LVIII
Se é possivel, está feito; se é impossivel se fará

Impotente, gottoso, e já velho leão
Queria achasse algum remedio á velhice.
O impossivel aos reis allegar é illusão.

Eis uma verdade que Colonne, quartel mestre geral das finanças, sob Luiz XVI, era demasiado fino e cortezão para ignorar. Leviano, espirituoso, incapaz d'um plano fortemente concebido e pacientemente executado, elle devia deixar as finanças do reino n'um estado ainda mais deploravel do que as tinha encontrado ao entrar para o ministerio. As suas operações aventureiras só deviam augmentar o mal geral e o numero dos descontentes. N'essa côrte tão prodigiosamente descuidada na vespera d'uma catastrophe e em que só Luiz XVI tinha o sentimento dos seus deveres, sem ser dotado da energia necessaria para bem os cumprir, o luxo e a prodigalidade eram tão insaciaveis como se os cofres do estado estivessem pejados. Para crear elogiadores entre os homens de lettras, o ministro concedeu pensões a um grande numero d'elles.

Maria Antonietta era a primeira a dar o exemplo do luxo e não punha qualquer freio ao seu prazer pelo gasto. Um dia que ella precisava d'uma somma consideravel dirigiu-se a Colonne, cuja facil condescendencia ella conhecia. Antes de lhe expor o pedido, ella disse-lhe n'esse tom de mulher e rainha que não quer recusa:

—«O que tenho a pedir-lhe é difficil talvez, Colonne!»

O espirituoso ministro respondeu, inclinando-se graciosamente:

—«Se é possivel, está feito; se é impossivel, far-se-ha!»

Não era possivel commentar mais finamente o verso de La-Fontaine.

Nas guerras da republica, a possibilidade do impossivel foi expressa d'uma maneira mais nobre por um general francez, no ardor d'um combate encarniçado. Um official que elle acabava de encarregar d'uma operação perigosa, respondeu-lhe que era impossivel.

—«Impossivel, senhor?—respondeu o general—Olhe que essa palavra não é franceza!»