384 For example, at the close of the epistle, which treats of the difficulties of house-keeping.

Que facil he sonhar felicidades!
Tu já rico me crês; eu já supponho,
Agora que te escrevo, e que te fallo:
Mas esta Scena subito se muda;
O Chico mostra rotos os çapatos;
Huma quer lenços, outra quer roupinhas,
O Nadegas dinheiro para a ceia;
A’ porta esta batendo o Alfaiate.
Se alguem aos caens lançou os patrios ossos;
Se foi traidor á Patria, se he falsario,
Seja lançado a filhos, e credores.

385

Sentemo-nos Senhores;
Que grave Tribunal! Que magestoso!
Mal sabe o Mundo agora, que pendente
Deste conclave está o seu destino.
Oh quanto, amada Patria, quanto deves
A teu bom Cidadaõ Aprigio Tafes,
Suando, e tressuando por salvarte
Do pélago profundo da Ignorancia,
Onde pobre jazias, atolada,
Entre pessimos Dramas corviqueiros! &c.

386 The following is a part of this patriotic apostrophe:—

Vós Manes do Ferreira, e de Miranda:
E tu, ó Gil Vincente, a quem as graças
Embaláraõ o berço, e te gravaraõ
Na honrada campa o nome de Terencio;
Esperai esperai, q’inda vingados,
E soltos vos vereis do esquecimento.
Illustres Portuguezes, no Theatro
Naõ negueis hum lugar ás vossas Musas:
Ellas, naõ as alheias, publicaráõ
De vossos bons Avôs os grandes feitos,
Que eternos soaráõ em seus Escritos:
E podeis esperar paga taõ nobre,
Se detestando parecer ingrato,
Lhe defenderdes o Paterno Ninho,
E quizerdes com honra agazalhallas.

387 In old and genuine Portuguese the word partida means parting, and has not the signification of the French partie.

388 Poesias de Paulino Cabral de Vasconcellos, &c. Porto, 1786, in 8vo. A second volume of these poems has been printed, but I have not seen it.

389 For example, the following sonnet on modern judges, who are at the same time men of fashion.

Vós que o mundo regeis, Padres conscriptos,
(O que eu vos naõ invéjo) e que prudentes
De promessas encheis aos pretendentes,
E de esperanças vans aos Réos afflictos:
Vós que lêdes processos infinitos;
Que soffreis cavilózos requerentes;
Cartas, memoriaes impertinentes;
E por fim castigaes poucos delictos;
Vós ficai-vos em paz; porque occupados
Naõ deveis ser com clausulas escriptas
De quem sem pleitos vive, e sem cuidados.
Basta-me só que ás vezes nas vizîtas.
As vêjaõ Petimetres namorados,
As ouçaõ sem desprêzo as Senhorîtas.

390 For example, the following:—

Ou fosse, Nize, em nós pouca cautella,
Ou que alguem presentisse o nosso enleyo,
Tudo se sábe já: tudo hé já cheio,
Qu’ algum cuidado ha muito nos disvella.
Dizem, qu’eu son feliz, que tu es bella;
E ás vêzes com satirico rodeio,
Hum murmûra, outra zomba, e sem receio
A fama cada qual nos atropella.
Mas se nunca se tapa a boca á gente,
E se amôr sempre activo nos devóra,
Porque aquella he mordaz, porque este ardente;
Adorêmo-nos pois como até agora:
Siga-se amôr; arraste-se a corrente;
E se o mundo fallar, que falle embóra.

391 Osmîa, tragedia de assumpto Portuguez, em cinco actos, coroada pela Academia Real das Sciencias de Lisboa, em 13 de Mayo de 1788. Segundo ediçaõ, Lisboa, 1795, in 4to.

392 A fragment from the scene in which Osmia first betrays a reciprocal love for the Prætor, will afford a specimen, though an imperfect one, of the merit of this tragedy.

Osmîa. Pretor, senaõ alcanço
Saber o que pertendo, mais naõ tenho
Que saber, ou que ouvir. A Eledia torno,
Que naõ longe deixei, ou tu m’a envia,
E á minha dor me deixa em tanto entregue.
Lelio. Se te agrada aggravar o duro aspecto
Da tua situaçaõ, fallemos della:
Naõ falta que dizer, e verás como
Sei prestar-me a teus votos, bem que sejaõ
Contrarios a meus proprios sentimentos.
Osmîa. Ah! cruel! como vejo em teu semblante
Reluzir a fereza que disfarças
D’uma falsa piedade na apparencia.
Lelio. Chamas falsa piedade a hum sentimento,
Que todo me transporta?
Osmîa. Que linguagem!
Lelio. E quanto soffro, Osmîa, sob o pezo
Do rigido silencio que m’imponho!
Osmîa. Mais naõ soffras, Pretor, vai explicar-te
Onde possas melhor ser percebido.
E que, naõ partes?
Lelio. Parto sim, Princeza!..
E que naõ farei eu por contentar-te?
Mas vê que o meu silencio.. a tua virtude..
Ah! que eu me precipito!
Osmîa, só.
Osmîa. Justos Deoses.
Valei-me! E que expressões.. que modo estranho
De persuadir!.. Que duro.. que terrivel
Incerto estado o meu! Ah! cara Eledia....

Eledia, who is apostrophized in the concluding line, is the Turdetanian prophetess who has begun to suspect the sentiments of Osmia.

393 The manner in which the interest rises cannot be developed in a fragment. One of the closing scenes may, however, be transcribed as a specimen. Osmia has made a promise to her husband to murder the Prætor. She meets him:—

Osmîa. Ah! porque a vida
Naõ cortas d’uma vez, sorte inhumana!
Lelio. Mas tal agitaçaõ!.... tanta amargura!
Osmîa. Pretor, naõ imagines.. naõ.. naõ creias,
Que a minha agitaçaõ.. naõ sei que digo.
Lelio. Prosegue, bella Osmîa, naõ m’escondas
O mal que teus espiritos transtorna.
Osmîa. Grata a teus beneficios, mas ligada
Com rigidas cadeias posso a penas
Dizer-te, que a virtude me levára
A lançar maõ de quanto m’offereces.
Que a gloria o requeria; que meu peito
(Sem poder desejallo) te acceitára
Taõ illustres, taõ grandes sacrificios;
Mas sou mais infeliz. Hum Deos irado
Me obriga.. a que naõ parta.. que despreze,
Lelio, teus grandes dons.. teus preciósos
Sublimes beneficios.. sorte insana,
Me condemna a viver infame vida....
E que te perca (oh Deos!) e que naõ possa
Compensar com meu sangue..
Lelio. Tu deliras?
Osmîa. Naõ Pretor, naõ deliro, sô pertendo,
Que o campo já levantes; que me deixes
Exhalar meu espirito opprimido
Em torno áquellas aras.. Mas naõ tardes....
Parte, parte daquí. He precioso
O tempo que esperdiças; naõ te exponhas....
Naõ posso dixer mais. Em paz me deixa.
Lelio. Que estranha confusão!
Osmîa. E inda naõ partes?
Que insania te detem!.. Infeliz! vai-te....

394 I have not had an opportunity of becoming sufficiently acquainted either with these Portuguese interludes or the comedies of Guita. A great number of interludes are printed at Lisbon.

395 Obras Poeticas de Nicolao Tolentino d’Almeida. Lisb. 1801; 2 volumes octavo.

396 The following sonnet on a gamester who has promised no longer to play at the pharo-bank, is not one of the wittiest pieces of the kind which might be selected from Tolentino’s works, but it is characteristic:—

A hum Taful, que protestou, naõ apontar à Banca.

Que tornas a apontar, prometto, e attesto,
Que eu, passaro bisnau, sino garoto,
Depois de já ter feito o mesmo voto,
Jógo o que trago, e jogarei de resto.
Seguimos os Tafues o mesmo aresto,
Que segue nas tormentas o Piloto;
Hum parolim desfeito, hum masto roto
Tem produzido muito vaõ protesto.
Ainda dos ardidos Jogadores
Vaõ as pragas subindo sobre o vento,
Já tornaõ para o jugo os taes Senhores.
He caso, em que naõ liga o juramento;
Qual parida, que grita com os dores,
E sabe prenhe no fim do regimento.

397 The following are a few stanzas from a satirical poem on war:—

Dizes que se compra Quina,
Porque altas febres desterra;
E que em Collegios se ensina,
Em huma Aula, a Arte da guerra,
Em outra, a da Medicina:
Que no frio, vasto Norte,
Cem Boerhaves eloquentes
Enchem de oire o cofre forte,
Porque perdidos doentes
Arrançaõ das maõs da morte:
Que alli mesmo grosso fruto
Colhe Saxe entre os Soldados,
Porque em minado reducto
Fez voar despedaçados
Dez mil homens n’hum minuto.

398 These translations are anonymously printed, and have never been regularly published. The design with which they are written, renders them, however, the more deserving of being known, since, according to the express declaration of the author, their object is,—“to counteract the too great predilection of the Portuguese nation for languishing pastoral poetry.” The commencement of the translation of Alexander’s Feast, shall now close the poetic portion of this selection of Portuguese extracts:—

Era a festa Real, que ao bellicozo
Macedonio, da Persia glorioso
Vencedor acclamava.
Excelso o Eroe brilhava
No solio majestozo.
Valentes Pares seus o rodeavaõ
Que de rosas e murta a frente ornavaõ
(Como ao valor compete se croavaõ.)
Thais mostrava ao regio lado airoza,
Qual outra oriental florente esposa,
Juventude e beldade radioza.
Feliz, feliz donzella!
Ninguem, se naõ o Eroe,
Ninguem, se naõ o Eroe,
Ninguem, se naõ o Eroe merece a bella.

399 Advertencias preliminares ao poema heroico da Henriqueida. See page 340.

400 O tenho (sc. o poema epico de Virgilio) pela obra humana, em que se achem menos imperfecções.

401 These critical Dissertações form an appendix to the Obras poeticas of Garçaõ, already noticed.

402 For example, in the following passage, in which Garçaõ justifies himself to the members of the Arcadian academy against the charge of arrogance:—

Naõ creio, ó Arcades, que em vossos corações se pervertesse a antiga sinceridade de costumes com taõ violenta metamorfose, que para reconciliar-me comvosco me seja preciso cantar a Palinodia. Vós estais offendidos? Eu ultrajei-vos? Havera entre Nós algum espirito taõ escravo da vangloria, que naõ possa, nem se atreva a soffrer a verdade? Chamar-me heis atrevido, porque sou zeloso da honra, e do credito da Arcadia? Porque naõ sei lisonjear-vos com fantasticas esperanças; porque vos naõ attribuo, se possivel he, maior merecimento do que o vosso? Ou finalmente porque naõ me atrevo a divulgar com soberba jactancia, que restauràmos a boa Poesia, e a verdadeira Eloquencia? Que peleijámos, e que vencemos? Naõ, Arcades, naõ sou taõ ingrato, que vos julgue destituidos de piedade, e de benevolencia.

403 This passage may likewise be transcribed, as a specimen of the Portuguese prose of the middle of the eighteenth century:—

Corre o tempo: ateia-se a epidemia; desprezaõ-se os bons Authores; naõ vale o exemplo da Antiguidade; apaga-se a memoria da Arte; e finalmente se transforma o genio da Naçaõ. Se no fim desta Epoca apparecesse huma Alma capaz de atalhar o damno, acha já com tantas forças o Inimigo, que ainda que adquira a honra de atacallo, raras vezes cólhe os louros do triunfo. Saõ taõ frequentes, e talvez taõ domesticos os exemplos, que naõ devo respeitallos. Prouvera Deos, ó Arcades, que ainda hoje em Portugal naõ avultassem mais as ruinas deste geral destroço, do que as miseraveis reliquias da restuida Lisboa. Só huma Academia, huma Sociedade de homens sabios, zelosos do bem, e da honra da sua Patria, he o Alexandre que póde cortar este Nó Gordiano, he o Achilles de que pende a expugnaçaõ de Troia.

404 See page 335.

405 Sobre a Poesia bucolica dos Poetas Portugueses. Memoria I. The continuation does not appear to have been published.

406 Espirito da lingoa Portugueza, extrahido das Decadas do insigno escritos Joaõ de Barros, in the third volume of the Memorias de Litt. Port.

407 Joaõ de Barros, exemplar de mais solida eloquencia Portuguesa; in the fourth volume of the Memorias de Litt. Port.

408 Analyse e combinações philosophicas sobre o elucaçaõ e estilo de Sà de Miranda, &c. in the fourth volume of the Mem. de Litt. Port.

409 See page 209.

410 The selection of extracts contained in this work may be closed by the following passage, which will afford a specimen of the recent style of didactic prose in the Portuguese language. The author is speaking of the value to be set on ancient and modern poetry.

Mas este concurso de circunstancias parece, que ainda naõ foi a causa suficiente da perfeiçaõ das Linguas: inda alli se diviza hum vacuo, que precisa ser occupado. Aqui vem a Poesia com toda a sua pompa e magestade, desatando os vóos, pulindo e aperfeiçoando os Idiomas, dando a tudo alma e vida, já elevando-se aos maiores assumptos nos louvores do Ente Supremo, e no panegyrico dos grandes homens, persuadindo a imitaçaõ das acções nobres, e dignas dos mais distinctos applausos. Ella lhe abre os seus thesouros; ella os enriquece; ella lhes dá força, elegancia, e harmonia, sem o que seriaõ huns cadaveres seccos, e inanimados. Sem a Poesia, nada seriaõ talvez os Gregos, e os Romanos, que tanto enchêraõ o mundo com o fama das suas victorias, com a grandeza das suas acções, e muito mais com a perfeiçaõ, com que cultiváraõ todas as artes de genio, de que tantos, e taõ admiraveis testemunhos nos deixáraõ principalmente nos seus escritos. A Poesia pois, que tendo entre os antigos hum caracter de harmonia muito diverso da Poesia moderna, veio pela ignorancia dos Seculos a tal decadencia, que pouco faltou para ficar inteiramente ignorada.

411 Ensayo critico, sobre qual seja o uso prudente das palavras &c. In the fourth volume of the Memorias de Litt. Port. The continuation is in the fifth volume.

412 It forms the commencement of the fifth volume of the Memorias de Litt. Port.

413 Compendio de Rhetorica Portuguesa, por Antonio de Teixeira a Magalhães. Lisb. 1782, in 8vo. I know nothing of this work except the title.

414 Rhetorica de Gisbert, traduzida do Frances. Lisb. 1789, in 8vo.