326 Seram politico, abuso emendado, &c. por Felix da Castanheira Turacem. Lisb. 1704, in 4to. Some of the certificates of the Censors, which are printed with this work, are dated in 1695. In old Portuguese the word Politico, signifies all that belongs to polite manners. Hence Rodriguez Lobo’s works are entitled, Obras politicas, see page 227. Seram or seraõ properly signifies the place where an evening party, for some period, regularly assembles.—Felix de Castanheira’s name does not occur in Machado’s dictionary of learned men.

327 Escrevo entre o rasteiro, et o empolado, que saõ o Scilla, et Charibdes no vasto mar da locuçaõ: algumas vezes me detenho a fazer aquada no esprayado da digressão; mas faço quanto posso por naõ perder de vista o difficil porto da clareza; com alguma me vou explicando, sed libera nos à metaphora.

328 The following passage, which will serve as an example, is the description of the fair Isabella, an intelligent young lady, who sustains a principal character in these evening parties.

Acompanhavaõ na mesma quinta duas primas, et huma irmã à fermosa Isabel, belleza tam adorada nos curtos limites de Villa Franca, como applaudida nas melhores escolas de Lisboa: contava vinte Primaveras, tam filhas de seu rosto, que segundo os numerava por flores, parece, que tirava os annos das faces; entendimento sem aquelles estrondos que levando as mulheres a cõpositoras, lhe estragaõ o patrimonio de sezudas: vicio introduzido em as Damas, que se passaõ da almofada à escola, et do estrado à academia: como se natureza se deixasse vencer da industria, ou como se no governo de hum recato, naõ tivera harto que fazer hum entendimento. Era Isabel sezuda sem as affectaçoens de soberba; retirada sem os melindres de presumida; &c.

329 The discourse is not satirical, and notwithstanding the trivial nature of the subject, it recommends itself by style and diction. It commences thus:—

Nam ha mais dificil palestra que o do entendimento. Nos encontros de Marte, se he varonil o animo, sempre sahe victorioso o pulso:—nas contendas de Minerva, inda quando he claro o entendimento, se nevoa tal vez o discurso. Naquelles atè com as cegueiras triunfa a colera; nestas, inda com as perspicacias desatina a agudeza. Nunca pasmou o animo o Alexandre no mais subito assalto do inimigo, et suspendeo-se à vista do enlaçado labyrinto, que se lhe offereceo no templo; porque o primeiro pertencia ao braço, o segundo ao engenho. Monarca era Alexandre, naõ menos entendido, que valeroso, et para que se visse quanto mais difficuldades encontrava o juizo, que o valor, antes se resolveo a romper em huma temeridade, que a aconselhar huma resolução. Cortou he huma golpe o difficultoso laço: acabou a espada, o que temeo a agudeza.

330 To the honour of Portugal this book has been frequently reprinted. Its title is simply as follows:—Vida de Dom Joaõ de Castro, quarto Viso-Rey da India, por Jacinto Freire de Andrada.

Barbaso Machado’s catalogue states that the first edition appeared in folio in the year 1651. A neat pocket edition in octavo was published by a Lisbon bookseller in Paris in the year 1759. The work was translated into English in the seventeenth century by Henry Herringman, and shortly afterwards a latin translation was executed by the Italian Jesuit Del Rosso, who in reference to Andrada’s historical style, not injudiciously observes: Elegantiam sectatur, sed non ieiunam; acumen, sed minime illiberale. To men of education, wishing to learn the Portuguese language, there is no book that I would more strongly recommend than this excellent biography.

331 The following are his own words:—

Outros queriam que me valesse do estrepito de vozes novas, a que chamam Cultura, deixando a estrada limpa, por caminhos fragosos, et trocando com estimaçam pueril, o que he melhor, pelo que mais se usa. Mas como nam determiney lisongear a gostos estragados, quiz antes com a singeleza da verdade servir ao applauso dos melhores, que à fama popular, et errada.

332 Escreverei a vida de Dom Joaõ de Castro, varaõ ainda mayor que seu nome, mayor que suas victorias; cujas noticias saõ hoje no Oriente, de pays a filhos, hum livro successivo, conservandose a fama de suas obras sempre viva; et nòs ajudaremos o pregaõ universal de sua gloria cõ este pequeno brádo: porque duraõ as memorias menos nas tradiçoens, que nos escritos.

333 One passage must be quoted as a specimen of Portuguese classical prose: it relates to the conquest of an Indian garrison.

Entràraõ os nossos de envolta com os Mouros a Cidade, onde os miseraveis se detinhaõ presos do amor, et lagrimas das mulheres, et filhos, que acompanhavaõ ja com piedade inutil, mais como testimanhas de seu sangue, que defensores d’elle; taes houve, que abraçadas com os maridos se deixavaõ trespassar de nossas lanças, inventando os miseraveis nova dor, como remedio novo; dos nossos soldados, huns as roubavaõ, outras as defendiaõ; quaes seguiaõ os affectos do tempo, que os da natureza. Algumas d’estas mulheres com desesperado amor se metiaõ por entre as esquadras armadas a buscar os seus mortos, mostrando animo para perder as vidas; lastimosas nas feridas alheas, sem lastima nas suas.

334 The following is the commencement of a speech of Coge Cofar to the Turkish soldiers, who had followed him to India.

Companheiros, et amigos, nam vos ensinarey a temer, nem a desprezar esses poucos Portugueses, que d’entro d’aquelles muros estais vendo encerrados, porque nã chegaõ a ser mais que homens, inda que saõ soldados. Em todo o Oriente atègora os acompanhou, ou servio a fortuna, et a fama das primeiras victorias lhes facilitou as outras. Com hum limitado poder fazem guerra ao mundo, nam podendo naturalmente durar hum Imperio sem forças, sustentado na opiniaõ, ou fraqueza dos que lhes saõ sugeitos. Apenas tem quinhentos homens naquella fortaleza, os mais d’elles soldados de presidio, que sempre custumaõ ser os pobres, ou os inuteis; por terra naõ podem ter soccorro, os do màr lhes tem cerrado o inverno.

335 A good account of the mode in which the Portuguese language was disfigured by the introduction of French words and phrases, may be found in the fourth volume of the Memorias de Litteratura Portugueza, (Lisb. 1793,) in a treatise by Antonio de Naves Pereira, on the language of the best Portuguese writers of the sixteenth century. These Memorias must, in the course of the present work, be more particularly noticed.

336 Even a learned Portuguese, well acquainted with the literature of his country, of whom I made enquiries respecting the fate of the Academia Portugueza, could give me no further information than that the institution was no longer in existence.

337 The Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, in which that academy exhibits its labours for the advancement of knowledge, more particularly of the mathematical and physical sciences, are totally distinct from the Memorias de Litteratura Portugueza, which have been published by that academy since the year 1792. These last Memorias consist partly of philological and critical treatises on the Portuguese language and literature, and partly investigations relating to the ancient history and constitution of Portugal. The singular union of two departments so essentially distinct, arose out of the French idea of littérature, which had been adopted in Portugal. The worthy members of the academy well might, as indeed they intimately did, find it difficult to determine what was to be called literature. To reconcile all opinions, therefore, they included under that title national history. Germans, however, are by no means entitled to make this mistake, a subject of reproach, while they continue to employ the comprehensive word literature to designate merely the knowledge of books.—I have seen as yet only six volumes of the Memorias de Litteratura Portugueza. The sixth was published in the year 1796.

338 Barbosa Machado, in his dictionary of learned men, gives a catalogue of the writings of the Count da Ericeyra, including those which remained unprinted up to the year 1747. None of these unprinted works have, it seems, been submitted to the press since that period, though they comprise a whole collection of the minor Obras Poeticas of the author, together with several prose works, on subjects of general utility; as for example, a Methodo dos Estudos (Plan of Study.)

339 Henriqueida, poema heroico, &c. composto pelo illustrissimo e excellentissimo Conde da Ericeyra D. Francisco Xavier de Menezes, &c. (including all the titles of the Count), Lisboa occidental, 1741, in 4to. The distinction of Lisboa oriental and Lisboa occidental is founded on an ecclesiastical division of the city.

340 See page 246.

341 The poem commences thus:—

Eu canto as Armas, e o Varaõ famoso,
Que deo a Portugal principio Regio,
Conseguindo por forte, e generoso,
Em guerra, e paz o nome mais egregio;
E animado de espirito glorioso
Castigou dos infieis o sacrilegio
Deixando por prudente, e por ousado,
Nas virtudes o Imperio eternizado.
Europa foy da espada fulminante
Teatro illustre, victima gloriosa,
Asia vio no seu braço a Cruz brilhante,
E ficou do seu nome temerosa:
De Africa a gente barbara, e triumfante
Selhe postrou rendida, e receosa,
Para ser fundador de hum quinto Imperio
Que do Mundo domine outro Emisferio.

342

Naõ Calliope heroica agora invoco.
Tu me inspira, ó Deidade, &c.

343 The following is part of the picturesque description of Henry’s entrance into the sybil’s cave.

Da horrenda gruta e entrada defendiaõ
Agudas folhas da arvore do Averno,
E enlaçadas raizes, que se uniaõ,
Mais que de Gordio no embaraço eterno:
Penhascos desde a terra ao Ceo sobiaõ
Lubricos os fez tanto o frio inverno,
Que Henrique vio, subindo resolutos,
Precipitarse os mais velozes brutos.
O mar, e a terra em horrida disputa
Gritavaõ com clamores desmedidos;
Que naõ entrassem na funesta gruta
Os que assim o intentavaõ presumidos:
A constancia mais forte, e resoluta,
De ondas, e rochas tragicos bramidos,
Temia vendo unirse em dura guerra
Contra hum sò coraçaõ o Mar, e a Terra.

344

Aves, penhascos, feras, troncos, ramas,
O Heroe venceo, e os mesmos elementos,
Pois fez o coraçaõ com vivas chamas
Secar as ondas, e acender os ventos.
Tu, diz Henrique, ó Genio, que me inflamas,
De sacrilegos livra os meus intentos;
Deixarey hum perigo, que se encobre,
Venerando ao sagrado hum medo nobre.

345

Exaltando o valor, e a fermosura
Em dous tronos os Principes sentados,
Na sala da mais rara arquitetura
Os Generaes esperaõ convocados:
A ouvir da gruta a incognita aventura
Alegres se apressaraõ, e adornados
De plumas, que elevando aos Ceos as glorias,
Escreveraõ sem letras as victorias.

346

No Porto as mesmas pedras das muralhas
Pareciaõ sensiveis aos clamores,
E quasi descobrirão as medalhas,
Que enterraraõ os claros fundadores:
Os povos ja taõ destros nas batalhas,
Que igualaõ os Soldados vencedores,
Ao pronto susto de pezar taõ alto
Se rendem à entrepreza deste assalto.

347 For example, in the first canto where Henry is compared to an eagle:—

Como no campo azul aves vorazes
De sangue, e pennas em diluvio vago,
Com o odio nativo contumazes
A terra inundaõ no funesto estrago,
Mas vendo do Aguia os voos efficazes,
Fogem do seu valor regio, e presago:
Assim vendo de Henrique o braço forte,
Fogem os Mouros da infalivel morte.

348 Thus, in the following stanza, where Henry, whose astonishment is to be described, is first compared to a frozen stream; then he is himself called a stream rich in virtues, and finally he is denominated a statue of fire and snow.

Rio, que corre em rapido desvelo
Parando ao forte impulso do Austro frio
Naõ muda o vago argente em duro gelo,
Que só rompe a prisaõ no ardente estio:
Como Henrique, que em nobre paralelo
He de virtudes caudeloso rio,
A hum perigo, a que heroico naõ se atreve,
Estatua ali se vio de fogo, e neve.

349 Lest it should appear that in this collection of examples justice had not been rendered to Ericeyra, three more stanzas, from the last canto of his poem, are here transcribed. The following passage is from the description of the last combat between Henry and Ali, his Moorish enemy.

Torrente de cristal, que arrebatada
Inunda os valles, e supèra os montes,
Exhalaçaõ sulfurea, que inflamada
Fulmina os torres, rasga os orisontes,
Vento setentrional, que em furia irada
Agita os mares, e congela as fontes,
De Deucalion o rapido diluvio,
Chamas do Ethna, ardores do Vesuvio.
Ainda que com seus rapidos effeitos
Causem no mundo estragos, e terrores,
A tanto impulso de cair desfeitos
Toda a izençaõ dos globos superiores,
Naõ sey se excedem dos valentes peitos
As nobres iras, e inclitos ardores,
Com que se vio ao impeto iracundo
Parar o Ceo, estremecerse o mundo.
Recebem os escudos taõ constantes
Os rayos nos seus globos refulgentes,
Que com tremor os braços arrogantes
Resistiraõ aos impetos ardentes:
Mas se os braços tremerão inconstantes,
Os escudos ficaraõ permanentes,
E todos do valor pelos effeitos
Viraõ tremer os braços, naõ os peitos.

350 The author introduces his plays of wit in a song to the miraculous image of Senhor Jesus de Pedra, (Lord Jesus of Stone), which was celebrated for its power of exciting in sinners a feeling of bitter repentance:—

Nessa Cruz (meu bom Jesus)
Dar sinal de vós quereis,
Quando eu cuido, que fareis
De nós o sinal da Cruz.
Para contrições lograr
Essa Pedra Almas desperta:
Mas quando huma pedra acerta,
A quem naõ fará chorar?
Mais rica Pedra naõ deo
A terra, que a manifesta
Taõ única, que só esta
Por milagre appareceo.
Se a compungir-se haõ de vir
Os Fieis, que vos vem buscar,
Se trouxerem que chorar,
Sempre levaõ que sentir, &c.

351 Here are two of the most intelligible; the first is on a barber who has an evil tongue:—

Se a tua lingua trabalha
Do credito, e honra em mingoa,
Face-me a barba co a lingoa,
Que corta mais que a navalha.

The following is addressed to an old man who paints his eyebrows:—

Deixe, ó Licio, o teu cuidado
Desse pincel o aparelho;
Que a tua Dama por velho
Nem te póde ver pintado.

352 His sonnet on a rose growing over the grave of a lady, deserves to be transcribed:—

Se essa Flor he padraõ, que à formosura
Erigio nesse jaspe a natureza;
Mal recorda os triunfos da belleza,
Se se funda no horror da sepultura.
Se até nas cinzas ostentar procura
Floridas producções a gentileza;
A mesma Rosa, a quem de flor se preza,
Que he caduco o seu ser hoje assegura;
O quanto ao desengano nos convida,
Ver hoje o fim, a que apressada corre
Desde que nasce a flor da humana vida!
Pois bem nos mostraõ (já a razaõ discorre)
Huma flor sepultada, outra nacida,
Quaõ perto está o que nace, do que morre.

353 For this little notice I am indebted to the verbal information of a literary Portuguese, through whose means I could have obtained from Lisbon, the name of this Hebrew dramatist, had the recording it been an object of importance.

354 I have seen two of these collections. The oldest, printed in the year 1746, is entitled, Operas Portuguezas que se representaram nos theatros publicos desta Corte, &c. It contains eight dramas in two octavo volumes. The latest collection is entitled Theatro comico Portuguez, ou Collecçaõ das Operas Portuguezas que se representaram, &c. in two octavo volumes, fourth edition, Lisbon, 1787. As to any merit which may be discovered in these collections they are nearly equal.

355 To shew that no injustice is done to the author, it will be sufficient to quote some of the witticisms, by which Æsop distinguishes himself in the first act:—

Zeno. Donde Esopo vás? Tu naõ ouves? Com quem fallo eu?

Esop. He comigo?

Zen. Sim.

Esop. Eu naõ me chamo Esopo Vaz, sou Esopo só, nú, e espurio como minha mãi me pario.

Zen. Aonde hias, entremetido?

Esop. Se eu fora entremetido perguntára a Vossa Mercé para que nos traz hoje a esta grande feira.

Zen. Para vender-vos a todos tres, pois todos tres sois intoleraveis pelas vossas manhas, porque tu és hum bebado, e tu hum ladraõ.

Esop. Visto isso, quem comprar a este sendo ladraõ, comprao siza, e tudo. E eu, Senhor, quaes saõ as minhas habilidades, ou virtudes?

Zen. Saõ boas; primeiramente mexiriqueiro, e bacharel.

Esop. Se eu fora Bacharel soubera Direito; seu eu soubera. Direito eu me endereitára, e naõ fora corcovado; naõ he por ahi que vai o gato ás filhozes; tem mais de que se accuse? &c.

356 The following is the commencement of the trial of wit:—

Xant. Está com subtileza. Ora dize-me; como te chamaõ?

Esop. A mim chamaõ-me como me querem chamar; naõ ha meia hora que huns me chamáraõ Poeta, e outros carcunda.

Xant. Pergunto o teu nome.

Esop. Eu, Senhor, com perdaõ de Vossa Mercé chamo-me Esopo.

Xant. Donde nasceste?

Esop. Do ventre de minha mãi.

Xant. Naõ me entendes? Em que lugar nasceste?

Esop. Tambem naõ me disse minha mãi se me pario em lugar alto, ou baixo; mas cuido que foi ahi a algures ao pé de alguma cousa.

Periand. Ennio, o escravo tem atacado ao Filosofo nosso Mestre.

Xant. Ou és mui simples, ou mui velhaco; pergunto-te, de donde és natural?

Esop. A’ que d’El Rei, Senhor, eu sou legitimo, naõ sou natural.

Xant. Valha-te Deos; aonde he a tua patria?

Esop. Isso he outra cousa; sou de donde me vai bem, que ahi he a minha terra.

357 The commencement of this duet will serve as a specimen of the verse of these operas.

Euripedes. Ingrata filha!
Filena. Brava mãisinha!
Eurip. Sempre doudinha
Te hei de encontrar!
Filen. Sempre doudinha
Me ha de chamar?
Eurip. Tu com amores!
Filen. Eu! Naõ ha tal.
Eurip. Para que negas?
Filen. Eu! Naõ ha tal.
Eurip. Eu bem ouvia,
Que lhe dizias,
Que lhe querias,
E que morrias;
Tudo sei já.
Filen. Basta mãisinha
De consumir-me
Ai, ouça cá.
Eurip. Ai, guarda lá.
Amb. Naõ quer ouvir-me?
Filen. Ai, ouça cá.
Eurip. Ai, guarda lá.

358 Obras de Claudio Manoel da Costa, &c. Coimbra 1768, in 8vo. The preface in which this amiable author unaffectedly communicates some notices respecting himself, is a very instructive contribution to the history of Portuguese poetry.

359 The following may serve as a specimen of the modern style of the Portuguese sonnet:—

Onde estou? Este sitio desconhêço:
Quem fez taõ differente aquelle prado!
Tudo outra natureza tem tomado;
E em contemplallo timido esmoreço.
Huma fonte aqui houve; eu naõ me esqueço
De estar a ella hum dia reclinado
Alli em valle hum monte esta mudado.
Quanto póde dos annos o progresso!
Arvores aqui vi taõ florescentes,
Que faziaõ perpetua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.
Eu me engano: a regiaõ esta naõ era.
Mas que venho a estranhar, se estaõ prezentes
Meus males, com que tudo degenera.

360 For example:—

Nize? Nize? onde estás? Aonde espera
Achar-te huma alma, que por ti suspira:
Se quanto a vista se dilata, e gira,
Tanto mais de encontrar-te dezespera!
Ah se ao menos teu nome ouvir pudéra
Entre esta aura suave, que respira!
Nize, cuido, que diz; mas he mentira.
Nize, cuidei que ouvia; e tal naõ era.
Grutas, troncos, penhascos da espessura,
Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,
Mostray, mostray-me a sua formozura.
Nem ao menos o ecco me responde!
Ah como he certa a minha desventura!
Nize? Nize? onde estás? aonde? aonde?

361 One of Da Costa’s epicedios on the death of a friend commences thus:—

Commigo fallas; eu te escuto; eu vejo,
Quanto a pezar de meu lethargo, e pejo,
Me intentas persuadir, ò sombra muda,
Que tudo ignora, quem te naõ estuda.
Há poucas horas, que hum activo alento
Te dirigia o ardente movimento;
E em breve instante (oh dor!) em breve instante
Se torna em luto o resplendor brilhante.
Arrebatado em vaõ te solicito
Por qualquer parte, que se estenda o grito:
E aos eccos, ao clamor, que aos troncos passa,
(Funestissimo avizo da desgraça)
Apenas falla, apenas me responde
O dezengano, que esta penha esconde; &c.

362 Tornou innocentes os genios; restituio ao mundo a justiça, says Da Costa, in allusion to the dreaded Pombal; for this minister’s rigid system of judicial reform rendered him at first an object of terror.

363 For example, the poet says to his lyre, which he proposes to abandon:—

Amei-te (eu o confesso)
E fosse noite, ou dia,
Já mais tua harmonia
Me viste abandonar.
Qualquer penozo excesso,
Que atormentasse esta alma;
A teu obzequio em calma
Eu pude serenar.
Ah! Quantas vezes, quantas
Do somno despertando,
Doce instrumento brando,
Te pude temperar!
Só tu (disse) me encantas;
Tu só, bello instrumento,
Tu es o meu alento
Tu o meu bem serás.
Vê, de meu fogo ardente,
Qual he o activo imperio:
Que em todo emisferio
Se attende respirar.
O coraçaõ que sente
Aquelle incendio antigo,
No mesmo mal, que sigo,
Todo o favor me dá.

364 For example, in this passage:—

Sentado junto ao rio,
Me lembro, fiel Pastora,
Daquella feliz hora,
Que n’alma impressa está.
Que triste eu tinha estado,
Ao ver teu rosto irado!
Mas quando he, que tu viste
Hum triste
Respirar!
De Filis, de Lizarda
Aqui entre desvelos,
Me pede amantes zelos
A causa de meu mal.
Alegre o seu semblante
Se muda a cada instante:
Mas quando he, que tu viste
Hum triste
Respirar!
Aqui colhendo flores
Mimosa a Ninfa cara,
Hum ramo me prepara,
Talvez por me agradar:
Anarda alli se agasta;
Dalizo aqui se affasta:
Mas quando he, que tu viste
Hum triste
Respirar!

365 The following, which is the shortest of Da Costa’s cantatas, may be transcribed here, as a thing perfect in its kind:—

Naõ vejas, Nize amada,
A tua gentileza
No cristal dessa fonte. Ella le engana:
Pois retrata o suave,
E encobre o rigorozo. Os olhos bellos
Volta, volta a meu peito:
Verás, tyranna, em mil pedaços feito
Gemer hum coraçaõ: verás huma alma
Ancioza suspirar: verás hum rosto
Cheyo de pena, cheyo de desgosto.
Observa bem, contempla
Toda a mizera estampa. Retratada
Em hum copia viva
Verás distincta, e pura;
Nize cruel, a tua formosura.
Naõ te engane, ó bella Nize,
O cristal da fonte amena.
Que essa fonte he mui serena,
He muy brando esse cristal.
Se assim como vés teu rosto,
Viras, Nize, os seus effeitos,
Pode ser, que em nossos peitos
O tormento fosse igual.

366 Odes de Q. Horatio Flacco, &c. Lisb. 1781.

367 Satyras de Sulpicia, &c. Lisb. 1786.

368 Cartas de Ovidio, chamadas Heroides, &c. Lisb. 1789.

369 Comedias de Terencio, &c. Lisb. 1788.

370 Arminio, ou Alemanha Libertada, trad. de Aleman do Baron Schönaich. Lisb. 1791.

371 Lisboa reedificada, poema epico, por Miguel Mauricio Ramalho. Lisb. 1784.

372 Satyras e Elegias, por Miguel do Couto Guerreiro. Lisb. 1786.

373 Sonho, poema heroico, por Luis Rafael Soyé. Lisb. 1786.

374 Triumpho da Innocencia, poema epico, por José Anastasio da Costa. Lisb. 1785.

375 Lusitania transformada, por F. Alvares do Oriente. Lisb. 1781.

376 Gaticanea, &c. por J. J. de Carvalho. Lisb. 1781.

377 Obras poeticas de Pedro Antonio Correa Garçaõ. Lisb. 1778, in 8vo. Some of the poems in this collection seem to have been written about the middle of the eighteenth century. I have not been able to gather any particulars respecting the life of Garçaõ.

378 For example, in the Ode to Winter, which begins thus:—

Vê, Silvio, como sacondido o Inverno
As negras azas, sólta a grossa chuva!
Cobre os outeiros das erguidas serras
Humida nevoa.
Na longa costa brada o mar irado
Sobre os cachopos; borbotões de espuma
Erguem as ondas; as crueis cabeças
Nágoa negrejaõ.
O frio Noto, rigido soprando
Dobra os ulmeiros, os curraes derruba:
E o gado junto, pavido balando
Une os focinhos.

379 The following passage will afford a specimen of this and also of the didactic character of Garçaõ’s odes:—

Cobre a Virtude co’ as azas lubricas
O veloz tempo, logo que ao feretro
Cede o passo a Lisonja,
Rasgando a torpe mascara.
Com tardos passos calcando os tumulos
O Esquecimento, da maõ esqualida
Sólta as confusas cinzas,
Que espalha o vento rapido.
Mas eu ingrato, Silvio magnanimo,
Soffrer podia, que o canto melico
Esquecido deixasse
O teu nome magnifico?

380 See page 126.

381 It commences thus:—

Strophe.
Naõ Arabico incenso, ouro luzente,
Nem pérolas do Ganges,
Naõ tenho que offrecer-vos reverente
Malhas, arnezes, punicos alfanges
Mas soberbas Phalanges
De almos Hymnos Dirceos, q’immortaes tecem
Mil croas á Virtude, me obedecem.
Antistrophe.
Fuja o profano Vulgo, qual nos montes
O rebanho medroso
Quando vè fuzilar nos horizontes
O farpado corisco pavoroso,
Ouve o trovaõ ruidoso,
Correndo pelo valle se derrama,
E em seu balido o Pegureiro chama.
Epodo.
Nos mansos ares vejo
Já sobre as azas luzidas pezados
Meus fogosos Etontes, que banhados.
No doce, flavo Téjo
Os freios de diamantes mastigavaõ
Quando as Ninfas de rosas os croavaõ.

382 The commencement of this dythirambic deserves, on account of its literary singularity, to be transcribed here:—

Os brilhantes trançados enastrando
Com verde mirto, com cheirosas flores,
Nos lindos olhos vivo rutilando
O doce lume
Do cego Nume,
Alvas donzellas
A quem vos ama,
Da crespa rama
Que Bassareu
Ao mundo deo,
Co’ as brancas maõs no cópo crystallino
Lançai ligeiras
Louro Falerno, rubido Sabino,
Eia, voai,
Deitai, deitai;
Gró gró, tá tá,
Que cheio está.
Ora brindemos
As gentis Graças, castos Amores:
No mar lancemos
Rixas, tristezas, mágoas, temores. &c.

383 It is not easy to select a passage as a specimen; but the following, in which Garçaõ speaks of Portuguese poetry, may be quoted on account of its auxiliary interest.

Naõ busques pensamentos exquisitos
Em denegridas nuvens embrulhados;
Naõ tragas naõ metaforas violentas,
Imitando esse Corvo do Mondego,
Que entre os Cisnes do Téje anda grasnando:
Usa da pura lingua Portugueza,
Que aprendido já tens no bom Ferreira,
No Camões immortal, em Sousa, e Barros:
Em Grego naõ me escrevas, nem Latim;
Dá me conta da tua larga vida;
Desejo que me digas se inda preza
No pensamento trazes a Cachopa;
Se com tres companheiros n’uma banca
De panno verde ornada o Whist jogas;
Se ouves fallar Francez; e se inda lavra
O mal, de que hoje tantos adoecem;
Fallo daquella praga desastrada
Dos enfermos Poetas, que naõ querem
Os remedios tomar para sararem, &c.