—Mas, perguntou Phil Evans, fugir de que maneira?
—Ora ouça, disse Uncle Prudent. Succede ás vezes, durante a noite, que o Albatrós paira a uns centos de pés acima do solo. Ha a bordo alguns cabos com esse comprimento, e com um pouco de ousadia, talvez se pudesse deslisar por um d’elles abaixo ...
—Sim, respondeu Phil Evans, e n’esse caso não hesitarei.
—Nem eu, disse Uncle Prudent. Mas note que, excepto o homem do leme que fica atraz, ninguém está de noite acordado. Ora, precisamente um d’aquelles cabos está na frente, e, sem se ser visto, sem se ser ouvido, não era difficil desenrolal-o.
—Bem, disse Phil Evans. Vejo com prazer, Uncle Prudent, que está mais sereno. É melhor assim. Mas eis-nos sobre o mar Caspio. Numerosos navios estão á vista. O Albatrós vae descer e parar durante a pesca ... Não poderiamos aproveitar d’isso?
—Oh! somos vigiados, mesmo quando mal imaginâmos, respondeu Uncle Prudent. Bem o viu, quando nos quizemos lançar ao Hydaspe.
—E quem nos diz que não somos tambem vigiados de noite? observou Phil Evans.
—Mas é necessario acabarmos com isto! exclamou Uncle Prudent, sim! acabar com este Albatrós e com o seu dono!
Como se vê, sob o imperio da colera, os dois collegas,—Uncle Prudent principalmente—podiam ser levados a praticar os actos mais temerarios e talvez os mais contrarios á sua propria segurança.
O sentimento da sua impotencia, o desdem ironico com que Robur os tratava, as respostas brutaes que elle lhes dava, tudo contribuia para tornar tensa uma situação cujo aggravamento era cada dia mais manifesto.
N’esse mesmo dia uma nova scena esteve para produzir uma altercação das mais lamentaveis entre Robur e os dois collegas. Mal imaginava Fricollin que seria elle quem a provocasse.
Vendo-se sobre este mar sem limites, o poltrão teve uma grande surpresa. Como uma creança, como um negro que era, poz-se a gemer, a gritar, a agitar-se em mil contorsões e caretas.
—Quero-me ir embora!... quero-me ir embora! gritava elle. Não sou passaro!... Não fui feito para voar!... Ponham-me em terra!... depressa!...
É claro que Uncle Prudent não se importava nada com socegal-o,—pelo contrario. De modo que aquelles berros acabaram por impacientar Robur, fortemente.
Ora como Tom Turner e os seus companheiros iam proceder ás manobras da pesca, o engenheiro, para se vêr livre de Fricollin, ordenou que o fechassem no seu compartimento. Mas o negro continuou a debater-se, a patear, a berrar cada vez mais.
Era meio dia. O Albatrós estava então a uns cinco ou seis metros apenas do nivel do mar. Algumas embarcações, espantadas com a sua presença, tinham desatado a fugir. Não tardaria em ficar deserta aquella porção do mar Caspio.
Como se pode imaginar, n’estas condições em que elles não tinham mais do que atirar-se á agua para fugir, os dois collegas deviam ser, e eram de facto, objecto de uma vigilancia especial. Admittindo mesmo que elles se atirassem pela borda fora, facil seria apanhal-os com o barco de cautchuc do Albatrós. Portanto nada se podia fazer durante a pesca, a que Phil Evans julgou dever assistir, emquanto que Uncle Prudent, em perpetuo estado de raiva, se retirava para o seu beliche.
Como se sabe, o mar Caspio é uma depressão vulcanica do solo. N’aquella bacia caem as aguas d’esses grandes rios, o Volga, o Ural, o Kur, o Kuma, o Yemba e outros. Sem a evaporação que lhe absorve a agua a mais, aquella cavidade, de uma superficie de dezesete mil leguas quadradas, de uma profundidade média comprehendida entre sessenta e quatrocentos pés, teria inundado as costas do norte e léste, baixas e pantanosas. Apesar de não estar em communicação nem com o mar Negro, nem com o mar de Aral, cujos niveis são muito superiores ao seu, não deixa por isso de crear uma grande quantidade de peixe,—d’esses, claro está, que se não dão mal com as aguas, de um amargo pronunciado, devido á naphta que alli trazem as correntes desde o extremo meridional.
Ora, com a idéa da variedade que ia trazer ao seu passadio, o pessoal do Albatrós não dissimulava o prazer que isso lhe ia dar.
—Attenção! exclamou Tom Turner, que acabava de fisgar um peixe de um bello tamanho, quasi do feitio do tubarão.
Era um magnifico solho, de sete pés de comprido, da especie chamada Belonga, entre os russos, e cujos ovos, misturados com sal, vinagre e vinho branco, constituem o caviar. Talvez que os solhos, ou esturjões, pescados no rio, sejam melhores que os pescados no alto mar; mas estes foram bem recebidos a bordo do Albatrós.
Comtudo, o que tornou aquella pesca mais fructifera ainda, foi a rêde de arrastar que apanhou, a esmo, carpas, douradas, salmões, lucios marinhos, e sobretudo uma quantidade de outros peixes, os sterlets, de tamanho médio, que os ricos apreciadores mandam vir vivos de Astrakan, a Moscow e S. Petersburgo. Estes iam passar do seu elemento natural para as caldeiras de bordo, sem despesa de transporte.
A gente de Robur puxava alegre as redes que o Albatrós arrastára durante algumas milhas. O gascão François Tapage gritava de prazer, justificando bem o seu nome. Uma hora de pesca bastou para encher os viveiros da aeronave, que se dirigiu para o norte.
Durante esta paragem, Fricollin não tinha deixado de berrar, de bater nas paredes do quarto, de fazer finalmente uma algazarra dos diabos.
—Aquelle maldito negro não se calará! disse Robur, já com a paciencia exgottada.
—Quer-me parecer, meu caro senhor, que elle está no seu direito de se queixar! respondeu Phil Evans.
—Sim, como eu no direito de poupar este supplicio aos meus ouvidos! replicou Robur.
—Engenheiro Robur!... bradou Uncle Prudent, que acabava de apparecer na plataforma.
—Presidente do Weldon-Institute?
Avançaram um para o outro. Encaravam-se fixamente.
Depois, Robur, encolhendo os hombros:
—No extremo de uma corda! disse elle.
Tom Turner tinha comprehendido. Fricollin foi tirado do beliche.
Que gritos elle não deu quando o contramestre e um dos seus companheiros o seguraram e o ataram a uma especie de celha, a que prenderam a extremidade de um cabo!
Era precisamente um d’esses cabos de que Uncle Prudent queria fazer o uso que sabemos.
O negro julgára a principio que ia ser enforcado ... Mas não! devia ser apenas suspenso.
Com effeito foi desenrolado o cabo para fora, no comprimento de cem pés, e Fricollin achou-se a balançar no espaço.
Podia agora gritar á vontade. Mas o pavor estrangulava-o, e ficou sem fala.
Uncle Prudent e Phil Evans tinham querido oppôr-se áquella execução: fôram porém repellidos.
—É uma infamia!... É uma cobardia! exclamou Uncle Prudent, que estava fora de si.
—Serio! respondeu Robur.
—É um abuso da fôrça contra o qual eu hei de protestar de outro modo que não sejam só palavras.
—Pois proteste.
—Hei de me vingar, engenheiro Robur!
—Pois vingue-se, presidente do Weldon-Institute!
—Hei de me vingar de si e dos seus!
O pessoal do Albatrós approximára-se em disposições pouco benevolas. Robur fez um signal para se afastarem.
—Sim! de si e dos seus!... continuou Uncle Prudent, que o seu collega em vão tentava socegar.
—Quando queira! respondeu o engenheiro.
—E por todos os meios possiveis!
—Basta! disse então Robur n’um tom ameaçador, basta! Ha mais cabos a bordo! Cale-se, ou, quando não, faz-se ao amo o que se fez ao creado!
Uncle Prudent calou-se, não de medo, mas porque lhe deu uma tal suffocação, que Phil Evans teve de o levar para o beliche.
Havia uma hora que o tempo se modificára singularmente. Havia symptomas que não enganavam. Estava eminente uma tempestade. A saturação electrica da atmosphera fôra levada a tal ponto que pelas duas e meia Robur presenceára um phenomeno que elle jamais observára.
Nas bandas do norte, d’onde provinha a tempestade, subiam volutas de vapor quasi luminosas, o que decerto era devido á variação da carga electrica das camadas de nuvens.
O reflexo d’aquellas fachadas fazia correr, á superficie do mar, myriades de luzes, cuja intensidade se tornava tanto mais viva quanto o céo começava a escurecer.
O Albatrós e o meteoro não tardariam em encontrar-se, visto caminharem um para o outro.
E Fricollin? Fricollin continuava sempre a reboque, e reboque é o termo proprio, porque o cabo fazia um angulo muito aberto com o apparelho lançado a uma velocidade de cem kilometros, o que deixava a celha um tanto atraz.
Calcule-se o seu espanto quando os relampagos começavam a sulcar o espaço em volta d’elle, emquanto o trovão rolava nas profundezas do céo.
Todo o pessoal de bordo occupava-se em manobrar, de prevenção contra a tempestade, quer para se elevar mais alto que ella, quer para se distanciar, lançando-se através das camadas inferiores.
O Albatrós achava-se então na sua altura média,—mil metros proximamente,—quando rebentou uma trovoada de uma violencia extrema. O tufão subiu rapidamente. Em alguns segundos, as nuvens em fogo precipitaram-se sobre a aeronave.
Phil Evans veiu então interceder a favor de Fricollin e pedir que o trouxessem para bordo. Mas Robur não tinha esperado pelo pedido. Tinha dado as suas ordens, e já se tratava de içar a corda, quando de repente se produziu um afrouxamento inexplicavel na rotação dos helices suspensivos.
Robur deu então um pulo para os compartimentos centraes.
—Fôrça! fôrça!... gritou elle ao machinista. É preciso subir rapidamente e mais alto que a tempestade.
—Impossivel, mestre!
—O que ha?
—As correntes estão desarranjadas!... Dão se intermittencias!...
E de facto o Albatrós baixava sensivelmente.
Como acontece com as correntes dos fios electricos durante a tempestade, o funccionamento electrico não actuava senão de um modo incompleto nos accumuladores da aeronave. Mas, o que não passa de um inconveniente, quando se trata de despachos telegraphicos, aqui era nada menos que o apparelho precipitado no mar, sem se poder ser senhor d’elle.
—Deixa-o descer, gritou Robur, e saiâmos da zona electrica! Vamos, rapazes! tenham sangue frio!
O engenheiro tinha-se posto em pé sobre o banco de quarto. Os homens, no seu posto, estavam prestes a executar as ordens do mestre.
O Albatrós, apesar de ter baixado alguns centos de metros, estava ainda immerso na nuvem, no meio de relampagos que se cruzavam como peças de fogo de artificio. Era caso de imaginarem que ia ser fulminado. Os helices afrouxaram-se ainda mais, e o que até então não fôra mais do que uma descida um pouco mais rapida, ameaçava agora tornar-se n’uma quéda.
Finalmente, em menos de um minuto estaria no nivel do mar. E dado o mergulho, nada havia que o pudesse arrancar áquelle abysmo.
De subito appareceu por cima d’elle uma nuvem electrica. O Albatrós estava apenas a sessenta pés da crista das ondas. Em dois ou tres segundos, estas teriam inundado a plataforma.
Mas Robur, aproveitando o instante propicio, metteu-se no compartimento central, segurou nas alavancas de impulsão, soltou a corrente das pilhas que já não neutralisava a tensão electrica da atmosphera ambiente ... N’um momento restituiu aos helices a sua velocidade normal, susteve a quéda, e manteve o Albatrós a pequena altura, ao mesmo tempo que os seus propulsores o arrastavam para longe da tempestade, que não tardou em ser transposta.
Inutil é dizer que Fricollin tomára um banho forçado, durante alguns segundos apenas. Quando foi trazido para bordo, estava molhado como se estivesse mergulhado até o fundo do mar. Como se pode imaginar, não gritou mais.
No dia seguinte, 4 de julho, o Albatrós tinha transposto o limite septentrional do mar Caspio.
Se alguma vez Uncle Prudent e Phil Evans renunciaram a toda a esperança de escapar, foi durante as cincoenta horas que se seguiram. Teria Robur receado que a guarda dos seus prisioneiros fôsse menos facil durante essa travessia da Europa? É possivel. Sabia, além d’isso, que elles estavam resolvidos a tudo para fugir.
Seja como fôr, toda a tentativa teria sido então um suicidio. Saltar de um expresso, que vae com a velocidade de cem kilometros por hora, não é talvez mais do que arriscar a vida; mas saltar de um rapido, que vae na razão de duzentos kilometros, seria desejar a morte.
Viram então um dos naufragos
Ora, é precisamente essa velocidade, a maxima de que podia dispôr,—que fôra imprimida ao Albatrós. Excedia o vôo da andorinha, isto é, cento e oitenta kilometros por hora. Tinha-se notado que, desde algum tempo, os ventos do nordéste dominavam com uma persistencia muito favoravel á direcção do Albatrós, porque seguia no mesmo sentido, isto é, de um modo geral para o oéste. Mas esses ventos começavam a acalmar, e tornou-se em breve impossivel manterem-se na plataforma, sem terem a respiração cortada pela rapidez do deslocamento. Os dois collegas, n’um certo momento, teriam mesmo sido lançados pela borda fora, se não tivessem sido apertados contra as paredes dos seus compartimentos pela pressão do ar.
Felizmente, através as portinholas do seu cubiculo, o homem do leme deu por elles, e uma campainha electrica preveniu os homens, que estavam nos compartimentos da frente.
Quatro d’elles vieram ter cá atraz, de rastos sobre a plataforma.
Que os que se teem achado no mar, a bordo de um navio, direito ao vento, durante uma tempestade, evoquem as suas recordações, e comprehenderão qual era a violencia de uma tal pressão. Unicamente, aqui, era o Albatrós que a creava pela sua incomparavel velocidade.
Em summa foi preciso moderar o andamento,—o que permittiu a Uncle Prudent e a Phil Evans voltar ao seu beliche. No interior dos seus aposentos, como bem dissera o engenheiro, o Albatrós tinha uma atmosphera perfeitamente respiravel.
Mas que solidez tinha aquelle apparelho, para poder resistir a tal deslocamento? Era prodigioso. Quanto aos propulsores da frente e de traz, nem já se viam girar. Era com um infinito poder de penetração que elle entrava na camada de ar.
A ultima cidade notada de bordo, era Astrakan, situada quasi no extremo norte do mar Caspio.
A estrella do Deserto (foi decerto algum poeta russo que assim a denominou), tinha então descido da quinta á sexta grandeza. Aquella simples séde de governo mostrára por instantes as suas velhas muralhas coroadas de inuteis ameias, as suas torres antigas no centro da cidade, as suas mesquitas contiguas ás egrejas de estylo moderno, a sua cathedral cujas cupulas, douradas e semeadas de estrellas azues, pareciam recortadas n’um pedaço do firmamento; tudo quasi ao nivel d’essa embocadura do Volga que mede dois kilometros. Depois a partir d’esse ponto, o vôo do Albatrós não foi mais do que uma especie de desfilada através das alturas do céo, como se fôsse tirado por esses fabulosos hippogrifos, que transpõem uma legua em cada movimento de aza.
Eram duas horas da manhã, do dia 4 de julho, quando a aeronave tomou rumo na direcção noroéste, seguindo quasi o valle do Volga.
As steppes do Don e do Oural seguiam dos dois lados do rio. Se fôsse possivel lançar a vista sobre aquelles vastos territorios, mal haveria tempo para contar as cidades e aldeias. Afinal, quando veiu a noite, a aeronave ia além de Moscow. Em dez horas, tinha transposto os dois mil kilometros que separam Astrakan da antiga capital de todas as Russias.
De Moscow a S. Petersburgo, a linha de caminho de ferro não conta mais de mil e duzentos kilometros. Era portanto questão de meio dia. De modo que o Albatrós, pontual como um expresso, alcançou S. Petersburgo e as margens do Neva pelas duas da manhã.
A claridade da noite, debaixo d’esta latitude onde abunda tão pouco o sol de junho, permitte abraçar um instante o conjunto d’aquella vasta capital.
Depois foi o golpho de Finlandia, o archipelago de Abo, o Baltico, a Suecia, na latitude de Stockolmo, a Noruega na latitude de Christiania. Dez horas apenas para aquelles dois mil kilometros. Como se pode imaginar, nenhum poder conseguiria então travar a velocidade do Albatrós, como se a resultante da sua fôrça de projecção e de attracção terrestre o tivesse mantido n’uma trajectoria immutavel em volta do globo.
E comtudo parou, e precisamente por cima da famosa cascata de Rjukanfos, na Noruega. O Gusta, cujo cume domina aquella admiravel região do Telemarck, foi como que um limite gigantesco que elle não devia ultrapassar no oéste.
De modo que a partir d’aquelle ponto, o Albatrós voltou francamente para o sul, sem moderar a sua velocidade.
E durante aquelle vôo inverosimil o que fazia Fricollin? Permanecia mudo no fundo do beliche, dormindo o melhor que podia, excepto nas horas da refeição.
Francisco Tapage fazia-lhe então companhia e gosava com os seus terrores.
—Então! meu rapaz, disse elle, já não gritas?... Não te prendas!... É questão de duas horas de suspensão!... Hein! com a velocidade que levamos agora, que excellente banho de ar para o rheumatismo!
—Parece-me que tudo se desmancha! repetia Fricollin.
—Talvez, meu valente Fry! talvez! Mas vamos tão rapidamente que nem poderiamos cahir! É o que vale!
—Acha isso?
—Á fé de gascão!
Para dizer a verdade e sem exaggerar como Francisco Tapage, o certo era que, graças áquella rapidez, o trabalho dos helices suspensivos tinha minorado um pouco. O Albatrós deslisava na camada de ar á maneira de um foguete.
—E isto durará muito tempo assim? perguntou Fricollin.
—Muito tempo?... Oh! não! respondeu o mestre cozinheiro. Apenas toda a vida!
—Ah!... exclamára o negro, recomeçando as suas lamentações.
—Toma sentido, Fry, toma sentido! dizia Francisco Tapage, porque olha que o mestre pode mandar-te para o balouço.
E Fricollin engulia os seus suspiros com os pedaços de comida que mettia na bôcca em duplicado.
Durante este tempo, Uncle Prudent e Phil Evans, que não eram homens para se recriminarem inutilmente, acabavam de tomar uma resolução. Era evidente que a fuga se não podia realisar. Se não era possivel pôr o pé em terra, não se poderia fazer saber aos seus habitantes o que era feito, depois que haviam desapparecido, do presidente e secretario do Weldon-Institute! por quem haviam sido arrebatados; a bordo de que machina voadora estavam retidos? e provocar talvez,—mas de que maneira, Deus do céo!—uma audaciosa tentativa da parte dos seus amigos para os arrancar ás mãos d’esse Robur?
Mas corresponderem-se? de que modo? Seria bastante fazer como os marinheiros em afflicção que lançam á agua uma garrafa contendo um documento indicativo do local do naufragio?
Mas aqui o mar era a atmosphera. A garrafa não fluctuaria. A menos de não cahir justamente sobre a cabeça de algum transeunte, rachando-a, corria-se o risco de não ser encontrada.
Em summa, os dois collegas não tinham senão este meio á sua disposição e iam sacrificar uma das garrafas de bordo, quando Uncle Prudent teve outra idéa. Elle tomava rapé, como se sabe, e pode-se perdoar este ligeiro defeito a um americano, que podia fazer peior.
Ora como tomasse rapé, tinha uma caixa,—n’aquella occasião vasia. Era de aluminio. Atirada ao chão, se algum honesto cidadão a encontrasse, apanhal-a-hia, e apanhando-a, leval-a-hia a uma estação de policia, e alli tomariam conhecimento do documento destinado a dar a conhecer a situação das duas victimas de Robur, o Conquistador.
É o que se fez. A nota era curta, mas dizia tudo e dava a direcção do Weldon-Institute, com um pedido para ser enviada ao seu destino.
Então Uncle Prudent, mettendo a nota na caixa, envolveu esta n’um espesso trapo de lã, e atou-a com cordel, tanto para impedir que se abrisse durante a quéda, como para se não partir no chão. Não havia mais do que esperar occasião favoravel.
Realmente, a manobra mais difficil, durante aquella prodigiosa travessia da Europa, era sahir do beliche, ir de rastos sobre a plataforma, com risco de ser arrebatado; e tudo isso em segredo.
Por outro lado, era preciso que a caixa não cahisse n’algum mar, golpho, lago ou outra qualquer porção de agua. Seria perdel-a.
Não era, comtudo, impossivel entrarem os dois collegas em communicação com o mundo habitado.
Era dia claro, n’aquella occasião; e era melhor esperar pela noite, e aproveitar, quer uma diminuição de actividade, quer uma paragem, para sahir do beliche. Talvez então se pudesse ir até á borda da plataforma, e não deixar cahir a preciosa caixa senão em cima de uma cidade.
Além d’isso, mesmo que todas aquellas condições se déssem, o projecto não poderia ser posto em execução,—pelo menos n’aquelle dia.
Com effeito o Albatrós, depois de ter deixado a terra noruegueza á altura do Gusta, tinha tomado para o sul. Seguia precisamente o zero de longitude que não é outro na Europa senão o meridiano de Paris. Passou portanto por cima do mar do norte, produzindo uma bem natural estupefacção a bordo d’esses milhares de barcos que fazem cabotagem entre a Inglaterra, Hollanda, França e Belgica. A não ser que a caixa cahisse exactamente sobre a ponte de um d’esses navios, o mais certo era ir para o fundo.
Uncle Prudent e Phil Evans foram pois obrigados a esperar uma occasião mais favoravel; e, como se vae vêr, uma excellente occasião se lhes ia offerecer.
Ás dez da tarde acabava o Albatrós de alcançar as costas da França, pouco mais ou menos á altura de Dunkerque. A noite estava muito escura. Por um instante se poude vêr o pharol de Gris-Nez cruzar os seus fogos electricos com o pharol do Passo de Calais. Então o Albatrós avançou por sobre o territorio francez, mantendo-se a uma altura média de mil metros.
A sua velocidade não tinha diminuido. Passava como uma bomba por sobre cidades, villas, aldeias, tão numerosas n’aquellas ricas provincias da França septentrional. Eram, sobre esse meridiano de Paris,—depois de Dunkerque—, Doulens, Amiens, Criel, Saint-Denis. Nada o fez desviar da linha recta. Foi assim que, perto da meia noite, elle estava por sobre a “Ville-Lumiére„, que merece aquelle nome quando os seus habitantes estão a dormir,—ou pelo menos deviam estar.
Mas que extranha phantasia levou o engenheiro a fazer alto sobre a cidade parisiense? não se sabe. O que é certo é que o Albatrós baixou de modo a dominal-a de alguns centos de pés apenas. Robur sahiu então do seu beliche e todo o pessoal veio respirar o ar para a plataforma.
Uncle Prudent e Phil Evans não perderam a excellente occasião que se lhes offerecia. Sahindo dos seus compartimentos, os dois, procuraram isolar-se, afim de poder escolher o momento mais propicio. Era sobretudo preciso evitar serem vistos.
O Albatrós, semelhante a um gigantesco escaravelho, continuava suavemente por sobre a grande cidade. Percorreu a linha dos boulevards, tão brilhantemente illuminados pelos apparelhos Edison. Subia até elles um ruido de trens, e o rodar das carruagens sobre os multiplos rails que irradiam sobre Paris. Depois veiu pairar á altura dos mais altos monumentos, como se tivesse querido ir de encontro á esphera do Pantheon ou á cruz dos Invalidos. Esvoaçou desde os dois minaretes do Trocadéro até á torre metallica do Campo de Marte, cujo enorme reflector inundava toda a capital com os seus clarões electricos.
Aquelle passeio aereo, aquelle vaguear de noctambulo, durou cêrca de uma hora. Era como uma paragem nos ares, antes de recomeçarem a interminavel viagem.
E talvez mesmo o engenheiro Robur quizesse dar aos parisienses o espectaculo de um meteoro que os seus astronomos não haviam previsto. Os pharoes do Albatrós foram postos em actividade. Dois feixes de luz passearam então sobre as praças, esquares, jardins, palacios e sobre as sessenta mil casas da cidade, lançando enormes jorros de luz, de um horisonte a outro.
Evidentemente fôra visto o Albatrós, d’aquella vez; não só bem visto, mas ouvido tambem, porque Tom Turner, embocando a sua trombeta, enviou sobre a cidade uma vibrante fanfarra.
N’essa occasião, Uncle Prudent, inclinando-se por sobre o parapeito, abriu as mãos e deixou cahir a caixa de rapé.
Quasi em seguida o Albatrós subiu rapidamente.
Então, através das alturas do céo parisiense, subiu um hurrah immenso da multidão, que era enorme ainda nos boulevards, hurrah de estupefacção que se dirigia ao phantastico meteoro.
De subito se apagaram os pharoes da aeronave, fez-se de novo a sombra em volta d’ella, ao mesmo tempo que o silencio, e seguiram o caminho com uma velocidade de duzentos kilometros por hora.
É tudo o que se devia ter visto da capital da França.
Ás quatro da manhã, o Albatrós tinha transposto obliquamente todo o territorio. Depois, afim de não perder tempo em transpôr os Pyrinéos ou os Alpes, deslisou á superficie da Provença até á ponta do Cabo das Antibes. Ás nove, os San-pietrini, reunidos no terraço de S. Pedro de Roma, ficavam embasbacados ao vêl-o passar por cima da Cidade Eterna. Duas horas depois, dominava a bahia de Napoles, balouçava-se um instante entre as volutas fuliginosas do Vesuvio. Afinal, depois de ter cortado o Mediterraneo com um vôo obliquo, desde a primeira hora depois do meio dia, era visto pelas vigias da Guletta, na costa tunisina.
Depois da America, a Asia! Depois da Asia, a Europa! Eram mais de trinta mil kilometros que o prodigioso apparelho acabava de fazer em menos de vinte e tres dias!
E agora, eil-o por sobre as regiões conhecidas ou desconhecidas da terra de Africa!
Talvez queiram saber o que veiu a succeder á famosa caixa de tabaco, depois da sua quéda?
A caixa cahira na rua de Rivoli, em frente do numero 210, no momento em que aquella rua estava deserta.
No dia seguinte foi apanhada por uma honrada varredoura, que se apressou a leval-a á Prefeitura de Policia.
Alli, tomada ao principio por um apparelho explosivo, foi desatada, desenrolada, aberta com a maxima cautela.
De subito houve uma especie de explosão ... Um formidavel espirro, que o chefe de segurança não tinha podido suster!
Tiraram então o documento de dentro da caixa, e, com geral surpreza, leu-se o seguinte:
“Uncle Prudent e Phil Evans, presidente e secretario do Weldon-Institute de Philadelphia, arrebatados na aeronave do engenheiro Robur.
“Participem isto aos amigos e conhecimentos.
U.P. e P.E.„
Era o inexplicavel phenomeno explicado finalmente aos habitantes dos Dois Mundos. Era o socego restituido aos numerosos observatorios que funccionam á superficie do globo terrestre.
N’este ponto da viagem de circumaviação do Albatrós, é permittido fazer as seguintes perguntas:
Quem é afinal esse Robur, cujo nome se não conhece até agora? Passa a sua vida nos ares? A sua aeronave não descança nunca? Não tem um retiro em qualquer logar inaccessivel, onde, embora não precise de descançar, vá pelo menos abastecer-se? Seria espantoso se assim não fôsse. Os mais poderosos voadores teem sempre um abrigo ou um ninho em qualquer parte.
Além d’isso, o que pretendia o engenheiro fazer d’aquelles dois incommodos prisioneiros? Pretendia conserval-os em seu poder, condemnal-os á aviação perpetua? Ou então, depois de os haver passeado por sobre a Africa, a America, a Australia, o Oceano Indico, o Atlantico, o Pacifico, para os convencer de vez, mesmo a despeito d’elles, dar-lhes liberdade, dizendo:
—Agora, meus senhores, espero que se mostrarão menos incredulos com respeito ao “Mais pesado que o ar„!
Em todo o caso, o tal ninho, a ave Robur não se incommodou em o procurar na fronteira septentrional da Africa. Contentou-se com passar o fim d’aquelle dia por sobre a regencia de Tunis, desde o cabo Bon até o cabo Carthago, ora esvoaçando, ora pairando, á mercê de um capricho. Um pouco depois, dirigiu-se para o interior, e enfiou o admiravel vale da Medjerda, seguindo o seu caminho pardacento, perdido entre os arbustos de cactus e loureiros rosas. E que centos de papagaios elle não espantou, que pousados nos fios telegraphicos pareciam esperar pelos despachos, na sua passagem, para os levar nas suas azas!
Depois, tendo vindo a noite, o Albatrós balouçou sobre as fronteiras da Krumeria, e, se ainda restava um krumir, este não deixou decerto de se prostrar em terra, invocando Allah, á apparição d’aquella aguia gigantesca.
No dia seguinte de manhã era Bone, e as graciosas collinas dos arredores; era Philippeville, agora uma pequenina Argel, com os seus novos caes em arcadas, as suas admiraveis vinhas, cujas cepas eriçam todo aquelle campo, que parece recortado no campo bordelez, ou nos torrões da Borgonha.
Este passeio de quinhentos kilometros, por sobre a grande e pequena Kabylia, terminou ao meio dia á altura da Kasbah de Argel.
Que espectaculo para os passageiros da aeronave! o ancoradouro aberto entre o Cabo Matifú e a Ponta Pescada, esse littoral ornado de palacios, de marabuts, de casas de campo; esses valles caprichosos, revestidos nos seus mantos de vinhas; esse Mediterraneo, tão azul, sulcado pelos vapores transatlanticos, que parecem lanchas a vapor!
E foi assim até Oran, a pittoresca, cujos habitantes, mais retardatarios nos jardins da cidade, puderam vêr o Albatrós confundir-se com as primeiras estrellas da noite.
Se Uncle Prudent e Phil Evans perguntassem a si proprios a que phantasia obedecia o engenheiro Robur, ao passear a prisão volante por sobre a terra argelina,—essa continuação da França do outro lado do mar, que mereceu o nome de lago francez,—deviam ter pensado que a sua phantasia estava satisfeita, duas horas depois do pôr do sol.
Um movimento do leme acabava de encaminhar o Albatrós para o suéste, e no dia seguinte, depois de se ter desembaraçado da parte montanhosa do Tell, viu o astro do dia levantar-se sobre as areias do Sahará.
Eis o itinerario do dia 8 de julho. Vista da pequena aldeia de Geryville, creada, como Laghouat, sobre o limite extremo do deserto, para facilitar a conquista ulterior da Kabylia. Passagem do desfiladeiro do Stillen, com certa difficuldade, contra uma brisa violentissima. Travessia do deserto, ora lenta, por sobre verdejantes oasis ou ksars, ora com uma rapidez fogosa, que vencia o vôo das gypaétas. Muitas vezes mesmo, foi preciso fazer fogo contra temiveis aves, que, aos bandos de doze e de quinze, não receavam precipitar-se sobre a aeronave, com grande espanto de Fricollin.
Mas, se as gypaétas não podiam responder senão com gritos horrorosos, com bicadas e patadas, os indigenas não menos selvagens, não lhes pouparam tiros de espingarda, sobretudo quando passavam a montanha do sal, cujo arcabouço, verde e côr de violeta, transparecia sob o véo branco que a cobria.
Dominavam então o grande Sahará. Alli se viam os restos dos bivaques de Abdel-Kader. Alli o paiz é sempre perigoso para o viajante europeu, principalmente na confederação do Beni-Mzal.
O Albatrós teve então de subir ás zonas mais altas, afim de escapar a um assalto do simún que passeava uma lamina de areia avermelhada á superficie do solo, como faria um excesso de maré á superficie do Oceano. Em seguida, os planaltos desolados da Chebka espraiaram o balastro de lavas ennegrecidas até ao fresco e verde valle de Ain-Massin. Seria difficil imaginar a variedade d’aquelles territorios que o olhar podia abraçar no seu conjunto. Ás collinas cobertas de arvores e arbustos succediam-se longas ondulações pardacentas, ás pregas, como um albornoz arabe, cujos soberbos recortes accidentavam o solo. Ao longe viam-se as “oueds„ de aguas torrenciaes, bosques de palmeiras, grupos de pequenas cabanas sobre um monticulo, em volta de uma mesquita, e entre outras Metliti, onde vegeta um chefe religioso, o grande Marabut Sidi Chick.
Antes da noite, alguns centos de kilometros foram transpostos por sobre um territorio chatissimo, sulcado de grandes dunas. Se o Albatrós tivesse querido fazer alto, teria pousado em terra no fundo do oasis de Marglá, sob um immenso bosque de palmeiras. A cidade apresentou-se muito visivel com os seus tres quarteirões distinctos, o antigo palacio do sultão, especie de Kasbah fortificada, as suas casas construidas de tijolos que o sol se encarregou de cozer, e os seus poços artesianos, abertos no valle, onde a aeronave podia refazer a sua provisão liquida. Mas graças á sua extraordinaria velocidade, as aguas do Hydaspe, sugadas no valle de Cachemir, enchiam ainda os seus depositos, no meio dos desertos de Africa.
Teria o Albatrós sido visto pelos Arabes, Mozabitas, e negros que habitam o oasis de Marglá? Certamente que sim, porque foi saudado por alguns centos de tiros de espingarda, cujas balas voltaram á terra, sem o haverem alcançado.
Veiu depois a noite, essa noite silenciosa do deserto, cujos segredos Felicien David interpretou tão bem!
Durante as horas seguintes, desceram para o sudoéste, cortando os caminhos do El-Goléa, um dos quaes foi reconhecido em 1859, pelo intrepido viajante Francisco Duveyrier.
A escuridão era profunda. Nada puderam vêr do railway transsahariano em construcção, segundo o projecto Duponchel, longa fita de ferro que deve ligar Argel a Tombuctú por Laghuat, Gardaia, e alcançar mais tarde o golpho da Guiné.
O Albatrós entrou então na região equatorial, para além do tropico de Cancer. A mil kilometros da fronteira septentrional do Sahará, transpunha o caminho em que o major Lang encontrou a morte em 1846; cortava os caminhos das caravanas de Marrocos ao Sudão, e sobre essa porção de deserto que os Tuaregs espumam, ouvia o que se chama o “canto das areias„, murmurio dôce e plangente que parece surgir do solo.
Apenas se deu um incidente: uma nuvem de gafanhotos se ergueu no espaço, e cahiu uma tal carregação d’elles a bordo, que o navio aereo esteve prestes a sossobrar. Trataram porém de deitar fora o excesso da carga, menos alguns centos de que François Tapage fez provisão. E cozinhou-os de um modo tão succulento, que Fricollin esqueceu por momentos os seus transes perpetuos.
—Isto vale por camarões! dizia elle.
Estavam então a mil e oitocentos kilometros do oasis de Marglá, quasi no limite norte d’esse immenso reino do Sudão.
Pelas duas da tarde appareceu uma cidade no cotovello formado por um grande rio. Era o rio Niger. A cidade, Tombuctú.
Se até então não tinham tido que visitar essa Méka africana senão os viajantes do Mundo Antigo, os Batuta, os Khazan, os Imbert, os Mungo-Park, os Adams, os Laing, os Caillé, os Barth, os Lenz, n’esse dia, graças aos acasos da mais singular aventura, dois americanos podiam falar d’ella de visu, de auditu e de olfactu, no seu regresso á America, se lá regressassem de facto.
De visu, porque o seu olhar poude chegar a todos os pontos d’aquelle triangulo de cinco a seis kilometros, formado pela cidade; de auditu, porque esse dia era um dia de grande mercado, e faziam uma algazarra espantosa; de olfactu, porque o nervo olfactivo não podia ser muito agradavelmente affectado pelos odores da praça de Yubu-Kamo, onde está o mercado de carne, perto do palacio dos antigos reis So-mais.
Em todo o caso o engenheiro entendeu não dever deixar ignorar ao presidente e ao secretario do Weldon-Institute que elles tinham a felicidade extrema de contemplar a Rainha do Sudão, agora em poder dos Tuaregs de Taganet.
—Meus senhores, Tombuctú! lhes disse no mesmo tom em que dois dias antes lhes dissera:
“A India, meus senhores!„
Depois continuou:
—Tombuctú, aos 18 graus de latitude norte, e 5°,56´ de longitude a oéste do meridiano de Paris, com uma costa de duzentos e quarenta e cinco metros acima do nivel médio do mar. Importante cidade de doze a trese mil habitantes, outr’ora illustrada pela arte e pela sciencia! Talvez quizessem fazer alto alli durante alguns dias?
Uma tal proposta não podia ser feita senão por ironia, pelo engenheiro.
—Mas, continuou elle, seria perigoso para os extrangeiros, no meio dos negros, dos Berberes, dos Fullanes, e dos Arabes que a habitam, sobretudo se considerarmos que a nossa chegada em aeronave lhes poderia desagradar.
—Meu caro senhor, respondeu Phil Evans no mesmo tom, para termos o prazer de o deixar, arriscar-nos-hiamos de bom grado a sermos mal recebidos pelos indigenas. Prisão por prisão, mais vale Tombuctú que o Albatrós!
—É questão de gôsto, replicou o engenheiro. Em todo o caso, não tentarei a aventura, porque tenho de responder pela segurança dos hospedes que me fazem a honra de viajar commigo ...
—De maneira que, sr. engenheiro Robur,—disse Uncle Prudent, não podendo conter a indignação,—de maneira que, não se contenta com ser carcereiro? Ao attentado junta o insulto?
—Oh! a ironia unicamente!
—Não ha armas a bordo?
—Ha sim! um arsenal completo!
—Dois revolvers bastariam, se eu tivesse um e o senhor outro!
—Um duello! exclamou Robur, um duello, que poderia produzir a morte de um de nós!
—Que a produzia com certeza!
—Pois, meu caro presidente do Weldon-Institute, não pode ser. Prefiro conserval-o vivo.
—Para ter a certeza de viver tambem! É prudente!
—Prudente ou não, é isso que me convem. Fica-lhe a liberdade de pensar de outro modo e de se queixar a quem quizer, se o pode fazer.
—Já o fiz, engenheiro Robur!
—Serio?
—Pois era tão difficil, quando atravessavamos as regiões habitadas da Europa, deixar cair um documento ...
—E os senhores fizeram isso? disse Robur, arrebatado por um irresistivel movimento de colera.
—E se o tivessemos feito?
—Se o tivessem feito ... mereceriam ...
—Mereceriamos o que, sr. engenheiro?
—Ir fazer companhia ao documento, pela borda fora!
—Ora experimente lá! exclamou Uncle Prudent. Já o fizemos!
Robur avançou para os dois collegas. A um gesto seu Tom Turner e alguns dos seus camaradas tinham acudido. Sim! o engenheiro tivera um desejo furioso de pôr em execução a sua ameaça; mas sem duvida, no receio de succumbir, entrou precipitadamente no seu beliche.
—Ora bem! disse Phil Evans.
—E o que elle não se atreveu a fazer, respondeu Uncle Prudent, atrever-me-hei eu a fazel-o! sim, fal-o-hei!
N’aquelle momento, a população do Tombuctú reunia-se nas praças, nas ruas, sobre os terraços construidos em amphitheatro. Nos ricos bairros de Sankore e de Sarahama, como nas miseraveis choças conicas do Ragnidi, os padres lançavam do alto dos minaretes as suas mais violentas maldições sobre o monstro aereo. Era mais inoffensivo isso que balas de espingarda.
Assim foi até o porto de Kabara, situado no cotovello formado pelo Niger, e onde o pessoal das flotilhas foi posto em movimento. Se o Albatrós tivesse pousado em terra, teria sido feito em pedaços.
Durante alguns kilometros, bandos atordoadores de cegonhas, de francolins, e de ibis o escoltaram, luctando em velocidade com elle; mas o seu vôo rapido em breve os poz a distancia.
Quando veiu a noite, foram os ares atordoados com o mugir de numerosos rebanhos de elephantes e bufalos, que percorriam aquelle territorio, cuja fecundidade é verdadeiramente maravilhosa.
Durante vinte e quatro horas, toda a região, encerrada entre o meridiano zero e o segundo grau no colchete do Niger, se desenrolou sob o Albatrós.
Na realidade, se algum geographo tivesse tido á sua disposição um tal apparelho, com que facilidade poderia proceder ao levantamento topographico d’aquelle paiz, obter as cotas da altitude, fixar o curso dos rios e dos seus affluentes, determinar a posição das cidades e das aldeias! E desappareceriam então dos mappas da Africa central esses claros a tintas pallidas, essas linhas a pontos, e essas designações vagas que constituem o desespero dos cartographos!
No dia 11, pela manhã, o Albatrós transpoz as montanhas da Guiné septentrional, apertada entre o Sudão e o golpho que usa o seu nome. No horisonte perfilavam-se confusamente os Montes Kong do reino de Dahomey.
Depois de haverem sahido de Tombuctú, Uncle Prudent e Phil Evans haviam podido notar que a direcção tinha sido sempre de norte a sul. D’ahi a conclusão de que, se a direcção se não modificasse, encontrariam, seis graus além, a linha equinoxial. Iria ainda o Albatrós abandonar os continentes e lançar-se, não sobre o mar de Behring, ou mar Caspio, ou mar do Norte, ou Mediterraneo, mas por sobre o Oceano Atlantico?
Esta perspectiva não era para tranquillisar os dois collegas, cujas probabilidades de fuga se tornavam então nullas.
Comtudo o Albatrós caminhava de vagar, como se hesitasse no acto de deixar a terra africana.
Quereria o engenheiro Robur voltar atraz? Não! Mas a sua attenção era particularmente atrahida por aquelle paiz que elle então atravessava.
Sabe-se, e elle sabia tambem, o que era o reino de Dahomey, um dos mais poderosos do littoral occidental da Africa. Apesar de assaz forte para poder luctar com o seu vizinho, o reino dos Achantis, os seus limites são comtudo restrictos, pois que não conta mais de cento e vinte leguas de sul a norte e sessenta de léste a oéste; mas a sua população comprehende de setecentos a oitocentos mil habitantes, depois que annexou a si os territorios independentes de Ardrah e de Wydah.
Apesar de não ser grande, aquelle reino de Dahomey, tem dado muitas vezes que falar de si. É celebre pelas cruezas horriveis que assignalam as suas festas annuaes, pelos seus sacrificios humanos, e hecatombes espantosas, destinadas a honrar o soberano que se fina e o que o substitue. É mesmo de boa cortezia que quando o rei de Dahomey recebe a visita de algum alto personagem ou de um embaixador extrangeiro, lhe faça a surpresa de alguma duzia de cabeças cortadas em sua honra, e cortadas pelo ministro da justiça, o “minghan„, que desempenha perfeitamente as suas funcções de carrasco.
Ora na épocha em que o Albatrós passava a fronteira do Dahomey, acabava de morrer o soberano Bahadú, e toda a população ía proceder á enthronisação do seu successor.
D’ahi um grande movimento em todo o paiz, movimento que não passára desapercebido a Robur.
Com effeito, longas filas de dahomeanos dos campos se dirigiam então para Abomey, capital do reino. Estradas bem tratadas, através vastas planicies cobertas de hervas gigantes, numerosos campos de mandioca, magnificos bosques de palmeiras, coqueiros, mimosas, laranjeiras, mangueiras, tal era o paiz, cujos perfumes subiam até o Albatrós, emquanto que, aos milhares, aos milheiros mesmo, papagaios e cardeaes erguiam vôo de todo aquelle conjunto de verdura.
O engenheiro, curvado sobre o parapeito, absorto nas suas reflexões, poucas palavras trocava com Tom Turner.
Não parecia tambem que o Albatrós tivesse o privilegio de attrahir a attenção d’aquellas massas movediças, as mais das vezes invisiveis sob a abobada impenetravel das arvores. Isso provinha, decerto, de elle se conservar a uma grande altura no meio de ligeiras nuvens.
Pelas onze da manhã appareceu a capital, no seu cinto de muralhas, defendida por um fosso medindo doze milhas em volta, ruas largas e regularmente traçadas sobre um solo chato, grande praça cujo lado norte é occupado pelo palacio do rei.
Este vasto conjunto de construcções é dominado por um terraço, a pequena distancia da casa dos sacrificios. Durante os dias de festa, é do alto d’este terraço que se lançam ao povo prisioneiros mettidos em cestos de junco, e pode-se bem imaginar, infelizmente, a furia com que esses infelizes são feitos em pedaços.
N’uma parte dos pateos que dividem o palacio do soberano, estão alojados quatro mil guerreiros, um dos contingentes do exercito real, dos mais corajosos.
Se é ponto contestavel que haja amazonas no rio d’este nome, não acontece o mesmo no Dahomey. Umas trazem camisa azul, facha azul e vermelha, calção branco raiado de azul, barrete branco redondo, cartucheira presa ao cinto; outras, caçadoras de elephantes, estão armadas com uma pesada carabina, um punhal de lamina curta, e duas pontas de antilope presas á cabeça por um circulo de ferro; umas, as artilheiras, usam tunica parte azul parte vermelha, e por arma um bacamarte, com velhos canos de ferro fundido; outras, finalmente, o batalhão de raparigas, usam tunicas azues, e calções brancos, e são verdadeiras vestaes, puras como Diana, e como ella, armadas de arco e flecha.
Junte-se a estas amazonas cinco a seis mil homens em calças, em camisas de algodão, com um panno em roda da cintura, e temos passado em revista o exercito dahomeano.
Abomey estava n’esse dia absolutamente deserta. O soberano, o pessoal regio, o exercito masculino e feminino, a população, tinha tudo deixado a capital para invadir, a algumas milhas de lá, uma vasta planicie cercada de bosques magnificos.
Era sobre essa planicie que se devia realisar o reconhecimento do novo rei. Era alli que milhares de prisioneiros, feitos nas ultimas razzias, íam ser immolados em sua honra.
Eram cêrca de duas horas quando o Albatrós, chegando á altura d’essa planicie, começou a descer no meio de alguns vapores que o occultavam á vista dos dahomeanos.
Eram uns sessenta mil, vindos de todos os pontos do reino, de Widah, de Kerapay, de Ardrah, de Pombory, das aldeias mais afastadas.
O novo rei, um vigoroso rapagão, chamado Bou-Nadi, da edade de vinte e cinco annos, occupava um morro ensombrado por um grupo de arvores, de amplas ramagens. Em volta d’elle a sua nova côrte, o seu exercito masculino, as suas amazonas, todo o seu povo.
Na base do monticulo, uns cincoenta musicos tocando instrumentos barbaros, dentes de elephantes produzindo sons roufenhos, tambores de pelle de gamo, cabaças, guitarras, campainhas vibradas com um badalo de ferro, flautas de bambu, cujo som agudo dominava todo o conjunto. Depois, a cada instante, descargas de peças, cujos reparos estremeciam, com risco de esmagar os artilheiros; finalmente uma algazarra geral e clamores tão intensos, que dominavam os tiros de polvora.
N’um angulo da planicie, sob a guarda dos soldados, estavam reunidos os captivos encarregados de acompanhar no outro mundo o rei defunto, a quem a morte não deve fazer perder os privilegios de soberania. Nas exequias de Glozo, pae de Bahadú, seu filho enviára-lhe tres mil captivos. Bou-Nadi não podia fazer menos pelo seu antecessor. Pois não eram precisos numerosos mensageiros para reunir não só os Espiritos, mas todos os hospedes do céo, convidados a formar o cortejo do monarcha divinisado?
Durante uma hora não houve mais do que discursos, rengas, phrases cortadas pelas dansas executadas não só pelas bailadeiras de officio, mas tambem pelas amazonas, que n’ellas desenvolvem uma graça toda bellica.
Mas approximava-se o momento da hecatombe. Robur, que conhecia os sanguinarios costumes de Dahomey, não perdia de vista os captivos, homens, mulheres, creanças, reservados para a carnificina.
O minghan estava de pé sobre o outeiro; brandia o sabre de executor, de lamina curva, encimado por uma ave de metal, cujo pêso torna mais certeiro o golpe.
D’esta vez não estava só. Seria insufficiente para a matança. Junto d’elle estavam agrupados uns cem carrascos, destros em decepar cabeças de um só golpe.
No entretanto, o Albatrós approximava-se a pouco e pouco, obliquamente, moderando os seus helices suspensivos e propulsivos. Breve sahiu da camada de nuvens que o occultava a menos de cem metros da terra, e, pela primeira vez, appareceu.
Ao contrario do que succedia habitualmente, os ferozes indigenas não viram n’elle mais do que um ser celeste, descido expressamente para prestar homenagem ao rei Bahadú.
Enthusiasmo indescriptivel, chamamentos interminaveis, supplicas ruidosas, preces geraes, dirigidas a esse sobrenatural hippogrifo que vinha decerto receber o corpo do finado rei para o transportar ás alturas do céo dahomeano.
N’esse momento a primeira cabeça voava sob a espada do minghan. Depois, outros prisioneiros foram trazidos aos centos, deante dos seus horriveis carrascos.
De subito um tiro partiu do Albatrós. O ministro da justiça cahiu, dando com o rosto em terra.
—Boa pontaria, Tom! disse Robur.
—Pás!... Para o monte! respondeu o contramestre.
Os seus camaradas, armados como elle, estavam prestes ao primeiro signal do engenheiro.
Mas, fizera-se um reviramento na multidão. Havia comprehendido. Aquelle monstro alado, não era um Espirito bemfazejo, mas um Espirito hostil a esse bom povo de Dahomey. De modo que em seguida á quéda do minghan, gritos de vingança se ergueram de toda a parte. Quasi immediatamente, rompia uma fusilaria sobre a planicie.
Aquellas ameaças não impediram o Albatrós de descer audaciosamente a menos de cento e cincoenta pés do solo. Uncle Prudent e Phil Evans, fôssem quaes fôssem os seus sentimentos para com Robur, não podiam deixar de se associar a uma obra tão humanitaria.
—Sim! livremos os prisioneiros! exclamaram elles.
—É essa a minha tenção! respondeu o engenheiro.
E as espingardas de repetição do Albatrós, nas mãos dos dois collegas, como tambem nas mãos da tripulação, começaram um fogo tal, que nenhuma bala se perdeu no meio d’aquella massa humana. E mesmo a pequena peça de artilharia de bordo, assentada no angulo mais apertado, enviou a proposito algumas caixas de metralha, que fizeram maravilhas!
Immediatamente os prisioneiros, sem comprehenderem nada d’esse soccorro que lhes vinha do alto, cortaram as prisões, emquanto os soldados respondiam ao fogo da aeronave. O helice anterior foi atravessado por uma bala, emquanto que alguns outros projectis lhe batiam em pleno casco. Até Fricollin, escondido no fundo do seu beliche, esteve para ser alcançado por uma bala através a parede do compartimento.
—Ah! querem experimentar! exclamou Tom Turner.
E descendo ao deposito de munições, voltou com uma duzia de cartuchos de dynamite, que distribuiu pelos seus collegas. A um signal de Robur, aquelles cartuchos foram atirados para cima do outeiro, e, cahindo no solo, rebentaram como pequenas granadas.
Que enorme derrota do rei, da côrte, do exercito, do povo, tomados de um espanto bem justificavel por uma tal intervenção! Todos haviam buscado refugio debaixo das arvores, emquanto que os prisioneiros fugiam, sem ninguem pensar em os perseguir.
Assim foram perturbadas as festas em honra do novo rei de Dahomey. Assim Uncle Prudent e Phil Evans tiveram de reconhecer de que fôrça dispunha um tal apparelho e que serviços elle podia prestar á humanidade.
Em seguida o Albatrós subiu tranquillamente na zona média; passou por cima do Wydah e tinha perdido em breve de vista aquella costa selvagem que os ventos do sudoéste envolveram n’uma ressaca inaccessivel.
Pairava sobre o Atlantico.
Sim o Atlantico! Os receios dos dois collegas tinham-se realisado. Não parecia que Robur experimentasse a menor inquietação em se aventurar por sobre o vasto oceano. Isso não o preoccupava, nem aos seus companheiros, que deviam estar habituados áquellas travessias. Estavam já todos nos seus postos. Nenhuma insomnia lhes perturbou o repouso.
Para onde ia o Albatrós? Como o engenheiro dissera, iria dar mais de uma volta ao globo? Em todo o caso, era necessario que aquella jornada terminasse n’algum ponto. Que Robur passasse a vida no ar, a bordo da aeronave, e nunca viesse a terra, era inadmissivel. Como havia de elle renovar as suas provisões de viveres e munições, não falando já nas substancias necessarias ao funccionamento das machinas? Era de todo o ponto preciso que elle tivesse um retiro, um porto de descanço, se quizerem, em algum sitio ignorado e inaccessivel do globo, onde o Albatrós pudesse abastecer-se. Que elle tivesse quebrado as relações com os habitantes da terra, vá! mas com todo o ponto da superficie terrestre, não podia ser!
Sendo assim, onde era esse ponto? O que levára o engenheiro a escolhel-o? Seria alli esperado por alguma pequena colonia de que elle era o chefe? Podia recrutar alli um novo pessoal? E depois, de que recursos dispunha para ter podido fabricar um apparelho tão dispendioso, sobre cuja construcção tinha sido guardado um tal segredo?
Quanto ao passadio, parecia não ser muito caro. A bordo vivia-se em commum, uma vida de familia, como pessoas felizes que não escondem o seu bem estar. Mas afinal, quem era esse Robur? D’onde vinha? Qual era o seu passado? Outros tantos enigmas impossiveis de resolver, e cuja decifração decerto não seria nunca dada por aquelle que era d’elles o assumpto principal.
Não é portanto para admirar que esta situação, feita de problemas insoluveis, trouxesse em sobresalto os dois collegas. Sentir-se assim arrebatado no desconhecido, não vêr a sahida de uma tal aventura, não saber mesmo se ella teria um fim; serem condemnados á aviação perpetua, não era na realidade cousa para fazer perder a paciencia ao presidente e ao secretario do Weldon-Institute?
Desde 11 de julho que o Albatrós seguia por sobre o Atlantico. No dia seguinte, quando o sol appareceu, erguia-se sobre essa linha circular onde veem confundir-se o céo e a agua. Nenhuma terra á vista, por mais vasto que fôsse o campo de visão.
A Africa desapparecêra no horisonte do norte.
Quando Fricollin se aventurou a sahir do seu beliche, quando viu todo esse mar por baixo d’elle, o mêdo tomou-o rapidamente. Por baixo, não é bem o termo; melhor era dizer em volta d’elle, porque, para um observador collocado nas zonas elevadas, o abysmo parece envolvel-o de todos os lados, e o horisonte, levantado no seu nivel, parece recuar, sem nunca se lhe poder attingir o termo.
É verdade que Fricollin não conhecia a explicação physica d’aquelle effeito, mas sentia-a moralmente. Isso bastava para provocar n’elle “esse horror do abysmo„, de que certas naturezas, aliás corajosas, se não podem libertar. Em todo o caso, por prudencia, o negro não se expandiu em recriminações. Com os olhos fechados, os braços a tactear, entrou para o beliche com a perspectiva de alli ficar muito tempo.
Com effeito, em tresentos e sessenta e quatro milhões cincoenta e sete mil novecentos e doze metros quadrados[2] que a superficie dos mares representa, o Atlantico occupa mais da quarta parte. Ora não parecia que o engenheiro estivesse agora com pressa. De modo que não tinha dado ordem para se ir com toda a velocidade.
Tambem o Albatrós não poderia ter toda a velocidade que trouxera por sobre a Europa, a razão de duzentos kilometros por hora. N’aquella região onde dominam os ventos sudoéste, havia vento pela frente, e apesar de ser fraco ainda, não deixava de ser um obstaculo.
N’aquella zona intertropical, os mais recentes trabalhos dos meteorologistas, apoiados n’um grande numero de observações, permittiram reconhecer que havia lá uma convergencia de ventos, quer para o Sahará, quer para o golpho do Mexico. Fora da região das calmarias, ou veem de oéste e se dirigem para Africa, ou veem de léste e se dirigem para o Novo Mundo,—pelo menos durante a estação quente.
O Albatrós não procurou pois luctar contra os ventos contrarios, com toda a fôrça dos seus propulsores. Contentou-se com um andamento moderado, que excedia comtudo o dos mais rapidos vapores transatlanticos.
No dia 13 de julho a aeronave atravessou a linha equinoxial, o que foi annunciado a todo o pessoal.
Foi assim que Uncle Prudent e Phil Evans souberam que acabavam de deixar o hemispherio boreal para entrar no hemispherio austral.
Esta passagem da linha não exigiu nenhuma d’essas experiencias e ceremonias de que ella é acompanhada a bordo de certos navios de guerra e do commercio.
Apenas François Tapage se contentou com entornar uma porção de agua sobre o pescoço de Fricollin; mas como esse baptismo foi seguido de alguns copos de gin, o negro declarou-se prompto a passar a linha todas as vezes que quizessem, mas não havia de ser no dorso de uma ave mechanica que lhe não inspirava grande confiança.
Na manhã de 15, o Albatrós enfiou por entre as ilhas da Ascensão e de Santa Helena,—mais perto d’esta ultima, cujos terrenos altos se mostravam no horisonte havia algumas horas.
Ora evidentemente, se no tempo em que Napoleão estava em poder dos inglezes, existisse um apparelho analogo ao do engenheiro Robur, Hudson Lowe, a despeito das suas insultantes precauções, podia bem vêr fugir-lhe pelos ares o seu illustre prisioneiro!
Nos dias 16 e 17 de julho, um curioso phenomeno de clarões crepusculares se produziu, ao cahir da tarde. N’uma latitude elevada, podia-se acreditar na apparição de uma aurora boreal. O sol, no occaso, projectou raios multicôres, alguns dos quaes se impregnaram de uma ardente côr verde.
Seria uma nuvem de poeira cosmica que a terra atravessava n’aquelle momento e que reflectia os ultimos clarões do dia? Alguns observadores deram aquella explicação aos clarões crepusculares. Mas essa explicação não subsistiria se esses sabios estivessem a bordo da aeronave.
Feito o exame, foi reconhecido que estavam em suspensão no ar pequenos crystaes de pyroxena, globos vitreos, finas particulas de ferro magnetico, analogas ás materias que lançam certas montanhas ignivomas. Portanto, não restava duvida alguma que um vulcão em erupção não tivesse projectado no espaço aquella nuvem, cujos crepusculos crystallinos produziam o phenomeno desejado,—nuvem que as correntes aereas tinham então em suspensão por sobre o Atlantico.
Além disso, durante aquella parte da viagem, muitos outros phenomenos foram observados. Por diversas vezes, certas nuvens davam uma côr parda de um singular aspecto; depois, se se passava aquella nuvem de vapores, a sua superficie apparecia cheia de volutas deslumbrantes, de um branco crú, semeado de pequenas palhetas solidificadas,—o que, n’aquella latitude, não se pode explicar senão por uma formação identica á do graniso.
No dia 17 para 18, appareceu o arco iris lunar, de um amarello esverdeado, em consequencia da posição da aeronave entre a lua cheia e uma rêde de chuva miuda, que se volatisava antes de ter alcançado o mar.
Por estes diversos phenomenos, podia-se concluir uma proxima mudança de tempo? Talvez. Seja como fôr, o vento que soprava de sudoéste, desde que haviam sahido de Africa, começava a serenar nas regiões do equador. N’essa zona tropical, fazia um calôr extremo. Robur foi portanto buscar a frescura nas camadas mais altas.
Era além d’isso necessario abrigarem-se dos raios do sol, cuja projecção directa não se poderia supportar.
Esta modificação nas correntes aereas fazia decerto presentir que outras condições climatericas se apresentariam para além das regiões equinoxiaes. É necessario observar, além d’isso, que o mez de julho do hemispherio austral é o mez de janeiro do hemispherio boreal, isto é, o coração do inverno. O Albatrós, se descesse mais para o sul, ia soffrer-lhe os effeitos.
Além de que, o mar “sentia isso„, como dizem os marinheiros. No dia 18 de julho, para além do Tropico do Capricornio, manifestou-se um phenomeno, que teria produzido um certo temor a um navio.
Uma extranha successão de laminas luminosas se espalhavam á superficie do oceano com uma rapidez tal, que se não podia calcular em menos de sessenta milhas por hora. Estas laminas agitavam-se a uma distancia de oitenta pés uma da outra, traçando longos sulcos de luz. Com a noite que começava a vir, um intenso reflexo subia até o Albatrós. D’esta vez, podia ser tomado por algum bolide inflammado. Jámais Robur tivera occasião de pairar sobre um mar de fogo,—fogo sem calor, que elle não tinha necessidade de evitar, elevando-se nas alturas do céo.
A electricidade devia ser a causa d’este phenomeno, porque não podia ser attribuido á presença de um baixio de desova de peixes ou a uma chusma d’esses animalculos, cuja accumulação electrica produz a phosphorescencia.
Isto levava a suppôr que a tensão electrica da atmosphera devia ser então muito consideravel.
E com effeito, no dia seguinte, 19 de julho, qualquer navio se acharia em perigo n’aquelle mar. Mas o Albatrós ria-se dos ventos e das ondas, semelhante á ave poderosa de que elle usava o nome. Se lhe não aprazia passear á superficie das aguas, como as procellarias, podia, como as aguias, procurar nas alturas a tranquillidade e o sol.
N’aquelle momento fôra transposto o 47.° parallelo sul. O dia não durava mais de sete a oito horas. Devia diminuir á proporção que se approximassem das regiões antarcticas.
Cêrca de uma hora da tarde, o Albatrós tinha baixado sensivelmente para buscar uma corrente mais favoravel. Voava por sobre o mar, a menos de cem pés da sua superficie.
O tempo estava calmo. Em certos pontos do céo, grossas nuvens negras, arredondadas na parte superior, terminavam por uma linha rigida, completamente horisontal. D’essas nuvens sahiam protuberancias alongadas, cuja ponta parecia attrahir a agua que refervia por baixo, em forma de sarsa liquida.
De repente esta agua ergue-se, tomando a forma de uma ampulheta.
N’um instante, o Albatrós foi envolvido no turbilhão de uma tromba gigantesca, á qual umas vinte outras, de um negro côr de tinta, vieram juntar-se. Felizmente, o movimento giratorio d’aquella tromba era inverso dos helices suspensivos, sem que estes pudessem ter acção, e a aeronave esteve para ser precipitada no mar; mas poz-se a girar sobre si mesmo, com uma rapidez assombrosa.
Comtudo o perigo era immenso, e talvez impossivel de conjurar, visto que o engenheiro se não podia desembaraçar da tromba, cuja aspiração o retinha, a despeito dos propulsores. Os homens, lançados pela fôrça centrifuga aos dois extremos da plataforma, tiveram de se segurar ao corrimão, para não serem arrebatados.
—Sangue frio! gritou Robur.
Era com effeito necessario, como tambem a paciencia.
Uncle Prudent e Phil Evans, que acabava de deixar o seu beliche, foram impellidos para traz, com risco de serem lançados pela borda fora.
Ao mesmo tempo que girava, o Albatrós seguia o deslocamento d’aquellas trombas que se moviam com uma velocidade que os seus helices podiam invejar. Depois, se escapava a uma das trombas, era apanhado por outra, com perigo de ser deslocado ou feito em pedaços.
—Um tiro de peça! gritou o engenheiro.
Esta ordem era dirigida a Tom Turner. O contramestre agarrava-se á pequena peça de artilharia, montado no meio da plataforma, onde os effeitos da fôrça centrifuga eram pouco sensiveis. Comprehendeu o pensamento de Robur. N’um instante, abriu a culatra do canhão e n’ella introduziu um cartucho tirado da caixa presa aos reparos. O tiro partiu, e de subito se desfizeram as trombas, com a abobada de nuvens que ellas pareciam sustentar nos seus fastigios.