LXXVI
Judas—Beijo de Judas

Dois dias antes da Paschoa, Jesus disse aos seus discipulos:—«Chegou o dia em que o Filho do Homem vae ser entregue para ser crucificado.» E ao mesmo tempo os principes dos padres e os mais velhos do povo, reunidos em casa de Caiphaz, concertavam-se sobre os meios de se apoderarem de Jesus e o fazerem morrer. Mas receiavam excitar qualquer agitação popular.

Foi então que Judas, um dos apostolos, se chegou e combinou entregar o seu mestre, mediante trinta dinheiros. De tarde Jesus poz-se á meza com os seus discipulos e annunciou-lhes que um d'elles o trahiria.—«Serei eu, Senhor?»—lhe perguntou Judas, e depois da resposta do Salvador, deixou a meza e foi-se, excitado pelo mau espirito. Em seguida Jesus sahiu da cidade, seguido dos seus discipulos, e dirigiu-se ao monte das Oliveiras, a um logar chamado Gethsemani. Logo appareceu Judas acompanhado d'um grupo de soldados aos quaes tinha dito: «Prendam aquelle que eu beijar, é elle que procuram.» E approximando-se de Jesus, beijou-o e disse-lhe:—«Mestre, eu te saudo.» Jesus censurou-lhe o seu crime com doçura:—«Judas, entregas o Filho do Homem com um beijo!» E avançou para os soldados que se lançaram a elle e o ligaram.

—O nome de Judas ficou como a personificação do traidor, do homem profundamente hypocrita, e o beijo de Judas, como para designar o acto pelo qual se pratica a traição. Assim chamar Judas a alguem é dirigir-lhe a mais pungente das injurias. E comprehende-se que uma tal comparação seja repellida com indignação.