Ao mesmo tempo, porém, que altamente nos pronunciamos contra os individuos que praticaram tão grande crime, temos obrigação de declarar em testemunho á verdade que na sociedade dos «divodignos» não se decidiu nem se tratou da morte dos membros das deputações.
Joaquim Martins de Carvalho—«Apontamentos para a historia contemporanea.»
Os primeiros actos de D. Miguel como regente, conjugados com o enthusiasmo popular que o saudava como rei, deram rebate nos arraiaes do constitucionalismo, causaram uma anciosa desconfiança nos espiritos mais exaltados.
Entre as sociedades secretas de Coimbra avultava a dos Divodignos, que funccionava na rua do Loureiro, junto ao Arco de D. Jacinta, e que na sua maior parte era constituida por estudantes.
José Maximo, disputado por todos esses clubs revolucionarios, a todos pertencia, e não poucas vezes teve de arriscar a sua influencia pessoal para conter os animos fogosos dos confrades e evitar inuteis desatinos de paixão politica.
A chegada de D. Miguel, os seus primeiros actos como chefe do estado e as manifestações calorosas com que a opinião publica o recebêra, atiçaram a indignação das sociedades secretas de Coimbra, onde todas as noites eram proferidos discursos violentos e gizados planos audaciosos.
Os lentes absolutistas, a cujos ouvidos chegavam os eccos ameaçadores dos clubs maçonicos, tratavam, por sua parte, de cortar os vôos aos estudantes demagogos, como elles os classificavam.
Assim pois, sob pretexto de dar as boas-vindas a D. Miguel, resolveram, de accôrdo com o cabido, enviar deputações a Lisboa.
Mas logo correu entre os estudantes que a fim occulto da jornada dos cathedraticos era apresentar a D. Miguel uma relação dos academicos liberaes, que deviam ser riscados e perseguidos.
Reuniram-se immediatamente todas as sociedades secretas para tratar do assumpto.
José Maximo entendeu dever assistir, de preferencia, á sessão dos Divodignos, por ser o club mais ardente e numeroso, portanto aquelle que offerecia maior perigo de desvairamento.
Accrescia tambem uma circumstancia especial para inquietar o espirito de José Maximo com relação á assemblea dos Divodignos.
Antonio Maria das Neves Carneiro, seu patricio e amigo, então alumno do segundo anno de mathematica, era não só um dos academicos liberaes mais exaltados, mas tambem inimigo pessoal de um dos lentes da deputação.
Ora se taes motivos o faziam temido e perigoso, na materia que se ventilava, ninguem melhor do que José Maximo podia dispôr de auctoridade bastante a reprimil-o e contel-o.
Portanto, de combinação com o sextanista da faculdade de leis, Francisco Cesario Rodrigues Moacho, que era o presidente da sociedade dos Divodignos, José Maximo, então no seu quinto anno, concorreu á sessão de animo feito para abafar as tempestades de colera, que certamente esbravejariam na bôca de Antonio Maria.
Como se esperava, foi este estudante que apresentou e arrebatadamente sustentou uma proposta incendiaria, cuja summula se cifrava em que uma delegação dos Divodignos fosse arrancar das mãos dos lentes, no caminho, não só as felicitações de que eram portadores, mas tambem, e principalmente, a lista das proscripções academicas.
José Maximo combateu tenazmente a proposta.
—De que servirá, perguntava elle, apprehendermos os papeis que nos denunciam culpados, se esses papeis podem ser facilmente substituidos por outros, com a circumstancia aggravante para nós de havermos violentamente inutilisado os primeiros? Pensais, acaso, que a deputação se não defenderá á mão armada contra a nossa investida? O que irá, pois, fazer a commissão dos Divodignos? Matar ou morrer: eis o triste dilemma, a deploravel consequencia a que forçosamente havemos de chegar.
—Terás tu mêdo pela primeira vez na tua vida? atalhou ironicamente Antonio Maria. Se tens mêdo, fica.
A assembléa não applaudiu a ironia, mas, fanatisada pela eloquencia do violento orador não a castigou com o menor signal de reprovação.
José Maximo, a quem a popularidade faltára n’esse momento, como sempre tem acontecido aos chefes politicos, por mais adorados que hajam sido, ficou profundamente maguado com o áparte ironico de Antonio Maria. Ter mêdo, elle! Nunca o tivera; não o teria jámais. Tantos annos de prestigio estavam a pique de ser prejudicados por uma simples phrase. Repelliu-a, pois.
—A minha lealdade, exclamou elle com grande vehemencia, obrigou-me a mostrar-vos os perigos da empreza; mas o meu brio pessoal, injustamente aggredido, obriga-me tambem a dizer-vos que, aconteça o que acontecer, estou prompto a acompanhar-vos.
Estas palavras causaram um movimento de applauso na assembléa.
José Maximo sahiu d’ali rehabilitado, mas triste, apprehensivo.
A deputação mixta da universidade e do cabido partiu de Coimbra na tarde do dia 17 de março.
Á noite, depois das dez horas, partiram por sua vez os estudantes.
Antonio Maria, alma d’aquella empreza, tratou de evitar que não faltasse nenhum dos que para desempenhal-a se tinham offerecido. Á ultima hora, o estudante Urbano de Figueiredo parecia arrependido, pretextou ter muito que estudar para se habilitar a fazer acto. Antonio Maria replicou offerecendo-se para leccional-o, e allegando que seria apenas ida por volta.
José Maximo partira só, pensativo, contrariado por um presentimento doloroso.
Davam onze horas na Sé quando Antonio Maria sahia pela estrada de Lisboa, acompanhado do estudante Domingos Joaquim dos Reis. Ambos levavam espingardas, para justificar o disfarce de uma supposta caçada na Arrifana.
Antonio Maria vestia esse celebre fato, que tanto o havia de comprometter depois: fardêta de saragoça prêta, á caçadora, calças brancas, chapeu redondo de copa alta; dois punhaes no cinto.
A deputação dos lentes e dos conegos foi pernoitar a Condeixa.
Os estudantes chegaram por alta noite á quinta do Freitas, proximo á villa, e ahi esperaram que amanhecesse.
Nenhum d’elles sentia cansaço nem somno: e José Maximo menos que nenhum. Estava inquieto.
—Somos treze! pensava attribulado, n’uma torturada excitação nervosa.
Notára que os companheiros levavam armas de munição, com cartuxos embalados, e punhaes. O aspecto d’este arsenal ambulante confrangera-o.
—Tu não vens armado? perguntou-lhe Antonio Maria.
—Não pensei n’isso, respondeu José Maximo. Não venho para matar.
—Mas, segundo o teu famoso dilemma, podes vir para morrer. Péga sempre um punhal para te defenderes, se fôr preciso.
Isto disse Antonio Maria tirando do cinto um dos dois punhaes e dando-o a José Maximo, que o recebeu com indifferença.
Aos primeiros alvores da manhã, os estudantes sahiram da quinta para antecipar-se á passagem dos lentes.
José Maximo lembrou-se de que esse dia era uma terça feira, e esta ideia mais contribuiu para inquietar o seu espirito propenso a superstições.
Chegando ao Cartaxinho, uma legua ao sul de Condeixa, os estudantes fizeram alto. Tapadas as caras com lenços, esperaram emboscados.
Das sete para as oito horas da manhã, avistaram quatro caléças, ladeadas por cavalleiros, e acompanhadas por gente de pé.
Na primeira caléça ia o deão Antonio de Brito e Castro com um criado, e outro á estribeira; na segunda, o conego Pedro Falcão Cotta e Menezes com um sobrinho, e outro a cavallo; na terceira o doutor Matheus de Sousa Coutinho, lente de canones, com o doutor Jeronymo Joaquim de Figueiredo, lente de medicina, acompanhando-os a cavallo José Candido, sobrinho do doutor Matheus; na quarta ia o doutor Antonio José das Neves e Mello, lente de philosophia, com um filho, já bacharel. Seguia-se a cavallo o official da imprensa da universidade, Francisco de Assis e Mattos. Fechava a comitiva a récova das bestas de carga, que os arrieiros e criados acompanhavam a passo.
Quando a deputação se aproximou, os estudantes correram sobre ella, investindo com as armas engatilhadas.
Os primeiros a avançar foram Antonio Maria e José Maximo, ambos por differente motivo: o primeiro, por não poder conter a sua impaciencia; o segundo, para não parecer cobarde.
Fizeram apeiar os viajantes, e obrigaram-n’os a subir uma collina, protegida por um vasto pinhal, a léste da estrada. Ahi retiveram os caleceiros, arrieiros e criados, emquanto os lentes e demais pessoas eram conduzidos para uma baixa, a maior distancia, sitio sombrio e solitario.
Escoltados uns e outros, foram os criados e arrieiros intimados a ir buscar todas as cargas, malas e bahús para junto do pinhal.
Obedeceram. E os estudantes revistaram as bagagens, apprehendendo os papeis e valores que ellas continham.
José Maximo, immovel, não tocou nas bagagens; nem olhava para ellas.
Era tamanho o terror dos assaltados, que nenhum d’elles ouzava resistir.
Derrubada e manietada com cordas a criadagem, voltaram-se as attenções dos academicos para o pessoal superior da caravana.
Uma voz perguntou:
—Devem tambem ser amarrados?
—Não! gritou José Maximo.
Mas outra voz replicou com azedume:
—Devem ser seguros a punhal e tiro.
E logo explodiram trez descargas á queima-roupa, fulminantes. O doutor Matheus e o doutor Figueiredo cahiram varados instantaneamente.
O instincto de conservação sobrelevou então a surpreza, o terror dos restantes assaltados, que travaram desesperada lucta com os assaltantes.
Fôra medonha a carnificina, successivas as descargas, e os golpes de punhal.
Os dois membros do cabido conimbricense, o deão e o conego, defendiam-se com valoroso desespero.
Por isso o grosso do bando academico convergiu sobre os dois: o deão recebeu vinte e sete ferimentos, feitos com quartos, alguns grãos de chumbo e punhal triangular; o conego foi alcançado vinte vezes pelas armas dos Divodignos.
José Maximo, n’uma allucinação de intrepidez, cobria com o seu vulto o corpo do doutor Neves, para livral-o da morte, e ao mesmo tempo furtava-se aos golpes com que era atacado, por supporem alguns dos da deputação que elle disputava esse lente como prêsa em que quizesse cevar-se.
A sangrentissima lucta foi presenceada, do alto de um outeiro, por uma mulher da Venda Nova, que principiou a gritar.
Como era dia de mercado em Condeixa, passava gente, boieiros e lavradores, que logo acudiu. O povo corria, vozeando, na direcção do logar do conflicto.
Os estudantes, vendo-se ameaçados de perto, trataram de fugir, mas como casualmente transitasse pela estrada real o general da Beira Alta, Agostinho Luiz da Fonseca, acompanhado pelo filho e escoltado por alguns soldados de cavallaria, foram perseguidos pelos soldados e povo.
Nove dos academicos cahiram, não sem alguma resistencia, em poder dos seus perseguidores. Nenhum d’elles era José Maximo. O povo e a cavallaria, com o general á frente, bateram em todas as direcções os arredores do Cartaxinho, procurando os outros quatro estudantes, que não poderam ser encontrados.
Os presos foram recolhidos á cadeia de Condeixa, e vigiados por uma enorme multidão, que a todo o momento ameaçava linchal-os. O mercado da villa e as granjas mais proximas tinham-se despovoado completamente, logo que soou a noticia d’essa horrorosa tragedia.
O general Fonseca, reconhecendo que não era possivel encontrar os quatro fugitivos, mandou para junto da cadeia alguns soldados da sua escolta, a fim de conterem o povo, e enviou uma ordenança a Coimbra, a pedir o immediato auxilio de uma força de caçadores, que aliás não se fez esperar.
José Maximo da Fonseca fugiu só, como tinha sahido de Coimbra.
Foi correndo n’uma carreira cega, desesperada. Por muito tempo ainda ouviu o clamor do povo, que perseguia os fugitivos.
Depois, como a distancia augmentasse, rodeiava-o apenas o grande silencio de montanhas, que elle não conhecia. Corria sem destino, evitando sempre as povoações, e obliquando instinctivamente para éste como a procurar salvação na fronteira de Hespanha.
Exhausto, arquejante, faminto, com os pés golpeados escorrendo sangue, anoiteceu-lhe n’um pinheiral cerrado. O cansaço vencera-o.
Atirou-se para o chão. Pouco lhe importaria n’aquelle momento que o encontrassem e prendessem.
Mas devia estar já muito longe de Condeixa, comquanto não soubesse onde estava.
Estendera-se sobre a terra dura, eriçada de cardos, especie de leito de Procusto, mas as dores da alma sobrepujavam, n’aquella hora tremenda, as dores do corpo.
Deitado de recovo, não podia adormecer, apesar de extenuado. Pensava, começava a fazer-se-lhe nitida a desesperada situação, que o destino lhe preparára.
Todos os trabalhos da sua revôlta existencia desfilavam n’um cortejo funebre, redivivos por uma grande lucidez de memoria, e a imagem de Anna de Vasconcellos, triste e lacrimosa, n’uma angustia abafada, sem blasphemias e desesperos, apparecia como no topo de um Calvario ideial, ao lado de outra mulher, que suspirava n’um anceio profundo, como o do naufrago que respira a custo. Esta mulher conhecia-a José Maximo, divisava-lhe as feições, via-a como se estivesse ali presente: era sua mãe. E entre elle e ellas estava um abysmo sombrio e vasto como o fundo do mar. Era a eternidade, o «nunca mais», o impossivel, a morte em nome da lei, mais hoje ou mais ámanhã, em qualquer parte, por denuncia, perseguição, ou acaso.
A noite estava escura. O rumor dos campos dezertos, esse sussurro, vago e confuso, que parece ser a respiração da terra adormecida zumbia-lhe aos ouvidos, aturdia-lhe o cerebro como o revolutear de um vespeiro. De espaço a espaço a aragem ullulava na rama dos pinheiros imitando os gemidos de alguem que devia estar chorando ali perto...
Eram ellas, as duas mulheres queridas, acorrentadas em espirito ao seu infortunio inexcedivel.
José Maximo só a si proprio accusava da sua desgraça. Deus avisara-o, por muitas bôcas e por muitos prenuncios, mas elle não lhes déra ouvidos, nem mesmo ás meigas supplicas de Anna de Vasconcellos. A cantiga que fallava da faya, a folha do trevo, o numero 13, a coincidencia da terça feira tinham sido, de certo, pensava elle, outros tantos avisos, que despresára. Despenhára-se voluntariamente, e, no fundo do abysmo, sentia-se abandonado de Deus, que não podia absolvel-o depois de o ter avisado.
A fadiga fizera-lhe perder a consciencia de si mesmo. Cahira n’uma somnolencia povoada de visões sinistras, cortada de sobresaltos e convulsões, de gemidos angustiosos.
Como se fosse accordado por surpresa, abriu os olhos cheio de afflicção, circumvagou um olhar espavorido, attentando nos pinheiros que no primeiro momento lhe pareceram outros tantos aguazis gigantes, que o tivessem cercado durante o somno.
Vinha rompendo a manhã.
Levantou-se a custo, estonteado por vertigens, que o cegavam. Sentia fogo no cérebro. Palpou a fronte, que escaldava.
Forcejou por caminhar, fugir. Durante meia hora arrastou-se a passos incertos, agarrando-se por vezes ás urzes do caminho para não cahir ao chão.
A região montanhosa da Beira Baixa devia denunciar-se já na corda sinuosa dos montes, no relevo macisso das serras.
Mas José Maximo não via, não podia olhar fito. Os olhos fechavam-se-lhe n’uma languidez nublosa, vidrada.
Iria cahir prostrado por um grande desfallecimento, quando avistou um pastor, sentado no alto de um rochedo.
Acenou-lhe com a mão, chamou-o. Depois sentou-se, recostou, exanime, a cabeça.
O pastor, vendo-o desfallecido, ergueu-o ao hombro, levou-o para junto dos penedos, que davam sombra a um trecho do monte. Deitou-o ahi.
José Maximo dormiu longas horas. Quando ao fim da tarde accordou, tinha sêde. Bebeu agua da cabaça do pastor. Reanimou-se. Sentia-se fatigado, mas a febre tinha diminuido.
Encarando então no perfil duro das montanhas, que se desenhavam ao longe, perguntou ao pastor que serra era aquella.
—É a Gardunha, senhor.
José Maximo ficou espantado. Não tinha reconhecido essa longa serra, que é uma ramificação do Herminio, e que se ergue alterosa no Fundão, sua patria.
Obedecendo á suggestão inevitavel que a terra natal exerce sobre os criminosos, foi caminhando na direcção d’essa serra longinqua sem comtudo querer demandar o Fundão, onde tinha uma familia que perdêra.
Comeu o pão negro e umas azeitonas, que lhe tinha dado o pastor. E ganhou forças para andar durante quasi toda a noite.
Quando amanheceu o dia 20 de março, emboscou-se n’um pinhal, para descançar, e para evitar a luz do dia.
O sol, ascendendo n’uma serena effusão de luz, dava-lhe o desespero que sentem as almas attribuladas quando se defrontam com a paz eterna da natureza, insensibilidade ou despreso, que justifica a eternidade da creação. Se ella compartisse das nossas dôres quotidianas, acabaria por soffrer e envelhecer como nós mesmos.
Passou ahi todo o dia pensando na sua desgraça irremediavel. Parecia-lhe que a visão de Anna de Vasconcellos ficava já a uma distancia infinita, insuperavel, mas como que sentia bater mais perto o coração de sua mãe.
Quando anoiteceu, poz-se de novo a caminho, sem saber ao certo para onde.
Ao romper da manhã do dia 21 tornou a esconder-se. Ao fim da tarde, seguiu jornada. Teria andado meia legua, quando sentiu a certa distancia o trote pesado de um cavallo. Saltou da estrada para o monte, e poz se á espreita, agachado.
Viu que o cavalleiro trazia calças brancas e chapeu redondo de copa alta. Lembrou-se de ter visto alguem assim vestido, havia pouco tempo. Continuou a espreitar, e reconheceu Antonio Maria. Levantou-se. O fugitivo, que cuidadosamente vinha olhando a um e outro lado da estrada, viu-o logo. Reconheceu-o tambem. A surpresa dos dois foi igual.
—Como ficaste tu para traz?! perguntou José Maximo.
Antonio Maria parou o cavallo, depois de se ter certificado bem de que não era seguido. Contou que tinha ficado escondido na quinta do Freitas, d’onde sahira no dia anterior, já de noite, acompanhado até ao romper da manhã por um guia. Historiou como perdêra no pinhal de Palha Canna a sua fardeta, que levava ao hombro quando fugia, os seus papeis, o punhal, e a bolsa de coiro, e como esses objectos poderam ser encontrados por dois homens, que dedicadamente o haviam protegido.
—Para onde vais tu? perguntou-lhe José Maximo.
—Para o Fundão. E tu?
—Eu sei lá para onde vou?! Tu tens familia no Fundão, mas eu posso dizer que a não tenho já.
Insistiu Antonio Maria para que montasse com elle no mesmo cavallo.
—Vais derreado. Anda comigo, que este cavallo poderá por emquanto com nós ambos.
Fraca resistencia oppoz José Maximo. Aquelles dois homens eram attraidos pela mesma suggestão.
Em caminho, não trocaram uma unica palavra sobre os acontecimentos do dia 18. José Maximo evitou esse doloroso assumpto, causa da sua desgraça. Que differença entre José Maximo e os estudantes presos, que a essa mesma hora, na cadeia de Coimbra, onde tinham entrado no dia 19, só lembravam o nome de Antonio Maria para o amaldiçoar!
—Malvado homem, que nos metteu n’isto! diziam elles carpindo a sua propria desgraça.
Seriam dez horas da noite, quando chegaram ao Paul. Viram a cabana solitaria de um cantoneiro.
—Precisamos descançar aqui algum tempo. Se não fôr assim, disse Antonio Maria, o cavallo acabará por negar se. Vamos bater á porta.
Bateram. O cantoneiro perguntou quem era. Responderam que dois rapazes do Fundão, que pediam pousada. O cantoneiro, a quem aquella voz não pareceu extranha, accendeu a candeia, pendurou-a, e veio abrir.
—Aqui tens o nosso cavallo em penhor da nossa boa fé, disse Antonio Maria entregando-lh’o.
—Vou desapparelhal-o, respondeu o cantoneiro, e amarral-o áquelle pinheiro acolá.
—Não, replicou Antonio Maria, deixa-o estar sellado, mas dá-lhe umas sopas de vinho, se podes.
O cantoneiro foi preparar as sopas. Quando entrou, fez maior reparo nos dois viajantes, que já estavam deitados sobre uns molhos de palha sêcca, ao lado de um caldeireiro ambulante, profundamente adormecido.
A cabana do cantoneiro era um albergue de viajantes miseraveis.
—Mas não me engano! apostrophou elle, pegando na candêa, e elevando-a á altura dos olhos. Vocês são...
Antonio Maria poz sobre o nariz o dedo indicador da mão direita, intimando silencio.
Pouco depois da meia noite, José Maximo, que não pudera adormecer, rastejou sobre a palha para accordar Antonio Maria e o cantoneiro.
Sahiram os trez a desamarrar o cavallo.
—Aconteceu-nos uma grande desgraça, disse Antonio Maria ao cantoneiro. Não nos denuncies.
E, descalçando um dos sapatos, tirou d’elle dinheiro em papel,—um papel humedecido e rôto.
—Isso chega, disse José Maximo ao cantoneiro, para repartires com o caldeireiro o que elle entender que vale a sua ferramenta, porque a vou levar comigo. Dás licença, Antonio? Eu não trago dinheiro.
—Trago eu. Mas para que queres tu uma tão incommoda bagagem? observou Antonio Maria.
José Maximo não respondeu.
O cantoneiro prometteu guardar silencio: lembrou que conhecia os dois desde pequenos, e que por caso algum quereria perdel-os, visto ter-lhes acontecido uma grande desgraça.
Os dois estudantes montaram a cavallo. Partiram.
Pelo caminho Antonio Maria tornou a perguntar a José Maximo para que levava elle os utensilios do caldeireiro, que eram pesados e o embaraçavam.
—É porque tu, no Fundão, tens familia, que te proteja, e eu não tenho. Seguirei logo para Hespanha, feito caldeireiro ambulante.
Entrando ainda de noite no Fundão, foram bater á porta da familia de Antonio Maria, cujo pae, medico do partido ali, ouviu com dolorosa attenção a narrativa da desgraça do filho, sem todavia o repellir.
Combinou-se que ambos fossem ficar, por cautella, a casa de uma visinha, e que ambos seguiriam depois para Hespanha, cada um por caminho differente.
—Eu acompanhar-te-hei para guiar-te, disse amoravelmente o pae de Antonio Maria ao filho.
—Só eu não tenho quem me guie! pensou José Maximo.
E, n’um relance de pungentissima angustia, disse, muito commovido, ao medico:
—Vossa Senhoria vae fazer-me decerto o ultimo favor que tenho a pedir-lhe. Diga a minha mãe, sem que meu pae o suspeite, que fujo para Hespanha, e que esteja á janella logo que nasça o sol. Quero vel-a pela ultima vez.
O pae de Antonio Maria sahiu immediatamente.
Ao romper da manhã José Maximo passou, de ferramenta ao hombro, por deante da casa em que nascêra.
A mãe, immovel d’encontro ao peitoril, viu o filho, e cahiu desamparada no chão.
José Maximo ouviu o baque do corpo, e quiz abrir a porta da sua casa, entrar.
Mas, sentindo n’esse instante a voz sobresaltada do pae, deitou a fugir.
N’uma posada da fronteira, amarrou uma faixa sobre os olhos, deitou polvora no fundo de um prato, incendiou-a, e inclinou o rosto sobre a chamma.
Queimou as faces para desfigurar-se.
—Do homem que eu fui e que não posso tornar a ser, disse elle comsigo mesmo, nada mais restará do que a consciencia da propria desgraça. Se minha pobre mãe e Anninhas forem obrigadas a vêr a minha cabeça pendurada da forca, não me reconhecerão ao menos, duvidarão de que seja eu...
E, pegando d’um canivete, retalhou com fundos golpes, estoicamente, as faces crestadas.
Depois internou se na Extremadura hespanhola.