Robur approximára-se dos dois collegas. Estes affectavam não ter a menor surpresa do que viam e do que experimentavam, bem contra sua vontade. Evidentemente, dentro d’aquelles dois craneos anglo-saxonios incrustava-se uma teimosia que seria difficil arrancar.
Pelo seu lado, Robur não quiz tambem ter o ar de quem percebia isso, e como se continuasse a conversação, que estava aliás interrompida havia duas horas:
—Meus senhores, disse elle, estão de certo perguntando a si proprios se este apparelho, maravilhosamente apropriado á locomoção aerea, é susceptivel de receber uma velocidade maior? Elle não seria digno de conquistar o espaço se fôsse incapaz de o devorar. Eu quizera que o espaço fôsse para mim um ponto de apoio solido, e é. Comprehendi que, para luctar contra o vento, era unicamente preciso ser mais forte do que elle, e sou mais forte. Não tenho necessidade de vélas para me mover, nem de remos, nem de rodas para me puxar, nem de rails para fazer mais rapidamente o caminho. Ar, e mais nada. O ar que me envolve, como a agua o barco submarino, e no qual os meus propulsores giram como os helices de um vapor. E aqui está como resolvi o problema da aviação. Eis o que não faria nem o balão nem outro apparelho mais leve que o ar.
Mutismo absoluto dos dois collegas, o que não desconcertou um instante o engenheiro. Contentou-se com sorrir e continuou em forma interrogativa:
—Talvez perguntem tambem se, ao poder que tem de se deslocar horisontalmente, o Albatrós junta um egual poder de deslocamento vertical: n’uma palavra, se mesmo quando se trata de visitar as altas zonas da atmosphera, pode luctar com um aerostato? Pois bem, não os aconselho a pôr em lucta o Go a head com elle.
Os dois collegas tinham-se limitado a encolher os hombros.
Era alli que elles esperavam o engenheiro.
Robur fez um signal. Os helices propulsivos pararam immediatamente.
Depois, tendo corrido no seu rumo uma milha ainda, o Albatrós permaneceu immovel.
A um segundo gesto de Robur, os helices suspensivos puzeram-se então a mover-se com uma rapidez tal, que se podia comparar á das sereias nas experiencias de acustica. O seu frrr subiu cêrca de uma oitava na escala dos sons, diminuindo comtudo de intensidade por causa da rarefacção do ar, e o apparelho elevou-se verticalmente como uma calhandra, que solta o seu grito agudo através o espaço.
—Meu amo!... meu amo!... repetia Fricollin. Queira Deus que isto se não parta!
Um sorriso de desdem foi a unica resposta de Robur. Em alguns minutos, o Albatrós devia ter alcançado setecentos metros, o que extendia o raio visual a setenta milhas, depois quatro mil metros, o que era indicado pelo barometro que descia a quatrocentos e oitenta millimetros.
Então, feita a experiencia, o Albatrós tornou a descer. A diminuição da pressão das altas camadas traz a diminuição do oxygenio no ar, e, por conseguinte, no sangue. É a causa dos graves accidentes que se teem dado com certos aeronautas. Robur julgava inutil expôr-se a isso.
O Albatrós voltou pois á altura que parecia procurar de preferencia, e os seus propulsores, entrando de novo a girar, arrastaram-n’o com uma velocidade ainda maior para o sudoéste.
—Agora, meus senhores, se tinham no espirito essa pergunta ahi fica a resposta.
Depois, curvado sobre o corrimão, ficou-se absorto a contemplar.
Quando ergueu a cabeça, tinha o presidente e o secretario do Weldon-Institute defronte d’elle.
—Engenheiro Robur, disse Uncle Prudent, que em vão procurava dominar-se, nós não perguntavamos nada do que lhe pareceu que pensassemos. Mas far-lhe-hemos uma pergunta, a que desejariamos que respondesse.
—Diga.
—Com que direito nos atacou em Philadelphia, no parque de Fairmont? Com que direito nos encerrou n’uma cellula? Com que direito nos leva, contra a nossa vontade, a bordo d’esta machina volante?
—E com que direito, senhores balonistas, respondeu Robur, os senhores me insultaram, me apuparam, me ameaçaram, no seu club, a ponto de eu estar espantado de ter sahido de lá vivo?
—Interrogar não é responder, continuou Phil Evans, e eu repito-lhe: com que direito?...
—Quer sabel-o?
—Tenha a bondade.
—Pois bem, com o direito do mais forte!
—Isso é cynico!
—Mas assim é!
—E por quanto tempo ainda, cidadão engenheiro, perguntou Uncle Prudent, que não se poude mais conter, por quanto tempo ainda pretende exercer esse direito?
—Pois que, meus senhores! respondeu ironicamente Robur, como me podem fazer uma pergunta d’essas, quando não teem mais do que baixar os olhos para desfructar um espectaculo sem egual em todo o mundo!
O Albatrós mirava-se n’aquelle momento no immenso espelho do lago Ontario. Acabava de atravessar o paiz tão poeticamente cantado por Cooper. Depois seguiu pela costa meridional da vasta bacia e dirigiu-se ao celebre rio que n’elle verte as aguas do lago Erié, quebrando-se sobre as suas cataratas.
Durante um instante, um ruido majestoso, um rugir de tempestade subiu até elle. E, como se se tivesse derramado no ar um nevoeiro humido, a atmosphera refrescou sensivelmente.
Por cima, em forma de ferradura, precipitavam-se massas liquidas. Dir-se-hia um enorme jacto de crystal, no meio de mil arcos iris que produziam a refracção, decompondo os raios solares. Era um aspecto sublime. Na frente d’estas cascatas, uma estreita ponte, tensa como um fio, ligava uma margem á outra. Um pouco acima, á altura de tres milhas, estava a ponte pensil, sobre a qual passava então um comboio que ia da margem canadiana á margem americana.
—As cataratas do Niagara! exclamou Phil Evans.
E este grito escapou-lhe, emquanto que Uncle Prudent fazia todos os esforços para nada admirar d’aquellas maravilhas.
Um minuto depois, o Albatrós tinha transposto a margem que separa os Estados Unidos da colonia canadiana, e lançava-se por sobre os vastos territorios da America do Norte.
Era n’um dos beliches dos compartimentos de traz que Uncle Prudent e Phil Evans haviam encontrado dois excellentes leitos, roupa branca e fato para mudar, em quantidade sufficiente, mantas e abafos de viagem. Um vapor do Transatlantico não lhes teria offerecido maior commodidade. Se não dormiram a somno solto, foi porque o não quizeram, ou, pelo menos, porque cuidados muito serios lh’o impediam. Em que aventura se tinham elles mettido? A que serie de experiencias tinham sido convidados? Como terminaria o negocio? e, afinal, o que é que o engenheiro Robur queria? Havia n’isto muito que dar que scismar.
Quanto ao creado Fricollin, estava installado nos compartimentos da frente, n’um beliche contiguo ao do mestre cozinheiro do Albatrós. Esta vizinhança não lhe podia desagradar. Elle gostava de conviver com os grandes d’este mundo. Mas se acabou por adormecer, foi para sonhar quédas successivas, e projecções através do vacuo, que fizeram do seu sonho um pesadello horrivel.
E comtudo, nada mais tranquillo do que essa peregrinação no meio de uma atmosphera, cujas correntes tinham serenado com a tarde. Afora o ruido dos helices, nenhum outro se ouvia n’aquella zona.
Ás vezes um assobio de alguma locomotiva terrestre, que corria sobre os rails, ou vozes de animaes domesticos. Singular instincto! Esses seres terrestres sentiam a machina volante passar por cima d’elles e soltavam gritos de espanto na sua passagem.
No dia seguinte, 14 de junho, ás cinco horas, Uncle Prudent e Phil Evans passeavam na plataforma, pode-se dizer, sobre a ponte da aeronave. Nada estava mudado desde a vespera: o homem de vigia, na frente, o timoneiro, atraz.
Vigia para quê? Havia a receiar algum choque com apparelho do mesmo genero? Não, evidentemente. Robur não tinha encontrado ainda imitadores. Quanto a encontrar algum aerostato a pairar nos ares, era probabilidade tão minima, que era permittido não a ter em consideração. Em todo o caso, tanto peor para o aerostato! Seria como o choque de um vaso de ferro com outro de barro. O Albatrós nada tinha a receiar de um tal encontro.
Mas, afinal, podia dar-se algum choque? Sim! Era bem possivel a aeronave dar á costa, como um navio, se alguma montanha, que ella não pudesse passar ou tornear, lhe vedasse o caminho. Eram esses os escolhos do ar, e era preciso evital-os como um navio evita os do mar.
É verdade que o engenheiro déra a direcção, como o faz um capitão, tendo em vista a altitude necessaria para dominar os altos cumes. Ora, como a aeronave não tardaria em pairar sobre um paiz de montanhas, era de todo o ponto prudente estar de vigia, para o caso de haver qualquer desvio na rota.
Observando a região collocada abaixo d’elles, Uncle Prudent e Phil Evans viram um grande lago, de que o Albatrós ia alcançar o extremo inferior, ao sul. Concluiram d’ahi que, durante a noite, o lago Erié fôra transposto em toda a sua extensão. Portanto, visto que caminhava mais directamente ao oéste, a aeronave devia então alcançar o extremo do lago Michigan.
—É fora de toda a duvida! disse Phil Evans. Este conjuncto de tectos, lá no horisonte, é Chicago!
E não se enganava. Era de facto a cidade para a qual convergem dezesete caminhos de ferro, a rainha do Occidente, o vasto reservatorio, onde affluem os productos da Indiana, do Ohio, do Wisconsin, do Missuri, de todas aquellas provincias que formam a parte occidental da União.
Uncle Prudent, munido de um excellente oculo que encontrára no seu beliche, reconheceu perfeitamente os principaes edificios da cidade. O seu collega poude-lhe indicar as egrejas, edificios publicos, os numerosos “elevators„ ou selleiros mechanicos, o immenso hotel Sherman, semelhante a um grande dado, e cujas janellas pareciam centenas de pontos luminosos em cada uma das faces.
—Visto ser Chicago, disse Uncle Prudent, é a prova de que estamos sendo levados um pouco mais ao oéste do que seria preciso para voltarmos ao ponto da partida.
Com effeito o Albatrós afastava-se em linha recta da capital da Pensylvania.
Mas, se Uncle Prudent tivesse querido convencer Robur a conduzil-os um pouco para o léste, não o poderia n’aquella occasião. N’essa manhã, o engenheiro não parecia ter pressa de sahir do seu beliche, quer porque andasse occupado n’algum trabalho importante, quer porque estivesse ainda a dormir.
A velocidade não se tinha modificado ainda desde a vespera. Sendo a direcção do vento que soprava ao léste, aquella velocidade não era incommoda, e como o thermometro não baixa senão um grau por cada cento e setenta metros de elevação, a temperatura não era insuportavel. Uncle Prudent e Phil Evans passeavam sob o que se podia chamar a ramagem dos helices, que eram n’aquelle momento arrastados n’um movimento giratorio tal, que a irradiação dos seus ramos se fundia n’um disco meio diaphano.
O estado de Illinois foi assim transposto na sua fronteira septentrional em menos de duas horas e meia. Passaram por sobre o Mississipi, o Pae das Aguas, onde os vapores de dois andares não pareciam maiores que botes.
Depois o Albatrós lançou-se sobre o Jowa, tendo avistado Jowa-City pelas onze da manhã.
Uma serie de collinas, bluffs, serpeavam através aquelle territorio, obliquando do sul ao noroéste. A sua mediocre altitude não exigia nenhuma elevação da aeronave. Além de que, esses bluffs não deviam tardar em baixar para dar logar ás vastas planicies do Jowa, extendidas sobre toda a parte occidental e sobre o Nebraska, pradarias numerosas que se desenrolam até aos pés das Montanhas Rocheas. Aqui e acolá, numerosos rios, affluentes ou sub-affluentes do Missuri. Sobre as suas margens, cidades e aldeias, que se tornavam mais raras quanto mais rapidamente o Albatrós avançava por sobre o Far-West.
Nada de particular se passou durante aquelle dia. Uncle Prudent e Phil Evans ficaram completamente entregues a si proprios. Mal viam até o pobre Fricollin, estirado na frente da aeronave, e com os olhos fechados para não vêr nada. O abysmo não attrahe quando é dominado do alto da barquinha de um balão ou da plataforma de uma aeronave; ou, por outra, o que se abre por baixo do aeronauta, não é um abysmo, é o horisonte que sobe e o rodeia de todos os lados.
Ás duas horas, o Albatrós passava por cima do Omaha, na fronteira do Nebraska,—Omaha-City, verdadeiro leito d’esse caminho de ferro do Pacifico, longa extensão de rails de quinhentas leguas, traçada entre Nova-York e S. Francisco. Por um momento, puderam vêr as aguas amarellentas do Missuri, depois a cidade, com casas de madeira e tijolo, posta no centro d’essa rica bacia, como uma fivela no cinto de ferro que cinge pela cintura a America do Norte.
Evidentemente, emquanto os passageiros da aeronave observavam todos estes pormenores, os habitantes de Omaha deviam notar no extranho apparelho. Mas o seu espanto em o vêr pairar nos ares não podia ser maior que o do presidente e do secretario do Weldon-Institute por se acharem a seu bordo.
Em todo o caso era um facto que os jornaes da União iam commentar. Seria essa a explicação do inexplicavel phenomeno, de que o mundo inteiro se occupava desde algum tempo.
Uma hora depois o Albatrós tinha transposto o Omaha. Viu-se então que se dirigia para léste, afastando-se da Platte-River, por cujo valle segue o Pacific-Railway, através o Prado. Isso não podia ser do agrado de Uncle Prudent e Phil Evans.
—É pois a serio este absurdo projecto de nos conduzir aos antipodas? disse um.
—E contra a nossa vontade? respondeu outro. Ah! tome sentido esse Robur! Não sou homem com quem se brinque!...
—Nem eu! replicou Phil Evans. Mas, repare no que lhe digo, Uncle Prudent, tenha moderação ...
—Moderação!...
—E guarde a sua colera para o momento em que seja opportuno que ella rebente.
Pelas cinco horas, depois de terem transposto as Montanhas Negras, cobertas de pinheiros e cedros, o Albatrós voava por sobre esse territorio que justamente se chamou as Más Terras do Nebraska, um cahos de collinas côr de occa, de pedaços de montanhas que parecia terem deixado cahir sobre o solo, e que se houvessem partido na quéda. De longe, aquelles blocos tomavam as formas mais phantasticas. Aqui e acolá, no meio d’aquelles destroços, entreviam-se ruinas de cidades da edade média com fortes, bastiões, castellos com setteiras e ameias. Mas, realmente, essas Más terras não passam de um ossuario immenso, onde alvejam, ás myriades, destroços de pachidermes, de collonianos, e mesmo, segundo dizem, de homens fosseis, arrastados por algum desconhecido cataclismo das primeiras edades.
Quando veiu a noite, toda aquella bacia da Platte-River já havia sido transposta. Agora a planicie desenvolvia-se até os limites de um horisonte muito ampliado pela altitude do Albatrós.
Durante a noite não se ouviram os silvos agudos das locomotivas, nem os graves assobios dos steam-boats a perturbarem o socego do firmamento estrellado. Longos mugidos subiam ás vezes até á aeronave, então mais proxima do solo. Eram rebanhos de bisões que atravessavam a pradaria, em busca de regatos e pastagens. E quando se calavam, o fremito das hervas, debaixo dos seus pés, produzia um ruido surdo, semelhante á passagem de uma inundação e bem diverso do fremito continuo dos helices.
Depois, de tempos a tempos, um uivo do lobo, da rapoza, do gato bravo; um uivo do canis latrans, cujo nome é bem justificado pelo seu ladrar sonoro.
Ao mesmo tempo cheiros penetrantes, a ortelã pimenta, a salsa, o absintho, de mistura com os aromas poderosos das coniferas, a derramarem-se no ar puro da noite.
Finalmente, para notar todos os ruidos vindos do solo, um sinistro uivo que não era d’esta vez de nenhum canis latrans; era o grito do Pelle Vermelha, que um pioneiro não podia confundir com o grito dos animaes bravios.
No dia seguinte, 15 de junho, pelas cinco da manhã, Phil Evans deixou o seu beliche. Encontrar-se-hia n’esse dia com o engenheiro Robur?
Em todo o caso, desejoso de saber porque não apparecêra na vespera, dirigiu-se ao contramestre Tom Turner.
Tom Turner, de origem ingleza, da edade de quarenta e cinco annos, approximadamente, largo de hombros, atarracado, com uma construcção de ferro, tinha uma d’essas cabeças enormes e caracteristicas, á Hogarth, taes como esse pintor de todas as fealdades saxonias traçou com o seu pincel. Se quizermos analysar a estampa quarta do Harlot Progress, alli encontraremos a cabeça do Tom Turner sobre os hombros do carcereiro, e veremos que a sua physionomia nada tem de animadora.
—Veremos hoje o engenheiro Robur? perguntou Phil Evans.
—Não sei, respondeu Tom Turner.
—Não lhe perguntarei se elle sahiu do beliche.
—Talvez sahisse.
—E quando voltará?
—Naturalmente, quando tiver dado as suas voltas.
N’isto Tom Turner entrou para os seus compartimentos.
Forçoso era contentar-se com aquella resposta, tanto menos tranquillisadora quanto, consultada a bussola, se viu que o Albatrós continuava a caminhar para o noroéste.
Que contraste entre esse arido territorio das Más Terras, abandonado com a noite, e a paizagem que se desenrolava agora, á superficie do solo!
A aeronave, depois de ter atravessado mil kilometros desde Omaha, achava-se por cima de uma região que Phil Evans não podia reconhecer pela razão de não a ter visitado nunca. Alguns fortes, destinados a conter os Indios, coroavam os blufs com as suas linhas geometricas, formadas mais por paliçadas do que por muralhas.
Poucas povoações, poucos habitantes n’esse paiz tão diverso dos territorios auriferos do Colorado, situados muitos graus mais ao sul.
Ao longe, começava a destacar-se, muito confusamente ainda, uma serie de cumes de montanhas que o sol nascente franjava com uma lista de fogo. Eram as Montanhas Rocheas.
De repente, n’essa manhã, Uncle Prudent e Phil Evans foram tomados de um frio intenso. Aquelle abaixamento de temperatura não era devido a uma modificação do tempo, e o sol brilhava com uma luz magnifica.
—Deve ser por causa da elevação do Albatrós na atmosphera, observou Phil Evans.
Com effeito o barometro, collocado á porta da divisão central, cahira a quinhentos e quarenta millimetros, o que indicava uma elevação de tres mil metros, obrigada pelos accidentes do terreno.
Uma hora antes tinham passado á altura de quatro mil metros; porque, atraz d’elles, erguiam-se montanhas cobertas de uma neve eterna.
Nada encontravam na sua memoria, nem Uncle Prudent, nem o seu companheiro, que lhes lembrasse qual era aquelle paiz. Durante a noite, o Albatrós tinha podido fazer desvios para o norte, para o sul, com uma velocidade extrema, e isso era sufficiente para os desnortear.
Apesar d’isso, depois de terem discutido diversas hypotheses, mais ou menos plausiveis, fixaram-se no seguinte: aquelle territorio, emmoldurado n’um circulo de montanhas, devia ser o que um acto do congresso, em março de 1872, havia declarado Parque Nacional dos Estados Unidos.
Era de facto essa região tão curiosa. Merecia bem o nome de parque, um parque com montanhas por collinas, lagos por tanques, rios em vez de regatos, circos por labyrinthos, e em vez de jactos de agua, cascatas de um poder maravilhoso.
Em alguns minutos o Albatrós passava por sobre o Yellowstone river, deixando o monte Stevenson á direita, e alcançava o grande lago que tem o nome d’aquelle rio. Que variedade no traçado das margens d’aquella bacia, cujas praias, semeadas de obsidiana e de crystaes miudos, reflectem o sol pelas suas milhares de facetas. Que disposição caprichosa de ilhas á superficie! E em volta d’aquelle lago, um dos mais altos do globo terrestre, que nuvens de volateis, pelicanos, cysnes, gaivotas, patos, gansos e mergulhões! Certas porções da margem, escarpadissimas, são revestidas de um tufo de arvores verdes, pinheiros e larises, e na base d’essas escarpas innumeras nuvens brancas de fumo. É o vapor que sae do chão, como de um enorme recipiente, onde a agua se mantem por meio de fogos interiores no estado de permanente ebullição.
Para o mestre cozinheiro seria aquella uma occasião excellente de fazer uma grande provisão de trutas, o unico peixe que as aguas do lago Yellowstone nutrem ás myriades. Mas o Albatrós conservou-se sempre a uma tal altura, que não deu o ensejo de se emprehender uma pesca, que teria sido, com toda a certeza, miraculosa.
Em tres quartos de hora era transposto o lago e, um pouco mais longe, a região d’esses geysers (cascatas), que rivalisam com os mais bellos da Islandia. Curvados sobre a plataforma, Uncle Prudent e Phil Evans observavam as columnas liquidas que se lançavam, como que para fornecer á aeronave um novo elemento. Eram o “Leque„, cujos jactos se dispunham em laminas irradiantes; o “Castello forte„, que parece defender-se a golpe de trombas de agua; o “Velho fiel„, com a sua projecção coroada em arco-íris; o “Gigante„, cujo impulso interno vomita uma torrente vertical de uma circumferencia de vinte pés, na altura de mais de cem pés.
D’este espectaculo incomparavel, pode-se dizer, unico no mundo, conhecia decerto Robur todas as maravilhas, porque não appareceu na plataforma. Seria, pois, só para recreio dos seus hospedes que elle lançára a aeronave por sobre aquelle dominio nacional? Seja como fôr, absteve-se de vir buscar os agradecimentos. Nem mesmo se mexeu durante a audaciosa travessia das Montanhas Rocheas, que o Albatrós alcançou pelas sete horas da manhã.
Como se sabe, esta disposição orographica extende-se, como uma enorme espinha dorsal, desde os rins até o pescoço da America septentrional, seguindo pelos Andes mexicanos. É um desenvolvimento de tres mil e quinhentos kilometros dominado pelo pico James, cujo cume attinge doze mil pés.
Certamente que multiplicando os seus movimentos de aza, como uma ave de vôo alto, poderia o Albatrós galgar os cumes mais elevados d’esta cordilheira para ir cahir, n’um pulo, no Oregon ou no Utah. Mas nem sequer foi necessaria essa manobra. Ha passagens que permittem atravessar aquella barreira sem galgar a crista. Ha muitos d’esses “canons„, especie de gargantas, mais ou menos estreitas, através das quaes se pode deslisar, uns como a passagem Bredger, por onde segue o caminho de ferro do Pacifico, para penetrar no territorio dos Mormons, outros que se abrem mais ao norte ou mais ao sul.
Foi por uma d’ellas que o Albatrós tomou, depois de ter moderado a sua velocidade, afim de não esbarrar. O timoneiro, com uma certeza de mão que tornava mais efficaz ainda a extrema sensibilidade do leme, manobrou-o como se tratasse de uma embarcação de primeira ordem, n’um match do Royal Thames Club. Foi verdadeiramente extraordinario. E, apesar do despeito que podiam sentir os dois inimigos do “Mais pesado que o ar„, não puderam deixar de se maravilhar com a perfeição de um tal engenho de locomoção aerea.
Em menos de duas horas e meia, a grande cordilheira foi transposta, e o Albatrós voltou á sua primeira velocidade, a razão de cem kilometros. Tomava de novo para sudoéste, de maneira a cortar obliquamente o territorio do Utah, approximando-se do solo. Tinha mesmo descido uns centos de metros, quando alguns silvos attrahiram a attenção de Uncle Prudent e Phil Evans.
Era um comboio do Pacific Railway, que se dirigia para a cidade do Grande Lago Salgado.
N’esse momento, obedecendo a uma ordem secreta, o Albatrós baixou ainda mais, de maneira a seguir o comboio, lançado a todo o vapor. Depois, numerosos passageiros se juntaram nas pontes que ligam as carruagens dos caminhos de ferro americanos. Alguns não hesitaram mesmo em subir ao toldo, afim de vêr melhor aquella machina volante. Hips e hurrahs voaram através do espaço; mas não deram em resultado fazer apparecer Robur.
O Albatrós desceu ainda mais, moderando o jogo dos seus helices suspensivos, e encurtou o seu andamento para não deixar para traz o comboio, que facilmente podia pôr a distancia. Esvoaçava-lhe por cima, como um enorme escaravelho, elle que podia ser uma gigantesca ave de rapina. Fazia bordos á direita e á esquerda, lançava-se para a frente, voltava atraz, e, orgulhosamente, tinha arvorado o seu pavilhão negro, ao sol, ao que o chefe do trem respondeu fazendo agitar a bandeira das trinta e sete estrellas, da União Americana.
Em vão os dois prisioneiros quizeram aproveitar a occasião que se lhes offerecia de darem a conhecer o que lhes succedêra. Em vão o presidente do Weldon-Institute gritou com voz forte:
—Sou Uncle Prudent, de Philadelphia!
E o secretario:
—Sou Phil Evans, seu collega!
Os seus gritos perderam-se nos milheiros de hurrahs com que os viajantes saudaram a sua passagem.
Tres ou quatro dos homens que iam na aeronave, appareceram na plataforma. Depois, um d’elles, á maneira dos marinheiros que passam adeante de um navio menos rapido que o em que elles vão, lançou ao comboio a extremidade de um cabo, maneira ironica de lhe offerecer um reboque.
O Albatrós voltou de novo ao seu andamento habitual e, em meia hora, tinha deixado atraz de si o expresso, cujo ultimo fumo não tardou em desapparecer. Pela uma hora, depois do meio dia, appareceu um vasto disco que reflectia os raios do sol, como faria um immenso reflector.
—Deve ser a capital dos Mormons, Salt-Lake-City! disse Uncle Prudent.
Era com effeito a cidade do Grande Lago Salgado, e aquelle disco o tecto redondo do Tabernaculo, onde podem ser collocados dez mil Santos, á vontade. Como um espelho convexo, dispersava os raios do sol em todas as direcções.
Alli se extendia a grande cidade, aos pés dos montes Wasatsh, revestidos de cedros e de pinheiros, até meia encosta, sobre a margem d’esse Jordão que verte as aguas do Utah no Great-Salt-Lake. Debaixo da aeronave extendia-se esse taboleiro formado pela maior parte das cidades americanas, taboleiro de jogo de damas do qual se pode dizer que “tem mais damas do que casas„, visto que a polygamia está em uso entre os Mormons. Todo em volta, um paiz bem tratado, bem cultivado, rico em plantas textis, onde os rebanhos de carneiros se contam aos milheiros.
Mas este conjunto evapora-se como uma sombra, e o Albatrós toma na direcção sudoéste uma velocidade mais accelerada que não deixou de ser muito sensivel, por exceder a do vento.
Breve a aeronave voou por sobre as regiões da serra Nevada e de um territorio argentifero, que só a serra separa dos jazigos auriferos da California.
—Decididamente, disse Phil Evans, devemos contar com vêr S. Francisco antes da noite.
—E depois?... perguntou Uncle Prudent.
Eram seis da tarde, quando a serra Nevada foi transposta, precisamente pelo desfiladeiro de Truckie, que serve de passagem ao caminho de ferro. Apenas faltavam a percorrer 300 kilometros para alcançar, se não S. Francisco, pelo menos Sacramento, a capital do Estado Californiano.
Tal foi então a rapidez imprimida ao Albatrós que, antes das oito horas, a cupula do Capitolio erguia-se no horisonte do poente, para logo desapparecer no horisonte opposto.
Nesse instante, Robur apparecia na plataforma. Os dois collegas foram ter com elle.
—Engenheiro Robur, disse Uncle Prudent, eis-nos nos confins da America! Quer-nos parecer que este gracejo vae terminar ...
—Não estou a gracejar, respondeu Robur.
Fez um signal. O Albatrós desceu rapidamente ao chão, mas, ao mesmo tempo, tomou uma tal velocidade, que tiveram de se refugiar nos seus compartimentos.
Mal a porta do seu beliche se fechou sobre os dois collegas:
—Um pouco mais, e tinha-o estrangulado! disse Uncle Prudent.
—É preciso pensar em fugir! disse Phil Evans.
—Sim! custe o que custar! respondeu Uncle Prudent.
Ouviu-se então um longo murmurio.
Era o rugido do mar, que se quebrava nos rochedos do littoral. Era o Oceano Pacifico.
Uncle Prudent e Phil Evans estavam realmente resolvidos a fugir. Se não se tratasse dos oito homens, excepcionalmente vigorosos, que constituiam o pessoal da aeronave, talvez tivessem tentado a lucta. Um golpe de audacia poderia tornal-os senhores a bordo, e permittir-lhes descer em algum ponto dos Estados Unidos. Mas sendo elles apenas dois,—visto Fricollin ser considerado como uma quantidade sem valor,—não se podia pensar n’isso. Portanto, visto a fôrça não poder ser empregada, conviria recorrer á manha, apenas o Albatrós ganhasse a terra. Foi o que Phil Evans quiz fazer conhecer ao seu irascivel collega em quem receiava alguma violencia prematura, que aggravasse a situação.
Em todo o caso, não era aquella a occasião. A aeronave caminhava com toda a velocidade por sobre o Pacific-Nord. No dia seguinte, 16 de junho, não se via nada da costa. Ora como o littoral se arredonda desde a ilha de Vancouver até o grupo das Aleutas,—porção da America russa cedida aos Estados Unidos em 1867,—muito provavelmente o Albatrós o cruzaria na sua curva extrema, se a direcção se não modificasse.
Como as noites pareciam longas aos dois collegas! De modo que estavam mortos por deixar o beliche. N’essa manhã, quando se acharam sobre a ponte, havia muito já que a alvorada illuminava o horisonte ao nascente. Estava-se proximo do solsticio de junho, o dia mais longo do anno, no hemispherio boreal; e, sob o parallelo 60.°, mal era noite.
Quanto ao engenheiro Robur, quer fôsse por habito, quer por intenção, não se dava pressa em sahir dos seus aposentos. N’esse dia, quando os deixou, contentou-se com saudar os seus dois hospedes, ao encontrar-se com elles, na ré da aeronave.
Com os olhos vermelhos da insomnia, o olhar estupidificado, as pernas tremulas, Fricollin atrevera-se a sahir do seu compartimento. Caminhava como um homem que sente que lhe falta o terreno debaixo dos pés. O seu primeiro olhar foi para o apparelho suspensor, que funccionava com uma regularidade tranquillisadora, sem se apressar muito.
Feito isso, o negro, a titubear sempre, dirigiu-se para a sacada e segurou-a com as duas mãos, para melhor garantir o equilibrio. Evidentemente elle desejava fazer idéa do paiz que o Albatrós dominava da altura de duzentos metros, o maximo.
Fricollin devia estar muito afflicto para arriscar um tal passo. Foi-lhe decerto preciso uma grande audacia para sujeitar a sua pessoa a uma prova d’essas.
Primeiramente, Fricollin inclinou o corpo para traz junto á sacada; depois sacudiu-a afim de reconhecer a sua solidez; depois tornou a levantar-se; depois curvou-se para a frente; depois poz a cabeça de fora.
Inutil é dizer que, emquanto executava estes diversos movimentos, tinha os olhos fechados. Abriu-os afinal.
Que grito! e como recuou depressa! E como a cabeça lhe entrou pelos hombros dentro!
No fundo do abysmo vira o immenso Oceano. Os cabellos ter-se-lhe-hiam eriçado, se não fôssem carapinha.
—O mar!... o mar!... exclamou elle.
E Fricollin cahiria sobre a plataforma, se o mestre cozinheiro não tivesse aberto os braços para o receber.
O mestre cozinheiro era um francez, um gascão talvez, apesar de se chamar François Tapage. Se não era gascão, devia ter pelo menos aspirado as brisas do Garonne, durante a infancia. Como é que esse François Tapage estava ao serviço do engenheiro? Que serie de acasos o levaram a fazer parte do pessoal do Albatrós? Não se sabia. Em todo o caso, aquelle patusco falava inglez como um Yankee.
—Vamos, arriba! arriba! gritou elle, dando um impulso pelos rins ao negro, afim de o pôr direito.
—Master Tapage! respondeu o pobre diabo, lançando olhares desesperados para os helices.
—Então, Fricollin!
—Isto parte-se, ás vezes?
—Não, mas acabará por se partir.
—Porque?... porque?
—Porque, como dizem na minha terra, tout lasse, tout passe, tout casse.
—E o mar que está por baixo?...
—Em caso de quéda, é melhor o mar.
—Mas afoga-se a gente!
—Afoga-se, mas não se faz em pedaços! respondeu François Tapage, accentuando cada syllaba da phrase.
Um momento depois, por um movimento de reptação, Fricollin esgueirava-se para o fundo do seu beliche.
Durante esse dia, 16 de junho, a aeronave não passou de uma velocidade moderada. Parecia roçar na superficie tão calma d’esse mar, todo impregnado de sol, que ella dominava da altura de uns cem pés apenas.
Pela sua vez, Uncle Prudent, e o seu companheiro haviam ficado nos seus compartimentos, para se não encontrarem com Robur, que passeava, fumando, ora só, ora com o contramestre Tom Turner. Só estava metade dos helices a funccionar, e isso bastou para manter o apparelho nas zonas baixas da atmosphera.
N’essas condicções a gente do Albatrós poderia ter, conjuntamente com o prazer da pesca, a satisfação de variar o seu passadio, se as aguas do Pacifico tivessem peixe. Mas á superficie appareciam apenas algumas baleias, d’essa especie de ventre amarello que chegam a medir até vinte e cinco metros de comprimento. São os mais temiveis cetaceos dos mares boreaes. Os pescadores de profissão fogem de os atacar, tanto a sua fôrça é prodigiosa.
Comtudo, arpoando-se uma d’essas baleias, ou fôsse com um arpão vulgar, ou com o foguete Tlechter, ou com o dardo-bomba, de que havia a bordo grande provisão, a pesca poderia realisar-se sem perigo.
Mas para que servia essa massacragem inutil?
Comtudo, talvez para mostrar aos dois membros do Weldon-Institute o que elle podia conseguir da sua aeronave, Robur quiz dar caça a um d’esses monstruosos cetaceos.
Ao grito de “baleia! baleia!„ Uncle Prudent e Phil Evans sahiram do seu beliche. Talvez estivesse á vista algum navio baleeiro ... N’esse caso, afim de escapar á sua prisão volante, seriam os dois capazes de se atirar ao mar, contando com a probabilidade de serem recolhidos por uma embarcação.
Já todo o pessoal da aeronave estava postado na plataforma, á espera.
—Vamos então experimentar, master Robur? perguntou o contramestre Turner.
—Sim, Tom! respondeu o engenheiro.
Nos compartimentos da machina, o machinista e os seus dois ajudantes estavam a postos, promptos a executar as manobras que seriam ordenadas por meio de gestos. O Albatrós não tardou em se abaixar até o mar, e parou uns cincoenta pés acima d’elle.
Não estava ao largo nenhum navio,—o que foi verificado pelos dois collegas, nem á vista nenhuma terra que elles pudessem alcançar a nado, admittindo mesmo que Robur nada fizesse para os colher de novo.
Muitos jactos de vapor e de agua, lançados pelos ventiladores, annunciaram a presença das baleias que vinham respirar á superficie do mar.
Tom Turner, auxiliado por um dos seus camaradas, collocára-se na frente. Ao alcance d’elle estava um d’esses dardos-bombas, de fabrico californiano, que se lança por meio de um arcabuz. É uma especie de cylindro de metal que termina em bomba cylindrica, armada de uma haste de ponta farpada.
Do banco da frente, ao qual acabava de subir, Robur indicava com a mão direita aos machinistas, e com a esquerda ao homem do leme, as manobras a fazer. Era assim senhor da aeronave, em todas as direcções, horisontal e vertical. Não se pode calcular a rapidez e a precisão com que o apparelho obedecia a todas as ordens. Parecia um ser organico, de que Robur era a alma.
—Baleia!... Baleia!... exclamou de novo Tom Turner.
Com effeito, umas quatrocentas e oito braças deante do Albatrós emergia o dorso de um cetaceo.
O Albatrós correu para elle, e quando chegou a uns sessenta pés de distancia parou.
Tom Turner tinha apontado a espingarda que estivera encostada ao parapeito. O tiro partiu, e o projectil, levando comsigo uma longa corda, cuja extremidade se prendia á plataforma, entrou no corpo da baleia. A bomba cheia de uma materia fulminante, explosiu então, e, explosindo, lançou uma especie de pequeno arpão de duas voltas, que se incrustou nas carnes do animal.
—Attenção! gritou Turner.
Uncle Prudent e Phil Evans, por pouco dispostos que estivessem, achavam-se interessados no espectaculo.
A baleia, gravemente ferida, fustigára o mar com uma tão violenta rabanada, que a agua repuxou até á altura da aeronave.
Depois o animal mergulhou a uma grande profundidade, ao passo que lhe iam largando corda, préviamente enrolada dentro de uma celha com agua, para que se não incendiasse com a fricção. Quando a baleia voltou á tona d’agua, desatou a fugir a toda a pressa na direcção do norte.
Imagine-se a rapidez com que o Albatrós foi rebocado! Além de que, os propulsores tinham sido parados. Deixaram o animal andar, pondo-se em alinhamento com elle. Tom Turner estava prestes a cortar a corda, para o caso de um novo mergulho tornar muito perigoso esse reboque.
Durante meia hora, e talvez á distancia de seis milhas, o Albatrós foi assim arrastado; mas via-se que o cetaceo começava a enfraquecer.
Então, a um gesto de Robur, os ajudantes dos machinistas andaram com a machina atraz, e os propulsores começaram a oppôr uma certa resistencia á baleia, que, a pouco e pouco, se approximou de bordo.
A aeronave batia ainda nas aguas com uma violencia incrivel. Ás voltas sobre si propria, a baleia produzia remoinhos enormes.
De repente poz-se, por assim dizer, de pé, e atirou-se á agua com uma tal velocidade, que Tom Turner mal teve tempo de lhe alar a corda.
N’um puxão, a aeronave foi arrastada á superficie das aguas. Um turbilhão se formara no sitio onde o animal desapparecêra. Uma vaga entrou para dentro da aeronave, como acontece com um navio que caminha contra o vento e contra a onda.
Felizmente, com um golpe de machado, Tom Turner cortou a corda, e o Albatrós, livre do reboque, subiu duzentos metros, com o poder dos seus helices ascensionaes.
Quanto a Robur, manobrára o apparelho sem que o seu sangue frio o houvesse abandonado um momento.
Alguns minutos depois a baleia voltava á tona da agua,—porém morta d’esta vez. Por todos os lados as aves do mar accorriam, soltando gritos capazes de ensurdecer todo um Congresso.
O Albatrós, não sabendo o que fazer áquelle cadaver, retomou para léste o seu andamento.
No dia seguinte, 17 de junho, ás seis horas da manhã, uma terra se avistou no horisonte. Era a peninsula de Alaska, e a longa sementeira de rochedos das Aleutes.
O Albatrós saltou por cima d’essa barreira onde pullulam as focas, para pelles, que os habitantes d’aquelle paiz pescam por conta da Companhia Russo-Americana. Excellente cousa, a captura d’esses amphibios, do comprimento de seis a sete pés, côr de ferrugem, e que pesam trezentos e quinhentos arrateis. Eram filas interminaveis d’elles, em formatura de batalha, e contavam-se aos milhares.
Se não se mexeram á passagem do Albatrós, não aconteceu o mesmo com os mergulhões, e outros animaes, cujos gritos roucos encheram o espaço, e que desappareceram nas aguas como se fôssem ameaçados por algum grande animal aereo.
Os dois mil kilometros do mar de Behring, desde as primeiras Aleutes até a ponta extrema do Kamtchalka, foram transpostos durante as vinte e quatro horas d’esse dia e da noite immediata. Para pôr em execução o seu plano de fuga, Uncle Prudent e Phil Evans não se encontravam em condições favoraveis. Não era nem sobre as margens desertas da extrema Asia, nem nas paragens do mar de Okhotsk que se podia realisar essa fuga, com alguma probabilidade de exito. Visivelmente o Albatrós dirigia-se para as terras do Japão e da China. Alli, apesar de não ser talvez prudente pôrem-se á discreção dos Chinezes e Japonezes, os dois collegas estavam resolvidos a fugir, se a aeronave fizesse alto em qualquer ponto d’aquelles territorios.
Mas faria alto, com effeito? Não se tratava precisamente de uma ave que se fatiga de um longo vôo, ou de um balão que, á falta de gaz, é obrigado a descer. Havia provisões para muitas mais semanas ainda, e os seus orgãos, de uma solidez maravilhosa, desafiavam toda a fraqueza e todo o cançaço.
Um pulo por sobre a peninsula do Kamtchalka, de que apenas se viu o estabelecimento de Petropaulovsk e o vulcão de Klutschen durante o dia 18 de julho, depois um novo salto por sobre o mar de Okhotsk, pouco mais ou menos á altura das ilhas Kurilas, que lhe põem uma barreira, cortada por centos de pequenos canaes, e no dia 19, pela manhã, tinha o Albatrós alcançado o estreito de la Peruse, apertado entre a ponta septentrional do Japão e a ilha Saghaliana, n’aquella pequena Mancha, onde desagua esse grande rio siberico, o Amor.
Levantou-se então um nevoeiro densissimo, que a aeronave teve de deixar por baixo de si. Não que tivesse necessidade de se desembaraçar d’aquelles vapores para se dirigir; na altitude em que ia, nenhum obstaculo havia a recear, nem monumentos com que pudesse esbarrar na passagem, nem montanhas contra as quaes corresse o risco de se espedaçar no seu vôo. O paiz era bem pouco accidentado, mas aquelles vapores não deixavam de ser desagradabilissimos, e tudo ficaria molhado a bordo.
Nada mais tinha portanto do que collocar-se acima d’aquelles vapores cuja espessura medía tresentos ou quatrocentos metros. De modo que os helices foram rapidamente activados, e, para além do nevoeiro, o Albatrós encontrou regiões cheias de sol.
N’estas condições, Uncle Prudent e Phil Evans teriam tido certa difficuldade em dar execução aos seus projectos de fuga, admittindo que elles tivessem podido deixar a aeronave.
N’esse dia, no momento em que passava junto d’elles, Robur parou um instante e sem que parecesse dar a menor importancia ao que dizia:
—Meus senhores, disse elle, um navio á véla, ou um vapor, perdido nas brumas d’onde não pode sahir, está sempre embaraçado. Não navega senão com o auxilio de assobio ou da tuba. Tem de diminuir o andamento; e, apesar de tantas precauções, é para recear a cada instante um abalroamento. O Albatrós não tem nenhum d’estes cuidados. Que lhe podiam fazer os nevoeiros se tinha meio de se desembaraçar d’elles? O espaço é seu, todo o espaço!
Dito isto, Robur continuou tranquillamente o seu passeio, sem esperar uma resposta que não pedia; e as baforadas do seu cachimbo perderam-se no espaço.
—Uncle Prudent, disse Phil Evans, parece que este espantoso Albatrós não tem medo de cousa alguma!
—Veremos isso! respondeu o presidente do Weldon-Institute.
O nevoeiro durou tres dias, 19, 20 e 21 de junho, com uma persistencia lamentavel. Fôra necessario subirem mais para evitar as montanhas japonezas de Fousi-Zama. Mas tendo-se rasgado o véo da névoa, notou-se uma immensa cidade com palacios, villas, chalets, jardins e parques. Mesmo sem a vêr a teria Robur reconhecido pelo ladrar das suas myriades de cães, pelos gritos das suas aves de rapina, e sobretudo pelo cheiro de cadaver que os corpos dos seus suppliciados lançam no espaço.
Os dois collegas estavam na plataforma, no momento em que o engenheiro tomára este ponto de referencia para o caso de ter de continuar o seu caminho através do nevoeiro.
—Meus senhores, disse elle, não tenho razão alguma para lhes occultar que esta cidade é Yedo, a capital do Japão.
Uncle Prudent não respondeu. Em presença do engenheiro, sentia-se suffocado, como se o ar lhe faltasse nos pulmões.
—Esta vista de Yedo, continuou Robur, é na realidade curiosissima.
—Por mais curiosa que seja ... respondeu Phil Evans.
—Não chega a Pekin?... concluiu o engenheiro. Tambem sou d’essa opinião, e podem avalial-o dentro em pouco.
Era impossivel ser mais amavel.
O Albatrós, que se dirigia para o sudoéste, mudou então de direcção tres quartos, a fim de buscar ao léste um novo caminho.
Durante a noite dissipou-se o nevoeiro. Havia symptomas de um grande tufão pouco distante: baixa rapida de barometro, desapparição de vapores, grandes nuvens, de forma ellipsoidal, pegadas ao céo cobreado; no horisonte opposto, longas listas de carmim, nitidamente traçadas sobre um fundo de ardosia, e uma larga aberta, muito clara, ao norte; depois o mar unido e calmo, mas cujas aguas, ao pôr do sol, tomavam uma côr vermelha escura.
Felizmente, aquelle tufão desencadeiou-se ao sul, e não teve outros resultados senão dissipar as névoas amontoadas havia tres dias.
Em uma hora, tinham transposto os duzentos kilometros do estreito da Coréa, e em seguida a ponta extrema d’aquella peninsula. Emquanto o tufão ia bater as costas suéste da China, o Albatrós abalançava-se sobre o Mar Amarello, e, durante os dias 22 e 23, sobre o golpho de Pelchéli; no dia 24 seguia o valle de Pei-Ho e pairava afinal sobre a capital do Celeste Imperio.
Curvados para fora da plataforma, os dois collegas puderam ver muito distinctamente, como o engenheiro havia annunciado, aquella immensa cidade, a muralha que a separa em duas partes—cidade mandchúa e cidade chineza—; os doze bairros que a cercam, os amplos boulevards que irradiam para o centro; os templos, cujos tectos amarellos e verdes se banham no sol nascente; os parques, que rodeiam os palacios dos mandarins; depois, no meio da cidade mandchúa, os seiscentos setenta e oito hectares[1] da cidade Amarella, como um quadrado de casse-tête chinez, emmoldurado dentro de outro; a cidade Vermelha, isto é, o Palacio Imperial com todas as phantasias da sua architectura inverosimil.
N’aquelle momento, por baixo do Albatrós, o ar estava cheio de uma harmonia singular. Dir-se-hia um concerto de harpas eolias. No ar pairavam um cento de papagaios de papel, de diversas formas, feitos de folhas de palmeira ou de pandano, munidos na parte superior de uma especie de arco de madeira, distendido por meio de uma lamina de bambú. Ao sôpro do vento, todas estas laminas, de notas variadas, como as de um harmonium, soltavam um murmurio do mais melancholico effeito. Parecia que, n’aquelle meio, se respirava oxygenio musical.
Robur teve então a phantasia de se approximar d’aquella orchestra aérea, e o Albatrós veiu lentamente banhar-se nas ondas sonoras que os papagaios emittiam através da atmosphera.
Mas immediatamente se produziu um effeito extraordinario no meio d’aquella enorme população. Sons do tamtam e outros instrumentos formidaveis das orchestras chinezas, tiros de espingarda aos mil, tiros de morteiros aos centos, tudo foi posto em acção para afastar a aéronave.
Os astronomos chinezes reconheceram n’esse dia que aquella machina aérea era a causa de tantas questões que se haviam levantado; mas os milhões de habitantes do Celeste Imperio, desde o humilde tankadére até os mandarins mais cheios de botões, tomaram-n’o por um monstro apocalyptico que acabava de apparecer no céo de Budha.
No inaccessivel Albatrós não se preoccuparam com taes demonstrações. Mas as guitas que seguravam os papagaios ás estacas dos jardins imperiaes foram, ou cortadas ou içadas a toda a pressa. D’estes leves apparelhos, uns vieram rapidamente a terra, accentuando os seus accordes, outros cahiram como aves que o chumbo ferisse nas azas e cujo canto expira com o ultimo alento. Um som violento, sahido da trombeta de Tom Turner, se espalhou sobre a capital, e cobriu as ultimas notas do concerto aéreo. Isso não interrompeu a fusilaria terrestre. Comtudo uma bomba viera rebentar apenas a alguns pés da plataforma, e o Albatrós subiu de novo para as zonas inaccessiveis do céo.
O que se passou durante alguns dias que se seguiram? Nenhum incidente de que os prisioneiros pudessem aproveitar. Que direcção tomou a aéronave? Invariavelmente a do sudoéste, o que denotava o projecto de se approximar do Industão.
Era visivel, além d’isso, que o solo, alteando-se cada vez mais, obrigava o Albatrós a regular-se segundo o seu perfil. Umas dez horas depois de haverem deixado Pekin, Uncle Prudent e Phil Evans tinham podido entrevêr a parte da grande muralha no limite do Chen-Si. Depois, evitando os montes Loungs, passaram por sobre o valle de Wang-Ho e transpuzeram a fronteira do Imperio Chinez, no limite do Tibet.
O Tibet, elevados planaltos sem vegetação, barrancos dissecados, torrentes alimentadas pelos geleiros, baixios com brilhantes camadas de sal, lagos emmoldurados em florestas virentes. Acima de tudo, um vento muitas vezes glacial.
O barometro, baixado a 450 millimetros, indicava então uma altitude de mais de quatro mil metros acima do nivel do mar. A esta altura, a temperatura, apesar de se estar nos mezes mais quentes do hemispherio boreal, não passava de zero. Aquelle resfriamento, combinado com a velocidade do Albatrós, tornava a situação pouco supportavel. De modo que, apesar dos dois collegas dispôrem de quentes mantas de viagem, preferiram entrar para os seus compartimentos.
Escusado será dizer que fôra preciso dar aos helices suspensivos uma velocidade extrema, afim de manter a aéronave n’um ar já rarefeito. Mas elles funccionavam com um conjunto perfeito, e parecia que se estava embalado pelo fremito das suas azas.
N’esse dia, Garlok, a cidade do Tibet occidental, capital da provincia de Guari-Khorsum, poude ver passar o Albatrós do tamanho de um pombo viajante.
No dia 27 de junho, Uncle Prudent e Phil Evans notaram uma enorme barreira, dominada por alguns altos picos, perdidos na neve, e que lhes interceptava o horisonte.
Os dois, encostados ao compartimento da frente, afim de resistir á velocidade do deslocamento, olhavam para aquellas massas colossaes. Pareciam correr na frente da aéronave.
—É o Himalaya, com certeza, disse Phil Evans, e é provavel que vá contornar-lhe a base, sem tentar passar pela India.
—Peor para nós! respondeu Uncle Prudent. N’esse immenso territorio, talvez tivessemos podido ...
—A não ser que elle torneie a cordilheira a léste, ou pelo Nepól a oéste.
—Desafio-o a que o faça!
—Serio! disse uma voz.
No dia seguinte, 28 de junho, o Albatrós estava em frente do gigantesco macisso, por cima da provincia de Zzang. Do outro lado do Himalaya estava a região de Nepól.
Com effeito, tres cordilheiras impedem successivamente o caminho da India, a quem vem do norte. As duas cordilheiras septentrionaes, entre as quaes se insinuára o Albatrós, como um navio entre enormes escolhos, são os primeiros degraus d’aquella barreira da Asia central. Foi primeiramente o Karakorum, que forma o valle longitudional e parallelo ao Himalaya, quasi na linha que separa as bacias do Indo, a oéste, das do Brahmaputra, a léste.
Que soberbo systema orographico! Mais de duzentos cumes já medidos, dos quaes dezesete passam de vinte e cinco mil pés! Deante do Albatrós, a oito mil oitocentos e quarenta metros, eleva-se o monte Everest. Á direita, o Dwalaghiri, da altura de oito mil e duzentos metros. Á esquerda, o Kinchanjunga, da altura de oito mil quinhentos e noventa e dois metros, posto no segundo plano, depois das ultimas medidas do Everest.
Evidentemente, Robur não tinha a pretenção de chegar até o pincaro das montanhas; mas conhecia as diversas passagens do Himalaya, entre outras a passagem de Ibi-Gamin, que os irmãos Schlagintweit, em 1856, transpuzeram a uma altura de seis mil e oitocentos metros, e n’ella se metteu resolutamente.
Houve algumas horas palpitantes, dolorosas mesmo. Comtudo, se a rarefacção do ar não se tornou tal que fôsse preciso recorrer a apparelhos especiaes para renovar o oxygenio nos beliches, o frio comtudo foi excessivo.
Robur, postado na frente, com o seu masculo rosto debaixo do capuz, commandava as manobras. Tom Turner tinha na mão a canna do leme. O machinista vigiava attentamente as pilhas, cujas substancias nada tinham, felizmente, a receiar da congelação. Os helices, levados ao maximo da corrente, soltavam sons cada vez mais agudos, cuja intensidade foi extrema, apesar da minima intensidade do ar. O barometro cahiu a 290 milimetros, o que indicava sete mil metros de altitude.
Magnifica disposição a d’esse cahos de montanhas! Por toda a parte cumes brancos. Nenhum lago, mas geleiros que descem até dez mil pés da base. Nenhuma herva, apenas raras phanerogamias no limite da vida vegetal. Nenhum d’esses admiraveis pinheiros e cedros que se agrupam em florestas esplendidas, nos flancos inferiores da cordilheira. Nenhum d’esses gigantescos fetos, nem d’esses interminaveis parasitas, extendidos de um tronco a outro, como nos cannaviaes bravos. Nenhum animal, nem cavallos selvagens, nem yacks, nem bois tibetanos. De quando em quando uma gazella perdida n’aquellas alturas. Nenhuma ave, a não ser alguns casaes d’essas gralhas que se elevam até as ultimas camadas do ar respiravel.
Transposta esta passagem, o Albatrós começou a descer de novo. Ao sahir do desfiladeiro, para fora da região das florestas, não se via mais do que uma planicie infinita que se extendia sobre um immenso sector.
Então Robur avançou para os seus hospedes, e com voz amavel:
—A India, meus senhores! lhes disse.
O engenheiro não tinha tenção de passear o seu apparelho por sobre aquellas maravilhosas regiões do Industão. Galgar o Himalaya para mostrar de que admiravel engenho de locomoção elle dispunha, convencer mesmo os que não queriam deixar-se convencer, era tudo quanto desejava. Quer isto dizer que o Albatrós era perfeito, embora não exista a perfeição n’este mundo? É o que havemos de vêr.
Em todo o caso, se no seu fôro intimo Uncle Prudent e o seu collega não podiam deixar de admirar o poder de um tal apparelho de locomoção aerea, não o deixaram conhecer. Só procuravam o ensejo de se safar. Nem mesmo admiravam o soberbo espectaculo que se lhes offerecia, emquanto o Albatrós seguia as orlas pittorescas do Pendjab.
Ha na base do Himalaya uma facha de terrenos pantanosos d’onde transpiram vapores doentios; é o Terai, onde a febre existe no estado endemico. Isso porém não era cousa que embaraçasse o Albatrós, nem compromettesse a saude do seu pessoal. Dirigiu-se, sem se apressar muito, para o angulo que o Industão forma no ponto de juncção do Turkestan com a China. No dia 29 de junho, nas primeiras horas do dia, abria-se deante d’elle o incommensuravel valle de Cachemir.
Sim, incomparavel essa garganta que deixam entre si o grande e o pequeno Himalaya! Sulcada de centenas de contrafortes de montanhas, que a enorme cordilheira leva até á bacia do Hydaspe, é banhada pelos caprichosos meandros do rio, que assistiu ao choque dos exercitos de Porus e de Alexandre, isto é, a India e a Grecia em lucta na Asia central. Esse Hydaspe continúa alli, ao passo que as duas cidades, fundadas pelo Macedonio, em commemoração da sua victoria, desappareceram a ponto de não se conhecer onde existiram.
Durante essa manhã, o Albatrós pairou por sobre o Srinagar, mais conhecido pelo nome de Cachemir. Uncle Prudent e o seu companheiro viram uma cidade soberba, ao longo das duas margens do rio, com as suas pontes de madeira da grossura de um fio, os seus chalets adornados de balcões recortados; as suas ribas ensombradas de altos ulmeiros; os seus tectos cobertos de musgo, que tomavam o aspecto de ninhos de toupeira; os seus canaes multiplos, com barcos do tamanho de nozes e barqueiros do tamanho de formigas; os seus palacios, os seus templos, os seus kiosques; as suas mesquitas, os seus bangalós, á entrada dos bairros,—todo esse conjunto duplicado pelo reflexo das aguas; depois a sua velha cidadella de Hari-Parvata, no alto de uma collina, como o mais importante dos fortes de Paris no alto do Monte Valeriano.
—Seria Veneza, disse Phil Evans, se estivessemos na Europa.
—E se estivessemos na Europa, respondeu Uncle Prudent, nós saberiamos encontrar o caminho da America!
O Albatrós não se demorou sobre o lago que o rio atravessa, e retomou o vôo através do valle do Hydaspe.
Durante meia hora apenas, tendo descido a uns dez metros do rio, permaneceu estacionario. Então, por meio de um tubo de borracha deitado abaixo, Tom Turner e os seus companheiros puzeram-se a refazer a sua provisão de agua, que foi aspirada por meio de uma bomba que as correntes dos accumuladores puzeram em movimento.
Durante esta operação, Uncle Prudent e Phil Evans tinham olhado um para o outro. Um mesmo pensamento lhes havia passado pelo cerebro. Estavam a uns passos apenas do Hydaspe, ao alcance das margens. Ambos eram bons nadadores. Um mergulho lhes daria a liberdade, e quando tivessem desapparecido, como é que Robur os poderia apanhar? Para os seus propulsores terem a possibilidade de se pôrem em acção, não era preciso que o apparelho estivesse pelo menos dois metros acima do lago?
N’um instante passaram-lhes pelo espirito todas as considerações pró e contra. N’um instante as pesaram. E afinal íam-se atirar da plataforma abaixo, quando muitos pares de mãos se descarregaram sobre os seus hombros.
Tinham estado a observal-os. Ficaram na impossibilidade de fugir.
Mas d’esta vez não se renderam sem resistencia. Quizeram repellir os que os seguravam. Mas era gente solida, essa gente do Albatrós.
—Meus senhores, contentou-se com dizer o engenheiro, quando se tem o prazer de viajar em companhia de Robur, o Conquistador, como os senhores muito bem me chamaram, e a bordo do seu admiravel Albatrós, não se deixa esse Robur assim á ingleza! Direi mesmo que não se deixa nunca!
Phil Evans arrastou comsigo o seu collega, que se ía entregar a algum acto de violencia. Ambos entraram para o seu compartimento, resolvidos a fugir, fôsse para onde fôsse, embora isso lhes custasse a vida.
O Albatrós tinha retomado a sua direcção para oéste. Durante esse dia, com uma velocidade média, transpoz o territorio de Caboulistan, cuja capital avistaram por momentos, depois a fronteira do reino de Herát, a mil e cem kilometros de Cachemir.
N’aquellas regiões, ainda tão disputadas, n’este caminho aberto aos russos para as possessões inglezas da India, appareceram ajuntamentos de homens, columnas d’elles, comboios, n’uma palavra, tudo que constitue o pessoal e o material de um exercito em marcha. Ouviram-se tiros de peça e o crepitar da fusilaria. Mas o engenheiro não se mettia em negocios de outrem, a não ser que fôsse para elle um ponto de honra ou uma questão de humanidade. Continuou ávante. Se o Herát, como dizem, é a chave da Asia central, pouco lhe importava que essa chave estivesse n’uma algibeira ingleza ou n’uma algibeira moscovita. Os interesses terrestres nada tinham que vêr com esse atrevido, que tinha feito do ar o seu unico dominio.
Além de que não tardou que o paiz desapparecesse debaixo de um verdadeiro furacão de areia, como é frequente n’aquellas regiões. Esse vento, que se chama “tebbad„, transporta elementos febris com a poeira imponderavel que levanta na sua passagem. E quantas caravanas não veem a morrer n’aquelles turbilhões!
Quanto ao Albatrós, no intuito de escapar a essa poeira que podia prejudicar a finura das suas engrenagens, foi buscar a dois mil metros uma zona mais pura.
Assim desappareceu a fronteira da Persia e as suas vastas planicies que permaneceram invisiveis. O andamento era moderado, apesar de não haver a receiar nenhum escolho.
Com effeito, se a carta indica algumas montanhas, são ellas cotadas a altitudes médias. Mas, nas proximidades da capital, convinha evitar o Damavend, cujo cume, cheio de neve, tem a altura de cêrca de seis mil e seiscentos metros, e depois a cordilheira de Elbrouz, ao pé da qual está construida Teheran.
Desde os primeiros clarões do dia 2 de julho appareceu esse Damavend, emergindo do simún de areias.
O Albatrós encaminhou-se pois de maneira a passar por sobre a cidade, que o vento envolvia n’uma nuvem de fina poeira.
Apesar d’isso, pelas seis da manhã, puderam-se notar largos fossos, em volta do recinto, e no meio, o palacio do Shah, as suas muralhas revestidas de tijolos, as suas bacias, que pareciam talhadas em enormes turquezas de um azul brilhante.
Não passou de uma rapida visão. A partir d’aquelle ponto, o Albatrós, alterando o seu itinerario, dirigiu-se quasi que directamente ao norte. Algumas horas depois, achava-se por cima de uma pequena cidade, construida n’um angulo septentrional da fronteira persa, sobre as margens de uma grande extensão de agua, cujo termo se não podia notar nem ao norte nem ao sul.
Aquella cidade era o porto de Ashurada, a estação russa mais avançada do sul. Aquella extensão de agua era um mar, o mar Caspio.
Já se não viam turbilhões de poeira. Era a vista de um conjunto de casas á européa, dispostas ao longo de um promontorio, com um campanario a dominal-as.
O Albatrós desceu sobre aquelle mar, cujas aguas estão tresentos pés abaixo do nivel do oceano. Junto á tarde, ía ao longo da costa,—outr’ora turkestana, hoje russa,—que sobe até o golpho de Balkan, e no dia seguinte, 3 de julho, pairava cem metros acima do mar Caspio.
Nenhuma terra á vista, nem do lado da Asia, nem do lado da Europa. Á superficie do mar, algumas vélas brancas, enfunadas pela brisa. Eram os navios indigenas, que se reconheciam pela sua forma, kesebeys de dois mastros, kayuks, antigos barcos piratas de um mastro, teimils, simples botes de serviço ou de pesca. Aqui e acolá subiam até o Albatrós algumas nuvens de fumo, lançadas pelos canos dos vapores de Ashurada, que a Russia mantém para fazer a policia das aguas turcumanas.
N’aquella manhã, o contramestre Tom Turner conversava com o mestre cozinheiro, François Tapage, e a uma pergunta d’este, respondera:
—Sim, estaremos cêrca de quarenta e oito horas por cima do mar Caspio.
—Bem! respondeu o mestre cozinheiro. Isso permittir-nos-ha decerto pescar.
—Perfeitamente!
Se se gastariam quarenta e oito horas em percorrer as cento e vinte e cinco milhas que aquelle mar mede de comprimento, sobre duzentas de largo, é porque a velocidade do Albatrós seria muito moderada, e mesmo nulla durante as operações de pesca.
Ora aquella resposta de Tom Turner foi ouvida por Phil Evans, que estava então na frente.
N’aquelle momento, Fricollin teimava em o maçar com as suas incessantes queixas, pedindo-lhe para intervir junto a seu amo, afim de elle ser pousado em terra.
Sem responder áquelle pedido absurdo, Phil Evans voltou atraz para ir ter com Uncle Prudent. Ahi, com todas as precauções para não serem ouvidos, contou as phrases trocadas entre Tom Turner e o mestre cozinheiro.
—Phil Evans, respondeu Uncle Prudent, quero crer que nos não resta illusão alguma com respeito ás intenções d’esse miseravel a nosso respeito?
—Nenhuma! respondeu Phil Evans. Não nos dará a liberdade senão quando lhe convier, se é que nol-a dará!
—N’esse caso devemos tentar tudo para deixarmos o Albatrós.
—Famoso apparelho, devemos confessar!
—É possivel! exclamou Uncle Prudent, mas apparelho de um patife que nos retem, desprezando todo o direito. Ora este apparelho representa para nós e para os nossos um perigo permanente. Se conseguissemos destruil-o ...
—Tratemos primeiro de nos salvar; depois veremos.
—Pois sim! respondeu Uncle Prudent, e aproveitemos as occasiões que se vão proporcionar ... Evidentemente o Albatrós vae atravessar o mar Caspio, e lançar-se depois sobre a Europa, quer ao norte, por sobre a Russia, quer ao oéste, por sobre as regiões meridionaes. Pois bem! em qualquer ponto que ponhamos o pé, estará segura a nossa salvação até o Atlantico. É conveniente portanto estarmos promptos para tudo.