XII
O COMBATE

Tinhamos passado a noite ancorados, quasi seis milhas, ao meio dia do pico de Jesus Maria, em frente dos barrancos de S. Gregorio. Uma pequena brisa do norte começava a apparecer quando vimos vir do lado de Montevideo duas barcas que julgámos serem amigas; mas como não tinham o pavilhão encarnado, signal convenciado entre nós, julguei prudente o fazer-me de vela em quanto os esperava. Além d'isso mandei pôr no tombadilho os mosquetes e sabres.

Esta precaução, como se vae vêr não foi inutil. A primeira barca continuava a avançar unicamente com tres homens á vista; chegada ao alcance do porta-voz, o que nos parecia o chefe disse que nos rendessemos e ao mesmo tempo o convez da barca encheu-se de homens armados que sem nos dar o tempo de responder á sua intimação começaram o fogo. Dei o grito de «Ás armas» e agarrei n'um fuzil, depois respondendo a este cumprimento conforme podia, e como estavamos com todo o pano mandei.—Ás vélas de diante.

Não sentindo a galeota obedecer ao leme com a docilidade costumada, voltei-me e vi que a primeira descarga tinha morto o marinheiro que n'aquella occasião ia ao leme, e que era um dos nossos valentes. Chamava-se Florentino e tinha nascido em uma das nossas ilhas.

Não havia tempo a perder. O combate estava travado com todo o furor. O lanchão, é o nome que dão á qualidade dos barcos com que combatiamos, o lanchão tinha-nos abordado pela direita e alguns dos seus marinheiros haviam já saltado no nosso barco, mas por felicidade alguns golpes de fuzil e sabre nos livraram d'elles.

Depois de ter coadjuvado os meus companheiros a repellir esta abordagem agarrei no leme que se achava sem governo por causa da morte de Florentino. Infelizmente no momento em que o agarrava para executar uma manobra uma balla atravessou-me o pescoço ferindo-me entre a orelha e a carotida, fazendo-me cahir sem conhecimento.

O resto do combate que durou uma hora, foi sustentado por Luiz Carniglia, piloto, e por Pascoal Sodola, Giovani Lamberti, Mauricio Garibaldi e dous maltezes. Os italianos fizeram prodigios de valor, mas os estrangeiros e os cinco negros fugiram para o porão. Emfim o inimigo fatigado de nossa defeza e tendo uma dezena de homens fóra de combate fugiu, em quanto que nós tendo apparecido algum vento continuámos a subir o rio.

Ainda que tivesse tornado a mim, fiquei completamente inerte e inutil durante o resto do combate.

Confesso, as primeiras impressões que senti abrindo os olhos, foram deliciosas. Podia dizer que havia sido morto e que tinha resuscitado, tanto o meu desmaio foi profundo. Entretanto esse sentimento de bem estar foi bem depressa abafado pelo conhecimento da situação em que nos achavamos. Ferido mortalmente, não tendo a bordo quem possuisse o menor conhecimento geographico, mandei buscar a carta, e com muita difficuldade pois, me achava com a vista coberta com um véo que me parecia o da morte, indiquei com o dedo Santa Fé no Rio Parana. Só Mauricio é que uma unica vez tinha feito uma viagem ao rio da Prata; para todos nós eram pois completamente estranhas aquellas paragens. Os marinheiros aterrados—os italianos, devo dizel-o, não partilhavam estes sentimentos ou pelo menos sabiam occultal-os—e receiando serem presos e considerados como piratas, desertaram na primeira occasião que se lhe apresentou. Em quanto esperavam por este momento, em cada barco, em cada canoa, em cada tronco d'arvore fluctuante viam um navio inimigo enviado em sua perseguição.

O cadaver do nosso desgraçado camarada foi deitado ao mar, com as cerimonias costumadas n'estas occasiões, por que durante muitos dias não podemos desembarcar em parte alguma.

Este genero de enterramento não era muito do meu agrado, e sentia por elle uma grande repugnancia, talvez por me julgar proximo a ter igual sorte. Confessei esta aversão a Luiz Carniglia.

No momento em que lhe fazia esta confissão vieram-me á lembrança estes versos de Foscolo:

«Uma pedra, um unico signal que difference os meus ossos d'aquelles que a morte semea todos os dias na terra e no Oceano.»

O meu pobre amigo chorava promettendo não me deixar lançar á agua. Quem sabe se apesar do seu desejo teria podido executar a sua promessa. O meu cadaver serviria então para matar a fome a algum lobo marinho, ou caiman. Não tornaria a vêr a Italia, não me teria batido por ella, que era a minha unica esperança!

Quem diria ao meu caro Luiz que antes d'um anno era eu que o veria rolando pelos cachopos, desapparecer no mar, e que procuraria debalde o seu cadaver, para cumprir a promessa que elle me havia feito, de o sepultar na terra e collocar na sua ultima morada uma cruz que o recommendasse á oração dos viandantes. Pobre Luiz! durante a minha longa e cruel enfermidade fostes tu que tivestes sempre por mim um carinho paternal.

XIII
LUIZ CARNIGLIA

Vou dizer algumas palavras sobre o meu pobre amigo Luiz. E porque é um simples marinheiro não lhe hei-de dedicar algumas linhas? Porque elle não é... Oh! posso assegural-o, a sua alma era bastante nobre para sustentar em todas as circumstancias a honra italiana: nobre para affrontar todas as tormentas, nobre emfim para me proteger, e para cuidar de mim, como se fosse seu filho! Quando estava deitado no meu leito de agonia, abandonado por todos, e delirava com o delirio da morte, era Luiz que sentado á cabeceira do meu leito com a dedicação e paciencia de um anjo não se affastava de mim um instante senão para ir chorar e occultar as suas lagrimas. Os seus ossos espalhados no Oceano mereciam um monumento onde o proscripto reconhecido podesse um dia dizer as suas virtudes aos seus concidadãos, devolvendo-lhe as lagrimas piedosas que me consagrou.

Luiz Carniglia era de Deiva, pequeno paiz do Levante. Não havia recebido instrucção litteraria, mas suppria esta falta por um maravilhoso intendimento. Privado de todos os conhecimentos nauticos que são necessarios aos pilotos, governava os navios até Gualeguay com a sagacidade e felicidade de um piloto consumado. No combate que acabo de referir, foi a elle que principalmente devemos o não ter cahido nas mãos do inimigo: armado de um machado estava sempre no logar onde havia maior perigo sendo por este modo o terror dos assaltantes. De uma estatura elevada e mui robusta reunia uma grande agilidade a um extraordinario valor. Dotado de uma grande bondade nas cousas da vida, possuia o raro dom de se fazer amar por todos. Infelizmente todos os melhores filhos da nossa desgraçada patria teem morrido como este em terra estrangeira esquecidos e sem ter quem derrame uma lagrima por elles!

XIV
PRISIONEIRO

Fiquei desanove dias recebendo unicamente os cuidados de Luiz Carniglia.

No fim d'este tempo chegámos a Gualeguay.

Tinhamos encontrado na embocadura do Ibiqui, um navio commandado por D. Lucas Tantalo, excellente homem que teve toda a sorte de cuidados por mim prestando-me o que julgava ser-me util na minha posição.

Acceitámos os seus presentes com grande prazer, porque não tinhamos a bordo senão café que era o nosso unico alimento. Davam-me pois café a todos os momentos sem se importarem se isso era ou não conveniente para a minha doença. Comecei por ter uma febre assustadora acompanhada por uma grande difficuldade de engolir fosse o que fosse, o que não admirava, porque a balla atravessando-me o pescoço de lado a lado tinha passado entre as vertebras cervicaes e a pharinge. Decorridos oito dias n'este estado afflictivo, a febre havia diminuido, sentindo grandes melhoras.

D. Lucas tinha feito mais: partindo, deu-me cartas de recommendação para Gualeguay,—fazendo o mesmo a um seu passageiro chamado Arraigada, biscainho, que se achava estabelecido na America—e particularmente para o governador da provincia d'Entre-Rios, D. Paschal Echague, a quem por ter de fazer uma viagem, deixou o seu proprio medico, D. Romão Delarea, joven argentino, de muito merito, que examinando a minha ferida, e tendo sentido a balla do lado opposto áquelle por que tinha entrado, fez a extracção com toda a habilidade, tratando-me durante algumas semanas, isto é até ao meu completo restabelecimento, com os cuidados mais affectuosos e desinteressados.

Fiquei seis mezes em Gualeguay em casa de D. Jacintho Andreas, que teve, bem como a sua familia, por mim os maiores cuidados.

Infelizmente estava quasi prisioneiro. Não obstante a boa vontade do governador Echague, e o interesse que por mim tinha a população de Gualeguay, era obrigado a esperar a resolução do dictador de Buenos-Ayres que não decidia cousa alguma.

O dictador de Buenos-Ayres era n'esta occasião Rosas, de quem tratando de Montevideo, terei occasião de fallar mais de vagar.

Curado da minha ferida, comecei a dar alguns passeios, que por ordem da authoridade eram mui limitados. Em troca do meu navio confiscado davam-me um escudo por dia, o que na realidade era muito para um paiz em que sendo tudo mui barato quasi se não gasta dinheiro: mas tudo isto não valia a minha liberdade.

Provavelmente esta despeza d'um escudo por dia parecia muito elevada ao governador, porque em differentes occasiões me foram feitas offertas de se me favorecer a fuga, mas as pessoas que me faziam essas offertas, eram, sem o saberem, agentes provocadores! Diziam-me que o governo veria a minha fuga sem grande pesar. Não era pois necessario fazer grande violencia para que eu adoptasse uma resolução de que ja havia formado o projecto. O governador depois da partida de D. Paschoal, era um certo Leonardo Millan, que não me havia até áquella épocha mostrado nem interesse, nem odio, não tendo pois o mais pequeno motivo para me queixar d'elle.

Resolvi então fugir, começando logo os meus preparativos, afim de estar prompto na primeira occasião que se me apresentasse. Uma noute de tempestade dirigi-me para casa d'um excellente homem que costumava de quando em quando ir visitar, e que habitava a tres milhas de Gualeguay.

Dei-lhe parte da minha resolução, pedindo-lhe que me procurasse um guia e cavallos, esperando chegar a uma «estancia» pertencente a um inglez, situada na margem esquerda do Parana, onde eu provavelmente encontraria algum barco que me transportasse incognito a Buenos-Ayres ou Montevideo. O guia e os cavallos foram arranjados, e começámos a andar por meio dos campos para não sermos descobertos. Tinhamos que caminhar cincoenta e quatro milhas, podendo vencer perfeitamente este espaço em meia noute.

Quando rompeu o dia estavamos á vista de Ibiqui, na distancia de meia milha do rio. O guia disse-me então que parasse ali em quanto elle ia saber que caminho deviamos seguir.

Fiquei pois só.

Apeei-me, amarrei as redeas do cavallo ao tronco de uma arvore e deitei-me, esperando assim durante duas ou tres horas, até que vendo que o meu guia não apparecia, levantei-me resolvido a ir pessoalmente informar-me, quando repentinamente ouvi por detraz de mim um tiro. Voltei-me e vi um destacamento de cavallaria que me perseguia de sabre em punho. Estavam já entre o meu cavallo e eu, era pois impossivel defender-me ou fugir.

Entreguei-me.

XV
A APOLEAÇÃO

Ligaram-me as mãos atraz das costas, pozeram-me a cavallo, e depois ligaram-me tambem os pés como o haviam feito ás mãos, sujeitando-os á cilha do animal.

Foi n'este estado que cheguei a Gualeguay, onde, como se vae vêr, me esperava um peor tratamento.

Ainda hoje, e já são passados bastantes annos, estremeço quando penso n'esta circumstancia da minha vida.

Conduzido á presença de Leonardo Millan fui intimado por elle para denunciar quem me havia fornecido os meios de effectuar a minha fuga. É escusado dizer que não fiz tal confissão, pois declarei que só eu a tinha arranjado e executado. Então como me achava ligado e Leonardo não tinha cousa alguma a temer, aproximou-se de mim e começou a bater-me nas faces com o chicote. Depois renovou as suas perguntas, não sendo mais feliz que da primeira vez.

Mandou-me conduzir á prisão, e disse em voz baixa algumas palavras ao ouvido d'um dos guardas.

Estas palavras eram a ordem de me applicar a tortura.

Chegando á camara que me estava destinada, os guardas deixaram-me as mãos ligadas atraz das costas, collocaram-me nos pulsos uma nova corda, e passaram a outra extremidade a uma trave, suspendendo-me a quatro ou cinco pés do chão.

Então Leonardo entrou na prisão e perguntou-me de novo se estava resolvido a dizer a verdade.

A unica vingança que podia tomar era cuspir-lhe no rosto, e assim o fiz.

—Quando o prisioneiro, disse elle retirando-se, quizer declarar quem foram os seus cumplices, mandem-me chamar, e depois de fazer a confissão podem pol-o no chão.

Depois sahiu.

Fiquei duas horas n'esta horrivel posição. O peso do meu corpo sobrecarregava nos meus punhos ensanguentados e nos meus hombros deslocados.

Parecia-me estar sobre brasas.

A todos os momentos pedia agua, e os meus guardas mais humanos que o meu carrasco davam-me, mas ella não me matava a sede devoradora que soffria. Pode-se fazer uma idéa dos meus padecimentos, lendo as torturas que se inflingiam aos prisioneiros na idade media. No fim de duas horas os meus guardas tendo piedade do meu estado, ou julgando-me morto desceram-me.

Cahi no chão sem movimento.

Era uma massa inerte, sem outro sentimento que o de uma profunda e muda dôr—era quasi um cadaver.

N'este estado sem eu saber o que faziam de mim metteram-me nos cepos.

Tinha andado com as mãos e pés ligados atravez de pantanos cincoenta milhas. Os mosquitos numerosos e enraivecidos n'esta estação tinham-me tornado o rosto e as mãos n'uma grande chaga. Havia soffrido durante duas horas horriveis torturas, e quando tornei a mim achei-me ligado a um assassino.

Ainda que não tivesse dito uma unica palavra, no meio dos meus atrozes soffrimentos, D. Jacintho Andreas tinha sido preso. Os habitantes do paiz estavam cheios de espanto.

Em quanto a mim senão fossem os cuidados de uma mulher que foi para mim um anjo de caridade teria succumbido a tão atrozes soffrimentos. Despresando todo o perigo, vinha ver-me todos os dias, trazendo-me o que eu necessitava.

Chamava-se Allemand.

Poucos dias depois o governador vendo que eram inuteis todas as tentativas que fazia para me obrigar a fallar, e convencido que eu morreria antes de denunciar um dos meus amigos, não querendo provavelmente tomar sobre si a responsabilidade da minha morte mandou-me para a capital da provincia Bagada. Fiquei dois mezes na prisão no fim dos quaes o governador me mandou dizer que me era permitido sahir livremente da provincia. Ainda que eu tenho opiniões oppostas a Echague e que por mais de uma vez, depois d'esse dia, tenha combatido contra elle não devo occultar as obrigações de que lhe sou devedor e ambicionava hoje ter occasião de lhe provar todo o reconhecimento que lhe consagro pelos serviços que me prestou.

Mais tarde o acaso fez cahir nas minhas mãos os chefes militares da provincia de Gualeguay e todos foram postos em liberdade sem se lhe fazer a menor offensa, nem a elles nem ás suas propriedades.

Em quanto a Leonardo Millan nunca o quiz vêr com receio que a sua presença, fazendo-me recordar do que havia soffrido me obrigasse a praticar alguma acção indigna de mim.

XVI
VIAGEM NA PROVINCIA DO RIO GRANDE

Em Bajada embarquei n'um bergantim italiano, capitão Ventura. Este maritimo homem recommendavel a todos os respeitos, tratou-me sempre com a maior generosidade e cavalheirismo. Conduziu-me á embocadura do Iguassu, affluente do Parana, ahi passei para bordo de um barco, capitaneado por Pascoal Carbone, que se destinava a Montevideo.

Estava então em maré de ventura; Carbone obsequiou-me tambem admiravelmente.

A fortuna, assim como as infelicidades vem sempre em grandes porções; estas haviam finalisado para mim; aquellas começavam a affluir sem interrupção.

A minha proscripção continuava em Montevideo. A resistencia que empregára contra os lanchões e a perda que lhes haviamos causado era para isso pretexto plausivel. Fui então obrigado a esconder-me em casa de Pazante aonde me conservei por espaço de um mez.

Comtudo a minha reclusão tornava-se supportavel, por que era suavisada pelas visitas de muitos compatriotas, que em tempo de prosperidade e de paz tinham vindo estabelecer-se no paiz e exerciam para com os amigos do velho mundo a mais generosa hospitalidade. A guerra, e sobretudo o cerco de Montevideo veiu mudar a posição da maior parte d'elles e de feliz que era tornou-l'ha não só má, porém pessima. Pobres homens! bastantes vezes os deplorei, e desgraçadamente não podia fazer mais do que lamental-os!

Passado um mez, era tempo de seguirmos viagem; parti com Rossetti para o Rio Grande; a nossa jornada devia ser e foi feita a cavallo, o que me deu muito prazer. Viajavamos á escotero.

Darei uma pequena explicação sobre esta maneira de viajar, que pela sua rapidez deixa bem longe a posta por mais ligeira que ella seja.

Sejam dois, tres ou quatro os viajantes, vão acompanhados por vinte cavallos habituados a seguir os que vão montados; quando depois alguns dos cavalleiros vê que o seu cavallo está fatigado, apeia-se, passa o selim e os arreios para um dos que vem livres, e segue a galope tres ou quatro leguas; depois toma outro, e assim successivamente os vae mudando até chegar ao seu destino; os cavallos cançados, mesmo tendo de seguir os outros, recuperam forças, porque vão livres de selim e do cavalleiro.

O pouco tempo que os cavalleiros gastam n'estas mudas, os cavallos o aproveitam para comerem alguma herva e beberem agua, se por acaso a encontram; as verdadeiras rações são duas vezes ao dia, pela manhã e á noite.

D'este modo chegámos a Piratini, séde do governo do Rio Grande; a capital da provincia é Porto Allegre, porém como estava occupada pelos imperiaes, o governo republicano estabelecera-se em Piratini.

Piratini é realmente um dos mais bellos paizes do mundo; divide-se em duas regiões; uma de planicies e a outra montanhosa.

As planicies verdadeiramente tropicaes produzem a banana, a cana d'assucar, e a laranja. Junto aos troncos das suas arvores, e por entre as plantas arrasta-se a serpente cascavel, a serpente negra, e a serpente coral; ali, como na India, vê-se saltar o tigre, o jaguar, a puma, e o leão inoffensivo, de dimensões eguaes a qualquer dos enormes cães do monte de S. Bernardo.

A região montanhosa é temperada como o meu bello clima de Niza; colhe-se o bom pecego, a pera, a ameixa, e toda a qualidade de fructos da Europa, encontram-se as magnificas florestas, das quaes nenhuma pena seria capaz de fazer exacta descripção, com os seus pinheiros direitos como os mastros dos navios, e d'altura de duzentos pés, e dos quaes talvez cinco ou seis homens não podessem abraçar o tronco. Á sombra d'esses pinheiros vegetam os taquares, canas gigantescas que chegam a oitenta pés d'altura, e das quaes na base não excedem a grossura do corpo d'um homem; existe tambem ali a barba de pau, litteralmente dita a barba das arvores, que entrelaçando-se multiplicadamente fórma espeços bosques; nas vastas planicies chamadas campestres estendem-se cidades inteiras, como Cima da Serra, Vaccaria, Lages; não tres cidades, mas tres provincias; população caucasiana, de origem portugueza, e essencialmente hospitaleira.

O viajante não tem precisão de dizer nem de pedir coisa alguma; entra em qualquer habitação, vae direito á camara dos hospedes; os criados apparecem, sem que sejam chamados, descalçam-o e lavam-lhe os pés. Fica ali por quanto tempo quer, e quando lhe appetece retira-se sem despedir-se nem agradecer; e apesar d'esta descortesia, outro que venha depois d'elle não é recebido com menos agrado.

É a juventude da natureza, o erguer da humanidade.

XVII
A LAGOA DOS PATOS

Chegando a Piratini, fui magnificamente recebido pelo governo da republica. Bento Gonçalves—verdadeiro cavalleiro andante do seculo de Carlos-Magno, irmão, pelo coração, dos Oliveiros e dos Roldões vigoroso, agil e leal como elles, verdadeiro centauro, manejando um cavallo como ainda não vi manejar senão ao general Netto—modelo completo para um cavalleiro—estava ausente e em marcha com uma brigada de cavallaria, para atacar Silva Tanaris, chefe imperial, que tendo atravessado o canal de S. Gonçalo, infestava esta parte da provincia Piratini, séde do governo republicano, e pequena villa encantadora pela sua posição e cabeça de districto do mesmo nome, guarnecida por uma população bellicosa e essencialmente dedicada á causa da liberdade.

Na ausencia d'aquelle general, foi o ministro da fazenda quem me fez as honras da cidade.

Agora uma palavra respectivamente ao Rio Grande, o qual, por este nome, poderia suppor-se situado ao longo de um grande rio, ou um rio propriamente dito.

O Rio Grande é o Lago dos Patos, e terá trinta leguas de extensão. Além de alguns baixos muito fundos, dos quaes mais tarde fallaremos, é em toda essa extensão bastante profundo e povoado por caimans; sendo formado por cinco rios, os quaes vindo terminar na extremidade do norte, apresentam a disposição de cinco dedos da mão, da qual a palma é o fim do lago.

Ha um ponto d'onde se descobrem perfeitamente esses cinco rios, e que por essa razão se chamava Viamão—Vi a mão.

Viamão mudara, porém de nome, e chamava-se Settembrina em commemoração de haver sido em setembro proclamada a republica.

Achava-me em Piratini sem ter em que me occupar; pedi então para fazer parte da columna de operações, que se dirigia sobre S. Gonçalo, e era commandada pelo presidente da republica.

Foi então que pela primeira vez vi aquelle valente, gosando alguns dias a sua intimidade. Era realmente o filho querido da natureza—que lhe havia prodigalisado tudo o que torna o homem um verdadeiro heroe.—Bento Gonçalves teria então sessenta annos. Alto, esvelto, montava a cavallo, como já disse, com um garbo e agilidade admiraveis. N'aquella posição ninguem o julgaria com mais de vinte e cinco annos.—Valente e feliz, não teria hesitado um momento, como um cavalleiro de Arioste, em atacar um gigante: tivesse elle a estatura de Polyphemo ou a armadura de Ferragus.

Fôra um dos primeiros a levantar o grito de guerra, não com vistas de ambição pessoal, mas como qualquer outro belligerante filho d'aquelle povo. Na campanha passava como o mais infimo habitante das campinas; isto é, com a carne assada e agua pura.—No dia em que nos encontrámos pela primeira vez, convidou-me para o seu banquete frugal; e conversámos com tanta familiaridade como se fossemos companheiros de infancia e eguaes em posição. Com taes dotes naturaes e adquiridos, Bento Gonçalves era o idolo de seus concidadãos; porém cousa estranha, foi quasi sempre infeliz nas emprezas guerreiras; o que me faz acreditar que o acaso é superior ao genio para os successos da guerra, e para a fortuna dos heroes.

Acompanhei a columna até Camodos,—passagem do canal de S. Gonçalo que liga a lagôa dos Patos a Meryn.

Silva Tanaris havia-se retirado precipitadamente, logo que soube da aproximação de uma columna do exercito republicano.

Não podendo alcançal-o, o presidente retrocedeu. Fiz outro tanto, tomando o caminho de Piratini.

N'esta occasião recebemos noticia da batalha de Rio Pardo, na qual o exercito imperial fôra completamente destroçado pelos republicanos.

XVIII
ARMAMENTO DE LANCHÕES EM CAMACUA

Fui encarregado do armamento de dois lanchões que existiam nas aguas do Camacua, rio que corre quasi parallelo e a pouca distancia do canal de S. Gonçalo, e que como este vae desaguar no lago dos Patos.

Reuni alguns marinheiros vindos de Montevideo a outros que achei no Piratini, completando ao todo uns trinta homens de diversas nações. Infelizmente para elle tambem ali se achava o meu caro Luiz Carniglia. Tinhamos um outro recruta francez de estatura collossal, bertão, por nascimento, a que chamavamos João-Grande, e outro por nome Francisco, verdadeiro corsario, e digno irmão da costa.

Chegando a Camacua, encontrámos ahi o americano John Griggs, que habitando n'uma herdade pertencente a Bento Gonçalves estava encarregado de vigiar o acabamento de dois sloops.

Fui nomeado chefe d'essa frota ainda em construcção, com o posto de capitão-tenente. Era curioso aquelle methodo de construcção que fazia honra á bem conhecida persistencia dos americanos. Ia procurar-se á madeira a uma parte e o ferro a outra; dois ou tres carpinteiros cortavam e apparelhavam aquella, um mulato forjava o ferro. Foi assim que se fabricaram os dois sloops, desde os pregos até aos circulos de ferro dos mastros.

No fim de dois mezes a esquadrilha estava prompta. Cada um dos vasos foi armado com duas peças de bronze; quarenta negros ou mulatos foram aggregados aos trinta europeus, formando d'esse modo duas equipagens que comprehendiam setenta homens.

O lote dos lanchões seria um de dezoito, outro de doze a quinze tonelladas.

Tomei o commando do mais forte a que puzemos o nome de Rio-Pardo.

John Griggs foi encarregado do segundo, que se chamou—O Republicano.

Rossetti tinha ficado em Piratini, incumbido da redacção do jornal O Povo.

Começaram então as nossas correrias pelo lago dos Patos. Passaram-se alguns dias sem fazermos mais do que prezas insignificantes.

Os imperiaes tinham, para fazer frente aos nossos dois sloops, de vinte e oito tonelladas, trinta navios de guerra e um barco a vapor.

Porém nós tinhamos a nosso favor os baixios das aguas.

O lago não era navegavel para os grandes barcos, se não n'uma especie de canal que seguia ao longo da sua margem do oriente.

No lado opposto succedia o contrario, porque o solo era cortado em declive, e nós mesmos viamo-nos ás vezes encalhados antes de tocar na margem.

Os bancos d'areia estendiam-se pela lagôa á similhança dos dentes de um pente, e só havia de bom que esses dentes eram bastante affastados uns dos outros.

Quando eramos forçados a encalhar, e os canhões dos navios de guerra ou do vapor nos incommodavam, dizia:

—Ávante, meus patos, saltemos á agua.

E os meus patos cahiam n'agua, e á força de braços erguiam o lanchão, transportando-o para o outro lado do banco de areia.

No meio de todos estes pequenos acontecimentos tomámos um barco ricamente carregado que foi conduzido immediatamente para a costa occidental do lago, junto a Camacua, aonde o queimamos depois de havermos tirado tudo o que era aproveitavel.

Foi esta a primeira preza que fizemos, mas que valeu bem o trabalho; e alegrou a nossa marinha. Todos tiveram a sua parte nos despojos, e com um fundo reservado mandei fazer uniformes para todos os meus bravos.

Os imperiaes, que até ali nos haviam desprezado, não perdendo occasião de escarnecer-nos, começaram a comprehender qual era a nossa importancia no lago, e trataram de empregar grande numero de navios para protegerem o seu commercio.

A vida que passavamos era laboriosa e cercada de perigos, em razão da superioridade numerica dos inimigos; mas ao mesmo tempo essa vida era encantadora, pittoresca, e muito em harmonia com o meu caracter. Não eramos unicamente maritimos, seriamos tambem cavalleiros no caso de necessidade. No momento de perigo encontrariamos quantos cavallos quizessemos, e formariamos um esquadrão se não elegante, ao menos temivel.

Nas margens da lagôa encontravam-se estancias que, pela aproximação da guerra, tinham sido abandonadas pelos proprietarios, aonde achamos muita abundancia de gado cavallar e o necessario para o seu sustento; por outro lado nas herdades existiam terrenos cultivados, aonde colhiamos abundancia de trigo, batata doce, e muitas vezes excellentes laranjas; que são as melhores de toda a America do Sul.

A gente que me acompanhava verdadeira tropa cosmopolita era composta de homens de todas as côres e de todas as nações. Tratava-os com uma bondade, de que talvez parecessem pouco dignos, porém posso affirmar uma coisa: é que nunca tive motivo de arrepender-me d'essa bondade—todos obedeciam á minha primeira ordem e nunca me fatigaram, nem me vi na necessidade de os punir.

XIX
A ESTANCIA DA BARRA

Sobre o Camacua, aonde tinhamos o nosso pequeno arsenal, e d'onde sahira a frota republicana, habitavam occupando uma grande extensão de terreno as familias dos irmãos de Bento Gonçalves, assim como outros parentes mais affastados; innumeraveis rebanhos se apascentavam n'esta magnifica planicie que a guerra havia respeitado, porque se achava ao abrigo do seu poder destruidor.

As producções agricolas achavam-se ali agglomeradas em tanta abundancia, como não tenho idéa de vêr em parte alguma da Europa.

Já disse em outra parte que em nenhum logar do mundo se encontra hospitalidade mais franca e cordeal do que n'este paiz; e foi o que nós achámos em todas as familias, nas quaes existia por nós a mais decidida sympathia.

As estancias que por estarem mais proximas ao rio, e por esperarmos ser ahi mais bem recebidos, procuravamos de preferencia para nos hospedarmos, eram as de D. Anna e D. Antonia, irmãs do presidente. Aquella situada á margem do Camacua, e esta nas do Arroyo Grande.

Não sei se por effeito da minha imaginação, ou por um privilegio dos meus vinte e seis annos, tudo ali era encantador aos meus olhos, e posso assegurar que nenhuma época da minha vida está como esta tão ligada ao meu pensamento, e nada se me apresenta mais fascinador do que este periodo que recordo com prazer.

A casa de D. Anna era para mim um verdadeiro paraiso; posto que já não fosse joven, esta bella senhora conservava comtudo um caracter alegre.

Tinha em sua companhia uma familia inteira, emigrada de Pelotas, cidade da provincia, da qual era chefe o doutor Paulo Ferreira; tres meninas que rivalisavam nos encantos, eram o perfeito ornamento d'este delicioso recinto. Uma d'essas jovens, Manuela, era a senhora absoluta do meu coração: sem esperança de poder possuil-a, ainda assim não podia deixar de a amar. Era desposada de um dos filhos de Bento Gonçalves.

Em um momento de perigo tive occasião de conhecer que não era totalmente indifferente á dama dos meus pensamentos; e a certeza que obtive da sua sympathia serviu a minorar o desgosto de nunca dever pertencer-me.

Geralmente as mulheres do Rio Grande são bellas, e os meus homens tornaram-se facilmente escravos d'essas bellezas; porém conscienciosamente affirmo que nenhum d'elles tinha pelo seu idolo um culto tão puro e desinteressado como eu por Manuela. Portanto, todas as vezes que um vento contrario, uma borrasca ou uma expedição nos levava ao Arroyo Grande ou a Camacua, era para nós dia de festa; o pequeno bosque de Firiva, que indica a entrada para aquella, ou o pomar das larangeiras que occulta o caminho para a ultima, eram sempre saudados por uma triplicada salva de hourras, que mostravam a força do nosso enthusiasmo amoroso.

Um dia, depois de havermos puchado para terra as nossas embarcações, descançavamos na estancia de D. Antonia, irmã do presidente, a pouca distancia de uma d'essas choupanas, aonde salgam e defumam a carne, ás quaes dão no paiz o nome de galpon de chargueada, quando me vieram dizer que o coronel João Pedro de Abreu, appellidado Mouringue, isto é, Foinha, em consequencia de ser muito astucioso, havia desembarcado a duas ou tres leguas de distancia, com setenta homens de cavallaria e oitenta de infanteria.

Havia probabilidade para acreditar esta noticia, porque depois da tomada do barco que haviamos queimado depois de nos assenhorearmos do mais precioso que elle tinha, sabiamos que Mouringue jurara tirar uma boa vingança.

Esta noticia encheu-me de alegria.

Os homens commandados pelo coronel Mouringue eram mercenarios allemães ou austriacos aos quaes ainda eu não estava enfastiado de fazer pagar a divida que todo o bom italiano tem contrahido com os seus irmãos da Europa.

Eramos sessenta ao todo; porém eu conhecia bem esses sessenta homens, e com elles era capaz de fazer frente não só a cento e cincoenta austriacos, mas a trezentos.

Tratei de destacar espias para todos os lados e fiquei com uns cincoenta homens junto a mim.

Os dez ou doze que enviara a explorar terreno, voltaram, e disseram a uma voz:

—Não vimos cousa alguma,

Havia então um denso nevoeiro, e foi protegido por elle que o inimigo poude subtrahir-se ás suas pesquisas.

Resolvi não confiar unicamente na intelligencia humana, e quiz interrogar tambem o instincto dos animaes.

Ordinariamente, quando qualquer expedição d'este genero se aproxima, e homens d'outros sitios vem preparar uma emboscada junto a alguma estancia, os animaes que sentem ruido estranho, dão signaes de inquietação, e quem tacitamente os interroga, raras vezes se engana.

Os cavallos espalhados pela minha gente, começaram a andar mui socegados em torno da estancia, manifestando assim que nada de novo se passava nas proximidades.

Portanto acreditando que não havia surpreza a temer, ordenei á minha gente que arrumasse as armas, todavia carregadas, e as munições nos cabides que mandara construir dentro da arribana, e dei-lhes o exemplo de segurança, começando a almoçar, e convidando-os a fazer outro tanto.

Por costume, nunca se faziam rogar para este convite.

Graças a Deus, tambem nunca as munições de bocca nos faltavam.

Terminado o almoço, mandei cada um a tratar da sua occupação.

Toda a minha gente trabalhava do mesmo modo que comia; isto é, sempre com boa vontade: não se fazendo rogar: uns foram para os lanchões que estavam sobre a praia, afim de tratarem de algum arranjo de que elles carecessem, outros dirigiram-se á forja, estes a buscar madeira para queimar, e aquelles finalmente para a pesca.

Fiquei eu só e o mestre cosinheiro, que havia estabelecido a sua cosinha á luz do dia, em frente da arribana, e ahi vigiava as nossas marmitas.

Quanto a mim, saboreava voluptuosamente o meu mate, especie de chá do Paraguay, que se toma de uma cabaça com o auxilio de um canudo de vidro ou de pau.

Comtudo, não duvidava que o coronel Fuinha, sendo natural do paiz, tivesse com a sua astucia illudido a vigilancia da minha tropa, não causando a sua presença sobresalto aos animaes, e que estaria talvez com os seus cento e cincoenta austriacos deitado em algum bosque a quinhentos ou seiscentos passos de nós.

Repentinamente, com grande admiração minha, ouvi por detraz de mim, tocar a carregar.

Voltei-me.

Infanteria e cavallaria carregavam ao gallope; cada cavalleiro trazia um homem na garupa. Os que não tinham cavallos corriam a pé agarrados ás crinas. Dei um salto e achei-me no galpon; fui seguido pelo cosinheiro mas o inimigo estava tão proximo de nós que no momento em que eu transpunha o liminar da porta, senti o chapeu atravessado por uma lança.

Ja disse que os fuzis estavam carregados na grade da mangedoura. Tinha sessenta.

Agarrei em um e descarreguei-o, depois um segundo, e um terceiro, com tanta rapidez, que não se poderia julgar que me achava só, e com tanta felicidade que tres homens cahiram.

Tres outros tiros se succederam aos primeiros, e como atirava ao grupo, todos eram funestos.

Se o inimigo, tivesse a idéa de assaltar o galpon estaria tudo acabado, mas o cosinheiro tinha-se-me unido e fazia tambem fogo, de modo que o coronel Fuinha, apesar de toda a sua esperteza, julgou que todos nós estavamos reunidos.

Por consequencia retirou-se para uns cem passos de distancia do alpendre, e começou a fazer alguns tiros de quando em quando.

Foi o que me salvou.

Como o cosinheiro não era bom atirador, e na nossa situação cada tiro perdido era uma falta irreparavel, disse-lhe que se entertesse em carregar os fuzis que eu os iria descarregando.

Estava intimamente convencido de que a minha gente, suspeitando já que o inimigo tinha desembarcado, e ouvindo o estrondo da fuzilaria, comprehenderia tudo e viria em meu auxilio.

Não me enganava.

O meu bravo Luiz Carniglia foi o primeiro que appareceu atravez as nuvens de fumo que existiam entre o galpon e a tropa inimiga que fazia um fogo infernal.

Depois d'elle appareceram Ignacio Bilbao, biscainho, e um italiano chamado Lourenço. N'um momento estavam a meu lado, e começaram a imitar-me o melhor que poderam; depois chegaram Eduardo Mutru, Nascimento Raphael e Procopio—estes dois ultimos eram negros—e Francisco da Silva. Queria em logar de escrever no papel, gravar no bronze os nomes d'estes valentes companheiros, que no numero de treze se me reuniram combatendo durante cinco horas cincoenta inimigos.

O inimigo tinha-se apoderado de todas as casas e barracas que nos rodeavam, fazendo-nos d'ahi um fogo terrivel. Alguns dos seus soldados haviam subido aos telhados de que tiraram as telhas, disparando-nos tiros pelos buracos e lançando-nos fachinas accesas. Mas em quanto uns apagavam as fachinas, e outros respondiam á fuzillaria, dois ou tres cairam mortos pelo mesmo buraco que haviam feito. Tinhamos praticado com as nossas bayonetas algumas setteiras na muralha do galpon, e por ahi faziamos fogo quasi cobertos.

Pelas tres horas o negro Procopio deu um tiro que teve um exito feliz: quebrou um braço ao coronel Moringue. No mesmo momento o coronel tocou a retirada, e partiu levando os feridos, mas deixando quinze mortos no campo da batalha.

Dos meus companheiros tive cinco feridos e tres mortos. Custou-me pois oito homens esta refrega, que foi uma das mais serias em que me tenho achado.

Estes combates eram tanto mais funestos para nós que não tinhamos nem medico nem cirurgião. As feridas ligeiras eram pensadas com agua fresca, renovando-se este medicamento o maior numero de vezes possivel.

Rossetti, que por acaso se achava com os seus companheiros em Camacua, não se nos pôde reunir, com grande pesar seu. Sendo perseguidos e não tendo armas, foram obrigados uns a passar o rio a nado, outros a entranharem-se na floresta: um unico foi descoberto e morto.

Este combate tão perigoso e que teve tão feliz resultado, deu uma grande confiança aos meus homens e aos habitantes d'este lado do paiz, expostos ha muito tempo ás excursões d'este inimigo aventureiro e intrepido.

Moringue foi na realidade o chefe mais habilitado que tiveram os imperiaes. Era muito apto para estas emprezas, e devo dizer que sempre se tinha conduzido com uma finura que lhe teria merecido o appellido de Fuinha, se já o não tivesse.

Nascido no paiz, que como já disse, conhecia perfeitamente, e dotado de uma astucia e intrepidez a toda a prova, causou graves prejuizos aos republicanos, e o imperio do Brazil deve-lhe sem duvida alguma a melhor parte na submissão d'esta corajosa provincia.

Celebrámos a nossa victoria. D. Antonia deu em nossa honra uma festa na sua estancia, distante doze milhas do galpon, em que tinha tido logar o combate.

Foi n'esta festa que eu soube que uma linda menina, constando-lhe o perigo que eu corria, havia impallidecido e perguntado com toda a anciedade noticias minhas. Esta noticia foi mais agradavel para mim, do que a victoria sanguinolenta que poucos momentos antes tinha ganho. Como me achava soberbo e feliz por lhe pertencer, ainda que não fosse senão pelo pensamento. Devia pertencer a outro, mas a sorte havia-me destinado essa flor do Brazil, que eternamente chorarei. Não era só nos prazeres e alegrias que a encontrava sempre a meu lado, foi na adversidade que eu conhecia o quanto valia o nobre coração da mãe de meus filhos.

Annita! cara Annita!

XX
EXPEDIÇÃO A SANTA CATHARINA

Depois d'este successo nada de importante nos succedeu no lago dos Patos.

Começámos a construcção de dois novos lanchões. Os elementos primarios tinham-se achado na preza antecedente, e em quanto á sua confecção eramos coadjuvados valorosamente pelos habitantes da visinhança.

Tinham-se apenas acabado e armado os dois novos navios de guerra, quando fomos avisados para nos juntarmos ao exercito republicano que então sitiava Porto-Alegre, capital da provincia. O exercito e nós não fizemos cousa alguma em quanto estivemos n'esta parte do lago.

Não obstante este cerco era dirigido por Bento Manuel em quem todos reconheciam um grande merito como soldado, como general e como organisador. Foi este que depois trahindo os republicanos se passou aos imperiaes.

Pensava-se então na expedicção de Santa Catharina. Fui convidado para tomar parte n'ella, debaixo das ordens do general Canavarro.

Havia no cumprimento d'este projecto uma grande difficuldade que era o sahirmos da lagôa, visto que a embocadura estava guardada pelos imperiaes.

Na margem meridional estava a cidade fortificada do Rio Grande do Sul, e na margem septentrional S. José do Norte, cidade mais pequena, mas fortificada tambem. Estas duas praças, bem como Porto Alegre, achavam-se em poder dos imperiaes tornando-se por isso senhores da entrada e sahida do lago. Possuiam, é verdade, unicamente estas duas praças, mas ellas eram bastante importantes pela sua posição.

Para homens como os que tinha debaixo das minhas ordens não havia comtudo coisa alguma impossivel.

Formei então o seguinte plano de guerra. Os dous mais pequenos lanchões ficavam na lagôa, sendo seu chefe o excellente maritimo Zeferino d'Ultra. Eu com os outros dous lanchões tendo debaixo das minhas ordens Griggs e os melhores dos nossos aventureiros acompanharia a expedição operando por mar em quanto o general Canavarro operava por terra.

Era um bello plano, mas era mui difficil pela sua execução.

Propuz então que se construissem duas carretas d'um tamanho e solidez necessaria para collocar em cada uma d'ellas um lanchão, devendo-se atrelar a cada carreta o numero de cavallos e bois sufficientes para as poderem puchar.

A minha proposta foi adoptada, e fui encarregado de lhe dar execução.

Pensando então maduramente n'este projecto fiz-lhe as seguintes modificações.

Mandei construir por um habil carpinteiro chamado Abreu oito enormes rodas de uma solidez a toda a prova para poderem sustentar o extraordinario peso que devia supportar.

N'uma das extremidades do lago—a que é opposta ao Rio Grande do Sul—isto é, ao noroeste, existe no fundo de um barranco um pequeno ribeiro que corre do lago dos Patos ao lago Tramandai, ao qual tratavamos de transportar os dous lanchões.

Fiz descer a este barranco um dos nossos carros, depois levantámos o lanchão até que aquelle estivesse em cima do carro. Cem bois mansos foram atrelados, e vi então com grande satisfação o maior dos nossos lanchões caminhar como se fosse uma penna.

O segundo carro desceu por sua vez, e como no primeiro obtivemos um exito feliz.

Os habitantes gosaram então d'um espectaculo curioso e desusado, isto é, verem dois navios em cima de duas carretas, e puxados por duzentos bois, atravessarem cincoenta e quatro milhas, isto é, dezoito leguas, sem a menor difficuldade, sem o mais pequeno incidente.

Chegados á margem do lago Tramandai os lanchões foram deitados ao mar do mesmo modo porque tinham sido embarcados. Necessitavam de alguns pequenos reparos, que no fim de tres dias estavam concluidos.

O lago Tramandai é formado por aguas que tem a sua fonte nos montes d'Epinasso, e finalisa-o no Atlantico. É pouco fundo, pois nas maiores enchentes só tem quatro ou cinco pés d'agua. N'esta parte da costa reinam sempre grandes tempestades.

O estrondo que o mar faz batendo n'estes rochedos, que os marinheiros chamam cavallos, por causa da espuma que fazem voar em roda d'elles, ouve-se a muitas milhas de distancia, e muitas vezes é tomado pelo rumor da tormenta.

XXI
PARTIDA E NAUFRAGIO

Promptos a partir esperámos pela maré cheia, sahindo ás quatro horas da tarde.

Foi n'esta occasião que soubemos apreciar o bem que nos resultava da pratica que tinhamos de navegar entre os rochedos. Não obstante esta pratica, não sei hoje dizer porque audaciosa ou antes porque habil manobra chegámos a tirar os nossos navios d'entre os rochedos, ainda que tivessemos, como já disse, escolhido a maré cheia. O fundo necessario para navegarmos faltava-nos por toda a parte, foi pois só ao cair da noite que os nossos esforços obtiveram um resultado feliz conseguindo deitar ancora no Oceano.

Julgo conveniente dizer que os nossos navios foram os primeiros que sahiram do lago Tramandai.

Ás oito horas da noite levantámos ancora e começámos a nossa viagem.

No dia seguinte pelas tres horas da tarde tinhamos naufragado na embocadura do Aserigua, rio que tem a sua nascente na serra Espinasso, e que se lança ao mar na provincia de Santa Catharina, entre as torres e Santa Maura.

De trinta homens da equipagem, dezeseis affogaram-se.

Direi em duas palavras como aconteceu esta terrivel catastrophe.

No momento da nossa partida, o vento do meio dia começava a apparecer. Corriamos parallelos á costa. O Rio Pardo tinha, como já disse, trinta homens de equipagem, uma peça de doze, uma grande porção de caixas, e outros objectos de toda a especie, que tinhamos levado por precaução, por não sabermos o tempo que estariamos no mar, e a que praia chegariamos, e qual seriam as circumstancias em que estaria essa praia no momento em que nos dirigiamos para um paiz inimigo.

O lanchão achava-se pois mui subcarregado, e as vagas cobrindo-o de minuto em minuto, ameaçavam submergil-o. Resolvi então aproximar-me da costa e tomar terra na parte que me pareceu accessivel; mas o mar que ia sempre crescendo, não nos deixou escolher a posição que nos convinha, e uma vaga enorme nos arremeçou para a costa.

Estava n'essa occasião na parte mais elevada do mastro do traquete, d'onde esperava descobrir uma passagem atravez os rochedos. O lanchão inclinou-se sobre o estribordo e eu fui lançado a trinta pés de distancia.

Ainda que estivesse n'uma posição perigosa, a confiança que tinha nas minhas forças como nadador, fez com que não pensasse um unico momento na morte, e tendo comigo alguns companheiros, que não eram marinheiros, e que momentos antes tinha visto deitados no tombadilho e mui enjoados; em logar de nadar para a costa, comecei a reunir uma parte dos objectos, que pela sua ligeireza promettiam conservar-se á superficie, e comecei a empurral-os para o navio gritando aos meus homens que se lançassem ao mar e que apanhassem alguns d'aquelles objectos, tratando de ganhar a costa que se achava na distancia de uma milha. O navio tinha-se afundado, mas a mastreação conservava-o com os seus flancos de bombordo fóra de agua.

O primeiro que eu vi agarrado ás enxarcias foi Eduardo Mutru um dos meus melhores amigos: atirei-lhe um fragmento da escotilha recommendando-lhe que o não alargasse.

Este estando quasi salvo, lancei os olhos para o navio.

Vi então o meu caro e corajoso Luiz Carniglia. Estava ao leme no momento da catastrophe, e havia ficado agarrado á popa do navio. Infelizmente estava n'esta occasião vestido com uma jaqueta de uma enorme roda. Não havia tido tempo de a tirar, não podendo por isso nadar em quanto a tivesse vestida. Vendo que me dirigia para elle começou a gritar.

—Agarra-te bem, lhe respondi, que já te dou soccorro.

Subindo ao navio como o teria podido fazer um gato, cheguei ate junto d'elle; agarrei-me com uma mão a uma borda, e com a outra tirando da algibeira uma faca que infelizmente cortava pessimamente, comecei a rasgar as costas da jaleca. Tinha quasi finalisado esta minha ardua tarefa, e Carniglia estava quasi salvo, quando um golpe de mar horrivel, envolvendo-nos fez em pedaços o navio e lançou ao mar os homens que ainda se conservavam a bordo.

Carniglia foi tambem precipitado e não tornou a apparecer.

Lançado ao fundo do mar como um projectil, voltei á superficie todo aturdido, mas tendo uma unica idéa—a de soccorrer ao meu charo Luiz. Comecei a nadar em volta da carcassa do navio chamando-o em altos gritos, mas elle não me respondeu. Esse bom amigo que já me tinha salvo a vida, tinha morrido sem eu o poder soccorrer.

No momento em que abandonava a esperança de salvar Carniglia, lancei os olhos em volta de mim. Por uma graça especial de Deus, n'este momento de agonia para todo o mundo, não pensei um unico momento em mim tratando unicamente dos outros.

Vi então os meus companheiros nadando para a praia, separados uns dos outros segundo a sua agilidade ou força. Alcancei-os em um momento e animando-os com os meus gritos, passei-lhe adiante, sendo um dos primeiros a atravessar os rochedos, cortando para isso vagas tão altas como montanhas.

Puz pé em terra. Mas a dôr por perder o meu pobre Carniglia, deixando-me indifferente sobre a minha propria sorte, dava-lhe uma força invencivel.

Apenas tinha posto pé em terra que me voltei movido por uma derradeira esperança.

Póde ser, ir vêr Luiz.

Interroguei todas essas figuras assustadas, mas todas me davam a mesma resposta. Já não me restava esperança alguma.

Vi então Eduardo Mutru, que depois de Carniglia era quem eu estimava mais, e a quem tinha passado um fragmento da escotilha recommendando-lhe que se agarrasse com toda a força. A violencia das vagas tinha-lhe, sem duvida, tirado este apoio. Ainda nadava, mas pela convulsão dos seus movimentos indicava a extremidade a que se achava reduzido. Já disse como o amava, era pois o segundo irmão que ia perder no mesmo dia. Não quiz em um momento perder tudo o que mais presava no mundo. Lancei ao mar os restos do navio que me tinham servido para ajudar a ganhar a praia, e lancei-me de novo ao mar, indo novamente affrontar um perigo ao qual tinha poucos momentos antes escapado. No fim d'um minuto só algumas braças me separavam de Eduardo.

—Coragem... Coragem, lhe disse eu.

Vã esperança, vãos esforços! No momento em que encaminhava para elle o pedaço de madeira salvadora desappareceu.

Dei um grito, e mergulhei. Depois não encontrando o meu pobre amigo julguei que teria vindo á superficie. Voltei tambem: Ninguem! Mergulhei de novo e de novo voltei ao cimo d'agua. Dei gritos desesperados, mas tudo foi em vão. Eduardo Mutru tinha tambem sido engolido por esse Oceano que elle não tinha tido receio de atravessar para, unindo-se-me, servir a causa dos povos.

Ainda um martyr da liberdade italiana que não teve um tumulo, uma cruz!

Os cadaveres dos dezeseis afogados que nós contamos n'este desastre, fieis companheiros das minhas aventuras, foram arremeçados pelas vagas a mais de trinta milhas de distancia para o norte. Procurei então entre os quatorze que haviam escapado e que n'este momento estavam na praia, um rosto amigo, uma figura italiana.

Nenhuma!

Os seis italianos que me acompanhavam estavam mortos. Carniglia, Mutru, Staderini, Nadonne e Giovanni... Não me recordo do nome do sexto.

Peço perdão á patria por o haver esquecido, bem sei que escrevo estas memorias doze annos depois d'estes successos terem logar, bem sei que muitos acontecimentos tão terriveis como o que acabo de descrever, tem tido logar na minha vida; bem sei que vi cair uma nação, e que tentei defender uma cidade; bem sei que perseguido, exilado, e tratado como um animal feroz, depuz no tumulo a mulher a quem amava mais que a propria vida, bem sei que depois de fechado o seu tumulo fui obrigado a fugir como os condemnados de Dante; bem sei que não tenho um asylo, e que do extremo d'Africa onde me acho, olho para essa Europa que me repelle como um bandido, apesar de não ter tido até hoje senão um pensamento, um amor—a patria; sei tudo isto, mas não obstante devia-me lembrar d'esse nome.

E comtudo não o sei!!

Tanger, março de 1857.—G. G.

XXII
JOÃO GRIGGS

Os melhores nadadores tinham succumbido! Sem duvida confiando na sua habilidade, não se tinham querido apoderar dos restos do navio, esperando suster-se na agua sem este soccorro, em quanto que ao contrario, entre os que via sãos e salvos estavam alguns americanos que em muitas occasiões tinha visto embaraçados, por terem de atravessar um pequeno rio de dez a doze pés de largo.

Parecia-me isto estranho, e comtudo era a verdade.

O mundo era para mim um deserto.

Assentei-me na praia, e encostando a cabeça ás mãos julguei que ia chorar.

No meio da minha atonia ouvi um gemido.

Lembrei-me então que não obstante serem-me esses homens desconhecidos, visto que eu era seu chefe no combate e no naufragio, devia tambem sel-o na desgraça.

Ergui a cabeça.

—Que tem, perguntei, e quem se queixa?

Duas ou tres vozes me responderam:

—Tenho frio.

Eu que até então não tinha pensado em tal, comecei tambem a sentil-o.

Levantei-me e enchugei-me. Alguns dos meus companheiros estavam já assentados ou deitados para nunca mais se levantarem.

Chamei em meu auxilio os mais vigorosos, e obriguei os que se achavam tolhidos a erguerem-se. Peguei-lhe por uma mão, e disse aos que ainda não haviam perdido totalmente as forças que fizessem outro tanto, gritando:

—Corramos!

E dei ao mesmo tempo o exemplo.

No principio sentimos uma grande difficuldade, ou para melhor dizer, uma grande dôr por sermos obrigados a fazer mover os nossos membros tolhidos pelo frio, mas em pouco tempo começámos a sentir algum calor.

Entregámo-nos durante uma hora a este exercicio. No fim d'este espaço, o nosso sangue aquecendo tinha recomeçado a sua circulação.

Estavamos então perto do rio Aserigue. Dirigimo-nos pela sua margem direita, e a quatro milhas encontrámos uma estancia, e n'ella a hospitalidade que existe sempre em todas as casas americanas.

O nosso segundo lanchão, commandado por Griggs, chamado o Seival, um pouco maior que o Rio Pardo, mas de construcção differente, póde luctar contra a tempestade, seguindo a sua viagem.

É necessario dizer que Griggs era um excellente maritimo.

Não sei se ámanhã serei obrigado a deixar o asylo, onde me acho actualmente. Não sei pois se mais tarde terei occasião de dizer d'este excellente e valeroso mancebo tudo o que penso d'elle, vou pois, aproveitando esta occasião, pagar o tributo que devo á sua memoria.

Pobre Griggs! tenho apenas dito duas palavras a seu respeito, e comtudo onde encontrei eu um homem mais corajoso e com melhor caracter? Nascido d'uma familia rica, tinha vindo offerecer o seu ouro, a sua intelligencia, e o seu sangue á republica nascente, dando-lhe tudo quanto havia offerecido. Um dia chegou uma carta d'um dos seus parentes da America do Norte, convidando-o a ir receber uma herança enorme. Mas Griggs já havia recebido a mais bella herança que se póde dar a um homem de convicção e fé,—a corôa do martyrio. Tinha morrido defendendo um povo desgraçado, mas generoso e valente.

E eu que tinha visto tantas mortes gloriosas, vi o corpo do meu infeliz amigo cortado em dois como o tronco de um carvalho pela hacha do lenhador. Um tiro de metralha o tinha ferido na distancia de vinte passos, no dia em que com um dos meus companheiros, largando o fogo á esquadrilha, por ordem do general Canavarro, subi ao navio de Griggs que acabava de ser litteralmente fulminado pela esquadra inimiga.

Oh! liberdade! liberdade! que rainha da terra se póde encher de orgulho por ter um cortejo de heroes como tu tens no ceu!!

XXIII
SANTA CATHARINA

Felizmente a parte da provincia de Santa Catharina onde haviamos naufragado, tinha-se tambem revoltado contra o imperador, logo que souberam da aproximação das tropas republicanas. Em logar pois de encontrar inimigos, achamos alliados, em logar de sermos combatidos fomos festejados, e obtivemos em um momento todos os meios de transporte de que aquelles pobres habitantes podiam dispôr.

O capitão Balduino offereceu-me o seu cavallo, e pozemo-nos immediatamente em marcha para alcançar a guarda avançada do general Canavarro, commandada pelo coronel Teixeira, que se dirigia a toda a pressa sobre o lago de Santa Catharina, esperando surprehendel-o.[6]

Devo confessar que não tivemos grande difficuldade em nos apoderarmos da pequena cidade que precede o lago e que por isso tem o seu nome. A guarnição fugiu precipitadamente, e tres pequenos navios de guerra renderam-se depois de um fraco combate. Passei então com os meus naufragos para bordo da goleta Itaparika, que estava armada com sete canhões.

Durante os primeiros dias d'esta occupação, a fortuna parecia ter feito um pacto com os republicanos. Não temendo uma invasão tão repentina da nossa parte, de quem só tinham noticias de quando em quando, os imperiaes tinham mandado guarnecer aquella povoação com soldados, armas e munições. Mas estas cahiram em nosso poder, porque chegaram depois de estarmos senhores da cidade.

Os habitantes tratavam-nos como irmãos e libertadores, titulo que infelizmente não soubemos justificar em quanto estivemos n'esta povoação amiga.

Canavarro estabeleceu o seu quartel general em Santa Catharina, chamada pelos republicanos Giuliana, por que tinham ali entrado no mez de julho. O general permittiu a creação de um governo provincial de que foi presidente um sacerdote veneravel, que exercia um grande prestigio no povo. Rossetti com o titulo de secretario do governo era verdadeiramente a sua alma. Rossetti estava talhado para todos os empregos!

Tudo marchava ás mil maravilhas. O coronel Teixeira com a sua columna avançada tinha perseguido o inimigo até o encerrar na capital da provincia, apoderando-se de quasi todo o paiz. Por toda a parte eramos recebidos com os braços abertos, e todos os dias se nos juntavam desertores imperiaes.

O general Canavarro traçava magnificos planos. Rude na apparencia, excellente no fundo, tinha o costume de dizer que do lago de Santa Catharina sahiria a hydra que devoraria o imperio, e talvez tivesse razão se houvessem olhado para esta expedição com mais juizo e attenção. Infelizmente as nossas maneiras orgulhosas para com os habitantes e a insufficiencia dos meios que tinhamos á nossa disposição fizeram perder o fructo d'esta brilhante campanha.