O abalo do ar bastára para romper o meteoro, e a enorme nuvem, resolvendo-se em chuva, raiou o horisonte de estrias verticaes, immensa rêde liquida extendida do mar ao céo.

O Albatrós, livre afinal, apressou-se a subir alguns centos de metros.

—Não está nada partido a bordo? perguntou o engenheiro.

—Não, respondeu Tom Turner; mas este jôgo de pião é que seria bom não recomeçar de novo!

Com effeito, durante uns momentos o Albatrós estivera em perigo. Se não fôra a sua extraordinaria solidez, teria sossobrado n’aquelle turbilhão de trombas.

Durante aquella travessia do Atlantico, como as horas eram longas, quando nenhum phenomeno lhes vinha quebrar a monotonia! Além de que, os dias diminuiam e o frio tornava-se intenso. Uncle Prudent e Phil Evans pouco viam Robur. Encerrado no seu beliche, o engenheiro occupava-se em traçar o caminho, em marcar sobre os mappas a direcção seguida, a reconhecer a sua posição todas as vezes que podia, a notar as indicações dos barometros, dos thermometros, dos chronometros, finalmente a lançar nos livros de bordo todos os incidentes da viagem.

Quanto aos dois collegas, mettidos nos seus capuzes, procuravam a cada passo vêr terra do lado do sul.

Pelo seu lado, sob a recommendação expressa de Uncle Prudent, Fricollin procurava sondar o mestre cozinheiro, em vez do engenheiro.

Como se havia de acreditar no que dizia esse gascão do François Tapage? Umas vezes Robur era um antigo ministro da Republica Argentina, um chefe do Almirantado, um presidente dos Estados Unidos a ferias, um general hespanhol na disponibilidade, um vice-rei das Indias á busca de mais alta posição nos ares. Outras vezes possuia milhões, graças ás razzias que fazia com a sua machina, e era apontado á vindicta publica. Outras vezes ainda, tinha-se arruinado a montar aquelle apparelho e seria obrigado a fazer ascensões publicas para rehaver o seu dinheiro. Quanto a saber se elle parava em alguma parte, nada! Mas pretendia ir até á lua, e alli estabelecer-se, caso encontrasse um sitio conveniente.

—Hein, Fry!... meu camarada!... Não desgostarias de ir vêr o que se passa lá em cima!...

—Isso é que não vou! respondeu o imbecil, que tomava a serio todos aquelles palões.

—Então porque, Fry, porque? Alli te casaremos com alguma bella e joven habitante da lua ... Alli estabelecerás uma geração de negros!

E quando Fricollin ía contar esses arrazoados ao seu amo, este via bem que era impossivel encontrar por aquella forma qualquer informação sobre Robur. Não pensava pois senão em se vingar.

—Phil, disse elle um dia ao seu collega, está agora bem provado que toda a fuga é impossivel!

—Impossivel, Uncle Prudent.

—Seja! Mas um homem deve ser senhor de si, embora tenha de sacrificar a vida ...

—Se esse sacrificio é necessario, que se faça o mais cedo possivel! respondeu Phil Evans, cujo temperamento, por mais frio que fôsse, não se podia conter mais. Sim! é tempo de acabar com isto!... Para onde vae o Albatrós?... Eil-o a atravessar obliquamente o Atlantico, e se continúa n’esta direcção, vae ter ao littoral da Patagonia, e depois ás plagas da Terra de Fogo ... E depois! Lançar-se-ha por sobre o Oceano Pacifico, ou irá aventurar-se até os continentes do pólo austral?... Com este Robur tudo é possivel!... E estariamos então perdidos!... É portanto um caso de legitima defesa; e se temos de morrer ...

—Que não seja sem nos termos vingado, disse Uncle Prudent, sem termos anniquilado este apparelho, com toda a gente que elle encerra!

Os dois collegas tinham chegado a isto, á fôrça de furor impotente, de rancor concentrado. Sim! Já que era necessario, sacrificar-se-hiam para destruir o inventor e o seu segredo. Alguns mezes, eis quanto poderia durar aquella prodigiosa aeronave, cuja incontestavel superioridade em locomoção aerea elles eram obrigados a reconhecer.

Ora esta idéa estava tão bem incrustada no seu espirito, que elles não tinham outro desejo senão pôl-a em execução. De que maneira? Apoderando-se de um dos apparelhos explosivos, que estavam n’um dos armazens de bordo, e com que fariam saltar pelos ares a aeronave. Mas era necessario penetrar até o deposito das munições.

Felizmente Fricollin não suspeitava d’estes projectos. Á idéa de que o Albatrós ía explodir nos ares, era capaz de denunciar o amo!

Foi no dia 23 de julho que a terra tornou a apparecer no sudoéste, pouco mais ou menos perto do Cabo das Virgens, á entrada do estreito de Magalhães. Para além do parallelo 54, n’aquella épocha do anno, a noite durava já perto de dezoito horas, e a temperatura baixava na média de seis graus acima de zero.

Primeiramente, o Albatrós, em vez de avançar mais para o sul, seguiu os meandros do estreito, como se quizesse alcançar o Pacifico. Depois de ter passado por sobre a bacia de Lomas, deixando ao norte o monte Gregory e os montes Brecknocks ao oéste, reconheceu a Punta Arena, pequena povoação chilena, no momento em que o sino da egreja repicava, e depois, algumas horas mais tarde, o antigo estabelecimento de Porto da Fome.

Se os patagonios, cujas lareiras se viam aqui e acolá, teem realmente uma estatura acima da mediana, os passageiros da aeronave não o puderam apreciar, porque a altura em que estavam os fazia parecer-lhes anões.

Mas, durante as tão curtas horas d’aquelle dia austral, que espectaculo! Montanhas abruptas, pincaros eternamente cobertos de neve, com espessas florestas sobre as suas costas; mares interiores; bahias formadas entre as peninsulas e ilhas d’esse archipelago; conjunto das terras de Clarence, Dawson, Desolação; canaes e passagens; innumeros cabos e promontorios, todo esse matto inextricavel de que o gêlo fazia já uma massa solida, desde o cabo Forward, que termina o continente americano, até o cabo Horn, onde acaba o Novo Mundo!

Comtudo, chegados ao Porto da Fome, notou-se que o Albatrós ia tomar de novo o seu caminho para o sul. Passando entre o monte Torn da peninsula de Brunswick e o monte Grasve, dirigiu-se em direitura para o monte Sarmiento, pincaro enorme, coberto de gêlos, que domina o estreito de Magalhães, dois mil metros acima do nivel do mar.

Era o paiz dos Pechereses, ou fuegios, indigenas que habitam a Terra de Fogo.

Seis mezes mais cedo, em pleno verão, por occasião dos longos dias de quinze a dezeseis horas, como essa terra se mostraria fertil e bella, sobretudo na sua parte meridional! Então, por toda a parte, valles, pastagens que poderiam alimentar milhares de animaes, florestas virgens, arvores gigantescas, vidoeiros, faias, freixos, cyprestes, fetos arboreos, planicies que bandos de guanacos, de cegonhas e de abestruzes percorrem; depois, exercitos de pinguins, myriades de volateis.

De modo que, quando o Albatrós poz em acção os seus pharoes electricos, patos, gansos e outras aves vieram ter a bordo, em quantidade cem vezes superior ao que seria necessario para encher de provisões a cozinha de François Tapage.

D’ahi um augmento de trabalho para o mestre cozinheiro, que sabia preparar aquella caça de maneira a tirar-lhe todo o sabor gorduroso. Tambem augmento de trabalho para Fricollin, que não se poude recusar a depennar duzias sobre duzias d’esses interessantes volateis.

N’esse dia, no momento em que o sol se ia pôr, pelas tres da tarde, appareceu um vasto lago, emmoldurado n’uma orla de florestas soberbas. O lago estava então completamente gelado, e alguns indigenas, com as suas longas raquettas nos pés, deslisavam rapidamente á superficie.

Á vista do apparelho, no auge do espanto, os fuegios fugiam em todas as direcções, e, quando não podiam fugir, escondiam-se, agachavam-se na terra, como os animaes.

O Albatrós não deixou de seguir para o sul, para lá do canal de Beagle, ainda além da ilha de Nevarino, cujo nome grego destôa um pouco dos nomes rudes d’essas terras longinquas, mais longe que a ilha de Wollaston, banhada pelas ultimas aguas do Pacifico. Emfim, depois de haver transposto sete mil e quinhentos kilometros, desde a costa de Dahomey, passou os extremos ilhotes do archipelago de Magalhães, e depois, o mais avançado de todos, para o sul, cuja ponta é eternamente roida pela resaca,—o cabo Horn.


CAPITULO XIV
DE COMO O “ALBATRÓS„ FAZ O QUE NUNCA PODERIA TALVEZ SER FEITO

Estamos no dia seguinte ao 24 de julho. Ora o 24 de julho do hemispherio austral é o 24 de janeiro do hemispherio boreal. Além de que, o 56.° grau de latitude acabava de ficar atraz, e esse grau corresponde ao parallelo que, no norte da Europa, atravessa a Escocia, á altura de Edimburgo.

De modo que o thermometro se conservava constantemente n’uma média inferior a zero. Tinha sido portanto necessario pedir um certo calor artificial aos apparelhos destinados a aquecer os compartimentos da aeronave.

É claro que, se a duração dos dias tendia a augmentar depois do solsticio de 21 de junho do inverno austral, aquella duração diminuia n’uma proporção bem mais consideravel, pelo facto do Albatrós descer para as regiões polares.

Em consequencia d’isto, pouca claridade, por sobre aquella parte do Pacifico meridional que confina com o circulo antarctico. D’ahi pouca luz, e com a noite, um frio ás vezes intensissimo. Para resistir a elle, era necessario vestirem-se á maneira dos esquimáos, ou dos fuegios. Ora como estes arranjos não faltavam a bordo, os dois collegas, bem enroupados, puderam permanecer na plataforma, com a idéa no seu plano, e não buscando senão ensejo de o pôr em execução. De resto, elles viam pouco Robur, e, desde as ameaças trocadas de parte a parte, no paiz de Tombuctú, o engenheiro e elles não se falavam.

Quanto a Fricollin, não sahia da cozinha, onde François Tapage lhe concedia uma generosa hospitalidade, sob condição de que faria de ajudante de cozinheiro. Como isto tinha as suas vantagens, o negro tinha-o acceitado de muito boa vontade, com permissão de seu amo. Além d’isso, fechado d’aquelle modo, elle não via nada do que se passava lá fora, e podia reputar-se livre de perigo. Pois não se parecia elle com o abestruz, não só no physico, pelo seu prodigioso estomago, mas no moral pela sua rara estupidez?

Para que ponto do globo ia agora dirigir-se o Albatrós? Seria admissivel que, em pleno inverno, se aventurasse por sobre os mares austraes ou continentes do polo? N’aquella atmosphera glacial não correspondia isso á morte do pessoal, a uma horrivel morte pelo frio, admittindo mesmo que os agentes chimicos das pilhas pudessem resistir a uma tal congelação? Que Robur tentasse transpôr o polo durante a estação quente, vá! Mas no meio d’essa noite permanente do inverno antarctico, seria o acto de um louco!

Assim raciocinavam o presidente e o secretario do Weldon-Institute, agora levados ao extremo d’aquelle continente do Novo Mundo, que é ainda a America, mas não a dos Estados Unidos!

Sim! o que ía fazer esse intratavel Robur? Não teria chegado o momento de terminar a viagem destruindo o apparelho voador?

O certo é que durante aquelle dia de 24 de julho, o engenheiro teve frequentes entrevistas com o seu contramestre. Muitas vezes os dois consultaram o barometro, não para calcular d’esta vez a altura que haviam attingido, mas para tomar nota das indicações relativas ao tempo. Evidentemente, alguns symptomas se produziam que era necessario ter em consideração.

Uncle Prudent julgou tambem notar que Robur buscava inventariar o que lhe restava de provisões de toda a especie, tanto para entreter as machinas propulsivas e suspensivas da aeronave, como tambem as machinas humanas, cujo funccionamento não devia ser menos garantido a bordo.

Tudo isto parecia annunciar projectos de regresso.

—De regresso!... dizia Phil Evans. Mas para onde?

—Onde esse Robur se possa abastecer, respondeu Uncle Prudent.

—Deve ser alguma ilha perdida no Oceano Pacifico, com uma colonia de scelerados, dignos do seu chefe.

—É tambem a minha opinião, Phil Evans. Parece-me, com effeito, que elle pretende dirigir-se para o oéste, e, com a velocidade de que dispõe, terá alcançado rapidamente o seu fim.

—Mas não poderemos pôr os nossos projectos em execução ... se elle lá chega ...

—Não chegará, Phil Evans!

Evidentemente, os dois collegas tinham em parte adivinhado os planos do engenheiro. Durante aquelle dia, era fora de duvida que o Albatrós, depois de ter avançado para os limites do Mar Atlantico, ía definitivamente retrogradar. Quando os gelos tivessem invadido aquellas paragens até o cabo Horn, todas as baixas regiões do Pacifico seriam cobertas de icefields e de icebergs. A grande massa de gelo formaria então uma barreira impenetravel aos mais solidos navios, como aos mais intrepidos navegadores.

É certo que, batendo mais rapidamente o vôo, o Albatrós poderia transpôr as montanhas de gelo, accumuladas sobre o Oceano, depois as montanhas de terra, erguidas sobre o continente do polo, se é um continente que forma a calote austral. Mas aventurar-se-hia a affrontar, no meio da noite polar, uma atmosphera que pode esfriar até sessenta graus abaixo de zero? Não, decerto!

De modo que depois de ter avançado uns cem kilometros ao sul, o Albatrós obliquou para o oéste, de maneira a tomar a direcção de alguma ilha desconhecida dos grupos do Pacifico.

Por baixo d’elles extendia-se a planicie liquida, lançada entre a terra americana e a terra asiatica. N’aquelle momento, as aguas tinham tomado essa côr singular que lhes faz dar o nome de “mar de leite„. Na meia sombra que não conseguiam dissipar os raios enfraquecidos do sol, toda a superficie do Pacifico era de um branco leitoso. Dir-se-hia um vasto campo de neve, cujas ondulações não eram sensiveis, vistas d’aquella altura. Tivesse aquella porção de mar sido solidificada pelo frio, e convertida n’um immenso icefield, e o seu aspecto não seria outro.

Como se sabe, são myriades de particulas luminosas, de corpusculos phosphorecentes que produzem aquelle curiosissimo phenomeno. O que podia surprehender era que se encontrasse aquelle conjunto opalescente fora das aguas do Oceano Indico.

De subito o barometro, depois de se ter mantido assaz alto durante as primeiras horas do dia, cahiu bruscamente. Havia evidentemente symptomas com que um navio se poderia preoccupar, mas que a aeronave desprezava. Comtudo, como era de suppôr, alguma formidavel tempestade tinha recentemente abalado as aguas do Pacifico.

Era uma hora depois do meio dia quando Tom Turner, approximando-se do engenheiro, lhe disse:

—Master Robur, repare n’aquelle ponto negro do horisonte!... Acolá ... perfeitamente ao norte de nós!... Não poderá ser um rochedo?

—Não, Tom, não ha terras d’aquelle lado.

—N’esse caso deve ser um navio ou pelo menos um barco.

Uncle Prudent e Phil Evans, que tinham ido para a frente, olhavam o ponto indicado por Tom Turner.

Robur pediu o seu oculo de mar, e poz-se a observar attentamente o objecto apontado.

—É um barco, disse elle, e iria affirmar que traz homens a bordo.

—Naufragos? exclamou Tom.

—Sim! naufragos, que terão sido forçados a abandonar o seu navio, continuou Robur; infelizes, que não sabem bem onde é a terra, e que morrem talvez de fome e de sêde. Pois bem! não se dirá que o Albatrós não procurou ir em auxilio d’elles!

Foi dada uma ordem ao machinista e aos seus dois ajudantes. A aeronave começou a baixar lentamente. A cem metros parou, e os seus propulsores impelliram-n’a rapidamente para o norte.

Era effectivamente um barco. A véla batia sobre o mastro. Á falta de vento não sabia andar, e decerto que a bordo ninguem tinha fôrças para pegar n’um remo.

No fundo estavam cinco homens, adormecidos ou immobilisados pela fadiga, a não ser que estivessem mortos.

O Albatrós chegou acima d’elles e desceu lentamente.

Atraz d’aquella embarcação, puderam ler então o nome do navio a que ella pertencia; a era Jeannette, de Nantes, navio francez, que a sua tripulação teria naturalmente tido que abandonar.

—Eh! gritou Tom Turner.

E deviam tel-o ouvido, porque a embarcação não estava oitenta pés acima d’elles.

Nada de resposta.

—Um tiro! disse Robur.

A ordem foi executada, e a detonação propagou-se longamente á superficie das aguas.

Viram então um dos naufragos erguer-se difficultosamente, com os olhos esgazeados, um verdadeiro rosto de esqueleto.

Dando com o Albatrós teve primeiramente um gesto de espanto.

—Nada receie! gritou Robur em francez. Vimos em vosso soccorro! Quem sois?

—Marinheiros da Jeannette, barca de que eu era o immediato, respondeu o homem. Ha quinze dias que a deixámos ... na occasião de sossobrar!... Não temos nem agua nem viveres!...

Os outros quatro naufragos tinham-se levantado a pouco e pouco. Lividos, exhaustos, n’um horroroso estado de magreza, levantavam as mãos para a aeronave.

—Attenção! gritou Robur.

Uma corda se desenrolou da plataforma, e uma celha, contendo agua dôce, foi arreada até á embarcação.

Os desgraçados lançaram-se a ella e beberam com uma avidez que incommodava vêr.

—Pão!... pão!... gritaram elles.

Immediatamente, um cabaz contendo alguns viveres, alimentos de conserva, um frasco de brandy, e boa porção de café, desceu até elles. O immediato viu-se grego para os conter no mitigamento da fome.

E elles perguntaram depois:

—Onde estamos?

—A cincoenta milhas da costa do Chili, e do archipelago dos Chonas, respondeu Robur.

—Muito obrigado. Mas falta-nos o vento e ...

—Vamos dar-vos reboque!

—Quem sois?

—Gente que se sente feliz por vos ter vindo em auxilio, respondeu apenas Robur.

O immediato comprehendeu que havia um incognito a respeitar. E quanto á machina volante, seria possivel que ella tivesse fôrça bastante para os rebocar?

Sim! e a embarcação, presa a um cabo de uns cem pés de comprimento, foi arrastada para o léste por um poderoso apparelho.

Ás dez da noite, a terra estava á vista, ou antes viam-se brilhar as luzes que indicavam a sua situação. Viera a tempo aquelle auxilio do céo, para os naufragos da Jeannette, e estes tinham bem de que pensar que na sua salvação havia o quer que fôsse de miraculoso.

Depois, tendo-os conduzido á entrada das passagens das ilhas Chonas, Robur gritou-lhes para largarem o reboque, o que elles fizeram abençoando os seus salvadores, e o Albatrós retomou o seu amplo vôo.

Decididamente tinha muito de bom essa aeronave, que assim podia vir em auxilio de marinheiros perdidos no alto mar. Qual o balão, por mais aperfeiçoado que elle fôsse, que seria capaz de prestar aquelle serviço? E de si para si Uncle Prudent e Phil Evans tiveram de concordar n’isto, apesar de estarem na disposição de espirito de negar a propria evidencia.

O mar sempre mau. Symptomas assustadores. O barometro desceu ainda alguns millimetros. Rabanadas terriveis de vento, que silvava violentamente nos engenhos helicoptericos do Albatrós, e que parava n’um momento.

N’estas circumstancias, um navio de véla teria já dois rizes no mastro da gavea, e um na mesena. Tudo indicava que o vento ia saltar para o noroéste. O tubo do storm-glass começava a perturbar-se de um modo inquietador.

Á uma da manhã, o vento fixou-se com uma extrema violencia. Comtudo, apesar de vir de frente, a aeronave, movida pelos seus propulsores, poude ainda vencel-o, e subir, na razão de quatro a cinco leguas por hora. Mas não se lhe podia exigir mais.

Evidentemente preparava-se um cyclone, o que é raro n’aquellas latitudes. Chamem-lhe furacão no Atlantico, tufão nos mares da China, simún no Sahará, redemoinho na costa occidental, é sempre uma tempestade em vortice, e temivel. Sim! temivel para todo o navio, apanhado por esse movimento giratorio, que cresce da circumferencia ao centro e não deixa senão um unico logar calmo, no meio d’esse Maelström dos ares.

Sabia-o Robur. Sabia tambem que era prudente fugir a um cyclone, sahindo da sua zona de attracção por uma ascensão até as camadas superiores. Até então tinha-se sahido sempre bem. Mas não havia hora a perder, nem um minuto talvez!

Com effeito, a violencia do vento crescia sensivelmente. As ondas, descoroadas nas suas cristas, faziam correr uma poeira branca á superficie do mar. Era claro tambem que o cyclone, deslocando-se, ia cair nas regiões do polo com uma velocidade horrivel.

—Para cima! disse Robur.

—Para cima! respondeu Turner.

Um extremo poder ascencional foi communicado á aeronave, e ella subiu obliquamente, como se seguisse um plano que se tivesse inclinado para o sudoéste. N’aquelle momento o barometro baixou mais ainda, uma quéda rapida da columna de mercurio de oito e depois de doze millimetros. De subito o Albatrós parou no seu movimento ascencional.

A que causa era devida aquella paragem? Evidentemente a um pêso de ar, a uma formidavel corrente, que, propagando-se de alto abaixo, diminuia a resistencia do ponto de apoio.

Quando um vapor sobe um rio, o seu helice produz um trabalho menos util quanto a corrente tende a fugir sob as suas azas.

O recuo é então consideravel, e pode mesmo tornar-se egual á corrente. Assim acontecia ao Albatrós n’aquelle momento.

Comtudo Robur não abandonou a partida. Os seus setenta e quatro helices, actuando n’uma simultaneidade perfeita, foram levados ao seu maximo de rotação. Mas, irresistivelmente attrahido pelo cyclone, o apparelho não se lhe podia escapar. Durante curtas calmarias, retomava o seu movimento ascencional. Depois o grande pêso fazia-o arrastar de novo, e ía abaixo como um navio que vae ao fundo. E não era isso afundar-se n’esse mar aereo, no meio de uma noite onde os pharoes da aeronave não rompiam a escuridão senão n’um raio muito restricto?

Evidentemente, se a violencia do cyclone crescesse, o Albatrós não seria mais que um feixe de palha, sem direcção, levado n’um d’esses turbilhões que arrancam arvores pelas raizes, lançam pelos ares os tectos e derruem muralhas.

Robur e Tom não podiam falar senão por signaes. Uncle Prudent e Phil Evans, agarrados ao parapeito, perguntavam a si proprios se o meteoro lhes não iria fazer a vontade destruindo a aeronave, e com elle o inventor e todo o segredo da sua invenção. Mas já que o Albatrós não conseguia desembaraçar-se verticalmente d’aquelle cyclone, parecia que havia apenas uma cousa a fazer: alcançar o centro, relativamente socegado, onde seria mais senhor das suas manobras. Sim! mas para o conseguir, seria preciso romper aquellas correntes circulares que o arrastavam á peripheria.

Possuia elle sufficiente fôrça mechanica para se deslocar?

De subito a parte superior da nuvem desfez-se. Os vapores condensaram-se em torrentes de chuva.

Eram duas da manhã. O barometro, oscillando com deslocamentos de doze millimetros, cahira então a 709, o que, na realidade, devia ser diminuido da baixa devida á altura alcançada pela aeronave por sobre o nivel do mar.

Phenomeno rarissimo: aquelle cyclone formára-se fora das zonas que elle mais habitualmente percorre, isto é, entre o 30.° parallelo norte e o 26.° parallelo sul. Talvez isto explique como aquella tempestade girante se transformou subitamente n’uma tempestade rectilinea. Mas que furacão!

Tom Turner puzera-se ao leme. Era necessaria toda a sua destreza para não dar guinadas de um lado para o outro.

Nas primeiras horas do dia,—se assim se pode chamar áquelles vagos tons do horisonte,—o Albatrós tinha galgado quinze graus desde o cabo Horn, isto é, mais de quatrocentas leguas, e passára o limite do circulo polar.

Alli, no mez de julho, a noite dura ainda dezenove horas e meia. O disco do sol sem calor, sem luz, não apparecia sobre o horisonte senão para desapparecer quasi immediatamente. No polo, aquella noite prolonga-se durante cento e setenta e nove horas. Tudo indicava que o Albatrós ia afundar-se n’ella como n’um abysmo.

N’esse dia, se uma observação fôsse possivel, teria dado 66° 40´ de latitude austral. A aeronave não estava pois mais longe mil e quatrocentas milhas do polo antarctico.

Irresistivelmente arrastada para aquelle inaccessivel ponto do globo, a sua velocidade “comia„ por assim dizer, a sua gravidade, apesar d’esta ser um pouco mais forte, então, em consequencia da chateza da terra no polo. Quanto aos seus helices suspensivos, parecia que podia passar sem elles. De subito, a violencia do furacão tornou-se tal, que Robur julgou dever reduzir os propulsores ao minimo de voltas, afim de evitar algumas graves avarias, e de modo a poder governar, conservando o menos possivel da velocidade propria.

No meio d’estes perigos, o engenheiro commandava com sangue frio, e o pessoal obedecia como se a alma do seu chefe estivesse n’elle.

Uncle Prudent e Phil Evans não deixaram um instante a plataforma. Tambem podia-se estar alli sem inconveniente. O ar não resistia, ou resistia muito fracamente. A aeronave estava alli como um aerostato que caminha com a massa fluida em que está immerso.

O dominio do polo austral comprehende, segundo dizem, quatro milhões, quinhentos mil metros quadrados de superficie. É um continente? É um archipelago? é um mar paleocrystico, cujos gelos não se derretem mesmo durante o longo periodo de verão? Não se sabe. Mas o que é sabido, é que esse polo austral é mais frio que o polo boreal, phenomeno devido á posição da terra sobre a sua orbita, durante o inverno das regiões antarcticas.

Durante aquelle dia nada indicou que a tempestade fôsse diminuir. Era pelo 75.° grau meridiano, a oéste, que o Albatrós ia alcançar a região circumpolar. Por que meridiano sahiria, se sahisse?

Em todo o caso, á medida que descia mais ao sul, a duração do dia diminuia. Antes de pouco, estaria mergulhado n’aquella noite permanente que não se illumina senão á claridade da lua ou aos pallidos clarões das auroras austraes. Mas era lua nova então, e os companheiros de Robur arriscavam-se a não vêr nada d’aquellas regiões, cujo segredo escapava ainda á curiosidade humana.

Muito provavelmente o Albatrós passou por cima de alguns pontos já reconhecidos, um pouco antes do circulo polar, no oéste da terra de Graham, descoberta por Biscoe em 1832, e da terra Luiz Filippe, descoberta em 1838 por Dumont d’Urville, ultimos limites alcançados sobre o continente desconhecido.

Comtudo a bordo não se soffria muito com a temperatura, muito menos baixa então do que era para receiar. Parecia que aquelle furacão era uma especie de Gulf Stream aereo que levava comsigo um certo calor.

Quanto foi então para lastimar que aquella região estivesse immersa n’uma obscuridade profunda! É necessario comtudo notar que, mesmo que a lua allumiasse o espaço, a parte das observações seria muito reduzida. N’essa épocha do anno, uma immensa rede de neve, uma crusta de gelo, cobre toda a superficie polar. Não se nota mesmo aquelle “blink„ de gelos, tintura esbranquiçada cujo reverbero falta aos horisontes obscuros.

N’estas condições, como distinguir a forma das terras, a extensão dos mares, a disposição das ilhas? A sua propria configuração orographica, como marcal-a, desde as collinas onde as montanhas se confundem com os ice-berg, e os montões de gelo?

Um pouco antes da meia noite, uma aurora boreal illuminou aquellas trevas. Com as suas franjas prateadas, as suas laminasinhas que irradiavam através do espaço, aquelle meteoro apresentava a forma de um immenso leque, aberto sobre uma metade do céo. As suas extremas effluencias electricas vinham perder-se no Cruzeiro do Sul, cujas quatro estrellas brilhavam no zenith. O phenomeno foi de uma magnificencia incomparavel, e a sua claridade bastou para mostrar o aspecto d’aquella região confundida n’uma brancura immensa.

Escusado é dizer que, n’aquellas regiões proximas do polo magnetico austral, a agulha da bussola, constantemente endoidada, não podia dar indicação alguma precisa com respeito á direcção que se levava. Mas a sua inclinação foi tal n’um certo momento, que Robur poude ter como certo que passára por sobre esse polo magnetico, situado pouco mais ou menos sobre o 78.° parallelo.

E mais tarde, pela uma da manhã, calculando o angulo que essa agulha fazia com a vertical, elle exclamou:

—Temos a nossos pés o polo austral!

Uma convexidade branca appareceu, mas sem deixar vêr nada do que se escondia sob os seus gelos.

A aurora boreal apagou-se pouco depois, e aquelle ponto ideal, onde vinham cruzar-se todos os meridianos do globo, está ainda por ser conhecido.

Evidentemente, se Uncle Prudent e Phil Evans queriam sepultar na mais mysteriosa das solidões a aeronave e os que ella conduzia através do espaço, a occasião era propicia. Se o não fizeram, foi decerto porque o instrumento de que necessitavam lhes faltava ainda.

No entretanto o furacão continuava a desencadear-se com uma violencia tal, que, se o Albatrós tivesse encontrado alguma montanha no caminho, ter-se-hia alli esmagado como um navio que dá á costa.

Com effeito, não só não podia dirigir-se horisontalmente, mas nem sequer era senhor do seu deslocamento em altura.

E comtudo alguns pincaros de montanhas se erguiam n’aquellas terras antarcticas. A cada instante um choque seria possivel e teria produzido a destruição do apparelho.

Aquella catastrophe era tanto mais para receiar quanto o vento inclinára para léste, passando o meridiano zero. Dois pontos luminosos se apresentaram a uns cem kilometros á frente do Albatrós.

Eram os dois vulcões que fazem parte do vasto systema dos Montes Ross, o Erebus e o Terror.

Iria pois o Albatrós queimar-se nas suas chammas, como uma borboleta gigante?

Houve uma hora palpitante. Um dos vulcões, o Erebus, parecia precipitar-se sobre a aeronave, que parecia não se poder desviar do leito do furacão. Os pennachos de chamma cresciam a olhos vistos. Uma rede de fogo tomava o caminho. Intensos clarões enchiam agora o espaço. As figuras, vivamente illuminadas a bordo, tomaram um aspecto infernal. Todos, immoveis, sem um grito, sem um gesto, esperavam o horroroso minuto, em que aquella terrivel fornalha os envolveria nas suas chammas.

Mas o furacão que arrastava o Albatrós, salvou-o d’aquella espantosa catastrophe. As chammas do Erebus, lançadas pela tempestade, abriram-lhe passagem. Foi no meio de uma chuva de substancias lavicas, repellidas felizmente pela acção centrifuga dos helices suspensivos, que elle transpoz a cratéra em plena erupção.

Uma hora depois, o horisonte deixava vêr as duas tochas colossaes que allumiavam os confins do mundo durante a longa noite polar.

Ás duas da manhã, passaram a ilha Ballery no extremo da costa da Descoberta, sem que a pudessem reconhecer, visto estar soldada ás terras arcticas por um cimento de gelo.

E então, a partir do circulo polar que o Albatrós cortou sobre o 75.° meridiano, o furacão levou-o para sobre os bancos de gelo, para sobre os icebergs, contra os quaes esteve cem vezes no risco de se despedaçar. Não ia já nas mãos do seu timoneiro, mas nas mãos de Deus ... Deus é um excellente piloto.

A aeronave caminhava para o meridiano de Paris, que faz um angulo de cento e cinco graus com o que ella havia seguido para galgar o circulo do mundo antarctico.

Afinal, para além do parallelo 60.°, o furacão mostrou uma tendencia a quebrar. A sua violencia diminuiu sensivelmente. O Albatrós começou a tornar-se senhor de si. Depois,—o que foi um verdadeiro allivio,—entrou nas regiões illuminadas do globo, e o dia tornou a apparecer pelas oito horas da manhã.

Robur e os seus, depois de haverem escapado ao cyclone do cabo Horn, estavam agora livres do furacão. Tinham sido levados para o Pacifico por sobre toda a região polar, depois de haver galgado sete mil kilometros em dezenove horas,—isto é, mais de uma legua por minuto—velocidade dupla da que podia obter o Albatrós sob a acção dos seus propulsores nas circumstancias ordinarias.

Mas Robur não sabia já onde estava, em consequencia das perturbações da agulha nas proximidades do polo magnetico. Era necessario esperar que o sol se mostrasse em condicções sufficientes de se fazer uma observação. Infelizmente grossas nuvens carregavam o céo n’aquelle dia, e o sol não appareceu.

Foi um desapontamento tanto mais sensivel, quanto os dois helices propulsivos haviam tido certas avarias durante a tormenta.

Robur, contrariadissimo com este accidente, não poude seguir, durante este dia, senão com uma velocidade relativamente moderada. Quando passou por sobre os antipodas de Paris, não o fez senão a razão de seis leguas por hora.

Era necessario, além d’isso, tomar bem sentido em não aggravar as avarias. Se os seus dois propulsores fôssem postos fora das condições de funccionar, a situação da aeronave por sobre esses vastos mares do Pacifico estaria muito compromettida. Assim o engenheiro perguntava a si proprio se não deveria proceder ás reparações alli, de modo a assegurar a continuação da viagem.

No dia seguinte pelas sete da manhã, foi avistada uma terra ao norte. Reconheceu-se logo que era uma ilha. Mas qual d’essas milhares de ilhas de que está semeado o Pacifico?

Comtudo Robur resolveu parar alli, sem vir a terra. Segundo elle, bastaria o dia para reparar as avarias, e partiria n’essa mesma noite.

O vento tinha serenado de todo, circumstancia favoravel para a manobra que se tratava de executar. Pelo menos, visto que ficára estacionario, o Albatrós não seria arrastado sem se saber para onde.

Um longo cabo de cento e cincoenta pés, com uma ancora na extremidade, foi lançado pela borda fora. A aeronave chegava ao extremo da ilha, a ancora tocou de raspão nos primeiros escolhos, e depois prendeu-se solidamente entre dois rochedos. O cabo destendeu-se sob a acção dos helices suspensivos, e o Albatrós ficou immovel, como um navio prêso da praia com uma ancora.

Era a primeira vez que se ligava á terra, desde a sua partida de Philadelphia.


CAPITULO XV
ONDE SE PASSAM COUSAS QUE NA REALIDADE MERECEM SER CONTADAS

Quando o Albatrós occupava ainda uma zona elevada, tinham podido reconhecer que aquella ilha era de mediocre tamanho. Mas qual o parallelo que a cortava? Sobre que meridiano estava? Era uma ilha do Pacifico, da Australasia, do Oceano Indico? Não se poderá saber senão quando Robur tiver feito os seus calculos. Comtudo, apesar de elle não ter podido tomar em conta as indicações do compasso, havia razão para pensar que estava sobre o Pacifico. Apenas o sol nascesse, seriam excellentes as circumstancias para obter uma boa observação.

D’aquella altura, cento e cincoenta pés, a ilha que media cerca de mil e quinhentas milhas de circumferencia, desenhava-se como uma estrella do mar, de tres pontas.

Á ponta de suéste emergia um ilhote, precedido de uma sementeira de rochedos. Á borda, nenhum indicio de marés, o que levava a confirmar a opinião de Robur relativamente á situação, porque o fluxo e refluxo são quasi nullos no Oceano Pacifico.

Na ponta noroéste erguia-se uma montanha conica, cuja altitude podia ser calculada em duzentos pés.

Não se via nenhum indigena, mas talvez occupassem o littoral opposto.

Em todo o caso, se elles tinham dado com a aeronave, era natural que o espanto os levasse a esconderem-se e a fugir.

Fôra pela ponta suéste que o Albatrós atracára á ilha. Não longe, n’uma pequena insua, lançava-se um riacho, por entre rochedos. Para além, alguns valles sinuosos, arvores de essencias variadas, caça de matto, perdizes e abetardas em grande quantidade. Se a ilha não era habitada, pelo menos parecia habitavel. Decerto que Robur podia alli pousar em terra, e se o não fizera, fôra decerto porque o solo, muito accidentado, lhe parecêra que não offerecia um logar conveniente para a aeronave.

Esperando lançar-se nos ares, o engenheiro mandou começar os preparativos, que esperava concluir durante o dia. Os helices suspensivos, em perfeito estado, tinham funccionado admiravelmente no meio das violencias do furacão, o qual, como vimos, tinha acalmado. N’aquelle momento, metade do jogo funccionava, o que era bastante para assegurar a tensão do cabo, fixado perpendicularmente ao littoral.

Mas os dois propulsores haviam soffrido, e mais ainda do que Robur suppunha. Era necessario pôr novas hastes e concertar a engrenagem que lhes transmittia o movimento de rotação.

Foi do helice anterior que o pessoal se occupou primeiramente sob a direcção de Robur e de Tom Turner. Era melhor começar por elle, para o caso em que um motivo qualquer obrigasse o Albatrós a partir antes do trabalho estar concluido. Bastava esse propulsor, para se poder continuar razoavelmente o caminho.

Entrementes, Uncle Prudent e o seu collega, depois de haverem passeado sobre a plataforma tinham-se ido sentar atraz.

Quanto a Fricollin, estava singularmente socegado. Que differença! não se estar suspenso senão a uns cincoenta pés do chão!

Os trabalhos não foram interrompidos senão no momento em que a elevação do sol sobre o horisonte permittiu tomar primeiro um angulo horario, depois, quando elle estava na sua inclinação, calcular o meio dia do logar.

O resultado da observação, feita com a maior exactidão, foi o seguinte:

Longitude: 176.° 17´ a léste do meridiano zero.

Latitude: 43.° 37´ austral.

O ponto sobre a carta, referia-se á posição da ilha Chatam e do ilhote Viff, cujo grupo é tambem designado pelo nome commum de ilhas Brongthon.

Aquelle grupo está a quinze graus ao léste de Taivaï-Pomanú, ilha meridional da Nova Zelandia, situada na parte sul do Oceano Pacifico.

—É pouco mais ou menos o que eu suppunha, disse Robur a Tom Turner.

—E então, estamos?...

—A quarenta e seis graus ao sul da ilha X, isto é, a uma distancia de duas mil e oitocentas milhas.

—Mais uma razão para concertarmos os nossos propulsores, respondeu o contramestre. N’aquelle trajecto podemos encontrar ventos contrarios, e, com o pouco que nos resta de provisões, é necessario alcançarmos a ilha X o mais depressa possivel.

—Sim, Tom, e espero pôr-me a caminho esta noite, mesmo que tenha de partir só com um helice, podendo concertar o outro no caminho.

—Master Robur, perguntou Tom Turner, e esses dois cavalheiros, e o creado?...

—Tom Turner, respondeu o engenheiro, serão elles para lastimar por se terem tornado colonos da ilha X?

Mas que ilha é essa ilha X? Uma ilha perdida na immensidade do Oceano Pacifico, entre o equador e o tropico de Cancer, uma ilha que justificava bem aquelle signal algebrico de que Robur fizera o seu nome. Emergia d’esse vasto mar das Marquezas, fora de todos os caminhos de communicação interoceanicos.

Era alli que Robur fundára a sua pequena colonia, alli que vinha repousar o Albatrós, quando estava cançado de voar; alli que fazia provisão de tudo que era necessario para as suas perpetuas viagens.

N’essa ilha X, Robur, que dispunha de grandes recursos, tinha podido estabelecer um estaleiro e construir perfeitamente a sua aeronave. Alli a podia concertar e mesmo fazer outra de novo. As suas officinas continham as materias, as substancias, as provisões de toda a especie, accumuladas para a manutenção de uns cincoenta habitantes, a população da ilha.

Quando Robur dobrou o cabo Horn, alguns dias antes, o seu intento era alcançar a ilha X, atravessando obliquamente o Pacifico. Mas o cyclone tinha apanhado o Albatrós no seu turbilhão. Depois d’elle, o furacão tinha-o levado para além das regiões austraes. Em summa, tinha sido trazido pouco mais ou menos á sua direcção primitiva, e, sem as avarias dos propulsores, o atrazo teria bem pouca importancia.

Iam pois alcançar a ilha X. Mas, como dissera o contramestre, Tom Turner, o caminho era ainda longo. Teriam provavelmente de luctar com ventos desfavoraveis. E todo o seu poder mechanico sería pouco para se chegar ao seu destino nos prasos desejados. Com um tempo médio, n’um andamento ordinario, essa travessia devia realisar-se em tres ou quatro dias.

D’ahi o partido que Robur tomára de se fixar na ilha Chatam. Alli se achava em condições melhores para concertar pelo menos o helice da frente. Não receiava, no caso de uma brisa contraria se levantar, ser arrastado para o sul, quando quizesse ir para o norte. Chegada a noite, aquelle concerto estaria terminado. Manobraria então para desprender a ancora. Se estivesse solidamente agarrada aos rochedos, venceria a difficuldade cortando o cabo e retomaria o vôo para o Equador.

Como se vê, aquella maneira de proceder era a mais simples, e a melhor tambem, sendo executada cabalmente.

O pessoal do Albatrós, sabendo que não havia tempo a perder, poz-se resolutamente a trabalhar.

Emquanto se trabalhava na frente da aeronave, Uncle Prudent e Phil Evans tinham entre si um dialogo cujas consequencias iam ser de um alcance excepcional.

—Phil Evans, disse Uncle Prudent, está bem resolvido, como eu, a fazer o sacrificio da sua vida?

—Estou!

—Pela ultima vez: é bem certo que nada temos a esperar d’esse Robur?

—Nada!

—Pois bem, Phil Evans, a minha resolução está tomada. Já que o Albatrós deve partir esta noite mesmo, não passará a noite sem termos realisado a nossa obra. Cortaremos as azas a esse passaro do engenheiro Robur. Esta noite voará pelos ares!

—Vamos a isso! respondeu Evans.

Como se vê, os dois collegas estavam de accôrdo em todos os pontos, mesmo quando se tratava de acceitar com indifferença a horrivel morte que os esperava.

—Tem tudo que é necessario? perguntou Phil Evans.

—Sim! A ultima noite, emquanto Robur e a sua gente não pensavam senão na salvação da aeronave, pude introduzir-me no deposito e tirar um cartucho de dynamite!

—Uncle Prudent, vamos á obra!

—Não! ha de ser esta noite. Quando ella vier, entraremos nos nossos compartimentos, e o senhor vigiará para que nos não surprehendam.

Pelas seis horas os dois collegas jantaram segundo o costume. Duas horas depois, tinham-se retirado para o seu beliche, como pessoas que vão dormir para se refazerem de uma noite passada em claro.

Nem Robur, nem nenhum dos seus companheiros, podiam suspeitar a catastrophe que ameaçava o Albatrós.

Eis como Uncle Prudent contava proceder:

Como dissera, tinha conseguido penetrar no deposito de munições, accommodado a um canto, no fundo da aeronave. Alli se apoderára de uma certa quantidade de polvora e de um cartucho semelhante áquelles de que o engenheiro se servira em Dahomey. Entrando para o seu beliche, tinha escondido cautelosamente o cartucho, com o qual estava resolvido a fazer saltar o Albatrós durante a noite, quando elle tivesse retomado o seu vôo pelos ares.

N’aquelle momento, Phil Evans examinava o cartucho roubado pelo seu companheiro.

Era uma bainha metallica, contendo cêrca de um kilograma da substancia explosiva, o que devia bastar para deslocar a aeronave e partir o seu jogo de helices. Se a explosão não a destruisse rapidamente, acabaria com ella de todo na quéda. Ora nada havia mais facil do que depositar aquelle cartucho n’um canto do beliche, de modo que rompesse a plataforma e alcançasse o casco, até ao cavername.

Mas, para provocar a explosão, seria preciso fazer rebentar a capsula fulminante, de que estava munido o cartucho. Era a parte mais delicada da operação, porque a inflammação da capsula não se devia produzir senão n’um tempo calculado com uma extrema precisão.

Com effeito, Uncle Prudent tinha imaginado o seguinte: desde que o propulsor da frente estivesse concertado, a aeronave devia continuar o seu caminho para o norte; mas feito isto, era provavel que Robur e a sua gente voltassem atraz para arranjar o helice posterior. Ora a presença de todo o pessoal junto ao beliche podia embaraçar Uncle Prudent na sua operação. É a razão por que se resolvêra a servir-se de uma mécha, de maneira a não provocar a explosão senão n’um tempo dado.

Eis o que elle disse a Phil Evans.

—Juntamente com o cartucho tirei polvora. Com essa polvora vou fazer uma mécha, cujo comprimento estará na razão do tempo que seja preciso gastar a queimar, e que estaria metade na capsula do fulminante. A minha intenção é accendel-a á meia noite, de modo que a explosão se produza entre as tres e quatro da manhã.

—Bem combinado! respondeu Phil Evans.

Os dois collegas, como se vê, tinham chegado a examinar com o maior sangue frio a terrivel destruição em que deviam morrer. Havia n’elles uma tal somma de odio contra Robur e os seus, que o sacrificio da sua propria vida parecia indicado para destruir, com o Albatrós, os que elle levava comsigo. O acto era de facto insensato, odioso mesmo! Mas eis a que elles haviam chegado, depois de cinco semanas d’essa existencia cheia de colera que não pudera ainda rebentar, de raiva que não haviam podido conter.

—E Fricollin, disse Phil Evans, temos nós direito de dispôr da sua vida?

—Pois se sacrificâmos a nossa! respondeu Uncle Prudent.

Não é provavel que Fricollin achasse sufficiente a razão.

Immediatamente Uncle Prudent pôz mãos á obra, emquanto Phil Evans vigiava as immediações dos seus aposentos.

O pessoal continuava occupado na frente. Não havia receio de ser surprehendido.

Uncle Prudent começou por triturar uma pequena quantidade de polvora a ponto de a tornar em pó fino. Depois de a molhar ligeiramente, metteu-a n’um envolucro de panno, em forma de mécha. Accendendo-a, reconheceu que queimava na razão de cinco centimetros por dez minutos, isto é, um metro em tres horas e meia. A mécha foi então apagada, depois fortemente apertada n’uma espiral de corda e applicada á capsula do cartucho.

O trabalho estava concluido pelas dez horas da noite, sem haver excitado a minima suspeita.

N’aquelle momento, Phil Evans veiu ter com o seu collega ao beliche.

Durante aquelle dia, as reparações do helice anterior tinham sido activamente conduzidas; mas tinha sido preciso mettel-o para dentro para poder desmontar os seus ramos, que estavam desarranjados.

Quanto ás pilhas, aos accumuladores, ao que produzia a fôrça mechanica do Albatrós, nada havia soffrido com as violencias do cyclone. Havia com que alimental-os ainda durante quatro ou cinco dias.

Viera a noite, quando Robur e os seus homens interromperam o seu trabalho. O propulsor da frente não estava ainda collocado no seu logar. Eram necessarias tres horas de reparações para que estivesse apto a funccionar. De modo que, depois de conversar com Tom Turner, o engenheiro resolveu-se a dar algum descanço ao seu pessoal, morto de cançaço, e guardar para o dia seguinte o que ficava por fazer. Além de que, era necessaria a claridade do dia para esse trabalho extremamente delicado, e a que os pharoes não dariam uma luz sufficiente.

Eis o que Uncle Prudent e Phil Evans ignoravam. Atidos ao que haviam ouvido dizer a Robur, deviam pensar que o propulsor da frente seria concertado antes da noite e que o Albatrós seguiria immediatamente o seu caminho para o norte. Julgavam-n’o pois desprendido da ilha, quando estava ainda preso a ella pela ancora. Isto ía conduzir as cousas de um modo completamente diverso do que elles haviam imaginado.

A noite estava sombria e sem luar. Sentia-se que ía estabelecer-se uma brisa ligeira. Vinham aragens do sudoéste; mas não deslocavam o Albatrós, que permanecia immovel, preso á ancora, cujo cabo, verticalmente tenso, o retinha ao solo.

Uncle Prudent e o seu collega, encerrados no seu beliche, poucas palavras trocavam, prestando ouvidos ao fremito dos helices suspensivos que dominava todos os outros ruidos de bordo. Esperavam o momento de proceder.

Um pouco antes da meia noite:

—É tempo! disse Uncle Prudent.

Sob os leitos do beliche estava um cofre em forma de gaveta. Foi n’esse cofre que Uncle Prudent depositou o cartucho de dynamite, munido da mécha. D’esse modo, a mécha podia queimar sem se revelar pelo fumo ou pela crepitação. Uncle Prudent accendeu-o no extremo. Depois, empurrando o cofre para baixo da caixa:

—Agora lá para traz e esperemos!

Sahiram os dois e ficaram ao principio admirados de não vêr o timoneiro no seu posto habitual.

Phil Evans curvou-se então para fora da plataforma.

—O Albatrós continúa no mesmo logar! disse em voz baixa. Os trabalhos não concluiram!... Não pode naturalmente partir.

Uncle Prudent teve um gesto de desapontamento.

—É preciso apagar a mécha, disse.

—Não!... é preciso safarmo-nos!... respondeu Phil Evans.

—Safarmo-nos?

—Sim!... Pelo cabo da ancora, visto ser noite escura. Cento e cincoenta pés de descida não é nada.

—Não é nada, com effeito, Phil Evans, e seriamos loucos se não aproveitassemos esta occasião inesperada.

Mas, entraram no seu beliche e tomaram tudo que puderam levar comsigo de provisões para uma estação mais ou menos prolongada na ilha Chatam. Depois, fechando a porta, avançaram sem ruido para a frente.

A sua intenção era despertar Fricollin e obrigal-o a fugir com elles.

A escuridão era profunda. As nuvens começavam a soprar do sudoéste. Já a aeronave balançava um pouco, presa á ancora, afastando-se ligeiramente da vertical com relação ao cabo que a segurava. A descida devia pois offerecer uma certa difficuldade. Mas não era cousa que fizesse recuar homens que estavam resolvidos a expôr a vida.

Arrastaram-se os dois até á plataforma, parando ás vezes ao abrigo dos compartimentos para escutar se ouviam algum ruido. Silencio absoluto por toda a parte. Nenhuma luz nas vigias. Não era só no silencio, que a aeronave estava immersa; mas no somno.

No emtanto Uncle Prudent e o seu companheiro approximavam-se do beliche de Fricollin, quando Phil Evans estacou:

—O vigia! disse elle.

Com effeito um homem estava deitado junto aos compartimentos centraes. Passava pelo somno. Toda a fuga se tornára impossivel no caso de elle dar o alarme.

Estavam n’aquelle logar algumas cordas, pedaços de panno e de estopa, que tinham servido para o concerto do helice.

Um instante depois, o homem era amordaçado, encapuzado, atado a um dos varões do parapeito, sem poder dar um grito ou fazer um movimento.

Tudo isto se passára quasi sem ruido.

Uncle Prudent e Phil Evans puzeram-se a escutar....

O silencio não foi perturbado no interior dos compartimentos. A bordo tudo dormia.

Os dois fugitivos,—pois não os podemos já chamar assim?—chegaram á frente do beliche occupado por Fricollin. François Tapage fazia ouvir um resonar digno do seu nome, o que era tranquillisador.

Com grande surpresa sua, Uncle Prudent não teve de empurrar a porta de Fricollin. Estava aberta. Entrou até meio beliche, e depois, retirando-se:

—Ninguem! disse elle.

—Ninguem! Onde estará elle? murmurou Phil Evans.

Os dois foram de rastos até á frente, pensando que Fricollin dormia talvez em algum canto ...

Ninguem!

—Ter-se-ha anticipado a nós o maroto? disse Uncle Prudent.

—Seja como fôr, respondeu Phil Evans, não podemos esperar por mais tempo. Partamos!

Sem hesitar, um após outro, os fugitivos agarraram-se ao cabo com ambas as mãos e ambos os pés, e, deixando-se escorregar, chegaram a terra sãos e salvos.

Que alegria para elles o pizarem o chão que lhes faltava havia tanto tempo, caminharem sobre um terreno solido, e não estarem á mercê da atmosphera!

Preparavam-se para se internar na ilha quando uma sombra se ergueu deante d’elles. Era Fricollin.

Sim! O negro tinha tido a mesma idéa que seu amo, e a audacia de se lhe anticipar, sem o prevenir.

Mas não era aquella a occasião para recriminações, e Uncle Prudent dispunha-se a procurar um refugio em qualquer ponto afastado da ilha, quando Phil Evans o deteve.

—Uncle Prudent, escute, disse elle. Eis-nos livres de Robur. Está votado, com os seus collegas, a uma morte espantosa. Merece-a, é verdade! Mas se elle jurasse sobre a sua honra que não tentaria tornar a apanhar-nos ...

—A honra n’um tal sujeito....

Uncle Prudent não poude concluir. Produzira-se um movimento a bordo do Albatrós.

Evidentemente, fôra dada voz de alarme, e a evasão ía ser descoberta.

—Soccorro! Soccorro! gritaram.

Era o vigía que tinha podido expellir a mordaça.

Passos precipitados resoaram na plataforma. Immediatamente os pharoes lançaram os seus clarões electricos sobre um largo sector.

—Lá estão!... lá estão! exclamou Tom Turner.

Os fugitivos tinham sido vistos.

No mesmo instante, em consequencia de uma ordem que Robur deu em voz alta, os helices suspensivos foram afrouxados, e sendo o cabo içado para bordo, o Albatrós começou a approximar-se do solo.

N’esse momento ouviu-se distinctamente a voz de Phil Evans:

—Engenheiro Robur, disse elle, compromette-se, sob sua honra, a deixar-nos livres n’esta ilha?...

—Nunca! exclamou Robur.

E essa resposta foi seguida de um tiro de espingarda, cuja bala roçou pelo hombro de Phil Evans.

—Ah! patife! exclamou Uncle Prudent.

E de faca na mão, precipitou-se para o lado dos rochedos, onde a ancora se tinha incrustado. A aeronave estava apenas a uns 50 pés do solo.

E em poucos segundos o cabo estava cortado, e a brisa, que tinha refrescado sensivelmente, batendo de lado o Albatrós, afastava-o para o nordéste, por sobre o mar.


CAPITULO XVI
ONDE O LEITOR FICARÁ N’UMA INDECISÃO TALVEZ LAMENTAVEL

Era então meia noite e vinte. Cinco ou seis tiros mais tinham sido dados da aeronave. Uncle Prudent e Fricollin, sustentando Phil Evans, tinham-se posto ao abrigo dos rochedos. Não haviam sido feridos. Nada a receiar n’aquelle momento.

Primeiramente, o Albatrós, ao mesmo tempo que se afastava da ilha Chatam, foi levado a uma altura de novecentos metros. Tinha sido preciso forçar a velocidade ascensional afim de não cahir ao mar.

No momento em que o vigia, livre da mordaça, soltava o primeiro grito, Robur e Tom Turner, precipitando-se sobre elle, tinham-n’o desembaraçado do pedaço de panno que lhe cobria o rosto, e dos laços que o prendiam.

Depois o contramestre entrára no beliche de Uncle Prudent e de Phil Evans: estava vasio!

François Tapage, pelo seu lado, havia esquadrinhado no beliche de Fricollin: e não vira ninguem!...

Vendo que os prisioneiros lhe haviam escapado, Robur entregou-se a um movimento de colera. A evasão de Uncle Prudent e Phil Evans era o seu segredo, era a sua pessoa revelada a todo o mundo. Se não se inquietára com o documento lançado durante a travessia da Europa, é que havia muitas probabilidades de elle se perder na quéda!... Mas agora!...

Depois, serenando:

—Fugiram! deixal-os! disse elle. Como não poderão safar-se da ilha Chatam antes de alguns dias, eu voltarei!... Eu os procurarei!... eu os tornarei a apanhar!... e então ...

Com effeito a salvação dos tres fugitivos estava longe de ser garantida. O Albatrós, tornando-se senhor da sua direcção, não tardaria em alcançar de novo a ilha Chatam, d’onde os fugitivos não podiam sahir tão cedo. Antes de doze horas estariam em poder do engenheiro.

Antes de doze horas! Mas antes de duas o Albatrós seria anniquilado! Esse cartuxo de dynamite, não era como um torpedo preso ao seu flanco, e destinado a realisar a sua obra de destruição nos ares?

Entretanto a brisa tornava-se mais fresca, a aeronave era levada para o nordéste. Embora a sua velocidade fôsse moderada, devia ter perdido de vista a ilha Chatam antes do nascer do sol.

Para voltar contra o vento, seria preciso que os propulsores, ou pelo menos os da frente, estivessem em estado de funccionar.

—Tom, disse o engenheiro, põe os pharoes a toda a luz.

—Sim, master Robur.

—E todos á obra!

—Todos! respondeu o contramestre.

Não era cousa que se deixasse para o dia seguinte. Não se tratava de cançaço agora. Não havia um unico no Albatrós que não partilhasse das paixões do seu chefe. Nenhum que não estivesse resolvido a fazer tudo para tornar a apanhar os fugitivos! Apenas o helice da frente fôsse collocado no seu logar, voltariam a Chatam, alli, amarrariam de novo, e dariam caça aos prisioneiros. Só então começariam as reparações do helice de traz, e a aeronave poderia continuar com toda a segurança através o Pacifico a sua viagem de regresso á ilha X.

Comtudo era necessario que o Albatrós não fôsse levado para muito longe ao nordéste. Ora, circumstancia desagradavel! a brisa ía-se accentuando, e elle não podia nem vencel-a, nem ficar estacionario. Privado dos seus propulsores, tornou-se um balão indirigivel. Os fugitivos, postados no littoral, tinham podido vêr que elle desappareceria antes que a explosão puzesse tudo em pedaços.

Este estado de cousas não podia deixar de inquietar Robur com respeito aos seus projectos ulteriores.

Pois não resultava isso n’um atrazo em voltar á ilha Chatam? De modo que emquanto os concertos eram feitos activamente, elle tomou a resolução de descer até ás baixas camadas na esperança de alli encontrar correntes mais fracas. Talvez o Albatrós chegasse a manter-se n’aquellas paragens até o momento de se ter sufficiente fôrça para resistir á aragem.

Fez-se immediatamente a manobra. Se algum navio tivesse assistido ás evoluções d’este apparelho, então envolto nos seus clarões electricos, que espanto não teria a guarnição!

Quando o Albatrós não esteve senão a alguns centos de pés da superficie do mar, parou.

Infelizmente Robur teve de notar que a aragem soprava com mais fôrça n’esta zona inferior, e a aeronave afastou-se com velocidade maior. Arriscava-se a ser arrastada para mais longe ao nordéste, o que retardaria o seu regresso a Chatam.

Em summa, feitas algumas tentativas, ficou provado que havia vantagem em se manter nas altas camadas em que a atmosphera estava melhor equilibrada. Assim o Albatrós subiu uma média de tres mil metros. Alli, se não ficou estacionario, pelo menos o seu andamento foi lento. O engenheiro poude esperar melhor que ao romper do dia, e d’aquella altura, teria ainda em vista as paragens da ilha, cuja posição elle tomara com uma exactidão perfeita.

Quanto á questão de saber se os fugitivos haviam recebido bom acolhimento dos indigenas, no caso da ilha ser habitada, Robur nem se preoccupava com isso. Que os indigenas lhes viessem em auxilio pouco se lhe dava! Com os meios offensivos de que o Albatrós dispunha, seriam promptamente espantados e dispersados. A captura dos prisioneiros, não podia, pois, trazer receios, e, estando presos ...

—Não ha meio de fugir da ilha X! disse Robur.

Cêrca da uma hora depois do meio dia, o propulsor da frente estava concertado. Não se tratava senão de o pôr no seu logar, o que exigia ainda uma hora de trabalho. Feito isto, o Albatrós tornaria a partir, na direcção sudoéste, e então desmontariam o propulsor de traz.

E a mécha que ardia no beliche abandonado! Essa mécha cuja terça parte tinha já ardido. E a chamma que se approximava do cartucho de dynamite!

Evidentemente, se os homens da aeronave não estivessem occupados, talvez um d’elles tivesse ouvido o tenue crepitar que começara a produzir-se no beliche; talvez tivesse sentido o cheiro da polvora queimada. E ter-se-hia preoccupado; teria prevenido o engenheiro Robur ou Tom Turner. Teriam então dado busca, e descoberto o cofre em que haviam guardado o cartucho. Seria ainda tempo de salvar esse maravilhoso Albatrós e todos que elle levava!

Mas os homens trabalhavam na frente, isto é, a vinte metros do beliche dos fugitivos. Nada os levara ainda a essa parte da plataforma, como nada podia distrahil-os de um trabalho que chamava toda a sua attenção.

O proprio Robur trabalhava, como habil machinista que era. Apressava o trabalho, mas sem esquecer que tudo fôsse feito com o maior cuidado! Era necessario que elle se tornasse absolutamente senhor do seu apparelho. Se não conseguisse apanhar os fugitivos, estes acabariam por voltar á sua terra. Fariam investigações. A ilha X não escaparia talvez ás pesquizas. E isso, seria acabar com a situação da gente do Albatrós, situação sobrehumana e sublime!

N’aquelle momento, o contramestre approximou-se do engenheiro. Era uma hora e um quarto.

—Master Robur, disse elle, parece-me que o vento annuncia agua para oéste.

—E o que indica o barometro? perguntou Robur, depois de ter observado o aspecto do céo.

—Está quasi estacionario, respondeu o contramestre. Comtudo parece-me que as nuvens descem para baixo do Albatrós.

—É verdade, Tom Turner. E n’esse caso não é impossivel que chova á superficie do mar. Mas comtanto que permaneçamos por cima das nuvens, pouco importa! Não seremos perturbados na conclusão do nosso trabalho.

—Se chover, continuou Tom Turner, deve ser uma chuva fina,—pelo menos a forma das nuvens assim o faz suppôr,—e é provavel que mais em baixo o vento serene completamente.

—Decerto, Tom, respondeu Robur. Comtudo, parece-me preferivel não descer ainda. Acabemos de reparar as avarias e poderemos então manobrar á vontade. Tudo está n’isso.

Ás duas horas e alguns minutos, estava concluida a primeira parte do trabalho. Reinstallado o helice anterior, fôram postas em movimento as pilhas que n’elle actuavam. O movimento accelerou-se a pouco e pouco e o Albatrós, evolucionando na direcção do sudoéste, voltou com uma velocidade média em direcção da ilha Chatam.

—Tom, disse Robur, ha duas horas e meia, approximadamente, que nos dirigimos ao nordéste. A brisa não mudou, como pude notar observando o compasso. Portanto calculo que em uma hora, o maximo, poderemos encontrar de novo as paragens da ilha.

—Assim o julgo, master Robur, respondeu o contramestre; porque avançamos na razão de uns doze metros por segundo. Entre as tres e as quatro da manhã terá o Albatrós alcançado o seu ponto de partida.

—E será assim melhor, Tom! respondeu o engenheiro. Temos interesse em chegar de noite, e mesmo em pousar em terra, sem sermos vistos. Os fugitivos julgando-nos para o norte, não se previnirão. Quando o Albatrós estiver rente da terra trataremos de o esconder por detraz de alguns altos rochedos da ilha. Depois, teremos de passar alguns dias em Chatam.