O grande Frederico, rei da Prussia, desejava
ampliar o seu parque de Sans-Souci, mas
«Na encosta que escolhera o principe por si,
Tinha o moinho um tal moleiro Sans-Souci;
Vendedor de farinha, havia por costume
Ganhar, a dia a dia, o pão sem azedume.
E seja, emfim, qual fôr o lado d'onde vente
A vela gira sempre, e elle dorme contente.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Um projecto traçou um habil engenheiro,
Que abrangia o moinho e o seu recinto inteiro.
Mas ás vistas forçoso era renunciar,
Ou cortar á extensão e o parque mascarar.
Das construcções reaes, o intendente geral
Fez chamar o moleiro e disse-lhe afinal:
—«Quer-se o moinho teu; vê lá que valor tem.»—
—«Não tem valor nenhum, que o não vendo a ninguem!
«Quer-se o moinho, é boa! elle é meu e direi
«Que, ao menos, tanto como a Prussia é só do rei»—
—«Vamos, dize afinal—responde e tem cuidado!»—
—«N'uma palavra?—
—«Sim.—
—«É meu, está declarado,
«Já disse, nada mais!»—
A recusa atrevida
Ao principe se conta e é coisa decidida.
Manda vir á presença o insolito moleiro,
Promette inutilmente, aperta, é lisongeiro,
Mas teima Sans-Souci—«Ouvi, Sire, a razão
Porque vender não posso o moinho em questão.
Meu avô lá morreu; lá tive um filho ha um mez,
É o meu Postdam, Senhor. Sou teimoso, talvez;
Nunca o fostes jámais? Nem mil ducados, não,
No fim d'esse discurso a mim me tentarão!
Passae sem elle, Sire, e ninguem mais insista!»
Soffrem difficilmente os reis quem lhes resista,
E Frederico acode, o humor arrebatado:
—«Irra! que estás ao teu moinho bem pegado!
Ora atéqui tratei d'obtel-o e de pagal-o,
Mas sabes que, sem paga, eu posso exproprial-o!
O dono eu sou!»—
—«Levar sem paga o moinho, a mim?
Talvez, se não houvesse os juizes em Berlim!»—
Do capricho o monarcha, ouvindo-o, em si cahia,
Contente, porque o reino inda em justiça cria;
E volvendo-se a rir para o seu architecto:
—«Eu acho que é melhor mudarmos de projecto.
Visinho guarda a casa, has respondido bem.»—
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
—Estas palavras—ha juizes em Berlim—que
o poeta francez Andrieux não fez senão citar
na encantadora narrativa que vimos de traduzir
incompletamente, porque são historicas,
formaram uma locução proverbial que se emprega
em todas as circumstancias analogas, isto
é, quando a força pretende vencer o direito.
Cabe aqui, a proposito do moinho de Sans-Souci
um pequeno caso que não deixa de ser interessante.
O famoso moinho é ainda hoje propriedade
do bisneto do obstinado moleiro. Mas n'essa familia
os homens seguem-se e não se parecem.
Assim, o descendente de Sans-Souci, necessitado
de dinheiro fez saber ao descendente de
Frederico II, que estava disposto a ceder-lhe o
moinho. O principe respondeu-lhe com esta espirituosa
carta:
«Meu caro visinho.
«O moinho não lhe pertence, nem a mim,
pertence á historia; é-nos pois, impossivel, a si,
vendel-o, a mim, compral-o. Mas como entre visinhos
e visinhos bons deve haver auxilio, mando-lhe
um cheque de 10:000 florins, que póde
receber do thesouro.»