117 The following stanzas, which form the commencement of an ode to Spring, will afford an idea of Ferreira’s descriptive talent.

Eis nos torna a nascer o anno fermoso,
Zefiro brando, e doce Primavera.
Eis o campo cheiroso:
Eis cinge o verde Louro já a nova Hera.
Ja do ar caydo géra
O cristalino orvalho hervas, e flores.
As Graças, e os Amores
Coroados de alegria
Em doce companhia
De Nimphas, e Pastores ao som brando
Doces versos de Amor vaõ revezando.
Apôs a branda Deosa do terceiro
Ceo, que triumphando vay de Apollo, e Marte.
E entre elles o frexeiro
O seu doce fogo, onde quer, reparte.
Fogem de toda parte
Nuvens; a neve ao Sol té entaõ dura
Se converte em brandura,
E d’alta, o fria serra
Cayndo, rega a terra
Agoa já clara: a cujo som adormece
Toda féra serpente, é o Myrtho cresce.

118 This elegy, which is here transcribed at length, is calculated to banish every doubt respecting Ferreira’s poetic genius:—

Vem Mayo de mil hervas, de mil flores
As frontes coroado, e riso, e canto,
Com Venus, com Cupido, cos Amores,
Vença o prazer á dor, o riso ao pranto
Vase longe daqui cuidado duro,
Em quanto o lédo mez de Venus canto.
Eis mais alva a menham, mais claro, e puro
Do Sol o rayo: eis correm mais fermosas
Nuvens afugentando o ar grosso e escuro.
Sae a branda Diana entre as lumiosas
Estrellas tal, qual já ao pastor fermoso
Veo pagar mil horas saudosas.
Mar brando, sereno ar, campo cheiroso,
Foge a Tristeza, o Prazer folto voa,
O dia mais dourado, e vagaroso.
Tecendo as Graças vaõ nova coroa
De Myrtho á mãy, ao filho mil Spritos.
O fogo resplandece, a aljaba soa.
Mil versos, e mil vozes, e mil gritos
Todos de doce amor, e de brandura,
Huns s’ouvem, huns nos troncos ficam escritos.
Ali soberba vem a Fermosura,
Apôs ella a Affeiçaõ cega, e cativa.
Quanto huma mais chorosa, outra mais dura.
Ah manda Amor assi: assi quer que viva
Contente a triste, do que seu Deos manda,
De seja inda mais dor, pena mais viva.
Mas quanto o moço encruece, a mãy abranda,
Ella a peçonha, e o fogo lhe tempéra:
Assi senhora de mil almas anda.
Ali o Engano em seu mal cego espera
Hum’ hora doce: ali o Encolhimento
Sem causa de si mesmo desespera.
Aos olhos vem atádo a Pensamento,
Naõ voa a mais qu’ao qu’ali tem presente,
E em tanto mal, tudo he contentamento.
E riso, em festa corre a léda gente,
Tras o fermoso fogo, em que sempr’arde,
Cada hum, quanto mais arde, mais contente.
Manda Venus ao Sol menham, e tarde
Que seus crespos cabellos loure, e estenda,
Qu’em vir s’apresse, qu’em se tornar tarde.
Ao brando Norte, que assopre, e defenda
Do ardor da sesta a branda companhia,
Em quanto alçam de Myrtho fresca tenda,
Corre por toda parte clara, e fria
Agoa: cae doce sombra do alto Louro,
Canta toda ave canto d’alegria.
Ella a neve descobre, e solta o ouro:
Banham-na as Graças na mais clara fonte;
Aparece d’Amor rico thesouro.
Caem mil flores da dourada fronte,
Arde d’Amor o bosque, arda a altra serra,
Aos olhos reverdece o campo, e o monte.
Despende Amor seus tiros, nenhum erra,
Mil de baixo metal, algum do fino,
Fica de seus despojos chea a terra.
Vencida d’huma molher, e d’hum minino.

119 The didactic epistolary character appears in the following passage, from the elegy on Luis Fernandez de Vasconcellos, which is, in other respects, exceedingly beautiful:—

Naõ frias sombras, naõ os brandos leitos
Altos spritos provam: que ociosos
Se gastam, e como em cinza estaõ desfeitos.
Melhor comprados foram, mais custosos
Aquelles nomes altos, que inda soam,
Dos que virtude, e esforço fez famosos.
Inda entre nós de boca em boca voam
De tanto tempo já os spritos puros:
Inda de verdes folhas se coroam.
Por duras armas, por trabalhos duros
Varios costumes, varias gentes vendo
Tornáram inda erguer fermosos muros.
Hora a furia do bravo mar rompendo,
Hora os lançava a sorte á praya imiga
Quanto móres perigos, mais vencendo.

120 See History of Spanish Literature, page 392.

121

O nosso bom Joam tambem guiado
De seu sprito, viva em ti seguro,
E nos mais, de quem he bem conselhado.
Abrasan-se castellos, cae o muro
Cansam forças, e braços, e ardidezas.
No bom conselho só está o bom seguro.
Do saber saõ as boas fortalezas.
Escolhan-se bons zelos, bons spritos,
Mais no Mundo soarám nossas grandezas.
Aquelles claros feitos, altos ditos,
De que os livros saõ cheos, desprezemos.
Mores feitos ha cá, naõ taõ bem escritos.
Vençamos no melhor, o outro imitemos.
Livr. I. Cart. 2.

122

Cuida melhor que quanto mais honraste,
E em mais tiveste essa lingua estrangeira,
Tanto a esta tua ingrato te mostraste.
Volve, pois volve, Andrade, da carreira,
Que errada levas (com tua paz o digo).
Alcançarás tua gloria verdadeira.
Te quando contra nós, contra ti imigo
Te mostrarás? obrigue-te a razaõ,
Que eu, como posso, a tua sombra sigo.
As mesmas Musas mal te julgaraõ,
Serás em odio a nós teus naturais,
Pois, cruel, nos roubas o que em ti nos daõ.
Livr. I. Cart. 3.

123 For example:—

O bem sempre por mal, o mal por bem,
Por virtude o mor vicio, e por prudencia
O que menos o he, seguem, e crem.
Ao vaõ prodigo dam magnificencia,
Chamam o deshonesto, homem de damas,
E louvam, e ham iveja a incontinencia.
Aquelle, que tu bom, e prudente chamas,
Que lança suas contas bem lançadas,
E seu pouco falar, bom e raro amas,
Frio, e malecioso; e o de danadas
Entranhas, que c’um riso prazenteiro
Encobre suas peçonhas simuladas,
He só prudente, e canto: falso arteiro
O que conhece bem, e sabe facer
Differença do amigo ao lisongeiro.
Livr. I. Carta 5.

124 As in the following lines:—

Apareça a Rezaõ fermosos e bella,
Criada em nossos peitos! Ah, que amores
Nos nasceram tam vivos logo dellos!
Cairan os perigos e os temores,
O campo livre, o ceo claro e sereno
Veremos sem trabalhos e sem dores.
Livr. I. Carta 7.

125 For instance in an epistle to Andrade Caminha, which begins in the following manner:—

Deste meu peito saõ em teu saõ peito
Candidissimo Andrade, vaõ seguras
Minhas palavras chãs, meu nú conceito.
Ivos daqui fingidas, ivos duras
Linguas e condiçoes: pura clareza
Saya de claros peitos, e almas puras.
Riome, bom amigo, da estreiteza
D’alguns curtos amigos, e da ousada
D’outros livres errada, e vam largueza.
Seja a amizade facil, confiada
Doce, aprazivel, branda; mas honesta,
Mas de sam liberdade acompanhada.

126 This is exemplified in the epistle to his tutor Diogo de Teive. It commences thus:—

Prometti-te, meu Teive, á tua partida
Mil prosas, e mil versos; e em mil mezes
Huma carta té outra teras lida.
Naõ sohiam mentir os Portuguezes.
Entrou novo costume, e he ley antiga
Romano en Roma, Francez cos Francezes.
Quem queres que por força cá naõ siga
A ley de terra? e mais tam bem guardada
Dos que em mal nosso tem a fortuna amiga?
Seja com tanto honrado desculpada
Minha mentira: a sam nossa amizade
Nunca esquecida foy, nunca mudada.
Mas entaõ chea, em tam grã Cidade,
Onde o sprito e a vista leva a gente,
Quem póde ser senhor da sua vontade?
Mora hum lá fóra alem do grã Vicente,
Outro cá na Esperanças e ey de vér ambos,
Foge inda o dia ao muito diligente.
Pelas ruas mil cambos, mil recambos,
Cargas vem, cargas vaõ, mil mós, mil traves,
Hum arranca, outra foge, e encontro entrãbos.
Livr. II. Carta 8.

127 The following is one of the best.

Forjava em Lemno com destreza e arte
Setas a Amor de Venus o marido:
A branda Venus lhe poem mel d’huma parte,
Mas d’outra parte lhe poem fel Cupido.
Entrou brandindo o grossa lança Marte,
Rio-se das setas. Queres ser ferido
D’huma? (Amor diz) próva hora se te praz.
Ferio-o; rio-se Venus: Marte jaz.

128

Foy o cruel Pagaõ e monstruoso
(Segundo aquellos gentes fama daõ)
Grande, membrado, e como usso velloso,
E huma orelha de Asno, outra de caõ.

129 See History of Spanish Literature, p. 296.

130 The following are the two first stanzas:—

Quando Amor nasceo,
Nasceo ao Mundo vida,
Claros rayos ao Sol, luz ás estrellas.
O Ceo resplandeceo,
E de sua luz vencida
A escuridaõ mostrou as cousas bellas.
Aquella, que subida
Está na terceira esphéra,
Do bravo mar nascida
Amor ao Mundo dá, doce amor géra.
Por amor s’orna a terra
D’agoas, e de verdura,
As arvores dá folhas, cor ás flores.
Em doce paz a guerra,
A dureza em brandura.
E mil odios converte em mil amores.
Quantas vidas a dura
Morte desfaz, renova:
A fermosa pintura
Do Mundo, Amor a tem inteira, e nova.

131 A passage from this scene may be transcribed here:—

Rey. Tristes foram teus fados, Dona Ines,
Triste ventura a tua.
Cast. Antes ditosa
Senhor, pois que me vejo antes teus olhos
Em tempo tam estreito: poem-nos hora,
Como nos outros soes, nesta coitada.
Enche-os de piedade com justiça.
Vens-me, Senhor, matar? porque me matas?
Rey. Teus peccados te matam: cuida nelles.
Cast. Peccados meus! ao menas contra ti
Nenhum, meu Rey, me accusa. Contra Deos
Me podem accusar muitos: mas elle ouve
As vozes d’alma triste, em que lhe pede
Piedade. O Deos justo, Deos benigno,
Que naõ mata, podendo com justiça,
Mas dá tempo de vida, e espera tempo
Só pero perdoar: assi o fazes,
Assi o fizeste sempre: pois naõ mudes
Agora contra mim teu bom costuma.
Act IV.

132

N’huma maõ livros, n’outra ferro e aço,
N’huma maõ sempre a espada, n’outra a pena, &c.

133 The allusion to this event occurs in the tenth canto of the Lusiad, in which the goddess Thetis from the summit of a hill, points out to Vasco de Gama the theatre of the future conquests of the Portuguese. Thetis says, pointing to the coast of Camboya, but without naming Camoens:—

Este recevera placido e brando
No seu regaço os Cantos, que molhados
Vem de naufragia triste e miserando,
Dos procellosos baixos escapados.

134 Barbosa Machado, in his dictionary says of Camoens:—

Salvou se em huma taboa com o seu divino poema, imitando a Julio Cesar, que no porto de Alexandria em huma maõ levava la espada e em a outra os seus commentarios.

In order to render the miracle perfect in analogy, Dieze in his appendix to Velasquez, has applied to Camoens these last words in which Machado refers exclusively to Cæsar. Inadvertencies of this sort must be expected occasionally to occur in the history of literature.

135 The original source whence these biographic notices are derived is, it must be admitted, somewhat obscure. About the middle of the seventeenth century, a writer named Manoel Severim de Faria compiled a biographical account of Camoens from the poet’s own works. This biography served as a ground work for Manoel de Faria e Sousa, who annexed a Vida del Poeta to his edition of Camoens and his commentaries on the Lusiad. The facts thus collected were afterwards rectified and arranged by subsequent writers, and among others by Barbosa Machado. Manoel de Faria attaches particular importance to the noble extraction and armorial bearings of Camoens. He gives the passage from the letter which the poet is said to have written on the approach of death, and which Barbosa Machado has re-printed. The words are:—

Quem houvio dizer nunca, que em tam pequeno theatro, como o de hum pobre leito, quisisse Fortuna representar tam grande desventura?

And again:—

Procurar resistir a tantos males, pareceria especie de desavergonhamento.

136 The first edition of the Lusiad was printed in the year 1572, and the poem itself was chiefly written in the East Indies. Tasso read it, and praised the author in a sonnet which has been preserved. The first edition of Jerusalem Delivered appeared in 1580, and consequently, a year after the death of Camoens. (See the History of Italian Poetry and Eloquence, vol. ii. p. 226.)

137 Even the apology for Camoens which precedes Mickle’s version of the Lusiad, defeats itself, for the English translator makes the Homeric epic his standard, and in order to justify the Lusiad misconstrues the machinery of the Iliad. The remarks on the Lusiad by Voltaire, in his Discours sur le poème épique are beneath criticism; and the judgment pronounced on this poem by Von Junk in the introduction to his Portuguese grammar, evinces a total want of poetic taste. No one should attempt a translation of the Lusiad, who does not possess an intimate acquaintance with the Portuguese language and poetry, for it is otherwise impossible to seize the spirit of Camoens. The English translation by Mickle is hitherto the only one in which it can be said that at least the elegant dignity of Camoens’s style is represented.

138 See the History of Spanish Literature, p. 408.

139 The edition with the commentaries of Faria e Sousa published in the year 1636, has the old title of Lusiadas; but in the book itself the poem is frequently styled the Lusiada. The latter title is, therefore, far from being a recent innovation.

140 Camoens was no doubt influenced by the recollection of Virgil’s Arma virumque. But in his opening stanza the Portuguese poet alludes to the heroes of his native country, without distinguishing any one in particular; and thus at the very outset the Lusiad differs from the Æneid. The second stanza resembles Ariosto. The two first stanzas are here subjoined in the original:—

As Armas, e os Barões assinalados,
Que da Occidental praia Lusitana,
Por mares nunca d’antes navegados,
Passáram ainda além da Taprobana:
Que em perigos e guerras esforçados,
Mais do que promettia a força humana.
Entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimáram:
E tambem as memorias gloriosas
Daquelles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Imperio; e as terras viciosas
De Africa, e de Asia, andaram devastando:
E aquelles que por obras valerosas
Se vaõ da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho, e arte.

141

Jà no largo Oceano navegavam
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das náos as vélas concavas inchando:
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vaõ cortando
As maritimas aguas consagradas,
Que do gado de Prótheo saõ cortadas.
Quando os deoses no Olympo luminoso,
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em concilio glorioso
Sobre as cousas futuras do Oriente:
Pizando o crystallino Ceo formoso
Vem pela Via Lactea juntamente,
Convocados da parte de Tonante,
Pelo neto gentil do velho Atlante.

142 Thus, for example, the stormy commotion in the council of the Gods is compared to the ragings and howlings of a whirlwind in the forest:—

Qual Austro fero ou Boreas na espessura,
De sylvestre arvoredo abastecida,
Rompendo os ramos vaõ da mata escura,
Com impeto, e braveza desmedida:
Brama toda a montanha, o som murmura,
Rompem se as folhas, ferve a serra erguida;
Tal andava o tumulto levantado,
Entre os deoses no Olympo consagrado.
Cant. I. 36.

143

Vasco da Gama, o forte capitaõ,
Que a tamanhas emprezas se offerece,
De soberbo e de altivo coraçaõ,
A quem Fortuna sempre favorece.

144 For example:—

Comendo alegremente perguntavam,
Pela Arabica lingua, donde vinham;
Quem eram, de que terra: que buscavam;
On que partes do mar corrido tinham.
Os fortes Lusitanos lhe tornavam
As discretas respostas que convinham:
Os Portuguezes somos do Occidente;
Imos buscando as terras do Oriente.
Cant. I. 50.

145 For example in the following description, which is in other respects excellent:—

Andam pela ribeira, alva, arenosa,
Os bellicosos Mouros acenando,
Com a adarga, e co’a hastea perigosa,
Os fortes Portuguezes incitando.
Naõ soffre muito a gente generosa
Andarlh’os cães os dentes amostrando:
Qualquer em terra salta, taõ ligeiro,
Que nenhum dizer póde que he primeiro.
Qual no corro sanguino o ledo amante,
Vendo a formosa dama desejada,
O touro busca, e pondo-se diante,
Salta, corre, sibila, acena, e brada;
Mas o animal atroce nesse instante,
Com a fronte cornigera inclinada,
Bramando duro corre, e os olhos cerra,
Derriba, fere, mata, e põe por terra.

A comparison such as this, which, it must be recollected is perfectly national, atones for many faults.

146

Mostrandose Christaõ, e fabricava
Hum altar sumptuoso, que adorava.
Alli tinha em retrato affigurada
Do alto e Sancto Espiritu a pintura,
A candida Pombinha debuxada
Sobre a unica Phenis, Virgem pura, &c.

147 The following stanzas are part of the description of the ascent of Venus to heaven, and her appearance before the throne of Jupiter.

Ouvio-lhe estas palavras piedosas
A formosa Dióne, e commovida,
De entre as Nymphas se vai, que saudosas
Ficáram desta subita partida.
Já penetra as estrellas luminosas;
Já na terceita Esphera recebida
Avante passa; e lá no sexto Ceo
Par onde estava o Padre se moveo.
***
E por mais mormorar o soberano
Padre, de quem foi sempre amada, e chara,
Se lhe apresenta asi como ao Troiano
Na selva Idea já se apresentára.
Se a víra o caçador, que o vulto humano
Perdeo, vendo a Diana na agua clara,
Nunca os famintos galgos o matáram;
Que primeiro desejos o acabáram.
O crespos fios de ouro se esparziam
Pelo colo, que a neve escurecia;
Andando, as lacteas tetas lhe tremiam,
Com quem Amor brincava, e naõ se via.
***
Canto II.

148 One of the stanzas commences as follows:—

Eis aqui se descobre a nobre Hespanha,
Como cabeça alli de Europa toda;

And another runs thus:—

Eis aqui como cume da cabeça
De Europa toda o Reino Lusitano.

149 Cant. III. Estancia 35:—

Is this Egaz, or Egas Moniz, the same individual who is celebrated as one of the earliest Portuguese poets? See p. 5.

150 In these descriptions the poet invariably seizes every favourable opportunity of introducing picturesque comparisons. Similies are indeed crowded together as closely as in the battle pictures of the Iliad; for example:—

Qual co’os gritos e voces incitado,
Pela montanha o rabido moloso,
Contra o touro remette, que fiado
Na força está do corno temeroso.
Ora pega na orelha, ora no lado,
Latindo mais ligeiro que forçoso.
Até que em fim rompendo lhe a garganta,
Do bravo a força horrenda se quebranta:
Tal do Rei novo o estomago accendido,
Por Deos, e pelo povo juntamente,
O barbaro comette apercebido,
Co’o animoso exército rompente.
Levantam nisto os perros o alarido
Dos gritos; tocam arma, ferve a gente:
As lanças e arcos tomam; tubas sôam;
Instrumentos de guerra tudo astrôam.
Bem como quando a flamma, que ateada
Foi nos áridos campos (assoprando
O sibilante Boreas) animada
Co’o vento o secco mato vai queimando.
A pastoral companha, que deitada
Co’o doce somno estava, despertando
Ao estridor do fogo, que se atêa,
Recolhe o fato, e foge para a aldêa:
Desta arte o Mouro attonito e torvado,
Toma sem tento as armas mui depressa;
Naõ foge, mas espera confiado,
E o ginete belligero arremessa.
O Portuguez o encontra denodado,
Pelos peitos as lanças lhe atravessa:
Huns cahem meios mortos, e outros vaõ
A ajuda convocando de Alcoraõ.
Canto III. 47.

151 This description commences as follows:—

Entrava a formosissima Maria
Pelos paternaes paços sublimados;
Lindo o gesto, mas fóra de alegria,
E seus olhos em lagrimas banhados:
Os cabellos angelicos trazia
Pelos eburneos hombros espalhados:
Diante do pai lédo, que a agasalha,
Estas palavras taes chorando espalha.
Quantos povos a terra próduizio
De Africa toda, gente fera, e estranha,
O graõ Rei de Marrocos conduzio,
Para vir possuir a nobre Hespanha.
Poder tamanho junto naõ se vio,
Despois que o falso mar a terra banha.
Trazem ferocidade, e furor tanto,
Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.
Aquelle que me déste por marido,
Por defender sua terra amedrontada,
Co’o pequeno poder offerecido
Ao duro golpe está da Maura espada,
E se naõ for comtigo soccorrido,
Vêr-me-has delle, e do Reino ser privada:
Viuva, e triste, e posta em vida escura,
Sem marido, sem Reino, e sem ventura.
Cant. III. 102. etc.

152 The first stanzas on the introduction of Inez or Ignez (for the Portuguese orthography adopts the latter form of the name) are not to be surpassed.

Estavas, linda Ignez, posta em socego,
De teus annos colhendo doce fruto,
Naquelle engano da alma, lédo, e cego,
Que a fortuna naõ deixa durar muto;
Nos saudos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuto,
Aos montos ensinando, e ás hervinhas,
O nome que no peito escripto tinhas.
Do teu Principe alli te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam;
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus formosos se apartavam;
De noite em doces sonhos que mentiam,
De dia em pensamentos que voavam;
E quanto em fim cuidava, e quanto via,
Eram tudo memorias de alegria.

Among the succeeding stanzas it is difficult to make an election; and as the specimens introduced in this work are intended to form a collection for literary study, it is still more difficult to resist the temptation of transcribing the whole episode. At all events the following six stanzas must find a place:—

Traziam-na os horrificos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade,
Mas o povo com falsas e ferozes
Razões à morte crua o persuade.
Ella com tristes e piedosas vozes,
Sahidas só da mágoa, e saudade
Do seu principe, e filhos, que deixava,
Que mais que a propria morte a magoava:
Para o Ceo crystallino alevantando
Com lagrimas os olhos piedosos;
Os olhos, porque as maõs lhe estava atando
Hum dos duros ministros rigorosos:
E despois nos meninos attentando,
Que taõ queridos tinha, e taõ mimosos,
Cuja orphandade como mãi temia,
Para o avô cruel assi dizia:
Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que sómente
Nas rapinas aerias tem o intento,
Com pequenas crianças vio a gente,
Terem taõ piedoso sentimento,
Como co’a mãi de Nino já mostráram,
E co’os irmaõs que Roma edificáram:
O’tu, que tens de humano gesto, e o peito,
(Se de humano he matar huma donzella
Fraca, e sem força, só por ter sujeito
O coraçaõ a quem soube vencella)
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o naõ tens à morte escura della:
Mova-te a piedade sua, e minha,
Pois te naõ move a culpa que naõ tinha.
E se vencendo a Maura resistencia
A morte sabes dar com fogo, e ferro;
Sabe tambem dar vida com clemencia
A quem para perdê-la naõ fez erro.
Mas se to assi merece esta innocencia,
Poem-me em perpétuo e misero desterro,
Na Scythia fria, ou lá na Libya ardente,
Onde em lagrimas viva eternamente.
Poem-me onde se use toda a feridade;
Entre leões, e tigres, e verei
Se nelles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos naõ achei,
Alli co’o amor intrinseco, e vontade,
Naquelle por quem mouro, criarei
Estas reliquias suas que aqui viste,
Que refrigerio sejam da mãi triste, etc.
Canto III.

153 The description of this battle, and the account of the internal agitations of the kingdom, which preceded it, occupy a great portion of the fourth canto.

154 Here again the poet displays his command of beautiful imagery. The following passage resembles the retreat of Ajax in the Iliad.

Rompem-se aqui dos nossos os primeiros;
Tantos dos inimigos a elles vaõ:
Está alli Nuno, qual pelos outeiros
De Ceita está o fortissimo leaõ,
Que cercado se vê dos Cavalleiros,
Que os campos vaõ correr de Tetuaõ:
Perseguem-no co’as lanças, e elle iroso,
Torvado hum pouca está, mas naõ medroso.
Com torva vista os vê, mas a natura
Ferina, e a ira, naõ lhe compadecem
Que as costas dê, mas antes na espessura
Das lanças se arremessa, que recrecem.
Tal está o Cavalleiro, que a verdura
Tinge co’o sangue alheio: alli perecem
Alguns dos seus. Que o animo valente
Perde a virtude contra tanta gente.
Canto IV. 134. etc.

155 The description of the battle commences in the following brilliant style:—

Deo signal a trombeta Castelhana
Horrendo, fero, ingente, e temeroso:
Ouvio-o monte Artabro; e Guadiana
Atraz tornou as ondas de medroso:
Ouvio-o o Douro, e a terra Transtagana;
Correo ao mar o Tejo duvidoso;
E as mãis que o som terribil escuitáram,
Aos peitos os filhinhos apertáram.
Quantos rostos alli se vem sem côr,
Que ao coraçaõ acode o sangue amigo;
Que nos perigos grandes, o temor
He maior muitas vezes que o perigo:
E se o naõ he, parece-o; que o furor
De offender, ou vencer o douro imigo,
Faz naõ sentir que he perda grande, e rará,
Dos membros corporaes, da vida chara.
Começa-se a travar a incerta guerra;
De ambas partes se move a primeira ala;
Huus levam a defensão da propria terra,
Outros as esperanças de ganhala:
Logo o grande Pereira, em quem se encerra
Todo o valor, primeiro se assinala;
Derriba, e encontra, e a terra em fim semêa
Dos que a tanto desejam, sendo alhêa.
Já pelo espesso ar os estridentes
Farpoens, settas, e varios tiros vôam:
Debaixo dos pés duros dos ardentes
Cavallos, treme a terra, os valles sôam:
Espedaçam-se as lanças; e as frequentes
Quêdas co’as duras armas tudo atrôam:
Recrescem os imigos sobre a pouca
Gente do fero Nuno, que os apouca.
Cant. IV. 28. &c.