes não lhe faltavam.
A sua estalagem era o logar aonde toda a mocidade da villa se reunia ás noutes para beber, fumar, e fallar da politica.
A sociedade do costume começava a reunir-se, e bem depressa estavam na estalagem mais de doze mancebos, jogando as cartas, bebendo e fumando.
O estalajadeiro não tornou a fallar na minha prisão, mas tambem não me perdia de vista.
É verdade que não tendo eu a mais pequena mala, não tinha cousa alguma que lhe assegurasse o pagamento da minha despesa.
Como tinha na algibeira alguns escudos, fiz barulho com elles, o que pareceu socegar o meu homem.
No momento em que um dos bebedores acabava, no meio dos applausos geraes, de cantar uma canção, ergui o copo que tinha na mão:
—Agora pertence-me, disse eu:
E comecei a cantar o Deus dos bons.
Se não tivesse outra vocação teria podido fazer-me cantor, porque tenho uma voz de tenor que cultivada alcançaria uma certa extensão.
Os versos de Beranger, a franquesa com que eram cantados, a fraternidade do estribilho, a popularidade do poeta, arrebataram todo o auditório.
Fizeram-me repetir dois ou tres couplets e abraçando-me todos quando acabei, gritaram—Viva Beranger! Viva a França! Viva a Italia!
Depois de haver obtido tal successo era escusado pensar em prender-me; o estalajadeiro conheceu isso porque nunca mais me fallou de tal, ignorando eu por isso se elle fallava seriamente ou se zombava.
Passou-se a noite a cantar, jogar e a beber; e ao romper do dia todos os meus companheiros da noite se offereceram para me acompanhar, honra que acceitei sem difficuldade: caminhámos juntos seis milhas.
Com toda a certeza Beranger morreu sem saber o grande serviço que me prestou.
Cheguei a Marselha sem incidente, vinte dias depois de ter deixado Genova.
Engano-me, um incidente, que li no Povo Soberano, me succedeu.
Estava condemnado á morte.
Era a primeira vez que tinha a honra de ver o meu nome impresso em um jornal.
Como desde então era perigoso continuar a usar d'elle, comecei a chamar-me Pane.
Fiquei alguns mezes occioso em Marselha, aproveitando-me da hospitalidade do meu amigo José Paris.
Passado algum tempo consegui ser admittido como segundo commandante no navio Union, capitão Gozan.
No domingo seguinte achando-me pelas cinco horas da tarde á janella com o capitão, seguia com a vista um collegial em ferias que se divertia no caes de Santo André a saltar de uma barca para outra, até que faltando-lhe um pé caíu ao mar.
Estava vestido á domingueira, mas apesar d'isso, ouvindo os gritos dados pela desgraçada creança arrojei-me á agua completamente vestido. Duas vezes mergulhei inutilmente, mas á terceira fui mais feliz porque o agarrei por debaixo dos braços, conseguindo trazel-o sem difficuldade até á praia. Uma grande quantidade de povo ahi estava reunida, sendo eu recebido no meio dos seus applausos e bravos.
Era um rapaz de quatorze annos que se chamava José Bambau. As lagrimas de alegria e as bençãos de sua mãe pagaram-me largamente do banho que tinha tomado.
Como o salvei debaixo do nome de José Pane, é provavel que se é ainda vivo, nunca soubesse o verdadeiro nome de seu salvador.
Fiz na Union a minha terceira viagem a Odessa, depois á volta embarquei-me em uma fragata do bey de Tunis. Deixei-a no porto de Goletta, voltando a Marselha em um brigue turco. Quando cheguei a esta cidade encontrei-a quasi no mesmo estado que M. de Belzunce a viu em 1720 quando ali grassava a febre negra.
O cholera fazia então estragos horriveis.
Na cidade só existiam os medicos e as irmãs da caridade, quasi todo o resto da população havia desertado e viviam nas quintas dos arrebaldes. Marselha tinha o aspecto d'um vasto cemiterio.
Os medicos pediam os benevolos. É assim, como se sabe, que são chamados nos hospitaes os enfermeiros voluntarios.
Offereci-me ao mesmo tempo que um rapaz de Trieste que voltou de Tunis comigo. Estabelecemo-nos no hospital, e ahi partilhavamos as vigilias.
Este serviço durou quinze dias. No fim d'este tempo, como o cholera diminuiu de intensidade e achava uma occasião favoravel de ver novos paizes, embarquei-me, como segundo no brigue Nantonnier, de Nantes, capitão Beauregard, que se achava proximo a partir para o Rio de Janeiro.
Muitos dos meus amigos me teem dito que antes de tudo sou poeta.
Se para ser poeta é necessario escrever a Iliada, a Divina Comedia, as Meditações de Lamartine, ou os Orientaes, de Victor Hugo, eu não sou poeta: mas se para o ser é necessario passar horas e horas a procurar nas aguas asuladas e profundas do mar os mysterios da vegetação submarina, se é necessario ficar em extase diante da bahia do Rio de Janeiro, de Napoles ou de Constantinopla, se é preciso pensar no amor filial, nas recordações infantis, ou n'um amor juvenil no meio das ballas e bombas, sem pensar que esse sonho ha-de acabar pela cabeça ou por um braço quebrado—então sou poeta.
Recordo-me que um dia, durante a ultima guerra, não dormindo havia quarenta horas, e morto de cançasso costeava Urbano e os seus doze mil homens com os meus quarenta bersaglieri, os meus quarenta cavalleiros e um milhar de homens armados na sua maioria pessimamente, seguia por um pequeno atalho do outro lado do monte Orfano com o coronel Turr e cinco ou seis homens, quando parei repentinamente, esquecendo a fadiga e o perigo para ouvir um rouxinol.
Era uma noite magnifica. Sonhava ouvindo este amigo de infancia, que um orvalho benefico e regenerador chovia em torno de mim. Os que me rodeavam julgaram ou que hesitava no caminho a seguir, ou que ouvia ao longe troar os canhões, ou os passos da cavallaria inimiga. Não! Escutava um rouxinol que ha mais de dez annos, póde ser, eu não tinha ouvido. Este extase durou não até que os que me rodeavam me tivessem repetido duas ou tres vezes «General, ahi está o inimigo» mas até que este rompendo o fogo fizesse desapparecer o meu encanto.
Quando depois de ter costeado os rochedos graniticos que occultam a todas as vistas o porto, que os indios na sua linguagem expressiva chamam Nelheroky, quer dizer, agua occulta, quando depois de haver passado a estrada que conduz á nova bahia socegada como um lago; quando na margem occidental d'esta bahia, vi elevar-se a cidade chamada Paus d'Assucar, immenso rochedo conico que serve não de pharol, mas de balisa aos navegantes, quando appareceu em volta de mim essa natureza luxuriante de que a Africa e a Asia só me tinham dado uma fraca idéa, fiquei maravilhado do espectaculo esplendido que meus olhos contemplavam.
Foi no Rio de Janeiro que a minha boa estrella fez com que eu encontrasse a coisa mais rara do mundo, isto é, um amigo.
Não tive necessidade de o procurar, não tivemos necessidade de nos estudar, para nos conhecermos, encontramo-nos, trocamos um olhar e nada mais; depois um sorriso, um aperto de mão, e Rossetti e eu eramos dous irmãos.
Mais tarde terei occasião de dizer o que valia esta nobre alma; e não obstante, eu, o seu maior amigo, seu irmão, o seu companheiro por tanto tempo inseparavel, morrerei, póde ser, sem ter occasião de plantar uma cruz no ponto ignorado da terra aonde repousam os restos deste generoso e valente cidadão.
Depois de termos passado algum tempo na ociosidade—Chamo ociosidade o estarmos Rossetti e eu, seguindo um modo de vida para que não tinhamos disposição alguma—o acaso fez com que travassemos relações com Zambecarri, secretario de Bento Gonçalves, presidente da republica do Rio Grande, que se achava então em guerra com o Brasil. Ambos estavam prisioneiros de guerra em Santa Cruz n'uma fortaleza que se eleva á direita á entrada do porto d'onde chamam os navios á falla. Zambecarri, filho do famoso areonauta perdido n'uma viagem á Syria e de que nunca mais se ouviu fallar, apresentou-me ao presidente que me deu a carta para poder piratear os navios brasileiros.
Algum tempo depois Bento Gonçalves e Zambecarri fugiram a nado chegando livres de todo o perigo ao Rio Grande.
Armámos em guerra o Mazzini, pequeno navio de trinta toneladas, e fizemo-nos ao mar com dezeseis companheiros de aventuras. Finalmente eramos livres, navegavamos debaixo de um pavilhão republicano; emfim eramos corsarios.
Com dezeseis homens de equipagem e um navio eramos capazes de declarar a guerra a um imperio.
Sahindo do porto dirigi-me para as ilhas Marica, situadas a cinco ou seis milhas da embocadura da barra. As nossas armas e munições estavam occultas debaixo das carnes salgadas e da mandioca, unico alimento dos negros.
Naveguei para a maior d'estas ilhas, que possue um ancuradouro, lancei a ancora, saltei em terra e subi ao monte mais elevado.
Ahi estendi os braços com um sentimento de felicidade e orgulho inexplicavel, dando um grito similhante ao da aguia quando paira no mais alto dos ares.
O Oceano pertencia-me e eu tomava posse do meu imperio.
A occasião de o exercer não se fez esperar.
Em quanto estava como um passaro do mar, debruçado sobre o meu observatorio, vi uma galeota navegando com o pavilhão brasileiro.
Mandei apromptar tudo para nos fazermos immediatamente ao mar, e desci á praia.
Navegámos direitos á galeota que não julgava por certo correr tão grande perigo a tres milhas da barra do Rio de Janeiro.
Abordando-a fizemo-nos conhecer, e intimámos o capitão para se render immediatamente. Para sua justiça é necessario dizer que não fizeram a mais pequena resistencia. Em poucos momentos estavamos a seu bordo. Vi então dirigir-se-me um passageiro portuguez, que trazia na mão uma caixa. Abriu-a, e mostrou-a cheia de diamantes, que me offereceu em troca da vida.
Fechei a caixa e entreguei-lh'a, dizendo-lhe que a sua vida não corria perigo algum, e que por consequencia, podia guardar os seus diamantes para melhor occasião.
Não tinhamos tempo a perder, estavamos quasi debaixo do fogo das baterias do porto. Transportámos as armas e munições para bordo da galeota e affundámos o Mazzini que como se vê, tinha tido uma curta, mas gloriosa existencia.
A galeota pertencia a um rico negociante austriaco que habitava a ilha Grande, situada á direita sahindo do porto, a quinze milhas de terra, e estava carregada de café que era enviado á Europa.
O navio era para mim, por todos os motivos, uma excellente presa, porque pertencia a um austriaco a quem eu tinha feito a guerra na Europa, e a um negociante brasileiro domiciliado no Brasil a quem eu fazia a guerra na America.
Dei á galeota o nome de Farropilha, derivado de Farrapos, nome que no imperio do Brasil se dá aos habitantes das republicas da America do Sul, assim como Filippe II chamava mendigos de terra ou de mar, aos revoltosos dos Paizes Baixos.
Até então a galeota chamava-se Luiza.
O nome que lhe havia dado calhava perfeitamente. Os meus companheiros não eram Rossettis, e devo confessar, que a figura de alguns d'elles, não era satisfatoria; isto explica a rapida entrega da galeota e o terror do portuguez que me offereceu os seus diamantes.
Durante todo o tempo que fui corsario dei ordem á minha gente para a vida, honra e fortuna dos passageiros ser respeitada... ir dizer debaixo de pena de morte, mas não devo dizer tal, porque não tendo até hoje ninguem infringindo as minhas ordens, não tenho tido ninguem que punir.
Depois de concluidos os nossos primeiros arranjos dirigi-me para o Rio da Prata, e para dar o exemplo de respeito que eu queria se tivesse no futuro pela vida, liberdade e bens dos passageiros, quando cheguei á altura da ilha de Santa Catharina, um pouco abaixo do cabo Itapoya, mandei deitar ao mar a lancha do navio e entregando tudo quanto pertencia aos passageiros e alguns mantimentos os fiz embarcar deixando-os livres de se dirigirem para onde quizessem.
Cinco pretos escravos da galeota e a quem eu havia dado a liberdade engajaram-se como marinheiros.
Quando chegámos ao Rio da Prata, ancorámos em Maldonato pertencente á republica oriental de Uruguay.
Fomos admiravelmente recebidos pela população e mesmo pelas auctoridades, o que me pareceu de excellente agouro. Rossetti partiu pois tranquilamente para Montevideo afim de ahi vender o nosso café e apurar algum dinheiro.
Nós ficámos em Maldonato,—quer dizer á entrada d'esse magnifico rio que na sua embocadura tem trinta leguas de largo—durante oito dias que se passaram em festas continuas, que infelizmente estiveram para acabar tragicamente. Oribe, que, na sua qualidade de chefe da republica de Montevideo não reconhecia as outras republicas, deu ordem ao governador de Montevideo para me prender e apoderar-se da galeota. Felizmente o governador de Maldonato era um excellente homem que em logar de executar a ordem que recebeu, o que não lhe teria sido difficil pela pouca ou nenhuma desconfiança que eu tinha, mandou-me prevenir para que levantasse ancora e partisse para o meu destino, se é que o tinha.
Prometti partir na mesma noite, mas antes tinha um negocio pessoal a tractar em terra.
Tinha vendido, para comprar viveres, a um negociante de Montevideo algumas saccas de café e algumas bijouterias, pertencentes ao nosso austriaco. Mas ou porque o meu comprador fosse máu pagador, ou porque tendo ouvido dizer que eu talvez fosse preso, julgasse que poderia passar sem me pagar, ainda não me tinha sido possivel receber o meu dinheiro. Sendo pois obrigado a partir n'aquella mesma noute, e querendo entrar de posse do que me pertencia antes de deixar Maldonato, não tinha tempo a perder.
Por conseguinte ás nove horas da noute mandei apparelhar, e mettendo um par de pistolas na cintura, embrulhei-me na minha capa e dirigi-me tranquillamente para casa do negociante.
Fazia um luar magnifico. Pouco distante da casa do meu homem vi-o á porta tomando o fresco, elle tambem me viu e reconheceu, porque me fez signal de me affastar, indicando-me por este modo que a minha vida corria risco.
Fiz que não via, fui direito a elle, e por toda a explicação apresentei-lhe uma pistola aos peitos:
—O meu dinheiro, lhe disse eu.
Quiz responder-me, mas quando lhe repeti pela terceira vez «o meu dinheiro» fez-me entrar em sua casa, pagando-me logo os dois mil patacões que me devia.
Metti de novo a pistola no cinturão, puz o sacco do dinheiro debaixo do braço, e voltei ao meu navio sem me ter acontecido o menor incidente.
Ás onze horas da noute levantámos ancora.
Ao romper do dia, com grande admiração nossa, estavamos no meio dos cachopos das Pedras Negras.
Como me achava em tal situação é que eu não podería explicar. Não havia dormido um minuto, não tinha deixado de olhar um momento para a costa, consultando a todos os instantes a bussola, dirigindo-me pelas suas indicações, e apezar d'isso achava-me no perigo que queria evitar.
Não havia momento a perder: o perigo era enorme: estavamos cercados por todos os lados de cachopos. Saltei para a verga do traquete, e d'ahi mandei orçar sobre bombordo, e em quanto se executava esta manobra foi arrebatada pelo vento a nossa pequena gavea.
Do logar onde me achava dominava o navio e os recifes, podendo por isso indicar o caminho que era necessario fazer seguir á galeota, que do seu lado parecendo um ente animado, e conhecedora do perigo em que estavamos, obedecia com toda a docilidade ao leme. No fim de uma hora, durante a qual estivemos entre a vida e a morte, e em que vi empallidecer os meus mais valentes marinheiros, estavamos salvos.
Depois de passado o perigo, quiz conhecer qual o motivo porque havia sido lançado no meio d'esses terriveis cachopos, tão conhecidos dos navegantes, tão bem indicados nas cartas maritimas, e a tres milhas dos quaes julgava estar quando me achava no meio d'elles.
Consultei a bussola: continuava a divagar: teria pois naufragado, se por infelicidade, amanhecendo, não tivesse conhecido o perigo:
Em pouco tempo tudo me foi explicado.
Quando sahi do navio para pedir os dois mil patacões ao meu comprador do café, tinha mandado pôr no tambadilho os sabres e fuzís, para estar prevenido no caso de algum ataque: executando a minha ordem, os marinheiros tinham collocado as armas ao pé da bitácola.
Esta massa de ferro tinha attrahido a si a agulha, que como se sabe, tem iman nas duas extremidades. Mandei pois tirar as armas, e a bussola continuou a andar regularmente.
Proseguimos a nossa viagem chegando a Jesus-Maria, que do outro lado de Montevideo está quasi na mesma distancia que Maldonato.
A unica novidade que ali nos succedeu, foi acabarem-se completamente os viveres, por isso que não tinhamos tido tempo de os comprar antes da nossa partida. Como não nos era possivel desembarcar, pelas ordens dadas, era necessario lançar mão de algum expediente para arranjarmos comestiveis.
Começámos a bordejar, sem comtudo nos affastarmos da costa.
Uma manhã descobri na distancia de quasi quatro milhas uma casa, que pelo seu aspecto me pareceu uma herdade. Mandei ancorar o mais perto possivel da praia, e como não tinha escaler, porque, como já disse, havia dado o meu aos individuos que tinham desembarcado em Santa Catharina, arranjei uma jangada com uma mesa e alguns tonneis, e armado com um croque, embarquei n'esta embarcação de novo gosto com um unico marinheiro, que sem ser meu parente tinha comtudo o nome de Garibaldi: o seu pronome era Mauricio.
O navio estava seguro por duas amarras, em consequencia dos ventos pampeiros que eram mui violentos.
Eis-me pois no meio dos recifes não navegando, mas sim dançando em cima de uma mesa, arriscado a todos os momentos a ser submergido. Depois de termos praticado maravilhosos trabalhos de equilibrio, conseguimos encalhar na praia. Deixei Mauricio encarregado de guardar a jangada, e desembarquei.
O espectaculo que então se me offereceu á vista, e que admirava pela primeira vez, teria, para ser dignamente descripto, necessidade da penna de um poeta ou do pincel de um pintor. Via ondular na minha frente como as vagas de um mar solidificado os immensos horisontes das—planicies orientaes—assim chamadas porque estão no lado oriental do rio Uruguay, que vae lançar-se no rio da Prata, defronte de Buenos-Ayres, abaixo de Colonia. Era, posso jural-o, um espectaculo cheio de novidade para um homem chegado do outro lado do Atlantico, e sobre tudo para um italiano, nascido em um paiz em que é difficultoso vêr um palmo de terra sem encontrar uma casa ou alguma obra dos homens.
Ali pelo contrario existia unicamente a obra de Deus, tal como havia sahido das suas mãos no dia da creação.
Era uma vasta, uma immensa campina, e o seu aspecto que é o de um tapete de verdura e flores, não muda senão nas margens do ribeiro Arroga, onde se elevam balanceando ao vento encantadores grupos de arvores com folhas luxuriantes.
Os cavallos, os bois, as gazellas, as avestruzes são, á falta de creaturas humanas os habitantes d'essas immensas solidões, que só são atravessadas pelos gauchos, esses centauros do novo mundo, como para dar a entender a essas turbas de animaes selvagens que Deus lhe deu um senhor... Mas esse senhor, como o veem passar os touros, as avestruzes, as gazellas! É a quem protestará primeiro contra a sua supposta dominação: o touro pelos seus mugidos, a avestruz e a gazella pela fuga.
Esta vista fez-me pensar na patria, onde quando passa o austriaco que os opprime, os homens, essas creaturas creadas á imagem de Deus, cumprimentam-no e se curvam, não ousando dar os mesmos signaes de independencia que os animaes selvagens dão á vista do gaucho.
Senhor, até quando permittireis tão grande aviltamento da vossa creatura!?
Deixemos o velho mundo, tão triste e aviltado, e voltemos ao novo, tão joven, e tão cheio de esperanças!
Como é bello o cavallo das planicies orientaes, com os seus jarretes estendidos, com as ventas fumantes, com os seus labios que nunca sentiram a friesa do aço! Como respiram livremente debaixo do contacto da sua clina e juba, os seus flancos que nunca foram apertados pelo joelho dos cavalleiros, nem ensanguentados pelas suas esporas! Como é soberbo quando reune, chamando pelos seus rinchos a sua horda de eguas dispersas e que verdadeiro sultão do deserto, evita, fugindo em sua companhia, a presença dominadora do homem!
Oh! maravilha da natureza! Milagre da creação! Como heide exprimir a emoção que á vossa vista experimentou esse corsario de vinte e cinco annos, que pela primeira vez estendia os braços para a immensidade.
Mas como esse corsario estava a pé, nem o touro nem o cavallo o reconheciam por um homem. Nos desertos da America o cavallo é um complemento do homem, e sem o saber, o ultimo dos animaes. Primeiramente pararam estupefactos pela minha vista, mas bem depressa desprezando sem duvida a minha fraqueza, aproximaram-se de mim a tal ponto que sentia o rosto humedecido pela sua respiração. Ninguem deve ter receio do cavallo, animal nobre e generoso; mas todos devem desconfiar do touro, animal dissimulado e traiçoeiro. As gazellas e avestruzes depois de terem, como os cavallos e touros, mas mais circumspectamente, feito o seu reconhecimento, partiram rapidas como a flecha, e chegando ao alto d'um montezinho voltaram-se para verem se eram perseguidas.
N'este tempo, isto é, pelos fins de 1834 e principios de 1835, esta parte do terreno oriental estava ainda virgem de toda a guerra; eis o motivo porque ali se encontrava tanta quantidade de animaes selvagens.
Continuei dirigindo-me para uma estancia.[4] Ahi encontrei só a mulher do capataz.[5] Como não podia vender-me ou dar um boi sem consentimento de seu marido, era necessario esperar a sua volta. Demais era tarde e antes do dia seguinte não se podia conduzir o animal até ao mar.
Ha momentos na vida de que a recordação ao mesmo tempo que elles se affastam continúa vivendo e augmentando na nossa memoria e tão bem que sejam quaes forem os outros successos da nossa existencia, essa recordação só se apaga com a morte. Era destino meu encontrar no meio d'este deserto, esposa de um homem quasi selvagem uma mulher de uma educação cultivada, uma poetiza sabendo pelo coração Dante, Petrarcha e Tasso.
Depois de ter esgotado toda a minha sciencia na lingua hespanhola, fiquei agradavelmente surprehendido, ouvindo-a responder-me em italiano, convidando-me graciosamente a assentar-me, em quanto seu marido não chegava. No meio da nossa conversação, a minha encantadora hospedeira, perguntou-me se eu conhecia as poesias de Quintana, e ouvindo a minha resposta negativa, fez-me presente de um volume d'essas poesias, dizendo-me que m'o dava para apprender por sua causa o hespanhol. Perguntei-lhe então se era poetisa.
—Ha alguem, me respondeu, que diante d'esta natureza não seja poeta?
E sem se fazer rogar recitou-me muitos trechos de poesias suas em que achei muito sentimento e uma grande harmonia. Teria passado toda a noite a escutal-a sem me lembrar de Mauricio que me esperava guardando a meza-jangada, mas a entrada do marido fez cessar o lado poetico para me chamar ao fim material da minha visita. Disse-lhe o que queria e foi combinado que no dia seguinte me venderia e levaria á praia um boi.
Ao romper do dia despedi-me da minha bella poetisa e fui ter com Mauricio. O pobre diabo tinha passado a noite o melhor que poude, mettido entre os quatro toneis, e muito inquieto por meu respeito, receiando que eu tivesse sido devorado pelos tigres, muito communs n'esta parte da America e menos inoffensivos que os cavallos e os touros.
No fim de alguns momentos appareceu o capataz trazendo um boi ao laço. Em poucos momentos o animal foi morto e esquartejado, tal é a habilidade que os homens do sul teem para estas obras de sangue.
Faltava transportar o boi, cortado em pedaços e leval-o para o navio, isto é, a mil passos de distancia, pelo menos, tendo de atravessar os cachopos onde se despedaçavam as ondas furiosas.
Mauricio e eu démos começo á nossa empreza.
Já sabem como era construida a jangada que nos devia conduzir a bordo: uma meza com um tonel amarrado a cada pé, um pau no centro, que vindo do navio, tinha servido para suspender os nossos vestidos, e que voltando devia conduzir os viveres sustentando-os ao de cima da agua.
Deitámos a jangada ao mar, pozemo-nos em cima, e Mauricio com uma vara na mão, e eu com um croque, começámos a manobrar temdo agua até aos joelhos, porque o peso que a jangada levava era excessivo.
A nossa manobra executou-se com grandes applausos do americano e da tripulação da galeota, que fazia ardentes votos, póde ser, não pela nossa salvação, mas sim pela da carne que conduziamos. A nossa viagem ao principio foi feliz, mas chegamos a uma linha de cachopos que nos era necessario atravessar, achámo-nos por duas vezes quasi submergidos.
Felizmente atravessamo-la sem novidade.
Mas livres dos cachopos, estavamos em perigo mais imminente.
Não encontravamos o fundo com os nossos croques, e por conseguinte era impossivel dirigir a embarcação. Alem d'isso a corrente tornando-se mais violenta, á medida que avançamos no rio, arrojava-nos para longe da galeota.
Pareceu-me chegado o momento de atravessar o Atlantico parando só em Santa Helena ou no Cabo da Boa Esperança.
Os nossos companheiros, se nos quizessem apanhar, não tinham senão o recurso de largarem as velas. Foi o que fizeram, e como o vento estava de terra a galeota bem depressa nos alcançou.
Passando junto de nós os nossos companheiros, lançaram-nos um cabo. Amarramos com elle a jangada ao navio, e depois de termos içado todos os viveres é que Mauricio e eu subimos. Em seguida içámos a meza que foi reintregada no seu logar na casa do jantar, não tardando muito a exercer as suas funcções habituaes.
Vendo o appetite com que os nossos companheiros atacaram a carne, que com tanto trabalho tinhamos alcançado, consideramo-nos sufficientemente recompensados das nossas fadigas.
Alguns dias depois comprei por trinta escudos a canoa d'um navio que cruzava n'estas paragens.
Estivemos ainda este dia á vista do pico de Jesus Maria.