O odio e a vingança de inimigos pessoaes punham um innocente a dois passos do patibulo ou ensinavam-lhe o caminho dos presidios africanos

Latino Coelho—«Elogios academicos» tom I.

A cadea da Villa da Feira subsiste ainda hoje tal como era no tempo em que ali esteve preso frei Simão de Vasconcellos.

Fica na Praça, a meio da qual se levantava então o pelourinho, agora substituido pelo chafariz, que pertencêra ao convento dos Loyos.

A cadea, certamente construida no seculo passado, é um casarão de dois andares, não contando as janellas lateraes á dupla escada de pedra, que dá accesso ao edificio.

Em cada andar, quatro janellas por banda, gradeadas de ferro. O ultimo tem a meio o sino, e nivela-se com o predio contiguo, de que era então proprietario o irmão do conde das Antas[3].

A cellula que frei Simão occupou era a do ultimo andar, encostada ao predio visinho. Tinha, como as outras, um forte tecto de castanho, e solidas paredes.

No dia da chegada do frade, toda a população da Villa da Feira se alvoroçou e reuniu na Praça para o vêr. Comquanto fosse rara a semana em que não entrasse na cadeia um preso absolutista, a lenda que se fizera em torno do nome de frei Simão de Vasconcellos excitava vivamente a curiosidade, dando ao facto da sua prisão um interesse excepcional.

Toda a gente desejava vêr esse destemido frade, que tanto custára a cahir no laço, e do qual se contavam proezas de extraordinario valor.

A população reuniu-se não só na Praça, em frente da cadeia, mas ainda se espraiava em grupos pela estrada de Cezár, até grande distancia.

O aspecto da multidão, na Praça, chegava a ser pittoresco, posto que nos trajes das mulheres e dos homens uma côr unica predominasse,—o vermelho, côr garridamente festiva e, n’aquella occasião, triumphal. Era a côr symbolica do absolutismo, adoptada nos lenços das mulheres e nas gravatas e topes dos homens.

O dia estava magnifico de sol, a primavera aquecia, illuminava a encosta viridente do Castello, que desde a Praça se avistava pela embocadura da rua Direita, como um bello panno de fundo. O alcáçar moirisco, todo afogado em héra, recortava sobre a frondosa matta, que o rodea, as suas quatro torres, de corucheos pyramidaes, muito elegantes, rematados em tulipas de granito.

Nos grupos fallava-se a respeito de frei Simão e, comquanto se fizesse justiça ao seu valor, a impressão geral era d’alegria, por ter cahido nas garras da justiça um tão perigoso absolutista, que, além de preso, estava gravemente ferido, isto é, inutilisado.

—Vocês, dizia, no seu grupo, um popular, conhecem o Ignacio Brandão, de Roussas?

—Muito bem!

—Pois o frade sempre era homem, que lhe metteu medo! Haverá agora trez semanas, passava o frade em Santa Marinha, uma legua de Arouca, pouco mais ou menos. Ahi vem o frade! disse o Brandão vendo-o a pequena distancia. E metteu a arma á cara, para lhe atirar.—Sou eu, respondeu o frade; atira. Pois não atiraste! Sabem vocês o que fez o Brandão? Largou a arma, e deitou a fugir!

—E em S. João da Madeira o que aconteceu com os homens que andavam na segada! dizia outro popular.

—E quando elle foi a Macieira de Cambra, sósinho, bater n’um homem! accrescentava ainda um terceiro popular.

—O frade tinha o diabo no corpo, Deus me perdõe! exclamava uma mulher.

—Tinha, mas foi apanhado, com uma chumbada na aza: é passaro que já não foge, apesar de bisnau.

—Quem avisou agora o commandante do destacamento, de que elle estava com certeza na casa do Outeiro, foram as cunhadas do Jorge e o Canedo de Vermelhinho.

—Ora adeus! quem lhe preparou bem o laço foi o Ignacio da Fonseca.

—Olha! lá vem a madama, com uma bilha d’agua na mão. É para o quarto do frade, certamente.

Referiam-se a madame Cadillon, mulher do carcereiro, Francisco Antonio das Neves, o da Travessa. Era uma franceza, que tinha ido para a Villa como criada de um juiz de fóra, e que depois casára com o carcereiro, estabelecendo no Rocio uma estalagem.

Effectivamente madame Cadillon tinha sido encarregada, pela familia do Outeiro, de mobilar o quarto de frei Simão, não se poupando a despezas.

Quando o carro que conduzia o frade appareceu no topo da estrada de Cezár, toda a multidão se condensou em tropel para esperal-o na passagem.

O carro vinha coberto, de modo que frei Simão só poude ser visto na occasião de o tirarem em braços á porta da cadeia.

—O homem vem por um fio! commentava-se.

—Parece moribundo! Este já não chega a ir á forca...

—Elle vem tão mal, que trouxe o medico comsigo!

—E uma das irmãs para enfermeira! Olha! lá vae ella a subir agora as escadas.

Effectivamente, o estado de frei Simão continuava a ser muito grave.

Logo que elle chegou á cadeia, o doutor Corrêa Ribeiro mandou chamar o cirurgião Soares de Albergaria para conferenciarem sobre o tratamento a seguir.

Combinou-se que, passados alguns dias de repouso, se sondasse a ferida com o estilête, o que até ali não tinha sido possivel fazer pelo receio de avivar a hemorrhagia.

D. Maria Albina ficou na Villa, hospedada na estalagem da Franceza, para assistir ao curativo do irmão, uma vez por dia, o que o doutor Correia Ribeiro pudera conseguir, por o julgar indispensavel, segundo requerêra e attestára.

Na casa do Outeiro passava-se, na ausencia de frei Simão e de D. Maria Albina, uma vida solitaria e triste, sempre alvoroçada pelo receio de provaveis aggressões e perseguições.

Os visinhos estavam victoriosos, triumphantes. Todas as vantagens da occasião eram d’elles. Não se sabia quando frei Simão poderia recuperar a liberdade, nem mesmo se chegaria a recuperal-a. O futuro era, para aquella familia, uma duvida atroz.

D. Anna e D. Antonia não sahiam de casa, nem fallavam com qualquer pessoa extranha. Francisco Marques cumpria pontualmente as ordens de frei Simão. Como um Cerbéro, um cão de guarda, vigiava, noite e dia, as duas senhoras que lhe haviam sido entregues. Sempre receioso de alguma investida dos visinhos, dormia sobre uma esteira, com uma escopeta á mão, no corredor sobre o qual abriam as portas dos quartos interiores.

Os outros criados tambem não se deitavam nunca sem primeiro ter verificado a segurança das fechaduras e ferrôlhos, e se as espingardas, sempre carregadas, estavam no seu logar.

Anninhas era a mais triste e apprehensiva das pessoas da casa. Comquanto continuasse a ignorar a desgraça de José Maximo, inquietava-se com a falta de noticias de Coimbra.

Sentia-se fatigada, tinha de interromper muitas vezes a costura por lassidão nos braços. Lastimava-se. Perdêra o apetite e o somno.

O Marques ouvia os queixumes da «sua querida menina» e dizia-lhe, por serenal-a, que sabendo naturalmente o sr. José Maximo o que tinha acontecido a frei Simão, não quereria escrever para o Outeiro na ausencia do chefe da familia, porque o fazel-o poderia parecer abuso de confiança ou falta de respeito.

Ella ouvia-o melancolica, mas as palavras d’esse bom amigo não conseguiam apagar as suas apprehensões e duvidas, por igual inquietadoras.

Um dia, pela manhã, a familia do Outeiro foi surprehendida por um agudissimo grito, de uma expressão de dôr dilacerante, que partira do quarto de D. Anna.

Todas as pessoas da casa acudiram espavoridas, e foram encontral-a de pé, com o braço direito agitado por um tremor nervoso, os dedos da mão justapostos e ligeiramente curvos, a cabeça pendida mas firme, o olhar cadente e spasmodico, a physionomia paralysada n’uma immobilidade de estatua.

No chão, a pequena distancia, viram um papel aberto. Apanharam-n’o, e leram-n’o.

A lettra e a orthographia revelavam um disfarce grosseiro. O texto do papel dizia:

«José Maximo foi um dos estudantes de Coimbra que mataram os lentes em Condeixa. Anda fugido e a sua cabeça vale muito dinheiro a quem o entregar morto ou vivo. Se não sabiam esta grande novidade ficam-n’a sabendo agora, para seu regalo, porque foi essa maldita raça de pedreiros-livres do Outeiro que o perdeu. Lá se foi um casamento pela agua abaixo. Deus escreve direito por linhas tortas.»

Tratou-se de averiguar como esse papel fôra parar ás mãos de D. Anna de Vasconcellos. Quem lh’o entregou? como chegára até ali?

Uma criada lembrou-se de ter visto pela manhã, quando ia soltar as aves, um pequeno papel entalado debaixo da vidraça na janella d’aquelle quarto. Pensou que a menina o deixaria ali por qualquer motivo ou que ali teria ficado casualmente, quando o deitasse fóra. N’uma palavra, não ligou importancia ao facto.

Francisco Marques chegou a suspeitar da cumplicidade d’essa criada ou de qualquer outro serviçal. Mas, proseguindo em averiguações, descobriram-se as pégadas de alguem que tinha de noite saltado o muro para ir collocar o papel na janella.

A honra dos criados estava salva, e era facil atinar com a origem do maldito bilhete. Viera de casa de Ignacio da Fonseca, o visinho que mais podia interessar-se n’uma vingança, que aliás representava a desgraça do sobrinho. Pouco lhe importaria isso: o prazer da vingança era indispensavel ao seu coração rancoroso. Se não bastasse esta circumstancia, que cabalmente explicava a proveniencia do papel, accresceria ainda a de serem os criados de Ignacio da Fonseca os que, por mais proximos visinhos do Outeiro, melhor conheciam os cantos á casa. Quem foi collocar o papel n’aquella janella, sabia perfeitamente que era ali o quarto de Anna de Vasconcellos.

Muito afflictas, as pessoas da casa trataram de soccorrer a pobre menina, que, convulsionada na oscillação rythmica dos braços, não fallava: os labios premiam-se um contra o outro violentamente.

Dir-se-hia que esse extranho grito, que estrugira como um silvo, fizera estalar todos os musculos da larynge, todas as cordas vocaes de D. Anna de Vasconcellos.

Pediram-lhe que se deitasse para descançar algum tempo. Ella tentou andar mas hesitou, n’uma dolorosa perplexidade. Instaram, supplicaram. Deu então alguns pequenos passos, curtos e incertos. Depois precipitou-se n’um impeto de propulsão, perdendo o equilibrio.

O Marques amparou-a a ponto, tomou-a amoravelmente nos braços, foi recostal-a no leito. Mas o tremor, o spasmo e a mudez continuavam ainda.

Partiu um criado para a Villa da Feira a chamar o doutor Correia Ribeiro.

Quando o medico chegou a Cezár, cahia a noite. Contaram-lhe o que se tinha passado. Correia Ribeiro, depois de ter observado attentamente D. Anna de Vasconcellos, disse que a causa da doença fôra a commoção moral. Diagnosticou de tremor nervoso. Tinha já visto outros casos na sua clinica. Mas notou certas differenças alarmantes. Expoz que em geral as pessoas atacadas eram maiores de quarenta annos; que a marcha da doença costumava ser lenta, progressiva, e terminar ou por complicação de uma affecção intercorrente ou, na velhice, por esgotamento nervoso; que os doentes fallavam ainda que com difficuldade, custando a pronunciação de cada palavra um esforço consideravel da vontade.

Ora, no caso presente, declarou ás pessoas da casa que não podia deixar de extranhar as circumstancias da idade juvenil da doente, da invasão brusca e intensa, e da aphonia completa.

Receitou um preparado de belladona, por ser um medicamento de reconhecida acção anti-convulsiva. E disse que voltaria no dia seguinte para acompanhar a marcha da doença, ainda na esperança de que D. Anna recuperasse a voz, por ser a aphonia, n’esta especie morbida, um caso novo na sua clinica.

Eis o que a experiencia lhe dictava; sabia principalmente o que os factos lhe haviam ensinado.

Se elle possuisse toda a sciencia do seu tempo, poderia ter justificado o diagnostico da paralysia agitante com uma brochura que sobre o assumpto dera á estampa, onze annos antes, o medico inglez Parkinson.

Os professores do protomedicato tinham-lhe ensinado o que Galeno dizia ácerca do tremor paralytico e do tremor clonico ou antes do tremor e da palpitação; mais nada. Mas a experiencia guiara-o a conhecer praticamente os caracteres fundamentaes da doença, a sua marcha normal, e etiologia.

Anna de Vasconcellos não readquirira a voz. Estava completamente privada de communicar, fallando, os seus pensamentos, em virtude da aphonia; e escrevendo, em virtude da convulsão e deformidade da mão direita.

A sua vida era pois uma tortura horrorosa. Pensava, recordava, vivia o bastante para atormentar-se pela memoria; mas não podia sahir de si mesma para desabafar a sua dôr.

A aphonia hysterica, como diria um medico do nosso tempo, privava-a de communicar pela palavra com o mundo exterior, se bem que D. Anna, no segredo do seu espirito, talvez agradecesse a Deus o ter perdido o uzo da palavra escripta ou fallada, que só poderia servir-lhe para insistir nas recordações cruciantes do passado.

Chegou a inesperada noticia á cadeia da Villa da Feira, e frei Simão disse á irmã mais velha:

—Vae tu para o Outeiro. Eu vou indo melhor. Melhorei o que podia melhorar. O resto não tem cura. A nossa infeliz Anninhas precisa mais de ti do que eu. Logo que me deixem sahir d’aqui ou que eu possa sahir, irei vêl-a. Cumpra-se a vontade de Deus; acceitemos resignados a desgraça com que experimenta a nossa fé.

Padre Antonio Pinheiro, se tivesse ouvido estas palavras, não as extranharia.

O virtuoso sacerdote, conversando com Ignacio da Fonseca, que bramia maldições contra a familia do Outeiro, especialmente contra o frade, disse-lhe serenamente:

—Julgo frei Simão um crente, a quem as paixões humanas teem allucinado, mas cuja consciencia não conserva odios nem rancores.

—Ora essa! sr. padre Antonio! observou, indignado, Ignacio da Fonseca. Não sabe que os pedreiros-livres não crêem em Deus, e que são capazes de mentir a Nosso Senhor por isso mesmo que não o temem?!

—Sei. Mas Deus é misericordioso, e ouve os que lhe imploram a conversão das almas transviadas. Frei Simão seria favorecido pela misericordia divina. Não affirmarei que seja um bom catholico o frade que voluntariamente despiu o habito, mas cuido não errar dizendo que descubro n’elle a consciencia tranquilla de um bom christão.

—Fraca consciencia a que não tem remorsos dos seu crimes!

—Conheço de ha muito tempo os erros de frei Simão, mas desconheço os seus crimes.

—Pois não foi elle que perdeu meu sobrinho? Não foi aquella maldita casa do Outeiro que o perverteu?!

—Quem perdeu e perverteu seu sobrinho foram as idéas d’este seculo corrupto e impio; foi a corrente das paixões desenfreadas e loucas. Vossa Mercê, sr. Ignacio, falla da sua paixão, e eu comprehendo-o, e lastimo os seus desgostos. Tambem frei Simão se deixou tocar por essa desgraçada corrente, que lhe allucinou a cabeça, mas que não conseguiu, creio eu, minar-lhe ainda o coração.

Ignacio da Fonseca não podia duvidar das crenças politicas de padre Antonio, mas ficou pensando que o espectaculo dos grandes crimes, que a liberdade tinha commettido em França, Hespanha e Portugal, lhe haveria escurentado a razão.

Padre Antonio vivia muito concentrado, resando prostrado no oratorio, e teria enlouquecido de terror na meditativa solidão do presbyterio. O facto de ter sido chamado para confessar frei Simão de tal modo abalaria a sua debilitada intelligencia, pensava o tio de José Maximo, que não conservava uma limpida recordação d’esse facto. Não ouvira o frade, não soubera explorar-lhe a consciencia, estivera junto d’elle sob a commoção do terror.

Ora a verdade era que padre Antonio fôra á casa do Outeiro muito constrangido pela supposta aproximação de um impio. A pallidez que levava nas faces o denunciava. Mas a impressão com que voltára era de grata surpresa, por haver encontrado uma consciencia honesta, até meticulosa, a par de um cerebro ardente, exaltado pelas paixões politicas da epocha. Frei Simão podia ser um desvairado, e era-o, mas tinha horror ao crime e ao sangue. Padre Antonio voltára do Outeiro com esta agradavel convicção.

Quando D. Maria Albina chegou a casa, o estado de Anninhas não tinha soffrido alteração.

O doutor Corrêa Ribeiro, reconhecida a inefficacia das applicações da belladona e do opio, limitava-se a evitar que sobreviesse o marasmo pelo confinamento no leito. Procedia de accôrdo com o parecer unanime de outros collegas, de muitas leguas ao redor, que tinham ido observar, por curiosidade, esse extranho caso de aphonia na paralysia convulsa.

Obrigava a doente a levantar-se todos os dias.

Vestida, não sem difficuldade, pelas irmãs, Anninhas erguia-se a custo, lentamente; hesitava durante alguns segundos, até que se resolvia a dar alguns passos, timidos a principio, rapidos depois, com o corpo muito inclinado para deante, como se fosse a cahir.

Francisco Marques amparava-a na propulsão, receioso de a vêr perder o equilibrio; era a sua muleta.

Um dia, Anninhas, depois de ter hesitado ainda por mais tempo que de costume, avançou, n’essas carreiras vertiginosas que a irmanavam a uma creança quando ensaia as primeiras passadas, na direcção do corredor, que conduzia ao pomar.

Francisco Marques não quiz contrarial-a; acompanhou-a amparando-a.

Como se subitamente se houvesse fatigada, Anninhas sentou-se no banco onde tinha estado com José Maximo no dia em que elle consultara a folha de trêvo. Mudava de posição a cada momento, voltando o tronco para o lado direito e para o lado esquerdo, com a cabeça erecta, o pescoço rigido. Com o olhar muito fixo, encarava nas arvores e no banco, onde parecia notar um logar devoluto junto a si. O Marques e as outras pessoas da casa, muito sobresaltadas, queriam tiral-a d’aquelle banco, comprehendiam o que se estava passando no seu espirito, mas não ouzavam compellil-a a levantar-se.

Como porém o tremor dos braços augmentasse quando Anninhas rastejou os olhos pelas folhas verdes do trêvo, Francisco Marques soergueu-a delicadamente, e com affavel pressão a foi obrigando a entrar em casa.

Mas reparou em que a propulsão era então menos violenta, e em que, pelo contrario, havia tendencia para a retropulsão, como tibia manifestação talvez do desejo que a doente provavelmente sentia de permanecer no pomar.

Não era difficil adivinhar todo o pensamento de D. Anna de Vasconcellos: o trêvo, consultado no dia em que José Maximo e ella estiveram ali sentados no banco de cortiça, fallára verdade,—uma horrivel e irremediavel verdade.

Se a pobre senhora tivesse lido algum dia as elegias de Camões, lá haveria encontrado este verso presago:

O trevo, que é sentido apartamento.

XXI
O napoleão de ouro