Rabelais, o mais philosopho dos bufões, e o mais bufão dos philosophos, nasceu perto de Chinon, em Touraine, por 1483. Os seus biographos são pobres em factos authenticos, mas em compensação abundam em anecdotas romanescas, de onde resalta esse typo de cara alegre e tolerante, amigo de Baccho e da dança, o que só se ama por excepção. O genero muito particular do seu genio foi perfeitamente pintado por La Bruyére:—«Onde Rabelais é mau passa muito além de peior; é o encanto da canalha; aonde é bom, elle vae até ao extremo de excellente, e póde ser um prato dos mais delicados.» De resto, este sentimento do moralista parece ter sido dictado pelo proprio Rabelais que recommendava aos seus leitores «que abrissem a caixa para tirarem a droga, e quebrassem os ossos para chucharem a medula.» Mas o que domina na sua vida e nos seus escriptos é um septicismo zombador que ataca todas as crenças, todas as instituições, todos os sentimentos, e que estala, sobretudo, nos ultimos momentos da sua vida.
Entre as numerosas versões que foram reproduzidas ácerca da sua morte, encontra-se esta. O cardeal de Châtillon, seu amigo, tendo enviado um pagem a informar-se da sua saude, elle respondeu-lhe:
—«Dize a Monsenhor em que bello humor me encontras. Eu vou buscar um grande talvez. Está no ninho da pega. Dize-lhe que se deixe estar. E tu não passas d'um tolo.»—Depois exhalou o ultimo suspiro n'uma grande gargalhada acompanhada d'estas palavras:
—«Desça o panno; acabou a comedia!»