cantarolou um dos assistentes que, por acaso, tinha de cór este estribilho do Zampa de Herold.
E todos se puzeram a cantal-o n’umas taes intonações, que deviam ter feito estremecer o compositor no seu tumulo.
Depois, quando as ultimas notas se perderam n’um espantoso charivari, Uncle Prudent, aproveitando de um momento de socego, entendeu dever dizer:
—Cidadão extrangeiro, até aqui temol-o deixado falar sem o interromper ...
Ao que parece, para o presidente do Weldon-Institute, aquelles gritos, aquellas réplicas, aquelles desconchavos, não eram mais do que simples troca de argumentos.
—Comtudo, continuou elle, lembrar-lhe-hei que a theoria da aviação está de antemão condemnada e rejeitada pela maior parte dos engenheiros americanos e extrangeiros. Um invento que tem no seu passivo a morte de Sarrassin Volant, em Constantinopla, a do monge Voador em Lisboa, a de Letur em 1852, a de Groof, em 1864, sem contar com as victimas de que me não lembro, quando mais não fôsse que o mythologico Icaro ...
—Esse systema, respondeu Robur, não é mais condemnavel do que esse cujo martyrologio contém os nomes de Pilatre de Rozier, em Calais, de madame Blancard, em Paris, de Donaldson e Grimwood, que cahiram no lago Michigan, de Sivel e de Crocé-Spinelli, d’Eloy e de tantos outros que se não podem esquecer.
Era uma resposta “du tac au tac„, como se diz em esgrima.
—Além de que, continuou Robur, com os vossos balões, por mais aperfeiçoados que sejam, não podeis obter uma velocidade verdadeiramente prática. Levareis dez annos a dar a volta ao mundo, quando uma machina volante o poderá fazer em oito dias!
Novos gritos de protesto e de negação, que duraram tres grandes minutos, até ao momento em que Phil Evans poude tomar a palavra.
—Meu caro sr. aviador, disse este, o senhor que acaba de nos encarecer os beneficios da aviação, já porventura “aviou„ alguma vez?
—Sim, senhor!
—Já fez a conquista do ar?
—Talvez!
—Hurrah pelo Robur, o Conquistador! exclamou uma voz ironica.
—Pois sim, senhores! Robur, o Conquistador! acceito esse nome e hei de usal-o, porque tenho direito a elle.
—Permitta-me que duvidemos! exclamou Jem Cip.
—Meus senhores, continuou Robur, com o sobr’olho franzido, quando venho discutir seriamente uma cousa seria, não admitto que me respondam com desmentidos, e eu gostava de saber o nome do meu interruptor.
—Chamo-me Jem Cip ... e sou legumista ...
—Cidadão Jem Cip, respondeu Robur, eu sabia que os legumistas teem geralmente os intestinos mais longos que os dos outros homens, pelo menos uma boa toeza. Pois já é bastante; e não me obrigue a extendel-os ainda mais, começando primeiro pelas orelhas ...
—Ponham-n’o a andar!
—Para o meio da rua!
—Para fora d’aqui!
—A lei de Lynch!
—Torçam-n’o em forma de helice!...
O furor dos balonistas chegára ao cumulo. Tinham-se levantado todos, e rodeavam a tribuna. Robur desapparecia no meio de uma floresta de braços que se agitavam, como se fôssem soprados pela tempestade. Em vão a trombeta a vapor soltava notas no ar, por sobre a assembléa. N’essa tarde, a Philadelphia podia ter julgado que o fogo devorava um dos seus quarteirões, e que toda a agua da Scheylkill-river não bastava para o extinguir.
De repente, fez-se no tumulto um movimento de recúo. Robur, tirando as mãos das algibeiras, extendia os punhos para as primeiras filas d’aquelles obstinados sujeitos.
N’esses punhos tinha dois boxes á americana, que são revolvers ao mesmo tempo, e aos quaes basta a pressão dos dedos para os fazer disparar: verdadeiras metralhadoras de algibeira.
N’isto, aproveitando não só a hesitação dos assistentes, mas tambem o silencio que acompanhára aquella hesitação:
—Decididamente, disse elle, não foi Americo Vespucio quem descobriu o Novo Mundo; foi Sebastien Cabot! Não sois americanos, cidadãos balonistas! Não passaes de comedian ...
No mesmo instante, quatro ou cinco tiros se dispararam no ar. Não feriram ninguem. No meio do fumo, o engenheiro desapparecia; e quando o fumo se dissipou não se encontrou vestigio algum de Robur!
Robur, o Conquistador, tinha desapparecido, como se algum apparelho aviatorio o tivesse levado pelo ares.
É claro que mais de uma vez, em consequencia de discussões tempestuosas, ao sahir das sessões, tinham os membros de Weldon-Institute enchido de clamores a Walnut-street e as ruas adjacentes. Mais de uma vez os habitantes d’aquelle quarteirão se tinham justamente queixado d’aquellas tumultuosas discussões que os iam perturbar até nos proprios domicilios. Mais de uma vez, finalmente, os policemens tinham tido de entrevir para assegurar o transito dos que passavam, na maior parte muito indifferentes á questão da navegação aerea. Mas, antes d’aquella noite, nunca o tumulto tomára taes proporções, nunca as queixas tinham sido mais bem fundadas, nunca a intervenção da policia fôra mais necessaria.
Comtudo os membros do Weldon-Institute tinham uma certa desculpa. Nunca haviam esperado que os viessem atacar na sua propria casa. Áquelles obsecados pelo “mais ligeiro que o ar„ um, não menos obsecado pelo “mais pesado„, tinha dito cousas muito desagradaveis. Depois, no momento em que o iam tratar como elle merecia, eclipsára-se.
Ora, isto clamava por uma vingança. Para deixar impunes taes injurias, era preciso não ter sangue americano nas veias! Filhos de America, tratados como filhos de Cabot! Pois não era um insulto, tanto mais que cahia certo,—historicamente?
Os membros do club correram pois, em grupos, á Walnut-street, depois ás ruas vizinhas, e depois pelo bairro dentro. Dispertaram os habitantes. Obrigaram-os a deixarem revistar as suas casas, contentando-se com indemnisal-os, mais tarde, dos prejuizos feitos á vida privada de cada qual, que é particularmente respeitada entre os povos de origem saxonia. Em vão porém se desenvolveram todas aquellas balburdias e buscas. Robur não foi encontrado em parte alguma. Nem um vestigio d’elle! Tivesse partido no Go a Head, o balão do Weldon-Institute, e não sería menos facil achal-o! Depois de uma hora de pesquizas, tiveram de renunciar, e os collegas separaram-se, mas procurando extender as suas indagações por todo o territorio da dupla America, constituida pelo Novo Continente.
Pelas onze horas restabelecêra-se no bairro o socego. Philadelphia ía agora poder afundar-se n’um bom somno, que é o privilegio incontestavel das cidades que teem a felicidade de não serem industriaes. Os diversos membros do club não pensaram senão em ir cada qual para sua casa. Para nos não referirmos senão a alguns dos mais salientes, William T. Forbes, foi para os lados da sua grande trapeira de assucar, onde miss Dol e miss Mat lhe haviam preparado o chá, assucarado com a sua propria glucose, Truck Milnor tomou o caminho da sua fabrica, cuja bomba de fogo arfava dia e noite n’um dos bairros mais afastados. O thesoureiro Jem Cip, publicamente accusado de ter uma toeza menos de intestinos, do que comporta a machina humana, foi para a casa de jantar, onde o esperava uma ceia vegetal.
Dois dos mais importantes balonistas,—dois apenas,—pareciam não pensar em entrar nos seus domicilios tão depressa. Tinham aproveitado o ensejo para conversar com mais acrimonia ainda. Eram os irreconciliaveis Uncle Prudent e Phil Evans, o presidente e o secretario do Weldon-Institute.
Á porta do club, o creado Fricollin esperava Uncle Prudent, seu amo.
Pôz-se a seguil-o, sem se importar com o assumpto que trazia em disputa os dois collegas.
É por euphemismo que o verbo “conversar„ foi empregado para exprimir o acto a que se entregavam o presidente e o secretario do club. A verdade é que elles disputavam com uma energia que tinha origem n’uma antiga rivalidade.
—Nada! nada! repetia Phil Evans. Se eu tivesse tido a honra de presidir ao Weldon-Institute, nunca, oh! nunca se teria dado um tal escandalo!
—O que teria então feito, se tivesse tido essa honra? perguntou Uncle Prudent.
—Teria cortado a palavra a esse insultador publico, antes mesmo d’elle ter aberto a bôcca!
—Parece-me que para cortar a palavra a alguem, é preciso primeiramente tel-o deixado falar.
—Não na America, senhor! não na America!
E n’esta troca de recriminações mais azedas do que dôces, os dois personagens enfiavam pelos caminhos que cada vez os afastavam mais de sua casa; atravessavam bairros cuja situação os obrigava a fazer um longo desvio.
Fricollin seguia-os sempre; mas não se sentia tranquillo por ver seu amo metter-se por caminhos já desertos. Com effeito, a escuridão era profunda, e a lua, no seu crescente, começava apenas a “fazer os seus vinte e oito dias„.
Fricollin olhava pois para a direita e para a esquerda, a vêr se sombras suspeitas o espiavam. E de facto, elle julgou vêr cinco ou seis grandes diabos que pareciam não os perder de vista.
Instinctivamente, Fricollin approximou-se de seu amo; mas por cousa alguma d’este mundo elle se atreveria a interrompel-o no meio de uma conversação, da qual lhe podiam provir alguns arranhões.
Emfim, o acaso fez com que o presidente e o secretario do Weldon-Institute, sem pensar em tal, se dirigissem a Fairmont Park. Alli no mais acceso da disputa, atravessaram a Schuylkill-river, sobre a famosa ponte metallica; encontraram apenas alguns transeuntes retardatarios, e acharam-se afinal no meio de vastos terrenos, uns que se desenvolviam em pradarias immensas, outros ensombrados de magnificas e frondosas arvores, que fazem d’aquelle parque um dominio unico em todo o mundo.
Alli mais assaltaram o pobre Fricollin os seus terrores e com muito mais razão porque as cinco ou seis sombras tinham seguido atraz d’elle, pela ponte de Schuylkill-river. De modo que tinha as pupillas dos olhos tão dilatadas que se alargavam até á circumferencia da iris. E ao mesmo tempo, todo o seu corpo mirrava, retrahia-se, outros como se fôsse dotado d’aquella contractibilidade peculiar a certos moluscos e animaes articulados.
É que o creado Fricollin era um perfeito poltrão. Um verdadeiro negro do sul, com uma cabeça de estupido, n’um corpo de magrisella. Da edade precisa de vinte e um annos, nunca fôra escravo, nem mesmo de nascença; mas não valia mais por isso. Cheio de caretas, guloso e preguiçoso, era sobretudo de uma cobardia ideal. Estava, havia tres annos, ao serviço de Uncle Prudent. Cem vezes o tinham querido pôr a andar; porém haviam-n’o conservado com medo de vir um outro peior. Mas, fazendo parte da vida de um amo sempre mettido nas mais atrevidas empresas, Fricollin devia encontrar muitas occasiões em que a sua cobardia era sujeita a grandes provações. Mas tinha compensações:—ninguem lhe ralhava muito pela gulodice nem pela preguiça. Ah! Fricollin, se tu pudesses lêr no futuro!
Porque é que Fricollin não havia de ter ficado em Boston, ao serviço de certa familia Sueffel, que estando para fazer uma viagem á Suissa tinha renunciado a ella por causa dos tremores de terra? Pois não era essa a casa que convinha a Fricollin, de preferencia á de Uncle Prudent, onde a temeridade estava na ordem de todos os dias?
Emfim, elle lá estava, e seu amo tinha acabado por se habituar aos seus defeitos. Além de que, elle tinha uma qualidade. Apesar de ser negro de origem, não falava negro, o que é para se ter em consideração, porque nada é mais desagradavel do que esse odioso calão em que tanto se abusa do pronome possessivo e dos infinitivos.
Portanto fica bem assente que o creado Fricollin era um poltrão, e, como se costuma dizer, “poltrão como a lua„. Ora, a proposito d’isso, é de justiça protestar contra esta comparação insultante para a loura Phebéa, a dôce Selena, a casta irmã do radioso Apollo.—Com que direito se ha de accusar de cobardia um astro que, desde que o mundo é mundo, encarou sempre de frente a terra, sem nunca lhe voltar as costas?
Seja como fôr, áquella hora, cêrca da meia noite, o crescente da “pallida calumniada„ começava a desapparecer no poente, atraz das altas ramagens do parque. Os seus raios, coando por entre os ramos, punham alguns arabescos no chão. A parte superior do arvoredo parecia assim menos sombria.
Isso permittiu a Fricollin lançar um olhar ainda mais indagador.
—Brrr! Lá estão ainda, os patifes! Decididamente, veem approximando!
Não se poude conter mais, e dirigindo-se ao seu amo:
—Master Uncle! disse elle.
É assim que elle o tratava, e que o presidente do Weldon-Institute queria que elle o tratasse. N’aquelle momento a contenda entre os dois rivaes estava no auge. E como elles se mandavam passear mutuamente, a mesma intimação foi feita brutalmente a Fricollin.
E ao mesmo tempo que os dois falavam, mettendo-se á cara um do outro, Uncle Prudent embrenhava-se cada vez mais através dos prados desertos de Fairmont-Park, afastando-se cada vez mais da Schuylkill-river, e da ponte que era necessario alcançar de novo, para entrar na cidade.
Achavam-se os tres no meio de um arvoredo, cujas copas eram illuminadas pelos derradeiros clarões do luar. No fim do arvoredo abria-se uma larga clareira, vasto campo oval, admiravelmente disposto para as luctas de um ring. Nenhum accidente de terreno obstaria alli ao galopar de um cavallo, nenhuma arvore interceptava a vista do espectador, ao longo de uma pista circular de algumas milhas.
E comtudo, se Uncle Prudent e Phil Evans não estivessem absortos na sua discussão, se tivessem olhado com certa attenção, não teriam encontrado a clareira com o seu aspecto habitual.
Seria um estabelecimento de farinhas, que tivesse sido montado na vespera? Com effeito, assim parecia, pelo conjuncto de moinhos de vento, cujas azas, immoveis n’aquelle momento, gesticulavam na sombra.
Mas nem o presidente nem o secretario do Weldon-Institute tinham notado n’esta extranha modificação na paizagem do Fairmont-Park. Fricollin tão pouco o reparou. Parecia-lhe que os ladrões se approximavam, se juntavam, como no acto de darem o golpe. Tinha um terror convulso; os membros paralysados, os cabellos hirtos,—emfim estava no ultimo grau do terror!
Comtudo, mesmo com as pernas a tremer, e a dobrarem-se-lhe, teve fôrça para exclamar mais uma vez:
—Master Uncle!... Master Uncle!
—Eh! o que é que queres afinal? perguntou Uncle Prudent.
Talvez Phil Evans e elle não desgostassem de descarregar a sua colera, sovando de grande o infeliz Fricollin. Mas não tiveram tempo, como este não teve tambem para responder.
Um assobio se ouviu no bosque. No mesmo instante accendia-se no meio da clareira como que uma estrella electrica.
Era decerto um signal, e sendo assim, é porque chegára o momento de se realisar alguma violencia.
Em menos tempo que seria preciso para o pensar, seis homens surgiram do bosque; dois lançaram-se sobre Uncle Prudent, dois sobre o creado Fricollin,—estes ultimos demasiados, evidentemente, porque o negro era incapaz de se defender.
O presidente e o secretario do Weldon-Institute, apesar de surprehendidos por aquelle ataque, quizeram resistir. Não tiveram para isso nem tempo, nem fôrças. Em alguns segundos, era-lhes posta uma mordaça na bôcca, uma venda nos olhos; e, vencidos, ligados, eram levados rapidamente através da clareira. O que podiam elles pensar senão que se tratava d’essa raça de gente pouco escrupulosa que não hesita em despojar os transeuntes retardatarios, no fundo dos bosques! Nada d’isso succedeu, porém. Nem mesmo lhes apalparam as algibeiras, apesar de Uncle Prudent trazer sempre comsigo alguns milhares de dollars em papel.
Em resumo, um minuto depois d’esta aggressão, sem que uma unica palavra se trocasse entre os aggressores, Uncle Prudent, Phil Evans e Fricollin sentiam que os punham cautelosamente no chão, não sobre a herva da clareira, mas n’uma especie de sobrado que gemeu com o pêso d’elles. Alli foram postos ao lado um do outro. Uma porta se fechou sobre elles. Depois, o ranger de uma lingueta na fechadura, fez-lhes vêr que estavam prisioneiros.
Fez-se então um ruido continuo, como que um fremito, um frrr, onde os rrr se prolongavam até ao infinito, sem que outro nenhum som se pudesse perceber no meio d’aquella noite tão calma.
Que alarme, no dia seguinte, em Philadelphia! Desde as primeiras horas se soube o que se tinha passado na vespera, na sessão do Weldon-Institute: o apparecimento de um mysterioso personagem, um tal engenheiro Robur,—Robur, o Conquistador!—a lucta que elle parecia querer travar contra os balonistas, e depois a sua desapparição inexplicavel.
Mas outra cousa foi quando toda a cidade soube que tambem o presidente e o secretario do club tinham desapparecido durante a noite de 12 para 13 de junho.
Que de pesquizas em toda a cidade e seus arredores! Mas inutilmente. Os jornaes de Philadelphia, depois os da Pensylvania, depois os da America inteira, apoderaram-se do assumpto e explicaram-n’o de mil maneiras, das quaes nenhuma devia vir a ser verdadeira. Sommas consideraveis foram promettidas por meio de annuncios e cartazes, não só a quem encontrasse os respeitaveis individuos que haviam desapparecido, mas a quem pudesse dar qualquer indicio que lhes descobrisse a pista. Nada se conseguiu. Se a terra se abrisse para os tragar, o presidente e o secretario do Weldon-Institute não estariam mais eliminados da face da terra.
Os jornaes do governo pediram que o pessoal da policia fôsse augmentado consideravelmente, visto que taes attentados podiam repetir-se contra os melhores cidadãos dos Estados Unidos,—e tinham razão ...
É verdade que a opposição pediu que esse pessoal fôsse licenciado por inutil, visto que taes attentados se podiam repetir, sem que fôsse possivel encontrar os vestigios dos seus auctores,—e tambem não deixava de ter razão.
Em summa, a policia continuou sendo o que era, o que será sempre no melhor dos mundos, que não é perfeita nem conseguirá sêl-o.
Com uma venda nos olhos, uma mordaça na bôcca, os pés e as mãos ligados com uma corda, era impossivel verem, falarem, moverem-se. Não era portanto cousa que tornasse acceitavel a situação de Uncle Prudent, de Phil Evans e do creado Fricollin. Além d’isso, não saber quem eram os auctores de um tal rapto, nem para onde os haviam atirado como meros fardos n’um comboio de bagagens; ignorar onde estavam, a que destino estavam reservados, era caso para desesperar o mais paciente da especie ovina, e sabemos que os membros do Weldon-Institute não eram precisamente carneiros na paciencia. Dada a sua violencia de caracter, imagina-se facilmente em que estado devia achar-se Uncle Prudent.
Em todo o caso Phil Evans e elle deviam pensar que lhes seria difficil tomar assento no dia seguinte á mesa da presidencia do club.
Quanto a Fricollin, com os olhos vendados, a bôcca tapada, era-lhe impossivel pensar fôsse no que fôsse. Estava mais morto do que vivo.
Durante uma hora, não se modificou a situação dos prisioneiros! Ninguem os veiu visitar nem dar-lhes a liberdade de movimento e de palavra, de que tanto necessitavam. Estavam reduzidos a suspiros abafados, a exclamações soltas através as mordaças, a sobresaltos de peixes fora d’agua. O que isto indicava de colera muda, de furor concentrado, ou, para melhor dizer, reprimido, é facil de comprehender. Após estes infructiferos esforços, permaneceram algum tempo inertes. E então como lhes faltasse o sentido da vista, procuraram deduzir pelo sentido do ouvido algum indicio do que fôsse esse estado inquietador de cousas. Em vão procuravam, porém, surprehender outro ruido além do interminavel e inexplicavel frrr, que parecia envolvel-os n’uma atmosphera arrepiante.
Comtudo deu-se o seguinte: Phil Evans, procedendo com serenidade, conseguiu alargar a corda que lhe prendia os pulsos. Depois desatou a pouco e pouco o nó; os dedos escorregaram uns por sobre os outros, as mãos tomaram o seu natural desembaraço.
Esfregando-as fortemente, restabeleceu-se a circulação impedida pelos ligamentos. Um instante depois, Phil Evans tinha tirado a venda dos olhos, arrancado a mordaça da bôcca, cortado as cordas com a fina lamina do seu “bowie-knife„. Um americano que não traga sempre na algibeira o seu bowie-knife, não é americano.
Além de que, se Phil Evans conseguira poder mover-se e falar, não conseguira mais nada. Não via cousa alguma, pelo menos n’aquelle instante. A escuridão era completa. Comtudo uma certa claridade filtrava por entre uma especie de setteira aberta na parede, a uns seis ou sete pés de altura.
Houvesse o que houvesse, a verdade é que Phil Evans não hesitou um instante em libertar o seu rival. Alguns golpes de bowie-knife, bastaram para cortar os nós que lhe atavam os pés e as mãos. Immediatamente Uncle Prudent, que estava já meio enraivecido, erguendo-se sobre os joelhos, arrancou a venda e a mordaça, e depois, com voz estrangulada:
—Obrigado! disse.
—Não!... Não ha motivo para agradecimentos, respondeu o outro.
—Phil Evans?
—Uncle Prudent?
—Aqui já não ha o presidente e o secretario do Weldon-Institute; já não ha adversarios.
—Tem razão, respondeu Phil Evans. Estão apenas dois homens que teem de se vingar de um terceiro, cujo attentado exige severas represalias. E esse terceiro ...
—É Robur!...
—É Robur!
Foi um ponto em que os dois ex-concorrentes se acharam no mais completo accôrdo. A este respeito não havia a receiar nenhuma controversia.
—E o seu creado? observou Phil Evans, indicando Fricollin, que soprava como uma phoca. Temos de o desprender.
—Ainda não, respondeu Uncle Prudent. Massar-nos-ha com as suas jeremiadas, e temos mais que fazer do que queixar-nos.
—O que é, Uncle Prudent?
—Libertarmo-nos, se fôr possivel.
—E mesmo que o não seja.
—Tem razão, Phil Evans; mesmo que o não seja!
Quanto a duvidar um instante que esse rapto devesse ser attribuido ao tal extranho Robur, isso não podia passar pela idéa do presidente e do seu collega. Com effeito, se fôssem simples e honrados ladrões, depois de lhes ter roubado relogios, joias, carteiras, bolsas de dinheiro, tel-os-hiam atirado ao fundo do Scheylkill-river, com uma punhalada na garganta, em vez de os encerrar no fundo de ... De que?—Grave questão, na realidade, que convinha illucidar, antes de começar os preparativos de uma evasão com algumas probabilidades de exito.
—Phil Evans, continuou Uncle Prudent, quando sahimos d’aquella sessão, em vez de trocarmos amabilidades, de que não falâmos mais, teria sido melhor não sermos tão distrahidos. Se tivessemos ficado nas ruas de Philadelphia, nada d’isto teria acontecido. Evidentemente esse Robur imaginára o que se ia passar no club; previu a colera que a sua attitude provocante ia levantar; tinha collocado á porta alguns d’esses bandidos, para lhe prestarem auxilio.
Quando deixámos a rua Walnut, aquelles esbirros espiaram-nos, seguiram-nos, e quando nos viram imprudentemente mettidos pelas avenidas de Fairmont-Park, fizeram-nos esta partida.
—De accôrdo, respondeu Phil Evans. Sim, fizemos muito mal em não irmos directamente para as nossas casas.
—Anda-se sempre mal em não andar bem! respondeu Uncle Prudent.
N’esse momento, um longo suspiro se ouviu no canto mais obscuro da cellula.
—O que é? perguntou Phil Evans.
—Nada! Fricollin que sonha.
E Uncle Prudent continuou:
—Entre o momento em que fomos agarrados, a alguns passos da clareira, e o momento em que nos metteram n’este reducto, não decorreram mais de dois minutos. E’ portanto evidente que elles nos não arrastaram para além de Fairmont-Park ...
—E se o tivessem feito, teriamos sentido um movimento de translação.
—De accôrdo, respondeu Uncle Prudent; portanto é fora de duvida que estamos mettidos dentro de um vehiculo,—talvez uma d’essas grandes carroças do campo, ou um carro de saltimbancos ...
—Evidentemente! Se fôsse um barco amarrado ás margens da Schuylkill-river, conhecer-se-hia pelos balanços produzidos pela corrente.
—De accôrdo, completamente de accôrdo, repetiu Uncle Prudent; e entendo que, já que estamos ainda na clareira, é agora o momento preciso de fugirmos, esperando encontrar mais tarde esse Robur ...
—E fazer-lhe pagar caro este attentado á liberdade de dois cidadãos dos Estados Unidos da America!
—Caro ... muito caro!
—Mas quem é esse homem? D’onde veiu? É um inglez, um allemão, um francez?...
—É um miseravel, e tanto basta! respondeu Uncle Prudent. E agora mãos á obra!
E os dois, de mãos extendidas, os dedos abertos, apalparam então as paredes do compartimento, a vêr se encontravam uma juncção ou uma fenda. Nada! Tambem nada a respeito da porta! Estava hermeticamente fechada e seria impossivel arrombar a fechadura. Seria preciso fazer um buraco e safarem-se por elle.
Restava saber se os bowie-knifes poderiam furar as paredes, se as suas folhas não se embotariam ou se partiriam n’aquelle trabalho.
—Mas d’onde vem este fremito que passa? perguntou Phil Evans, muito surprehendido com aquelle frrr continuo.
—De certo que é o vento, respondeu Uncle Prudent.
—O vento? Pareceu-me que até á meia noite estivera tudo tranquillo.
—Evidentemente, Phil Evans. Não sendo o vento, o que queria que fôsse?
Phil Evans, abrindo o melhor ferro do seu canivete, procurou furar a parede, junto da porta. Talvez não fôsse preciso mais do que um buraco, para a abrirem por fora, se a porta estivesse apenas no fecho, ou se a chave tivesse ficado na fechadura.
Alguns minutos de trabalho não tiveram outro resultado além de fazer bôccas na folha, partir-lhe a ponta, e transformal-a em serra de mil dentes.
—Não entra, Phil Evans?
—Não.
—Estaremos nós, por acaso, n’uma cellula de folha de ferro?
—Nada, Uncle Prudent. Estas paredes, quando se lhes bate, não produzem nenhum som metallico.
—N’esse caso é madeira rija?
—Nem ferro, nem madeira.
—Então o que é?
—É impossivel dizel-o; mas, em todo o caso, é uma substancia em que o aço não pode entrar.
Uncle Prudent, n’um impeto de colera, fez juras, bateu com o pé no sobrado sonoro, emquanto com as mãos procurava estrangular um Robur imaginario.
—Tranquillise-se, Uncle Prudent, tranquillise-se! Tente agora pela sua vez.
Uncle Prudent tentou, mas o bowie-knife não poude entrar na parede, que mal conseguiu riscar com as suas melhores laminas, como se ella fôsse de crystal.
Portanto toda a fuga tornava-se impraticavel, admittindo mesmo que pudesse ter sido tentada, aberta que fôsse a porta.
Tiveram de se resignar, por momentos, o que não é para um temperamento yankee, e de esperar tudo do acaso, o que naturalmente repugna a espiritos eminentemente praticos.
Mas não o fizeram sem objurgatorias, palavrões e invectivas violentas contra Robur, o qual não devia ser homem que se commovesse, a deduzir do pouco que elle de si tinha revelado em presença do Weldon-Institute.
Comtudo Fricollin começou por dar demonstrações nada equivocas do seu mal estar. Porque sentisse ou dôres no estomago, ou caimbras no corpo, estorcia-se de um modo lastimoso.
Uncle Prudent julgou dever acabar com aquella gymnastica, cortando as cordas que ligavam o negro.
Talvez se arrependesse; porque foi immediatamente uma lamentação interminavel, em que os esgares do espanto se misturavam com os soffrimentos da fome. Fricollin não soffria mais pelo cerebro do que pelo estomago. Era difficil dizer a qual d’estas duas visceras devia mais o negro o que estava padecendo.
—Fricollin! exclamou Uncle Prudent.
—Master Uncle!... Master Uncle!... respondeu o negro entre dois lugubres gemidos.
—É possivel que estejamos condemnados a morrer de fome n’esta prisão. Mas estamos resolvidos a não succumbir senão quando tivermos exgottado todos os meios de alimentação, capazes de prolongar a nossa vida ...
—Comer-me? exclamou Fricollin.
—Como se faz sempre a um negro em taes circumstancias!... Portanto Fricollin, trata de te fazeres esquecer ...
—Ou então, Fricollin, fazemos-te em fricassé, accrescentou Phil Evans.
E, muito a serio, Fricollin teve medo de ser utilisado para a prolongação de duas existencias, bem mais preciosas que a sua. E limitou-se a gemer in petto.
Comtudo o tempo ía decorrendo, e toda a tentativa para forçar a porta ou a parede tornára-se infructifera. De que era essa parede, impossivel fôra reconhecer. Não era metal, não era madeira, não era pedra. Além d’isso, o sobrado da cellula parecia feito da mesma substancia. Batendo-se com o pé, tinha um som particular, que Uncle Prudent não poude classificar entre os sons conhecidos. Outra observação: por baixo, aquelle sobrado parecia soar no vacuo, como se não estivesse em contacto directo com o chão da clareira. Sim! o inexplicavel frrr parecia acariciar-lhe a face superior. Tudo isso não era tranquillisador.
—Uncle Prudent? disse Phil Evans.
—Phil Evans? respondeu Uncle Prudent.
—Parece-lhe que a nossa cellula tenha mudado de sitio?
—Nada! não me parece!
—Comtudo, por occasião de sermos encarcerados, e nos primeiros momentos, pude notar distinctamente o fresco cheiro da herva e o olor rezinoso das arvores do parque. Agora, por mais que eu aspire o ar, parece-me que todos aquelles cheiros desappareceram ...
—De facto ...
—Como explica isso?
—Expliquemol-o da maneira que quizermos, Phil Evans, excepto pela hypothese de que a nossa prisão tenha mudado de sitio. Repito, se estivessemos dentro de um carro ou de um barco a deslisar sobre as aguas, tel-o-hiamos sentido.
Fricollin soltou então um longo gemido, que poderia ter passado pelo seu ultimo suspiro, se não se lhe seguissem outros.
—Quero acreditar que esse Robur não deixará de nos mandar em breve comparecer á sua presença, continuou Phil Evans.
—Assim o espero! exclamou Uncle Prudent. E hei de então dizer-lhe ...
—O que?
—Que depois de ter começado como um insolente, acabou como um cobarde.
N’esse momento Phil Evans observou que o dia principiava a despontar. Um clarão, embora vago, filtrava-se através a estreita setteira, aberta na parte superior da parede, do outro lado da porta. Deviam pois ser proximamente quatro da manhã, porque é a essa hora que no mez de junho e n’aquella latitude o horisonte de Philadelphia se esclarece com os primeiros raios da manhã.
Comtudo, quando Uncle Prudent fez soar o seu relogio de repetição,—obra prima que provinha da propria officina do seu collega,—elle não indicou mais de tres e um quarto, apesar do relogio não ter parado.
—Curioso! disse Phil Evans. Ás tres e um quarto devia ainda ser noite.
—Talvez então o meu relogio se tivesse atrazado ... respondeu Uncle Prudent.
—Um relogio da Walton Watch Company! exclamou Phil Evans.
Fôsse como fôsse, era de facto o dia que despontava. A pouco e pouco a setteira ía-se destacando em claro na escuridade da cellula. Comtudo, se a aurora surgia mais cedo do que permittia o 41.º parallelo, que é de Philadelphia, não vinha com essa rapidez nas latitudes baixas.
Nova observação de Uncle Prudent a esse respeito, novo phenomeno inexplicavel.
—Podiamos talvez trepar até á setteira, observou Phil Evans, e procurar vêr onde estamos?
—Talvez, respondeu Uncle Prudent.
E dirigindo-se a Fricollin:
—Vamos, Fricollin, arriba!
O negro levantou-se.
—Põe-te de costas contra essa parede, continuou Uncle Prudent, e, Phil Evans, queira subir ás costas d’esse rapaz, emquanto eu o seguro, para que elle não furte o corpo.
—De muito bom grado, respondeu Phil Evans.
Um instante depois, com os pés em cima dos hombros de Fricollin, tinha os olhos á altura da setteira.
A setteira estava fechada, não com um vidro lenticular, como o de uma vigia de navio, mas com um vidro simples. Apesar de não ser muito espesso, não deixava vêr nada a Phil Evans, cujo raio visual estava excessivamente limitado.
—Pois parta o vidro, que talvez possa assim vêr melhor.
Phil Evans deu uma forte pancada com o cabo do seu bowie-knife sobre o vidro, que produziu um som argentino, mas não se partiu.
Segunda pancada, ainda mais violenta. O mesmo resultado.
—Bem! exclamou Phil Evans. Vidro que se não parte!
Com effeito, era preciso que aquelle vidro fôsse de um que é temperado pelos processos do inventor Siemens, pois, apesar de golpes repetidos, permaneceu intacto.
O espaço porém já então estava assaz esclarecido para que o olhar pudesse extender-se para fora, pelo menos no limite do campo de visão cortado pela moldura da setteira.
—O que vê? perguntou Uncle Prudent.
—Nada.
—Pois nem um macisso de arvoredos?
—Não.
—Nem a copa dos arvoredos?
—Nem isso.
—Não estamos portanto no centro da clareira?
—Nem na clareira, nem no parque.
—Divisa pelo menos tectos de casas, ou o cimo dos monumentos? disse Uncle Prudent, cujo desapontamento, mesclado de furor, ía crescendo.
—Nem tectos nem cimos.
—Pois então, nem um pau de bandeira, nem o campanario de uma egreja, nem a chaminé de uma officina?
—Nada mais do que o espaço!
N’esse mesmo momento abria-se a porta da cellula, e apparecia um homem.
Era Robur.
—Honrados balonistas, disse elle, com voz grave, tendes agora a liberdade de ir para onde quizerdes ...
—Livres! exclamou Uncle Prudent.
—Sim ... dentro dos limites do Albatrós!
Uncle Prudent e Phil Evans precipitaram-se para fora da cellula.
E o que viram?
A duzentos ou tresentos metros abaixo d’elles, a superficie de um paiz que elles em vão procuravam reconhecer!
Em que épocha deixará o homem de rastejar cá em baixo, para viver no azul e na paz do céo?
A esta pergunta de Camillo Flammarion, é facil a resposta: será na épocha em que os progressos da mechanica tiverem permittido que se resolva o problema da aviação. E dentro em uns annos,—como é de prever,—uma utilisação mais pratica da electricidade conduzirá á solução do problema.
Em 1783, muito antes dos irmãos Montgolfier terem construido o primeiro balão do seu nome, e o physico Charles o seu, alguns espiritos aventurosos tinham sonhado a conquista do espaço por meio de apparelhos mechanicos. Os primeiros inventores não tinham pois pensado em apparelhos mais ligeiros do que o ar,—o que a physica do seu tempo não permittia imaginar. Era aos apparelhos mais pesados que elle, ás machinas volantes, feitas á imitação da ave, que pediam a realisação da locomoção aerea.
Fôra precisamente o que fizera esse doido do Icaro, filho de Dedalo, cujas azas, prezas com cera, cahíram ao approximarem-se do sol.
Mas sem remontar até os tempos mythologicos, sem falar de Archytas de Tarento, encontra-se já nos trabalhos de Dante de Perusa, de Leonardo de Venci, de Guidotti, a idéa de machinas destinadas a moverem-se no meio da atmosphera. Dois seculos e meio mais tarde, os inventores começam a multiplicar-se. Em 1742, o marquez de Racqueville fabríca um systema de azas, ensaia-as por sobre o Sena, e cae partindo um braço. Em 1768, Paucton concebe a idéa de um apparelho de dois helices suspensivo e propulsivo. Em 1781, Meerwein, architecto do principe de Bade, construe uma machina de movimento orthopedico, e protesta contra a direcção dos aerostatos, que acabavam de ser inventados.
Em 1784, Launoz e Bienvenu fazem manobrar um helicoptero, movido por molas. Em 1808 ensaios de voar pelo austriaco Thiago Degon. Em 1810, uma brochura de Denian, de Nantes, onde são estabelecidos os principios do “Mais pesado que o ar„.
Depois, de 1811 a 1840, estudos e invenções de Berblinger, de Vigual, de Sarti, de Dubochet, de Cagniard de Latour. Em 1842, vem o inglez Henson com o seu systema de planos inclinados e helices movidos a vapor; em 1845, Cossus e o seu apparelho de helices ascensionaes; em 1847, Camillo Vert e o seu helicoptero com azas de pennas; em 1852, Letur com o seu systema de pára-quedas dirigivel, cuja experiencia lhe custou a vida; no mesmo anno, Miguel Loup, com o seu plano escorregadio, munido de quatro azas girantes; em 1853, Béléguic e o seu aeroplano, movido por helices de tracção, Vaussin-Chardannes com o seu papagaio livre e dirigivel, Georges Cauley com os seus planos de machinas volantes, providas de um motor de gaz.
De 1854 a 1863, apparece José Plinio, com privilegio para muitos systemas aereos, Breant, Carlingford, Le Bris, Du Temple, Bright, cujos helices ascensionaes giram em sentido inverso, Smythias, Panafieu, Crosnier, etc.
Finalmente, em 1863, graças aos esforços de Nadar, é fundada em Paris uma sociedade do “Mais pesado que o ar„. Alli os inventores põem em experiencia machinas, das quaes algumas teem já privilegio: de Pouton de Amécourt e o seu helicoptero a vapor, de la Landelle e o seu systema de combinações de helices com planos inclinados e pára-quedas, de Louvrié e o seu aeroscapho, de Eesterno e a sua ave mechanica, de Groof e o seu apparelho de azas movidas por alavancas.
O impulso estava dado; os inventores inventam, os calculadores calculam tudo que deve tornar pratica a locomoção aerea. Bourcart, Le Bris, Kaufmann, Smyth, Stringfellou, Prigent, Danjard, Pomés e de la Pause, Moy, Pinaud, Jobert, Hureau de Villeneuve, Achenbach, Garapon, Duchesne, Dauduran, Parisel, Dienaide, Melkisff, Forlamini, Brearey, Tatin, Dandrieux, Edison, uns com azas ou helices, outros com planos inclinados, imaginam, criam, fabricam, aperfeiçoam as suas machinas volantes, que estarão prestes a funccionar no dia em que um motor de fôrça consideravel, e de uma ligeireza excessiva, lhes fôr applicado por algum inventor.
Desculpem esta nomenclatura um pouco longa. Pois não era preciso mostrar todos estes graus da escala da locomoção aerea, no alto da qual apparece Robur o Conquistador? Sem os tacteamentos, as experiencias dos seus antecessores, poderia o engenheiro conceber um apparelho tão perfeito? Não decerto! E se elle só tinha desdens para os que teimavam em buscar a direcção dos balões, tinha em alta estima todos os partidarios do “Mais pesado que o ar„, inglezes, americanos, italianos, austriacos, francezes,—francezes sobretudo, cujos trabalhos, aperfeiçoados por elle, o tinham levado a crear, e depois a construir esse engenho volatil, o Albatrós, lançado através das correntes da atmosphera.
—Pigeon vole! exclamava um dos persistentes adeptos da aviação.
—Havemos de vir a andar por sobre o ar, como andâmos por sobre a terra! respondêra um dos seus mais encarniçados partidarios.
—Á locomotiva segue-se a aeromotiva! bradára o mais ruidoso de todos, que embocava as trombetas da publicidade para despertar o velho e o novo mundo.
De facto nada está mais assente do que ser o ar um ponto de apoio resistentissimo. Uma circumferencia de 1 metro de diametro, formando pára-quéda, pode não só moderar uma descida no ar, mas tambem tornal-a isochroma. É o que se sabia.
Sabia-se egualmente que, quando a velocidade de translação é grande, o trabalho da gravidade varía approximadamente na razão inversa do quadrado da distancia d’aquella velocidade e torna-se quasi insignificante.
Sabia-se ainda, que quanto mais o pêso de um animal volante augmenta, menos augmenta proporcionalmente a superficie alada necessaria para o sustentar, embora os movimentos que elle deva fazer sejam mais lentos.
Um apparelho de aviação deve, pois, ser construido de modo a utilisar estas leis naturaes, a imitar a ave, “esse typo admiravel da locomoção aerea„ disse o dr. Marcy, do Instituto de França.
Em summa, em tres especies se resumem os apparelhos que podem resolver esse problema.
1.º Os helicopteros ou espiraliferos, que não são mais do que eixos verticaes.
2.º Os orthopteros, engenhos que tendem a reproduzir o vôo das aves.
3.º Os aeroplanos, que não são, a bem dizer, mais do que planos inclinados, como o papagaio, mas rebocados ou impellidos por helices horisontaes.
Cada um d’estes systemas tem tido, e tem ainda hoje partidarios decididos que a nada cedem n’este ponto.
Comtudo Robur, por muitas considerações, havia rejeitado os dois primeiros.
É fora de duvida que o orthoptero, ave mechanica, apresenta certas vantagens. Os trabalhos, as experiencias de M. Renaud, em 1884, o provaram.
Mas, haviamos dito, era preciso não imitar servilmente a natureza. As locomotivas não foram copiadas das lebres, nem os navios a vapor dos peixes. Ás primeiras puzeram-lhes rodas, que não são pés; aos segundos helices, que não são barbatanas. E não andam peor por isso. Pelo contrario. Além de que, sabe-se porventura o que dá mechanicamente o vôo das aves, cujos movimentos são extremamente complexos? Pois o dr. Merey não suspeitou que as pennas se entreabriam, ao levantar-se a aza, para deixar passar o ar, movimento difficil de produzir-se com uma machina artificial?
Por outro lado, era fora de duvida que os aeroplanos haviam dado alguns bons resultados. Os helices que oppõem um plano obliquo á camada aerea, era o meio de produzir um trabalho de ascensão, e pequenos apparelhos experimentados provavam que o pêso disponivel, isto é, aquelle de que se pode dispôr além do pêso do apparelho, augmenta com o quadrado da velocidade. Havia n’isso grandes vantagens,—superiores mesmo ás dos aereostatos submettidos a um movimento de translação.
Apesar d’isso Robur tinha pensado que o que ha de melhor era tambem o que ha de mais simples.
Tambem os helices,—“santos helices„, com que tinham atirado á cara de Weldon-Institute, tinham bastado a todas as necessidades da sua machina volante. Uns travavam o apparelho suspenso no ar, os outros rebocavam-n’o em condições maravilhosas de velocidade e de segurança.
Com effeito, theoricamente, por meio de um helice de passo sufficientemente curto, mas de uma superficie consideravel, como o dissera o sr. Victor Tatur, se poderia “levando as cousas ao extremo„, levantar um pêso indefinido com a minima fôrça.
Se o orthoptero (bater de azas das aves) se eleva apoiando-se unicamente no ar, o helicoptero eleva-se ferindo-o obliquamente com os ramos do seu helice, como se subisse por um plano inclinado. Verdadeiramente estas são azas de helices.
O helice caminha necessariamente na direcção de um eixo. Se o eixo é vertical, desloca-se verticalmente; se é horisontal, desloca-se horisontalmente.
Todo o apparelho voador do engenheiro Robur consistia n’estes dois movimentos.
Eis a descripção exacta do que se pode dividir em tres partes essenciaes: a plataforma, os engenhos de suspensão e de propulsão, e as machinas.
Plataforma.—É uma verdadeira ponte de navio, com prôa em forma de espora, tendo 30 metros de comprimento e quatro de largura. Por baixo uma especie de concha, solidamente construida, contendo os apparelhos destinados a produzir a potencia mechanica, o deposito das munições, os utensilios, o armazem geral para provisões de toda a especie, inclusivè agua de bordo. Em volta da ponte, alguns postes de madeira, cobertos de uma rede de ferro, supportam um anteparo com corrimão. Á sua superficie estão os compartimentos destinados, uns ao alojamento do pessoal, outros ás machinas. Nos compartimentos centraes funcciona a machina que põe em acção todos os apparelhos de suspensão, nos da frente a machina do propulsor de deante; no de traz a machina do propulsor correspondente,—ficando cada machina em separado. Do lado da prôa, na primeira divisoria, estão a officina, a cozinha, o posto dos tripulantes. Do lado da pôpa, nos ultimos compartimentos, estão dispostos muitos beliches, entre outros, o do engenheiro, uma casa de jantar, e depois, por cima, uma casa envidraçada, onde está o timoneiro, que dirige o apparelho por meio de um poderoso leme. Todos os compartimentos são esclarecidos por meio de setteiras, fechadas com vidros temperados, que apresentam dez vezes a resistencia do vidro ordinario. Por baixo do casco, está estabelecido um systema de molas flexiveis, destinadas a abrandar os choques, apesar do acto de fundear em terra se poder realisar com uma extrema suavidade; tanto o engenheiro é senhor dos movimentos do apparelho.
Engenhos de suspensão e de propulsão.—Por cima da plataforma erguem-se verticalmente trinta e sete eixos, dos quaes quinze de cada lado, e sete, mais altos, ao meio. Dir-se-hia um navio de trinta e sete mastros. Unicamente esses mastros, em vez de vélas, trazem cada um dois helices horisontaes, de um passo e de um diametro assaz curtos, mas aos quaes se pode imprimir uma rotação prodigiosa. Cada um d’estes eixos tem um movimento independente do movimento dos outros, e além d’isso, de dois em dois, cada eixo gira em sentido inverso,—disposição necessaria para que o apparelho não seja tomado de um movimento giratorio. De modo que os helices, não deixando de continuar a subir sobre a columna de ar vertical, fazem equilibrio contra a resistencia horisontal. Em consequencia d’isso, o apparelho fica munido de sessenta e quatro helices suspensivos, cujos tres ramos são guardados exteriormente por um circulo metallico que, fazendo o papel de volante, economisa a fôrça motriz. Na frente e na retaguarda, montados sobre eixos horisontaes, dois helices propulsivos, de quatro ramos, de um passo inverso muito alongado, giram em sentido differente e communicam o movimento de propulsão. Estes dois helices, de um diametro muito maior que o dos helices de suspensão, podem egualmente girar com uma excessiva velocidade.
Em summa, este apparelho aproveita ao mesmo tempo dos systemas que teem sido preconisados pelos engenheiros srs. Cossus, de la Landelle e de Ponton de Amécourt, systemas aperfeiçoados pelo engenheiro Robur. Mas é sobretudo na escolha e na applicação da fôrça motriz que elle tem direito de ser considerado como inventor.
Machinas.—Não é nem ao vapor de agua ou outros liquidos, nem ao ar comprimido ou outros gazes elasticos, nem ás misturas explosivas susceptiveis de produzir uma acção mechanica, que Robur foi pedir a potencia necessaria para sustentar e mover o seu apparelho. Foi á electricidade, a esse agente que será um dia a alma do mundo industrial. Mas nenhuma machina electro-motriz o produzia; apenas pilhas e accumuladores. Quaes são porém os elementos que entram na composição d’aquellas pilhas, e que acidos os põem em acção? N’isso consistia o segredo de Robur.
O mesmo com respeito aos accumuladores. De que natureza são as suas laminas positivas e negativas, não se sabe. O engenheiro tivera o cuidado de tirar um privilegio de invenção. E afinal o resultado era incontestavel:—pilhas de um effeito extraordinario; acidos de uma resistencia, quasi absoluta, á evaporação e á congelação; accumuladores que deixam a perder de vista os Faure-Sellon-Volckmar; finalmente correntes cujo valor se cifra em numerosas incognitas.
D’ahi um poder em cavallos electricos, por assim dizer, infinito, pondo em acção os helices que communicam ao apparelho uma fôrça de suspensão e de propulsão superior a todas as suas necessidades, seja em que circumstancia fôr.
Mas, convem repetir, isso pertence exclusivamente ao engenheiro Robur, e a seu respeito elle guardou o segredo mais absoluto. Se o presidente e o secretario do Weldon-Institute não conseguirem descobril-o, muito provavelmente ficará perdido para a humanidade.
Escusado é dizer que este apparelho possue uma estabilidade sufficiente, em consequencia da posição do seu centro de gravidade. Não ha perigo de que faça angulos assustadores com a horisontal, nem ha a receiar nenhuma reviravolta.
Resta saber que materia empregára o engenheiro Robur para a construcção da sua aeronave,—nome que pode muito bem ser applicado ao Albatrós. Que substancia era essa tão dura que o bowie-knife de Phil Evans não tinha podido entrar com ella, e cuja natureza Uncle Prudent não podéra explicar? Era papel, unicamente.
Havia muitos annos que esta fabricação tomára um desenvolvimento consideravel. Papel sem gomma, cujas folhas são impregnadas de dextrina e amido, e que depois de apertadas na prensa hydraulica, formam uma materia dura como o aço. Com ella se fazem roldanas, rails, rodas de wagon, mais solidas que as de metal e ao mesmo tempo mais ligeiras. Ora, essa solidez, essa leveza, é que Robur tinha querido utilisar para a construcção da sua locomotiva aerea. Casco, paredes, compartimentos, tudo era feito de papel da palha, que se tornára metal sob a pressão, e até—o que não era para desprezar para um apparelho que corria a grandes alturas—incombustivel. Quanto aos diversos orgãos dos engenhos de suspensão e de propulsão, eixos ou palhetas de helices, era ainda a febra gelatinada que lhes fornecia a substancia resistente e flexivel ao mesmo tempo. Essa materia, que pode tomar todas as formas, insoluvel na maior parte dos gazes e dos liquidos, acidos ou essencias,—não falando já das suas propriedades isoladoras—tinha tido um preciosissimo emprego no machinismo electrico do Albatrós. O engenheiro Robur, o seu contramestre Tom Turner, um machinista e seus dois ajudantes, dois timoneiros e um cozinheiro,—ao todo oito homens,—eis o pessoal da aeronave, bastante para as manobras exigidas pela locomoção aerea. Armas de caça e de guerra, apparelhos de pesca, pharoes electricos, instrumentos de observação, bussolas e sextantes, para traçar o caminho, thermometro para o estudo da temperatura, diversos barometros, uns para avaliar a cota das alturas alcançadas, outros para indicar as variações da pressão atmospherica, um storm-glass para a previsão das tempestades, uma pequena bibliotheca, uma pequena imprensa portatil, uma peça de artilheria montada em rodizio no centro da plataforma, de carregar pela culatra e lançando balas de seis centimetros, um provimento de polvora, balas, cartuchos de dynamite, uma cozinha accesa pelas correntes dos accumuladores, um stock de conservas, carnes e legumes, accomodadas n’um compartimento ad hoc com alguns barris de brandy, de wisky e de gin, finalmente, o necessario para se estar muitos mezes sem necessidade de descer a terra,—taes o material e as provisões da aeronave, não falando já na famosa trombeta.
Havia, além d’isso, a bordo um ligeiro barco de cautchuc, insubmersivel, que podia trazer oito homens á superficie de um lago, de um rio, ou de mar sereno.
Mas tinha pelo menos Robur installado pára-quédas, para o caso de um accidente? Não! não acreditava em accidentes d’este genero. Os eixos dos helices eram independentes. O pararem uns, não impedia os outros de funccionar. Bastava que metade funccionasse para manter o Albatrós no seu elemento natural.
—E com elle,—teve Robur, o Conquistador, bem depressa ensejo de dizer aos seus hospedes, hospedes bem contra a sua vontade,—com elle, eu sou senhor d’esta setima parte do mundo, maior que a Australia, a Oceania, a Asia, a Africa e a Europa, esta Icaria aerea que milhares de icarianos povoarão um dia!
O presidente do Weldon-Institute estava estupefacto, e seu companheiro aturdido.
Mas nem um nem outro quiz deixar transparecer nada d’esse pasmo tão natural.
O creado Fricollin, esse não dissimulava o seu espanto em se sentir transportado no espaço, a bordo de uma tal machina; não procurava mesmo dissimular.
Durante esse tempo, os helices suspensivos giravam rapidamente por sobre as cabeças d’elles. Comquanto fôsse muito consideravel, n’essa occasião, essa velocidade de rotação poderia ser triplicada no caso do Albatrós querer attingir zonas mais altas.
Quanto aos dois propulsores, lançados n’um andamento moderadissimo, não imprimiam ao apparelho senão um deslocamento de vinte kilometros por hora.
Curvando-se para fora, os passageiros do Albatrós puderam notar n’uma longa e sinuosa fita liquida que serpeava, como um simples regato, através um paiz accidentado, no meio da scintillação de alguns lagos obliquamente feridos pelos raios do sol. Esse regato era um rio, e um dos mais importantes d’aquelle territorio. Sobre a margem esquerda desenhava-se uma cadeia de montanhas, cuja prolongação ia até perder de vista.
—Diz-nos onde estamos? perguntou Uncle Prudent com a voz tremula de colera.
—Não tenho necessidade de lh’o dizer, respondeu Robur.
—E não nos diz tambem onde vamos? accrescentou Phil Evans.
—Através do espaço.
—E isto vae durar muito?
—O tempo que fôr necessario.
—Trata-se então de dar a volta ao mundo? perguntou ironicamente Phil Evans.
—Mais do que isso, respondeu Robur.
—E se a viagem nos não convem?... replicou Uncle Prudent.
—É necessario que convenha!
Eis uma amostra da natureza de relações que se iam estabelecer entre o dono do Albatrós e os seus hospedes, para não dizermos seus prisioneiros. Manifestamente, porém, elle quiz antes de tudo dar-lhes tempo de voltarem a si, de admirar o maravilhoso apparelho que os levava pelos ares, e, de certo, de comprimentar o seu inventor. De modo que fingia estar a passeiar de um lado a outro da plataforma. Ficava-lhes a liberdade de examinar as machinas, a disposição da aeronave, ou de conceder toda a attenção á paizagem que se extendia por baixo d’elles.
—Uncle Prudent, disse então Phil Evans, devemos pairar n’este momento sobre a parte central do territorio canadiano. Esse rio que corre no noroeste é o Saint-Laurent. A cidade que nos ficou atraz é Quebec.
Era, com effeito, a velha cidade de Champlain, cujos tectos de zinco brilhavam ao sol como reflectores. O Albatrós tinha-se pois elevado até quarenta e seis graus de latitude norte, o que explicava o raiar prematuro do dia, e a prolongação anormal da aurora.
—Sim, continuou Phil Evans, é com effeito a cidade em amphitheatro, a collina com a sua cidadella, essa Gibraltar da America do Norte. Eis as cathedraes ingleza e franceza! Eis a alfandega com a sua cupula coroada com a bandeira britannica.
Mal acabára Phil Evans de dizer isto, e já a capital do Canadá começava a reduzir-se ao longe. A aeronave entrava n’uma zona de pequenas nuvens que tiraram a pouco e pouco a vista da terra.
Robur, vendo então que o presidente e o secretario do Weldon-Institute fixavam a sua attenção sobre o conjunto exterior do Albatrós, approximou-se e disse:
—Então, meus senhores, acreditam já na possibilidade da locomoção aerea, por meio de apparelhos mais pesados que o ar?
Era difficil não se deixarem vencer pela evidencia. Comtudo Uncle Prudent e Phil Evans não responderam.
—Não dizem nada? perguntou o engenheiro. Com certeza é a fome que os impede de falar ... Mas, por eu os ter arrebatado pelo ar, não imaginem que estou resolvido a alimental-os com esse fluido pouco nutritivo. Espera-os o seu primeiro almoço.
Como Uncle Prudent e Phil Evans sentiam a fome a aguilhoal-os vivamente, não era essa a occasião de fazer ceremonias. Uma refeição a nada obriga, e quando Robur os tivesse posto em terra, esperavam adquirir em presença d’elle toda a liberdade de acção.
Foram ambos conduzidos para os compartimentos trazeiros, a um pequeno “dining room„. Alli estava posta uma mesa, no maior asseio, onde elles deviam comer durante a sua viagem. Constituiam os pratos differentes conservas e entre outras uma especie de pão, composto, em partes eguaes, de farinha e de carne em pó, preparado com um pouco de toucinho, e que, cozido em agua, dá uma sôpa excellente; depois fatias de presunto frio, e chá.
Tambem Fricollin, pelo seu lado, não fôra esquecido. Nos compartimentos da frente tinha encontrado uma forte sôpa do mesmo pão. E, realmente, elle devia ter muita fome, para comer como comia, porque os queixos tremiam-lhe de medo e podiam bem recusar-lhe todos os serviços.
—Se isto se desmancha!... se isto se desmancha! repetia o infeliz negro.
D’ahi, transes continuados! Imagine-se! Uma quéda de mil e quinhentos metros, que o teria reduzido a papas!
Uma hora depois, Uncle Prudent e Phil Evans voltaram á plataforma. Robur não estava lá. Na retaguarda, o homem do leme, na sua gaiola envidraçada, com os olhos fixos na bussola, seguia imperturbavelmente, sem uma hesitação, o caminho indicado pelo engenheiro.
Quanto ao resto do pessoal, provavelmente o almoço o detinha no seu posto. Unicamente um ajudante machinista, encarregado de vigiar as machinas, passeava de um compartimento a outro.
Embora a velocidade fôsse grande, os dois collegas não a podiam apreciar senão muito imperfeitamente, apesar do Albatrós ter já sahido da zona das nuvens e a terra se apresentar mil e quinhentos metros abaixo.
—É inacreditavel! observou Phil Evans.
—Nem acreditemos! respondeu Uncle Prudent.
Foram então collocar-se na frente e extenderam as vistas pelo horisonte, ao oéste.
—Ah! uma outra cidade! disse Phil Evans.
—Pode reconhecel-a?
—Sim! Parece-me que é Montreal.
—Montreal?... Mas nós deixámos Quebec ha duas horas, o maximo!
—Isso prova que esta machina se desloca com uma rapidez de vinte e cinco leguas por hora, pelo menos.
Com effeito, era essa a velocidade da aeronave, e se os passageiros não se sentiam incommodados, é porque caminhavam no sentido do vento. Por um tempo calmo, aquella velocidade tel-os-hia contrariado consideravelmente, porque é pouco mais ou menos a velocidade de um expresso. Com vento contrario, seria impossivel supportal-a.
Phil Evans não se enganava. Por baixo do Albatrós apparecia Montreal, perfeitamente reconhecivel pela Victoria Bridge, ponte tubular, lançada sobre o Saint-Laurent, como o viaducto do caminho de ferro sobre o lago de Veneza. Depois, distinguiam-se as suas largas ruas, as suas lojas immensas, os palacios dos seus bancos, a sua cathedral, basilica recentemente construida pelo modêlo de S. Pedro de Roma, e finalmente o Monte-Real que domina o conjunto da cidade e de que se fez um parque magnifico.
Felizmente que Phil Evans visitára as principaes cidades do Canadá. Poude assim reconhecer algumas, sem interrogar Robur. Em seguida a Montreal, pela hora e meia da tarde, passaram sobre Ottawa, cujas cascatas, vistas do alto, pareciam uma vasta caldeira em ebullição e a transbordar, em effervescencias do mais grandioso effeito.
—Eis o palacio do parlamento, disse Phil Evans.
E mostrava uma especie de brinquedo de Nuremberg, posto sobre uma collina. Esse brinquedo, com a sua architectura polychroma, parecia-se com o Parliament-House de Londres, como a cathedral de Montreal se parecia com S. Pedro de Roma. Mas pouco importava; era fora de duvida ser Ottawa.
Não tardou que essa cidade minguasse no horisonte, não formando mais do que uma mancha luminosa sobre o solo.
Eram proximamente duas horas, quando Robur tornou a apparecer. Acompanhava-o o seu contramestre, Tom Turner. Não lhe disse mais do que tres palavras. Turner transmittiu-as aos dois ajudantes, postados nos compartimentos da frente e da retaguarda. A um signal, o timoneiro modificou a direcção do Albatrós, desviando dois graus ao sudoéste. Ao mesmo tempo, Uncle Prudent e Phil Evans puderam notar que uma velocidade maior acabava de ser imprimida aos propulsores da aeronave.
De facto aquella velocidade podia ser duplicada e ultrapassar tudo que se tem obtido até aqui dos mais rapidos engenhos de locomoção terrestre.
Imagine-se! Os torpedeiros podem fazer vinte e dois nós ou quarenta kilometros por hora. Os caminhos de ferro francezes e inglezes, cem; os barcos patineiros sobre os rios gelados dos Estados Unidos, cento e quinze; uma machina, construida nas officinas de Patterson, com roda de engrenagem, faz cento e trinta sobre a linha do lago Erié, e uma outra locomotiva, entre Trenton e Jersey, cento e trinta e sete.
Ora o Albatrós, com o maximo de potencia dos seus propulsores, podia andar na razão de duzentos kilometros por hora, isto é, cêrca de cinquenta metros por segundo.
Pois bem, esta velocidade é a do furacão que arranca as arvores pela raiz, a de uma certa rabanada de vento que, durante a tempestade de 21 de setembro de 1881, se deslocou em Cahors, na razão de cento e noventa e quatro kilometros. É a velocidade média do pombo viajante, a qual não é ultrapassada senão pelo vôo da andorinha vulgar (sessenta e sete metros por segundo) e pelo do gavião (oitenta e nove metros).
N’uma palavra, como o dissera Robur, o Albatrós, desenvolvendo toda a fôrça dos seus helices, podia dar a volta ao mundo em duzentas horas, isto é, em menos de oito dias!
Pouco se importava esta machina voadora que o globo possuisse n’aquella épocha quatrocentos e cincoenta mil kilometros de via ferrea, isto é, onze vezes a circumferencia da terra no equador. Pois não tinha ella por ponto de apoio todo o ar do espaço?
E será preciso dizer agora que esse phenomeno, que tanto havia intrigado o publico dos dois mundos, era a aeronave do engenheiro Robur? Aquella trombeta que soltava notas vibrantes nos ares, era a do contramestre Tom Turner. A bandeira collocada no alto dos principaes monumentos da Europa, Asia e America, era a bandeira de Robur, o Conquistador, e do seu Albatrós.
E se, até então, o engenheiro tomára algumas precauções para que o não reconhecessem; se, de preferencia, elle viajava de noite, alumiando-se ás vezes com os seus pharoes electricos; se, durante o dia, desapparecia por cima da camada das nuvens, agora parecia não querer occultar o segredo da sua conquista. E se viera a Philadelphia, se se apresentára na sala das sessões do Weldon-Institute, não era para dar parte da sua prodigiosa descoberta, para convencer ipso facto os mais incredulos?
Sabemos como fôra recebido e vamos ver as represalias que queria exercer sobre o presidente e o secretario do mencionado club.