67

Ora provemos ja a nova lingoagem,
E ao dar a vela ao vento boa viagem.

68 The following passage with which this eclogue commences, affords a fair specimen of Miranda’s style, while at the same time it presents nothing very obscure to the foreign reader:—

Gonç. Quantas cousas Ines, madrinha, et tia,
Se me vaõ descobrindo de ora em ora,
Inda que eu faça corpo, gesto, et ria?
Polla alma de quem mais naõ pode, a fora
Outros respeitos, cumpre ter paciencia,
Té que seja da vida, ou da dór fora.
Aos erros he devida a penetencia
Por conta, por medida, por balança,
Seja juiz a propria consciencia.
Porem quando ao contrario de esperança
Em vez de galardaõ acode pena,
Quem terá sofrimento em abastança?
Amor que por antolhos tudo ordena
Bem pouco se lhe dá de que a fé sancta
Se quebre com graõ culpa on com piquena.

69 The following elegant and simple stanzas form the commencement of the first cantiga which is sung by the complaining shepherd Gonçalo:—

Onde me acolherey? tudo he tomado,
Nam parece esperança aqui nenhuma.
Sombras feas, et negras, mal peccado,
Estas si que apparecem, cousa alguma
Naõ ficou por fazer, como o passado,
Será o que he por vir, ouçame a Luma,
Delgada, que traspoem polo alto monte,
Seus trabalhos cos meus coteje, et conte.
Que se os velhos Solaos fallam verdade,
Bem sabe ella por prova, como Amor
Mata, et averá de mi piedade:
Endimiaõ tam fermoso, et tal pastor,
Entre as flores dormia em fresca idade,
Olhando ella do Ceo perdia a cór,
Té das flores ciosa, et d’agoa clara,
Que o seu fermoso Amor lhe adormentára.

70 For example:—

Ves tu cousa, que esté queda?
Ora he noite, ora amanhece,
Ora corre huma moeda,
Ora outra, tudo envelhece,
Tudo tem no cabo a queda.
Nas Villas hum baylo dançam
Em que todos ao som andam,
Huns cá, outros lá se lançam,
Como o tanger naõ alcançam,
Mais pés, nem braços naõ mandam.
Do sangue, et leite empollado
O Bezerrinho viçoso
Corre, et salta pollo prado,
Depois lavra preguiçoso,
Tira o seu carro cansado,
Cos dias, et co trabalho
O brincar d’antes lhe esquece,
Nam he já, o que era ao malho,
Cortese, levese ao talho,
O boy velho, que enfraquece.

71 For example:—

E por muito que os Reys olhem
Vaõ por fora mil inchaços,
Que ante vós Senhor se encolhem
D’uns Gigantes de cem braços
Com que daõ, e com que tolhem.
Quem graça ante el Rey alcança,
E hi falla o que naõ deve,
Mal grande da má privança,
Peçonha na fonte lança,
De que toda a terra beve.
Quem joga onde engano vay,
Em vaõ corre, e torna atrás,
Em vaõ sobre a face cay,
Mal ajaõ as manhas mas
Donde tanto dano say.
Homem de hum só parecer,
D’hum só rostro, huma só fé,
D’antes quebrar, que torcer,
Elle tudo pode ser,
Mas de corte homem naõ he.

72 He says in his fifth epistle:—

Dizem dos nos sos passados
Que os mais naõ sabiam ler,
Eram bons, eram ousados.
Eu nam gabo o nam saber
Como alguns ás graças dados.
Gabo muito os seus custumes
Doeme se oje nam sam tais.
Mas das letras, ou perfumes
De quais veo o dano mais?
Destes mimos Indianos
Ey gram medo a Portugal,
Que venhaõ a fazerlhe os danos.
Que Capua fez a Anibal
Vencedor de tantos annos.
A tempestade espantosa
De Trebia de Trasimeno,
De Canas, Capua viçosa
Venceo em tempo piqueno.

73 The following are the two first stanzas of the Cançaõ à Nossa Senhora.

Virgem fermosa, que achastes a graça
Perdida antes por Eva, onde nam chega
O fraco entendimento chegue a Fé.
Coytada desta nossa vista cega
Que anda apalpando polla nevoa baça,
E busea o que, ante si tendo, nam vé.
Sem saber atinar, como, ou porque,
Entrey pollos perigos
Rodeado de imigos.
Por piedade a vós venho, et por mercé,
Vós que nos destes claro a tanto escuro,
Remedio a tanto mingoa
Me dareis lingua, et coraçaõ seguro.
Virgem toda sem magoa, inteira, et pura,
Sem sombra, nem d’aquella culpa herdada,
Por todos nos, té o fim desdo começo:
Claridade do Sol, nunca turbada,
Sanctissima, et perfeita criatura,
Ante quem de mi fujo, et me aborreço,
Ey medo a quanto fiz, sey que mereço,
Dos meus erros me espanto,
Que me aprouveram tanto
Agora à só lembrança desfalleço.
Mas lembrame porem, que vòs fizestes
Paz entre Deos, et nós,
E a quem por vós chamou sempre a maõ destes.

74

O Ceo, que Eva perdera,
Ouem no lo abria, ficou fora de briga;
Foy he oje entregue a chave,
Foy o nome mudado d’Eva em Ave.

75 The following passage will afford a specimen of the style of this elegy:—

Cordeiro ante o throno alto de Cordeiro,
Lavado irás no teu sangue sem magoa,
O quem como era pay, fora parceiro!
Diz Paulo (da Fé nosso ardente fragoa)
Que para o filho o pay faça thesouro,
Parece natural hum correr d’agoa.
Nam assi aqui perto abaixa o Douro
Ao contrario, no mar se lança escuro,
Mondego, et Tejo das areas d’ouro,
Quanto mais certo contra o imigo duro
Podes, que outrem dizer, vim, vi, venci,
Cerrando, et abrindo a maõ, posto em seguro.
Nam se vejam mais lagrimas aqui
Salvo se por nós forem, que em taes trevas
Em tam cega prisam deixaste assi.
Vayte embora, que ja nam tens que devas
Temer, lá tudo he paz, tudo assossego,
A quem leva o seguro, que tu levas.

76 See the History of Italian Literature, vol. ii. p. 171.

77 Only a short specimen can conveniently be quoted here. In the fifth act of the Estrangeiros a servant who has met with a misfortune in the street calls aloud for justice, and an old man, named Reynaldo, interposes his remarks. Callidio. Regedores, Cidadães, homens de bem, os grandes, et os pequenos todos me acodi, todos me valei que a todos releva, se aqui ha alguma lembrança de liberdade, et justiça.

Reynaldo. Tamanhas duas cousas cuydavas tu d’achar assipollas ruas?

Callidio. No meyo do dia, no meyo de Palermo naõ me ouve ninguem, naõ me acode ninguem.

Reynaldo. Callate ora com teu mal.

Callidio. Que fazem aqui tantas varas de justiça?

Reynaldo. Que riso!

Callidio. Todo o mundo dorme?

Reynaldo. Dormes? tu sonhas? tu tresvalias?

Callidio. Ah cidadães que todos somos escravos.

Reynaldo. Ja vay entrando em seu acordo.-

Callidio. Assi ha isto de passar? Esfoloume, açoutoume, matoume, se me a justiça, naõ acode acaberey de entender que faz cada hum nesta terra o que lhe vem à vontade, e farey tambem o que me a minha mais der que faça.

78 In his dedication of the Estrangeiros to Cardinal Henry, he says:—

A comedia qual he, tal vay, aldeaã e mal ataviada. Esta sò lembranza lhe fiz à partida, que se naõ desculpasse de querer as vezes arremedar Plauto e Terencio, &c.

79 Thus in the Vilhalpandos a young lover discourses with himself in the following way:—

Este meu coraçaõ enlheeyro em que praticas começa entrar comigo, naõ me queria elle pouco ha saltar do peito fóra que a naõ podia eu soffrer? Deixoume elle mais dormir, nem assossegar? Agora que aconteceo de novo, mandouselhe por ventura desculpar alguem, ou chora, et sospira alguem de todos nós senaõ eu como? et tamanha injuria, et tam rezente, podelhe lembra outra nenhuma cousa? Ainda naõ quer, ainda naõ cansa. Em quanto ouve que dar durou o amor, voou a fazenda, voou elle juntamente. Ah, isto he o que pintaõ ao amor com asas, voou, fugio, desappareceo, sem nenhuma lembrança de mim se som vivo se morto. Como? et taõ pouco duro o amor? cuytado de mim, que fazia fundamentos delle pera toda minha vida, assi se põe tudo atras abrindo as maõs et çarrando? &c.

This is not a third part of the soliloquy.

80 From the new edition of the works of Saa de Miranda, which has already been mentioned, it appears that the Portuguese still appreciate the merits of this poet, or rather that his writings have again been restored to favour. But in this new edition the punctuation is as faulty as in Portuguese books of older date; and thus the foreigner experiences additional difficulty in studying a poet whose works, even if correctly printed, would not be very easily understood.

81 Nicolas Antonio and Barbosa Machado are the authorities for the particulars here collected. Dieze has likewise quoted from the above-mentioned writers, the account given in his appendix to Velasquez, p. 86, respecting Gil Vicente, and Paula Vicente, the daughter of the poet.

82 The library of the University of Göttingen contains a copy of this old edition, entitled:—

Compliaçam de todalas obras de Gil Vicente &c.—Empremiose em a muy nobre e sempre leal cidade de Lisboa, anno 1562, in folio.

The complete title may be found in Dieze’s edition of Velasquez, p. 87. The text of the dramas is printed in gothic characters, but the introduction which precedes each piece is printed in the modern roman type. In the dramas themselves the Portuguese and Spanish languages are indiscriminately employed, and though the introductions are chiefly written in Portuguese, some of them are also in Spanish. I know of no later edition of Gil Vicente’s works. Barbosa Machado mentions none of subsequent date. How can the Portuguese public so completely forget an old favourite? Only a few of Gil Vicente’s Autos were printed singly in the seventeenth century.

83 See the History of Spanish Literature, p. 282.

84 He does not merely use the words—“por ser cousa nova;” but he expressly says—“por ser cousa nova em Portugal.”

85 See the History of Spanish Literature, p. 130.

86 The Santa Fè speaks and the peasant Bras (Blas) replies as follows. The old orthography is, with the exception of filling up some contractions, preserved in this and the following passages, quoted from the Autos of Gil Vicente.

Fè. A diuinal claridade
Seja em vosso entendimento
et vos dee conhecimento
de sua natauidade.
Bras. Mas quiem sos vos o quiem seres?
Fè. Pastores eu sam a fee.
Bras. Ablenhuncio satanhe,
Sa nhi fee nho see que ses.
Fè. Fee ha crer o que nam vemos
pella gloria que esperamos,
amar o que nam comprendemos
nem vimos nem conhecemos
pera que saluos sejamos.
Bras. Aora lo entiendo menos.
Rellata esso mas claro,
que perjuro a santo Amaro
que nhi punto os entendemos, &c.

87 The Seraph’s proclamation is in old versos de arte mayor, with the middle and ending lines short:—

Aa feyra, aa feyra y grejas mostreyros,
pastores das almas, papas adormidos
compray aqui panos, muday os vestidos,
buscay as çamarras dos outros primeyros:
os antecesseros,
feiray o caram que trazeis dourado,
oo presidentes do crucificado
lembrayuos da vida dos sanctos pastores
do tempo passado.
Oo principes altos, imperio facundo
guardayuos da yra do Senhor dos ceos,
compray grande soma do temor de Deos
na feyra da Virgem Senhora do mundo,
exemplo da paz.
Pastora dos anjos, luz das estrelas,
aa feyra da Virgem donas et donzelas,
porque este mercados sabey que aqui traz
as cousas mais belas. &c.

88 The Devil speaks as follows:—

Diabo. Hi ha de homens roins
mais mil vezes que nam bõos,
como vos muy bem sentis.
E estes ham de comprar
disto que trago a vender,
que sam artes denganar
et cousas pera esquecer
o que deuiam lembrar:
que o sagaz mercador
ha de leuar ao mercado
o que lhe compram milhor,
porque a roim comprador
leuarlhe roim borcado.

89 She tells, with a humorous simplicity, that her ungrateful husband has robbed her garden of its fruits before they were ripe; that he never does any thing, but leads a sottish life, eating and drinking all day, &c.

Vayseme aas ameyxieyras
antes que sejam maduras,
elle quebra as cereygeyras,
elle vendima as parreyras,
et nam sey que faz das vuas.
Elle nam vay aa laurada,
elle todo dia come,
elle toda noyte dorme,
elle nam faz nunca nada
et sempre me diz que ha fome.
Jesu Jesu, posso te dizer
et jurar, et tresjurar,
et prouar, et reprouar,
et andar, et reuoluer,
que he milhor pera beber
que nam pera maridar.
O demo que o fez marido!
que assi seco como he
beberaa a torre da see,
entam arma hum arroydo
assi debayxo do pee.

90 The words Aquella he a minha froxa have a very comic effect in the original Portuguese from the way in which they are introduced.

91

Faço te Duque e meu capitaõ
Dos reynos de mundo até sua fim;

Says Lucifer to Satan.

92 It is a Vilancete resembling the Spanish Villancicos.

Adoray montanhas
o Deos das alturas;
tambem as verduras
Adoray, desertos
et serras floridas,
o Deos dos secretos
o Senhor das vidas.
Ribeyras crecidas,
louuay nas alturas
Deos das criaturas.
Louuay aruoredos
de fruto prezado;
digam os penedos
Deos seja louuado.
E louue meu gado
nestas verduras
o Deos das alturas.

93 The word Floresta has a two-fold meaning. In Portuguese it usually signifies a flower garden or a park. In Spanish it also bears the meaning of the Italian Foresta. Gil Vicente so frequently confounds Spanish and Portuguese together, that in the present instance it is necessary to guess the meaning he wishes to attach to the word Floresta, which seems to be that of a flower garden.

94 Both converse in Spanish in the following extract.

Filosofo. Y porque la reprehension
a todos es enojosa,
me vi en grande passion
y me hecharon en prision
eu carcel muy tenebrosa.
No basto, mas en depua
de questo que oydo aueis,
solo por esto que digo
ataron ansi comigo
esto bono que aqui veis.
Que lo trayga desta suerte
al comer y al cenar
al dormir y platicar
esto sopena de muerte
que no lo pueda dexar
hasta el morir.
Parvo. Has te dir.
Filo. Nome dexaraas dezir
la causa que me ha traido.
Par. Hasta la mañana.
Filo. Dexame oraser oydo
desta gente cortesana. &c.

95 See the History of Spanish Literature, p. 368.

96 The usual titles with which the demons address the pious necromancer, are “Thief” and “Blackguard.”

97 The following is a specimen selected from a long nautical scene of this kind. It is not necessary to quote the names of the characters at length.

Pilo. Aa verdade este vento
entra muy indiabrado.
Mari. Vos piloto sois aazado
pera perder logo o tento.
E mais noyte tam escura.
Pilo. Que quereis vos Fernam Vaz
no mal que o inuerno faz
tenho en culpa per ventura.
Mari. Quee, et vos chorais antora.
Pilo. Oo virgem da luz senhora
sam Jorge, sam Nicolao.
Mari. Acudi eramaa aa nao
et leyxay os sanctos agora:
Si quer manday amaynar
ameyomasto essa vella
et aa mezena colhella
et huma vez segurar.
Apit. Py py py.
Gru. Adees?
Pilo. Amayna amayna a mezena.
Gri. Praz.
Af. haam.
Gri. mezena.
Pilo. Amaynay essa mezena.
Gri. Que amaynemos a mezena?
Pilo. Acudi ali todos tres.
Gri. E eu tambem yrey la?
Affò. E eu yrey la tambem.
Pilo. Oo pesar de Santarem
o demo vos trouxeca. &c.

98 Hence in both languages the word farsante or farçante is a general term, signifying a comedian.

99

Apariço. He o demo que me tome,
mortemos ambos de fome
et de lazeyra todo anno.
Ordonho. Con quien biue?
Apa. que sey eu?
viue assi per hi pelado
como podengo escaldado.
Ordo. De que sirue?
Apa. De sanden,
Pentear et jejuar
todo dia sem comer,
cantar et sempre tanger
sospirar et bocijar.
Sempre anda falando soo,
faz humas trouas tam frias
tam sem graça, tam vazias
que he cousa pera auer doo. &c.

100 In this extract the reader will perceive the manner in which the old Portuguese orthography represented first, the barking, and secondly, the howling of dogs. Each forms a rhyme in the place in which it occurs:—

Escu. Senhora, isso do cabo
medizey ante que esqueça.
Mais resguardado estaa qui
o meu grande amor feruente.
Que tendes? hum pee dormente,
oo que gram bem pera mi.
Hi hi hi, de que me rio?
riome de mil cousinhas
nam ja vossas senam minhas,
Apa. Olhay aquelle desuario.
Cães. Ham ham ham ham.
Escu. Nam ouço com a cainçada.
rapaz dalhe huma pedrada
ou fartos eramaa de pam.
Apariço.
Co os pedras os ajude Deos.
Cães. Ham ham ham ham.
Escu. Pesar nam de Deos cos cães.
rapazes nam lhes daes vos?
Senhora nam ouço nada,
doume oo demo que me leue.
Apa. Toda esta pedra he tam leue.
tomay la esta seyxada.
Cães. Hãy hãy hãy hãy.
Apa. Perdoay me vos Senhor.
Escu. Ora o fizeste peor
aa pesar de minha mãy. &c.

101 The old woman begins thus:—

Velha.
Rogo aa Virgem Maria
que quem me fazer guer da cama
que maa cama et maa dama
et maa lama negra et fria.
Maa mazela et maa courela
mao regato et mao ribeyro
mao siluado et mao outeyro
maa carreyra et maa portela.
Mao cortiço et mao somiço
maos lobos et maos lagartos
nunca de pam sejam fartos
mao criado, mao seruiço.

These burlesque antitheses are continued in the same style throughout a whole page.

102 Mais quero asno que me leve, que cavallo que me derrube.

103 The following passage is selected from one of the most burlesque scenes. Pero Marquez, the simpleton suitor, takes his seat next his mistress with his back turned towards her. He is about to produce some pears, which he intended to present to her in complimentary allusion to her name, for Pereyra in Portuguese signifies a pear tree. The lover has, however, lost the destined present:—

Per. Mais gado tenho eu ja quanto,
et o mayor de todo a gado
digo mayor algum tanto,
E desejo ser casado.
Prouguesse ao Spiritu santo,
com Ines, que eu mespanto
quem me fez seu namorado.
Parece moça de bem
et eu de bem er tambem.
ora vos er yde rendo
se lhe vem milhor ninguem.
a segundo o que eu entendo.
Cuydo que lhe trago aqui
peras da minha pereyra;
ham destar na derradeyra.
Tende ora Inez per hi.
Ines. Eysso ey de ter na maõ?
Pero. Deitay as peras no cham.
Ines. As perlas pera infiar
tres chocalhos et hum nouelo
et as peas no capelo
et as peras onde estam?
Per. Nunca tal me aconteceo.
Algum rapaz mas comeo,
que as meti no capelo,
et ficou aqui o nouelo
et o pentem nam se perdeo:
pois trazias de boa mente. &c.

104 The following is the whole of the stanza:—

A OS BONS ENGENHOS.

A vòs sò canto, spritos bem nascidos,
A vòs, e às Musas, offreço a lyra,
A o Amor meus ays e me us genuidos,
Compostos do seu fogo e da sua ira.
Em vossos peitos saõs, limpos ouvidos
Cayaõ meus versos, quas me Phebo inspira.
En desta gloria sò fico contente,
Que a minha terra amei, e a minha gente.

105 The biographical sketch here given is collected from the well written Vida do Doutor Antonio Ferreira, prefixed to the new edition of Ferreira’s Poemas Lusitanos, Lisboa, 1771, in 2 volumes octavo. This edition, though not remarkable for elegance, is printed with tolerable correctness, and contains also the author’s dramas. Notices extracted from Nicolas Antonio and Barbosa Machado, respecting the older editions of Ferreira’s works, may be found in Dieze’s Remarks on Velasquez.

106 Ferreira in scanning, avails himself of the peculiarity of the Portuguese diphthongs, in order to omit at pleasure, as in latin verse, the m at the termination of words; for the Portuguese m in that situation is not an alphabetic character, but merely denotes the nasal sound which may also be marked by a circumflex over the diphthongs according to the fancy of the writer. Ferreira, for example, thus scans a line in his beautiful elegy on spring:—

Huns s’ou | vem, huns | nos tron | cos fi | cam escri | tos.

Here the m in the word ouvem concludes a metrical syllable, which it does not in the word ficam.

107 Poemas Lusitanos is a title which in the sixteenth century no Portuguese poet except Ferreira would have applied to his writings. The word Poema has never been received into the language of common life in Portugal.

108 Manuel de Faria y Sousa in his preface to the 4th vol. of the Fuente de Aganippe, alluding to Ferreira’s eclogues, says, they are written con perdurable dureza y poca dicha en pensamientos y afectos (with tedious frigidity and but little happiness of thought and sentiment.) As far as regards the eclogues, this observation is not altogether erroneous; but in general Faria y Sousa was by no means competent to pronounce an opinion on Ferreira’s works. See History of Spanish Literature, p. 428.

109

A primeira ley minha he, que de mim
Primeiro me guarde eu, e a mim naõ crea,
Nem os que levemente se me rim;
Conheça-me a mim mesmo: figa a vea
Natural, naõ forçada: o juizo quero
De quem com juizo, e sem paixaõ me lea.
Na boa imitaçaõ, e uso, que o féro
Ingenho abranda, ao inculto dá arte,
No conselho do amigo douto espero.
Das Cartas Livr. I. Carta 12.

110 For instance the following:—

Quando entoar começo com voz branda
Vosso nome d’amor, doce, e suave,
A terra, o mar, vento, agoa, flor, folha, ave
Ao brando som s’alegra, move, e abranda.
Nem nuvem cobre o Ceo, nam na gente anda
Trabalhoso cuidado, ou peso grave.
Nova cor toma o Sol, ou se erga, ou lave
No claro Tejo e nova luz nos manda.
Tudo se ri, se alegra, e reverdece.
Todo Mundo parece que renova,
Nem ha triste planeta, ou dura sorte.
A minh’ alma sò chora, e se entristece.
Maravilha d’Amor cruel, e nova!
O que a todos traz vida, a mim traz morte.

111 One sonnet commences with an association of ideas of this fantastic kind:—

Quem vio neve queimar? Quem vio tam frio
Hum fogo, de que eu arço? &c.

112 These sonnets please, by the beauty of expression, even when the thoughts are unimportant, for instance:—

Nimphas do claro Almonda, em cujo seo
Nasceo, e se eriou a alma divina,
Qu’ hun tempo andou dos Ceos ea peregrina,
Ja lá tornou mais rica, do que veo;
Maria, da virtude firme esteo,
Alma sancta, Real, de imperio dina
A baiyeza deixou, de qu’ era indina,
Ficou sem ella o Mundo escuro, e feo.
Nimphas, que tam pouco ha qu’ os bõs amores
Nossos cantastes cheas de alegria,
Chorai a vossa perda, e minha mágoa.
Naõ se cante entre vós jà, nem se ria,
Nem dè o monte herva, nem o prado flores,
Nem dessa fonte mais corra clara agoa.

113 An imitation of the Odi profanum vulgus forms also the overture to Ferreira’s odes. His first ode commences thus:—

Fuja daqui o odioso
Profano vulgo! Eu canto
A brandas Musas, a huns spritos dados
Dos Ceos ao novo canto
Heroico; &c.

114 In an ode A os principes D. Joaõ e a D. Joana, every stanza commences with the following pompous words:—

Vivey felices, pios, vencedores!

115 As for instance in the following passage:—

Naõ teme, naõ espera,
Naõ pende da fortuna, ou vaõs cuidados
A consciencia pura
E assi naõ desespera
De chegar aos bons dias esperados
Tam léda, et tam segura,
Que o Mundo desprezando
Consigo se enriquece, e mais descansa
De si tam satisfeita,
Que em si se está prezando
De desprezar o porque o Mundo cansa.
De ver que ella a direita
Via seguindo vay
A virtude levandosó por guia.
Naõ torce, naõ duvida,
Já mais della se fay,
Por mais qu’ o Mundo della se desvia.

116 See the History of Spanish Literature, p. 240.