—Pois passaremos, e quando tivermos de luctar contra um exercito de indigenas ...
—Luctaremos, Tom, luctaremos pelo nosso Albatrós!
O engenheiro voltou-se então para a sua gente, que esperava novas ordens.
—Meus amigos, disse elle, não chegou ainda a hora de descançar. É preciso trabalhar até ser dia.
Estavam todos prestes.
Tratava-se agora de recomeçar para o propulsor de traz os concertos que haviam sido feitos para o da frente. Eram as mesmas avarias, produzidas pela mesma causa, isto é, pela violencia do furacão durante a travessia do continente antarctico.
Mas afim de auxiliar a metter o helice para dentro, entenderam dever suspender, durante alguns minutos, a marcha da aeronave e mesmo imprimir-lhe um movimento retrogrado. Á ordem de Robur, o ajudante do machinista deu o movimento de recúo á machina, mudando a rotação do helice anterior. A aeronave começou portanto a “descahir„ lentamente, para empregarmos uma expressão maritima.
Tudo se dispunha então a andar para traz, quando Tom Turner foi surprehendido por um cheiro singular.
Eram os gazes da mécha, accumulados agora no cofre, e que começavam a sahir do beliche dos fugitivos.
—Hein? fez o contramestre.
—O que ha? perguntou Robur.
—Pois não lhe cheira?... dir-se-hia que é polvora a queimar-se.
—É verdade, Tom!
—E o cheiro vem dos ultimos compartimentos!
—Sim, e até do ultimo beliche ...
—Será possivel que esses miseraveis tivessem deitado fogo?...
—Oh! se fôsse fogo apenas!... exclamou Robur. Mette a porta dentro, Tom, mette-a já!
Mal o contramestre dera um passo para traz, e já uma formidavel explosão abalava o Albatrós.
Os beliches voaram em estilhaços. Os pharoes apagaram-se, por lhes faltar subitamente a corrente electrica, e fez-se escuridão completa. Comtudo, se a maior parte dos helices suspensivos, torcidos ou partidos, estavam de todo inutilisados, alguns, á prôa, não haviam parado ainda de girar.
De repente, o casco da aeronave abriu-se um pouco atraz dos primeiros compartimentos, cujos accumuladores actuavam ainda no propulsor da frente, e a parte posterior da plataforma deu uma viravolta no espaço.
Quasi em seguida pararam os helices suspensivos, e o Albatrós foi precipitado no abysmo.
Era uma quéda de tres mil metros para os oito homens agarrados, como naufragos, áquelles destroços.
Além d’isso a quéda ia ser muito mais rapida porque os propulsores da frente, depois de se pôrem verticalmente, funccionavam ainda!
Foi então que Robur, com um grande sangue frio, se deixou deslisar até o beliche meio deslocado, pegou na alavanca e mudou a rotação do helice que, de propulsiva que era, tornou-se suspensiva.
Quéda inevitavel, apesar de um tanto retardada; mas, pelo menos, sem essa velocidade crescente dos corpos abandonados aos effeitos da gravidade. E se em todo o caso era certa a morte para os que sobrevivessem, visto que se precipitavam no mar, não era a morte por asphixia, no meio de um ar que a rapidez da descida teria tornado irrespiravel.
Oitenta segundos depois da explosão, o que restava do Albatrós abysmara-se nas ondas.
Algumas semanas antes, a 13 de junho, no dia seguinte ao da sessão, durante a qual o Weldon-Institute se abandonára a tão tempestuosas discussões, tinha havido em todas as classes da população philadelphia, negros e brancos, uma emoção difficil de descrever.
Já, nas primeiras horas da manhã, as conversações versavam unicamente sobre o inesperado e escandaloso incidente da vespera. Um intruso, que dizia ser engenheiro, um engenheiro que pretendia chamar-se com um nome inverosimil de Robur,—Robur, o Conquistador!—um personagem de origem desconhecida, de nacionalidade anonyma, tinha-se apresentado inopinadamente na sala das sessões, havia insultado os balonistas, infamado os partidarios dos aerostatos, exaltára as maravilhas dos apparelhos mais pesados que o ar, levantára celeuma no meio de um tumulto espantoso, provocado por ameaças que revirára contra os seus adversarios. Finalmente, depois de ter abandonado a tribuna no meio de tiros de revolvers, tinha desapparecido, e, apesar de todas as pesquisas, não tinham mais ouvido falar d’elle.
Com effeito, isto fizera-se para dar exercicio a todas as linguas, e inflammar todas as imaginações. O que se deu na Philadelphia, deu-se em todos os outros trinta e seis Estados da União, e, para dizer a verdade, tanto no Antigo Mundo como no Novo Mundo.
Mas este alarme cresceu de ponto quando na noite de 13 de junho foi voz geral que nem o presidente nem o secretario do Weldon-Institute tinham apparecido no domicilio, sendo aliás pessoas bem comportadas e prudentes. Na vespera tinham deixado a sala das sessões como pessoas que pretendem recolher tranquillamente para suas casas, na sua qualidade de celibatarios, que nenhum rosto aborrecido espera á entrada. Não se teriam ausentado, por acaso? Não; pelo menos nada haviam dito que levasse a suppôl-o. E mesmo tinha ficado combinado que no dia seguinte elles tomariam o seu logar no club, um como presidente, outro como secretario, na previsão de uma sessão em que se discutissem os acontecimentos da vespera.
E não só houvera desapparição completa dos dois personagens importantes do Estado de Pensylvania, mas nenhuma noticia havia do creado Fricollin. Não havia meio de o encontrar, como a seu amo. Não! negro nenhum, depois de Toussaint Louverture, ou Soulouque, tinha dado tanto que falar! Elle ia agora ter um logar importante, tanto entre os seus collegas da domesticidade philadelphia, como entre todos esses originaes a quem uma excentricidade qualquer basta para se pôrem em relevo n’esse formoso paiz da America!
No dia seguinte nada de novo. Nem os dois collegas, nem Fricollin tornaram a apparecer. Séria inquietação. Principiaram então a agitar-se. Grande multidão começou a reunir-se nas proximidades dos Post-and-Telegraph-offices para saber se havia alguma noticia.
Nada de novo.
E, comtudo, bem os haviam visto, aos dois, sahir do Weldon-Institute, conversar em voz alta, irem ter com Fricollin, que os esperava, e depois descer a Walnut Street, indo até á encosta de Fairmont-Park.
Jem Cip, o legumista, tinha até apertado a mão direita do presidente, dizendo-lhe:
—Até ámanhã!
E William T. Forbes, o fabricante de assucar feito de trapos, tinha recebido um cordeal aperto de mão de Phil Evans, que lhe dissera duas vezes:
—Até á vista!... até á vista!...
Miss Doll e miss Mat Forbes, tão ligadas a Uncle Prudent por laços da mais pura amizade, não estavam em si com um tal acontecimento, e afim de obterem noticias do ausente, falavam ainda mais que do costume.
Emfim, tres, quatro, cinco, seis dias se passaram, depois uma semana, duas semanas ... Ninguem, e indicio nenhum que pudesse pôr na pista dos tres desapparecidos.
Tinham comtudo procedido ás mais minuciosas pesquizas no bairro ... Nada! Nas ruas que vão dar ao porto ... Nada! No parque o mesmo, sob os grandes tufos de arvores, no mais espesso dos mattos ... Nada! Sempre nada!
Comtudo reconheceu-se que na grande clareira a herva tinha sido recentemente calcada, e de um modo que parecia suspeito, visto não ter explicação. Á entrada do bosque que a cerca tambem foram notados vestigios de uma lucta. Teriam pois bandos de malfeitores encontrado e atacado os dois collegas, a essa hora avançada da noite, no meio d’esse parque deserto?
Era possivel. Portanto a policia procedia a um inquerito em todas as formas e com todo o rigor legal. Esquadrinharam o Schuylkill-river, rasparam-lhe o fundo, bateram as grandes hervas dos mattos. E se não deu resultado, pelo menos não foi inutil de todo, porque o Schuylkill estava precisando de um bom trabalho de limpeza. Fizeram-n’o por essa occasião. É gente pratica, os edis de Philadelphia.
Appellaram então para a publicidade dos jornaes. Annuncios, reclamos foram enviados a todas as folhas democraticas ou republicanas da União, sem distincção de côr. O Daily Negro, jornal especial da raça negra, publicou um retrato de Fricollin, segundo uma photographia. Foram offerecidas recompensas, premios, a quem désse alguma noticia dos tres ausentes, e mesmo a todos que encontrassem um indicio qualquer de natureza a pôr-se-lhes no encalço.
—Cinco mil dollars! cinco mil dollars!... A todo o cidadão que ...
Nada de novo. Os cinco mil dollars permaneceram na caixa do Weldon-Institute.
Impossivel achal-os! Impossivel achal-os! Uncle Prudent e Phil Evans de Philadelphia!
Escusado será dizer que o club ficou n’uma singular excitação por este inexplicavel desapparecimento do seu presidente e secretario. Primeiramente a assembléa tomou uma urgente medida, suspendendo os trabalhos relativos á construcção do balão Go a head, aliás tão adeantados. Mas como é que, na ausencia dos principaes promotores do facto, dos que tinham votado a essa empresa uma parte da sua fortuna, em tempo e dinheiro, poderiam acabar a obra, não estando elles ahi para a concluir? Era portanto necessario esperar.
Ora, precisamente n’essa épocha, tratou-se de novo do extranho phenomeno, que tanto havia sobreexcitado os espiritos algumas semanas antes.
Com effeito, o objecto mysterioso tinha sido visto, ou, por outra, entrevisto por varias vezes nas altas camadas da atmosphera. Evidentemente ninguem pensava em estabelecer uma relação entre essa apparição tão singular e o desapparecimento, não menos inexplicavel, dos dois membros do Weldon-Institute. De facto seria preciso uma extraordinaria dóse de imaginação para se approximar estes dois factos um do outro.
Seja como fôr, o asteroide, o bolide, o monstro aereo, ou como lhe queiram chamar, tinha tornado a apparecer nas condições que melhor permittiam apreciar as suas dimensões e a sua forma. Primeiramente no Canadá, por sobre os territorios que se extendem desde Ottawa até Quebec, e isso no dia seguinte á desapparição dos dois collegas; depois, mais tarde, por sobre as planicies do Far-West, luctando em velocidade com o caminho de ferro do Pacifico.
A partir d’esse dia, as incertezas do mundo sabio tiveram em que se fixar. Aquelle corpo não era um producto da natureza; era um apparelho volante, com applicação pratica da theoria do “Mais pesado que o ar„. E se o creador, o dono da aeronave, queria ainda guardar o incognito para a sua pessoa, evidentemente o não queria já para a sua machina, visto que acabava de a mostrar tão perto, sobre os territorios do Far-West. Quanto á fôrça mechanica de que dispunha, quanto á natureza dos apparelhos que lhe communicavam movimento, era isso desconhecido. Em todo o caso, o que não deixava duvida alguma era que a aeronave devia ser dotada de uma extraordinaria facilidade de locomoção. Com effeito, alguns dias depois, havia sido vista no Celeste Imperio, depois na parte septentrional do Industão, depois por sobre os immensos steppes da Russia.
Quem era pois esse ousado mechanico que possuia um tal poder de locomoção, para o qual os Estados não tinham fronteiras, nem os oceanos limites e que dispunha da atmosphera terrestre como de um dominio? Devia-se acreditar que era esse Robur, cujas theorias tinham sido tão brutalmente lançadas em rosto do Weldon-Institute, no dia em que veiu bater em brecha a utopia dos balões dirigiveis?
Talvez alguns espiritos perspicazes o tivessem pensado. Mas, cousa singular decerto, ninguem pensou na hypothese de que o tal Robur pudesse estar relacionado de qualquer maneira com o desapparecimento do presidente e do secretario do Weldon-Institute.
Em summa isso teria ficado no mysterio, se não fôsse um despacho que de França chegou á America pelo fio de Nova-York, ás onze e trinta e sete, do dia 6 de julho.
E o que dizia o despacho? era o texto do documento achado em Paris n’uma caixa de tabaco, documento que revelava o que havia succedido aos dois personagens por quem a União ia tomar lucto.
Portanto, o auctor do rapto era Robur, o engenheiro vindo expressamente a Philadelphia para esmagar no ovo a theoria dos balonistas! Era elle que commandava a aeronave Albatrós. Era elle que, para exercer represalias, tinha arrebatado Uncle Prudent, Phil Evans e para mais o Fricollin. E essas personagens deviamos consideral-as para sempre perdidas, a não ser que, por um meio qualquer, construindo um engenho capaz de luctar com o poderoso apparelho, os seus amigos terrestres não conseguissem reconduzil-o a terra.
Que emoção! que pasmo! O telegramma parisiense tinha sido dirigido ao Weldon-Institute. Os membros do club tiveram conhecimento d’elle immediatamente. Dez minutos depois, toda a Philadelphia recebia a noticia pelos seus telephonios, e depois, em menos de uma hora, toda a America, porque electricamente essa noticia se tinha espalhado pelos innumeros fios do novo continente. Não queriam acreditar n’isso, e nada havia comtudo mais certo. Devia ser uma mystificação de mau gôsto, diziam outros! Como é que esse rapto se podia ter realisado em Philadelphia, e tão secretamente? Como é que esse Albatrós tinha pousado em Fairmont-Park, sem que a sua apparição fôsse notada nos horisontes do Estado de Pensylvania?
Muito bem, eram estes os argumentos.
Os incredulos tinham ainda o direito de duvidar. Mas esse direito, já não o tinham oito dias depois de ter chegado o telegramma. No dia 13 de julho, o vapor francez Normandia ancorava nas aguas de Hudson, e trazia a famosa caixa de rapé. O caminho de ferro de Nova-York expediu-a para Philadelphia pela grande velocidade.
Era de facto a caixa de rapé do presidente do Weldon-Institute. Jem Cip não teria feito mal se tomasse n’esse dia um alimento substancial, porque esteve para cahir desmaiado, quando reconheceu a caixa.
Quantas vezes elle tomára n’ella a sua pitada amigavel! E miss Doll e miss Matt reconheceram tambem a caixa, para a qual tinham olhado ás vezes com esperança de metter n’ella um dia os seus magros dedos de solteiras. Depois foi o pae d’ellas, foi William T. Forbes, Truk Milnor, Bat T. Fyn, e muitos outros do Weldon-Institute. Cem vezes elles a haviam visto abrir-se nas mãos do seu venerando presidente. Emfim, teve por si o testemunho de todos os amigos que Uncle Prudent contava n’aquella boa cidade de Philadelphia, cujo nome indica,—não é de mais repetil-o,—que os seus habitantes se amam como irmãos.
De modo que não era permittido conservar a sombra de uma duvida a esse respeito. Não só a caixa de tabaco do presidente, mas a lettra, que vinha sobre o documento, não permittiam aos incredulos abanar a cabeça. Começaram então as lamentações, mãos desesperadas se levantaram ao céo. Uncle Prudent e o seu collega, transportados n’um apparelho volante, sem que se pudesse sequer entrevêr um meio de os salvar!
A Companhia do Niagára Falls, de que Uncle Prudent era o maior accionista, teve de suspender os seus negocios. A Walton-Watch Company, procurou liquidar a sua officina de relogios, agora que perdera o seu director, Phil Evans.
Sim! foi um lucto geral e a palavra lucto não é exaggerada, porque, a não ser alguns cerebros esquentados, como se encontram mesmo nos Estados Unidos, ninguem esperava já tornar a vêr os dois respeitaveis cidadãos.
Comtudo, depois da sua passagem por sobre Paris, não se ouvia falar senão no Albatrós. Algumas horas mais tarde, fôra visto por sobre Roma, e disse. Não era isso para admirar, dada a velocidade com que a aeronave tinha atravessado a Europa de norte a sul, e o Mediterraneo de oéste a léste. Graças áquella velocidade, nenhum oculo a pudera alcançar, em qualquer ponto da trajectoria.
Em vão todos os observatorios puzeram a postos todo o seu pessoal, dia e noite; a machina de Robur tinha ido ou tão longe ou tão alto, na Icaria, como elle dizia, que não havia esperança de a encontrar.
Convem accrescentar que, apesar da sua rapidez ser mais moderada por sobre o littoral da Africa, como o documento não era ainda conhecido, não pensaram em procurar a aeronave nas alturas do céo argelino. Evidentemente, foi vista por cima de Tombuctú; mas o observatorio d’aquella cidade celebre,—se é que ha lá um,—não tinha ainda tempo de enviar para a Europa o resultado das suas observações.
Quanto ao rei do Dahomey, preferiria mandar cortar a cabeça a vinte mil subditos seus, a confessar que tinha sido levado de vencida na lucta com um apparelho aereo. Questão de amor proprio.
Mais além foi o Atlantico que o engenheiro Robur atravessou, foi a Terra de Fogo que elle alcançou, e depois o cabo Horn. Foram as terras austraes e o immenso dominio do polo, que transpoz um pouco contra a vontade. Ora d’aquellas regiões antarcticas nenhuma noticia havia a esperar.
Passou-se julho, e nenhum olhar humano podia vangloriar-se de haver entrevisto sequer a aeronave.
Passou-se agosto, e a incerteza com respeito aos prisioneiros de Robur foi completa. Era caso para perguntar se o engenheiro, a exemplo de Icaro, o mais velho mechanico de que reza a historia, não fôra victima da sua temeridade.
Finalmente, os vinte e sete dias de setembro passaram-se sem resultado.
É bem certo que a tudo a gente se acostuma n’este mundo. É da humana natureza esquecer as dôres que se afastam. Esquece-se porque é necessario esquecer. Mas d’esta vez, é justo dizel-o em sua honra, o publico terrestre susteve-se n’aquelle pendor. Não! não se tornou indifferente á sorte de dois brancos e do preto, arrebatados como o propheta Elias, mas cujo regresso á terra a Biblia não tinha promettido.
E isto foi mais para sentir em Philadelphia que em qualquer outro logar. Juntavam-se tambem alguns receios pessoaes. Como represalia, tinha Robur arrancado Uncle Prudent e Phil Evans ao seu paiz natal. Decerto que estava bem vingado, embora contra todo o direito. Mas bastava isso para a sua vingança? Não a quereria elle exercer ainda sobre alguns dos collegas do presidente e do secretario do Weldon-Institute? E quem se podia julgar ao abrigo dos ataques d’esse omnipotente senhor das regiões aereas?
Eis que no dia 28 de setembro correu na cidade uma noticia. Uncle Prudent e Phil Evans haviam apparecido, de novo, n’essa tarde, no domicilio particular do presidente do Weldon-Institute.
E o mais extraordinario é que a noticia era verdadeira, embora os espiritos sensatos não quizessem acreditar n’ella.
Comtudo foi preciso convencerem-se pela evidencia. Eram de facto os dois que haviam desapparecido, elles em pessoa, e não a sua sombra ... Até o proprio Fricollin estava de volta.
Os membros do club, depois os seus amigos, e depois a multidão, foram para defronte da casa de Uncle Prudent. Acclamaram os dois collegas, fizeram-os passar de mão para mão, no meio de hurrahs e de hips!
Lá estava Jem Cip, que abandonára o seu almoço,—um prato de alfaces cozidas,—depois William T. Forbes e suas duas filhas, miss Doll e miss Mat. E n’esse dia Uncle Prudent poderia esposal-as as duas, se fôsse mormão; mas não o era, e não tinha tendencia alguma para o vir a ser. E estava tambem Truk Milnor, Bat T. Fyn, finalmente todos os membros do club. E ainda hoje perguntam como é que Uncle Prudent e Phil Evans poderiam sahir vivos dos milhares de braços por que tiveram de passar, ao atravessar a cidade toda.
N’essa mesma tarde devia o Weldon-Institute ter a sua sessão hebdomadaria. Esperava-se que os dois collegas tomassem assento na presidencia. Ora, como elles nada haviam dito das suas aventuras,—não lhes teriam dado tempo para falar?—esperava-se tambem que contassem por miudos as suas impressões de viagem.
Com effeito, por qualquer motivo que fôsse, os dois permaneceram mudos. Mudo tambem o creado Fricollin, que os seus congeneres por pouco não estrangularam no seu delirio.
Mas o que os dois collegas não haviam dito, ou não tinham querido dizer, é o seguinte:
Escusado é voltar ao que se sabe já da noite de 27 a 28 de julho, da audaciosa evasão do presidente e do secretario do Weldon-Institute, da sua impressão tão viva quando pisaram os rochedos da ilha Chatam, o tiro dado sobre Phil Evans, o cabo cortado, e o Albatrós, privado então dos seus propulsores, arrastado ao largo pelo vento do sudoéste, emquanto se elevava a uma grande altura. Os seus pharoes accesos haviam permittido seguil-o durante algum tempo. Depois não tardára a desapparecer.
Os fugitivos nada tinham a receiar. Como é que Robur podia voltar á ilha, se os seus helices deviam ainda estar impossibilitados de funccionar durante tres ou quatro horas?
D’aqui lá, o Albatrós destruido pela explosão, não seria mais do que um destroço fluctuando á tona de agua, e os que elle levava, cadaveres despedaçados que o Oceano não restituiria.
O acto de vingança teria sido realisado com todo o seu horror.
Uncle Prudent e Phil Evans, considerando-se como em estado de legitima defesa, não haviam tido sombra de remorso.
Phil Evans não fôra senão ligeiramente ferido pela bala lançada pelo Albatrós. De modo que os tres trataram de alcançar o littoral, na esperança de encontrar alguns indigenas.
Essa esperança não foi baldada. Uns cincoenta indigenas, vivendo de pesca, habitavam a costa occidental de Chatam. Haviam visto a aeronave descer sobre a ilha. Fizeram aos fugitivos o acolhimento devido a seres sobrenaturaes. Adoraram-os, ou pouco menos. Puzeram-os na casa mais confortavel. Jámais Fricollin tornaria a encontrar occasião egual para passar pelo Deus dos pretos.
Como elles haviam previsto, Uncle Prudent e Phil Evans não viram voltar a aeronave. Deviam concluir d’ahi que a catastrophe se tinha produzido n’alguma zona alta da atmosphera. Não mais se ouviria falar do engenheiro Robur, nem da prodigiosa machina que os seus companheiros tripulavam com elle.
Agora era necessario esperar occasião de voltar á America. Ora a ilha Chatam é pouco frequentada de navegantes. Todo o mez de agosto se passou assim, e os fugitivos podiam ficar pensando se não tinham trocado uma prisão por outra, com a qual, apesar de tudo, Fricollin se entendia melhor que com a sua prisão aerea.
Afinal, a 3 de setembro, veiu um navio fazer aguada na ilha Chatam. Como se devem lembrar, no momento de ser arrebatado de Philadelphia, Uncle Prudent levava comsigo alguns milhares de dollars em papel, mais do que era necessario para voltar á America.
Depois de haverem agradecido aos seus adoradores, que lhes não regateavam as mais respeitosas demonstrações, Uncle Prudent, Phil Evans e Fricollin embarcaram para Aukland. Nada contaram da sua historia e, em dois dias, chegavam á capital da Nova Zelandia.
Alli, um vapor do Pacifico os recebeu como passageiros, e no dia 20 de setembro, depois de uma travessia das mais felizes, os que sobreviviam do Albatrós desembarcaram em S. Francisco. Não haviam dito quem eram, nem d’onde vinham; mas como haviam pago a bom preço o seu transporte, não seria um capitão americano que lhes pedisse mais do que isso.
Em S. Francisco, Uncle Prudent, o seu collega e o creado Fricollin tomaram o caminho de ferro do Pacifico. No dia 27 chegaram a Philadelphia.
Eis a descripção resumida do que se passára depois da evasão dos fugitivos e da sua ida para a ilha Chatam. Eis como, n’essa mesma noite, o presidente e o secretario puderam tomar logar na mesa da presidencia do Weldon-Institute, no meio de uma affluencia extraordinaria.
Comtudo, nem um, nem outro tinham nunca estado tão tranquillos. Não se diria, ao vêl-os, que alguma cousa de anormal se tivesse passado depois da memoravel sessão de 12 de junho. Tres mezes e meio que pareciam não contar na sua existencia!
Depois das primeiras salvas de hurrahs, que os dois receberam, sem que o seu rosto reflectisse a menor emoção, Uncle Prudent poz o chapéo na cabeça e tomou a palavra.
—Respeitaveis cidadãos, disse elle, está aberta a sessão.
Applausos freneticos e bem legitimos! Porque, se não era extraordinario que aquella sessão se abrisse, era-o o facto de ser aberta por Uncle Prudent, acompanhado de Phil Evans.
O presidente deixou o enthusiasmo expandir-se em clamores e palmas. Depois continuou:
—Na nossa ultima sessão, meus senhores, a discussão fôra muito viva (ouçam, ouçam!) entre os partidarios do helice na frente e do helice atraz, para o nosso balão, o Go a head. (Demonstrações de surpreza.) Ora, encontrámos meio de chegar a um accôrdo entre os afrentistas e os atrazistas, e esse meio é o seguinte:—é pôr dois helices, um em cada extremo da barquinha. (Silencio de completa estupefacção.)
E mais nada.
Era tudo! Do rapto do presidente e do secretario do Weldon-Institute, nem palavra! Nem palavra do Albatrós, nem do engenheiro Robur! Nem palavra da viagem! Nem palavra finalmente do que viera a ser da aeronave: se corria ainda através do espaço, se se podiam receiar novas represalias contra os membros do club!
Não faltava a todos esses balonistas o desejo de interrogarem Uncle Prudent e Phil Evans; mas viram-os tão serios, tão abotoados, que pareceu conveniente respeitar a sua attitude. Quando julgassem necessario falar, falariam e teriam muita honra em os ouvir.
No fim de contas, havia talvez n’aquelle mysterio algum segredo que não podia ainda ser divulgado.
E então Uncle Prudent, tomando de novo a palavra no meio do silencio, até então desconhecido nas sessões do Weldon-Institute:
—Meus senhores, disse elle, agora não falta senão concluir o aerostato Go a head, ao qual pertence fazer a conquista do ar.
Está levantada a sessão.
No dia 29 de abril do anno seguinte, sete mezes depois do regresso imprevisto de Uncle Prudent e de Phil Evans, toda a Philadelphia estava em movimento. A politica não entrava para cousa alguma d’esta vez. Não se tratava nem de eleições nem de meetings. O aerostato Go a head, concluido a expensas do Weldon-Institute, ia afinal tomar posse do seu elemento natural.
Tinha por aeronauta o celebre Harry W. Tinder, cujo nome foi pronunciado no principio d’esta narrativa,—e mais um ajudante.
Por passageiros, o presidente e o secretario do Weldon-Institute. Não mereciam elles uma tal honra? Não lhes competia vir protestar em pessoa contra todo o apparelho que se baseasse no principio do “Mais pesado que o ar„?
Comtudo, depois de sete mezes, elles não falavam ainda das suas aventuras. O proprio Fricollin, por mais vontade que tivesse, nada dissera do engenheiro Robur, nem da sua prodigiosa machina. Evidentemente, balonistas intransigentes como eram, Uncle Prudent e Phil Evans não queriam ouvir falar da aeronave ou de qualquer outro apparelho volante. Emquanto o balão Go a head não tivesse o primeiro logar entre os apparelhos de locomoção aerea, nada queriam admittir das invenções devidas aos aviadores. Acreditavam ainda, e queriam continuar a acreditar, que o verdadeiro vehiculo atmospherico era o aerostato e que só a elle pertencia o futuro.
Além de que, esse de quem haviam tirado uma tão grande vingança, na sua opinião, tão justa,—já não existia. Nenhum dos que o acompanhavam lhe podia sobreviver. O segredo do Albatrós estava agora sepultado nas profundezas do Pacifico.
Quanto a admittir que o engenheiro Robur tivesse um retiro, uma ilha onde descançar, no meio do vasto oceano, não passava de uma hypothese. Em todo o caso, os dois collegas reservavam-se para decidir mais tarde se não conviria fazer algumas pesquizas n’esse sentido.
Iam finalmente proceder a essa grande experiencia que o Weldon-Institute preparava de tão longa data e com tantos cuidados. O Go a head era o typo mais perfeito do que havia sido inventado até áquella épocha na arte aerostatica,—o que um Inflexivel ou um Formidavel é na arte naval.
O Go a head possuia todas as qualidades que um aerostato devia ter. O seu volume permittia-lhe subir até as ultimas alturas que um balão pode attingir; a sua impenetrabilidade permittia-lhe o poder manter-se indefinidamente na atmosphera; a sua solidez o arrostar com toda a dilatação de gaz, como tambem com as violencias da chuva e do vento; a sua capacidade, o dispôr de uma fôrça ascencional assaz consideravel para aguentar, com todos os seus accessorios, um machinismo electrico que devia communicar aos seus propulsores um poder de locomoção superior a tudo o que até então se tinha obtido. O Go a head tinha uma forma alongada que facilitava o seu deslocamento segundo a horisontal. A sua barquinha, plataforma pouco mais ou menos semelhante á do balão dos capitães Krebs e Renard, conduzia todos os utensilios necessarios aos aeronautas, instrumentos de physica, cabos, ancoras, guide ropes, etc., fora apparelhos, pilhas e accumuladores que constituiam o seu poder mechanico. Essa barquinha estava munida, na frente, de um helice e de um leme. Mas, provavelmente, a fôrça das machinas do Go a head devia ser inferior á dos apparelhos do Albatrós.
O Go a head tinha sido transportado, depois de cheio de ar, para a clareira do Fairmont Park, no proprio sitio onde a aeronave tinha pousado durante algumas horas.
Inutil é dizer que o seu poder ascensional lhe era fornecido pelo mais leve dos corpos gazosos. O gaz de illuminação não possue senão uma fôrça de setecentas grammas, proximamente, por metro cubico,—o que não dá senão uma insufficiente quebra de equilibrio com o ar ambiente. Mas o hydrogenio possue uma fôrça de ascensão que pode ser calculada em mil e cem grammas. Esse hydrogenio puro, preparado segundo os processos e apparelhos especiaes do celebre Henry Giffard, enchia o enorme balão. Portanto, já que a capacidade do Go a head media quarenta mil metros cubicos, a potencia ascensional do seu gaz era quarenta mil multiplicados por mil e cem, isto é, quarenta e quatro mil kilos.
N’essa manhã de 29 de abril tudo estava prestes. Desde as onze horas, o enorme aerostato balouçava a alguns pés do solo, prestes a subir ao ar.
Um tempo admiravel, como que expressamente feito para esta importante experiencia. Em summa, talvez mais valesse que a brisa fôsse mais forte, o que teria tornado a experiencia mais concludente. Com effeito, nunca se poz em duvida que um balão possa ser dirigido n’uma atmosphera calma; porém no meio de uma atmosphera em movimento, é outra cousa e é n’essas condições que as experiencias devem ser tentadas.
Emfim, não havia vento, nem apparencia de que se pudesse levantar. N’esse dia, por um caso extraordinario, a America do Norte não se dispunha a enviar á Europa occidental uma das boas tempestades que traz de reserva, e nunca se poderia ter escolhido um dia mais conveniente para uma experiencia aeronautica.
Será preciso falar na immensa multidão reunida no Fairmont-Park, nos trens numerosos que tinham trazido para a capital da Pensilvania os curiosos de todos os Estados circumvizinhos? na suspensão da vida industrial e commercial que permittia a todos virem assistir ao espectaculo: patrões, empregados, operarios, homens, mulheres, velhas, creanças, membros do Congresso, representantes do exercito, magistrados, reporters, indigenas brancos e negros, reunidos na vasta clareira? Será preciso descrever as emoções ruidosas da populaça, os movimentos inexplicaveis, os impetos subitaneos que tornavam a massa popular palpitante e tempestuosa?
Será preciso enumerar os hips! hips! hips! que rebentaram de toda a parte, como detonações de fogo de artificio, quando Uncle Prudent e Phil Evans appareceram na plataforma, por baixo do aerostato, embandeirado das côres americanas? Será preciso confessar finalmente que o maior numero de curiosos não tinha talvez vindo para vêr o Go a head, mas unicamente para contemplar esses dois homens extraordinarios que o Antigo Mundo enviava ao Novo?
Dois? e porque não tres? É que Fricollin entendia que a campanha do Albatrós bastava para a sua celebridade. Havia declinado a honra de acompanhar seu amo. Não teve portanto partilha nas acclamações freneticas que acolheram o presidente e o secretario do Weldon-Institute.
Escusado é dizer que, de todos os membros da illustre assembléa, nenhum faltou nos logares reservados, para dentro das cordas e postes que marcavam o recinto no meio da clareira. Lá estavam Truk Milnor, Bat T. Fyn, William T. Forbes, trazendo pelo braço as suas filhas, miss Doll e miss Mat. Tinham todos vindo affirmar pela sua presença que nada podia jámais separar os partidarios do “Mais ligeiro que o ar„.
O Go a head, seguro pelas suas cordas de rêde, subiu uns quinze metros acima da clareira. D’esse modo a plataforma dominava a multidão tão profundamente commovida. Uncle Prudent e Phil Evans, de pé, na frente, puzeram então a mão esquerda sobre o peito,—o que significava que o seu coração estava com todos os que se viam presentes. Depois, extenderam a mão direita para o zenith,—o que significava que o maior dos balões conhecidos até esse dia ia finalmente tomar posse dos dominios supra-terrestres.
Cem mil mãos se levaram então a cem mil peitos, e cem mil outras se ergueram ao céo.
Um terceiro tiro de peça se ouviu ás onze e trinta.
—Largue tudo! gritou Uncle Prudent, proferindo a formula sacramental.
E o Go a head subiu, “majestosamente„, adverbio consagrado pelo uso nas descripções aerostaticas.
Na realidade, era um espectaculo soberbo! Dir-se-hia um navio que acaba de deixar o seu estaleiro de construcção. E não era um navio, lançado no mar aereo?
O Go a head subiu seguindo uma rigorosa vertical, prova da tranquillidade absoluta da atmosphera, e parou a uma altura de duzentos e cincoenta metros.
Alli começaram as manobras de deslocamento horisontal. O Go a head, impellido pelos seus dois helices, foi em direcção ao sol com uma velocidade de uns dez metros por segundo. Era a velocidade de uma baleia, livre no meio das camadas liquidas. E não é fora de proposito comparal-o com o gigante dos mares boreaes, porque tinha tambem a forma d’esse enorme cetaceo.
Uma nova salva de hurrahs subiu até os habeis aeronautas. Depois, sob a acção do seu leme, o Go a head entregou-se a todas as evoluções circulares, obliquas, rectilineas, que a mão do timoneiro lhe imprimia. Girou n’um circulo restricto, avançou, recuou, de maneira a convencer os mais refractarios da direcção dos balões,—se houve algum!... Se os houvesse tel-os-hiam cortado em pedaços.
Mas porque havia de o vento faltar a essa magnifica experiencia? Era para lamentar. Teriam visto decerto, o Go a head executar, sem uma hesitação, todos os movimentos, quer obliquando como um navio de véla, quer cortando as correntes, como um navio a vapor.
N’esse momento o aerostato subiu no espaço alguns centos de metros.
Comprehenderam a manobra. Uncle Prudent e os seus companheiros iam tentar procurar uma corrente qualquer nas mais altas zonas, afim de completar a experiencia. Além d’isso, um systema de balõesinhos interiores, analogos ás bexigas natatorias dos peixes e onde se podia introduzir uma certa quantidade de ar, por meio de bombas, permittiam-lhe deslocar-se verticalmente. Sem deitar fora o lastro para subir, ou perder o gaz para descer, estava nos casos de se elevar ou abaixar-se na atmosphera, á vontade do aeronauta. Comtudo elle fôra munido de uma valvula no seu hemispherio superior, para o caso de ser obrigado a uma rapida descida. Era, em summa, a applicação de systemas já conhecidos, mas levados a um extremo grau de perfeição.
O Go a head subiu, pois, seguindo uma linha vertical. As suas enormes dimensões diminuiram gradualmente á vista, como por um effeito de optica. Não deixava isto de ser curioso para os espectadores, cujas vertebras do pescoço quasi se deslocavam, de olhar para o ar. A enorme baleia tornára-se a pouco e pouco um golphinho, emquanto não fôsse reduzida ao estado de um simples peixinho.
O movimento ascensional não cessava, e o Go a head attingia uma altitude de quatro mil metros. Mas n’um céo tão puro, sem uma sombra de nuvem, esteve constantemente visivel.
Comtudo elle mantinha-se por sobre a clareira, como se estivesse por fios divergentes. Tivesse uma enorme campanula aprisionado a atmosphera e não teria estado mais immovel. Nenhuma aragem, nem áquella altura nem a outra. O aerostato evolucionava sem encontrar resistencia alguma, diminuindo pela distancia, como se o estivessem a vêr por um lentesinha.
De repente, um grito se ergueu da turba, um grito seguido de cem mil outros. Todos os braços se extenderam para um ponto do horisonte. Esse ponto era para o noroéste.
Alli, no azul profundo, appareceu um corpo movel, que se approximava e crescia. Era uma ave, batendo as azas nas altas camadas do ar? Seria um bolide, cuja trajectoria cortava obliquamente a atmosphera? Em todo o caso, era dotado de uma velocidade excessiva, e não tardaria a passar por cima da multidão.
Uma suspeita, que se communica electricamente a todos os cerebros, corre por toda a clareira.
Mas parece que o Go a head viu aquelle extranho objecto. Decididamente, sentiu que um perigo o ameaçava, porque a sua velocidade augmentou, e dirigiu-se para léste.
Sim! a multidão comprehendêra! Um nome, foi repetido por cem mil bôcas:
—O Albatrós! o Albatrós!
É o Albatrós com effeito! É Robur que reapparece nas alturas do céo! É elle que, semelhante a uma gigantesca ave de rapina, ia cahir sobre o Go a head!
E no entretanto, nove mezes antes, a aeronave, espedaçada pela explosão, com os helices partidos, a sua plataforma em duas, fôra anniquilada. Sem o sangue frio prodigioso do engenheiro, que modificou o sentido giratorio do propulsor da frente e o transformou n’um helice suspensivo, todo o pessoal do Albatrós teria morrido asphyxiado pela rapidez da quéda. Mas, se tinham podido escapar á asphyxia, como é que elle e os seus se não tinham afogado nas aguas do Pacifico?
É que os destroços da sua plataforma, as azas dos propulsores, os tabiques dos beliches, tudo que ficára do Albatrós, sobrenadava. Se a ave ferida cahira na agua, as suas azas sustinham-n’a ainda sobre as ondas. Durante algumas horas, Robur e os seus homens ficaram primeiramente sobre esses destroços, depois, no barco de cautchuc que haviam encontrado á superficie do Oceano.
A Providencia, para os que acreditam na intervenção divina nas cousas humanas,—o acaso, para os que teem a fraqueza de não acreditar na Providencia,—veiu em auxilio dos naufragos.
Deu com elles um navio, algumas horas depois de romper o sol. Esse navio lançou uma embarcação ao mar. Recolheu não só Robur e os seus companheiros, mas tambem os restos fluctuantes da aeronave. O engenheiro contentou-se com dizer que o seu barco sossobrára n’um abalroamento, e o seu incognito foi respeitado.
O navio era inglez, o Two Friends, de Liverpool. Dirigia-se para Melbourno, onde chegou alguns dias depois.
Estavam na Australia, mas ainda longe da ilha X, á qual era preciso voltar o mais depressa possivel.
Nos destroços dos compartimentos de traz o engenheiro tinha podido encontrar uma somma assaz consideravel, que lhe permittia attender a todas as necessidades dos seus companheiros, sem pedir nada a ninguem.
Pouco tempo depois da sua chegada a Melbourno, fez acquisição de uma pequena golêta, de umas cem tonneladas, e foi assim que Robur, que era pratico no mar, voltou á ilha X.
E então não teve senão uma idéa fixa, uma obcecação:—o vingar-se. Mas para se vingar, era preciso fazer um segundo Albatrós. Facil tarefa, para quem já havia construido o primeiro. Utilisou-se o que se poude da antiga aeronave, os seus propulsores, entre outras cousas que tinham sido embarcadas com todos os destroços na golêta. Refizeram o mechanismo com pilhas novas e novos accumuladores. Em summa, em menos de oito mezes, todo o trabalho estava concluido, e um novo Albatrós, identico ao que a explosão destruíra, egualmente poderoso e egualmente rapido, esteve prompto a subir aos ares.
É facil de comprehender, sem que seja necessario insistir, que elle levava a mesma equipagem, e que essa equipagem estava furiosa contra todo o Weldon-Institute em geral, e em particular contra Uncle Prudent e Phil Evans.
O Albatrós deixou a ilha X logo nos primeiros dias de abril. Durante essa travessia aerea, não quiz que a sua passagem pudesse ser notada em ponto algum da terra. De modo que viajou quasi sempre entre as nuvens. Chegado á altura da America do Norte, a uma porção deserta do Far-West, pousou em terra. Alli o engenheiro, guardando o mais profundo incognito, soube um facto que lhe não podia deixar de dar o maior prazer:—é que o Weldon-Institute estava prestes a começar as suas experiencias, e que o Go a head, levando dentro Uncle Prudent e Phil Evans, ia partir de Philadelphia no dia 29 de abril.
Que excellente occasião para satisfazer uma vingança que estava no coração de Robur e de todos os seus! Vingança terrivel, a que não podia escapar o Go a head! Vingança publica, que provaria ao mesmo tempo a superioridade da aeronave sobre todos os aerostatos e outros apparelhos d’aquelle genero!
E ahi está porque n’esse dia, como um abutre que se precipita do alto, a aeronave appareceu por sobre Fairmont-Park.
Sim! era o Albatrós, facil de reconhecer, mesmo de todos aquelles que nunca o haviam visto.
O Go a head continuava a fugir. Mas comprehendeu logo que não podia escapar nunca por uma fuga horisontal. Assim, procurou salvar-se por uma fuga vertical, não approximando-se do solo, porque a aeronave lhe impediria immediatamente o caminho, mas subindo no ar, indo a uma zona onde não podia talvez ser alcançado. Era sobremaneira audacioso, porém ao mesmo tempo muito logico.
Comtudo o Albatrós começava a subir com elle. Bem mais pequeno que o Go a head, era como o espadarte em perseguição da baleia que pretende atravessar com o seu dardo, era o torpedeiro correndo sobre o couraçado que vae fazer saltar n’um prompto.
Viram-n’o perfeitamente, e com que afflicção! Em poucos instantes a aeronave teria attingido cinco mil metros de altura. O Albatrós tinha-o seguido no seu movimento ascensional. Evolucionava sobre os flancos. Cingia-o n’um circulo cujo raio diminuia a cada volta. Podia anniquilal-o de um pulo, rompendo o seu fragil envolucro. Então Uncle Prudent e os seus companheiros seriam despedaçados n’uma formidavel quéda.
O publico, mudo de horror, anhelante, estava tomado d’essa especie de espanto que opprime o peito, e nos prende as pernas, quando vemos cahir alguem de uma grande altura. Preparava-se um combate aereo, combate em que não se offereciam sequer as probabilidades de salvação que ha n’um combate naval,—o primeiro d’esse genero, mas que não seria o ultimo, decerto, visto que o progresso é uma das leis do mundo. E se o Go a head usava no seu circulo equatorial as côres americanas, o Albatrós tinha arvorado a sua bandeira, a bandeira estrellada, com o sol de ouro, de Robur—o Conquistador.
O Go a head quiz então tentar distanciar-se do seu inimigo, subindo ainda mais alto. Desembaraçou-se do lastro que tinha de reserva. Deu um novo salto de mil metros. Não era então mais que um ponto no espaço. O Albatrós, que continuava a seguil-o, imprimindo aos seus helices o seu maximo de rotação, tornára-se invisivel.
De subito, um grito de terror se ergueu do solo.
O Go a head engrossava a olhos vistos, emquanto que a aeronave tornava a apparecer, e baixando com elle. D’essa vez era quéda certa. O gaz, muito dilatado nas altas zonas, tinha rebentado o envolucro e, meio esvasiado, o balão cahia rapidamente.
Mas a aeronave, moderando os seus helices suspensivos, baixava com uma velocidade egual. Alcançou o Go a head quando este não estava senão a uns duzentos metros do chão, e approximou-se d’elle, bordo com bordo.
Quereria Robur dar cabo d’elle? Não! Queria soccorrer, queria salvar a sua equipagem!
E foi tal a habilidade da sua manobra, que o aeronauta e o seu ajudante puderam facilmente saltar para a plataforma da aeronave.
Iriam Uncle Prudent e Phil Evans recusar os auxilios de Robur, recusarem-se a ser salvos por elle? Eram bem capazes d’isso! Mas a gente do engenheiro lançou-se sobre elles e, á fôrça, passaram-n’os do Go a head para o Albatrós.
Depois a aeronave desembaraçou-se e ficou estacionaria, emquanto que o balão, completamente vasio de gaz, cahia sobre as arvores da clareira, onde ficou suspenso como um farrapo gigantesco.
Um horroroso silencio reinava em terra. Parecia que a vida ficára suspensa em todos os peitos. Muitos olhos se tinham fechado para não verem a suprema catastrophe.
Uncle Prudent e Phil Evans tinham-se porém tornado prisioneiros do engenheiro Robur.
Já que os havia apanhado, iria elle arrastal-os de novo no espaço, em sitio onde não fôsse possivel seguil-o?
Podia ser.
Comtudo, em vez de tornar a subir aos ares, o Albatrós continuava a baixar ao chão. Quereria elle vir pousar em terra?
Assim o pensaram, e a multidão afastou-se para lhe dar logar no meio da clareira.
A emoção tinha sido levada ao maximo da sua intensidade.
O Albatrós parou a dois metros da terra. Então, no meio de um profundo silencio, fez-se ouvir a voz do engenheiro.
—Cidadãos dos Estados Unidos, disse elle, o presidente e o secretario do Weldon-Institute estão de novo em meu poder. Conservando-os commigo eu não faria mais do que usar de um direito de represalia. Mas, pela paixão incendida na sua alma pelo exito do Albatrós, comprehendi que o seu estado de espirito não estava ainda preparado para a importante revolução que a conquista do ar deve produzir um dia. Uncle Prudent e Phil Evans, sois livres!
O presidente e o secretario do Weldon-Institute, o aeronauta e o seu ajudante, não tiveram mais que saltar, para estarem em terra.
O Albatrós subiu de novo a uns dez metros por sobre a multidão.
Depois, Robur, continuando:
—Cidadãos dos Estados Unidos, disse elle, a minha experiencia está feita; mas a minha opinião é que nada se deve realisar prematuramente:—nem mesmo o progresso. A sciencia não deve ultrapassar os costumes. O que lhe convem são evoluções e não revoluções. N’uma palavra, é preciso que não cheguemos senão á nossa hora propria. Eu chegaria hoje cedo de mais para ter razão no meio de interesses divididos e contradictorios. Portanto parto, e levo commigo o meu segredo. Mas não ficará perdido para a humanidade; pertencer-lhe-ha no dia em que fôr assaz instruida para tirar d’elle partido e assaz prudente para não abusar nunca d’elle. Adeus, cidadãos dos Estados Unidos, adeus!
E o Albatrós, ferindo o ar com os seus setenta e quatro helices, impellidos pelos seus dois propulsores levados até o extremo, desappareceu na direcção de léste, no meio de uma tempestade de hurrahs, que d’essa vez eram de admiração.
Os dois collegas, profundamente humilhados, como todo o Weldon-Institute na pessoa d’elles, fizeram a unica cousa que tinham a fazer:—voltaram para suas casas, emquanto que a multidão, por um reviramento subito, estava prestes a saudal-os com os mais vivos sarcasmos, justos n’aquella occasião!
E agora, sempre esta pergunta:—Quem é este Robur? Virão um dia a sabel-o?
Sabe-se hoje. Robur é a sciencia futura, a de ámanhã talvez. É o peculio certo do futuro.
Quanto ao Albatrós, continuará a viajar ainda através da atmosphera terrestre, no meio d’esse dominio que ninguem lhe pode roubar? Não é permittido duvidar. Robur, o Conquistador, tornará a apparecer um dia, como annunciou? Sim! Virá denunciar o segredo de uma invenção que pode modificar as condições sociaes e politicas do mundo.
Quanto ao futuro da locomoção aerea, pertence á aeronave, e não ao aerostato.
É aos Albatrós que está definitivamente reservada a conquista do ar!
FIM