Emquanto ás festas propriamente, creio que foram mediocres—sobretudo as festas exteriores e de rua. O francez nunca teve o genio decorativo—nem soube a arte sumptuosa de organisar uma gala. Esse dom pertence ao italiano. O francez só é habil em ornamentar um salão—ainda que ultimamente o classicismo, que é um dos feitios da sua intelligencia, o tenha immobilisado em dous generos que repete monotonamente, infinitamente: o Luis XV e Henrique II. Em todo o caso, possue grandemente a sciencia das luzes e das flores. E todas estas festas realisadas em salão, os banquetes, os bailes, a gala da Opera (que é um salão) tiveram muito requinte e muito brilho. Nas ruas o esforço inventivo não passou de algumas bandeiras tricolores, fixadas nas varandas, ao lado do pavilhão amarello com a aguia negra de duas cabeças.

A rua da Paz offerecia uma decoração de mastros de navios, com vergas, o velame apanhido, e flammulas no topo, que a assemelhava a uma linda doca de opera comica. A rua Quatro de Setembro, com o seu lango toldo de lanternas chinezas, lembrava uma rua de Cantão, em noite de devoção buddhista.

As festas, além d'isso, foram muito accumuladas. Todas as instituições, corporações, associações, clubs, armazens, queriam anciosemente honrar os russos;—e houve tal dia pavoroso em que o almirante Avelane e os seus officiaes foram forçados a partilhar de tres almoços, quatro lunchs, dous jantares e cinco ceias! Apenas acabavam aqui de engulir o café, tinham de saltar á pressa para dentro das carruagens para ir além recomeçar a sopa. É grave pensar que estes homens innocentes tiveram de comer oito e dez vezes, por dia, salmão á russa ou codorniz trufada. E como n'estas agapes de alliança o acto importante eram os toasts, as saudações de confraternidade e de reverencia pelo Czar, não é menos grave considerar que a cada um d'esses marinheiros fortes, coube, durante o seu dia, esgotar de setenta a oitenta copos de champagne.

Emfim, se já no tempo de Henrique IV Pariz valia uma missa, não ha duvida que agora, com todos os progressos de tres seculos, vale bem uma dyspepsia.

Mas as festas foram talvez menos deslumbrantes, por causa das casacas pretas do governo. O Estado em França, como republicano que é, não, tem uniforme, e nas grandes festas officiaes é obrigado a apparecer de casaca e gravata branca como os escudeiros que servem o punch. Este inconveniente, tão consideravel n'um paiz habituado ha oito seculos ao esplendor sumptuario da monarchia, nunca resaltou tanto, nem se tornou tão patente, como agora n'estas festas, que eram sobretudo militares. Em meio das fardas, dos penachos, dos bordados, das couraças, dos ouros, das amas ricas—alguns sujeitos circulavam, encafuacos, mesmo de dia, sob o esplendor do sol, em sinistras casacas negras. Quem eram? Os ministros, o governo, o Estado, a França. Ahi está a que chegára a sêda branca recamada a pérolas dos Valois, o velludo bordado, e os laços floridos, e os diamantes, e os altos empoados dos Bourbons, e as fardas faiscantes dos Napoleões: a uma casaca de panno preto, quasi sempre mal feita, como a de um creado de copa ou de um servente de enterro!

Todo Pariz sentiu e soffreu a humilhação d'esta pelintrice official. E jornaes serios, em artigos serios, lembram a necessidade de que se estabeleça para os presidentes das camaras, para os ministros (os tres poderes do Estado) um uniforme, nobre e severo, que lhes dê prestigio—esse prestigio material e exterior, que para um povo amigo da arte e da belleza das fórmas, é talvez o mais persuasivo e duravel. Isto é extremamente sensato. É necessario que o poder inspire sempre o summo respeito. Ora, entre dous chefes de Estado—um revestido de uma couraça rutilante, com um capacete emplumado, o outro mettido dentro de um paletot negro, com um chapéo côco—o respeito instinctivo da multidão impressionavel vae para o guerreiro da bella couraça, e não para o sujeito do côco triste. Pelo menos para elle vão os olhares das mulheres—e logo portanto atraz, por uma lei natural, a consideração dos homens. Os philosophos, está claro não regulam a força moral e o valor por estas exterioridades. A pompa toda de Alexandre não conseguiu impressionar Diogenes. Mas a turba não se compõe de philosophos—e para ella perpetuamente a magnificencia solemne será a prova real do poder.

Mas que uniforme se deverá impôr ao snr. Carnot? Não sei. Evidentemente não deverá ser o fato de Luiz XV, de setim branco, e o manto de papo de tucano, que o imperador do Brazil por vezes revestia—e de que elle proprio se ria tão alegremente. Mas é bom que não continue a ser essa lamentavel casaca civil, envergada logo de manhã á luz ironica do sol, de que o imperador tanto gostava e que tanto o prejudicou.

E já que, atravez de fardas e casacas, vim a recordar o Brazil, como não alludir discretamente ao grande silencio que subitamente se fez em França sobre a revolta que o agita? Apesar de atulhados com as narrações das festas, e com a Russia (que é volumosa), os jornaes de Pariz ainda assim reservam sempre algumas linhas, vinte ou trinta, aos casos curiosos do mundo.

Debalde, porém, se procura agora uma noticia, mesmo falsa, sobre o Brazil. Nada! É como se o almirante Mello e os seus couraçados se tivessem sumido para sempre nas brumas atlanticas. Que digo? É como se o Brazil tivesse desapparecido—ou antes tivesse entrado n'aquella era de felicidade, classicamente conhecida, em que os povos deixam de ter historia. E assim parece ser, pois que o unico rastro do Brazil se encontra n'algum boletim financeiro, onde se dizem os saccos de café vendido, e a indicação dos cambios. E até este mesmo cambio, outr'ora tão agitado, nos apparece agora cheio de quietação e repouso...

Un silence parfait régne dans cette histoire—como diz Musset. É de bom prenuncio este silencio, é de mau prenuncio? Em todo caso, é unico na historia das revoluções. Havia tiros, sangue, colera, tumulto. De repente tudo se cala, tudo se some—e aqui ficamos na Europa boquiabertos, deante de uma forte revolta que se esvaiu no ar, como uma visão de magica. Onde estão os couraçados? onde estão os fortes? onde estão os regimentos? Não ha nada—não se entrevê um vulto, não se escuta um rumor.

De certo ahi, no Rio, se estimaria saber a impressão que se tem aqui em Pariz d'essa lucta desoladora. Pois a impressão é esta, não outra, ha uma longa, vagarosa semana. O pasmo deante de uma cousa real e terrivel, que troava e flammejava, e que de repente desapparece, se funde na mudez e na sombra. E aqui estamos espantados, arregalando os olhos para o Brazil—tendo apenas a vaga consciencia de que lá se continúa pacificamente a vender café.


XI. A HESPANHA-O HEROISMO HESPANHOL-A QUESTÃO DAS CAROLINAS-OS ACONTECIMENTOS DE MARROCOS.

O «Theatro dos Acontecimentos» (como outr'ora se dizia) que é de certo um theatro ambulante, atravessou os Pyreneus—e é agora de Hespanha que nos chegam esses echos com que se faz historia. Isto desde logo garante que elles devem ser interessantes—porque de Hespanha nada póde vir que seja mesquinho ou banal, a não ser por vezes versos e discursos.

A Hespanha é hoje, na Europa, a ultima nação heroica;—pelo menos é a ultima onde os homens, publicamente, e nas cousas publicas, se comportam com aquella arrogancia, e bravura estridente, e magnifica imprudencia, e soberba indifferença pela vida, e desdem idealista de todos os interesses, e promptidão no sacrificio, que constituem, ou nos parecem constituir, o typo heroico (porque nem os diccionarios nem as psychologias estão bem d'accordo sobre o que é um heroe).

Assim, eu não creio, por exemplo, que haja nada mais hespanhol, e que se nos afigure mais heroico, do que o attentado contra o marechal Martinez Campos. O velho general está passando uma revista n'uma praça de Barcelona, cercado de officiaes e de populares, que em Hespanha se misturam sempre familiarmente aos estados-maiores. De repente um rapazola de vinte annos, um anarchista, atravessa o grupo, desata tranquillamente, e de cigarro na bocca, as pontas de uma pequena trouxa, e atira sobre o marechal uma bomba de dynamite. Ha uma horrenda explosão, uma nuvem de pó e de estilhas, gritos, todo a tropel e tumulto de uma catastrophe. Mas uma grande voz resôa, uma voz de commando, serena e quasi risonha. É Martinez Campos, de pé, coberto de sangue, que brada com a mão no ar:—No és nada, no és nada!! O seu cavallo jazia despedaçado n'uma poça de sangue. Em torno, no chão escavado pela bomba, estão cahidos uns poucos de officiaes e de populares, mortos ou terrivelmente feridos e gemendo. O marechal tem a farda em farrapos, de onde pinga sangue. E, todavia, indignado que se erga tanto alarido por causa de uma bomba, continua a encolher os hombros, a gritar:—Pero si no és nada, hombre, si no és nada!

Mais adeante sôa outro grito ainda mais alto. É o do rapazola, do anarchista, que agita o bonnet, berra em triumpho:—Fui eu! Fui eu! Tem vinte annos, acaba de commetter um crime que o levará á forca, e está ancioso por que todos saibam que foi elle, só elle! Não vá outro ser preso, roubar-lhe alli deante do povo, deante de todas aquellas mulheres, a gloria do seu feito anarchista! Atravez do terror, da confusão, podia fugir. Mas quê! perder todo o prestigio que lhe cabe pela sua façanha? Não! Por isso bate no peito, chama os gendarmes, brada: Fui eu! Fui eu! E quando o prendem, vae pelas ruas, já de mãos amarradas, clamando ainda com orgulho para as janellas cheias de gente que fôra elle, só elle!

Ao mesmo tempo, por outra rua, vae o velho marechal, em braços, meio desmaiado, continuando a sorrir e a affirmar que no és nada, que no és nada!

O quadro é admiravelmente hespanhol—e só póde ser hespanhol.

O hespanhol é heroicamente bravo; mas outras raças, o inglez, o russo, o francez, possuem esse heroismo especial que consiste em soltar um grito, florear a espada, e correr soberbamente para a morte. Onde o hespanhol se mostra unico, é no desprendimento com que sacrifica todos os interesses, desde que se trate da honra da Hespanha, ou do que elle pensa momentaneamente ser a honra da Hespanha. Ahi invariavelmente reapparece o sublime D. Quixote.

E tanto mais heroicamente que ao hespanhol não faltam o raciocinio, e a prudencia, e o claro sentimento da realidade, e o amor dos bens accumulados, e mesmo um certo egoismo pachorrento—como superiormente o prova Sancho Pança. Mas conhecendo e pesando bem o que vae perder—marcha jovialmente e tudo perde com enthusiasmo, porque se trata da sua patria.

Não ha na alma hespanhola sentimento mais poderoso que este de patria. Os cafés de Madrid, ou de Sevilha, estão atulhados todas as noites de descontentes, que maldizem da cousa publica, e berram, emborcando largos copos d'agua e aniz, que em Hespanha tudo vae mal e que a Hespanha está perdida! Mas que alguem de fóra passe e atire uma pedra á terra de Hespanha, ou finja simplesmente que atira a pedra—e todo esse povaréo se ergue, e ruge, e quer matar, e quer morrer, para vingar não só a pedrada, mas o gesto.

O hespanhol, com effeito, apesar de que tanto resmunga nos botequins, tem uma ideia immensa da sua terra. Basta testemunhar a maneira ardente e ovante como elle pronuncia mi terra! Para elle a Hespanha é a maior das nações—pela força e pelo genio.

Ha aqui certamente um orgulho tradicional, hereditario, vindo dos seculos de dominação e de verdadeira superioridade. Muito bom hespanhol vive ainda, por uma illusão magnifica, na Hespanha do passado, e não se compenetrou da decadencia, e ainda pensa que os regimentos de Madrid são os velhos e temerosos terços de Carlos V, e que qualquer piloto do Ferrol ou de Carthagena poderia redescobrir as Indias, e que cada novo romancista continua Cervantes, e cada pintor sevilhano ressuscita Murillo. Mas além d'este habito de se sentir grande, natural de resto n'uma raça que chegou a dominar o mundo e que deu a humanidade algumas das suas almas mais fortes e dos seus genios mais profundos, ha ainda no hespanhol um amor prodigioso pela terra de Hespanha, pelo torrão que os seus pés calcam pelo monte e pela planicie, pelas cidades ou pelas aldeias que ahi se erguem, por cada tufo de cardo que brota entre cada rocha. O inglez, outro grande patriota, ama ardentemente e exclusivamente a civilisação que creou na sua ilha, e as suas instituições, e os seus costumes:—mas não tem nenhum enthusiasmo pela ilha, ella propria, que abandona mesmo com facilidade e prazer. E comtanto que leve para a Italia, ou para outro clima doce, a sua cosinha, os seus sports, os seus jornaes, as suas distincções sociaes e o seu club, prefere sempre a suavidade d'um ar luminoso aos asperos nevoeiros do seu sombrio Norte. Por isso emigra, e vae fundando em solos mais amenos que o seu uma correnteza infinita de pequenas Inglaterras. Para o inglez a patria é uma entidade social e moral. Para o hespanhol a patria é o bocado de terra que os seus olhos abrangem, e que elle ama como se ama uma mulher, com um amor ciumento e carnal. Esse amor cria n'elle naturalmente a illusão:—e o manchego e o navarro, que habitam duas das mais feias e tristes regiões da terra, não as trocariam pelo Paraizo, porque nada lhes parece realmente tão formoso e radiante como a Mancha ou a Navarra. Eu já vi um homem, e muito intelligente, que era de Merida (um dos mais lugubres buracos do mundo), declarar, muito sériamente e convicto, que Pariz, como monumentos, e interesse, e brilho, no valia Merida! De resto, quem não tem ouvido hespanhoes, muito cultos, muito viajados, preferirem candidamente qualquer Merida sua a Roma ou a Londres, e considerar tal politiquete da sua provincia maior que Gladstone e Bismarck, e achar em certo folhetim publicado n'um jornal de Andaluzia mais genio que em toda a obra de Hugo? A isto se chama ordinariamente a exageração hespanhola. Não! É apenas a candida illusão de um patriotismo transcendente.

Considerando assim a sua patria, tão formosa, tão grande, tão forte, tão genial, e prestando-lhe um culto como á verdadeira e unica divindade, como não ha-de o hespanhol exaltar-se até ao tresloucamento, quando a suppõe ultrajada? Para elle uma offensa á Hespanha é um sacrilegio, e tem então o santo furor de um devoto que visse alguem cuspir n'um crucifixo. Para castigar a profanação abominavel, fará com enthusiasmo todos os sacrificios, e logo immediatamente o da vida.

Todos se lembram ainda da famosa «questão das Carolinas». Uma manhã, Madrid sabe que, muito longe, em mares remotos, um official allemão plantára n'umas certas ilhas vagamente hespanholas, e chamadas Carolinas, a bandeira allemã. Ninguem em Madrid conhecia a existencia das Carolinas, nem a geographia das Carolinas. Mas os jornaes contavam que a Hespanha fôra offendida:—e Madrid inteiro, todas as classes e todas as edades, fidalgos, carreteiros, toureiros, padres, magistrados, velhos, creanças de escola, senhoras e servas, tudo correu para praticar o acto mais immediato e mais urgente: ultrajar a bandeira allemã, matar o embaixador allemão, arrasar o edificio da embaixada da Allemanha. E depois a guerra! Uma guerra implacavel, toda a Hespanha em armas, cahindo sobre a Allemanha! Não havia tropas? cada homem seria um soldado! Não havia armas? cada um tomaria o seu cajado ou a sua navalha! Não havia dinheiro? as mulheres empenhariam até a cruz do pescoço. E atravez d'este delirio, ninguem ainda percebia onde eram as Carolinas. Tambem, na primeira Cruzada, quando as multidões, povos inteiros, partiam a vingar a offensa feita pelo turco ao sepulchro do Senhor, ninguem sabia onde era Jerusalem...

Foram dous dias sublimes, esses de Madrid. O velho Bismarck, attonito e aturdido, recuou, mandou retirar a bandeira allemã das Carolinas, appellou para o papa... A Allemanha realmente, perante aquella explosão magnifica da velha alma castelhana, empallidecera. E a Hespanha sahiu da aventura mais engrandecida, mais consciente da sua grandeza, e cercada das admirações do mundo. É que nada se impõe aos homens como a affirmação heroica de um sentimento justo.

Pois agora vae talvez succeder uma egual aventura. A Hespanha foi ferida no seu patriotismo e no seu orgulho. A offensa não veiu de europeus, mas de africanos. É, porém, indifferente para a Hespanha que o sacrilego seja forte ou fraco, civilisado ou barbaro. Houve o sacrilegio, isto é, houve um ultraje á bandeira da Hespanha, e, portanto, ás armas e guerra implacavel!

A Hespanha possue no norte da Africa, além de Tetuan, de Ceuta e de outros pontos fortificados, uma pequena cidade pouco maior que uma cidadella, que se chama Melilla. Em torno ha, como em todas as outras possessões, uma zona de cultura, defendida por trincheiras e fortes. E para além são serranias povoadas por tribus mouriscas, a que se dá o nome generico de mouros do Riff, ou Riffenhos.

Os mouros naturalmente odeiam os hespanhoes, seus inimigos hereditarios, com o odio de raça e com o odio de religião:—e os hespanhoes estão alli portanto n'um permanente estado de defeza. Ultimamente, depois de vagas questões que tinham surgido entre hespanhoes e mouros na feira visinha de Frejana, as tribus riffenhas mostraram uma agitação tão visivelmente hostil, que o governador de Melilla, general Margallo, mandou reforçar as obras de defeza em torno da zona cultivada, e construir, n'um certo ponto mais aberto, um forte.

Ora, justamente n'esse sitio, existia um antigo cemiterio mourisco. Nada ha mais sagrado para o mussulmano do que um cemiterio, porque não só ahi repousam os mortos, mas ahi vêm orar e meditar, estudar e celebrar assembleias, e mesmo celebrar festas, os vivos. O cemiterio, no mundo mahometano, constitue o verdadeiro centro de piedade e de convivencia.

Os mouros do Riff representaram pois ao general Margallo que aquelle forte, n'aquelle sitio, vinha dominar e devassar o seu cemiterio—e constituia portanto uma invasão material e moral do seu territorio. Foi por um motivo identico, por causa da famosa torre Antonia, que sobrepujava e devassava o templo de Jerusalem, que os judeus tantas vezes se sublevaram sob a dominação romana. O general hespanhol respondeu, (como costumava responder o proconsul romano) que, dentro da sua zona, elle tinha o absoluto direito de erguer todos os fortes que julgasse necessarios á sua segurança. E mandou construir a obra. Os mouros de noite desceram das alturas e destruiram a obra. Com a costumada teima hespanhola, em logar de conciliar, de escutar razoes que eram attendiveis, porque nasciam de um sentimento religioso, o general Margallo ordenou a reconstrucção do forte. Os riffenhos desceram mais numerosos e redestruiram o forte. Diabo! não se podia continuar assim, em plena mourama, esta teia de Penelope tecida ao sol, desmanchada ao luar. O general Margallo recomeçou as obras e collocou-as sob a protecção de um destacamento de sessenta soldados. Os mouros immediatamente soaram o alarme atravez dos aduares, baixaram e desmantelaram as obras e atacaram o destacamento. Tinha corrido sangue: era a guerra.

O que depois occorreu, não está ainda bem aclarado. O general Margallo, sem esperar reforços, fez, com a sua pequena guarnição de recrutas, para castigar as tribus, uma sortida temeraria—que resultou numa tremenda derrota dos hespanhoes (apesar da bravura esplendida com que se bateram) e na morte do proprio general Margallo, varado, logo no começo da acção, por tres balas. Entre os officiaes gravemente feridos havia um infante de Bourbon. Os mouros tinham capturado dous canhões e uma bandeira—que os hespanhoes retomaram.

Quando o desastre se soube em Madrid, foi outro «dia das Carolinas». Madrid inteiro correu ao palacio, aos ministerios, gritando por vingança e guerra. Todo o homem valido se quiz alistar como voluntario. Para que não faltasse dinheiro (e o governo não o tem), o banco de Hespanha offereceu oitenta milhões, as grandes casas fidalgas prometteram largos donativos, as proprias egrejas desejavam dar as suas alfaias. A Hespanha toda rompeu n'uma outra das suas sublimes explosões de patriotismo. O reisinho, que tem sete annos, cercado no passeio do Prado por uma immensa multidão que o acclamava, ergueu-se de pé, no assento da carruagem, largou a gritar: Vamos todos a matar los moros! Foi um delirio. E a Hespanha, enthusiasmada, lá vae para a guerra!

E em que momento ella vem! Quando a Hespanha, muito pacientemente, com um esforço em que tambem havia heroismo, estava reconstruindo, dia a dia, migalha a migalha, as suas finanças arrasadas. A guerra é a ruina—porque as tribus do Riff podem pôr em armas sessenta mil homens aguerridos, de incomparavel bravura, com espingardas Remington, e tendo por couto as suas serranias inaccessiveis. Para vencer esta formidavel guerrilha—é necessario uma expedição pelo menos de trinta mil homens, que têm de ser alimentados de Hespanha, porque no Riff só ha areaes. São as finanças hespanholas desorganisadas por infinitos annos. É ainda o perigo de complicações europêas, porque a Hespanha será forçada a penetrar no territorio de Marrocos (os mouros do Riff são subditos do sultão de Marrocos), e ahi encontra a opposição da Inglaterra, da França, da Italia, que têm todas tres pretensões, por motivos de fronteiras coloniaes, ou por motivos de dominação estrategica no Mediterraneo, a esse vasto e rico sultanato. A questão de Marrocos substituiu hoje na Europa, pelos seus perigos, a antiga e classica questão do Oriente.

Lord Salisbury affirmava ainda ha pouco que, se a paz do mundo viesse a ser quebrada, seria de certo por causa d'esse terrivel Marrocos. E a Inglaterra já tem em Gibraltar, deante das costas da Africa, á cautela, uma grossa esquadra de couraçados. Assim a Hespanha arrasa as suas finanças, e arrisca uma medonha guerra europêa. Mas que lhe importa? Foram mortos officiaes hespanhoes, foi ultrajada a bandeira de Hespanha—e ella vende as alfaias dos seus templos, e marcha sublimemente.

Eu pelo menos acho sublime este patriotismo vehemente, todo este nobre arranque. Heroica Hespanha! Deus lhe dê ventura! Ainda que os mouros do Riff, com o seu piedoso amor pelo seu velho cemiterio, não deixam de ser interessantes...

E assim, em pleno seculo XIX, temos de novo, como no Romancero, a Cruz contra o Crescente, e a Hespanha na sua antiga e laboriosa occupação de matar los moros.


XII. O SNR. BARTHOU-A «ANTIGONE» DE SOPHOCLES-«LES ROIS» DE JULES LEMAITRE.

Houve em França subitamente uma queda, ou antes um desconjunctamento de ministerio. Os ministros, que eram uns de substancia radical e outros de substancia conservadora, estavam mal grudados. O calor das primeiras discussões, na camara nova, descollou estes pedaços heterogeneos de poder executivo. Immediatamente porém se manufacturou outro governo. E a unica feição d'esta crise, digna de ficar nas chronicas, foi o ter apparecido de repente, e por motivo d'ella, um homem de Plutarcho.

Este homem é o snr. Barthou.

É necessario reter este nome—Barthou—porque elle representa um justo. A Biblia diria «vaso de eleição»; mas esta imagem é arriscada e dá logar a equivocos lamentaveis, quando se trata de homens e de cousas parlamentares.

Quem é o snr. Barthou?

Um politico, e portanto um ambicioso. Além d'isso um intelligente e um ardente.

E que fez o snr. Barthou?

O snr. Barthou realisou um feito sem precedentes na historia constitucional:—convidado, n'esta nova organisação de ministerio, para secretario de Estado das colonias, recusou.

E recusou por um motivo que o eleva justamente a essas alturas moraes em que Plutarcho se começa a enthusiasmar. O snr. Barthou recusou, porque (segundo disse) «não estava habilitado, nem pelos seus estudos anteriores, nem pela experiencia, a tomar conta d'essas funcções». Conhecem alguma resolução mais heroica? Eu não conheço. Um politico de profissão, um ambicioso que se nega a entrar n'um ministerio por não se considerar competente, nem theorica, nem experimentalmente, para gerir um certo ramo da administração—é verdadeiramente prodigioso! E nós todos os que nascemos sob o regimen das cartas constitucionaes, não podiamos realmente suppôr que existisse algures, n'esta Europa politica e parlamentar, um bacharel que sinceramente se julgasse inapto para governar, do fundo do seu gabinete, fumando a cigarette do poder, as colonias do seu paiz!

No antigo regimen de direito divino, frequentemente se viu ser chamado um cabelleireiro para salvar as finanças do reino. Mas, n'esses tempos deliciosos, tudo dependia do bel-prazer de El-Rei. Ás vezes o cabelleireiro, mostrando os seus pentes, confessava aterrado a sua incompetencia. El-Rei porém mandava—e o cabelleireiro, com as mãos ainda gordurentas das pomadas, tomava conta do thesouro real. Quando Filippe II de Hespanha deu ao duque de Medina-Sidonia o commando da Grande Armada, que partia a conquistar a Inglaterra—o pobre duque escreveu ao seu rei e senhor uma carta desolada, em que lhe dizia que estava velho e cheio de achaques, que enjoava horrivelmente no mar, e que não sabia commandar uma frota!... Filippe II franziu o sobr'olho e ordenou ao duque que embarcasse. O desgraçado lá embarcou, já enjoado—e todos sabem a boa conta que elle deu da Grande Armada. Para evitar esta deploravel confusão das profissões—se fez a revolução de 89. E d'ella surgiu então essa classe de politicos, possuidores de aptidões universaes e de sciencia universal. Todo aquelle que, por gosto ou necessidade, se incorporava n'essa classe, parecia receber logo do Espirito Santo o dom de tudo conhecer e de tudo poder. O medico largava as suas lancetas e ia, absolutamente seguro da propria capacidade, confeccionar codigos. O folhetinista arrojava a penna, empolgava a espada, e lá partia, com uma soberba confiança, para o ministerio da guerra a reorganisar os exercitos. Nenhum jámais hesitára. E tal que duvidaria, por causa da sua inexperiencia, acceitar a administração de uma horta de couves—estava prompto, soberbamente prompto, a dirigir um ministerio da agricultura e commercio.

Esta confiança dos politicos em si proprios terminava por se communicar ao publico. E todos nós, desde que Fulano era eleito deputado, ficavamos certos de que, tocado de uma luz divina, da lingua de fogo, como os apostolos, elle poderia, senão fallar todos os idiomas, pelo menos dirigir, sob todas as fórmas, os grandes serviços publicos da sua terra, e indifferentemente, segundo as circumstancias, salvar as finanças ou commandar frotas.

A estranha confissão do snr. Barthou vem desmanchar esta confortavel confiança. O quê! Ha pois politicos que não conhecem, nem por estudos anteriores, nem por experiencia adquirida, os negocios coloniaes? Diabo! como tem sido então o mundo, até agora, governado? Será possivel que tenhamos tido por ministros e governantes outros Barthous, que, ao contrario d'este, cuidadosamente esconderam a sua incompetencia?

Não sei. Mas certamente a declaração do snr. Barthou, singularmente honrosa para elle, é altamente nociva para a sua classe. Cria uma larga suspeita entre nós outros, os governados.

Se ha um politico a quem o Espirito Santo não concedeu o dom do universal saber—é bem possivel que outros muitos tenham encontrado da parte do Espirito Santo a mesma resistencia em lhes outorgar o dom divino. E já não podemos ver um bacharel subindo de cabeça alta e luneta faiscante os classicos degráos do poder, sem murmurar dentro de nós mesmos, olhando de revez o galhardo moço na sua ascenção:—«Diabo! será este maganão um Barthou—que se calou?»

Desinteressante pelo lado da politica, Pariz está, ao que párece, interessante pelo lado dos theatros. Para começar, temos Sophocles no Theatro Francez, com a sua velha Antigone. Invejavel destino o d'este Sophocles! Ha já mais de dous mil e trezentos annos que elle gosou o seu primeiro «successo», em Athenas, no dia em que Cimon derrotava os Persas nas margens do Eurymedon:—e ahi o temos ainda, depois d'estes vinte e tres seculos, fazendo derramar em Pariz as mesmas lagrimas que fazia correr pelos bellos olhos das athenienses, quando Antigone, cobrindo a face com o véo, marchava para a morte. Quantos imperios, quantas raças, quantas civilisações têm passado? Ouando elle em Colona, em casa de seu pae, que era um simples fabricante d'armas, desenrolava verso a verso, nas taboinhas enceradas, á sombra d'alguma oliveira, os queixumes d'Œdipo, Pariz não era mais que uma escura floresta, onde de noite uivavam os lobos, vindo beber ás lagôas. E no sitio d'essa vetusta matta, convertida ella, por seu turno, n'uma Athenas infinitamente mais complicada, todas as noites milhares de vozes tremulas de emoção continuam a gritar: Bravo, Sophocles! e de certo devotos do seu genio iriam, como os soldados de Lysandro, coroar de flôres o seu tumulo, se ainda fôsse possivel saber onde se encontra o seu tumulo. Dizem que era na Dacelia—e que quando já não existia lá o tumulo, nem mesmo já havia Dacelia, ainda os pastores notavam que constantemente alli zumbiam abelhas em grandes enxames dourados. E que as abelhas, desde seculos, eram attrahidas para aquella collina pela doçura e pelo aroma que exhalavam os restos de Sophocles.

Esta Antigone, que agora se representa no Theatro Francez, foi para Sophocles a peça mais rendosa—porque valeu ao poeta ser nomeado general ou stratege, como os gregos diziam, n'uma expedição a Samos. Singulares direitos d'auctor! E singular povo que recompensava a belleza de uma tragedia com o commando de uma esquadra! Mas servir a cidade, ganhar a Athenas uma batalha, era, n'esses tempos de civismo heroico, a mais esplendida, a mais nobre das tarefas humanas;—e não se podia dar melhor recompensa a um grande porta do que fornecer-lhe a possibilidade de se tornar um grande cidadão. De resto Sophocles era soldado: já se batera em Salamina, onde tambem combatera o velho Eschylo.

Assim os dous tragicos concorreram pela «penna e pela espada» a assegurar o predominio da civilisação hellenica, e da civilisação occidental.

E não foi só como combatente que Sophocles cooperou em Salamina—mas como poeta: porque, pela sua belleza e pelo seu genio lyrico foi escolhido para corypheu dos coros de mancebos, que, com cantos e danças, celebraram durante tres dias essa magnifica Victoria, que nos salvou a todos nós, homens de raça aryana, de sermos ainda hoje orientaes, e talvez persas!

Pois a Antigone continua a ser rendosa. Nem Sophocles, nem os seus herdeiros, aproveitam dos cinco ou seis mil francos que ella lança todas as noites ao cofre do Theatro Francez. Mas não é menos rendoso para a sua gloria immortal, que, ao fim de vinte e tres seculos, este dramaturgo de Athenas continue a enriquecer os outros.

Deixemos porém a Antigone e Sophocles—porque, das peças representadas em Pariz, a que mais interessará de certo no Brazil é Os Reis (Les Rois) de Jules Lamaitre.

Este drama, tão esperado, tão louvado, começa com effeito por uma historia da revolução do Brazil. Exactamente como lhes conto! Por uma historia da revolução do Brazil—da outra, da antiga, da que derrubou o Imperio.

Quando o panno se levanta, vêmos deante de nós a sala do throno do palacio real da Alfania. A Alfania é um grande reino, uma monarchia absoluta, com 38 milhões de vassalos:—mas esta sala não apresenta mais luxo ou magestade que a da camara municipal de uma villa democratica. A primeira impressão é que, na Alfania, as artes decorativas e sumptuarias estão em deploravel decadencia:—mas dentro em breve se descobre que as colgaduras de sêda e brocado, que deviam revestir esta sala real, foram arrancadas das paredes para se fazerem com ellas as toilettes de Mme Sarah Bernhardt, que é a princeza real da Alfania.

Pela porta nobre d'esta sala desguarnecida entram dous senhores, de casaca e calção de côrte, com gran-cruzes que me pareceram ser da Ordem da Conceição. Um, o mais gordo, é o bibliothecario do rei de Alfania, Christiano XVI. O outro, um moço louro e alegre, é o ministro dos Estados Unidos do Brazil. Exactamente como lhes conto! ministro do Brazil,—que aqui na peça e na Alfania tem o nome de Republica das Cordilheiras. O ministro, esse, dá pelo nome cavalheiresco e hespanholesco de Alvarez! Muito jovialmente e não sem malicia, este ministro Alvarez começa a contar ao bibliothecario (de quem foi condiscipulo no collegio Stanislas em Pariz) as suas attribulações diplomaticas.

Ha dous mezes que elle foi nomeado ministro para Alfania, ha dous mezes que reside na côrte da Alfania, e ainda não conseguiu que o velho rei Christiano reconhecesse a Republica do Brazil! Bem comprehensivel, de resto, esta resistencia de Christiano XVI, que tem oitenta annos, é um autocrata de direito divino, vive no santo horror de todo o liberalismo e de toda a democracia, e não póde comprehender que o povo da Cordilheira expulsasse um velho imperador tão magnanimo e tão paternal.

E todavia (como Alvarez explica, parte para o bibliothecario e parte para o publico) nunca houvera no mundo uma revolução republicana mais repassada de bons sentimentos monarchicos!

O povo da Cordilheira não detestava, antes amava o seu imperador. Mas quê! Esse imperador nunca residia no seu imperio—e constantemente percorria a Europa, cercado de eruditos, robustecendo a sua sciencia das linguas mortas e lendo manuscriptos no seio das academias. Ora um povo que não se occupa de philologia não gosta de ser governado por um philologo. Sobretudo por um philologo, que parece preferir ao seu throno o seu banco do Instituto de França O throno estava sempre vazio, a cobrir-se de pó—e o imperador sempre em França, no Instituto a esmiuçar raizes hebraicas. Além d'isso, aquelle imperio da Cordilheira desmanchava a harmonia republicana da America do Sul. O quê! todos os paizes em redor usufruindo as venturas da republica—e só a Cordilheira sobrecarregada com uma monarchia e uma côrte! Era discordante.

De sorte que o povo decidiu despedir o seu imperador. Mas este acto de bom senso politico fôra feito com toda a delicadeza, todo o respeito, toda a bonhomia. A Republica surgiu uma madrugada serenamente, e naturalmente, como o sol. O Governo Provisorio fretou logo um vapor (um vapor muito confortavel, accrescenta Alvarez), metteu dentro o seu velho imperador com todas as cautelas, saudou e mandou largar para a Europa. Nem uma palavra, nem um gesto que revelassem azedume ou colera n'esta separação.

Pelo contrario! O povo tinha os olhos ennevoados de lagrimas—o imperador tambem. E durante muito tempo um na praia, outro no convez do vapor confortavel se acenaram em um longo, eterno adeus, ambos cheios de sympathia e cheios de saudade. E realmente não havia motivo para que o velho Christiano XVI se recusasse a reconhecer uma republica tão cortez, tão amavel—e no fundo tão monarchica!

Assim narra o ministro Alvarez, no primeiro acto dos Reis, esta risonha revolução que o fez ministro. E com que ironia a conta! Não dou muito pela felicidade d'este funccionario. Mas apenas elle terminara a historia da tão bella aventura em que se lançara o seu paiz—entra toda a côrte de Alfania.

É que estamos n'um consideravel momento historico. O velho rei d'Alfania vae abdicar. Não é só por velhice, por doença, por fadiga d'aquella corôa secular. É que já não comprehende o seu povo—e receia que o seu povo já não comprehenda o seu rei. Até ahi elle fôra simplesmente o pastor muito solicito d'um rebanho muito manso. Agora, porém, sob o seu cajado, via, não carneiros, mas homens. E esta nova sciencia de governar homens, e não carneiros, elle, rei d'outras eras, não a possuia. Por isso passa o cajado a seu filho, o principe Hermann. Esse não só é novo pelos annos—mas é novo pelas ideias. Principe de direito divino, foi todavia educado n'outros tempos, por outros livros—e conhece os direitos humanos. Todas essas liberdades estranhas que o povo da Alfania reclama (liberdade de voto, de imprensa, de associação, de reunião, etc.) e que ao velho Christiano parecem horrendos attentados contra a sua auctoridade real, são para este bom principe Hermann aspirações legitimas, que deverão ser satisfeitas com uma generosidade prudente. De sorte que, com este novo povo da Alfania, tão differente do velho rebanho gothico, e já hoje cheio de theorias, e meio revolucionado, melhor se entenderá o principe novo do que o rei velho. E Christiano XVI abdica.

Lá está elle na sua poltrona real, todo vestido de verde, com a sua branca cabeça pendida ao peso dos presentimentos tristes—emquanto o chanceller do reino lê o rescripto que entrega a regencia do reino da Alfania ao democratico e humanitario Hermann. Este pobre principe tambem não parece feliz, tomado já pelo terror das suas responsabilidades. Quem resplandece é a princeza, Mme Sarah Bernhardt, uma archi-duqueza do secco e puro typo feudal, sôfrega de magestade e poder. Mas, emfim, eis Hermann regente da Alfania, recebendo as homenagens dos grandes dignitarios. E sabem qual é o seu primeira acto de regente? O reconhecimento da Republica do Brazil! Exactamente como lhes conto. Quando o ministro do Brazil, por seu turno, o vae saudar e render-lhe preito, o principe Hermann diz com ar grave e decidido de quem faz a sua primeira affirmação democratica:

—Snr. Alvarez, apresente-me ámanhã as suas credenciaes!

Nem mais, nem menos. Está reconhecido o novo Brazil pelo novo rei d'Alfania. O pobre Christiano suspira—e Alvarez parece bem contente.

Obtido este esplendido resultado, nada mais nos resta senão sahir do theatro e da Alfania, esfregando as mãos. Mas não! Devemos ficar para vêr no segundo acto uma situação verdadeiramente bella, de um pathetico novo, e mais coramovente e profundo que os que resultam dos conflictos da paixão. É aqui uma verdadeira tragedia intellectual.

O pobre principe Hermann, mais que democrata, realmente socialista, já deu ao seu povo todas as liberdades politicas, e até um parlamento e uma carta constitucional.

O velho reino da Alfania está todo transformado e arranjado á moderna, no melhor estylo Luiz Filippe. O primeiro ministro é um jacobino que como elle mesmo confessa, passou a sua mocidade a fazer revoltas contra o antigo Christiano, e a ser preso como cabecilha irreconciliavel. Mas o povo todavia permanece descontente. Ha uma crise industrial em toda a Alfania, uma intensa miseria trazida pelas gréves, e os operarios da capital, obedecendo á velha illusão de que o exercicio de mais direitos politicos lhes trará mais salarios, preparam uma tremenda manifestação nas ruas para reclamar o suffragio universal. O principe Hermann permitte alegremente a manifestação—porque (como elle diz) se o suffragio universal não cura os males do proletariado, ao menos serve-lhe de consolação, põe-lhe na alma uma esperança; e o proletario soffre tanto, e está sob o peso de tão fataes injustiças, que por todos os modos deve ser consolado e attendido nas suas exigencias reaes ou ficticias. O que o bom Hermann quereria (como elle tambem declara) era distribuir pelos pobres o superfluo dos ricos:—mas como essa liquidação social não é possivel immediatamente, e como se não póde dar ao proletario todo o pão que elle necessita, dê-se-lhe ao menos todo o voto que elle reclame. E a manifestação aos vinte mil operarios já vem na rua, immensa e clamorosa.

No palacio reina o terror.

Esses milhares de operarios, soltos na capital, permanecerão ordeiros e disciplinados? Os proprios ministros, antigos jacobinos, duvidam—tanto mais quanto a manifestação é capitaneada por anarchistas que estavam presos, e a quem Hermann, apenas regente, logo amnistiou com enthusiasmo. E com effeito não tardam as más noticias. Os manifestantes arvoraram a bandeira negra. Já aqui e além houve conflictos—e as tropas foram apedrejadas. E eis que agora a enorme massa popular avança sobre o palacio! Mas Hermann sorri tranquillamente. Que póde receiar, elle, que ama tão ardentemente os pobres, e que é na verdade o rei dos pobres? O povo avança sobre o palacio? Pois que se escancarem, bem largas, todas as grades dos jardins, que o povo entre, porque o seu rei alli está que lhe estende com amor os braços. E elle mesmo abre as janellas—por onde penetra um longo, sombrio e suspeito tumulto de brados.

Mas eis um ajudante de campo annunciando que a turba está em plena revolta, assalta os postos da guarda, e começa a saquear as lojas. Que espanto para o pobre Hermann! O quê! Pois o povo não comprehende que elle o ama, e que trabalha para a sua felicidade, e que vae elle proprio, socialista coroado, fazer lentamente e de alto, a revolução social?

Não, o povo não parece comprehender, porque rompeu justamente a apedrejar as janellas do palacio. Já uma pedra ia matando o principesinho real, uma pobre creança doente, nos braços da sua governante. Hermann afflicto corre a uma varanda, para gritar ao povo toda a verdade. Cae sobre elle uma saraivada de calhaus. E não são já sómente calhaus—são tiros. Outro ajudante, esgazeado, corre a contar que a guarda real está sendo desarmada pelo povo. É a revolução! Que fazer? Madame Sarah Bernhardt (que é aqui magnifica) arrasta-se aos pés de Hermann, supplicando-lhe que salve a corôa, que salve o reino! Ainda é tempo! As tropas, absolutamente fieis, estão nas ruas, só esperam uma ordem para carregar, varrer a populaça!... Mas Hermann hesita, livido, n'uma agonia, gritando sómente:—«Oh! os brutos, os brutos, que não comprehendem!»

Outro ajudante. A revolução triumpha! Vae acabar o reino secular da Alfania! Já o povo quebra as portas do palacio. Em pouco aquella rica cidade será saqueada por uma plebe feroz. E o general governador manda intimar o rei a que lhe diga claramente o que deve fazer, como general! Hermann, n'uma voz de moribundo, murmura:

—O seu dever de soldado!

E cae n'uma cadeira, aniquilado. Fóra ha um lento rufar de tambores. É o primeiro e lugubre aviso para que a multidão disperse, antes que sobre ella rompa o fogo. Hermann ainda se precipita á janella, grita:—«Não! Não!»—É tarde. Uma descarga, outra descarga... E logo após o horrendo clamor dos gritos. São os que morrem!

Um silencio sinistro. Está salva a ordem, com ella a corôa. Um official apparece, todo pallido, com o uniforme em desalinho. A princeza, que cahiu debruços para cima de uma mesa, ergue lentamente a face, pergunta por entre lagrimas:

—Mulheres mortas?

O official murmura:

—Muitas.

Creancinhas?

—Tambem...

Hermann, esse ficou como petrificado, sem voz, sem vida, com os olhos cravados no tapete. É que está vendo n'elle, cobertos de sangue, os pedaços do seu bello sonho humanitsrio, que se despedaçou. Elle é o primeiro rei democrata da Alfania; e eis que, por muito amar o povo e o encher de grandes esperanças e o lançar largamente no caminho de todas as satisfações sociaes, se vê forçado pela logica terrivel das cousas a erguer-se deante do seu povo como um repressor violento, e a metralhar o seu povo—o que nunca succedera na velha Alfania, quando o povo era um rebanho pastando mansamente a sua ração de herva, sob o cajado dos seus velhos reis. O seu socialismo naufragara em sangue.

A scena é verdadeiramente bella—e pela apparição da Fatalidade, esse grande factor de toda a tragedia, mas uma Fatalidade nova, tirada das leis sociaes, dá uma tão forte emoção como a podem dar Eschylo ou Sophocles. Depois o drama acaba mediocremente n'um desastre d'amor, que é ao mesmo tempo vulgar e complicado, e cheio de ironia. E não tornamos a ver Alvarez.

Ligeiro e jovial, como me pareceu, estou receiando que elle se dedicasse a galantear com as damas gentis da corte de Alfania em logar de compor e mandar ao seu governo um relatorio instructivo mostrando, pelo exemplo Alfanico, o perigo que se corre em destruir, por amor das theorias, um regimen cheio de paz, de ordem, de prosperidade e de credito, para lançar a nação n'um caminho incerto e escuro onde ella vae cambaleando atravez do descredito, da desordem, da ruina e da guerra.

Mas Alvarez não é homem para comprehender as lições da historia.


XIII. OS ANARCHISTAS VAILLANT.

Desde que nos não vimos, caros collegas e amigos, este velho mundo foi de novo abalado por uma bomba anarchista, a bomba de Vaillant.

Esta, porém, não causou os estragos, em pedra e cal, da bomba já classica e quasi symbolica de Ravachol; nem fez tambem a devastação mortal da bomba hespanhola do theatro de Barcelona.

A bomba de Vaillant apenas deteriorou alguns velludos de poltronas e pedaços de estuque dourado; e o unico ferimento perigoso que causou (e hoje curado) foi o de um primo intellectual do anarchismo, d'um socialista neo-christão, o doce abbade Lemire. Mas espalhou um terror mais intenso que as de Ravachol ou a dos hespanhoes, porque, pela primeira vez, a sociedade sentiu a temerosa dynamite arremessada contra um dos seus grandes orgãos vitaes, contra o centro regulador das suas funcções, contra o parlamento! As outras bombas só pretenderam destruir predios ricos, como sendo as fórmas mais materialmente palpaveis do capitalismo; ou então burguezes abastados, no acto de gosarem um luxo que offende especialmente a miseria—o da Opera. A bomba de Vaillant porém estoura com imprevista audacia sobre o «seio augusto da Representação Nacional». N'uma republica parlamentar, o parlamento é o rei. Portanto Vaillant verdadeiramente commetteu um regicidio. E não ha crime que impressione mais do que o regicidio, porque n'uma sociedade onde se não eliminou inteiramente a ideia de que o chefe é pae, elle participa da natureza do parricidio.

De certo sabem, pelo telegrapho, pelos jornaes, a historia do feito. No Palais-Bourbon, estando a camara em sessão e um deputado na tribuna, Vaillant atira a sua bomba, composta de pregos e polvora verde, dentro de uma caixa de lata, que bale n'uma columna, estala no ar antes de cahir. Densa fumarada, gritos, terror, tumulto—e immediamente, tambem, entre os deputados, aquella serenidade corajosa, ainda que um pouco affectada, que é uma tradição das assembleias francesas, acostumadas desde 1789 a ser invadidas, assaltadas e mesmo espingardeadas pelas plebes em revolta. Todas as portas do Palais-Bourbon se fecham—e as salas das commissões são convertidas em ambulancias, onde, sobre colchões trazidos á pressa de um quartel, os feridos recebem curativos summarios. Entre esses feridos ha um, com pregos espetados nas pernas, que hesita ao dar o seu nome e o seu endereço, e que desperta portanto o faro embotado da policia. É conduzido ao hospital por dous agentes que se estabelecem ao lado da cama, e começam com elle, amigavelmente, uma conversa habil sobre anarchistas e fabricação de bombas. O ferido, por um d'esses impulsos de vaidade bem franceza, bem humana (e que Balzac se deleitaria em notar) alardeia logo o seu conhecimento intimo com os chefes do anarchismo e com os processos empregados na composição das bombas. Os outros encolhem os hombros, negam a sua competencia. E o homem irritado com a contradição termina por gritar:

—Pois bem, fui eu! Fui eu que deitei a bomba! Viva a anarchia! E agora não me massem mais, que quero dormir.

Era Vaillant. E sabem, de certo, tambem que foi condemnado á morte—por um jury que se mostrou feroz, para que em Pariz, e sobretudo no seu bairro, não o suppuzessem medroso. O que é ainda bem francez e bem humano.

A bomba de Vaillant e a sentença que condemna Vaillant á morte, sendo dous actos no fundo identicos, porque ambos procuram aniquilar um principio pela violencia—são tambem dous actos absolutamente inuteis.

N'um crime como o de Vaillant entram, em resumo, tres impulsos ou motivos determinantes. Primeiramente ha um desejo de vingança, todo pessoal, por miserias longamente padecidas na obscuridade e na indigencia. Ha depois o appetite morbido da celebridade—como o prova o facto de Vaillant, nas vesperas de lançar a bomba, se ter photographado, n'uma attitude arrogante, voltado para a posteridade. E emfim ha o proposito de applicar a doutrina da seita, que, tendo condemnado a sociedade burgueza e capitalista, como unico impedimento á definitiva felicidade dos proletarios, decretou a destruição d'essa sociedade. Só este lado sectario do crime particularmente nos interessa quanto á sua inutilidade. (Porque, pelos outros dous lados, o acto não foi inutil, visto ter Vaillant realisado a sua vingança e alcançado a sua celebridade).

Aqui temos pois Vaillant, como anarchista, com a sua bomba na mão, preparado a demolir, para vantagem do proletariado opprimido, um bocado da sociedade que o opprime, alguns dos seus membros mais activos e potentes, e portanto, para elle, mais oppressores. Lança a sua bomba—e supponhamos que, causando um maximo inverosimil de destruição, ella mata os seis ministros, aniquila os quinhentos deputados, e arrasa o edificio do parlamento! Que succederia? Que vantagens traria este feito estupendo ao proletariado escravisado, e que prejuizos causaria á sociedade escravisadora? Primeiramente espalhar-se-ia por toda a Europa um terror, uma commoção maiores (porque hoje somos mais sensiveis, e o telegrapho e a reportagem dão um alimento mais prompto e mais abundante a essa sensibilidade) que a commoção e o terror causados pelo terramoto de Lisboa em 1755. Depois, immediatamente, o poder executivo, que não fôra demolido, nomearia um ministerio em substituição do ministerio assassinado; e esse novo ministerio, mesmo assumindo provisoriamente a dictadura, fixaria uma data para que a nação elegesse uma camara nova em substituição da camara desbaratada. Em seguida a França faria aos mortos funeraes magnificos. Vaillant seria guilhotinado, visto não existir, mesmo para crime tão prodigioso, pena mais completa que a guilhotina.

O governo decretaria terriveis leis de repressão e, com o apoio enthusiasta do paiz todo, os anarchistas seriam perseguidos, em montarias, como lobos. O Estado reedificaria o edificio do parlamento em condições mais seguras, e com linhas de certo mais bellas. E finalmente de novo a camara se reuniria no seu novo edificio, e o tempo, que é um grande apagador, iria apagando a impressão pungente da catastrophe, e os pobres soffreriam as mesmas necessidades, e Rothschild gozaria os mesmos milhões, e a sociedade burgueza e capitalista continuaria o seu movimento sem ter perdido um atomo do seu capital e do seu burguezismo. Do feito horrendo, só restariam, pelos cemiterios do Père-Lachaise ou de Montmartre, algumas viuvas chorando. E o proletariado anarchista que teria conseguido? O odio insaciavel dos egoistas, a desconfiança dos proprios humanitarios. E teria ainda logrado crear, para sua confusão e maior humilhação, ao lado da classe já desagradavel dos martyres da liberdade, a classe, ainda mais desagradavel, dos martyres da auctoridade. De sorte que estas bombas arremessadas contra a sociedade, mesmo quando tivessem meios destructivos que são hoje ainda inconseguiveis com a nossa limitada sciencia, nunca passariam, relativamente á força e estabilidade d'essa sociedade, de actos impotentes e tão inuteis como bolhas de sabão lançadas contra uma muralha.

A isto replicam os anarchistas:—«Assim é, mas nós não pretendemos destruir, desejamos só aterrar!» Raciocinio vão. O que significa, n'este caso, aterrar? Significa provar, pela experiencia d'uma pequena destruição, a possibilidade de uma destruição immensa? Significa inspirar á burguezia, demolindo-lhe um predio e matando-lhe tres membros, o temor de que lhe possa ser arrasado um bairro e desfeitos em estilhas tres mil dos seus representantes? Mas está comprovado que, por maiores que sejam essas devastações pela dynamite, mesmo quando subitamente por uma d'ellas pudesse desapparecer todo o poder executivo e todo o poder legislativo, os milhões de burguezes que governam e que conservariam intactos o seu exercito, o seu ouro, todas as suas forças, não consentiriam em abdicar de direitos que elles consideram como quasi divinos e os unicos capazes de manter ordem e segurança nos agrupamentos humanos. É a eterna inutilidade do regicidio, que, matando o homem, não mata o systema.

O nihilismo russo experimentou essa inanidade da violencia: um czar era assassinado, logo outro era coroado, que do proprio crime commettido sobre o pae parecia tirar um accrescimo de força e como uma nova sancção. Por isso Proudhon, que o anarchismo venera como um de seus santos-padres, prégou constantemente contra o tyrannicidio, contra as tendencias tyrannicidas dos jacobinos do segundo imperio (hoje homens de poder e auctoritarios) como prégaria, se vivesse, contra a bomba dos anarchistas, por constituir uma outra fórma de tyrannia, e ser sobretudo um tão lamentavel desperdicio de energia heroica.

Mas, por outro lado, se a bomba de Vaillant e de muitos Vaillants, é impotente para arrasar, ou mesmo aterrar efficazmente a sociedade burgueza—a sentença que condemna á morte os Vaillants é impotente para supprimir ou sequer assustar o anarchismo. Com estas sentenças, inspiradas por um dever e por uma esperança, o dever fica de certo cumprido porque o criminoso fica castigado; mas a esperança não se realisa, porque nem os anarchistas diminuem, nem se tornam mais raros ou mais timidos os seus assaltos contra a sociedade. Pelo contrario! Está demonstrado, e pela propria policia, que, desde as primeiras bombas e portanto desde as primeiras repressões, o numero dos anarchistas tem crescido na proporção formidavel de um para mil; e emquanto que a primeira bomba foi lançada contra um simples predio, a ultima é já arremessada contra o proprio parlamento em sessão, exercendo soberania. O que era um bando está organisado em seita.

E odios dispersos, operando sem methodo e sem dogma, fundiram-se n'uma religião (ou, se quizerem, n'uma heresia) em que o odio de certo é ainda um factor, mas em que é um factor maior o amor, o amor dos miseraveis e dos opprimidos, e que portanto por este lado tem uma grande força de propaganda e uma segura condição de vitalidade. Sobre esta seita, a que bem podemos chamar religiosa (ou, se querem, heretica) as sentenças de morte não têm acção, porque não fazem mais que vibrar um golpe unicamente material sobre o que é immaterial, a crença, e assemelham-se portanto a cutiladas atiradas ao vento. A guilhotina decepa uma cabeça, mas não attinge a ideia que dentro residia. Durante um momento, é certo, á força de buscas, de prisões, que são acompanhamento usual da sentença, a seita fica desorganisada, desconjuntada:—mas para immediatamente se reorganisar além, mais numerosa, mais fanatisada, por isso que vem de padecer uma perseguição. Taes sentenças não têm senão o effeito desastroso de crear martyres. Ora não ha semente mais fecunda que uma gotta de sangue de martyr, sobretudo quando cahe n'um solo tão preparado para que ella fructifique, como é a alma especial dos humanitarios que chegaram á exacerbação do humanitarismo, não por theoria, mas atravez de realidades dolorosas e de uma experiencia constante das miserias servis. Pense-se o que será (quando um Vaillant é guilhotinado) uma reunião secreta de anarchistas, dos verdadeiros, os puros, d'esses milhares de operarios de coração generoso e exaltado, para quem o anarchismo é a verdadeira redempção da humanidade, e que admiram no homem que se sacrificou por essa ideia santa um martyr do amor dos homens! O jury só viu o bruto que quiz matar: elles só veem o justo que quiz libertar. N'uma tal reunião, onde cada um traz a sua colera e a sua maldição, é inevitavel que alguma alma mais violenta se inflamme, appeteça tambem o martyrio, e corra d'alli a fabricar a nova bomba, que na sua illusão quasi mystica concorrerá a remir o proletariado. Aquelles que não podem morrer pela causa querem ao menos soffrer de algum modo por ella, e pela sua justiça. Entre os anarchistas presos recentemente havia um que se fizera gerente responsavel de um jornal anarchista, só para ter gloria, o prazer espiritual de soffrer os mezes de prisão em que os redactores incorressem pela violencia das suas imprecações. Por isso o anarchismo, como a primitiva seita christã, tem já os seus «Actos dos Martyres». A vida e supplicio de Ravachol andam escriptos, e são meditados como mais puro exemplo da fé e da confissão anarchista. Todos os objectos que pertenceram a Ravachol ganharam o caracter augusto de reliquias. Ha um cantico a Ravachol—a Ravachole. E cada coração anarchista lhe é um altar.

As perseguições, as execuções, em logar de diminuirem a seita, só lhe communicam uma vehemencia mais devota e portanto mais perigosa. E quando a sociedade mata os anarchistas—é a sociedade que fabrica as bombas.

A violencia não cura—e o anarchismo é uma doença. O anarchismo é uma exacerbação morbida do socialismo.

O germen e os desenvolvimentos d'esta doença não são difficeis de precisar. No antigo regimen, o proletariado, mantido em servidão dentro de uma organisação social muito forte, collocara sua esperança de felicidade, não já n'esta vida e elle via irremediavelmente votada á pena, mas a outra vida, para além da campa, como lh'o recommendava a Egreja, sua mãe e sua educadora, dando-lhe como garantia a promessa de Jesus que reservava para os pobres o reino do céo.

N'este nosso seculo porém o proletario, doutrinado pela classe media que se tornara desde 1789, em substituição á Egreja, a sua nova educadora, começou a acreditar que, sendo homem, e tendo portanto todos os direitos do homem, poderia realisar a sua felicidade ainda em vida, n'este mundo, e sob a garantia de leis. Para isso, segundo lhe affirmava a classe media, bastava que ele demolisse o velho edificio social, a monarchia e as instituições monarchicas, que constituiam o unico obstaculo á «felicidade das massas». O proletario, convencido, sahiu em tamancos dos seus vehos covis, e começou a destruir. Fez tres revoluções, ergueu barricadas innumeraveis, exilou reis, incendiou castellos, aboliu privilegios—e expeliu em gritos, e com as armas na mão, todas as formas e liberdades politicas que a classe media lhe indicava ao ouvido e que deveriam realisar essa felicidade terrestre tão largamente annunciada. Emfim, ao cabo de setenta annos de luctas, o povo, tendo arrasado o velho edificio da monarchia, construiu o novo edificio da republica, cheio dos confortos e invenções novas da civilisação politica, a liberdade de reunião, de associação, de imprensa, e todas as outras, entre as quaes, bem agasalhado e bem provido, senhor seu, elle começaria emfim a conhecer a ventura de viver. Assim soberbamente installado, esperou. Os annos passaram. A felicidade annunciada não veio. Apesar de todos aquelles confortos politicos (liberdade d'isto, liberdade d'aquillo) continuava, como no antigo edificio feudal, a ter fome e a ter frio. Quando chegava a neve, o direito de voto não o aquecia—e á hora de jantar, a liberdade de imprensa não lhe punha carne na panella vazia. Pelo contrario, reconheceu que, apesar do nome de «soberano» que lhe tinham dado, continuava na realidade a ser servo—e que o seu novo amo, o burguez capitalista, era muito mais exigente e duro que o antigo amo que elle guilhotinara, o fidalgo perdulario. Todas as suas barricadas, pois, e todas as suas revoluções tinham sido feitas em proveito da classe-media, que lhe mettera as armas na mão, o impellira ao assalto do velho regimen! O seu sangrento esforço só servira para entregar o poder á classe média, que se aproveitava d'esse poder, não para dar ao proletario dentro do novo regimen a sua legitima parte de bem estar, mas para lhe explorar o trabalho como lhe explorava a colera, e fazel-o esfalfar para o seu enriquecimento material, como o fizera combater para o seu engrandecimento politico!

A decepção foi tremenda—e tremendos o odio e desejo de vingança contra o traiçoeiro burguez. A parte mais intelligente, mais pacifica, ou mais legal do proletariado concebeu logo a necessidade de fazer uma outra e derradeira revolução, não contra a estructura politica da sociedade nova, mas contra a sua organisação economica, porque não era agora, por causa do regimen politico que o proletariado soffria, mas por causa do regimen economico, nascido das invenções mecanicas, das descobertas chimicas, dos excessos de producção, da concorrencia de todos os progressos do seculo, realisadas só em beneficio da classe media, e cada vez mais tendentes a separar as duas velhas «nações» de Aristoteles, os pobres e os ricos, attribuindo a uma todos os proveitos, e impondo á outra todas as fadigas. Desde esse momento nascera, ou apparecera, organisado na Republica, o socialismo.

Uma outra parte, porém, do proletariado, a mais inculta ou a mais violenta, ou simplesmente a mais naturalista, concebeu uma outra ideia, e estranha. Para essa, a revolução economica prégada pelo socialismo e concebida ainda dentro de um funesto espirito juridico é inefficaz, quasi pueril, porque não attinge o mal! Associações, trade unions, barateamento do capital, seguros de velhice, reclamação para o dominio social dos serviços collectivos, regularisação da concorrencia, etc., etc., todas essas reformas revolucionarias, tentadas pelo socialismo, são tigellas d'agua morna, deitadas sobre uma gangrena. São ainda subterfugios traiçoeiros do horrendo burguez. O mal, o verdadeiro mal, que é necessario extirpar, é a propria ideia de direito, de lei, de auctoridade, de Estado.

O homem nasceu livre como nasceu bom e proprio para ser feliz: e todavia por toda a parte está escravisado, e pena sob essa escravidão. Mas quem o escravisa, quem o faz penar? A sociedade com toda a sorte de peias, de estorvos, que se oppõem á livre expansão da natureza humana, que é fundamentalmente e innatamente boa, e que não poderia nunca ser senão um radiante progresso do homem no sentido do bem. Esses impecilhos odiosos são as leis, a auctoridade, o Estado. A propria moral é, como o direito, ficticia, e um outro jugo imposto ao homem. Tudo isso, pois, tem de ser destruido, para que a nova humanidade realise, na absoluta liberdade, a absoluta felicidade. Mas como a sociedade está irremmediavelmente impregnada d'esses funestos conceitos, que são a sua alma, e o seu principio de cohesão, é inutil fazer revoluções para a transformar ou melhorar; porque, qualquer que seja fórma que se dá á sociedade, ella conterá sempre em si o virus horrivel:—o principio do direito, do Estado, da auctoridade!

A unica solução portanto é arrasar completamente a sociedade, matando e sepultando para sempre sob os seus destroços esses principios fataes que até agora a têm governado, e depois recomeçar de novo a historia desde Adão. E a sociedadetem de ser destruida, em bloco, toda ella, sem se empurrarem para um lado os culpados, e sem se resguardarem para outro lado os innocentes. No mundo actual não ha innocentes. De certo existe uma classe mais especial e odiosamente criminosa—a classe dos ricos, que foi quem concebeu, para seu proveito e contra os pobres, esses estorvos moraes e sociaes, que se chamam direito, auctoridade, Estado, e que são a causa de todo o mal humano. Mas a sociedade inteira é solidaria e responsavel do mal. Todo aquelle que pacificamente se aproveita da protecção das leis é tão culpado como o monstro que inventou as leis. E uma costureira que se priva de apanhar uma flôr n'um jardim publico é já uma cumplice da sociedade, porque, pelo seu consentimento tacito, ella concorre para que se perpetue o despotismo do regulamento. É pois necessario destruir tudo,—e atirar indiscriminadamente a bomba redemptora contra as classes exploradoras, contra as classes voluntariamente exploradas, contra a cidade onde se realisa a exploração, contra as proprias creanças que nascem, porque ellas já trazem em si o virus da submissão exploravel.

Tal é em resumo, muito em resumo, a theoria do anarchismo.

Basta que ella seja enunciada para que se lhe reconheçam logo todos os symptomas d'uma allucinação morbida. Não ha n'ella proposição que não seja chimerica. Uma só é exacta: aquella pela qual o anarchismo se prende ao socialismo, e que estabelece, com razão, que a presente organisação social, em que uma classe possue todos os gozos e outra soffre todas as miserias, é iniqua.

Partindo do facto d'esta grande e atroz injustiça, o anarchista começa, logo que d'elle se afasta, para lhe procurar a causa e a cura, a delirar. Delira quando, ao procurar a causa do mal, a encontra no principio do direito: e delira ainda mais quando, ao procurar a cura do mal, a entrevê ou, antes, claramente a vê, na destruição da humanidade pela dynamite. O anarchista é pois, no fundo, um socialista que caminhou seguramente, por um caminho racional, emquanto foi, como socialista, accusando a organisação da sociedade—mas que depois, ou impaciente d'esse lento caminho juridico, ou cedendo aos impulsos d'uma natureza desequilibrada, deu um grande salto para fóra da realidade, rolou no absurdo, e cabriolando através d'uma metaphysica insensata, veiu cahir miseravelmente em praticas d'uma ferocidade selvagem.

Ha pois razão para dizer que o anarchismo é uma doença, uma exacerbação morbida do socialismo.

Mas como é que esta seita de doentes tão disparatada na sua doutrina, e tão impotente nos seus meios de acção (o que obsta sempre á efficacia de qualquer propaganda), se mantém e alastra na proporção de um para mil? O anarchismo decerto se desenvolve, como todas as epidemias, por ter achado em torno uma atmosphera propicia e mesmo sympathica. A verdade é que toda a sociedade que elles desejam arrasar, é tacitamente cumplice dos anarchistas.

Esta cumplicidade, que mal percebemos, mas que é real e activa, tem dous motivos:—um extremamente nobre e honroso, que é a nossa philantropia, a nossa crescente piedade pelos que soffrem, e outro, extremamente baixo e vergonhoso, que é o nosso doentio enthusiasmo por tudo quanto é extravagante, monstruoso, hysterico, fóra da calma razão e do equilibro da vida. No anarchista nós vemos dous homens, com quem secretamente e sinceramente sympathisamos:—um é o desgraçado, que padeceu frio e fome; outro é o allucinado que se ergue da sombra, com a sua bomba na mão, para fazer de todo este mundo, de todas as suas glorias e de todas as suas riquezas, um montão de negros destroços sem fórma e sem nome! E tão pervertidos estamos, que eu não sei realmente por qual d'estes dous homens nos interessamos mais—se por aquelle que sensibilisa o nosso coração, se por aquelle que excita a nossa imaginação. Francamente, qual nos emociona mais—o infeliz ou o monstro? Desconfio que é o monstro.

Em todo caso, nós estamos tacitamente, pelo coração e pela imaginação, em sympathia com o archista. E quasi se póde dizer que, exceptuando a porção mais egoista e espessa da burguezia, alguns homens de estado a quem por profissão são vedadas a sensibilidade e a phantasia, todas as classes mundanas, intellectuaes, artisticas, ociosas, se estão abandonando com voluptuosidade ás emoções novas do anarchismo. Desde já existe, muito contagioso, o dillettantismo anarchista. Duquezas moças, cobertas de diamantes, condemnam a má organisação da sociedade, comendo codornizes truffadas em pratos de Sèvres. Nos cenaculos decadistas e symbolistas, a destruição das instituições pela dynamite apparece como uma catastrophe cheia de grandeza, de uma poesia aspera e rara, e quasi necessaria para que o seculo finde com originalidade. E nada caracterisa mais estes estados d'espirito, onde alguma sinceridade se mistura a muita affectação, do que a phrase já historica do poeta Tailhade. Ao saber, em uma cervejaria litteraria, que Vaillant acabava de atirar a sua bomba na camara dos deputados, este symbolista exclama languidamente e quasi era em extase:

—Já vae pois desabando o velho mundo!... O gesto de Vaillant é bello!

«O gesto é bello!». Todo Pariz repetiu, com mal escondida admiração, esta phrase que revelava aos profanos a belleza esthetica do crime anarchista. «O gesto é bello!». E muito honesto moço, incapaz de pisar voluntariamente o pé do seu semelhante, reconheceu, sentiu a belleza do gesto de Vaillant—a belleza d'aquelle braço magro que se ergue lentamente, solemnemente, e deixa cahir a morte sobre um mundo condemnado. Os anarchistas, elles proprios, já fallam na belleza do seu gesto. N'uma sociedade tão culta como a nossa, e tão saturada d'arte, uma revolta social deveria necessariamente ter, além da justiça, a elegancia plastica, a graça magestosa mesmo, no seu furor. O anarchismo já se sentia justo. Os poetas mais entendidos em harmonia e rythmo acabam de lhe assegurar que elle é tambem estheticamente bello.

Mas é sobretudo na imprensa que o anarchismo encontra um mais vivo estimulo ao seu desenvolvimento. Todos os jornaes de Pariz, quer sejam ferozmente hostis aos anarchistas, quer nutram por elles uma mal disfarçada benevolencia, são unanimes n'um ponto:—em os cercar da mais prodiga e resoante celebridade. Um general victorioso, um grande homem de estado, um poeta como Hugo, um sabio como Pasteur, nunca tiveram na imprensa de Pariz um reclamo tão minucioso como tem qualquer aprendiz de anarchista, que atire contra um velho muro uma bombasinha timida.

Se é anarchista, se lançou a bomba—é d'elle a fama universal, que nem sempre conseguem os santos e os genios.

Mal se póde imaginar a que excessos se abandonou a reportagem de Pariz a respeito de Vaillant. Os menores actos da sua vida, a góla de astrakan do seu casaco, o seu modo de enrolar o cigarro, o que comeu, o que disse, o sobr'olho que franziu—tudo foi miudamente e clamorosamente contado ao mundo com um calor em que a propria indignação tinha não sei que de laudativa. De sorte que hoje em Pariz para se ter uma verdadeira celebridade, é melhor atirar uma bomba a qualquer corpo do Estado, do que escrever a Lenda dos Seculos.

Assim fanaticamente convencido da justiça superior da sua ideia e tomado mais fanaticamente desesperado pelas brutaes leis de excepção que contra elle decreta o Estado; cercado das sympathias dos humanitarios; declarado estheticamente bello pelos poetas; apreciado como uma novidade picante pelo dilettantismo mundano e magnificamente popularisado pela imprensa—como não ha-de o anarchismo alastrar n'essa proporção temerosa de um para mil?

Para que não crescesse, como planta bem regada, e ao contrario se estiolasse, seria necessario que elle proprio se persuadisse, se não já da falsidade da sua ideia, ao menos da inutilidade das suas praticas; que o Estado não suscitasse contra elle leis de excepção, odiosas e intoleraveis ao espirito de equidade; que os humanitarios o reprovassem pela sua indiscriminada condemnação de innocentes e culpados; que os poetas e os artistas descobrissem que o gesto é meramente bestial; que o dilettantismo se desinteressasse d'elle como de um banal partido politico; e que a imprensa o envolvesse em um silencio regelador.

Então sim! Talvez eliminadas estas condições que a favorecem, a febre que produz o anarchismo se calmasse, e o anarchista, restituido á saude intellectual, reentrasse no largo e fecundo partido socialista, de que elle se separa em um momento de delirio.

Assim possa ser! As guerras servis (e o anarchismo é uma guerra servil) nunca conseguiram senão desenvolver nas classes oppressoras os instinctos de tyrannia, e retardar funestamente a emancipação dos servos. Cada bomba anarchista, com effeito, só addia, e por muitos annos, a emancipação definitiva do trabalhador. Além d'isso os anarchistas que até agora têm lançado a bomba, não são puros; têm todos no seu passado um crime, e um crime feio, de malfeitor. De sorte que não se sabe bem se a bomba é n'elles um primeiro acto de justiça, se um derradeiro acto de perversidade. Para que a bomba pudesse ter uma alta significação social, seria necessario que fôsse lançada por um justo, ou por um santo. Até que surja esse santo para santificar o anarchismo, o melhor que se póde dizer d'elle, quando se não seja um capitalista apavorado e enfurecido pelo pavor—é que o anarchismo é uma epidemia moral e intellectual.

Ora o dever da sociedade, perante uma epidemia, é circumscrevel-a, isolal-a—não crear em torno d'ella, por curiosidade depravada d'um mal original e raro, uma vaga atmosphera de sympathia, d'admiração litteraria, de piedades estheticas, e de delicioso terror que goza a novidade do seu arrepio.

Toda esta larga aragem de favor é um crime—porque animando indirectamente a obra abominavel do anarchismo, retarda directamente a obra util do socialismo, e concorre para que se prolongue, mais revigorada pela reacção, esta ordem social, que é tão cheia de desordem.

Mas demais fallámos de bombas! Bem vos basta, caros collegas e amigos, as que ahi vos cahem em casa (e que de certo tambem não comprehendeis bem) sem terdes ainda de vos preoccupar, por dever critico, d'aquellas que aqui estouram sobre o nosso velho mundo. Todas estas bombas, com effeito, são bem difficeis de explicar, de deslindar... Rebentam, matam, ha mulheres que choram, e a desordem social cresce. Todavia ellas são arremessadas com convicção e por um amor ardente do bem publico. Emfim, o que podemos affirmar sinceramente é que—cá e lá más bombas ha.


XIV. OUTRA BOMBA ANARCHISTA-O SNR. BRUNETIÈRE E A IMPRENSA.

As bombas anarchistas (porque tivemos outra, a bomba de Henry, lançada no café Terminus e que feriu trinta pessoas) vão entrando lentamente na classe dos accidentes naturaes, onde tomam um modesto logar, logo depois das inundações e dos incendios. Evidentemente o primeiro rio que alagou os primeiros campos cultivados, ou o primeiro fogo que rebentou na primeira cidade edificada, encheu os homens de um terror tanto mais desordenado quanto por traz d'essa rebellião de elementos elles viam a colera de um Deus offendido. Cada varzea inundada, cada cabana queimada, dava assim motivo a longas ceremonias expiatorias, á invenção de novas formulas liturgicas, a um desenvolvimento excessivo da auctoridade sacerdotal, e mesmo a especulações lyrico-metaphysicas dos vates, que eram então os philosophos que tudo explicavam. Depois, quando se observou que estas violencias da agua e do lume occorriam tão regularmente como as estações, e que cada inverno os valles se submergiam, e cada verão ardiam as choças de madeira e colmo, não houve mais coração que palpitasse de pavor mystico. Mesmo acreditando sempre que, através de taes desastres, se manifestava o descontentamento, divino, foi á auctoridade civil e não já á casta sacerdotal que se pediram medidas preventivas ou salvadoras. E nem se lhe conferiram poderes novos e excepcionaes, na certeza que, para conter a agua e apagar o fogo, bastaria apenas alguma vigilancia e saber technico da administração urbana e rural.