201 The following is one of these romantic spiritual sonnets:—

Oh Virgem bella, e branda, quem já vira
Este coraçaõ meu tam inflammado
Em vosso doce amor, que outro cuidado,
Outro querer em si naõ consentira!
Oh quem azas me dera que sobira,
Das affeições humanas desatado,
A tam seguro, e venturoso estado,
Onde em vaõ naõ se chora, nem suspira.
Em tanto como póde desejarvos
Sem culpa, quem reparte o seu desejo,
Todo devido a vós sem falar nada?
Tal vos vejo, Senhora, e tal me vejo,
Que sei de mi que naõ mereço amarvos,
Merecendo vós só de ser amada.

202 They are in this manner added to the new edition of the Rimas ao bom Jesus, already mentioned.

203 The following is a passage from one of these elegies. Bernardes addresses the shades of the friends who fell by his side in the unfortunate battle:—

Oh amigos, com quem m’aventurei,
Com quem fui sem ventura aventureiro,
Sempre, pois vos perdi, triste serei.
Sendo no fero assalto companheiro,
A vós pos-vos no Ceo o fim da guerra,
A mim em miseravel cativeiro.
Bem vedes qual o passo nesta serra,
Inda que naõ he justo que vejais
Terra, que vos negou tam pouca terra;
Terra, que quanto nella choro mais,
Tanto mais com meu choro se endurece,
E menos move a dôr seus naturais.
Tudo, o que nella vejo, m’entristece,
Triste me deixa o Sol em transmontãdo,
Triste me torna a ver quando amanhece.
Sempre com humor triste estou banhado
O pé deste soberbo alto rochedo,
Que minha dôr está accrescentando.

204 For example, a moral composition of this kind, which commences thus:—

Alma minha, oh alma
De ti esquecida
Porque das á vida
De ti mesma a palma?
Ella te maltrata,
Tu tras ella corres:
Porque tanto morres
Pelo que te mata?
Quanto se deseja,
Quanto se procura,
Doulhe que se veja,
Que val, ou que dura?
Naõ sei donde vem
Desconcerto tal,
Trocar certo bem
Por mui certo mal.

205 In one of these epistles he attributes all the poetic merit which his poetry may possess, to the instructions of Ferreira:—

Se me naõ dera ao Mundo em taõ ditosos
Annos, de mim que fora? que por ti
Espero de ter nome entre os famosos.
Por mim nunca subira, onde subi,
Meu nome com a vida s’acabára,
O Mundo naõ soubera se nasci.
Confesso dever tudo aquella rara
Doutrina tua, que me quiz ser guia
Do celebrado monte a fonte clara.
E por te dever mais, se a luz do dia
Te parecer, que saiaõ meus escritos,
Na tua pena está sua valia.

206 It is reprinted as a supplement to the new edition of Ferreira’s works.

207 See preceding vol. p. 406.

208 Barbosa Machado gives a catalogue of the writings of Cortereal.

209 Barbosa Machado enumerates the titles of the comedies of Ferreira de Vasconcellos. I have had no opportunity of perusing them myself.

210 These scanty notices are furnished by Niclas Antonio and Barbosa Machado. Dieze has collected from the same sources the particulars respecting Rodriguez Lobo, which are contained in his appendix to Velasquez. The works of this poet, are published under the inappropriate title of Obras politicas, moraes e metricas do insigne poeta Portuguez Francisco Rodriguez Lobo, &c. Lisboa, 1723, in one neatly printed folio volume. But even this edition which was intended to revive the recollection of one of the best Portuguese poets, contains no account of that poet’s life.

211 Perto da Cidade principal da Lusitania está huma graciosa Aldea, que com igual distancia fica situada à vista do mar Oceano, fresca no Veram, com muytos favores da naturesa, et rica no Estio, et Inverno com os frutos, et commodidades, que ajudam a passar a vida saborosamente; porque com a vesinhança dos portos do mar por huma parte, et da outra com a communicaçam de huma ribeyra, que enche os seus vales, et outeyros de arvoredos, et verdura, tem em todos os tempos de anno, o que em differentes lugares costuma buscar a necessidade dos homens: et por este respeyto foy sempre o sitio escolhido, para desvio da Corte, et voluntario desterro do trafego della: dos Corlesaõs que alli tinham quintas, amigos, ou heranças que costumaõ ser valhacouto dos excessivos gastos da Cidade; &c.

212 Entre outros homens, que naquella companhia se achavam, eraõ nella mais costumados em anoytecendo; hum letrado, que alli tinha hum casal, et que já tivera honrados cargos do governo da Justiça na Cidade, homem prudente, concertado na vida, douto na sua profiçam, et lido nas historias da humanidade. Hum Fidalgo mancebo, inclinado ao exercicio da caça, et muyto afeyçoado às cousas da Patria, em cujas historias estava bem visto. Hum Estudante de bom engenho, que entre os seus estudos se empregava algumas veses nos da Poesia. Hum velho naõ muyto rico, que tinha servido a hum dos Grandes da Corte, com cujo galardaõ se reparara naquelle lugar, homem de boa criaçam, et alem de bem entendido, notavelmente engraçado no que dizia, et muyto natural de huma murmuraçam que ficase entre o couro et a carne, sem dar ferida penetrante.

213 The delicacy with which one of the party apologizes for the ill-breeding of his servant, possesses at least the merit of not being trivial.

E eu (respondeo elle) se vos naõ encontrara, ainda naõ tinha entendido o vosso moço, porque de màneyra embaraçou o que me mandaveis dizer, que nem por discrição pude tirar o recado; nem vos desfaçais delle para os que forem de importancia, que val a peso de ouro; a isto se começaraõ todos a rir, et tornou Solino: O meu moço, Senhor D. Julio, tem disculpa em ser nescio, porque he meu moço, que se soubera mais, eu o servira a elle. Mas os criados dos grandes, como vos, esses ande ser discretos, pois saõ taõ bons como eu, et com tudo eu vos sey dizer que hà aqui moço que no dar hum recado o podera fazer como ao que là mãdey, que naõ he dos peores da sua ralé et já entremete de ler carta mãdadeyra, mas nos recados ainda agora lè por nomes, et naõ acerta a nenhuma cousa.

214 As in the following reasoning concerning the fashionable education of young men of rank at court.

Quatro maneyras de exercicios ha na Corte, que para todas as cousas civis fazem hum homem politico, cortez, et agradavel aos outros. A primeyra he o trato dos Principes, et a communicaçaõ das pessoas que andaõ junto a elle: nesta consiste o principal do a que chamamos Corte, que he conhecimento daquelle supremo tribunal da terra, do Rey, ou Principe a quem pertence mandar, como a todos os inferiores obedecer na conformidade das leys porque se governaõ. Tras isto o estado, et serviço do mesmo Rey, et dos seus, a obediencia, a cortesia, a inclinaçaõ, a mesura, a discrição no fallar, a policia no vestir, o estylo no escrever, a confiança no apparecer, a vigilancia no servir, a gentileza, et bizarria que para os lugares publicos se requere. O trato do Principe no Paço, na mesa, no conselho, na caça, nos caminhos, et occasiones, como se grangeaõ os validos, se visitaõ os Grandes, et como se haõ de haver os cortesaõs para cõmunicar a huns et outros.

215 The commencement of one of the stories which are interspersed through this book may be transcribed here:—

Na Corte do Emperador de Alemanha Oton terceyro deste nome, que foy a mais florente et frequentada de Princepes, que houve muytos annos antes, et despois naquelle Imperio, assistio com grande satisfaçaõ de suas partes, Aleramo filho do Duque de Saxonia, mancebo de pouca idade, et de muyta gentilesa, magnanimo, esforçado, liberal, et tam cheyo de graças naturaes, que nelle como em hum thesouro, parece que as depositàra todas a naturesa. Tinha o Emperador hum filha da mesma idade, et de tanta fermosura, que sem o que a sorte devia a seu nascimento, merecia ter o Imperio do mundo; et se em bellesa tinha esta ventagem a todas as Damas de Alemanha, ainda lha fazia muy to mayor na descrição, aviso, et galantaria.

216 See p. 34.

217 For example:—

Pela parte por onde vem decendo o rio Lis, antes de chegar aos espaçosos valles, que com sua corrente vay regando, toma hum estreyto caminho entre altos arvoredos, aonde com profundo se detem atè chegar á queda de huma alta penedia, et alli repartidas as agoas, medrosas vaõ fugindo por entre as raizes de amargosas novigueyras, outras offerecendose aos penedos com saudoso som estaõ nelles quebrando, et depois ficaõ derramadas em dous ribeyros, o mayor depois de muytas voltas se vay a encontrar primeyro com as agoas de que se apartou entre altos ciprestes, et loureyros. O outro ao voltar de hum valle se vay encostando a huma alta rocha por bayxo de espessas aveleyras, et esperando as agoas humas pelas outras descobrem a boca de huma lapa encuberta entre huns ramos, que vay por bayxo do chaõ huma legoa, et nesta havia fama, que vivia hum sabio de muyta idade, que por encantamento a fabricára, &c.

218 The following are the commencing stanzas of this song:—

Ja nasce o bello dia
Principio do veraõ fermoso e brando,
Que com nova alegria
Estaõ denunciando,
As aves namoradas
Dos floridos raminhos penduradas.
Jà abre a bella Aurora
Com nova luz as portas do Oriente,
E mostra a linda Flora
O prado mais contente,
Vestido de boninas,
Aljofradas de gotas cristalinas.
Jà o Sol mais fermoso
Està ferindo as agoas prateadas,
E Zefiro queyxoso
Hora as mostra encrespadas
A vista dos penedos,
Hora sobre ellas move os arvoredos.
De reluzente area
Se mostra mais fermosa a rica prata,
Cuja riba se arrea
Do alemo, et da faya,
Do freyxo, et do salgueyro,
Do ulmo, da aveleyra, et do loureyro.

219 For instance, at the close of a beautiful cançaõ, which a shepherd sings in his solitude.

Porem, se sonha fora
Como este prado e valle inda apparece,
Estas ramos sombrios, este onteiro,
Que mostram ainda agora
A verdura das folhas, que escurece
A falta do seu sol, como primeiro?
Como naõ foi ligeiro
O monte, a valle, as plantas e a verdura
Tras sua formosura!
Porque era todo agreste;
Solo que ella levava, era celeste.

220 For example:—

Passa o bem como sombra, et na memoria
He mayor quanto foy mais desejado;
A pena ensina a conhecer a gloria,
Naõ se conhece o bem senaõ passado.
Em mim o caso soube desta historia,
E no que mostrou ja meu cuydado,
Vejo no que naõ vejo, et no que via,
Quaõ pouco tempo dura huma alegria,
Quanto melhor me fora se naõ vira
Hum enganoso, et vaõ contentamento,
Que ainda que faltarme alli sentira,
Era muyto menor o sentimento.
Mas vio minha alma o bem porque suspira,
Foy traz elle seguindo o pensamento,
Que como era novel, naõ conhecia
Quam pouco tempo dura huma alegria.

221 As in the following pleasing sonnet:—

Agoas, que penduradas desta altura
Cahis sobre os penedos descuydadas,
Aonde em branca escuma levantadas
Offendidas mostrais mais fermosura;
Se achais essa dureza tam segura,
Para que porfiais aguas cansadas?
Ha tantos annos ja desenganadas,
E esta rocha mais aspera, et mais dura.
Voltay a traz por entre os arvoredos,
Aonde os camenhareis com liberdade,
Atè chegar ao fim tam desejado.
Mas ay que saõ de amor estes segredos,
Que vos naõ valerà propria vontade,
Como a mim naõ valeo no meu cuidado.

222

Sae o Sol desejado,
Dà aos campos a cor, o ser ao dia,
O pasto ao manso gado.
Correndo vem traz elle a noyte fria,
Onde jà sua luz naõ resplandece,
E alli quando amanhece
Nos deyxe conhecer,
Que para aparecer desaparece.
Hum dia vay fugindo,
E o que corre traz elle nos alcança,
E todos se vaõ rindo
De meu engano vaõ, minha esperança,
Que por mais que a ventura me desvia,
Vivo nesta porfia,
Segundo meus enganos,
Esperando em mil annos hum só dia.

223 They must be transcribed here at length, for fragments would not afford an idea of their spirit. It would be difficult to find any more tender sports of fancy of this kind.

Reposta de Ardenio à pergunta primeyra.

Quem ama sem esperança,
Se ama mais perfeytamente?
Ninguem ama sem querer,
Ninguem quer sem esperar,
O que ama, espera, et quer,
Poderà nunca alcançar,
Mas sempre ha de pertender.
Se a era lhe falta à planta,
Em cujo tronco se arrime,
Nem cresce, nem se alevanta,
Que em fim naõ tem força tanta,
Que se levante, et sublime.
E se a amor lhe faltàra
Esperança, que o sustente,
Na raiz propria se cura,
E inda naõ sey se brotàra,
Ou se afogára a semente.
De sorte que em qualquer peyto,
Sem esperança ou favor
De seu desejado objecto,
Naõ só falta Amor perfeyto,
Mas falta de todo Amor.

Reposta da pastora Dinarea à mesma pergunta.

Amor, que a proprio respeyto
Todo o dezejo offerece
Só por seu gosto, ou proveyto,
Naõ se chame amor perfeyto,
Antes perfeyto interesse.
Amor he somente amar,
Este he seu meyo, et seu fim,
E o que pretende alcançar,
Nem se ha de lembrar de sim,
Nem do que pode esperar.
O que he verdadeyro amante
Naõ se funda na esperança,
Só seu querer poem diante,
E se por ventura alcança,
Sem ventura he mais constante.
Quando n’alma huma bellesa
Mostra seu rayo invencivel,
E amor seu preço, et grandeza,
Naõ faz differente empreza
Entre facil, et impossivel.
E he ja cousa averiguada,
Que somente este rigor
Merece ante a cousa amada,
E o que quizer mais de amor,
Nem quer, nem mereceo nada.

224 To these three competition songs a page or two must be devoted. Fanciful compositions of this kind, though now out of date, are curious; and ingenious simplicity in so elegant a form is seldom to be met with even in romantic literature.

Reposta de Riseo à tercera pergunta»

Que parentesco chegado
Tem amor com o ciume.
Amor como se presume
Ouve por certa affeyçaõ,
Hum filho da ocasiaõ,
A que chàmaraõ Ciume.
He igual ao pay, et mór,
Que amor com muyta grandeza,
Palreyro por natureza,
Que em fim he filho de Amor.
Vè muyto aonde quer que vay,
Naõ voa, antes he pezado,
E em qualquer parte tocado,
Tem o topete da mãy.
Vive de enganos que faz,
E anda nelles de contino,
E como Amor he menino,
Tambem o filho he rapaz.
Dà ao pay sempre mà vida,
E assim naõ me maravilho,
Que disconheçaõ por filho,
Porque Amor mesmo duvida.

Reposta de Egerio à mesma pergunta.

Estes irmaõs desiguaes,
Ambos de Venus nascèraõ,
E tiranos se fizeraõ
Do Imperio de seus pays.
Nasceo de Vulcano cego
O Ciume, et logo entaõ
Tomou o cargo este irmaõ,
A quem nunca deu socego.
E parecia acertado
Que hum filho que tal parece
Da fermosura nascesse,
E de hum pay desconfiado.
Ambos nascem juntamente,
E vivem fazendo dano,
Hum com redes de Vulcano,
Outro com seu fogo ardente.
Seguem differente fim,
E vivem sempre em perigo,
Cada hum do outro inimigo,
E acompanhaõ sempre assim.
Mostre por prova melhor,
Quem o contrario presume,
Se vio Amor sem ciume,
Ou ciume sem amor?

Reposta de Lereno à mesma pergunta.

Nestes dous naõ ha liança,
Nem pode haver amizade,
Que hum he filho da vontade,
Outro da confiança.
Hum de nobre, inda que agora
Degenere do em que estava,
Ciume he filho de escrava,
E Amor filho de senhora.
E claramente se apura
Ser o outro escravo seu,
Porque em dote se lhe deu,
Casando co a fermosura.
Servio de guia, et da fè
Mil vezes falsa, et errada,
E porque Amor naõ vè nada
Lhe mostra mais do que vè.
Da senhora, et do senhor
Quem jà conheçe o costume,
Sirvase bem do Ciume,
Porque he escravo de Amor.

225 The word desenganado (in Spanish desengañado) is not so happy an expression as the English disenchanted, or the German entzauberte. It is the word commonly used to designate one who is no longer enamoured. The Desengaño (the disenchantment in affairs of love) is also employed by the Spanish poets as an allegorical character.

226 See preceding vol. page 407.

227 See page 171.

228 Naõ estranheis ouvir rusticos filosofos e avisados Aldeaãs.—E assim, como na arte do pintar representaõ as cores differentes o natural de huma figura, e a forma della e substancia e attençaõ, porque foy figurada, assim o que nesta minha naõ parecer que representa o modo dos Pastores, attribui ao intento, que he, mostrar debaixo o seu barel a condição dos vicios e o sossejo das virtudes, &c.

229 See page 20.

230

Mis señores romancistas
Poetas de Lusitania,
Que hurtastes las invenciones,
A la lengua Castellana.
Buelved ya vuestros papeles,
Entregadlos a la fama,
Que donde ay tan buenas plumas
No es razon que falten alas.
No veis que estan ya sin hojas
Los laureles de Castalia,
Que dana cada español
Romancista, una grinalda, &c.

231

No correremos tambien
El Alhambra, el Alpuxarra,
Do estan Daraxa y Celinda,
Adalifa y Celidaxa?

232 See preceding vol. page 306.

233 See preceding vol. page 49.

234 The Ribeiras are here the streams which flow into the Mondego. As, however, the word ribeira also signifies a bank, the title of this unimportant romance may in translation be more conveniently expressed by the latter sense.

235 The commencement of the tale may be transcribed here as a specimen. It is preceded by an introductory song:—

Se alguem chorando canta, assi cantava hum pastor à vista do Rio do Mondego, sentado sobre huma sepultura, cuja antiguidade a pezar do tempo, et da inveja descobria a fama entre as ruynas de huns derribados edificios na entrada de hum valle, a quem altos Cyprestes, et outras funebras plantas faziaõ com carregadas sombras morada eterna da tristeza. Corria o Rio alegre, et nunca tanto atras da fermosa Arethusa o namorado Alpheo. Agora com appressado curso, por se appartar das Ribeyras humildes, que o perseguem, mostrava seu furor na crespa escuma, et logo desfazendoa jà livre dellas hia mais vagoroso. Retratavaõse nelle (como em espelho) os frescos arvoredos, que de huma, e doutra parte o assombravaõ em cerrada espessura.

236 Let, for example, the following verses be compared with similar passages in the works of Camoens and Rodriguez Lobo:—

Faz o tempo hum breve ensayo
Do bem, que em nacendo morre,
E mostrame quanto corre
Na ligeireza de hum rayo:
Passa o bem, e o tempo assi,
De hum, et doutro vivo ausente,
E vejo, porque o perdi,
Para lembrarme sòmente
Aquelle tempo, que vi.
Em quanto quiz a ventura,
O que meus olhos naõ vem,
Entaõ via sò meu bem,
Mas hoje quam pouco dura!
Faz o tempo o officio seu,
E o bem no mal, a que venho,
Larga experiencia deu,
Este bem he o que naõ tenho,
Que sò pude chamar meu.

237 Rebello is sometimes called Rebelo, and sometimes Rabelo. And, in like manner, in his tales the names of Justin and Leonidas are occasionally written Gustino and Leonitas, The Constante Florinda has been frequently printed. The edition which I have before me was published so recently as the year 1722. There have also been several editions of Rebello’s novels.

238 In the preface he moralizes thus:—

Muytos servos há no Mundo, que sam servos do Mundo, os quais sò com elle tratam seus negocios, metidos em os bosques de cuydades mundanos, sustentando-se em os montes de pensamentos altivos: sem quererem tomar conselho com hum livro espiritual que lhes ensine o que devem fazer. Compadecido destes quis disfarçar exemplos, et moralidades com as roupas de historias humanas. Para que vindo buscar recreaçam, para o entendimento, em a elegancia das palavras, em o enredo das historias, em a curiosidade das sentenças, et em a liçaõ das fabulas, achem tambem e proveyto, que estam offerecendo, que he hum claro desengano das cousas do Mundo, et fiquem livres dos perigos, a que estaõ muy arriscados, cõ seus ruins conselhos.

239 Thus, in describing melancholy, he with pompous gravity compares it to sea sickness:—

Assim como os que navegaõ sobre as ondas do mar que enjoande em hum navio, nem por se passarem a outro perdem a nauzea que os atormenta, porque naõ nasce do lugar, senaõ dos ruins humores que em si trazem levantados. Assim os tristes, et affligidos ainda que mudem o lugar, nem por isso deyxa a fortuna de os perseguir; porque naõ lhes nascem os males do lugar que deyxaõ, se naõ da fortuna que contra elles anda levantada.—Part II. cap, 5.

240 See preceding vol. p. 205.

241 Asia de Joaõ de Barros, dos feitos que os Portuguezes fizeram no descobrimento e conquista dos mares e terras do Oriente. The first edition of the first decade was published at Lisbon in the year 1553. The whole work has been frequently printed since that period.

242 For example, (in Decad 1. livr. iii. cap. 2.) Barros describes Columbus as visiting the King of Portugal with a malignant joy on his return from his expedition to America, and as acting the part of an empty boaster. But was the discoverer of America a braggart?

243 The following is the commencement of the description of the city of Ormus, which before the discovery of the new passage by the Cape of Good Hope, was the mart for the merchandize of India in its progress to Alexandria:—

A cidade Ormuz estâ situada em huma pequena ilha chamada Gerum, que jaz quasi na garganta de dentro do estreito do mar Persio, taõ perto da costa de terra de Persia, que averâ de huma â outra tres leguoas, et dez da outra Arabia, et terà em roda pouco mais de tres leguoas: toda mui esteril, et a major parte huma maneira de sal, et enyofre sem naturalmente ter hum ramo ou herva verde. A cidade em si he mui magnifica em edificios, grossa em trato por ser huma escala, onde concorrem todalas mercadorias orientaes, et occidentaes a ella, et as que vem da Persia, Armenia, et Tartaria que lhe jazem ao Norte: de maneira, que naõ tendo a ilha em si cousa propria per carreto tem todalas estimadas do mundo. Porque atè aguoa, cousa taõ cõmum, tirando alguma de tres poços et cisternas, toda lhe vem da terra firme da Persia, della em vasilhas, et outra solta em barcas cõ toda hortaliça, verdura, fruta verde et sorodea que despende, que he em abastança: assi da comarca a que elles chamaõ Mogostaõ, como destas ilhas que tem por vinzinhas, Queixome, Larec, et outras com que a cidade he taõ vizosa et abastada, que dizem os moradores della, que o mundo he hum anel, et Ormuz huma pedra preciosa engastada nelle.—Decada II. livr. ii. cap. 2.

244 Of this an excellent example is afforded in the description of the perplexing situation in which the Portuguese were placed at the taking of the Indian town of Calecut, when confined in the narrow streets, and overpowered by the fatigues of the combat, they were in danger of being forced to yield to an enemy far weaker than themselves:—

E certo que era cousa digna de admiraçaõ, et pera se muito condoer de taõ triste caso, porque contemplando obra de seiscentos homens que seriaõ os nossos, entalados entre aquelles vallos: tanto sobrelevava o fervor do sol, et a poeira dos pés, et trabalho que a noite passada té aquelles oras tinhaõ sofrido, sobre toda a força do seu animo, que naõ se podiaõ defender de até otienta Naires, que pela estrada os perseguiaõ derribando poucos et poucos: et o que era maes miseravel, se de cima dos vallos lançavaõ naquelle cardume dos nossos hum zarguncho, huma seta, huma pedrada, nunca dava no chaõ, et qualquer que acurvava os pés de todos trilhando o acabavaõ de matar. Finalmente aqui dous, ali quatro, seis, oito, sempre foraõ caindo té que sairaõ daquella estreiteza do vallo ao largo da cidade: a qual ainda que ardia em fogo, menos sentiraõ o que nella andava, que aquella forno de morte, donde vinhaõ afogados, et cegos de sede et pó. E vendo neste largo quaõ poucos eraõ os imigos que os perseguiaõ fezeraõ rosto a elles: cõ que converterão parte da soltura que traziaõ, em fugir, et naõ em cometer como d’ante faciaõ.—Dec. II. livr. 4. cap. 1.

245 The Portuguese Public is introduced speaking, in order to represent in a forcible way the disapprobation with which the enterprizing spirit of the Infante Henry was at first regarded:—

Ora onde o Infante manda descobrir, he ja tanto dentro no fervor de sol, que de brancos que os homems sam, se la for algum de nós, ficará (se escapar) taõ negro como sam os Guineos vezinhos a esta quentura. Se ao Infante parece que como ora achou estas duas ilhas que o tem maes elevado neste descobrimento, póde achar outras terras hermas grossas et fertiles como dizem que ellas sam: terras et maninhos ha no Reyno pera romper, et a proveitar sem perigo de mar, nem despesas desordenadas. E maes temos exemptos contrarios a esta sua opiniaõ, porque os Reyes passados deste Reyno sempre dos Reynos alheos pera o seu trouxeraõ gente a este a fazer novas povoações: et elle quer levar os naturaes Portugueses a povoar terras hermas per tantos perigos, de mar, de fome et sede, como vemos que passam os que lá vam.—Dec. I. Livr. i. cap. 4.

246 He makes Antaõ Gonsalvez, a Portuguese admiral, thus address his inferior officers:—

Amigos, nós temos feito parte daquillo a que somos inviados, que ora carregar este navio: et dado que os servos muito mereçaõ em acabar os mandados de quem os invia, mayor louvor será se fizermos o que o Infante mais deseja, que he levarlhe alguma lingua desta terra. Porque a sua tençaõ neste descobrimento, naõ he a fim da mercadoria que levamos, mas buscar gente desta terra taõ remota da Igreja, et a trazer ao baptismo: et depois ter com elles communicaçaõ et commercio pera hõra et proveito do Reyno. E pois isto a todos he mui notorio, justa cousa me parece trabalharmos por levar algum dos moradores desta terra: porque a meu ver se Affonso Gonçalvez per esta comaria per onde este rio vem achou gente, buscandonos bem per força devemos achar alguma provoaçaõ, &c.—Dec. I. livr. i. cap. 6.

247 A continencia do seu vulto era assossegada, a palavra mança et constante no que dizia, et sempre eraõ castas et honestas: et esta religiaõ de honestidade guardou naõ somente em as obras, mas ainda nos vestidos, trajos de sua pessoa, et serviço de casa. Todas estas cousas procediaõ da limpeza de sua alma, porque se ere que foi virgem. Em seus trabalhos et paixões, era mui sofrido et senhor de si: et em ambas as fortunas humildoso, et taõ benigno em perdoar erros que lhe foi tachado. Teve grande memoria et concelho a cerca dos negocios: et muita authoridade pera os graves, et de muito peso.—Dec. II. livr. i. cap. 16.

248 This Historia do descobrimento e da conquista da India pelos Portuguezes, feita por Fernaõ Lopez de Castanheda, was on account of its historical merit reprinted with the old orthography at Lisbon, in the year 1797, in two octavo volumes.

249 Commentarios do grande Affonso d’Alboquerque, &c. An elegant edition was published at Lisbon in 1774, in four octavo volumes. In order to understand this work the reader must not spare himself the pains of learning the maritime language of Portugal. The book will sufficiently repay this trifling labour.

250 These celebrated Commentaries are written throughout nearly in the style of the following passage:—

Passadas todas estas cousas, mandou o grande Afonso Dalboquerque aos Capitães, que levassem suas amarras, e partio-se do porto de Adem a quatro dias do mes de Agosto, e com toda sua Armada foi á vista do cabo de Guardafum, e dali fizeram sua navegaçaõ á outra banda da terra, e afferrâram Diolocindi, e foram correndo toda a costa de longo, e chegáram a Diu, onde foram muito bem recebidos de Miliqueaz, e bem festejados de dadivas, que deo a todos os Capitães, e ali estave seis dias, e mandou concertar os bateis das náos, que vinham muito desbaratados; e como chegou, veio logo Miliqueaz velo á nào, e estiveram ambos praticando em cousas desapegadas.—Parte IV. cap. 12.

251 Monarchia Lusitana, composta por Frey Bernardo de Brito, &c. The edition with which I am acquainted is in two folio volumes. The first volume was printed in the convent of Alcobaça, in the year 1597, and the second by a bookseller of Lisbon, in 1609.

252 See preceding vol. p. 315.

253 In order to form a just notion of Brito’s rhetorical merit, it is necessary to peruse the second part of his work, in which he had no longer the opportunity of following the ancient writers; for example, his description of the final stroke of fate which visited the Visigoth King Roderick, who lost the decisive battle against the Arabs. He thus describes how the king in his retreat took refuge in the church of a deserted convent:—

Chegado el Rey a este lugar cõ desejo de achar nelle alguma consolaçaõ pera seu spiritu, encontrou materia de mayor lastima, et dobrado sentimento, por que os mõges atemorizados cõ a nova que chegara poucos dias antes et solicitos por salvar os ornamentos, et cousas sagradas, huns eraõ jà fugidos pera dentro de Merida, outros se retiraraõ pella terra dentro buscando guarida em outros conventos, et os menos aguardavaõ o fim do negocio dentro no mosteiro, desejando acabar a vida pella honra et defensão da Fé Catholica dentro naquelle santuario. Entrou el Rey na Igreja, et vendoa nua de ornamentos, et desempesada de Religiosos, se pos em oraçaõ com tanta dòr et angustia de coraçaõ, que desfeito em lagrimas, se naõ lembrava que podia ser ouvido de alguma pessoa, aquem o excesso dellas desse conhecimento de quem podia ser, et como a fraqueza de naõ ter comido alguns dias, o desfalecimento do cerebro, pella falta do sono, et o quebrantamento de caminhar a pé, lhe tivessem as forças debilitadas, se lhe cerraraõ os spiritus, de maneira, que ficou em terra com hum desmayo em que esteve privado dos sentidos a te o achar hum monge antigo, &c.—Livr. VII. cap. 3.

The facility of the accentuation in these long sentences is particularly remarkable.