156 Canto IV. Estancia 69, &c.

157 Canto IV. est. 90, &c.

158 The old man exclaims:—

Oh gloria de mandar! Oh vaã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos fama!
Oh fraudulento gusto, que se atiça
Co’ huma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho, e que justiça
Faces no peito vaõ que muito te ama!
Que mortes! Que perigos! Que tormentas!
Que crueldades nelles exprimentas!
Dura inquietaçaõ da alma, e da vida;
Fonte de desamparos, e adulterios;
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de Reinos, e de Imperios,
Chamam-te illustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vituperios:
Chamam-te fama, e gloria soberana;
Nomes com quem se o povo nescio engana.
Cant. IV. 95.

159 This passage is one of the most celebrated in the Lusiad. It commences with the following stanzas:—

Naõ acabava, quando huma figura
Se nos mostra no ar, robusta, e válida;
De disforme e grandissima estatura,
O rosto carregado, a barba esquálida:
Os olhos encovados, e a postura
Medonha, e má, e o cor terrena, e pálida,
Cheos de terra, e crespos os cabellos,
A boca negra, os dentes amarellos.
Taõ grande era de membros, que bem posso
Certificar-te, que este era o segundo
De Rhodes estranhissimo Colosso,
Que hum dos sete milagres foi do Mundo:
Co’hum tom de voz nos falla horrendo, e grosso,
Que pareceo sahir do mar profundo:
Arrepiam-se as carnes, e o cabello,
A mi, e a todos, só de ouvi-lo, e vello.

But a stanza still more admired, is that in which the gigantic spirit describes his rage on discovering that he was embracing a rock, while he fancied he held in his arms the goddess of whom he was enamoured:—

Oh, que naõ sei de noja como o conte!
Que crendo ter nos braços quem amava,
Abraçando me achei co hum duro monte
De aspero mato e de espessura brava.
Estando co’hum penedo fronte a fronte,
Que eu per o rosto angelico apertava,
Naõ fiquei homem, naõ, mas mundo e quedo,
E junto a hum penedo, outro penedo.
Canto V.

160 Canto V. Estancia 35.—The recollection of this merry shipmate seems to have been preserved among Portuguese seamen, from Vasco da Gama’s time down to the age of Camoens.

161

Entrava neste tempo e eterno lume
No animal Nemeo truculento,
E o mundo, que co o tempo se consume
Na sexta idade andava inferno e lento;
Nella vè, como tinha per costume,
Cursos do Sol catorze veces cento,
Com mais noventa e sete, en que corria,
Quando no mar a armada se estendia.
Canto V. Est. 2.

162

Algum repouso, em fim, com que pudesse
Refocilar a lassa humanidade
Dos navegantes seus, como interesse
Do trabalho que encurta a breve idade.
Canto IX. est. 20.

163 In quoting the commencement of this description it is difficult to know where to stop:—

Tres formosos outeiros se mostravam
Erguidos com soberba graciosa,
Que de gramineo esmalte se adornavam,
Na formosa Ilha alegre, e deleitosa:
Claras fontes, e limpidas manavam
Do cume, que a verdura tem viçosa:
Por entre pedras alvas se deriva
A sonorosa lympha fugitiva.
N’hum valle ameno, que os outeiros fende,
Vinham as claras aguas ajuntar-se,
Onde huma mesa fazem, que se estende,
Taõ bella, quanto póde imaginar-se:
Arvoredo gentil sobre ella pende,
Como que prompto está para affeitar-se,
Vendo-se no crystal resplandecente,
Que em si o está pintando propriamente.
Mil arvores estaõ ao Ceo subindo,
Com pomos odoriferos, e bellos:
A larangeira tem no fructo lindo
A côr que tinha Daphne nos cabellos:
Encosta-se no chaõ, que está cahindo
A cidreira co’os pesos amarellos:
Os formosos limões, alli cheirando,
Estaõ virgineas tetas imitando.
Cant. IX.

The flowers of this enchanted garden are then described with the most charming luxuriance.

164 The festival commences with the following description of the simulated flight of the nymphs when they first espy the Portuguese:—

Sigamos estas deosas, e vejamos
Se phantasticas saõ, se verdadeiras.
Isto dito; velozes mais que gamos,
Se lançam a correr pelas ribeiras,
Fugindo as Nymphas vaõ por entre os ramos;
Mas mais industriosas, que ligeiras,
Pouco e pouco sorrindo, e gritos dando,
Se deixam ir dos galgos alcançando
De huma os cabellos de ouro o vento leva
Correndo, e d’outra as faldas delicadas:
Accende-se o desejo, que se ceva
Nas alvas comes subito mostradas.
Huma de industria cahe, e já releva
Com mostras mais macias, que indignadas,
Que sobre ella empecendo tambem caia
Quem a seguio por a arenosa praia.
Outros por outra parte vaõ topar
Com as deosas despidas, que se lavam:
Ellas começam subito a gritar
Como que assalto tal naõ esperavam.
Humas fingido menos estimar
A vergonha, que a força se lançavam
Nuas por entre o mato aos olhos dando
O que ás maõs cobiçosas vaõ negando.
Cant. IX.

165

Vaõ os annos descendo, e ja do Estio
Ha pouco que passar até o Outono;
A Fortuna me faz o engenho frio,
De qual ja me naõ jacto, nem me abono.
Os desgostos me vaõ levando ao rio
Do negro esquecimento e eterno sono.

166 The translator who undertakes to produce a good version of the Lusiad, must, in the first place, adopt no other metre than that of the original, for on the structure of the verse the style of the poem materially depends. He must, moreover, diffuse over the whole composition a character equally natural and dignified, and, where mythological ornament is not introduced, perfectly simple. Finally, he must avoid all antiquated and uncommon turns of expression; for the language of Camoens is always elegant and modern.

167 Manuel de Faria y Sousa was the first who started this question, which is now generally decided against Diogo Bernardes. Notices on this subject maybe found in the prefaces to the third and fourth volumes of the new and elegant edition of the Obras de Luis de Camoõe, segunda edição da que se fez em Lisboa, nos annos 1779 e 1780. Lisbon 1782, in five small volumes. A mythological and historical index to the Lusiad, though a very imperfect one, enhances the value of this edition. The older editions of the works of Camoens are noticed by Dieze in his appendix to Velasquez. Manuel de Faria y Sousa’s commentary on the works of Camoens, pedantic as it is, contains some useful historical elucidations.

168 For instance the following, which certainly takes a very bold flight, in order to place in a new point of view the marvellous beauty of the lady to whom it is addressed:—

Quando da bella vista, e doce riso,
Tomando estaõ meus olhos mantimento,
Taõ elevado sinto o pensamento,
Que me faz ver na terra o Paraiso.
Tanto do bem humano estou diviso,
Que qualquer outro bem julgo por vento:
Assi que em termo tal, segundo sento,
Pouco vem a fazer quem perde o siso.
Em louvar-vos, Senhora, naõ me fundo;
Porque quem vossas graças claro sente,
Sentirá que naõ póde conhecellas.
Pois de tanta estranheza sois ao Mundo,
Que naõ he de estranhar, Dama excellente,
Que quem voz fez, fizesse Ceo, e Estrellas.

169 Such, for example, is the romantic reminiscence of the fourteen years service of the patriarch Jacob. This sonnet is particularly esteemed, and has been glossed by other poets.

Sete annos de Pastor Jacob servia
Labaõ, pai de Raquel, Serrana bella,
Mas naõ servia ao pai, servia a ella,
Que a ella só por premio pertendia
Os dias na esperança de hum só dia
Passava, contentando-se com vella:
Porém o pai, usando de cautella,
Em lugar de Rachel lhe deo a Lia.
Vende o triste Pastor que com enganos,
Assi lhe era negada a sua Pastora,
Como se a naõ tivera merecida;
Começou a servir outros sete annos,
Dizendo: Mais servíra, senaõ fora
Pera taõ longo amor taõ curta a vida.

170 Can any thing more strongly resemble Petrarch, both in spirit and style than the following stanza? The whole cançaõ is, however, imitated from Bembo.

Hum naõ sei que suave respirando
Causava hum desusado, e novo espanto,
Que as cousas insensiveis o sentiam:
Porque as garrulas aves entretanto
Vozes desordenadas levantando
Como eu em meu desejo, se encendiam.
As fontes crystillinas naõ corriam,
Inflammadas na vista clara, e pura:
Florecia a verdura,
Que andando, co’os ditosos pès tocava:
As ramas se baixavam,
Ou de inveja das hervas que pizavam,
Ou porque tudo ante elles se baixava.
O ar, o vento, o dia,
De espiritos continuos influia.

171 The following is a specimen of a lyric description of morning in a lover’s taste:—

Já a roxa manhãa clara
As portas do Oriente vinha abrindo,
Dos montes descobrindo
A negra escuridaõ da luz avara.
O Sol, que nunca pára,
Da sua alegre vista saudoso,
Traz ella presuroso
Nos cavallos cansados do trabalho,
Que respiram nas hervas fresco orvalho,
Se estende claro, alegre, e luminoso.
Os passaros voando,
De raminho em raminho vaõ saltando;
E com suave, e doce melodia
O claro dia estaõ manifestando.
A manhãa bella, amena,
Seu rosto descobrindo, a espessura
Se cobre de verdura
Clara, suave, angelica, serena.
Oh deleitosa pena!
Oh effeito de amor alto, e potente!
Pois permitte, e consente,
Que ou donde quer que eu ande, ou donde esteja,
O seraphico gesto sempre veja,
Por quem de viver triste sou contentes,
Mas tu, Aurora pura,
De tanto bem dá graças à ventura,
Pois as foi pôr em ti taõ excellentes,
Que representes tanta formosura.

172

Detém hum pouco, Musa, o largo pranto
Que amor te abre do peito;
E vestida de rico, e lédo manto,
Demos honra, e respeito,
A’quella, cujo objeito
Todo o Mundo allumía,
Trocando a noite escura em claro dia.
O’Delia, que a pezar da nevoa grossa,
Co’os teus raios de prata,
A noite escura fazes que naõ possa
Encontrar o que trata,
Eo que na alma retrata
Amor por teu divino
Raio, porque endoudeço, e desatino.
Tu, que de formosissimas estrellas
Coròas, e rodêas
Tua candida fronte, e faces bellas;
E os campos formosêas
Co’as rosas que semêas,
Co’as boninas que gera
O teu celeste humor na Primavera.

173

Secreta noite, amiga, a que obedeço,
Estas rosas (por quanto
Meus queixumes me ouviste) te offereço,
E este fresco amaranto,
Humido inde do pranto
E lagrimas da esposa
Do cioso Titam, branca e formosa.

174 The first of these elegies commences very much like versified prose, and in a manner which would scarcely induce the reader to suppose he was perusing even the opening of an epistle. The spirit of the composition does not begin to manifest itself until the sixteenth line:—

O Poeta Simonides fallando
Co’o Capitam Themistocles hum dia,
Em cousas de sciencia praticando,
Hum’ arte singular lhe promettia,
Que entaõ compunha, com que lhe ensinasse
A lembrar-se de tudo o que fazia;
Onde taõ subtis regras lhe mostrasse,
Que nunca lhe passassem da memoria
Em nenhum tempo as cousas que passasse.
Bem merecia, certo, fama, e gloria,
Quem dava regra contra o esquecimento
Que sepulta qualquer antigua historia.
Mas o Capitam claro, cujo intento
Bem differente estava, porque havia,
Do passado as lembranças, por tormento;
Oh illustre Simonides! (dizia)
Pois tanto em teu engenho te confias,
Que mostras á memoria nova via;
Se me désses hum’ arte, que em meus dias
Me naõ lembrasse nada do passado,
Oh quanto melhor obra me farias!

175 The following passage, which is from the beautiful fifth elegy, must not be omitted in this collection:—

Oh bemaventurado seja o dia
Em que tomei taõ doce pensamento,
Que de todos os outros me desvia!
E bemaventurado o soffrimento
Que soube ser capaz de tanta pena,
Vendo que o foi da causa o entendimento.
Faça-me quem me mata, o mal que ordena,
Trate-me com enganos, desamores;
Que entaõ me salva quando me condena.
E se de taõ suaves desfavores,
Penando vive hum’ alma consumida,
Oh que doce penar! Que doces dores!
E se huma condição endurecida
Tambem me nega a morte por meu dano,
Oh que doce morrer! Que doce vida!

176 The principal idea of this song of sorrow, the beauties of which are perfectly national, is the comparison of the present and the past in the situation of the poet, with an imaginary Babylon and Sion. Sion represents the past. The first half of the poem affords no anticipation of the nature of the second half:—

Sobre os rios, que vaõ
Por Babylonia me achei,
Onde sentado charei
As lembranças de Siaõ,
E quanto nelle passei.
Alli o rio corrente
De meus olhos foi manado,
E todo bem comparado,
Babylonia ao mal presente,
Siaõ ao tempo passado.

Among the most beautiful stanzas are those in which the poet celebrates the power of song in sorrow, and the limits of that power.

Canta o caminhante lédo,
No caminho trabalhoso,
Por entre o espesso arvoredo,
E de noite o temeroso
Cantando refrê a o medo.
Canta o preso docemente,
Os duros grilhões tocando;
Canta o segador contente;
E o trabalhador cantando,
O trabalho menos sente.
Eu que estas cousas senti
N’alma, de mágoas taõ chêa,
Como dirá, respondi,
Quem alheo está de si,
Doce canto em terra alhêa?
Como poderá cantar
Quem em choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar,
Canta por menos cansar,
Eu só descansos engeito.
Que naõ parece razaõ
Nem seria cousa idonia,
Por abrandar a paixaõ,
Que cantasse em Babylonia
As cantigas de Siaõ,
Que quando a muita graveza,
De saudade quebrante
Esta vital fortaleza,
Antes morra de tristeza,
Que por abrandá-la cante.

177 See page 30.

178 For example:—

Verdes saõ os campos,
De côr e limaõ:
Assi saõ os olhos
De meu coraçaõ.
Campo, que te estendes
Com verdura bella;
Ovelhas, que nella
Vosso pasto tendes;
De hervas vos mantendes,
Que traz o Veraõ,
E eu das lembranças
Do meu coraçaõ,
Gados, que passeis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Naõ o entendeis.
Isso que comeis,
Naõ saõ hervas, naõ
Saõ graça dos olhos
Do meu coraçaõ.

179 For example:—

Na fonte está Leonor,
Lavanda a talha, e chorando,
Ás amigas perguntando:
Vistes lá o meu amor?
Posto o pensamento nelle,
Porque a tudo o amor a obriga,
Cantava, mas a cantiga
Eram sospiros por elle.
Nisto estava Leonor
O seu desejo enganando,
Ás amigas perguntando:
Vistes lá o meu amor?
O rosto sobre huma maõ,
Os olhos no chaõ pregados,
Que do chorar já cansados,
Algum descanso lhe daõ,
Desta sorte Leonor
Suspende de quando em quando
Sua dor; e em si tornando,
Mais pezada sente a dor.
Naõ deita dos olhos agoa,
Que naõ quer que a dor se abrande
Amor, porque em mágoa grande
Sécca as lagrimas a mágoa
Que despois de seu amor
Soube novas perguntando,
D’ improviso a vi chorando
Olhai que extremos de dor!

180 That a short specimen of Camoens’s dramatic style may not be wanting in this collection of examples, a passage is here subjoined from a scene which is intended to be jocular. Duriano is a spruce country lover, and Solina is his town-bred mistress.

Dur. O que vos quero m’ engana,
Mas o que desejo naõ.
Naõ ha aqui senaõ paredes,
As quaes naõ fallam, nem vem.
Solin. Está isso muito bem.
Bem e vós, Senhor, naõ vedes,
Que poderá vir alguem,
Dur. Que vos custam dous abraços?
Solin. Naõ quero tantos despejos.
Dur. Pois que faraõ meus desejos,
Que querem ter-vos nos braços
E dar-vos trezentos beijos?
Solin. Olhai que pouca vergonha!
Hi-vos di, boca de praga.
Dur. Eu naõ sei certo a que ponha
Mostrardes-me a triaga,
E virdes-me a dar peçonha.
Solin. Ora ide rir á feira,
E naõ sejas dessa laia.
Dur. Se vedes minha canseira,
Porque lhe naõ dais maneira?
Solin. Que maneira?
Dur. A da saia.
Solin. Por minha alma, hei de vos dar
Meia duzia de portadas.
Dur. Oh que gostosas pancadas!
Mui bem vos podeis vingar,
Que em mim saõ bem empregadas.
Solin. Ao diabo, que o eu dou.
Como me doeo a maõ!
Dur. Mostrai cá, minha affeiçaõ,
Que essa dor me magoou
Dentro no meu coraçaõ.
Filodemo, Act. II.

181 See preceding vol. p. 217.

182 See present vol. p. 33.

183 See preceding vol. p. 258.

184 The different editions of the Cancionero, or the collection of the miscellaneous poems of Montemayor, are noticed by Barbosa Machado, under the head Jorge de Montemayor.

185 This neat edition is entitled, Poezias de Pedro de Andrade Caminha, mandadas a publicar pela real Academia das Sciencias de Lisboa, Lisb. 1791, in 8o. The preface contains the history of the discovery of these poems, and notices of the manuscript copies of them which are contained in different libraries.

186 In his second epistle he thus addresses his own book, that is to say, his collection of poems:—

Cuidará, Livro, alguem que te dezejo
Azas, com que por tudo vás voando
E enchas o Mundo do que sinto, e vejo.
Ciudará que te quero hir procurando
Que sejas entre todos bem ouvido
E que a teu nome os vás afeiçoando.
Mas eu, Livro naõ sou descomedido;
Conheço-te, e sei bem que o naõ mereço,
Que nunca fui das Muzas conhecido.
Sempre as ouvi de longe, só conheço
Que as deve dezejar todo alto esprito,
Que dezeja no Mundo hum alto preço.

187 For example, he thus addresses himself to Ferreira as a friend and pupil:—

Antonio, quando vejo o ingenho raro,
O puro esprito que nos vás mostrando,
O estilo facil, alto, limpo e claro,
Vejo que vás em tudo renovando
Aquella antiguidade, que inda agora
Com grande nome, e fama está espantando.
Vejo em ti sempre maravilhas, hora
Cantes da viva, da amorosa chamma
Que um’ Alma faz captiva, outra senhora;
Ou nos mostres do que baixamente ama
Amores em baixezas só fundados,
Destruidores máos da limpa fama;
Hora sejam teus versos entoados
O’ som da doce frauta, a cujo som
Forom os do gram Titiro cantados.
Epist. IX.

188 To such critics he very properly says:—

O espirito que nom voa, nem atina
O bem, ou mal do que se canta, e escreve,
Quando bem, ou mal julga desatina.
Se dá razaõ, mais fria a dá que neve,
Sem fundamento louva, e assi reprova,
Qu’ em juizo appressado á razaõ leve.
A reprensaõ no mundo nom é nova,
Mas quem melhor entende, mais d’espaço
O máo reprende, ou o melhor approva.
Tem as lingoas agudas mais que d’aço
Estes que querem ser graves censores,
Se lhes armas, caem logo em qualquer laço.
Juízos vaõs, indontos reprensores,
Nom sofrem as Musas ser assi tratadas,
Nem recebem de vós inda louvores.
Epist. XVII.

189 The following is the commencement of an elegy on Winter, which was probably intended as a companion to Ferreira’s elegy on May:—

Apos o Veram brando, o Inverno duro
Começa triste, e cheo de asperezas,
Importuno, pezado, frio, e escuro.
Entra o tempo com furias, e bravezas
Na terra, n’agoa, no ar faz movimentos
Que ameaçaõ mil danos, e tristezas.
Revolvem tudo os furiosos ventos,
E parece que tem aspera guerra
Uns com outros os grandes elementos.
Mais pezada se torna, e grave a terra
E tudo quanto de antes produzia
Nega, e dentro em si mesma esconde, e encerra.
O que hora ós olhos mostra, o que hora cria,
Tojos, espinhos, cardos, o seccura,
Tudo alheo de graça, e d’alegria.
Cessou aquella varia fermosura
De differentes rosas, varias flores
De que se ornaõ as plantas, e a verdura.
Das fontes nom taõ claros as liquores
Correm, como corriaõ; turvo é tudo;
Tem as aves silencio em seus amores.

190 The following epitaph on Queen Maria is none of the most insignificant.

Filha de Reys, e may, e irmã; e tia,
Avó de Reys, e de tudo isto dina,
De qual outra outro tanto se diria
Como dest’ alta Rainha já divina?
Mulher de Manoel, grande Maria,
Por quem todo alto esprito inda s’ensina.
E pode com tudo isto a ley da Morte
Darlhe esta estreita sepultura em sorte.

191 As in the following epitaph on Prince Dom Duarte:—

Duarte foy, filho de Joaõ Terceiro
Este que aqui debaixo está encerrado.
Do Pay em tudo filho verdadeiro,
Na flor da idade da morte cortado.
Pouco viveo, inuito mostrou primeiro,
Com que de todos era bem amado.
Mostrouse tarde, mas foy tam sentido,
Como que sempre fora conhecido.

192

Um corpo aqui se guarda governado
Em outro tempo d’um tam claro Esprito:
Que nunca poderá ser igualado
D’ humano canto, ou de mortal escrito.
Affonso d’Albuquerque foi chamado,
De quem levanta a Fama immortal grito:
De Reis vem, Reis honrou, a Reis venceo,
E de seu nome a todo mundo encheo.

193

Aqui Ferreira jaz, aqui Ferreira
De mil, e mil amigos é chorado.
E seu nome com fama verdadeira
De mil, e mil espritos é cantado.
Da Morte, no chegar sempre ligeira,
Da vida antes de tempo foy levado.
Seu corpo aqui, su Alma está na Gloria,
Seu nome em todo mundo, e sua memoria.

194 As in the epigrammatic description of Echo, or the transformed nymph of that name:—

Para mim nom, para outros tenho vida;
Nom tendo corpo, occupo grandes valles;
Nom tenho propria voz, e som ouvida;
Nom ouvindo, respondo a bens, e males;
Sem nunca vista ser, som conhecida;
Lugar proprio nom tenho, e em muitos ando.
Nisto fui transformada de improviso
Do Amor, que a meu amor nunca foi brando.
Foi meu nome Echo, e meu Amor Narcizo.
E minha morte, a morte de Narcizo.

195 In one of the epigrams he thus speaks of the wounds of love:—

Toda chaga no peito é perigosa,
Mortal no coraçaõ toda ferida.
Pois como nelles deixa a venenosa
Setta o Amor duro, e faz que dure a vida?
Porque assim duramente o Amor ordena,
Que dure a vida, porque dure a pena.

196 For example, the following on a nosegay:—

Ditosas, bem nacidas, brandas flores,
D’uns olhos vistas, d’umas maõs tocadas,
Que em suavidade, e cheiro, graça, e cores
Vos teraõ cora vantajem conservadas:
Das Graças, e do Amor e dos Amores
Com rezaõ sereis sempre acompanhadas;
E o vosso fermosissimo concerto,
Trará toda Alma em grande desconcerto.

197 The following is on an eccentric poet:—

Dizes que o bom Poeta á de ter furia;
Se nom á de ter mais, és bom Poeta.
Mas se o Poeta á de ter mais que furia,
Tu nom tens mais que furia de Poeta.

198 The article Diogo Bernardes in Barbosa Machado’s Lexicon of learned men, is very honourable to Bernardes; and this writer is mentioned in terms of still higher commendation in the biographical preface to the new edition of Ferreira’s poems. (See p. 114 of the present vol.) Barbosa Machado also gives notices of the old editions of the various works of this poet, who is scarcely known on this side of the Pyrenees even by name.

199 Varias rimas ao bom Jesus, e à virgem gloriosa sua mái, &c. Com outras mais do honesta e proveitosa liçam. Por Diogo Bernardes, natural de Ponte de Lima. Lisboa, 1770, 1 vol. octavo. This new edition proves that the recollection of Bernardes has been again revived among the Portuguese public, and also that poetic works of devotion are still well received in Portugal.

200 The two following opening stanzas of a hymn by Bernardes to the Virgin, are only a higher kind of litany:—

Oh Virgem, das mais Sanctas a mais Sancta,
Do inconstante mar fiel estrella,
Porta do Paraiso, estrada, e guia,
Volvei os olhos bellos, Virgem bella,
Vede tanta estreiteza, magoa tanta,
Quanta com magoa choro a noute, e o dia.
Naõ me dexeis sumir, doce Maria,
Neste profundo pego;
Porque povo tam cego,
Como se ri de mi, de vós naõ ria,
E salba que deixastes castigarme
Por gram peccador ser,
E naõ por naõ poder do seu livrarme.
Oh Virgem d’humildade, e graça chea,
Que converteis em riso o triste pranto,
Da triste miseravel vida nossa;
Como vos cantarei alegre canto
Cativo, sem repouso, em terra alheia,
Entre barbara gente imiga vosso?
Desatai vós esta cadea grossa,
Que meus erros sem fim
Forjaraõ para mim,
Porque solto por vós, cantar vos possa
Na ribeira do Lima sem receo,
(Oh Madre de Jesus)
Naõ de turvo Lucuz, de sangue cheo.